«essas coxas, meias de malha, mãos / de louça antiga, sardas e / que boca, que madrugada adolescente.»
Bastardo (2012) /
/ Resumo - A Poesia em 2012 (2013)
conservador-libertário, uns dias liberal, outros reaccionário. um blogue preguiçoso desde 25 de Março de 2005
«essas coxas, meias de malha, mãos / de louça antiga, sardas e / que boca, que madrugada adolescente.»
Bastardo (2012) /
/ Resumo - A Poesia em 2012 (2013)
«O rio que acabei de cruzar no último ferry apanhado no aeroporto de Hong Kong, nesta tarde de tufão, já com o sinal três de tempestade tropical hasteado. Viagem de enjoo, sobressalto constante, a surfar as vagas, numa alucinada vertigem.» Dora Gago, Quem Rasgou os Meus Lençóis de Linho? (2026)
«Que requintes de luxo para o corpo, e anelos de glória para a felicidade do espírito lhe não infloravam ao poeta de Elvira a dupla existência, quando ele escrevia: Héritiers des douleurs, victimes de la vie, / Non, non, n'espérez pas que sa rage assouvie / Endorme le Malheur,» Camilo Castelo Branco, O Romance dum Homem Rico (1861)
«Ele olhava, bestificado, as camas de ferro, os armários a pedir cadeado, as lajes frias e os colegas a despirem-se com ares de condenados. / -- Qual Cavalaria? -- perguntou com um ar imbecil -- Isto até me parece muito asseado. / -- A gente depois conversa. -- rosnou o Zé puxando a manta até aos olhos.» Abílio Teixeira Mendes, Henda Xala (1984)
«também me parece / que muitos poetas / não querem dizer / o que dizem / quando dizem / o que querem»
De Nada (2012) /
/ Resumo - A Poesia em 2012 (2013)
A propósito da rebaldaria de Ceuta, com evidente intervenção da CIA -- só um anjinho não o vê --, não sei se em joint venture com a Mossad e a cumplicidade vergonhosa do próprio Marrocos em dia de aniversário de entronização de Mohamed VI, que deveria pintar a cara de preto, por monarca de um reino de onde os súbditos querem fugir --, a propósito de tal acontecimento vieram a católica nacionalista Meloni e a social-democrata Frederiksen falar daquilo que as preocupa, a imigração.
Não serei eu quem dirá que a imigração, de que tanto gosto -- mas dum gostar diferente do dos hoteleiros, empreiteiros e agricultores --, não acarreta problemas para os quais o país não está(va) preparado. Mas sem nunca fazer o jogo do Tullius Detritus.
Dizem as senhoras que são orgulhosas das raízes cristãs da Europa; pois eu também! Portugal fez-se com as milícias dos reis e com a Igreja. Mas também me orgulho muitíssimo da herança muçulmana, como deve suceder com todo o português patriota.
Vivo em Cascais, um concelho cheio de topónimos árabes, o mais importante dos quais será Alcabideche (onde nasceram os meus dois netos), terra natal do grande poeta árabe do Século XI Ibn Muqana, concretamente, Abu Zayd'Abd ar-Rahmãn ibn Muqana al-Qabdaqui al-Lishbuni. Gosto tanto dos poetas, como das palavras e dos moinhos (e dos cavalos, e um longo etecetera...) nos deixaram. Dois dos livros da minha vida são os quatro volumes do Portugal na Espanha-Árabe, do transmontano António Borges Coelho e O Meu Coração É Árabe, antologia de poetas árabes nascidos no território que veio a ser Portugal, do lisboeta Adalberto Alves.
Como, de resto, tenho muito orgulho na nossa herança judaica, considerando que a expulsão e conversão forçada dos judeus no final do Século XV foi não só o maior crime que Portugal cometeu, como foi catastrófico para o país em todos os sentidos. E, já agora, também da céltica, da romana, da sueva e da visigótica. Sem esquecer que uma das palavras preferidas da minha língua é gajo, de origem cigana, como se sabe.
Não quer com isto dizer que seja tolerante para com a religião deles (muçulmanos), como não sou para com a nossa (cristãos), quando começam a exorbitar. A religião é da esfera íntima, pessoal e familiar, mais do que isso só deve ser tolerada pelo estado laico, ou por razões identitárias ou de Estado, como sucede, e bem, com a Igreja Católica.
