segunda-feira, janeiro 16, 2017

o que vai na cabeça de Trump

Não faço a mínima ideia. E ele, se calhar, também não. Impante do pragmatismo solerte que lhe deu a invejável aura cor-de-laranja do homem de sucesso tão do agrado dos basbaques das business schools cá da parvónia, em relação à União Europeia, continua na senda da campanha eleitoral.
A UE, ainda hoje desconsiderada em entrevista ao Times, é um concorrente agonizante que ousou engendrar uma moeda que concorre com o dólar. Não precisa do Trump para dar cabo de si própria, porque vai no bom caminho.
A NATO é um caso mais interessante. Parece que o eleito disse tratar-se de uma organização obsoleta, no que concorda com a aproximação à Rússia. Se se trata de bluff de casino para obrigar os europeus a alargar os cordões à bolsa, está bem visto. Veja-se a neofascistóide da primeira-ministra polaca, de braços abertos às tropas americanas deslocadas para a fronteira leste, mandadas por Obama, e que no fim-de-semana serão chamadas de volta às bases... Mas pode ser outra coisa: pode ser que Trump esteja genuinamente convencido, como parece estar, de que vivemos um período de guerra de civilizações, e que os russos, cristãos ortodoxos -- e de que maneira! --, são aliados naturais contra a barbárie islamita e, talvez na sua cabeça, contra o perigo amarelo. Neste caso, porém , já não me parece que os russos estejam assim tão interessados...
As próximas semanas vão ser interessantíssimas. Mas eu não acredito, por enquanto, que ele se atreva a acabar com a NATO, (ainda) não tem força para isso, se é o que quer fazer, o que também não me parece líquido.Aí sim, já veria alguns motivos de preocupação para os estados bálticos, e não só. 

4 comentários:

Jaime Santos disse...

Não precisa de formalmente acabar com a NATO, basta retirar-lhe meios e ir corroendo a organização através da sua verborreia. Trump é um isolacionista que considera que os EUA não têm nada que se ocupar com a segurança dos outros (mas nós temos que nos ocupar com as consequências das guerras deles, a começar pela do Iraque, como disse Sigmar Gabriel). Quanto à UE, pode tornar-se outra coisa, duvido que acabe, por uma razão simples, 'baby, it's cold outside', perante Trump e a sua nova sidekick May, que quer transformar o RU num paraíso fiscal, aos restantes Estados Europeus não lhes resta muito mais do que se agasalharem junto de Santa Merkel... Quanto à sua referência às próximas semanas, veio-me à memória aquele aforismo falsamente chinês, do 'que vivas em tempos interessantes'. Que saudades dos chatos anos 90... Ah, e a propósito de chineses, adivinhe quem se prepara para retirar a palma aos EUA (https://www.theguardian.com/business/2017/jan/17/china-xi-jinping-china-free-trade-trump-globalisation-wef-davos).

Ricardo António Alves disse...

Não acredito que a UE possa prosseguir como está. Criaram-se demasiadas fracturas. E se a Le Pen ganhar, acabou-se. Talvez a UE seja reformável, mas não vejo ânimo. Parece que está tudo a fazer figas para que nada de pior aconteça (Le Pen, Wilders...). Não chega.
Os anos 90 deram-nas a guerra na Iugoslávia, que não foi nada bonito de se assistir. Nela, os americanos foram os menos culpados, e os russos nada tiveram que ver com ela. Aí, foram os alemães,os austríacos, a Santa Sé, e, já agora, os próprios.
O Xi Jimping é um grande cágado. Chega para o Trump, acho, ou espero.

Jaime Santos disse...

Sim, e os anos 80 os diversos conflitos na Nicarágua, e no Afeganistão, e a Guerra Irão-Iraque e a tensão acrescida EUA-URSS, e a década passada o 11 de Setembro e as guerras no Afeganistão e no Iraque. Mas a guerra da Jugoslávia, por muito sangrenta que tenha sido, era um conflito local, um aftermath do fim do comunismo. O que se passa agora pode redundar em guerras globais... E não se a Le Pen ganhar não se acaba nada, porque a França não tem condições económicas para sair do Euro (como nós também não temos, mas sairemos se empurrados). Se os franceses ainda tivessem o Franco, outro galo cantaria. A moeda única é a cola que mantém a UE coesa, por irónico que isto pareça, porque contribuiu para chegarmos ao ponto presente...

Ricardo António Alves disse...

Para mim, a guerra da Iugoslávia demonstram as pulsões destrutivas que existem na Europa, e que nunca foram extintas, assim com a Frente Nacional representa uma corrente profunda francesa que esteve sempre a fumegar. Daí, eu não ser tão optimista nesse ponto. Se houver vitória da FN, esta vai convocar um referendo sobre a saída vs. permanência, porque também não acredito que tenha coragem (nem sei se constitucionalmente o pode fazer) de tomar essa decisão unilateralmente.