sábado, abril 08, 2023
sexta-feira, abril 07, 2023
o meu Amigo e poeta Manuel Matos Nunes em diálise com Drummond
a propósito do 11.º Colóquio de Pesquisas Luso-Brasileiras, em que irá participar, com blogue a seguir.
rei, estado, mar, língua e literatura -- ou o quê, quem e como se fez o povo português
É curioso verificar que o povo português é uma criação do país chamado Portugal. Ao contrário do que sucedeu com outros, que ajustaram etnia e território, os indivíduos que coabitaram no rectângulo, muito heterogéneo étnica e morfologicamente, entre o Atlântico e o Mediterrâneo (Orlando Ribeiro), que veio a chamar-se Portugal, cooperando e/ou guerreando-se eram, sucessiva ou simultaneamente, iberos, celtas, romanos, germânicos suevos e visigodos, berberes, árabes, judeus... Como escreve algures José Mattoso, portugueses designava, na Idade Média quando o reino se constituiu, os súbditos do rei de Portugal.
Não oferece dúvidas, porém, a efectiva e significante (embora actualmente nada pujante, também por inépcia dos múltiplos desgovernos) existência de um povo português, forjado ao longo dos séculos habitando maioritariamente no continente europeu num território cuja primeira parcela, até Coimbra, se tornou de facto independente desde há 900 anos, que se cumprirão daqui a um lustro, em 2028.
Este povo, que antes não existia, deve o facto de ser uma realidade não despicienda, apesar de tudo, no mundo global em que vivemos, a dois factores: a criação do estado e a codificação da língua portuguesa, não apenas como veículo, mas como arte. E a perenidade que parece ter alcançado, permitindo-lhe chegar ao milénio (espera-se, pois em História nada é imutável; e chegando lá, em que condições?...), assentou no(s) rei(s) e no exército que lhe assegurou a independência; a localização atlântica, cativando-o para um empreendimento a que não é errado caracterizar como gesta (termo usado como substantivo e não adjectivo), nas suas glórias e misérias, traduzindo-se na expansão extracontinental e na descoberta de territórios, povos e geografias insuspeitados, que tornando a tal perenidade de memória inapagável e irremovível enquanto a humanidade existir. São os séculos XV e XVI, de Henrique o Navegador e Gil Eanes, a Afonso de Albuquerque, "o Leão dos Mares" e Fernão Mendes Pinto.
Finalmente, a língua, vinda do latim e separando-se do galego pela conjuntura politica, património e identidade, que se espalhou; e através da língua, a literatura, em especial a poesia. Se nas restantes artes, não nos podemos equiparar aos grande países -- embora nomes respeitáveis não faltem, da pintura à música, na literatura só há um Camões e um só Fernando Pessoa; e em torno deles, um acervo gigantesco de literatura, dos trovadores medievais aos prosadores dos séculos XIX e XX.
O povo português, que antes de existir Portugal não existia ele próprio, é o resultado miscigenado de tudo isto.
quinta-feira, abril 06, 2023
terça-feira, abril 04, 2023
os indivíduos na História
Uma historiografia da qual os indivíduos estão ausentes, não me interessa para nada. Se a história apologética ou mitográfica das grandes figuras já foi ultrapassada há um século, não menos falha se mostrou a historiografia que varreu o indivíduo das estruturas. O menosprezo do papel do indivíduo da história de há muito que que se revelou insuficientíssimo para a tentativa de ler o passado. A fundação de Portugal nunca se perceberia sem a figura de Afonso Henriques, primus inter pares entre a nobreza de Entre Douro e Minho, tal como Luís XIV e Versalhes não são explicáveis sem a Fronda e os passos do jovem rei nela. Nem os Descobrimentos são entendíveis sem o ouro e a fé.
segunda-feira, abril 03, 2023
cheiro "a convés lavado de fresco"
«Passado Toulon, que ora cheira a pólvora, ora a convés lavado de fresco, e ostenta em cada passeio, em cada Café, mulheres que, de noite, serão sombras errantes na vizinhança do porto, atravessámos Hyères, de luminosa tranquilidade e fisionomia de comarca provinciana, onde a vida parece tão suave como as suas ruas adormecidas sob lençóis ao sol.» Ferreira de Castro, «Mónaco» (1935), Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)
domingo, abril 02, 2023
estórias dentro da História
Salamina, Lepanto, Trafalgar, nomes que ligamos imediatamente a batalhas navais decisivas na História. A maior de todas, pelos meio e homens envolvidos parece ter sido a Batalha da Jutlândia, durante a Grande Guerra, ocorrida no Mar do Norte. entre 31 de Maio e 1 de Junho de 1916, envolvendo as armadas britânica e alemã.