Que Meloni se ufane da herança cristã da Europa, está no seu direito; tal como Frederiksen, que, no entanto, proclamando-se socialista não junte a estas formulações pias o orgulho na herança iluminista, que nos deu a fórmula que mantém toda a razão de ser, enquanto houver ser humano sobre a terra -- e que absolutamente nada substitui, Liberdade, Igualdade, Fraternidade, isso é que foi pena; e nós não o devemos deixar esquecer: a Razão antes de tudo e em política geral; fantasias celestiais & outras, é com cada um, desde que não nos chateiem.
«quem usa o sangue para escrever não consegue falar»
Resumo - A Poesia em 2012 (2013)
«1. O Regresso / Ainda os ouço, ainda os sinto, mesmo aqui, tão longe, do outro lado do mundo. Os seus passos a arrastarem-se, um restolhar de serpente ou de sombra no pasto seco. Mas não quero falar deles. Mais tarde, quem sabe? Agora, vou enterrá-los em sete palmos de silêncio, no lodo do Rio das Pérolas.» Dora Gago, Quem Rasgou os Meus Lençóis de Linho? (2026)
«Sentado na borda da cama, ombros baixos, o beiço superior fazendo um muxoxo de amuo, o Zé, filho de oficial, deixou escapar: / -- O meu velho tinha razão. Estamos quilhados. E logo nos havia de tocar a Cavalaria.» Abílio Teixeira Mendes, Henda Xala (1984)
«As comemorações dos setenta anos da fundação de Irisópolis e dos cinquenta de sua elevação a cidade, cabeça de comarca e sede de município, alcançaram certa repercussão na imprensa do sul do país. Se para tanto o dinâmico Prefeito despendeu de verba elevada, não incorre em crítica: tudo quanto se faça para para divulgar as excelências de Irisópolis, o passado de epopéia, o presente de esplendor, merece aplauso e elogio.» Jorge Amado, Tocaia Grande - A Face Obscura (1984)
«O frio dos Pirenéus e o aroma a traição / fazem-me regressar ao toque das tuas mãos.»
Resumo - A Poesia em 2012 (2013) - «Roncesvalles»
Deixo para quem interesse o historiar e o balanço da passagem do Fidel Castro pela terra. Nem faço ideia se a História o absolverá. O que sei, de saber certo, sobre Fidel Castro, foi ter sido alguém que, dirigindo um punhado de guerrilheiros, pegou num país que era uma cloaca dos Estados Unidos, casino e casa de putas dos mafiosos e do poder norte-americano, e deu dignidade e cabeça erguida a um país, um povo e uma bandeira. É comparar com a miséria latrino-americana em volta. Claro que há um deve e um haver, e não serei eu fazer do homem um santinho revolucionário, coisa que não existe, nem o Che Guevara. No entanto, antes cubano que nacional de quase tudo da américa-latinha de que os americanos gostam.
«Não estou contra / não vou contra / apenas subo um pouco / e desacelero»
Arte Nenhuma (2012) - «"Ich habe genug"» /
/ Resumo - A Poesia em 2012 (2013)
«Entrou nos recintos de Deus / um pouco desabrigado, mas de unhas limpas / e de peito aberto ao que viesse.»
De Amore (2012) /
/ Resumo -- A Poesia em 2012 (2013)
«Já tão pouco me resta dêsse fruto, / o qual não era ainda este enigma, / mas plena convulsão de gozo em bruto: / massa compacta a desenhar-se escrita»
Maçãs de Espelho (2012) - «Voto renovado de poesia» /
Resumo - A Poesia em 2012 (2013)
«Naquele tempo, a freguesia de Nossa Senhora do Rozário da Achadinha não era mais do que uma caganita de mosca, à qual se apontasse um dedo acima do dorso quase sempre verdoso do Atlântico, e a memória dos povoadores escorria ainda do basalto das calçadas e dos musgos marinhos.» João de Melo, O Meu Mundo não É Deste Reino» (1983)
«O "Avelona Star", de boa singradura, trouxera para a direita do seu casco o vulto negrusco que até aí apresentava pela linha de proa. Porto Santo avolumara-se, perdendo em mistério o que dava em relevo orográfico.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)
«Entrei numa das mais flácidas carruagens do comboio. / Vejam a egoísta e brutal natureza do homem-corpo! Nem quando a alma padecia tanto, se dispensou a ignóbil matéria dos regalos das almofadas! A angústia lamentosa; creio: mas em que recâmaras de asiática opulência se lamentava ele!» Camilo Castelo Branco, O Romance dum Homem Rico (1861)
«É feio apontar para fora de nós.»
