domingo, junho 30, 2024

Duke Ellington & Jimmy Blanton, «Mr. J.B. Blues»

1 verso de Carlos Queirós

«De mais ninguém, senão de ti, preciso:» 

Desaparecido (1935)

caracteres móveis X - NÓ CEGO

«Finalmente veio a ordem desejada, murmurada no passa-palavra, da frente para a retagurada da companhia de comandos: / -- Parar para almoçar, meia hora, a última equipa monta segurança. Os homens pararam. Alguns, mais cansados, sentaram-se imediatamente, outros ainda procuraram árvores para aproveitarem a sombra e o encosto dos troncos.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«Do que eu gostava mais no Jardim Zoológico era do rinque de patinagem sob as árvores e do professor preto muito direito a deslizar para trás no cimento em elipses vagarosas sem mover um músculo sequer, rodeado de meninas de saias curtas e botas brancas, que, se falassem, possuíam vozes tão de gaze como as que nos aeroportos anunciam a partida dos aviões, sílabas de algodão que se dissolvem nos ouvidos à maneira de fins de rebuçado na concha da língua.» António Lobo Antunes, Os Cus de Judas (1979)

«Com os remos a chapejarem surdamente, cautelosos como os dos ladrões, nas proas um ruído fino, menor ainda que o dos botos cortando a tona da águas, as canoas meteram a terra.» Ferreira de Castro, O Instinto Supremo (1968)

«A luz amarela do candeeiro de petróleo espalhava-se sobre o pano de ramagens que cobria a mesa. A cara dos homens estava na meia sombra, por cima do quebra-luz. Eram quatro à volta da mesa. Estavam calados, com a atenção concentrada nas cartas de jogo que um deles, de costas voltadas para a porta que dava para a estrada, talhava com gestos vagarosos, aparentando serenidade. Mas era tão visível o esforço que fazia para se mostrar sereno que os companheiros trocaram rápidos olhares.» Castro Soromenho, Terra Morta (1949) 

«A raça dos Visigodos, conquistadora das Espanhas, subjugara toda a Península havia mais de um século.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)

sábado, junho 29, 2024

a arte de começar - VIÚVAS DE VIVOS

«Escolhera o mestre do barco aquela noite negra, para que a Lua não assistisse à largada. Também não compareceram as estrelas, com grande contentamento do velho João Frade, posto lhes quisesse muito, mas no alto, em plena derrota, para conversar com elas  sobre coisas noutros tempos acontecidas, já que sem idade para sonhar com vida nova.»

Viúvas de Vivos (1947), de Joaquim Lagoeiro (1918-2011), aborda o tema das mulheres que ficavam anos sem ver os maridos, emigrados para a América do Norte, como outrora sucedia com as companheiras dos navegadores.

O título do romance é bastante expressivo, pois é viúva de vivo quem tem marido demasiado longe de si, na emigração, na guerra ou noutras situações extremas -- e sem perspectivas de reencontro a breve trecho.

A frase inicial transmite uma atmosfera carregada de ilicitude, de clandestinidade: há um barco que partirá de noite, tão de breu que nem a Lua poderá assistir à largada, situação reforçada a seguir com a referência às estrelas, que nessa noite não se vislumbravam.

Outra sensação que podemos colher deste incipit, trazida por uma informação objectiva que nos é dada pelo narrador, é a de que algo com um certo grau de grandeza irá ocorrer, uma vez que o "velho João Frade" é um lobo do mar, um capitão de longo curso, pois trata-se de alguém que costuma falar com as estrelas, certamente para confirmar se a rota está a ser seguida à risca.

Mas é no fim do parágrafo que o leitor fica ciente de que a emigração é um tópico central do romance -- a emigração e as suas decorrências na vida social e mental de quem a sofre, de quem parte e quem fica, ideia que percebemos bem a partir do título: João Frade já vivera tempo demasiado para que pudesse permitir-se «sonhar com vida nova.» 

Emigração clandestina e abandono das mulheres (e dos filhos) é pois o que nos dá, sem grande margem para dúvidas, título e parágrafo inicial deste belo romance, que segue por aí fora, contando-nos mais das mulheres que por cá ficaram do que dos homens que saíram, pois nelas está o foco; mas umas e outros aparecem-nos na narrativa como vítimas duma terra madrasta e medíocre, com o circuito a fechar-se no explicit, o fim da narrativa.