Esta BD de Jean-Yves Delitte (Bruxelas, 1863) não é propriamente a história desta batalha de proporções épicas e decisiva para as marinhas de ambos os impérios -- para isso, há uma contextualização completa e ilustrada em apêndice -- mas antes o relato particular de duas histórias humanas, postas em situação no antes e durante a batalha, tornando a narrativa mais próxima, pelo que representa de sacrifício, e não um relato para-historiográfico de factos e números. É o caso do comandante Thomas P. Bonham, que apenas regressado de uma missão se despede da mulher e da filha para o que seria um exercício de rotina; ou o jovem Erik (ou Eric, como insiste o pai em escrever) habitante do Mosela, território alemão desde a Guerra Franco-Prussiana, que tem o sonho de ser piloto de guerra, mas será recrutado para a marinha.
Pintor oficial da marinha belga, apaixonado pela história naval (atente-se na assinatura) Delitte é também um esplêndido quadrinista, cujos começos remontam ainda à extinta e histórica revista Tintin. Além do argumento seguro, o traço rugoso evoca os de Hermann (Bernard Prince, Comanche, etc.) ou Franz (Lester Cockney) .
Jean-Yves Delitte, Jutlândia
colecção "As Grandes Batalhas Navais"
edição: Gradiva, Lisboa, 2023
agradeço à Gradiva o envio do livro
sábado, abril 01, 2023
temos o Ventura que merecemos
Nem eu tenho grande disponibilidade mental para me debruçar sobre outra coisa que não seja a guerra na Ucrânia e o nosso papel, português e europeu, de serviçais inconscientes e cobardes dos interesses americanos, nem isto é um blogue de comentários de actualidade.
Fiquei, no entanto, como toda a gente estarrecido com o sacrifício de duas jovens mulheres Mariana (24) e Farana (49). Já nem ligo às costumeiras javardices do Ventura, com grande acolhimento entre as massas ignaras, mas também entre os herdeiros privilegiados dos fachos e salazaristas analfabetos, que, como quem muda de camisa, trocaram o civilizado CDS por um coio de trogloditas, o que revela bem a sua verdadeira natureza (Cascais, a minha terra, é um triste exemplo disso mesmo).
Os artigos de Tiago Franco no Página Um e de Telmo Correia no Novo, embora parciais, acertam nas respectivas mouches e complementam-se. O voto de pesar da Câmara de Lisboa é exemplar.
sexta-feira, março 31, 2023
quinta-feira, março 30, 2023
mais do que um "divulgador"
Era um dos grandes escritores vivos, no que há crónica diz respeito. Fernando Lopes-Graça foi outro caso semelhante, um dos grandes do século passado, embora o próprio Lopes-Graça só se assumisse como músico e compositor, propositadamente, pois não queria contribuir para menorizar aquela que era a sua razão de ser, a música.
José Duarte, que morreu hoje, além de um ouvido sobredotado e uma capacidade nata de comunicar -- e não é nada fácil falar de música sem cair no oco lugar-comum --, foi um extraordinário escritor, como eu muitas vezes lho disse e até escrevi. Ele gostava, claro, e dizia-me que também Fernando Assis Pacheco lhe elogiava a forma, e esta, acrescento, não é menos importante que o fundo. Vai-se o homem com as suas imperfeições, ficam (não só) os livros.
quarta-feira, março 29, 2023
quando um presidente norte-americano usa a palavra democracia, ou os mortos não (se) contam
País de plutocratas, assente sobre o genocídio dos indígenas, racismo estrutural e imperialismo predatório (um pleonasmo), em que uma inegável liberdade de expressão, de credo e iniciativa individual não esconde uma colossal massa amorfa de subcidadãos largados à sua sorte e consumidores escravizados, pasto fértil dos mercados, desde logo o negócios das armas, tão importante dentro de fronteiras como fora delas. Os mortos não (se) contam.
Banda sonora: Khail El'Zabar, em tempos Clifton Blackburn...
Se é para sancionar os 13 marinheiros do NRP Mondego, toda a cadeia hierárquica deverá sofrer sanção proporcional, ou seja, mais grave
Não tenho opinião formada sobre o modo como deve ser tratado o caso da desobediência (chamar-lhe "insurreição" é sensacionalismo barato e pulha); o que me parece evidente, claro, indiscutível, após o que se passou ontem, é que o chaço comprado em segunda mão à Dinamarca (e somos nós um país marítimo, com a maior ZEE da União Europeia) não tem sequer condições para render a guarnição nas Selvagens, quanto mais acompanhar um vaso de guerra russo, ao largo das nossas águas territoriais...