Nós, os Desconhecidos (2012) - «É feio apontar» /
Resumo -- A Poesia em 2012 (2013)
«-- Que eu seja apenas Som que um outro cante / e, na renúncia de mim, / igual a mim um dia me alevante!...»
Serra-Mãe (1945) - «Harpa»
«Tendo-o visitado com intervalos que nunca excederam mais de quinze anos -- e, em geral, muito menos ainda --, foi-me lícito observar a vertiginosa ascensão daquela pátria e daquele povo entre as outras nações do continente americano.» João de Barros, Adeus ao Brasil (póst., s.d.) - «Brasil de hoje».
«Eu bem na sinto!, eu bem na sinto! E, apoiada sem peso ao nosso braço, a criatura vai vaporosamente, no silêncio duma ventura profunda, de olhos descidos, o rosto fino, e bons dias a esta árvore e àqueloutra, uma palestra sem fim com os carvalhos e velhos olmos.» Fialho de Almeida, O País das Uvas (1893) - «Pelos campos»
«E como não há macdames que resistam a este trânsito fantástico a que estão sujeitos os macdames do Norte da França, a legião dos que se empregam em os reparar constitui um verdadeiro exército, que trabalha sem descanso e cuida com desvelo de impedir que as estradas, trilhadas por toda a casta de veículos, se tornem intransitáveis.» Adelino Mendes, «A cidade d'Albert», A Capital, 29-III-1917, Repórteres e Reportagens de Primeira Página (s.d.)
«não tenho nome ou idade, / nem sequer um coração // para sofrer outra ofensa:»
Oráculos de Cabeceira (2009) - «"É bom viver na terra?"»
«Até me diz na carta que o pároco é um belo rapagão. De sorte que -- acrescentou sorrindo com satisfação -- depois de "Frei Hércules" vamos talvez ter "Frei Apolo". / Em Leiria havia só uma pessoa que conhecia o pároco novo: era o cónego Dias, que fora, nos primeiros anos do seminário, seu mestre de Moral. No seu tempo, dizia o cónego, o pároco era um rapaz franzino, acanhado, cheio de espinhas carnais...» Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro (1875/1880)
«No meio de tantos e tão cruéis vexames e padecimentos, o mais custoso e aborrecido de todos eles para os afeminados descendentes dos soldados de Teodorico, de Torismundo, de Teudes e de Leovigildo era o vestir as armas em defensão daquela mesma pátria que os heróis visigodos tinham conquistado para a legarem aos seus filhos, e a maioria do povo preferia a infâmia que a lei impunha aos que recusavam defender a terra natal aos riscos gloriosos dos combates e à vida fadigosa da guerra.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)
«Assim o povo que tem sempre melhor gosto e mais puro do que essa escuma descorada que anda ao de cima das populações, e que se chama a si mesma por excelência a Sociedade, os seus passeios favoritos são a Madre de Deus e o Beato e Xabregas e Marvila e as hortas de Chelas.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)
«Gorda, bojuda, de alongado pescoço / liso, macio veludo, recordo-a»
O Monhé das Cobras (1997) - «A moringa»
«A manhã era uma sombra, um desafio, / uma promessa ínvia: ela conhecia como ninguém / o fragor da distância, o remorso lívido do corpo, / o gume vivaz da vida por cumprir.»
