domingo, maio 17, 2026
o que está a acontecer
«"O pai foi o inventor do bowling, é isso?", perguntou Mister DeLuxe. "O pai estava sempre bêbado e jogava bowling com as garrafas vazias", insistiu Austin, "Molero fixa-se nisto como no elo de uma cadeia, é o que ele diz."» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)
101 poetas e um verso só
4. João de Barros - «Vão, sem destino, errando ao sabor da corrente.»
3. António Barahona - «Nas minhas mãos o violino alado percorre distâncias incalculáveis no sonho.»
2. Sophia de Mello Breyner Andresen - «O corpo a corpo do espaço e da escultura»
1. Manuel de Freitas - «Falta-me a técnica, mas tenho o rancor»
sábado, maio 16, 2026
o que está a acontecer
«Se vivesse ainda com os pais, não haveria na sua expectativa lugar para dúvidas: receberia, prenda única de aniversário, os afagos e as lamurientas falas da mãe, penitente do mal da pobreza: -- "Nem uma blusinha te posso dar, filha!"» Assis Esperança, Servidão (1946)
«Próximo da ponte de tábuas, um milhafre dá três voltas vagarosas ao rés da terra, imobiliza-se no espaço e baixa-se repentinamente, como tocado por um tiro. Daí a nada, levanta-se num esticão, e leva um pinto no bico. Por um momento, o voo da ave de rapina é um traço negro na paisagem morena da planície. E só o homem, pela janela, vê o assalto.» Antunes da Silva, Suão (1960)
«As virtudes civis e, sobretudo, o amor da pátria tinham nascido para os Godos logo que, assentando o seu domínio nas Espanhas, possuíram de pais a filhos o campo agricultado, o lar doméstico, o templo da oração e o cemitério do repouso e da saudade.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)
sexta-feira, maio 15, 2026
revista de imprensa
«Mas como erguer-se o sonho duma literatura, se esse sonho é abafado nesse cárcere de sombras?»
Eduardo Frias, «80% de analfabetos!!»,
Renovação #1, 2-VII-1925
2 versos de Manuel Alegre
«Canto as armas e os homens / Porque a tribo me disse: tu guardarás o fogo.»
O Canto e as Armas (1967) - «O Canto e as Armas»
quinta-feira, maio 14, 2026
revista de imprensa
«A lei económica de Gresham, -- de que a má moeda expulsa a boa moeda, tem a sua mais completa exemplificação no nosso campo mental.»
Correia da Costa, «Da vida social portuguesa - Boletim semanal»,
Revista Portuguesa #2, 17-III-1923
(ed. fac-similada apresentada por Cecília Barreira)
zonas de conforto
Maria Gabriela Llansol: «["] Sinto que o mistério de cobrir vária áreas se desfaz, e uma só das suas gotas se adensa ainda, uma contracção enérgica de doçura que pousou sobre a mesa. Um ramo de roseira aponta para mim, e Eckhart, Suso, Hildegarda, Marie d'Oignies, Marguerite d'Ypres sentam-se à minha volta, observando-me no meu seio despido pelo cansaço."» Sintra em Passo de Pensamento (póst., s.d.) § Machado de Assis: «Sentou-se ao cravo; reproduziu as notas e chegou ao lá... / -- Lá, lá, lá... / Nada, não passava adiante. E contudo, ele sabia música como gente. / Lá, dó... lá, mi... lá, si, dó, ré... ré... ré... / Impossível! nenhuma inspiração. Não exigia uma peça profundamente original, mas enfim alguma cousa, que não fosse de outro e se ligasse ao pensamento começado.» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» § Fialho de Almeida: «Que bela a alegria sob os castanheiros dum parque, no coração da vida rústica, pelo braço da franzina miss com quem aos vinte anos se sonha, alta, musical, com maravilhas patrícias de mãos.» O País das Uvas (1893) - «Pelos campos» § Millôr Fernandes: «Quando um técnico vai tratar com imbecis, deve levar um imbecil como técnico.» Pif-Paf (2004) - «Confúcio disse» - antologia por João Pereira Coutinho § Branquinho da Fonseca: «Foi no Inverno, em Novembro, e tinha chovido muito, o que dera aos montes o ar desolado e triste dessas ocasiões. As pedras lavadas e soltas pelos caminhos, as barreiras desmoronadas, algumas árvores com os ramos torcidos e secos.» O Barão (1942) § Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano (1973) .../... «De todo o modo, e independentemente dos juízos que se formulam a respeito das posições que noutras circunstâncias têm sido assumidas pelo Prof. Francisco Moura, com cujas opiniões e atitudes eu mesmo não raras vezes me encontro em discordância, estou certo de que V. Ex.ª concordará com que se trata de uma pessoa merecedora do máximo respeito.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano (1985) - ed. João Freire Antunes
quarta-feira, maio 13, 2026
revista de imprensa
«Mosteiro de Santa Maria da Victoria, 1920
Na Cova da Batalha ficou dita um dia para sempre a Vontade de Portugal.»
José de Almada Negreiros, «Histoire du Portugal par Coeur»,
Contemporânea #1, Maio 1922
3 versos de Manuel Alegre
«Em cada poema estou mas não sozinho / antes de mim a língua e os que primeiro / cantaram antes de mim»
Praça da Canção (1965) - «Canção Primeira»
o que está a acontecer
«O apeadeiro desapareceu. Um padre pediu à CP que lhe desse as belas pedras de granito das paredes e do cais, levou-as para a vila e fez com elas uma casa para a terceira idade. O local foi arrasado, mas por desleixo ou esquecimento deixaram as placas que avisavam do perigo de atravessar desatento a linha.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
«Hoje o tempo não me enganou. Não se conhece uma aragem na tarde. O ar queima, como se fosse um bafo quente de lume, e não ar simples de respirar, como se a tarde não quisesse já morrer e começasse aqui a hora do calor. Não há nuvens, há riscos brancos muito finos, desfiados de nuvens. E o céu, daqui, parece fresco, parece a água limpa de um açude.» José Luís Peixoto, Nenhum Olhar (2000)
«["] Há passagens do relatório que esclarecem o problema, passagens aparentemente insignificantes, mas que talvez sejam efectivamente outra coisa, como o facto de o pai jogar bowling com garrafas, quando lá no bairro ainda ninguém sequer sabia o que era o bowling, isto depois de beber o conteúdo das garrafas, eram garrafas de vinho, cerveja, aguardente e o mais que viesse, ele ficava bêbado e depois jogava bowling e partia as garrafas com uma grande bola de prata de chocolates, e o rapaz ficou sempre com o som nos ouvidos, o som de garrafas partidas enchendo a noite, um perpétuo estilhaçar de nervos."» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)
terça-feira, maio 12, 2026
revista de imprensa
«Para o lobo o povoado não é uma aspiração: -- é uma necessidade. E quantas vezes o lobo encontra o seu quinhão tragado pelos vermes.!»
Ferreira de Castro, «"Os novos" -- Conceitos de Zaratustra», A Hora #1, 12-III-1922
(da edição fac-similada, apresentada por Paulo Samuel)
1 verso de Antero de Quental
«É lei de Deus este aspirar imenso...»
Sonetos Completos (1886) - «A Santos Valente»
segunda-feira, maio 11, 2026
revista de imprensa
«A vida política duma nação é, em grande parte, o reflexo da sua vida intelectual, dos seus movimentos de ideias, das aspirações mais profundas do seu escol.»