Então, se não está em condições, porque o mandámos em missão? Porque somos um país do desenrasca e do faz-de-conta, para inglês ver, a trabalhar para as estatísticas, gráficos, relatórios, tantas vezes sem adesão ou aderência à realidade. A seriedade não nos assenta lá muito bem
Voltando aos marinheiros: sim a coisa não pode ficar em claro, mas a responsabilidade percorre toda a cadeia militar, sem nunca esquecer a tutela política, afinal de onde tudo parte.
Sobre o que se disse de um eventual dedo do PCP, atendendo ao seu historial em matéria militar (nunca exortou à deserção -- que seria mais do que justificada -- durante a Guerra Colonial; é, creio, o único partido a defender o serviço militar obrigatório, na lógica da responsabilidade popular em tomar para si a defesa do país), o que me parece mais do que dispensável) -- aquilo que se disse parece-me jornalismo ou comentarismo pateta.
terça-feira, março 28, 2023
lengalenga (ucranianas CLXXVII)
Tinha de ser: a propósito do iva 0% para as courgettes, António Costa lá veio com a lengalenga do ataque da Rússia à Ucrânia. Como Costa não é um lapuz saído das berças, sabe muito bem por que razão a Rússia atacou. No entanto, quer fazer que não percebe e/ou fazer de nós parvos.
segunda-feira, março 27, 2023
domingo, março 26, 2023
em cavalgadura, no tempo do comboio
«Mil vezes se arrependeu, depois, da resolução tomada; mil vezes mandou ao diabo o conselho do médico e fantasiou horríveis exacerbações em todos os seus males. Os inconvenientes de uma jornada, feita ainda segundo os velhos processos, com malas, coldres e pistolas, botas de montar e almocreve, ampliava-lhos a proporções estupendas o prisma da hipocondria.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)
a facilidade de ser-se Jacinto
«E depois (acrescentava) só a Cidade lhe dava a sensação, tão necessária à vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris, dois milhões de seres arquejando (para manter na Natureza o domínio dos Jacintos!) sentia um sossego, um conchego, só comparáveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, se ergue no seu dromedário, e avista a longa fila da caravana marchando, cheia de lumes e armas...» Eça de Queirós. A Cidade e as Serras (póstumo, 1901)
sábado, março 25, 2023
"antes as rugas veneráveis"
«As pesquisas, porém, nada haviam adiantado. O tempo não ia além de Afonso Henriques, embora houvesse quem remontasse mais longe as suas origens. Mas não era a tese litigiosa da fundação que preocupava Luciano. O que ele via na Sé era uma relíquia a desencodear da ganga dos entulhos, um corpo a despojar de ignóbeis cataplasmas. Artista e construtor, entristecia-o ver a catedral romano-gótica completamente desfigurada nas suas linhas típicas, como estátua que tivessem o mau gosto de enroupar para lhe encobrir mutilações. Antes as cicatrizes disformes do que arrebiques casquilhos. Antes as rugas veneráveis do que a maquilhagem de gesso.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920)
sexta-feira, março 24, 2023
vista d'olhos
L'Affaire Markovic, de Manu Cassier e Jean-Yves Le Naour (Grand Angle). O caso da conspiração contra Pompidou, vinda de dentro do partido gaullista, em 1968: numa publicação lumpen, uma fotomontagem grosseira, "mostra" a mulher do futuro presidente francês em cenas de sexo explícito, escândalo que envolveu uma superestrela do cinema francês. Já se sabe: na política, os inimigos estão dentro do partido.
L'Impudence des Chiens, de Nicolas Dumontheuil e Aurélien Ducodray (Delcourt). No Antigo Regime não havia divórcio, mas uma mulher -- da nobreza, claro está --, negligenciada pelo marido e quisesse acabar com a pouca sorte, teriam ambos de sujeitar-se a cópula diante de um júri eclesiástico, que iria aquilatar da observância do múnus marital no seio do himeneu
La Synagogue, de Joann Sfar (Dargaud). Um judeu laico, num país, o seu, que coloca no parlamento um partido cujo fundador é um negacionista (palavra de uso exclusivo para os que negam o Holocausto perpetrado pelos nazis).