Cadernos do Verão (2021) - «Irisalva»
Simone de Beauvoir: «Por detrás da política mais crua, mais linear, há sempre uma ética que se dissimula. É isso que descobrimos de forma evidente, assim que consideramos o caso concreto.» O Existencialismo e a Sabedoria das Nações (1948) - trad. Mário Matos § Honoré de Balzac: «Casas três vezes seculares ainda se conservam sólidas, apesar de construídas de madeira, e os seus diversos aspectos contribuem para a originalidade que recomenda esta parte de Saumur à atenção dos antiquários e dos artistas.» Eugénia Grandet (1833) - trad. Jorge Reis § Génesis: «Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o quarto dia. / Deus disse: "Que as águas sejam povoadas de inúmeros seres vivos, e que na terra voem aves, sob o firmamento dos céus." Deus criou, segundo as suas espécies, os monstros marinhos e todos os seres vivos que se movem nas águas, e todas as aves aladas, segundo as suas espécies.» Bíblia Sagrada (Missionários Capuchinhos)
«Se durar muito tempo, a popularidade acaba tornando a pessoa impopular» Millôr Fernandes, Pif-Paf (2004) - «Confúcio disse»
Camilo Castelo Branco a José Barbosa e Silva: «Meu caro José Barbosa // Mr. Óscar, pianista de grande merecimento, tenciona tocar em Viana. É escusado falar-te ao amor da arte, para o mover em coadjuvá-lo em tudo que estiver ao teu alcance. O cavalheiro, portador desta carta, é de si tão modesto, que, se o não auxiliarem, terá uma casa vazia. Esta carta vale para todos os nossos amigos -- // Teu do C / Camilo Cast.º Br.º» Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva (1984) - ed. Alexandre Cabral
«Estes continuavam ali, com as mãos presas e os braços passados nos ombros um do outro; a diferença é que se miravam agora, em vez de olhar para baixo. Mestre Romão, ofegante da moléstia e da impaciência, tornava ao cravo; mas a vista do casal não lhe suprira a inspiração e as notas seguintes não soavam. / -- Lá... lá... lá...» Machado de Assis, História sem Data (1884) -- «Cantiga de esponsais»
«1. A acreditar-se nos historiadores ibéricos, sejam espanhóis sejam portugueses, a descoberta das Américas pelo turcos, que não são turcos coisíssima nenhuma, são árabes de boa cepa, deu-se com grande atraso, em época relativamente recente, no século passado, não antes.» Jorge Amado, A Descoberta da América pelos Turcos (1994)
«Apertava-se o coração do pobre pai, ao lembrar-se que os sóis ardentes de Julho ou os tufões regelados de Dezembro haviam de encontrar sem abrigo aquele débil criança, que mais se dissera nascida e criada em berços almofadados e sob cortinados de cambraia, do que no leito de pinho e na grosseira enxerga da aldeia.» Júlio Dinis, As Pupilas de Senhor Reitor (1867)
«Quase dois contos atirados por água abaixo! / No topo da escada, esbatendo-se na penumbra, surgiu o abdome e logo o rosto avermelhado de Macedo, proprietário da "Flor da Amazónia". / Então, senhor Balbino? / -- Nada!» Ferreira de Castro, A Selva (1930)
«Quatro anos antes, o arcediago de Barroso, padre Leonardo Taveira, amigo velho do Sr. Silva, em expansiva conversa com o seu amigo, num domingo de tarde, nas hortas de Campanhã (onde semanalmente saturavam as respectivas massas adiposas com o excelente vinho verde de Cabeceiras de Basto), quatro anos antes, vinha eu dizendo, falava assim, com o seu amigo, o rubicundo arcediago: / -- Sabes tu, Silva, que me está dando bastante cuidado o futuro de Rosa!» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854)
Aqui. De acordo em 99% de tudo quanto diz. O caso Luís Neves, ou de como é fácil conspurcar tudo à volta; o estranho caso do assalto e vandalização do gabinete do Ventura; o novo aeroporto, decisões à portuguesa, o país lesado; a compra de caças última geração para atacar a Rússia (uma piada de péssimo gosto), a ausência de uma esquadrilha mínima para combate aos incêndios, como se fôssemos o Burkina Faso ou o Nepal -- o país traído.
«Oh caminho da vida nunca certo, / Que aonde a gente põe sua esperança / Tenha a vida tão pouca segurança!»
Os Lusíadas (1572)
«O fundo escuro / das paisagens, o lugar da alma, / a oblíqua forma / dos pensamentos ocultados.»
Verso Antigo (2001)
O assunto Luís Neves, explicadíssima a questão do atrelado, passou a não-assunto. Irrelevâncias políticas, porcariazinhas e peaners usados pelo populismo sem escrúpulos e aproveitado como subsídio alimentar, ganha-pão arredondado para alguns especialistas da "comunicação".
Como disse há pouco Fernando Medina no Now -- e de forma claríssima --, isto é não apenas um ajuste de contas do Ventura com o tipo que lhe desmontou o discurso oportunista, xenófobo e racista, como um aviso aos que estão a investigar o Chega em vários departamentos (financiadores, associação a grupos criminosos, e por aí fora) para se porem a pau quando se metem com a organização.
Nesta questão, só há uma posição política admissível (tanto mais que o ministro admitiu lapsos e incorrecções menoríssimas e que é esta: distanciamento da estratégia habilidosa do Ventura -- aqui Mariana Leitão a funcionar como a idiota útil do Chega -- e desmontagem da sua parlapatice. Porque é preciso ser-se muito estúpido ou muito ambicioso para fazer o jogo daqueles espertalhões, jogo que os prostiputos da "comunicação" ajudam a alimentar.
