quinta-feira, abril 27, 2017

estante: A VOZ DOS DEUSES (1984)

Não tenho especial apetência pelo chamado romance histórico nem por qualquer outro género: sou leitor de romances tout court, o que não significa que grandes obras de ficção não se realizassem sob essa designação. Talvez quanto mais falsamente 'histórico', melhor o romance. Memórias de Adriano (1951), de Marguerite Yourcenar, por exemplo. Ou então, se saído da pena de um Alexandre Herculano, que escrevia em romance o que nas obras historiográficas não podia, à falta de suporte documental e material.

Vem isto a propósito de um saboroso romancinho que li quando se publicou (reparo agora que tenho a primeira edição): A Voz dos Deuses (1984), de João Aguiar. Coincidentemente, ou não, andava por essa altura mergulhado na parte lusitano-romana das Religiões da Lusitânia (1897-1913), do Leite de Vasconcelos, e a impressão que me ficou foi a de que João Aguiar (1943-2010) conseguiu realizar uma ficção meritória com o rigor exigível. Viriato foi uma fascinante figura fantasmática e primacial de antes-de-Portugal, chefe guerreiro dos irredutíveis lusitanos que defrontaram Roma -- a superpotência da Antiguidade. E fê-lo com um sentido táctico extraordinário. Não seria, na história da humanidade, o último pequeno povo a defrontar e provocar danos terríveis a um império dotado de uma máquina de guerra colossal.

O narrador é «um companheiro de armas de Viriato», Tongio, filho de um sacerdote e guardião do templo de Endovélico, divindade lusitana, personagem que dá testemunho de um mundo que finda, de devastação e bruma, circunstância que Aguiar apresenta muito bem no incipit do romance, o primeiro período do «Prólogo»: «Arcóbriga e Meríbriga são cidades mortas desde que os habitantes foram obrigados a descer para o vale.» (p. 11) Notas tomadas em «tabuinhas de cera», posteriormente transcritas: «Além, naquele cofre reforçado com chapas de ferro, guardo o meu tesouro mais precioso, alguns rolos de papiro (o melhor papiro do Egipto) onde copiarei de forma definitiva os texto ensaiados na cera.» (p. 12)

Não é o génio de Yourcenar nem o bronze de Herculano, mas não envergonha.

2 comentários:

Paula Lima disse...

Li o livro e gostei bastante, bem como a BD que dele foi feita. A minha primeira aproximação à história do Viriato foi no Cavaleiro Andante em miúda e fiquei entusiasmada!

Ricardo António Alves disse...

É uma figura fascinante, chegada até nós pelas fontes clássicas.