quinta-feira, março 23, 2023
quarta-feira, março 22, 2023
não sei se estão a ver a imagem (ucranianas CLXXVI)
terça-feira, março 21, 2023
a arte de começar mais depressa
«Andorra foi sempre, na terra portuguesa e na Europa inteira, um tear de sorrisos.» («Andorra», 1929)
«São cinco horas da tarde.» («Rodes», 1935)
«Soturna e larga cortina de chuva fecha o horizonte à proa do navio.» («Malta», 1935)
«O Don Jaime I solta as amarras às nove da noite.» («Maiorca», 1935)
«A ida à Córsega é rápida e fácil.» («Córsega», 1934)
«Como Andorra, Mónaco tem servido, com basta ninhada de ironias, para gáudio de horas vagas.» («Mónaco», 1935)
«A ilha de Monte Cristo, de existência assoalhada apenas pelo romance de Alexandre Dumas e por alguns mapas minudenciosos, ergue-se no Mar Tirreno, entre a Córsega e a Toscana, e à Itália pertence.» («O mistério da ilha de Monte Cristo»)
«Alguns pontos negros, isolados, surgem à proa do navio e vão crescendo à medida que nos acercamos.» («Egipto», 1935)
«Veio a manhã, veio a tarde e o navio fundeou em Haifa, porto da Galileia e um dos principais da Palestina.» («Palestina», 1935)
«O barco deixa-nos em Bizerta, grande abrigo naval da França e um dos mais fortes portos de guerra do Mediterrâneo.» («Cartago e Pompeia», 1935)
«Atravessámos o Canal de S. Jorge numa tarde friorenta e nublosa.» («Irlanda», 1930)
«Após o mundo dos monumentos, o mundo da paisagem.» («Madeira e Açores», 1932/1930?)
Ferreira de Castro, Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)
o que vale é termos um mne que é um zero à esquerda
A perguntas estúpidas, Cravinho responde estupidamente. Ficámos a saber que se Putin viesse a Portugal seria detido, graças ao mandado de captura emitido pelo TPI, uma farsa que nem os americanos se dão ao trabalho de fingir acatar. Isto, no vigésimo aniversário do ataque ao Iraque das alegadas armas de destruição maciça (quantos milhares de mortos, ó palhaços?; onde o tpi, vigaristas?...)
E são aventesmas destas que nos calham em sorte -- é preciso ter muito azar. Estou para ver o que dirá a criatura quando a Polónia avançar para a guerra, e como vai esta matilha continuar a enganar-nos.
segunda-feira, março 20, 2023
domingo, março 19, 2023
sábado, março 18, 2023
da "batalha de Kiev" à "deportação de crianças ordenada por Putin" (ucranianas CLXXIII)
Eu gostaria de rir-me a bom rir, quando vejo uma atraso de vida de uma pivô embarcar com a mais saloia candura nestas manobras de propaganda; mas os canalhas por detrás disto agoniam-me. Agora é o TPI, instituição de crediblidade abaixo de cão e de zero. Vale a pena perder tempo com estes asnos? Não. Felizmente, ainda há vozes sérias audíveis, no meio destas pocilgas que nos entram pela casa dentro.
sexta-feira, março 17, 2023
quinta-feira, março 16, 2023
quarta-feira, março 15, 2023
terça-feira, março 14, 2023
a vergonha do bom papa Francisco
A propósito desta peste dos abusos sexuais na igreja, ainda há dias vi em imagens de arquivo Francisco manifestar a sua vergonha repetidamente e duma forma dilacerante. Sou ateu, embora de formação católica, como quase todos os portugueses; andei seis anos num colégio de padres e felizmente nunca por lá se ouviu, pelo menos no meu tempo, qualquer escandaleira relativamente a abuso de crianças, embora houvesse por lá um que fazia incursões nos colégios de religiosos femininos (era o tempo da separação dos sexos). Nada deve ter acontecido a esse gajo, que ou já está no Inferno, ou para lá caminha (costuma dizer-se que os patifes têm vida longa).
Não vou elaborar sobre os efeitos nefastos da pseudo-moral judaico-cristã, até por incompetência para tal, nem sobre a hipersexualização do espaço público, nomeadamente publicidade e televisões, que deve virar a cabeça a muito labroste. Tem-se falado nas consequências do celibato obrigatório; neste ponto concordo com o padre Anselmo Borges: para determinados indivíduos, este afastamento repressivo e antinatural do sexo oposto será fautor de uma sexualidade desviante e doentia. Aliás, não se percebe a parvoíce da da sua manutenção, uma vez que não é uma questão dogmática. Traumas da Reforma? É bem possível que a igreja católica esteja a atravessar a sua crise mais profunda dos últimos séculos. No Chile incendiaram-se igrejas, e não foram os revolucionários anarquistas.
Parte da igreja (em que proporção?) é um organismo doentio e malsão. Não é algo que me agrade particularmente, pelo importante papel social que ela tem, e, já agora, por razões histórico-culturais. Portugal existe porque houve uma aliança e uma política inteligente de D. Afonso Henriques no que respeita à ocupação do território. Sem ele, Portugal não existiria, e creio que sem a igreja também não.