«E o teu silêncio / é de súbito um sino / tocado pelo vento / em todas as aldeias do meu sangue.»
O Canto e as Armas (1967)
«É irreal é excessivo o som do mundo do real»
Os Arredores do Mar, os Subúrbios da Noite (1993)
«A dor não me pertence. // Vive fora de mim na natureza / livre como a electricidade.»
Poeta Militante (1977) - «Melodia» (1932)
Millôr Fernandes: «Nada é mais falso do que uma verdade estabelecida.» Pif-Paf (2004) § Camilo Castelo Branco: «-- Eu não sou da tua família, ouviste, jacobino? -- replicou a velha; e, fazendo-lhe duas figas, acrescentou: -- Toma, que te dou eu, hereje! / -- Ó tio Luís! -- perguntou o pegureiro -- Vossemecê viu aí na Agra da Cruz uma cabra?» Maria Moisés (1876-77) § Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano (1973): .../... «De facto, além de dar sinais muito visíveis de contacto físico e moral, o Prof. Moura apresentou-se no parlatório com o cabelo cortado (!) e queixando-se de frio, sono e isolamento. Das suas palavras parece inferir-se que se encontra numa cela onde não entra a luz do sol. / Queira aceitar, Senhor Presidente, com as expressões da minha mais elevada consideração, os melhores cumprimentos do // A. Sedas Nunes» Cartas Particulares a Marcello Caetano, ed. José Freire Antunes (1985)
«A cada minuto a agitação crescia. Pregoava-se água fresca, pastelinhos, tâmaras. Dum primeiro andar, com tabuinhas verdes, logo abaixo do Circo, meninas de batas brancas convidavam : -- Psiu! não sobes, ó catitinha? -- aos janotas que passavam.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)
«Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei. E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as ânsias nem as dúvidas do moço príncipe, mas pausado e trôpego, como quem se retira tarde do espetáculo. Tarde e aborrecido.» Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)
«E, insistentes, aos ziguezagues: / -- Persegue-me, anda, persegue-me, que levas dois butes. / -- Lá isso, ouve-se outro a dizer na rua, lá isso não digo eu...Que ele há um deus que nos governa; é boa! / Eu entrava, cumprimentando os velhos conhecimentos. / -- Ditosos olhos, estudantinho, dizia um. / -- Ó seu seu casaca!, fazia outro.» Fialho de Almeida, A Ruiva (1878)
Não sei se o Tullius teve isso em mente quando anunciou a Comissão Parlamentar de Inquérito putestativa. Também aqui o Estado de Direito pode estar em causa. À atenção da DGS -- a DGS de agora, claro, claro...
«Se ao meu ouvido / Chega o rugido / Do teu vestido / Indo a roçar, / Que som me vibra / Não sei que fibra, / Que me equilibra / A mim no ar?»
Campo de Flores (1893) - «Casto lírio»
A não ser que algo de muito grave seja revelado sobre a acção do ministro enquanto director da PJ -- no que não acredito --, era o que faltava que o país embarcasse na campanha que o Tullius Detritus deliciadamente empreende contra Luís Neves, que tem mostrado ser o homem certo no lugar certo. O Tulius, os antigos colegas que querem fazer-lhe a folha e as peidorrices do comentariado que ganham a vida a doutar-nos com as suas doutíssimas perspectivas.
Não conheço o homem de lado nenhum, por isso estou à vontade; se o conhecesse, e continuasse a fazer dele a mesma ideia, o meu à-vontade talvez fosse ainda maior.
Pôr na grelha um tipo que fez um trabalho notável na Judiciária, que desmontou a lengalenga criminosa do Detritus sobre imigração e criminalidade, que é um operacional de primeira-água, só num país inviável... Acho muito bem que o governo o defenda e que a oposição séria se contenha, sem deixar de fazer o seu papel, que não é certamente andar a ver as facturas da brita.
«Meu Deus, dai-me esta calma, esta pobreza! / Dou por elas meu trono de Princesa, / E todos os meus Reinos de Ansiedade.»
Charneca em Flor (póst., 1931) - «Rústica»
Por cima do maior aquífero de água doce da Península Ibérica, e com um aeroporto já construído ao lado (Beja -- a muito menos de uma hora da capital em TGV), os zombies que há décadas governam continuam a empurrar o/um novo aeroporto às portas de Lisboa, o mesmo é dizer, na grande Lisboa.
Rebentar com o país, encher o bandulho aos industriais do turismo, aos empreiteiros e aos lacaios que lhes tratam das papeladas continua a ser o grande desígnio nacional.