Raul Proença, "Apresentação" da Seara Nova #1, 15-X-1921
(todos as citações a partir da Antologia organizada em 1971 por Sottomayor Cardia,
sem esquecer o imprescindível trabalho coordenado por Luís Andrade, Revistas de Ideias e Cultura,
e ainda uma calorosa saudação a Daniel Pires
2 versos de Florbela Espanca
«Andam pombas assustadas / No teu olhar adejando,»
Trocando Olhares (póst., 1994)
domingo, maio 10, 2026
zonas de confronto
Jane Austen: «Certamente cumpriu-se tal tempo. Tendes hoje cinquenta e cinco Primaveras. Se vez alguma uma mulher pode declarar estar a salvo da perseverança determinada de amantes desagradáveis e cruéis perseguições de pais obstinados, essa vez tem de se aplicar a esta altura da vida. // Isabel» Amor e Amizade (1790) - trad. Isabel Fraga. § Génesis: «Assim surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o terceiro dia. / Deus disse: "Haja luzeiros no firmamento dos céus para diferenciarem o dia da noite e servirem de sinais, determinando as estações, os dias e os anos; servirão também de luzeiros no firmamento dos céus para iluminarem a terra". E assim aconteceu.» Bíblia Sagrada (Missionários Capuchinhos)
o que está a acontecer
«Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo;» Raduan Nassar, Lavoura Arcaica (1975)
«Por cima da estrada real, nem a sombra de uma nuvem põe um remendo no buraco do céu. O sol abre os grandes olhos de rei, estende os braços fumegantes para os quatro pontos cardeais e arde, enfeitiça o mundo.» Antunes da Silva, Suão (1960)
«Abriu os olhos, estremunhada. A necessidade, feita hábito, de acordar cedo, perdera-a, ela, logo nos primeiros dias de adaptação aos horários e empecilhos daquela casa. Nessa manhã, porém, fazia dezassete anos.» Assis Esperança, Servidão (1946)
sábado, maio 09, 2026
sexta-feira, maio 08, 2026
estou para ver...
Tão excitados que estão para aí uns comentadores perante a alegada ameaça de Zelensky perturbar as comemorações do dia da vitória em Moscovo. Ouvindo-os, ficamos a saber que Putin está cheio de medo. Estou para ver, acção e reacção.
4 versos de Camões
«Eis nos batéis o fogo se alevanta / Na furiosa e dura artilharia; / A plúmbea péla mata, o brado espanta; / Ferido, o ar retumba e assobia.»
Os Lusíadas (1572) , I-89
quinta-feira, maio 07, 2026
Ucrânia e Portugal, os burros do Expresso, o deputado Núncio, etc.
Já me ri hoje com este título analfabeto do Expresso; mas o que não deve ser deixado passar em claro são as reacções asnáticas no parlamento, equivalentes ao asinino título do Expresso, no que respeita à posição do PCP.
Ora o PCP tem salvo a honra daquele convento. Pessoalmente, talvez preferisse que os únicos deputados (creio) que sobre a guerra da Ucrânia têm uma posição decente e ponderada, tivessem permanecido no hemiciclo em silêncio e sem aplaudir (como pode o silêncio ser eloquente, em certas situações...) -- mas eles é que sabem.
Quem insulta a inteligência é a criatura que pergunta sobre qual seria a posição do PCP se a Rússia invadisse Portugal -- arre, que não tem vergonha na cara, ou então é estúpida todos os dias; ou o acólito do CDS que pediu desculpa à Ucrânia pela posição do PCP.
Não sei do que me ria mais: se do deputado Núncio (oh, são tantas as vezes...) ou dos burros do Expresso.
o que está a acontecer
«Até parecia injustiça de Deus que aqueles campos tão férteis, tão vastos, estivessem quase ao abandono, porque o senhor Esteves, sendo rico, morava na vila, nunca vinha ali e o rendeiro, velho e sovina, preferia deixar a terra sem cultivo a pagar a alguém que o auxiliasse.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)
«Invejo -- mas não sei se invejo -- aqueles de quem se pode escrever uma biografia, ou que podem escrever a própria. Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho a dizer.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego (póst., 1982)
«No meio, porém, da decadência dos Godos, algumas almas conservavam ainda a têmpera robusta dos antigos homens da Germânia. Da civilização romana elas não haviam aceitado senão a cultura intelectual e as sublimes teorias morais do cristianismo. » Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)
quarta-feira, maio 06, 2026
3 versos de Maximiano Gonçalves
«Regressarei àquela terra / Que, por não ser minha, / O é ainda mais?»
Ouvir a Palavra (2017) - «Nenhum movimento se repete»
terça-feira, maio 05, 2026
3 versos de Alberto de Lacerda
«Às vezes dentre o muro / Irrompe o pássaro / Da imaginação»
Opus 7 / Oferenda II (1994)
segunda-feira, maio 04, 2026
2 versos de Manuel Bandeira
«A cada par que a aurora enlaça, / como é pungente o entardecer!»
A Cinza das Horas 1917) - «Chama e fumo»
sábado, maio 02, 2026
notas sobre «Mau Tempo no Canal», de Vitorino Nemésio
Caracterização: romance de costumes; romance de espaço; romance psicológico; romance social, autobiografismo
Tema: o
desencontro amoroso (tema eterno - José Régio), a questão de classe; o entendimento
do casamento por Margarida 394-395.
Personagens -- o narrador mostra simpatia por todas Margarida Clark Dulmo, João Garcia, mas também o homossexual Ângelo ou
patifes como Januário Garcia e Diogo Dulmo, não são desprovidos de humanidade.
Ou seja, não são caricaturas, pecha muito apontada, por exemplo, ao Eça;
Margarida: uma
mulher e três homens: João Garcia, formado em Direito, mas poeta; militar de
circunstância; Roberto Clark, o tio de Londres, muito na sua; André Barreto, o
aristocrata de modos e extirpe recente, mas endinheirado;
Mateus Dulmo, o velho tio; os
mortos, como Margarida Terra ou a moribunda mãe de João Garcia, Emília;
(Alfredo Nina – Jaime Brasil);
a memória de Fernão Dulmo (Ferndinand van Homen) - um dos primeiros povoadores da ilha Terceira, com mercê em 1486, por D. João II da capitania da Ilha das Sete Cidades e outras a descobrir.
Episódios: a "peste" (o imponderável); a caça à baleia (o trabalho); a hospitalidade e os dias passados na Urzelina; a tourada em São Jorge (o lazer); o epílogo perfeito: a serpente
Estratificação social: nobrezas
antiga, burguesia recente e povo (Manuel Bana).
Atmosferas:
paisagens, clima, o território (ilhéu, neste caso); o mar omnipresente.
Estilo ironia, graça, fluência, riqueza das imagens e das metáforas; Nemésio escreve como a água que corre -- já o escrevi e repito.
Erudição profunda do esplêndido académico, dada com toda a naturalidade do grande poeta que foi.
sexta-feira, maio 01, 2026
nota sobre «As Velas Ardem até ao Fim», de Sándor Márai
Um tratado em tom elegíaco sobre a amizade, o amor e o sentido da vida. Em paralelo: uma demasiado humana nostalgia de um mundo morto e em vias de ser sepultado pelos escombros da guerra (o livro saiu em 1942). Não diria nostalgia do Império Áustro-Húngaro -- bizarro em quem fora, em tempos, comunista, e depois dissidente -- mas de uma circulação, e até mistura, de povos e línguas, hábitos e indumentárias, dentro de fronteiras reconhecíveis; dir-se-ia o núcleo primevo de O Mundo de Ontem, do Stefan Zweig.
quinta-feira, abril 30, 2026
notas sobre «O Banqueiro Anarquista», de Fernando Pessoa
I
Conto publicado na Contemporânea n.º 1 (1922) – revista para gente civilizada e para civilizar gente
Literariamente é uma novela de raciocínio em que se trabalha a destreza argumentativa; politicamente é uma blague, uma vez que o banqueiro não é efectivamente anarquista, embora queira convencer o interlocutor de que o é.
Posicionamento político de Fernando Pessoa: uma direita não alinhada, embebida de um nacionalismo místico, mas também mítico, contrastando com a decadência do país, que vem do século anterior.
Era um admirador contido do fascismo de Mussolini – também ele evocador de um passado mítico, brutal, vigoroso e tecnicamente progressivo (Marinetti, um futuro fascista) – e detestava Salazar pelo que este representava de passadismo, ruralismo, seminarismo…
E detestava ainda mais todas as ideias democráticas, revolucionárias e de esquerda, socialistas, anarquistas ou bolchevistas.