Voltando ao bom papa Francisco: alguém viu replicado nestes desgraçados bispos de quem se fala a vergonha excruciante do sumo pontífice? Eu só vi justificações canhestras, pés pelas mãos, já para não falar dum imbecil que é bispo em Beja, um idiota em Santarém, mais o tontinho do Porto. Com excepção daqueles que prontamente agiram, só vi falta de empatia pelas vítimas, estão-se nas tintas para elas. E como cidadão tenho toda a legitimidade para perguntar-me onde acaba o desinteresse anticristão e começa a cumplicidade.
na mouche
João Pedro Marques: "O caso Roald Dahl é, na área das “correcções” woke da literatura, apenas o mais recente de vários outros (os de Mark Twain, Harper Lee, etc.). O que sucede — e que os woke mais perspicazes e racionais já perceberam — é que essa acumulação de casos provoca, tanto na direita como na esquerda moderada, uma reacção de chacota e de rejeição. E, perante essa reacção, surgem a atrapalhação e os lamentos de vários woke que, sentindo-se a perder o pé ou sem argumentos, e não querendo ficar conotados com as óbvias parvoíces a que o wokismo extremado conduz, recorrem à táctica de fingir que nunca existiram. O embaraço é tanto que, em sentido figurado, se metem no primeiro buraco que conseguem encontrar e desaparecem de cena. É tanto que renegam a família a que pertencem a ponto de a apagar. Atiraram a pedra, mas agora escondem a mão e fazem crer que quem os contesta e confronta está alucinado, criou fantasmas e anda a lutar contra moinhos de vento. Seja pela voz de António Guerreiro, seja pelo seu próprio comportamento, nesta altura do campeonato os woke dissimulam-se, confundem-se com a folhagem, fingem-se de mortos ou, pior, de inexistentes, como se nunca tivessem estado lá."
Ler mais: https://ceuenganador.webnode.pt/news/os-woke-nunca-existiram/segunda-feira, março 13, 2023
o começo do dia
«A sua primeira tarefa era a ordenha. Tirar o leite a mais de duzentas ovelhas e arrastar para fora da corte os cântaros cheios, é trabalho que estafa um adulto. Para ele, aos onze anos, era o começo do dia. E antes de o sol romper pegava no cajado, deitava o surrão ao ombro, assobiava um silvo de comando e abria a grade.»
«Essa era a vida do Gato, desde o romper do dia até à hora do comboio. Deixava então os rebanhos entregues aos cães, e corria à taberna da aldeia, a buscar o saco do correio. Em seguida, formiga apressada, ia encosta abaixo, encosta acima, até desaparecer do cume que esconde a planura que levava ao apeadeiro.»
«Calado, esforçava-se por encontrar um superlativo, mas incapaz de o descobrir fazia comparações: ser correio era melhor do que ser guarda, melhor que caçador, taberneiro, feirante, sacristão...»
J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
domingo, março 12, 2023
"Três caminhos para lado nenhum" -- ou a razão por que compro o DN todos os sábados
A crónica de Viriato Soromenho Marques.
sábado, março 11, 2023
num semestre literário
1 de Fevereiro de 1908: Raul Brandão recebe a notícia do assassínio do rei D. Carlos: «Está uma tarde linda, azul, morna, diáfana. Converso na Livraria Ferreira com o Fialho, quando entra esbaforido e pálido o pintor Artur de Melo, que conheço do Porto, e diz num espanto ainda transtornado: «-- Acabam de matar agora o rei!» Memórias vol. I (1919)
1 de Março de 1933: Estudante em Coimbra, Miguel Torga anota no Diário, a propósito da "diversão" da matança de gatos: «Não há universidade que nos tire da idade da pedra lascada.»
7 de Abril de 1962: João Palma-Ferreira evoca no Diário os subterrâneos Joyce, Kafka e Pessoa, a coragem da obra, e o nanismo dos consagrados autores nacionais: «Ou haverá aí algum Kafka incógnito a pregar-lhes a partida?»
1 de Maio de 1500: Pero Vaz de Caminha redige a célebre carta a D. Manuel I, por ocasião do achamento do Brasil, obra-prima da literatura portuguesa: «[Vossa Alteza] creia bem por certo que, para alindar nem afear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu.»
