segunda-feira, janeiro 08, 2018

a coisa púbica

Por exemplo:
o comportamento mafioso dos partidos políticos, tratando do seu financiamento e fazendo dos portugueses estúpidos; máxime a falta de vergonha do CDS, partido com cadastro nesta matéria, como bem lembrou Luís Fazenda (uma estreia neste blogue);
a situação dos CTT, negociata feita nas barbas dos cidadãos (e talvez nos barbos das cidadãs), com avisos generalizados, não apenas para as implicações no serviço postal, que estão à vista, mas também o desfechar de mais uma machadada na coesão nacional;
cereja no topo do bolo: a indigência do debate no PSD, sem surpresa, porém, para quem lhe acompanhou o historial: a dissidência que esteve na origem da ASDI, com a saída dos grandes quadros políticos do partido, a morte de Sá Carneiro e as contingências do Poder transformaram-no naquilo que politicamente tem sido -- nada. O debate exibiu ao país esse nada;
...e o Hospital de Faro e a Escola Superior de Dança e muita e tanta coisa que anda por aí mais ou menos escondida. Escrever sobre esta coisa púbica é-me um bolsar que me estraga o interesse dos dias.

(e, já agora):  o preocupante comportamento persecutório de um organismo governamental que dá pelo nome de CIG, a propósito dum artigo de José António Saraiva (outra estreia; isto anda a perder qualidades...): comportamento censório e fascizante. Dizer que o artigo do Saraiva «é susceptível de favorecer a prática de atos de violência homofóbica e transfóbica» é duma ordinária vigarice intelectual que não pode passar em claro. Era o que faltava, ó CIG. Espero que o DIAP faça não apenas o que lhe compete, arquivando a queixa, como admoeste severamente estas criaturas, que lhe andam a fazer perder tempo.


9 comentários:

Jaime Santos disse...

Eu gostava de perceber uma coisa. Por que é que chama vigarice intelectual à posição do CIG? Porque considera que a ciência de colar por cuspe que JAS se lembra de citar merece alguma consideração (não merece), ou só porque acha que um ponto de vista como este tem direito de cidade, a bem da liberdade de expressão?

O direito à estupidez é consagrado pela CRP. Nesse sentido, fazemos bem em deixar que JAS se dedique a debitar considerações deste jaez.

Lembro-lhe que uma posição, só porque pode parecer politicamente correta, não tem que estar errada, pelo que não vale a pena pegar logo na pistola...

Ricardo António Alves disse...

Dizer que o texto do Saraiva «é susceptível de favorecer a prática de actos de violência homofóbica e transfóbica» é imbecil. Apresentar queixa ao DIAP é uma tentativa fascizante e ordinária de coagir o articulista. Você acha que a CIG eventualmente procedeu acertadamente; eu acho que se deve puxar logo da pistola, correndo o risco de passar por um pequeno goebbles. Mas, nesse caso, devo notar que o mau gosto da comparação não é da minha responsabilidade.

Jaime Santos disse...

Por acaso, a frase não é de Goebbels, coisa que eu já sabia, ou não a teria usado. Mas dada a filiação nazi do seu autor, Hahns Johst (coisa que não sabia), admito que a escolha é de mau gosto, porque não pretendia com o que disse compará-lo a si com ele...

O texto de Saraiva é profundamente insultuoso, para além de mostrar que, mais uma vez, este pretenso jornalista não percebe nada de coisa nenhuma. Se as pessoas têm preconceitos, pelo menos que os assumam com coragem, sem virem invocar supostos factos científicos ou comparações imbecis como essa da galinha...

Como eu defendo o direito à estupidez, ignorância e até à ofensa, acho que Saraiva tem o direito de dizer o que diz. Mas caberá ao DIAP decidir se ele abusou ou não da liberdade de expressão. Duvido muito que faça considerações sobre a posição do CIG, coisa que não seria muito profissional. Uma queixa ou é procedente ou não o é.

Agora responda-me a uma pergunta: diria exatamente o que diz se Saraiva tivesse chamado 'despojo humano' a um membro de uma comunidade étnica ou religiosa minoritária? É que eu, conhecendo a História, tenho que confessar que não sei se manteria aquilo que digo acima...

Ricardo António Alves disse...

Obrigado pela correcção. Também achei que não quis, mas não podia passar ao lado.