Talvez seja por isso que ele caracteriza os “falsos” anarquistas como “esses parvos dos sindicatos e das bombas” (p. 23)
II
Senão, vejamos:
a glorificação ultra individualista do salvar-se a si próprio deixando de ser dominado pelo dinheiro, possuindo-o – nunca seria libertação, uma vez que se escravizou a esse desígnio: ter dinheiro para não ser dominado por ele e, naturalmente, todo esse capital acumulado na banca e nos negócios, se preciso de uma forma desleal, como confessa o banqueiro (p. 54), são incompatíveis com a ética e a moral anarquistas – até porque tal só seria conseguido, mais do que pelo engano, pela exploração dos outros.
Pessoa era suficientemente informado, embora pudesse detestar o anarquismo, de que nem este é incompatível com a actividade bancária ou comercial – previstas por Proudhon pelas mutualidades e pelas cooperativas. Mas isso já lhe estragaria o argumentário.
Outra fraqueza conceptual deste conto ou novela de raciocínio, reveladora aliás do preconceito do autor é a caracterização do anarquismo como algo que se concentra «nos tipos dos sindicatos e das bombas» (p. 22). Esta é uma expressão parcelar, incompleta e distorcida, no fundo a visão do vulgo burguês, pouco condizente, de resto, com as pretensões de uma revista de elite ou para as elites.
Sim, há um anarquismo individualista ou ultra-individualista, que põe o Eu em primeiro lugar, não caindo na imoralidade cínica do banqueiro pessoano que para se livrar a si escraviza forçosamente os outros, com a pobre desculpa que essa tirania já existiria, e que portanto ele limitou-se a utiliza-la, garantindo assim o anarquismo de um, o seu próprio.
Em segundo lugar, “os tipos das bombas” são uma corrente ultraminoritária do movimento anarquista, que provocou muitos estragos à própria ideia, entre finais do século XIX e o princípio do XX, execrada pela larguíssima maioria das correntes e equiparadas a puro banditismo e marginalidade. Foi o que ficou no imaginário.
Também a ideia de que o anarquismo é uma corrente que provém do lúmpen social e proletário faz sorrir, se pensarmos nos nomes de algumas das suas maiores figuras: um conde Tolstói, um príncipe Kropótkin, um Malatesta, filho de um latifundiário pertencente a uma das grandes famílias nobres italianas desde a Idade Média. E só falo em aristocratas, podia falar doutros casos como o geógrafo Reclus, filho de um pastor protestante ou do nosso Neno Vasco, ou seja Gregório Nazianzeno Moreira de Queirós e Vasconcelos, jurista e revolucionário, filho de um abastado comerciante do Norte. Não foi Francisco de Assis, esse anarquista avant la lettre, um jovem rico que se despojou dos seus bens?
III
A construção é/parece perfeita; os pressupostos estão errados; logo, a conclusão é falsa.
terça-feira, abril 28, 2026
3 versos de José Alberto Oliveira
«Disponho-me a confessar pecados / que não cometi, esperando que a penitência / corresponda à gravidade de todas as omissões.»
Mais Tarde (2003) - «Contrabando»
segunda-feira, abril 27, 2026
o que está a acontecer
«No Talasnal o Emílio Riço já nos noventa e seis anos de idade morreu com a boca cheia de moscas a apanhar o sol da tarde, e a mulher foi dali levada à força para um asilo da Lousã, mais cega do que uma fraga e com o juízo de todo varrido da cabeça, porque também com mais de noventa anos punha de fora da blusa os sacos vazios das mamas e gritava, Olívia de Ataíde, pura e bela!,» Ascêncio de Freitas, A Noite dos Caranguejos (2003)
«E de repente dobra o ângulo oposto da casa, vem direita a mim. Um breve ruflar de saias compridas no silêncio, desliza imperceptivelmente, traz um molho de couves num braçado, tia Luísa. / -- Já vieste, Paulinho? / Pára um pouco ao pé de mim. / -- Estás morta! -- grito-lhe eu para o espaço em redor.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)
«Alguns tentaram abrir as conservas com as chaves apropriadas, mas não conseguiram melhor que esventrá-las depois de terem cortados os dedos nos irregulares e afiados rebordos metálicos. / -- Quem lhes metesse as chaves d'arame pas goelas a baixo! -- resmungou um gigante fardado, grande como um eucalipto, de olhos pequenos e redondos, mal encaixados pela testa curta, as maçãs do rosto avermelhadas e que transmitia a ingenuidade do sorriso de uma criança própria dos simples de espírito.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)
revista de imprensa
«Aquilo a que em Portugal chamam impropriamente modernismo, chama-se exactamente -- renovação. Renovação na arte, na literatura, na vida social, para que a vida social, a literatura e a arte sejam de hoje e sejam por conseguinte a verdade.»
Victor Falcão, Manifesto da Revista Portuguesa #1, 10-III-1923
2 versos de Carlos Matias
«Brisas sopram. Sopram, sobre nós, nas veias. Sangue / sobre sangue. Veias sobre veias.»
Luz Triste (2005)
domingo, abril 26, 2026
sábado, abril 25, 2026
sexta-feira, abril 24, 2026
3 versos de Armindo Reis
«Versos feitos pão. // Agreste carícia / que a boca acalenta.»
Canto Escorreito (2020) - «No mês dos lírios»
quinta-feira, abril 23, 2026
2 versos de Manuel Matos Nunes
«Venho da charneca ao entardecer / tão cheia de tristeza e saudade»
Insolúvel Flautim (2023) - «Florbela: carta da herdade»
quarta-feira, abril 22, 2026
1 verso de Pedro Tamen
«Sob os ardores do sol burila só silêncio»
Depois de Ver (1995) - «Manhã no Louvre 1. O escriba Acocorado»
o que está a acontecer
« -- Se quiserem comer comam, se não, comam merda, mas não façam barulho. Julgam que estão na catequese, mas já vão ver como elas mordem!... / Os soldados calaram-se durante uns momentos e prepararam-se para comer, limpando as facas de mato às calças ou enterrando a comprida lâmina na terra seca a fazer de esfregão.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)
«O carro acelera na tarde quente, a areia da alameda range. Paro, desligo o motor, um silêncio mais desértico. E um pequeno susto insinuado às coisas. São três malas apenas, o resto virá depois. Tomo duas, subo o balcão até meio, vou buscar depois a outra.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)
«não nos hão-de convencer que volte a censura, isso seria uma desumanidade e agora somos europeus. qualquer iniquidade do nosso peculiar espírito há-de ser corrigida pela europa, para sempre. isto é que é uma conquista. e é como respirar, existir oxigénio e usarmos os pulmões, não se mete requerimento, faz-se e fica feito e não passa pela cabeça de ninguém que seja de outro modo.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)
terça-feira, abril 21, 2026
zonas de confronto
Balzac: «Nelas a vida e o movimento são tão tranquilos, que um estranho as julgaria desabitadas, se não encontrasse de súbito o olhar pálido e frio duma pessoa imóvel, cujo rosto meio monástico assoma a um parapeito, ao ruído de um passo desconhecido.» Eugénia Grandet (1833) - trad. Jorge Reis § Woody Allen: «Finalmente, em 1929, fomos juntos a Espanha, onde Hemingway nos apresentou a Manolete, que era tão sensível que quase parecia efeminado. Usava calças justas de toureiro ou, às vezes, de ciclista. Manolete era um grande, grande artista. Se não tivesse sido toureiro, a sua cortesia era tamanha que poderia ter sido um contabilista mundialmente famoso.» Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura (1966), «Memórias do Anos Vinte» - trad. Jorge Leitão Ramos § Simone de Beauvoir: «E se a submetermos a um exame sério, compreendemos que não conseguiria satisfazer: é apenas por preguiça que tanta gente recorre a ela. / Da mesma forma. não se pode culpar a estética existencialista em nome de princípios absolutos; essa estética não existe, uma vez que a literatura é aquilo que o homem faz que ela seja.» O Existencialismo e a Sabedoria das Nações (1948) - trad. Mário Matos § Génesis: «Deus disse: "Que a terra produza verdura, erva com semente, árvores frutíferas que dêem fruto sobre a terra segundo as suas espécies, e contendo sementes. E assim aconteceu. A terra produziu verdura, erva com semente, segundo a sua espécie, e árvores de fruto, segundo as suas espécies, com a respectiva semente. Deus viu que isto era bom.» Bíblia Sagrada (Missionários Capuchinhos) § Jane Austen: «Primeira Carta // De Isabel para Laura // Quão frequentemente, em resposta às minhas incessantes e repetidas súplicas de que daria à minha filha um ror regular das desventuras e venturas da sua vida, me declarou: "Não, cara amiga, jamais irei concordar com o seu pedido até que esteja longe do perigo de uma vez mais experimentar tais horrores."» Amor e Amizade (1790) - trad. Inês Fraga
1 verso de Fernando Assis Pacheco
«"Deste um nome de incêndio a certas palavras»
Cuidar dos Vivos (1963) - «Os amantes desencontrados»
segunda-feira, abril 20, 2026
2 versos de Rui Pires Cabral
«A esperança que nos junta é frágil / e breve é a estrela que nos guia.»