1 de Junho de 1890: Camilo Castelo Branco suicida-se em casa, São Miguel de Seide, com um tiro de revólver.
sexta-feira, março 10, 2023
quinta-feira, março 09, 2023
quarta-feira, março 08, 2023
terça-feira, março 07, 2023
(ucranianas CLXXI bis)
Em tempo: devo ter sofrido um curto-circuito, pois esqueci-me de dizer, a propósito deste arrazoado, que nem uma palavra a respeito do imperialismo americano. Talvez pela sua benignidade, trazendo consigo a democracy. Que o digam, entre outras, os milhares de iraquianos com as família destroçadas. Mas, claro, nessa altura havia as armas de destruição maciça, cujas provas da existência Durão Barroso viu.
segunda-feira, março 06, 2023
ph.n(egativo) (ucranianas CLXXI)
Hoje de manhã, na TSF, ouço, contrariado, a crónica de Raquel Vaz Pinto (RVP) -- uma daquelas catástrofes do comentário que nos tem caído na sopa desde o início desta segunda fase da guerra entre a Rússia e os Estados Unidos. Parece ser também admiradora de Hillary Clinton, o maior estafermo da política americana, desde que o erro da natureza de que é cônjuge deixou o cargo..
Pois esta comentadora conseguiu estarrecer-me mais uma vez, pela incompetência da própria parcialidade. A propósito de uma entrevista que a jornalista Anne Applebaum concedeu à estação (que não ouvi; chegou-me vê-la uma vez algures num canal), cita em êxtase a norte-americana que parece ter sustentado o seguinte: a Rússia tinha dois grandes trunfos no início da guerra: primeiro, o gás natural e o petróleo, parece agora que destrunfada pela União Europeia? A sério? Então e o gás vendido à China e à Índia, entre outros?; e o gás russo de contrabando que a UE compra mais caro por portas travessas? Ai este eurocentrismo. O segundo trunfo, parece que de acordo com a mesma jornalista. segundo a sua fã, é (era?) o armamento nuclear; mas esse parece que continua a existir -- o que não impede RVP de afirmar que, apesar desse pormenor, a Rússia está acabada. Toda a crónica não sei se é de rir ou chorar (aquela de Portugal ter deixado de sentir a necessidade de ser um império colonial é impagável). Ouvir aqui, não tendo nada sério ou interessante para fazer.
do realismo
«Ibsen fixa o olhar no sempre mais pequeno e isto é a melhor prova de que a sua inteligência é de boa qualidade. As pálpebras vão-se fechando cada vez mais em torno da pupila. Ibsen reduz cada vez mais o seu campo de visão. Os "motivos" da sua fantasia poética tornam-se cada vez menos importantes mas, em compensação, no cada vez mais pequeno ele vê sempre maior e, sobretudo, sempre mais "necessário".» Alberto Savinio, Vida de Henrik Ibsen (póstumo, póstumo, 1979)
domingo, março 05, 2023
Estados Unidos e Rússia, ambos estavam à espera (ucranianas CLXX)
Estava a ver o Oliver Stone num podcast, quando a certa altura diz que não se lembra de ter assistido a uma tão grande massa de propaganda, a propósito da guerra na Ucrânia; outros já o disseram, um dos primeiros de que me lembro foi Miguel Sousa Tavares. Esta miserável propaganda de condicionamento da opinião pública estava a ser preparada de há muito, pelo menos desde a abortada presidência Hillary Clinton.
O Putin sabia-o muito bem; basta ver as entrevistas ao Oliver Stone. E assim também ele se preparou para os pacotes de sanções, que tanto êxito têm tido em prejudicar os cidadãos europeus...
Porque uma das evidências que vai ficar desta guerra, será o molho de imbecis ou espertalhões à frente da UE -- ontem, tivemos a atrasada mental da presidente do PE em Kiev --; mas pior que isso, a fraqueza e cobardia dos líderes europeus, Eles mostraram que na hora da verdade a União Europeia é uma mistificação, e que quem manda é quem pode.
Entre nós, dois ministros dos Estrangeiros, um pior que o outro; um primeiro-ministro que gosta de agradar a quem detém o poder, um PR tornado num porta-medalhas, sem qualquer relevância neste assunto, nem internamente -- e a gravidade da situação assim o exigia. Apesar de pouco ter conseguido por ocasião do banditismo ocidental no Iraque e até no episódio da província sérvia do Kosovo, que diferença para Jorge Sampaio.
é por isto que compro o "Diário de Notícias" todos os sábados
Isto, é a crónica semanal de Viriato Soromenho Marques. Há poucos a escrever como ele no espaço público.
sábado, março 04, 2023
Ales Bialiatski
A Rússia também tem marionetas, e não apenas os Estados Unidos. Uma delas é o Lukashenko (que bem útil tem sido, o filho da puta, e espero que assim continue).
Só ouvi falar em Ales Bialiatski no ano passado. Além de me parecer um tipo de grande credibilidade, tem um substrato de resistente que vem de longe, não é um palhaço, ao contrário de certas fabricações do Ocidente.