O tempo histórico não é referido, mas percebe-se contemporâneo, até por algumas alusões de modernidade: automóveis, um médico de visão progressiva, além do padre, a farejar o Vaticano II, ainda duas décadas à frente, personagem deliciosa a fazer lembrar a bonomia austera do senhor reitor do Júlio Dinis.

O espaço é indefinido. À medida que a narrativa avança, com alusões que poderiam referir-se a uma vasta área do litoral norte -- e digo norte, pois as festas sob a égide de determinados santos concorrem para fornecer mais dados ao leitor familiarizado com esse folguedo -- o lugar vai-se precisando, embora nunca nomeado: a aldeia de Veiros, concelho de Estarreja, terra-natal do autor.

Parece outro tempo, outro mundo, mas foi ainda ontem.

caracteres móveis IX - SERVIDÃO

«Abriu os olhos, estremunhada. A necessidade, feita hábito, de acordar cedo, perdera-a ela, logo nos primeiros dias da sua adaptação aos horários e empecilhos daquela casa. Nessa manhã, porém, fazia dezassete anos.» Assis Esperança, Servidão (1946)

«Maria Adelaide completara dezasseis anos quando lhe colhi as primícias, e, à semelhança do que sucede com frequência na terra onde habitávamos, os pais, que eram pobres, consentiam em que mantivéssemos relações coram populo, indo eu todas as noites dormir na sua companhia.» M. Teixeira-Gomes, Maria Adelaide (1938)

«Das duas uma: ou as pessoas se fazem ao nome que lhes puseram no baptismo, ou ele tem de seu o bastante para marcar a cada um.» José de Almada Negreiros, Nome de Guerra (1925/1938)

«15 de Fevereiro de 1893. É justo. Visto como o Destino houve por bem -- e por meu mal! -- atravessar-te no desfecho desse meu acto de loucura, justo é que conheças bem do fundo e bem na essência a história que o motivou.» Abel BotelhoO Livro de Alda (1898)  

«A taberna do Pescada ficava mesmo em frente ao cemitério dos Prazeres, e era frequentada pela gente do sítio, especialmente de noite, à hora em que os cabouqueiros e os britadores abandonam os seus trabalhos e entram na cidade, em ruído.» Fialho de AlmeidaA Ruiva (1878)

serviço público - também para o Costa, agora investido em novas funções, deixar de ser papagaio de palermas

 Viriato Soromenho Marques, "O que pensa a Rússia"

2 versos de Miguel Barbosa

«tudo o que se possa pensar / já foi pensamento socrático» 

Um Mensalão É Urgente no Meu País (2014)

sexta-feira, junho 28, 2024

quinta-feira, junho 27, 2024

caracteres móveis VIII - CÁRCERE INVISÍVEL

«Em longos anos de rotina diária, meu pai afeiçoara-se de tal modo ao armazém de panos onde era o principal empregado, que ali fazia inúmeros serões, gozando raivosamente a ausência do patrão. Nessa noite de Julho, ao regressar a casa, deve ter parado, atónito, no meio da rua deserta: embora passasse da meia-noite, havia, na janela da frente, um risco de luz vertical!» Francisco Costa, Cárcere Invisível (1949)

«Acima do portão, na verga quase vestida pela hereira que já amortalhara a pedra heráldica, a valer de baetão que a amantasse nos lutos, ainda lá se lia uma data, 1654, avivada pelo caseiro, por mimo, no tempo da poda, a riscos de caco.» Tomaz de Figueiredo, A Toca do Lobo (1947)

«Era a hora do estudo da tarde, e Lelito pensava. As Catilinárias abertas na carreira, o dicionário à direita, o caderno de significados à esquerda e o lápis à mão -- pareciam demonstrar que Lelito preparava a sua lição de latim. Mas Lelito não pensava nas Catilinárias. Na realidade, nem pensava.» José Régio, Uma Gota de Sangue A Velha Casa I (1945)

«Por um claro domingo de Julho, à hora da missa, um landau desembocava a trote no campo da Feira, em Guimarães, indo estacar em frente do palácio dos condes de Vila-Torre -- casarão envelhecido pelas chuvas e sóis de quase dois séculos, cuja frontaria de solar e convento tomava todo um lado da praça, hasteando sobre um portal enorme, de coiçoeiras denegridas, as armas nobres dos senhorios.» Carlos Malheiro Dias, Os Teles de Albergaria (1901)

«A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela Casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete.» Eça de Queirós, Os Maias (1888) 

2 versos de Mário de Sá-Carneiro

 «Tombei... / E fico só esmagado sobre mim...»