Capitais da Solidão (2006) - «Estrela do entardecer»
sábado, abril 18, 2026
sexta-feira, abril 17, 2026
1 verso de Rui Pires Cabral
«Uma palavra traz toda a diferença»
Capitais da Solidão (2006) - «Lisboa, Barcelona, Birmingham»
quinta-feira, abril 16, 2026
ainda o debate: a "crueldade"
Não li, não vi nem vi comentários ao "debate" entre Pacheco Pereira e Ventura, a que assisti em directo. Custa-me dar palco a um aldrabãozeco de feira sem escrúpulos, um vigarista intelectual; pareceu-me aliás, inútil. Nem a manada que o segue se impressiona nem os antagonistas precisam dele. Foi pedagógico para quem pretendesse dar o benefício da dúvida ao espertalhão? Não sei quem, a esta altura do campeonato, poderá ter dúvidas acerca da natureza do indivíduo.
Talvez tenha sido útil ficar demonstrado, à frente de todos, que a criatura não sabe debater, tem o estilo de uma peixeira da praça, de uma hortelã de feira franca (com o muito respeito que me merecem peixeiras -- devo contar com algumas, entre os meus antepassados de Veiros -- e todos os hortelãos).
"Aquela revolução foi uma vergonha!" -- a melhor frase do Ventura naquela noite, até porque lhe saiu sem ele estar à espera. Já sabíamos o que ele pensava sobre o 25 de Abril, mas vê-lo bolsar aleivosias é sempre profiláctico, e Pacheco Pereira apanhou-o na curva.
Mas a grande palavra foi a da crueldade que aqueles animais se permitem usar contra as pessoas. Lembrei-me disso hoje, quando saudei, como faço sempre, o varredor de rua hindustânico, que me responde com um sorriso, ou passando por uma turma em visita de estudo e vi quatro ou cinco jovens raparigas trajadas como foram educadas, com véu, claro, e fatos compridos, no meio dos colegas portugueses e outros ocidentais, que as ladeavam com toda a naturalidade. Senti por elas uma grande ternura, todas juntinhas, como se achassem mais seguras ou menos estranhas, talvez elas próprias processando ainda uma adaptação a uma realidade tão diferente dos seus costumes.
A crueldade destes tipos é insuportável; e ainda mais tratando-se de papa-missas, comedores de hóstias -- falsos cristãos, como bem disse Pacheco Pereira, e que no fundo, a não ser com extrema hipocrisia e falsidade, podem fingir reconhecer-se na mensagem cristã, tenha ela sido propalada por Leão XIV, Francisco ou Bento XVI. Ei-los deploráveis.
5 versos de Vergílio Alberto Vieira
«Tantas vezes me ocorreu já / quebrar o sol / na zincagem da sanzala, camaradas / Mas esta terra espanca-nos / de sede»
A Paixão das Armas (1983) - «Esta terra espanca-nos de sede»
quarta-feira, abril 15, 2026
4 versos de José Fernandes Fafe
«Seremos simples como as pedras são, / breve poema de que a hera é o mote: / contraste no linho de tear aldeão, / a víbora ensanguentada do chicote.»
A Vigília e o Sonho (1951) - «Dois poemas do sonho»
o que está a acontecer
«sardinhas em molho picante, nougat, doce de maçã, bolacha...Filhos da puta, ainda gozam ca malta! Se calhar esses finórios da administração julgam que isto é alguma excursão com pandeiretas e cervejas geladas... / -- Já vos disse para estarem calados -- rosnou o furriel, que parecia de todos o mais velho.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)
«Está certo. Parte-se carregado de coisas, elas vão-se perdendo no caminho. Se ao menos uma breve ideia. Não tenho. Não é bem a vida que faz falta -- só aquilo que a faz viver. Trago o carro para dentro, vou metê-lo na garagem.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)
«as ideias, meu amigo, são menores nos nossos dias. não importam. as liberdades também fazem isso, uma não importância do que se pensa, porque parece que já nem é preciso pensar. sabe, é como não termos sequer de pensar na liberdade. é um dado adquirido, como existir oxigénio e usarmos os pulmões.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)
terça-feira, abril 14, 2026
4 versos de João Miguel Fernandes Jorge
«Por vezes as cartas geográficas representam / uma aldeia marítima entre as rochas / muros brancos / onde uma criança desenha um barco esconde o mar.»
Alguns Círculos (1975), A Pequena Pátria (2002)
segunda-feira, abril 13, 2026
verbo Parabenizar
Eu parabenizo
Tu analfabeto
Ele saloio
Nós atentos, veneradores e obrigados
Vós nem carne nem peixe, antes pelo contrário
Eles perdoai-lhes que não sabem o que dizem
´
1 verso de Vergílio Alberto Vieira
«A pátria existe na carne»
A Paixão das Armas (1983) - «Ao ouvido do muro»
sábado, abril 11, 2026
sexta-feira, abril 10, 2026
2 versos de Rui Knopfli
«Palavras não as profiro / sem que antes as tenha encantado»
O Corpo de Atena (1984) - «Metodologia»
quinta-feira, abril 09, 2026
o que está a acontecer
«não se preocupe, continuou, a conversa é mais para o distrair e, se ficar distraído sem reacção, também não lho levo a mal. é o que fez a liberdade, acrescentou. um dia estamos desconfiados de tudo, e no outro somos os mais pacíficos pais de família, tão felizes e iludidos, e podemos pensar qualquer atrocidade saindo à rua como se nada fosse, porque nada é.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)
«Soriano ouvia, com interesse, o filho, enquanto utilizava a língua como um palito, ora empolando a face direita, ora a esquerda. Mas já Mercedes saía do quarto, sempre com movimentos apressados. Tinha avivado o pó-de-arroz e dado um jeito mais gracioso ao seu cabelo; no braço trazia uma pele de raposa.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)
« -- Chiu! -- mandou o furriel, chefe da equipa de cinco soldados. -- Vocês querem que os "turras" saibam que estamos aqui? -- interrogou com cara de poucos amigos. E sentenciou: -- Vamos lá a falar baixo. // -- "Chouriço de carne em óleo de mendobi", que raio será esta mistela avermelhada?... -- interrogava-se o Torrão, um soldado lingrinhas, uns olhos escuros de pardal brilhando debaixo da pala do quico, lendo o papel amarelo onde estava escrita a ementa:» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)
3 versos de Maximiano Gonçalves
«Nada mais natural / Do que fazer uma coisa / Pela última vez.»
Ouvir a palavra (2017)
quarta-feira, abril 08, 2026
4 versos de Manuel Matos Nunes
«Cavaleiro defenestrado do real, / puro insurgente tão fora / da ordem estabelecida // como qualquer revolucionário.»
Insolúvel Flautim (2023) - «Não matarei D. Quixote»
os americanos nunca desiludem
Podem fazer as piruetas que entendam, mas a verdade é que a maior potência militar irá sentar-se na sexta-feira, em Islamabad, à mesa das negociações, para conseguir o que poderia ter obtido há um mês e tal.