Como velhíssimo do Restelo, lamento que o Camões continue a servir de fantoche a estes arautos do desenvolvimento e do crescimento -- na verdade da ganância mais desavergonhada.
«Das mulheres muito amigo: / Se o tomais nas mãos, vos digo / Que haveis de achá-lo sisudo; / Mas, sorumbático e mudo, / Sem que vos diga o que quer, / Vos haveis de oferecer / A seu serviço, contudo.»
Boca do Inferno - «A umas freiras que mandaram perguntar por ociosidade, ao poeta, a definição de Príapo, e ele lha mandou definido e explicado nestas décimas»
«Da Fundição para baixo tudo é prosaico e burguês, chato, vulgar e sensabor como um período da Dedução Cronológica, aqui e ali assoprado numa tentativa ao grandioso do mau gosto, como alguma oitava menos rasteira do Oriente.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)
«Alguns padres tinham-se escandalizado com o artigo; conversou-se sobre isso, acremente, diante do senhor chantre. / -- Não, não, lá que há favor, há; e que o homem tem padrinhos, tem -- disse o chantre. -- A mim quem me escreveu para a confirmação foi o Brito Correia (Brito Correia era então ministro da Justiça).» Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro (1875/1880)
«Tudo queria bilhete. Havia chapéus tombados, ombros que penetravam à cunha, braços arpoando vigorosamente os alizares castanhos dos postigos, mãos retirando triunfantes, muito erguidas, com um papelinho azul ao vento.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)
«Aprendeu cenas cubistas o cortar da madeira / chávenas toalhas dobrados guardanapos / trabalhos de sociedade anónima o triangular azul.»
O Regresso dos Remadores (1982)
«A voz saía de onde a garganta / termina e o coração começa.»
Nada Tão Importante que Não Possa Ser Dito (2007) - «Saídas de incêndio»
«Pisa as riquezas da perdição das almas / e tem os cabelos engrinaldados / por sobre o olhar de nuvem»
Cadernos do Verão (2021) - «A auxiliar da cozinheira Françoise»
«O pensamento cria / e ultrapassa / o seu próprio abismo»
A Idade da Escrita (1998) - «Cativo o ouvido vem»
«"Vós que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que têm honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor do nosso ilustre finado."* Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)
«As leis de Vamba e as expressões de Ervígio no duodécimo concílio de Toletum revelam quão fundo ia nesta parte o cancro da degeneração das Espanhas.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)
«O sangue materno girava-lhe mais abundante nas veias, do que o sangue cheio de força e vida, ao qual José das Dornas e Pedro deviam aquela invejável construção. / Votar Daniel à vida dos campos seria sacrificá-lo.» Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor (1867)
«No ano em que eu era comido pelo escorbuto / chegavam as tuas enviadas com limões de oiro»
Memórias do Contencioso (1976)
Na mesma frase, num livro de 2025 destinado a um público infanto-juvenil, escreve-se "espetáculo" [sic] e "espectadores". Não é erro de revisão, é propositado, para que "espectadores" não se transformem em espetadores.
Ninguém para com isto -- ou ninguém pára com isto? O estúpido do programa sublinha o pára a vermelho. "Como és belo, meu Portugal."
As obras do ministro. Estou-me epistemologicamente nas tintas para a puta da licença da piscina do ministro Luís Neves e para as suas obrinhas em casa. O homem que pague as coimas que tiver de pagar e que seja pelo menos tão bom ministro como foi director da PJ! A tentativa de cerco pelo conhecido Ventura e os que lhe servem os propósitos é mais do que evidente; poderia lá o Tullius Detritus perdoar a quem vinha desmontar o discurso de ódio que lhe permitiu subir na vida?...
Estreito de Ormuz. Não fora tão sério e perigoso... Da "Fúria Épica" a "Guardião do Estreito", Trump é mais cómico do que o Jesus. Rangel também faz rir, mas percebe-se -- não podemos indispor os vizinhos piratas; melhor o Governo nesta idiotice da Coligação dos Dispostos (só o nome...), apesar das palavras dúbias do mesmo Rangel. Já servimos os interesses dos americanos, não temos que servir também os dos franceses em África, que estão em disputa com os russos. Enxerguem-se lá, por amor de deus!
