«"Teve uma infância estranha", disse Austin. "Em última análise, todas as infâncias o são", disse Mister DeLuxe. "Molero diz", disse Austin, "que a infância do rapaz foi particularmente estranha, condicionada por questões de ambiente que fizeram dele, simultaneamente, actor e espectador do seu próprio crescimento, lá dentro e um pouco solto, preso ao que o rodeava e desviado, como se um elástico o afastasse do corpo que transportava e, muitas vezes, o projectasse brutalmente contra a realidade desse mesmo corpo, e havia então esse cachoar violento do que era e a espuma do que poderia ser, a asa tenra batendo à chuva."» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)
«Sim, sem dúvida que nostalgia é também uma forma de vingança, e vingança uma forma de nostalgia; em ambos os casos procuramos o que não nos faria recuar; o que não nos faria destruir. Mas não deixa a paixão de ser a força e o exercício do seu sentido.» Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas (1972)
«Ao fim da tarde acabo o meu passeio pelos montes e desço até ao ribeiro. Ele vem pela encosta fronteira, devagar, travado pelas ovelhas que só se mexem depois da boca cheia. Vemo-nos a uma boa hora de caminho um do outro, dois pontos longínquos, e mesmo sem nunca o termos confessado, sabemos que esse momento é para ambos um conforto, a revivência da camaradagem que de crianças nos levava a procurarmo-nos.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
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1 comentário:
«Este Vasco Perez de Camões, ou Pires de Camões, de quem o poeta era bisneto, segundo os linhagistas de boa vontade que procuraram nobilitá-lo, ao tempo condição 'sine qua non' de ser gente, tem na "Crónica" de Fernão Lopes assento lavrado de troca-tintas pelo papel que representou no palco movediço das realezas peninsulares. Tendo abraçado a causa do Mestre, rompeu com ele para seguir a bandeira de Castela quando se lhe afigurou votada a melhor sorte, e àqueles que lhe censuravam a versatilidade saiu-se a dizer: '-- Valha-vos Deus, boa preitezia fazia comigo o Mestre! Mandei lá meu padre Gonçalo Tenreiro com alguns desembargos e não me tornou cousa nenhuma. Inda se me trouvera mil dobras emburilhadas num trapo, guardar-lhe-ia preitezia. Pois não me trouxe nada, não curo de lha guardar.'»
Aquilino Ribeiro, "Luís de Camões - Fabuloso*Verdadeiro". Ensaio (1950)
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