Ou seja: a confirmar-se as notícias que estão a sair, há um vencedor desta guerra de cinco semanas, o regime dos aiatolas. Os americanos, de facto, nunca desiludem.
terça-feira, abril 07, 2026
cheira a sangue no tabloidismo televisivo
No Now, ontem à noite, insersor alerta para a série "Inferno no Irão", assim tal e qual, à espera da mortandade, como qualquer necrófago; o mesmo a CNN-Portugal, relógio em contagem decrescente, excitação para as massas; imagino a sic, mas raramente passo por lá; talvez a RTP seja mais parcimoniosa, não reparei.
7 versos de Pedro Tamen
«Ao frio do sal que sob os pés sentiam / e à escuridão mais fundo, ao sonolento / e bruto som da corda e da madeira, / às dores de fome e ao gemido fraco / duma saudade parda, à solidão / sem espelho, à gula insaciada, ao medo // -- a tudo combatia uma paixão»
Depois de Ver (1995) - «Os nautas»
segunda-feira, abril 06, 2026
serviço público - Viriato Soromenho Marques
O que fizemos com a nossa liberdade? -- «Voltaremos ao mar. Não como conquistadores, nem como vassalos, mas como iguais, junto aos povos que lutam pela justiça e pela paz.»
3 versos de Manuel Bandeira
«Amor -- chama e, depois, fumaça... / Medita no que vais fazer: / O fumo vem, a chama passa...»
A Cinza das Horas (1917) - «Chama e fumo»
domingo, abril 05, 2026
zonas de conforto
Machado de Assis: «Pela janela viu na janela dos fundos de outra casa dous casadinhos de oito dias, debruçados, com os braços por cima dos ombros, e duas mãos presas. Mestre Romão sorriu com tristeza. / -- Aqueles chegam, disse ele, eu saio. Comporei ao menos este canto que eles poderão tocar...» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» António Ferro: «Os vestidos são os cartazes do corpo.» Teoria da Indiferença (1920) § Fialho de Almeida: «Nenhum canto de natureza infecundo!, o mesmo amor que sobe da terra, a revigorentar os arvoredos, comunica-se aos ninhos, cinge os casais de pássaros, extravasa no ar como nafta de bodas bíblicas, e comunica-se, aspira-se, vai-se infiltrando em toda a parte. Eu bem na sinto! Eu bem na sinto!» O País das Uvas (1893) - «Pelos campos» § Maria Gabriela Llansol: «["] É o instante físico, dilacerante, em que subo a um monte, e desço um declive. / É um sentimento incrível, o que estás a viver -- diz-me Eckhart, acusando-me com um sorriso. / Mas a sua companhia é doce, ágil, vai dando voltas ou descrevendo curvas à altura do meu sofrimento.» Sintra em Passo de Pensamento (póst., s.d.) § Branquinho da Fonseca: «É até, talvez, a única coisa sobre que tenho ideias firmes e uma experiência suficiente. Mas não vou filosofar; vou contar a minha viagem à serra do Barroso. / Ia fazer um sindicância à escola primária de V...» O Barão (1942) § Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano (1973): .../... «Dizem-me que se suspeita de uma ligação entre a iniciativa que conduziu aos actos efectuados na capela e a deflagração de explosivos, acompanhada da divulgação de panfletos, ocorrida no dia 31 de Dezembro. Gostaria, porém, de assegurar a V. Ex.ª que, conhecendo de muito perto, como V. Ex.ª sabe, o Prof. Francisco Moura, com quem tenho muito contacto, estou talvez melhor colocado que ninguém para poder considerar completamente absurdo que acerca dele se possa pôr a hipótese de ter qualquer relação com organizações cujos meios de acção sejam dessa natureza.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano (1985) - ed. João Freire Antunes
sábado, abril 04, 2026
sexta-feira, abril 03, 2026
o que está a acontecer
«um povo assim, está a perceber. pousou a caneta. queria tornar inequívoca aquela ideia e precisava de se assegurar da minha atenção. não tenho muita vontade de falar, sabe, senhor, estou um pouco nervoso, respondi.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)
«Soriano e o filho ergueram-se também. O taque-taque do relógio parecia mais nítido, mais corajoso, à medida que o iam deixando sozinho. Os dois detiveram-se no corredor. Paco comentava os numerosos palacetes que estavam a ser construídos em San Rafael, para elementos do Partido Radical.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)
« -- O filho da mãe que fez as correias tão estreitas é que devia andar aqui no mato a amargá-las com um saco às costas -- resmungou um soldado. / -- De-de-ve ser pa-pa-ra pou-pou-par -- gaguejou outro em resposta. / -- Chiu! -- mandou o furriel, chefe da equipa de cinco soldados. -- Vocês querem que os "turras" saibam que estamos aqui? -- interrogou com cara de poucos amigos. E sentenciou: vamos lá a falar baixo.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)
3 versos de Manuel Alegre
«Trago palavras como bofetadas / e é inútil mandarem-me calar / porque a minha canção não fica no papel.»
Praça da Canção (1965) - «Apresentação»
quinta-feira, abril 02, 2026
Henrique de Barros (1904-2000), Presidente da Assembleia Constituinte
1 verso de João Miguel Fernandes Jorge
«O mar em vez de nós.»
Alguns Círculos (1973) / A Pequena Pátria (2002)
zonas de confronto
Woody Allen: «Scott estava com uma grande problema de disciplina e, apesar de todos gostarem muito de Zelda, concordávamos que ela tinha um efeito adverso na sua obra, reduzindo a sua produção de uma novela por ano a uma esporádica receita de mariscos e a uma série de aspas.» Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura (1966) - «Memórias dos Anos Vinte» - trad. Jorge Leitão Ramos § Simone de Beauvoir: «Por exemplo, não é verdade que a massa dos opositores do existencialismo olhe o mundo com olhos ingénuos; apreendem-no através desses lugares-comuns que constituem a Sabedoria das Nações, incoerente, contraditória; essa sabedoria é, entretanto, uma visão do mundo que convém pôr em causa.» O Existencialismo e a Sabedoria das Nações (1948) - trad. Mário Matos § Leonid Andreiev: «Nos dias de festa e bem assim todos os domingos, o Director mandava içar a bandeira nacional pra reozijo dos doentes. O facto provocava uma sensação estranha e feliz a que chamaríamos garridice na demência.» Os Espectros (1904) - versão de Manuel do Nascimento § Balzac: «Há em certas cidades da província casas cuja visão inspira uma melancolia igual à que nos causam os claustros mais sombrios, as charnecas mais estéreis ou as ruínas mais lúgubres. Talvez haja nessas casas, ao mesmo tempo, o silêncio do claustro, a aridez das charnecas e a desolação das ruínas.» Eugénia Grandet (1833) - trad. Jorge Reis § Génesis: «Deus chamou céus ao firmamento. Assim, surgiu a tarde, e, em seguida, a manhã; foi o segundo dia. / Deus disse: "Reúnam-se as águas que estão debaixo dos céus num único lugar, a fim de aparecer a terra seca". Deus, à parte sólida, chamou terra, e, mar, ao conjunto das águas. E Deus viu que isto era bom.» Bíblia Sagrada (Missionários Capuchinhos) § Geneviève de Gaulle Anthonioz: «De súbito, passou a haver apenas o feixe de uma lanterna, o rosto assustado da nossa chefe de barracão, a ordem rouca para me levantar e a sombra de dois SS. Pesadelo ou realidade? Baty e Félicité, as minhas vizinhas de enxerga, despertaram. Juntaram alguns objectos, entre os quais o meu púcaro e a minha gamela, ajudaram-me a descer do beliche, beijaram-me. Que sorte me espera?» A Travessia da Noite (1998) - trad. Artur Lopes Cardoso
quarta-feira, abril 01, 2026
Vitorino Nemésio, escrever como se respira
Vitorino Nemésio (1901-1978) é, consabidamente, um dos maiores escritores portugueses, não apenas do século passado. Grande como poeta, ensaísta, historiógrafo, atrevo-me a dizer (e não sou o único), que escreveu o mais extraordinário romance da nossa literatura, Mau Tempo no Canal (1944). É um real atrevimento, sabendo que poderíamos convocar para esta distinção umas boas duas dezenas, pelo menos, de outras extraordinárias narrativas. A Nemésio eu poderia juntar, sem dificuldade um ou mais títulos de Camilo, Júlio Dinis, Eça, Aquilino, Castro, Redol, Manuel da Fonseca, Vergílio Ferreira, Sena, Saramago, Cardoso Pires -- os grandes romances dos grandes.