«Não há centro / Há diversas / Imagens de centro / Todas verdadeiras / Uma de cada vez»
Átrio (1997)
«Deus, / se existir / há-de pagar-me / os Cristos que pintei,»
Doze Cantos do Mundo (2009) - «Domenikos Theotokopoulos, El Greco: Laocoonte (1614)»
«Que diria Juca Tristão, que o tinha por esperto e exemplar, quando ele lhe aparecesse com três homens a menos no rebanho que vinha pastoreando desde Fortaleza? E o Caetano, que ambicionara aquele passeio por conta do seringal e assistira, roído de inveja, à sua partida? Rir-se-iam dele...» Ferreira de Castro, A Selva (1930)
«Bêbedos extraordinários falam de tudo e descrevem parábolas no solo, com a sombra de seus corpos embrutecidos. Dois ou três embirram com a sombra./-- Mete-te comigo, cai nessa, minha tirana! / -- A velhaca, comentam, tem agora a mania de ir adiante de mim. Esta manhã era atrás. Mas não me larga! Bêbeda! / -- Era o que me faltava! Súcia de marmanjos!» Fialho de Almeida, A Ruiva (1878)
«Concordemos em que Rosa Guilhermina era uma bonita moça, e desculparemos a paixão fatal do infeliz negociante, que, no andar de baixo, está fumegando por todos os orifícios e destilando por todos os poros. / Como veio esta menina para a casa do negociante? / Da seguinte maneira.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854)
«Tudo o que me perturba / permanece»
Doze Cantos do Mundo (2009) -- «Domenikos Theotokopoulos, El Greco: Laocoonte (1614)
1. Uma data certa. Portugal nasceu de rompante num dia, depois de uma batalha -- a Batalha de São Mamede, em Guimarães, a 24 de Junho de 1128. A partir daí, foi sempre a andar, mesmo com o breve desvio dos Filipes 2-3 (o Primeiro, mundialmente conhecido como o Segundo, foi muito outra coisa).
2. 1179. Qualquer comemoração do nascimento de Portugal tem de incluir esta data, ano em que foi redigida a bula Manifestus Probatum, redigida pelo Papa Alexandre III. No concerto das nações do Ocidente Medieval, a legitimação jurídica internacional era assegurada pela autoridade do bispo de Roma. Das três grandes datas - 1128-1143-1179 --, a do Tratado de Zamora é menos relevante que a dos extremos (coisa que os neonazis de pacotilha não sabem). Se li bem, terminar as comemorações em 1143 não faz nenhum sentido; o término deverá ser 1179, mesmo que muitos de nós já estejamos mortos, circunstância absolutamente irrelevante.
3. Paulo Portas. Vejamos: o que o Poder faz quando quer comemorar datas históricas é nomear um dos seus; é sempre assim, não percebo a admiração. Comemorar é sempre um acto político. Agora: Paulo Portas, português velho, tem de estar à altura do nome dos seus nobres antepassados, Pedro Álvares Cabral, Sacadura Cabral e, principalmente, o seu extraordinário progenitor, Nuno Portas (haverá outros certamente, que desconheço). Quero isto dizer o quê? Que Paulo Portas deverá ter a inteligência e a sensibilidade de não aparecer como um comissário-geral político-partidário, mas alguém imbuído de um largo sentimento patriótico (não "nacionalista"), que procure congregar. Fugir e isolar o lixo: quer o patrioteirismo de loja-dos-trezentos à Ventura, quer as lapalissadas e falsificações do manicómio wokista, por onde circulam alguns historiadores entre parênteses. Próximo da sua área política, tem o excelente exemplo de Vasco Graça Moura.
4. Comissão de honra. O actual e os antigos Presidentes da República, perfeito. Péssimo e incompreensível: a ausência do Rei, D. Duarte. Este não é um rei qualquer, arranjado à pressão como sucedeu para aí em tantas monarquias europeias, em especial no século XIX. Representante das quatro dinastias -- que na verdade só foram uma, entre 1128 e 1910 --, ele personifica o Estado, a Bandeira (mesmo a actual) e até a Nação (já disse porquê, a partir de José Mattoso).
5. Miudezas. Um conselho-geral com representantes dos três maiores partidos, como escreve o Público? Ou seja, o PSD, o PS e o Chega?... Um sinal preocupante de sectarização; é preciso explicar a estes animaizinhos que a História de Portugal é vasta e complexa, solar e negra, e que é também plural, não é para ser coutada de ninguém.