Dispersão (1914)

caracteres móveis VII - A LÃ E A NEVE

«Logo que as cabras e as ovelhas entestaram à corte, o "Piloto" deu por findo o seu trabalho. E antes mesmo de o pastor, que lhe aproveitava os serviços, se dirigir a casa, ele meteu ao extremo da vila. Rabo entre as pernas, focinho quase raspando a terra, ia triste, cismático, como perro vadio de estrada, descoroçoado da vida. Subitamente, porém, sorveu no ar algo que lhe era conhecido. A cauda ergueu-se num ápice, formando volta que nem cabo de guarda-chuva; a cabeça levantou-se também e nela luziram os olhitos até aí amortecidos.» Ferreira de Castro, A Lã e a Neve (1947)

«Naquela altura o meu pai fazia fanga e eu tinha começado a ajudá-lo no trabalho, embora pouco ou nada fizesse de proveito. Mas sempre me ia habituando, porque no campo mal a gente deita fora as fraldas -- isto é um modo de dizer, pois julgo que nunca as usei, a supor pelo que vejo nos cachopitos --, começa logo na lida, até depois de os braços e as pernas não darem jeito a mexer-se.» Alves Redol, Fanga (1943)

«Um grito encheu a cadeia. / Num sobressalto, o rapaz ergueu-se da sonolência em que jazia sobre a tarimba e foi até às grades. / Alquebrado de torpor, a princípio nada compreendeu. Viu, confusamente, os canteiros cheios de flores, as árvores e, para lá do jardim, o edifício amarelado dos Paços do Concelho.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)

«Fecharam os telhais. Com os prenúncios de Outono, as primeiras chuvas encheram de frémitos o lodaçal negro dos esteiros, e o vento agreste abriu buracos nos trapos dos garotos, num arrepio de águas e de corpos.» Soeiro Pereira Gomes, Esteiros (1941) 

«Vem o Inverno e os montes pedregosos, as árvores despidas, a natureza inteira envolve-se numa grande nuvem húmida que tudo abafa e penetra.» Raul Brandão, Os Pobres (1906)

quarta-feira, junho 26, 2024

3 versos de Camões

«E aqueles que por obras valerosas / Se vão da lei da Morte libertando / -- Cantando espalharei por toda a parte,» 

Os Lusíadas, I.2 (1572)

terça-feira, junho 25, 2024

caracteres móveis VI - A TEMPESTADE

«Contra o seu costume, Albano viera tarde e entrara sem os cuidados tidos nas outras noites, quando queria abafar rumores; logo, porém, volvera às precauções de sempre. Era preciso que ela não desconfiasse!» Ferreira de Castro, A Tempestade (1940)

«Elói está deitado. Amanhece. Ainda não abriu os olhos, mas, embora os abrisse, nada veria; a escuridão reina dentro do quarto. Neste momento deve debater-se na impossibilidade de saber se dorme ou se está acordado. Volta, com esforço, a cabeça na almofada. Lamenta não poder ver a escuridão, porque lhe cobrem a vista novelos de claridade absurdamente negros: novelos ou passadeiras de matéria luminosa que, do que supõe o tecto, descem, pesados, para o que supõe o chão.» João Gaspar SimõesElói ou Romance numa Cabeça (1932)

«Naquela noite de Março, desabrida e húmida, uma grande animação fervilhava alacremente ao fundo da rua do Salitre. Era em 1867. Frente a frente, as Variedades e o Circo Price alinhavam os seus bicos de gás festeiros, a que as vergastadas do noroeste impunham um tremelilhar inquieto.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891) 