Sem justificar, como deveria, a minha escolha por esta obra(-prima) do poeta de O Bicho Harmonioso (1938), apetece-me aludir ao seu estilo, que nos aparece como uma dádiva: Nemésio escreve como respira, sem se dar por isso, do mais trivial às mais profundas elucubrações, do breve registo oral às mais inesperadas ou cintilantes metáforas, com a naturalidade da água que corre; o que não sucede com a maioria dos seus pares, incluindo os atrás referidos, a não ser nos seus grandes momentos, que felizmente abundam. Como Nemésio, muito poucos me dão essa sensação num romance encorpado como a história de Margarida Clark Dulmo e João Garcia; talvez, apenas o melhor Eça, e Machado de Assis, do outro lado do Atlântico.
1 verso de José Fernandes Fafe
«Janelinha triste, escorrendo água,»
A Vigília e o Sonho (1951) - «Quase lírica»
terça-feira, março 31, 2026
3 versos de Camões
«Entre gentes tão poucas e medrosas, / Não mostra quanto pode, e com razão, / Que é fraqueza entre as ovelhas ser leão.»
Os Lusíadas (1572) - Canto I-68
segunda-feira, março 30, 2026
Trump, esta anedota
Não me lembro de quem, mas tenho pena: ontem um comentador numa estação fez notar que Trump -- tão bem enrolado pelo Netanyahú (e, quiçá, pelo próprio MBS) -- está a enviar toda aquela tropa para o Golfo Pérsico para forçar a abertura do Estreito de Ormuz, que estava aberto antes de começar este carnaval... Maior brilhantismo é impossível.
Antes, tínhamos um senil manipulado por falcões, Joe Biden; agora um tipo que não é estúpido, antes um mitómano doido varrido, rodeado de yes men. Num caso e noutro, ambos patifórios.
Escusado será dizer que quero muito que eles levem nas lonas. Veremos. Quem vai pagar as favas será Cuba, que passará do comuno-tropicalismo para os bons velhos tempos em que a ilha era um vasto casino e uma colorida casa de putas da máfia e demais elite n-americana.
4 versos de José Alberto Oliveira
«As buzinas dos carros proclamam / a vossa pressa de chegar a casa, / a um jantar desatento, / a caminho do sono.»
Mais Tarde (2003) - «Manifesto»
o que está a acontecer
«1. o fascismo dos bons homens - somos bons homens. não digo que sejamos assim uns tolos, sem a robustez necessária, uma certa resistência para as dificuldades, nada disso, somos genuinamente bons homens e ainda conservamos uma ingénua vontade de como tal sermos vistos, honestos e trabalhadores.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)
« -- O que me importa e irrita é essa mania que tu tens de achar bom tudo quanto é estrangeiro e mau tudo quanto é espanhol. Mas não me admira nada; mesmo nada; todos os teus correligionários são assim... / Soriano contemplava-a com esse sorriso complacente e irónico de quem não está disposto a melindrar-se. Ela levantou-se da mesa e caminhou apressadamente para o seu quarto.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)
«Examina-se com mais minuciosidade, mas com menos entusiasmo; analisa-se mais e melhor; porém a própria análise é a prova de que se sente menos. Onde domina o sentimento e a imaginação, mal têm cabida a paciência e fleuma, necessárias aos processos analíticos. O homem positivo e frio recolhe de qualquer excursão à pátria com a carteira cheia de apontamentos; o entusiasta e poeta nem uma data regista. Viu menos, sentiu mais.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)
domingo, março 29, 2026
sexta-feira, março 27, 2026
quinta-feira, março 26, 2026
2 versos de Florbela Espanca
«Esmaguei meu coração / Para o triste te esquecer,»
Trocando Olhares (póst., 1994)
quarta-feira, março 25, 2026
1 verso de Antero de Quental
«Deu-te o Senhor, mulher! o que é vedado,»
Sonetos Completos (1886) - «A M. C.»
terça-feira, março 24, 2026
o que está a acontecer
«Só pelo preço de muitas jornadas se compra o hábito de ficar impassível no meio dos episódios destas pequenas odisseias, que atormentam e exaurem o ânimo dos Ulisses novatos; mas ai, quando se adquire esse hábito, também nos achamos já com a sensibilidade mais embotada para as comoções do belo.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)
«Porém, e este ponto de doutrina só raros o desconhecem, sobretudo se pertencerem à geração veterana, o cão Cérbero, que assim em nossa portuguesa língua se escreve e deve dizer, guardava terrivelmente a entrada do inferno, para que dele não ousassem sair as almas, e então, quiçá por misericórdia final de deuses já moribundos, calaram-se os cães futuros para toda a restante eternidade, a ver se com o silêncio se apagava da memória a ínfera região.» José Saramago, A Jangada de Pedra (1986)
«Ao ver a expressão da irmã, Soriano julgou adivinhar nela uma discordância que se continha por falta de tempo para discutir. / -- Há muitas excepções, é claro, e tu és uma delas... -- acrescentou ele a sorrir. / Não é isso o que me importa -- interrompeu Mercedes, pousando a chávena.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)
os persas...
Esqueçamo-nos dos aiatolas (mas não das suas malfeitorias); isto já são os velhos persas. Trump, borradíssimo, engole a própria basófia. Ou então prepara-se para ludibriar os iranianos outra vez. Mas quem se deixa ludibriar por Trump três vezes? Se este meter a viola no saco, o estreito de Ormuz será uma espécie de Termópilas para o estado do Golfo Pérsico, ou um novo David contra Golias.
1 verso de Fernando Assis Pacheco
«Com peso triste caminha na rua o Outono.»
Cuidar dos Vivos (1963) -- «Tentas, de longe»
segunda-feira, março 23, 2026
terrorismo(s)
Sendo contra toda a forma de coacção, seja ela violenta ou insidiosa , política e/ou religiosa, venha das igrejas ou das associações cívicas, só espero que o energúmeno que se atreveu a lançar um cocktail molotov para dentro de uma marcha que se autointitulava "pró-vida", e que tem todo o direito a manifestar-se publicamente, seja exemplarmente indiciado, acusado, julgado e condenado a uma pena pesada, seguida de obrigatoriedade de reeducação, para servir de exemplo aos patetas de esquerda e de direita.
Eu não ignoro que estes movimentos de fanáticos religiosos chamados "pró-vida" exercem uma coacção psicológica aviltante, ilegítima e ilegal junto de mulheres que planeiam abortar, seja por que razão for. Isto e um certo laxismo tolerante das autoridades para com estas práticas criminosas não pode ficar em claro.
Aceito que por razões éticas se faça campanha e procure influenciar a opinião pública contra ou a favor do aborto e da eutanásia. Já manifestações religiosas nesse sentido, parece-me mais complicado -- a religião é sem dúvida o ópio do povo, mas pode ser também o conforto do indivíduo ou o amparo e resistência de um povo (Timor-Leste). Tenho muitas questões éticas em relação ao aborto, mas considero que é em primeiro lugar um assunto que diz respeito a cada mulher; por outro lado, sou ferozmente pró direito à eutanásia e desprezo quem procure impor lixo religioso para impedir-me de poder escolher o meu fim.