Na minha galeria de prisioneiros de consciência e exilados políticos.
sexta-feira, março 03, 2023
quinta-feira, março 02, 2023
que belo e fresco seria ter o Lula a discursar no 25 de Abril
Sentir-me-ia muito honrado como cidadão -- não pelo facto de tratar-se do PR do Brasil, mas por ser Lula. O 25 de Abril fica-lhe tão bem.
quarta-feira, março 01, 2023
terça-feira, fevereiro 28, 2023
traços dum mazorro - caracteres móveis
«Todos se contentavam com o caldo, de manhã, as sardinhas à noite e ao domingo meio litro de vinho na Feira dos Nove ou na tasca do Lopes.»
«Chegou o mocho para a janela e sentou-se a olhar os campos, cada vez mais soturno, mais enfronhado em severidade.»
«Fazia de forte, convencido, assim, de que a situação seria menos penosa; mas cada palavra exigia um esforço enorme para romper a emoção que lhe fechava a garganta.»
Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)
segunda-feira, fevereiro 27, 2023
pasquinadas
Há décadas que o Expresso se juntou ao clube dos pasquins; o que faz não é jornalismo mas excreção de dejecções no espaço público. Veja-se a forma tendenciosa como noticia a intervenção do Roger Waters numa acção do Rage Against War Mchine. O analfabeto do escrevente crê que somos todos da sua laia, assim uma espécie de leitores/espectadores do Correio da manha, que lemos e não percebemos o que estes erros da natureza pretendem inculcar. No último parágrafo, assim como quem não quer a coisa e achando que somos todos muito estúpidos, este pobre de espírito anónimo arrola como apoiantes da posições de Waters e do RAWM, nada menos que neo-nazis, maluquinhos antivacinas e abusadores sexuais. Não é preciso dizer mais nada.
Oh a puta da imprensa portuguesa, como diria o Fernando Pessoa, versão Álvaro de Campos...
caracteres móveis
«Atmosfera pesada, nuvens cor de chumbo em barras pelo céu; e cada lufada de vento que sobra sem um suspiro sequer nas folhas do arvoredo cresta-me a cara como o hálito dum forno, e longamente parece rarefazer, no ar, o oxigénio indispensável à função dos meus pulmões.»
«Vários trens que encontrei na estação estavam alugados: um char à bancs, a tanto por lugar, digna-se entretanto receber a minha mala, a minha fadiga, e uma parte da poeira que me enegrece a cara, e torna alvacento o meu sobretudo claro de viajante.»
«O char à bancs leva a trepar muitos minutos: ao passo de cavalos asmáticos, a que o cocheiro abandona a rédea, coitado, para se pôr a picar uma cigarrada reparadora de "Kentucky".»
Fialho de Almeida, «Alexandre Herculano» [1888], Figuras de Destaque (póst., 1923)
domingo, fevereiro 26, 2023
Viriato Soromenho Marques e Miguel Sousa Tavares, um contraponto à indigência de Cravinho, e da inenarrável inconsciência de Marcelo e Costa (ucranianas CLXIX)
«Palavras de Guerra», Viriato Soromenho Marques, no Diário de Notícias;
«Um ano de estupidez», Miguel Sousa Tavares, no Express
«O combate por um Mundo mais decente», de João Gomes Cravinho -- o contraste: o responsável pela pasta dos Negócios Estrangeiros a fazer coro com o jornalismo televisivo mais analfabeto, assim à José Alberto Carvalho. O vazio é de tal forma profundo, que só pode ser propositado. Já tivemos pior, é verdade, o Santos Silva; mas depois deste empastelamento brutal de Costa e do número de Marcelo, a confiança de que as principais figuras do Estado estejam à altura das suas funções e proteger o país, se o conflito degenerar é nenhuma, o que é extraordinariamente preocupante.
sábado, fevereiro 25, 2023
a grande coligação: do populismo boçal do Chega ao trotsko-wokismo do Bloco (ucranianas CLXVIII)
Sim, qualquer pessoa bem formada deplora a guerra, como qualquer candidata a miss universo. Não me posso pronunciar sobre o texto de Santos Silva, que não consegui ler ou ouvir, mas pelos destaques da imprensa, percebe-se o que lá está. Santos Silva, antigo paladino do "presidente Guaidò", nunca teve dimensão política como ministro dos Negócios Estrangeiros, como se viu, da crise da Venezuela (em que pôs em risco a vivência da comunidade portuguesa para satisfazer os interesses americanos) à guerra da Ucrânia. Portanto, neste particular, tudo o que dali sai partilha da irrelevância da obediência às supostas conveniências políticas.