«Tinham dado onze horas no "cuco" da sala de jantar. Jorge fechou o volume de Luiz Figuier que estivera folheando devagar, estirado na velha voltaire de marroquim escuro, espreguiçou-se, bocejou e disse: / - Tu não te vais vestir, Luísa? / - Logo.» Eça de Queirós, O Primo Basílio (1878) 

«Em 1815, um dos mais abastados mercadores de panos da Rua das Flores, na cidade do Porto, era o Sr. António José da Silva.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854)

Assange -- e também os outros

1. O poder dos estados não hesita em massacrar o indivíduo. Após a denúncia da WikiLeaks, que revelou, entre outras coisas, os crimes de guerra cometidos pelos Estados Unidos no Afeganistão, ou que espiavam os próprios aliados (quem não se lembra do embaraço de Obama com Merkel?), o poder não ficou parado. Comprou magistrados na Suécia, engendrando um muitíssimo mal amanhado caso de "violação" num ménage à trois; e contou com a subserviência da Inglaterra e da própria Austrália, o país de Assange...

2. Só a força conjugada da opinião pública mundial com a imprensa livre pode enfrentar o poder e forçá-lo a ceder. A fórmula arranjada serve para tentar minimamente salvar a face dos Estados Unidos, que não obstante tem a seu crédito a infâmia de Assange ter estado doze anos arrecadado, primeiro na embaixada do Equador em Londres e numa prisão de alta segurança nos últimos cinco anos.

Assange não é o único. Edward Snowden, um patriota americano que revelou aos concidadãos que eram vigiados pelo próprio governo -- a quem Putin, num gesto de grande dignidade concedeu a cidadania russa por ocasião da invasão da Ucrânia -- está exilado. Mas há pior, e não nos podemos esquecer deles: Abdullah Öcalan, patriota curdo, antigo líder do PKK, preso desde 1999 na Turquia; Marwan Barghouti, palestino da Fatah, nas prisões israelitas; Ales Bialiatski, professor de Literatura e defensor dos direitos da cidadania bielorrussa; e a maravilhosa e heróica Narges Mohamaddi, coleccionadora de encarceramentos no regime clerical iraniano, por recusar-se a usar o chamado "véu islâmico" (por cá justificado pelo wokismo  idiota) -- os seja por recusar-se a ser uma pessoa de segunda classe na própria sociedade.  

2 versos de Luísa Dacosta

 «Atravessa os campos da noite / e vem.» 

A Maresia e o Sargaço dos Dias (2011)

caracteres móveis V - OS REINEGROS

«Estava ali havia um bom pedaço vindo da esquina até defronte do prédio onde ela servia, enervado de esperar tantos minutos, pois já lhe assobiara o sinal combinado e ela ainda não aparecera, nem sequer à janela, aquietando-lhe a dúvida que começava a preocupá-lo.» Alves Redol, Os Reinegros (1944/72)

«O Dr. Manuel Torres, advogado em Lisboa e professor de Ciências Sociais, a gozo de férias em Malhadas da Serra -- aldeia que lhe fora berço, tão montesinha ou tão pouco que debalde a procuravam no mapa os parasitas de errática cordialidade -- de novo distinguiu defronte, na cal da parede, a sombra de Custódia.» Aquilino Ribeiro, Volfrãmio (1944)

«As derradeiras notícias tivemo-las às dez da manhã. Trouxe-as o "Lagarto". Como havíamos previsto, a greve fora vencida.» Ferreira de Castro, O Intervalo (1936/74) 

«-- Essa ceia está pronta? -- perguntou enfastiado o Serafim, cuja figura esgalgada e curva, tendo vencido o último degrau da escada, assomava oscilando à porta da cozinha.» Abel Botelho, Amanhã (1901) 

«Um dia, numa floresta, ao entardecer, quando por sobre as frondes ressoavam as buzinas dos porqueiros, e lentamente na copa alta dos carvalhos se calavam as gralhas, um lenhador, um servo, de surrão de estamenha, que rijamente trabalhara no souto desde o cantar da calhandra, prendeu a machada ao cinto de couro, e, com a sua égua carregada de lenha, recolheu pelos caminhos da aldeia, ao castelo do seu Senhor.» Eça de QueirósS. Cristóvão (C. 1891/1912)

segunda-feira, junho 24, 2024

Bob Seger, «No Man's Land»

2 versos de José Pascoal

«Tenho respeito pelos sítios / Que me dizem respeito.» 