Cada um tem o direito de acreditar ou não acreditar no que quiser, sem ser chateado nem chatear ninguém -- mas ninguém tem o direito a impor as suas convicções ou crendices a terceiros. Este imbecil que procurou atentar contra a integridade física dos manifestantes, além de ser um fanático de outro tipo, conseguiu, por exemplo, desviar as atenções das manifestações pela habitação que se realizaram em vários pontos do país; sem contar que está a dar gás às organizações de extrema-direita cuja violência está a deixar de ser larvar. Além de criminosamente fanático, é estúpido.
domingo, março 22, 2026
sexta-feira, março 20, 2026
projectos-lei do PSD, do CDS e do Chega -- é um dia bom
Restringir a demagogia e a estupidez deste activismo de manicómio; e já agora, proteger as famílias dos joõescostas & outras alimárias que se incrustam no aparelho de estado.
2 versos de Alexandre Dáskalos
«Só no silêncio o coração murmura / e desliza a vida para o que a alma quer.»
Poesia (1961)
quinta-feira, março 19, 2026
2 versos de Alberto de Lacerda
«Lembras-te da nuvem que tangia / de transparência as cavernas da terra?»
Opus 7 / Oferenda II (1994)
quarta-feira, março 18, 2026
terça-feira, março 17, 2026
1 verso de Manuel Matos Nunes
«Amou, floriu, morreu.»
Insolúvel Flautim (2023) - «João Bensaúde, quase heterónimo de José Régio»
segunda-feira, março 16, 2026
cada cavadela, cada minhoca -- são uma anedota estes americanos
Depois de acharem que poderiam não só derrotar como partir a Rússia aos bocados, usando os neonazis que tomaram conta da Ucrânia ocidental --, estes nabos em Washington viraram-se para o Irão (bem manipulados por Netanyahu), crendo que os aiatolas eram palhaços do tipo Maduro, e que a velha Pérsia, com milénios em cima e habituados a bater-se contra gregos, romanos, mongóis, otomanos e russos, iriam facilitar e não vender cara a pele.
E de tal maneira, que Trump já está em pânico de poder atolar-se ali, tendo começado a coagir os idiotas úteis da Europa e arredores, que tão prestimosos foram para com a administração alegadamente liderada pelo senil que o antecedeu.
Veremos se com tanta cordura solidária para com o nosso grande vizinho, ainda não seremos obrigados a enviar uma fragata -- afinal não somos da raça de Albuquerque, o Terríbil?...
2 versos de Armindo Reis
«Agitaram-se os cabelos / sobre as dunas. Estendida.»
Cântico Escorreito (2020) - «Sobre as dunas»
o que está a acontecer
«Outra coisa que igualmente não se sabe é por que mutações orgânicas teria passado o famoso e altissonante canídeo até chegar à mudez histórica e comprovada dos seus descendentes de uma cabeça só, degenerados.» José Saramago, A Jangada de Pedra (1986)
«Em Espanha não só se come tarde, mas também se come demasiado. Provavelmente, o nosso carácter violento deve-se, em grande parte, ao excessivo trabalho que damos ao fígado... E é ver as nossas mulheres... Tão bonitas, tão sedutoras antes dos trinta anos! Mas, depois dos trinta, porque jantam tarde e se deitam, quase todas, em seguida ao jantar, começam a exibir umas ancas tão prósperas como se fossem mães de toda a Humanidade...» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)
«A dureza do colchão, em que se dorme, do albardão ou selim sobre que se monta, o tempero ou destempero do heteróclito cozinhado com que se enche o estômago, a lama que nos incrusta até os cabelos, o pó que se nos insinua até os pulmões, o frio que nos inteiriça os membros, o sol que nos congestiona o cérebro, tudo então nos desafina o espírito, que trazíamos na tensão necessária para vibrar perante as maravilhas da natureza ou da arte.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)
domingo, março 15, 2026
sexta-feira, março 13, 2026
"uma proposição apodítica"
Com palavras de 7$50, o Ministério Público mandou arquivar o inquérito sobre os cartazes miseráveis, xenófobos, badalhocos e racistas (portanto, inconstitucionais e fora-da-lei) do Chega.
Que asnal falta de vergonha, que imbecilidade, que estrabismo e que espessa estupidez, como bem demonstra a professora de Direito Cláudia Santos (texto para arquivar).
"Uma proposição apodítica"... Arre!, que se lhes foi a inteligência toda com as descargas de autoclismo diárias do "Processo Marquês".
2 versos de José Alberto Oliveira
«uma tarde que outra (e os dias passam) / há percalços que nos traem»
Mais Tarde (2003) - «Quem Espera?»
quinta-feira, março 12, 2026
quarta-feira, março 11, 2026
2 versos de Rui Pires cabral
«inopinada a nossa casa (onde só podemos ser / o que fomos) chama por nós de outro tempo,»
Capitais da Solidão (2006) - «1992»
zonas de conforto
Machado de Assis: «O princípio do canto rematava em um certo lá; este lá, que lhe caía bem no lugar, era a nota derradeiramente escrita. Mestre Romão ordenou que lhe levassem o cravo para a sala do fundo, que dava para o quintal: era-lhe preciso ar.» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de Esponsais» § Maria Gabriela Llansol: «Lembro-me de uma tarde sob o sol e sobre o mar; a intensidade amorosa era tão grande que peguei num papel qualquer que ali se encontrava à mão e, mal lhe toquei, veio-me -- digamos à memória -- a presença estática e vibrante de alguém, e escrevi: "Eu tenho o corpo com dores, atraído pelo feminino e pelo masculino, pela memória antiquíssima da variedade dos géneros.» Sintra em Passo de Pensamento (póst., s.d.) - «Escrita e viagem» § Aquilino Ribeiro: «Mas rei a valer, e nenhum rei de copas, ali... de ceptro em punho, todos ajoelhados diante de mim a lamber-me os butes, sabendo que o era, pois rei era eu sem o saber. Que menos, com o rapariguedo à volta: Antoninho, cravo roxo! saúde de cavalo, açafate o que se chama farto, caminhos desimpedidos?! / Que o mundo é outro -- apregoa para aí o mestre-régio. -- Virou para melhor...» O Malhadinhas (1922) § Fialho de Almeida: «-- Eu bem na sinto!, eu bem na sinto! / E os dias lúcidos vão inundar de tonalidades esses subsolos de florestas da província. Uma virgindade cerra as espessuras e imacula as sombras das árvores, cuja cúpula, por cima, estrela o azul impecabilíssimo do céu. E pelas ramas que se engalfinham, se enlaçam, procuram frémitos de asas num mistério de núpcias.» O País das Uvas (1893) - «Pelos campos».§ Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano (1973): .../... «Aliás, o Prof. Moura esteve ausente do País nos dias que os precederam e não teve deles conhecimento até ao momento em que as pessoas já preocupadas com a direcção que os mesmos estariam a seguir lhe pediram para comparecer. Chegou à capela cerca de uma hora e meia antes da intervenção policial e durante esse período limitou-se a assistir em silêncio ao que se estava passando.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano (1985) - ed. João Freire Antunes § António Ferro: «A Vida é o atelier do Artista.» Teoria da Indiferença (1920)
terça-feira, março 10, 2026
começar com o pé direito
Nunca ouvira falar de Mourísia, no concelho de Arganil, aldeia que esteve cercada pelas chamas no Verão passado. A desertificação do interior é um dos maiores problemas do país, e dos mais demorados e difíceis de resolver. Imagino o quão gratificante terá sido para aquela população -- e, por extensão, para todas a Mourísias da nação -- o acto simbólico da visita de António José Seguro, no dia seguinte à sua tomada de posse.