6. O que verdadeiramente importa. Escrevi-o aqui, em 2023: os Portugueses não existiam antes de 1128, não existiam antes de Portugal. Quem criou os Portugueses foram a Coroa (o Estado) e a Língua Portuguesa. É bom que o Estado actual tenha noção disto mesmo, e saiba preservar e defender a língua e a miscigenada (mestiça) cultura portuguesa: do adufe da Beira-Baixa a Luís de Freitas Branco; de D. Dinis ao António Aleixo; da Rosa Ramalho ao Julião Sarmento. E que se aposte tudo, sempre e cada vez mais na educação, depois na educação e a seguir na educação. Exigente e humanista.
7. Não são os estrangeiros que nos desnacionaliza; são os portugueses impreparados, incultos e alienados, ou estupidificados, se preferirem. António Carlos Cortez, na Visão de hoje, lembra que, segundo dados da OCDE, sete em cada dez portugueses não têm capacidade para compreender textos longos. Imigrantes, quais imigrantes?...
8. E a propósito de Visão, a revista, sobre este assunto, não encontrou melhor para escrever que uma noticiazeca parvinha, na secção "Periscópio" (intriga e coscuvilhice política). Se até "a newsmagazine mais lida do país" tem 'isto' para dizer, é porque também andam por lá alguns dos sete em cada dez.
«tenho um cavalo que nas margens da noite / me chama e escarva doido»
Sob os Teus Pés a Terra (2010) - «Inventário»
«Tangível à noite, uma figueira cega persiste junto à cal.»
Coágulos (2002)
«Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia -- peneirava -- uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa idéia no discurso que proferiu à beira de minha cova:» Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)
«Daniel já tinha condições físicas e morais muito diferentes. Era o avesso do irmão e por isso incapaz de tomar o mesmo rumo de vida. / Possuía uma constituição quase de mulher. Era alvo e louro, de voz efeminada, mãos estreitas e saúde vacilante.» Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor (1867)
«O grupo dos trolhas, junto da porta, discutia o preço das couves e o número de ventres perfurados com facas de ponta, durante a semana. Zé Claudino tinha a palavra; a sua autoridade indiscutível de orador popular fazia-lhe cair dos lábios, como um rosário de sons, as palavras graves, indecorosas, chulas e poéticas, em misto turbulento e inteligente.» Fialho de Almeida, A Ruiva (1878)
«Noites longas. Repara / como há quanto tempo / és funcionário da vida»
Nada Tão Importante que Não Possa Ser Dito (2007) - «Sequela»
«Contra o frio que nos ronda, / resta o lume que ateamos / por ternura, desfastio / ou vontade de vingar / o dissabor de viver.»
Oráculos de Cabeceira (2009) - «"We are flint and steel to each other"»
7. Camilo Pessanha - «Morre-me a boca por beijar a tua.» Camilo Pessanha (Clepsidra)
António Barahona - «Nas minhas mãos o violino alado percorre distâncias incalculáveis no sonho.» (Pássaro-Lyra)
Francisco Alvim - «Encostei meu ombro naquele céu curvo e terno» (Hora)
João de Barros - «Vão, sem destino, errando ao sabor da corrente.» (Algas)
Manuel de Freitas - «Falta-me a técnica, mas tenho o rancor» (Esplanada, Game Over)
Ruy Belo - «A morte é a verdade e a verdade é a morte.» (Quasi Flos, O Problema da Habitação -- Alguns Aspectos)
Sophia de Mello Breyner Andresen - «O corpo a corpo do espaço e da escultura» (Roma, Musa)
«Ter andado de Herodes para Pilatos, batendo todo o sertão do Ceará no recrutamento dos tabaréus receosos das febres amazonenses e tranquilos sobre o presente, porque há anos não havia secas, e afinal, depois de tanto trabalho, de tantas palavras e canseiras, fugirem-lhe nada menos de três!» Ferreira de Castro, A Selva (1930)
«Dois meses depois soube-se em Leiria que estava nomeado outro pároco. Dizia-se que era um homem muito novo, saído apenas do seminário. O seu nome era Amaro Vieira. Atribuía-se a sua escolha a influências políticas, e o jornal de Leiria, «A Voz do Distrito», que estava na oposição, falou com amargura, citando o Gólgota, no favoritismo da corte e na reacção clerical.» Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro (1875/1880)
«O papagaio salta-lhe à mão, e esta mão não é pequena, dedos longos, rosados na extremidades, transparentes como o colo de sua dona, onde o próprio Lúcifer de Gautier choraria uma segunda lágrima, por se ver impossibilitado de armar às boas mulheres (quando é de supor que lhe não vão lá ter as piores.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854)
Segue-se a norma adoptada em Angola e Moçambique, que é a da ortografia decente.