Sob Este Título (2017)

caracteres móveis IV - UMA ABELHA NA CHUVA

«Pelas cinco horas duma tarde invernosa de outubro, certo viajante entrou em Corgos, a pé, depois da árdua jornada que o trouxera da aldeia do Montouro, por maus caminhos, ao pavimento calcetado e seguro da vila: um homem gordo, baixo, de passo molengão; samarra com gola de raposa; chapéu escuro, de aba larga, ao velho uso; a camisa apertada, sem gravata, não desfazia no esmero geral visível em tudo, das mãos limpas à barba bem escanhoada; é verdade que as botas de meio cano vinham de todo enlameadas, mas via-se que não era hábito do viajante andar por barrocais; preocupava-o a terriça, batia os pés com impaciência no empedrado.» Carlos de Oliveira, Uma Abelha na Chuva (1953)

«Sobre a montada, subindo, devagar, a trilha pedregosa, Leonardo esmoía íntimas irritações. Não podia ser! Os galegos estragavam tudo, quer pagando quantos direitos os guardas-fiscais lhes exigiam, quer andando na calada da noite, a fazer contrabando de peles.» Ferreira de Castro, Terra Fria (1934)

«O comboio do sul parou na pequena estação sòzinha, perdida no descampado, entre grandes searas verdes já espigadas. Padre Dionísio, moço e ágil, saltou da 3.ª classe, poisou no chão a leve mala de viagem e olhou em roda, à espera que alguém se lhe dirigisse.» Manuel Ribeiro, A Planície Heróica (1927) - Primeira parte - «A Provação».  

«Rubicundo, pesadão de farto, o estômago bem lastrado com lombo de vinha-de-alhos, padre Jesuíno saiu a espairecer para a varanda que a aragem da serra brandamente refrescava. Manjericos e craveiros floriam dentro de velhos potes, e tão abertos, tão medrados, que do mainel transbordava para a casa e sobre o pátio uma onda álacre de primavera.» Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926) 

«José das Dornas era um lavrador abastado, sadio e de uma feliz disposição de génio, que tudo levava a rir, mas desse rir natural, sincero e despreocupado, que lhe fazia bem, e não rir dos Demócritos, de todos os tempos -- rir céptico, forçado, desconsolador, que é mil vezes pior do que o chorar.» Júlio DinisAs Pupilas do Senhor Reitor (1867)

domingo, junho 23, 2024

Cat Stevens, «Sad Lisa»

1 verso de Fernando Jorge Fabião

«Pus as mãos / sobre a tua sombra» 

Nascente da Sede (2000)

sábado, junho 22, 2024

caracteres móveis III - ANA PAULA

«Pela estrada plana, que, bordejando as baterias do campo entrincheirado, liga a fortaleza de S. Julião da Barra à estação de Oeiras, seguiam naquela tarde outonal de Novembro de 35 dois vultos,  que, a distância, semelhavam, pela gentileza do garbo e interesse na conversação, par de noivos que, desejando-se solitário, houvesse buscado caminho pouco frequentado para seu passeio e íntimas confissões.»  Joaquim Paço d'ArcosAna Paula (1938)

«Manhã alta, toda vestida de azul, com os folhos brancos que o mar tecia e esfarrapava ao sabor da ondulação, a sombra escortinada na linha do horizonte ia crescendo e definindo-se em caprichoso recorte. Mais do que a terra próxima, como queriam os passageiros e a ciência náutica afirmava, dir-se-ia nuvem estática na luminosidade imperante.» Ferreira de CastroEternidade (1933)

«Era a hora de Matinas. A sineta do claustro tangia, a convocar os capitulares para o coro, quando Luciano passou da sua alcova à biblioteca, entreabrindo uma pequena porta e afastando uma massa rígida dum brocado que descia do lambrequim em pregas hirtas, adornado de eucarísticos lavores de seda e oiro.»  Manuel RibeiroA Catedral (1920)