Eu acho que ao Saraiva não falta à-vontade para evidenciar os seus preconceitos. (e não lhe chame pretenso jornalista, pois foi o director do mais importante jornal do país, o Expresso, com mais tempo no lugar e com maior êxito). Claro que a comparação da galinha é grotesca, mas para o ponto de vista do Saraiva toda a questão o é. E, a partir deste entendimento que faço do ponto de vista dele, a pergunta que você me faz não tem sentido, pois tanto quanto me lembro (se estiver errado, vou reler o texto), Saraiva lamenta a situação em que as pessoas se colocam (podendo nós achar que ele tem ou não razão). Ou seja, não há, da sua parte, esse acinte que revelaria se chamasse despojo humano a um judeu ou a um cigano, não sei se fui claro.

Mas até lhe posso dar a minha opinião, que obviamente não é tecnicamente informada: acho perfeitamente compreensível, justificada e até imperiosa a mudança de sexo quando há um desfasamento entre o sexo e o género. Outra coisa -- e aí até sou mais áspero que o Saraiva -- é um gajo com pila e mamas ou uma fulana com pássara e barba rija. Está no seu direito em ser um coiso; para mim é uma aberração, algo que me provoca repugnância.

Deixo para o fim o mais importante: é inadmissível, intolerável, e deve ser denunciado com toda a veemência, a atitude persecutória da CIG, um organismo do Governo. A criatura que preside à coisa teria de ser demitida (o que não acontecerá, porque nestas coisas o Costa é um banana). Mais grave ainda seria o DIAP ousar pronunciar-se sobre o assunto: a única coisa que deve dizer é declarar-se incompetente para apreciar 'delitos de opinião'. Se outra coisa acontecer, entramos já num patamar que exigirá outro tipo de reacção. Como digo no post, era o que faltava...

Jaime Santos disse...

Não, não falta à-vontade para mostrar os seus preconceitos, não os devia era enrolar numa exposição de um conjuntos de factos supostamente científicos, sobre os quais não percebe absolutamente nada.

Quanto ao lamento de Saraiva, acho que é absolutamente irrelevante, uma das atitudes características do racismo (ou de uma das formas dele) é justamente o ter 'peninha' das pessoas por terem nascido como nasceram, ou por se terem tornado no que são (se falarmos de conversão a uma confissão religiosa minoritária, por exemplo). Isto para depois lhes chamar 'despojos humanos' ou 'monstros híbridos'.

Pelo menos o meu caro não disfarça a sua repulsa nem a embrulha em argumentos, honra lhe seja feita. E não salte já (para não usar a metáfora da pistola), porque não estou a acusá-lo a si ou a Saraiva de racismo. Estou meramente a repetir o que disse acima. Não sei se defenderia o direito de Saraiva à estupidez se ele dissesse o mesmo de um negro, judeu ou cigano...

Chamo-lhe pretenso jornalista porque há muito deixou de o ser, se é que alguma vez o foi. Recordo-lhe o que aconteceu no Expresso com o João Carreira Bom e o artigo satírico sobre Pinto Balsemão e a SIC, em que este jornalista foi irradiado porque se atreveu a dizer mal do chefe (a caricatura era em tons fortes, mas foi-o sempre semana após semana e até àquele momento ninguém se preocupou com isso). E recordo-lhe também o episódio bem mais recente do livro que publicou sobre a vida privada de políticos portugueses, e que o tontinho do Passos Coelho se aprestou a ir apresentar sem aparentemente ter lido o que lá estava (retratou-se depois e não foi).

Nada disto justifica obviamente que seja censurado, se de censura se trata, porque o direito à liberdade de expressão é independente do mérito de quem usa da palavra (os disparates não são um exclusivo dos ignorantes ou dos tratantes, mas se calhar são mais frequentes nesse grupo de pessoas, logo é particularmente importante que o direito a dizê-los seja defendido sobretudo para esse grupo). Agora, como o crime de abuso de liberdade de expressão existe, digo o mesmo que disse, caberá ao DIAP pronunciar-se sobre o assunto. E se Saraiva for constituído arguido, pode defender-se e recorrer até Estrasburgo... Felizmente, em Portugal não existem as 'libel laws' do Reino Unido... Suspeito, olhando para a interpretação lata da liberdade de expressão (Sócrates nunca conseguiu que nenhum articulista fosse levado a tribunal, por exemplo) que caracteriza o pensamento dos nossos procuradores, que a queixa se revelará improcedente.