3 versos de Maximiano Gonçalves
«Está muito bem que fales da Palavra / Com palavras. / Mas ouve-a, antes,»
Ouvir a Palavra (2017) - «Ode à Palavra»
segunda-feira, março 09, 2026
o que está a acontecer
«Não, não queria ficar na terra perversa donde partia, esbulhado e escorraçado, aquele rei de Portugal que levantava na rua os Jacintos! Embarcou para França com a mulher, a sr.ª D. Angelina Fafes (da tão falada casa dos Fafes da Avelã); com o filho, o Cintinho, menino amarelinho, molezinho, coberto de caroços e leicenços; com a aia e com o moleque.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)
«Como se teria formado a arreigada superstição, ou convicção firme, que é, em muitos casos, a expressão alternativa paralela, ninguém hoje o recorda, embora, por obra e fortuna daquele conhecido jogo de ouvir o conto e repeti-lo com vírgula nova, usassem distrair as avós francesas a seus netinhos com a fábula de que, naquele mesmo lugar, comuna de Cerbère, departamento dos Pirenéus Orientais, ladrara, nas gregas e mitológicas eras, um cão de três cabeças que ao dito nome de Cerbère respondia, se o chamava o barqueiro Caronte, seu tratador.» José Saramago, A Jangada de Pedra (1986)
«As pequenas impertinências, em que se não pensa antes, que se esquecem depois, ou que a saudade consegue até doirar e poetizar a seu modo; esses microscópicos martírios, que de longe não avultam, actuam-nos, na ocasião, a ponto de nos inabilitar para o gozo do que é realmente belo.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)
2 versos de Carlos Matias
«A melodia canta neve e alegria. Falcões / transportam visões ligeiras. Aves, flores, cores.»
Luz Triste (2005)
domingo, março 08, 2026
sexta-feira, março 06, 2026
Zelensky a pisar ainda mais o risco
Não sei se é para que se lembrem dele, agora que estamos todos virados para o Golfo Pérsico, mas, ao ameaçar Orbán, Zelensky nem na União Europeia tem lugar.
Estou curioso para ver a reacção: provavelmente, a cúpula da UE assobiará para o lado, fazendo de conta que não foi nada; o mesmo em relação aos chefes de estado e de governo. Mas é possível que alguém que não Fico (um socialista que os me(r)dia classificam como populista...) ou Salvini; talvez a Europa ainda tenha governantes decentes que ponham o Zelensky na ordem.
2 versos de Manuel Alegre
«só cantando se pode incomodar / quem à vileza do segredo nos obriga.»
Praça da Canção (1965) - «Apresentação»
zonas de confronto
Leonid Andreiev: «O hospital onde Pomerantzev fora internado era uma acolhedora casa de campo à entrada de um pequeno bosque lindante com a estrada que conduzia à cidade. Distava desta umas quantas centenas de metros. O telhado era muito alto e sugeria um machado de gume voltado para o solo.» Os Espectros (1904) - versão de Manuel do Nascimento § Woody Allen: «Nos anos seguintes, a minha amizade com Scott foi crescendo, e muitos amigos comuns julgaram que ele baseara o protagonista da última novela na minha pessoa e que eu baseara a minha vida na sua novela anterior e acabei sendo considerado como uma personagem de ficção.» Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura (1966) - «Memórias dos Anos Vinte» - trad. Jorge Leitão Ramos § Simone de Beauvoir: «Hoje em dia, quando se ataca o existencialismo, não é geralmente contrapondo-lhe outra doutrina definida, mas antes recusando qualquer crédito à filosofia em geral. / Uma tal atitude está viciada desde a raiz, repousando em pressupostos que não são, nem axiomas a priori, nem leis experimentais, e que relevam eles próprios de uma filosofia.» O Existencialismo e a Sabedoria das Nações (1948) - trad. Mário Matos § Génesis: «Assim surgiu a tarde e, em seguida, a manhã; foi o primeiro dia. / Deus disse: "Haja um firmamento entre as águas para as manter separadas umas das outras." Deus fez o firmamento e separou as águas que estavam sob o firmamento. E assim aconteceu.» Bíblia Sagrada (Missionários Capuchinhos) § Ivo Andrić: «Assim, olhando à distância, parece que é dos arcos amplos daquela ponte branca que brota e se alastra não só o verde Drina, mas também essa planura fértil e mansa, com tudo o que nela existe bem como os céus meridionais por cima.» A Ponte sobre o Drina (1945) - trad. Lúcia e Dejan Stanković § Geneviève de Gaulle Anthonioz: «A porta fechou-se pesadamente. Estou só, na noite. Mal me consegui aperceber das paredes nuas da cela. Tacteando, encontro a tarimba de madeira e a sua cobertura rugosa e estendo-me sobre ela, tentando regressar ao sonho interrompido: há pouco, caminhava por um caminho iluminado pela Lua, uma luz tão doce, tão benfazeja, e havia vozes que me chamavam.» A Travessia da Noite (1998) - trad. Artur Lopes Cardoso
quinta-feira, março 05, 2026
António Lobo Antunes, para mim
Apanhei o Lobo Antunes no início dos anos 80. Surge num período de renovação da ficção portuguesa, nos temas e modo de narrar, atingindo um público mais vasto (Dinis Machado, João de Melo, Carlos Vale Ferraz), embora exemplos houvesse já de fuga ao rame-rame discursivo com Nuno Bragança e, antes de todos, Ruben A. Antes de todos, o que não era para todos. Sim, obviamente Memória de Elefante e Os Cus de Judas (ambos de 1979). Com Auto dos Danados (1985), tornou-se para mim evidente que estávamos diante de um grande. Depois distanciei-me, nem sei bem porquê -- necessidade de ler outras coisas e outros autores, provavelmente. Fui mantendo contacto com as crónicas, sempre de nível alto, embora outros cronistas tivessem a minha preferência, por exemplo Augusto Abelaira ou Vasco Pulido Valente. Por vezes era surpreendido pelas letras de canções para o esplêndido Vitorino. Aquelas diatribes com o Saramago irritaram-me, tornaram-.no mesquinho ao meus olhos. Se há coisa que não perdoo, sobretudo num escritor, é a mesquinhez. Lembro-me que o Ferreira de Castro, quando escreveu pela primeira vez sobre o Raul Brandão, afirmou que não o conhecia nem queria conhecê-lo, precisamente por isto. (É claro que viriam a relacionar-se.) Há poucos anos li o Sôbolos Rios que Vão (2010), que alguns apontam como o seu grande livro dos últimos anos. Não me parece, mas não serei taxativo sem uma releitura. Não trocaria uma página do Autos dos Danados por todo o Tôdolos; como não troco o Finisterra pelo Uma Abelha na Chuva, do Carlos de Oliveira. Continuarei com livros do Lobo Antunes ao longo da vida, os mesmos livros e certamente outros. É o melhor que os escritores nos deixam; é só, na verdade, o que realmente interessa.
2 versos de João Miguel Fernandes Jorge
«Para compreender e tornar transparente esta cidade é necessário seguir, / noite fora, ruas e praças.»
Alguns Círculos (1975)
quarta-feira, março 04, 2026
3 versos de Vergílio Alberto Vieira
«Na fronte a unção da terra / a arma, o dólman / guardando dentro o coração»
A Paixão das Armas (1983) - «Sobre o Clamor das Fardas»
o que está a acontecer
«Quando Joana Carda riscou o chão com a vara de negrilho, todos os cães de Cerbère começaram a ladrar, lançando em pânico e terror os habitantes, pois desde os tempos mais antigos se acreditava que, ladrando ali animais caninos que sempre tinham sido mudos, estaria o mundo universal próximo de extinguir-se.» José Saramago, A Jangada de Pedra (1986)
«Explica-se bem esta diferença, dizendo que o cavaleiro era um elegante rapaz de Lisboa, que fazia então a sua primeira jornada, e o outro um almocreve de profissão. / O leitor provavelmente há-de ter jornadeado alguma vez; sabe portanto que o grato e quase voluptuoso alvoroço, com que se concebe e planiza qualquer projecto de viagem, assim como a suave recordação que dela guardamos depois, são coisas de incomparavelmente maiores delícias, do que as impressões experimentadas no próprio momento de nos vermos errantes em plena estrada ou pernoitando nas estalagens, e mormente nas clássicas estalagens das nossas províncias.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)
«E quando soube que o sr. D. Miguel, com dois velhos baús amarrados sobre um macho, tomara o caminho de Sines e do final desterro -- Jacinto "Galeão" correu pela casa, fechou todas as janelas como num luto, berrando furiosamente: / -- Também cá não fico! Também cá não fico!» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)




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