«Ao cair de uma tarde de Dezembro, de sincero e genuíno Dezembro, chuvoso, frio, açoutado do sul e sem contrafeitos sorrisos de primavera, subiam dois viandantes a encosta de um monte por a estreita e sinuosa vereda, que pretensiosamente gozava das honras de estrada, à falta de competidora, em que melhor coubessem.» Júlio DinisA Morgadinha dos Canaviais (1868)

«Folheando os livros de antigos assentamentos, no cartório das cadeias da relação do Porto, li, no das entradas dos presos desde 1803 a 1805, a folhas 232, o seguinte: / Simão António Botelho, que assim disse chamar-se, ser solteiro, e estudante da Universidade de Coimbra, natural da cidade de Lisboa, e assistente na ocasião da sua prisão na cidade de Viseu, idade de dezoito anos, filho de Domingos José Correia Botelho e de D. Rita Preciosa Caldeirão Castelo Branco, estatura ordinária, cara redonda, olhos castanhos, cabelo e barba preta, vestido com jaqueta de baetão azul, colete de fustão pintado e calça de pano pedrês.»  Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)   

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caracteres móveis II - ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

«O disco amarelo iluminou-se. Dois dos automóveis da frente aceleraram antes que o sinal vermelho aparecesse. Na passadeira de peões surgiu o desenho do homem verde. A gente que esperava começou a atravessar a rua pisando as faixas brancas pintadas na capa negra do asfalto, não há nada que menos se pareça com uma zebra, porém assim lhe chamam.» José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira (1995)

I. «O jardim familiar (primeira fase do abandono): montões informes de silvedo, buxo descabelado, urtigas, flores selvagens. As palmeiras de pouco porte incharam tanto que fazem pensar em anões velhos, doentes, com as suas cabeleiras, as suas folhas emaranhadas, caindo em arco até ao chão.» Carlos de Oliveira, Finisterra -- Paisagem e Povoamento (1978)

I. «Fato branco, engomado, luzidio, do melhor H. J. que teciam as fábricas inglesas, o senhor Balbino, com um chapéu de palha a envolver-lhe em sombra metade do corpo alto e seco, entrou na "Flor da Amazónia" mais rabioso do que nunca.» Ferreira de Castro, A Selva (1930)

 « A vila. // «13 de Novembro. / Ouço sempre o mesmo ruído de morte que devagar rói e persiste... / Uma vila encardida -- ruas desertas -- pátios de lajes soerguidas pelo único esforço da erva -- o castelo -- restos intactos de muralha que não têm serventia: uma escada encravada nos alvéolos das paredes não conduz a nenhures.» Raul Brandão, Húmus (1917) 

«Há em Lisboa um pequeno número de restaurantes ou casas de pasto [em] que sobre uma loja com feitio de taberna decente se ergue uma sobreloja com uma feição pesada e caseira de restaurante de vila sem comboios.» Fernando PessoaLivro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)


1 verso de Dick Hard

«Os preservativos não passam de sapatos de pénis» 

De Boas Erecções Está o Inferno Cheio (2004)

caracteres móveis I - VIÚVAS DE VIVOS

«Escolhera o mestre do barco aquela noite negra, para que a Lua não assistisse à largada. Também não compareceram as estrelas, com grande contentamento do velho João Frade, posto lhes quisesse muito, mas no alto, em plena derrota, para conversar com elas  sobre coisas noutros tempos acontecidas, já que sem idade para sonhar com vida nova.» Joaquim Lagoeiro, Viúvas de Vivos (1947) § «Empurrados do interior, os povos buscavam o litoral na esperança de uma mandioquinha, de um caldinho de peixe, de uma cana para chupar, ou de folhas verdes para mastigar. Qualquer coisa que lhes desse, ao menos, a ilusão de alimento.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962) § «Ia já para três dias  que o tractor parara e a regadeira não via pinga de água trasfegada do Tejo. / O arrozeiro, apertado pelo patrão, andava numa dobadoura, por marachas e linhas, a deitar olho aos canteiros de espiga mais loira, fazendo piques, agora aqui, agora ali, para que as águas fossem caminhando para a vala de esgoto e os ranchos pudessem meter foices no arrozal.» Alves Redol, Gaibéus (1939) §  «Novembro, 3 / Trago ainda na memória a lembrança daqueles choros, ontem, no cais, na hora da partida.» Joaquim Paço d'Arcos, Diário dum Emigrante (1936)  § «Preta e branca, preta e branca, o preto mui luzidio e muito níveo o branco, a pega, de cauda trémula, inquieta, saracoteava entre carumas e urgueiras, esconde aqui, surge ali, e por fim erguia voo até a copa alta do pinheiro, levando no bico ramo seco ou graveto.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)  