Como qualquer pessoa minimamente arguta percebe, a quase unanimidade política que vai do populismo oportunista boçal do Chega ao trotsko-wokismo do BE, passando pelo centrão das negociatas, é falsa e cheira mal.
Eu gostaria de ser um pacifista à outrance, no que estou impedido pelo meu pessimismo antropológico; há por isso momentos da história em que a guerra aparece como a única saída. É triste e é verdade. Ao atacar a Ucrânia transformada em joguete do Pentágono, a Rússia defende-se, como digo desde o princípio: uma guerra preventiva. O que quer Putin prevenir, para além do assentar da matilha à porta de casa, será tentativa para outro post.
sexta-feira, fevereiro 24, 2023
a questão da nacionalidade na Ucrânia (ucranianas CLXVII)
Putin foi criticado, e provavelmente com razão (provavelmente, porque não estudei o assunto), por defender que ucranianos e russos formam uma mesma nação, posição que talvez equivalesse -- creio que já aqui alvitrei -- a que se dissesse que com galegos e portugueses sucede o mesmo, o que não é verdade, apesar de a nossa matriz linguística estar radicada no velho reino da Galiza.
Demos pois de barato, seguindo o senso comum, que os ucranianos são mesmo ucranianos, e não russos; e assim sendo teremos de concluir que os habitantes do Donbass, na sua maioria, e também da Crimeia e noutros sítios, não são ucranianos, mas russos.
Por complicações da História, conhecidas, embora pouco referidas, estes russos fartaram-se de (ou nunca quiseram) ser ucranianos; e a partir de certa altura (ou desde a queda da URSS -- há casos, como o da Transnístria) resolveram rejeitar o estado que integravam, passando, neste caso específico, regressar à mãe pátria.
Esta vontade de autodeterminação ou é reconhecida e negociada entre as partes (Quebeque, Escócia, com os escolhos conhecidos); ou não o é: Catalunha, Curdistão, País Basco, etc.)
-- e historicamente ou o foi (Eslováquia) ou não o foi (geralmente nunca o é): do Curdistão a Timor, passando por outras colónias portuguesas, e até por Portugal, sob os Filipes.
Ah e tal, mas o Direito Internacional... O Direito Internacional não pode sobrelevar o direito à autodeterminação dos povos; além de que, salvo opinião mais douta, e como se vê, o ordenamento jurídico ocupa-se em manter o que está, ignorando as aspirações legítimas do que ainda não é -- ou nunca será...
Se a União Europeia se marimba -- quando não sabota -- para as aspirações e lutas de autodeterminação da Escócia ou da Catalunha, do que é que se estaria à espera quanto a uma províncias da Europa Oriental?
O Direito é esplêndido, mas é para os fracos cumprirem e aí os sediciosos são chamados de terroristas para baixo; quando têm força para levar a sua avante e triunfam, os terroristas passam a heróis, muitas vezes póstumos. Ora os separatistas do Donbass que combatem o estado artificial ucraniano desde 2014, para o seu povo são heróis; é isto que verdadeiramente importa.
tenham vergonha e calem-se (ucranianas CLXVI)
Os russos -- ou, se quiserem, o poder russo até agora sufragado pela maioria dos cidadãos -- não querem os americanos a ladrar-lhes à porta (uso a sábia expressão do papa Francisco), russos que já lá têm uma quinta coluna, cuja face visível é um tipo da extrema-direita, provavelmente pago pela CIA, convertido em herói dos "nossos valores", chamado Navalny,
Uma criatura destas é um herói da úrsulas, dos borréis, ou dum reles patife como o Boris Johnson.
Os valores das pessoas decentes não estão aqui, estão nos verdadeiros heróis (uma bisca para Marcelo): o curdo Abdullah Ocallan, há longos anos na cadeia; o palestino Marwan Barghouti, idem, o tibetano Tenzin Gyatso (o Dalai Lama), no exílio, sem esquecer o martirizado Julian Assange, ou o refugiado Edward Snowden.
Portanto, tenham vergonha e calem-se.
quinta-feira, fevereiro 23, 2023
caracteres móveis - Camilo Castelo Branco
1. «A mocidade estudiosa, em grande parte simpatizava com as balbuciantes teorias da liberdade, mais por pressentimento, que por estudo.»
2. «Os apóstolos da revolução francesa não tinham podido fazer revoar o trovão dos seus clamores neste canto do mundo; mas os livros dos enciclopedistas, as fontes onde a geração seguinte bebera a peçonha que saiu no sangue de noventa e três, não eram de todo ignorados.»
3. «O discurso ia no mais acrisolado da ideia regicida, quando uma escolta de verdeais lhe aguou a escandecência.»
Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)

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