E também não acho nada que Costa deva agora interferir na liberdade de ação do CIG. Pode discordar-se da opinião desse organismo ou até achar que quem a ele preside é um imbecil, mas seria grave querer cortar uma cabeça por causa deste episódio. Os 'checks and balances' das nossas instituições são mais que suficientes para acautelar abusos...

Ricardo António Alves disse...

O não perceber nada de coisa nenhuma é atributo do jornalista. Há excepções, claro.
Pode ser irrelevante para si, mas na minha opinião não deve deixar de ser tido em conta para apreciar o que ele diz, por isso mantenho o que escrevi. Você diz que o preconceito é uma forma de racismo. Não creio que seja. Poderá configurar uma forma de descriminação, que não me parece aceitável ser ostensiva, mas que por vezes é inevitável, tal a diversidade do grande e vasto mundo.

Um director de jornal é sempre um jornalista. Já bem tenho ideia do episódio do Carreira Bom, lembro-me que foi uma coisa feia, mas tirando o próprio e o Balsemão não me lembro dos outros protagonistas. Mas se foi o Saraiva a saneá-lo, isso não altera em nada a sua condição profissional. Quanto ao livro, que não li nem torno a ler, está em linha, como agora se diz, com o espírito do tempo. O que caracteriza o jornalismo é ser mau; o bom jornalismo foi sempre uma excepção.

Você quer criminalizar a opinião do Saraiva. Não vejo como isso possa ser aceitável ou sequer defensável sem querer instituir consagrar a censura e a repressão. É a mesma coisa que seu eu disser: "a IURD é uma seita de vigaristas", ou "o PSD é um atraso de vida", ou "em geral, as tias de Cascais são tontas", e vir um seguidor de Chelas, um militante de Folgosinho ou uma dondoca da Casa da Guia (por cá conhecido pelo Tiódromo) virem exigir o meu enforcamento. O Ministério Público ocupar-se com uma coluna de opinião? Só pode ser delírio, meu caro.

O Costa devia, porque com a liberdade não se brinca. E se o cerceamento dela vem do Poder, aí estamos pior.

Jaime Santos disse...

Eu não quero criminalizar nada. Só não chamo automaticamente imbecil ou PIDE a quem considera que outrem violou a liberdade de expressão, que tem limites impostos por outras liberdades, e apresenta por isso uma queixa. E não compro nada a teoria de que apresentar a dita queixa é uma coação sobre um jornalista ou pseudo-jornalista. Quem não deve não teme, é aliás por isso que eu assino tudo o que escrevo e me coíbo de usar palavrões ou insultos (além de tudo, embotam o raciocínio). Depois, cá estarão os tribunais para avalizar da procedência ou não da dita queixa.

Jaime Santos disse...

Outra coisa, não disse que o preconceito é uma forma de racismo. Digo, justamente, que ele leva, tal como o racismo (o racismo é que é uma forma particular de preconceito), à descriminação, que é a pior das suas consequências.

Recentemente, tive uma altercação com uma pessoa que segue o meu blogue e de quem já lhe falei e que teve frequentemente propósitos anti-Semitas. Defendeu-se alegando que não é racista porque nada tem contra os judeus como grupo étnico (classificá-los como tal nem sequer é muito exato), mas sim contra a religião judaica que acusa de estar por detrás do nascimento do capitalismo e do ataque ao Cristianismo que dura nos dias de hoje.

Francamente, qual a diferença entre tal pessoa e um Nazi, se as atitudes são os mesmas e as consequências serão igualmente as mesmas, ou seja descriminação de um grupo religioso? Quero lá saber da racionalização particular que está por trás do anti-Semitismo dele...

Creio que no caso das pessoas transgénero a situação é semelhante. A vida já é difícil que chegue para pessoas como nós, imagine para quem não se sente bem no seu próprio corpo, que é a nossa casa e a paisagem onde se desenrola a nossa vida interior (uma bela expressão de António Damásio).

Não precisam por isso ainda por cima de uma brigada de costumes, sobretudo se armada de argumentos pseudo-científicos...

Ricardo António Alves disse...

Ninguém ficou atingido na sua liberdade pelo texto do Saraiva; mas a liberdade do Saraiva é atingida pela coacção do departamento governamental. A diferença está toda aí. E quanto à brigada de costumes, pelo que temos visto...