sexta-feira, junho 21, 2024

2 versos de José Régio

 «Mora-me um Poeta / Que tento esconder,»

As Encruzilhadas de Deus (1936) 

quinta-feira, junho 20, 2024

Frank Sinatra, «How Deep Is the Ocean»

1 verso de Fernando Namora

«Este poeta não tem unhas: tem garras» 

Marketing (1969)

quarta-feira, junho 19, 2024

o António é o mais brilhante cartoonista português desde o Rafael Bordalo Pinheiro

 


Marcelo, com fairplay -- e certamente feliz, pois ser (e é-o há décadas) objecto do lápis de António Antunes é um degrau mais (pelo menos) para estar na História em carne e papel, e não ser apenas um nome esquecido.

Também gosto muito das foices e martelos no Saramago, pensando em especial nos que querem esconder o seu evidente neo-realismo, pensando que lhe dá, a ele, Saramago, mais sainete, quando é precisamente o contrário. 

2 versos de Helder Macedo

«Cortaram membro a membro a minha árvore / ficou só a raiz e o seu vazio.» 

Viagem de Inverno (1994)

Billie Holiday, com Buddy DeFranco, «Lover, Come Back To Me»

terça-feira, junho 18, 2024

4 versos de António Jacinto

«Se o corpo mais que a alma sentia / e se todo ele existia / porquê porquê ai porquê / a insatisfação que se sente e não se vê?»

Poemas (1961)

segunda-feira, junho 17, 2024

Duke Ellington, «Jumpin' Punkins»

ucraniana CCLIII - o fiasco

As expectativas eram baixíssimas, mas nem assim, e com todos os expedientes para ludibriar os inocentes e os tolinhos -- e apesar das intenções iniciais da Suíça serem sérias -- o efeito foi zero. Talvez, numa perspectiva optimista, possamos pensar que, subterraneamente, algo poderá ser conseguido no sentido da cessação as hostilidades num futuro próximo. Isto, apesar dos zeros que lideram aa União Europeia: Índia, Brasil, México, Arábia Saudita, Tailândia, Jordânia, Iraque, entre outros estados relevantes, recusaram-se a assinar a declaração final -- ou seja recusaram aparecer como marionetas dos americanos e dos seus desgraçados lugares-tenentes na União Europeia. Em África, Egipto e Etiópia nem sequer responderam ao convite e, da CPLP, Angola e Moçambique não se fizeram representar -- o que só mostra o quão medíocre e até catastrófica é uma política externa que, na verdade, desde há muito não existe, a não ser para floreados, que não é apenas deste governo, mas principalmente do anterior. 

Por isso, António Costa na UE, para ser um boneco igual aos que lá estão, apenas com mais palheta? Dados os antecedentes próximos, ficaria surpreendido se dali saísse um líder digno desse nome. 

4 versos de Carlos Queirós

«Por ser tão brando o teu sorrir, / Tão cheio de feliz regresso / Do longe prado, onde apeteço / Contigo ir...» 

Carlos Queirós, Desaparecido (1935)

domingo, junho 16, 2024

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serviço público - Carlos Branco e Viriato Soromenho Marques

Bem podem ladrar os cadelos que ainda vêem na Rússia a potência "comunista" herdeira ideológica da União Soviética, pobres ignorantes, piores ainda que as marronas da academia que trazem a lição bem estudada, mas não alcançam um palmo à frente do nariz. Algumas até vão para o governo, outras a deputadas. (Para não me insultarem de misoginia, nem falo deles, espalhados pelos jornalismo e esportulados pelos think thanks).

Felizmente, ainda temos arremedos de imprensa livre. 

Carlos Branco, «A tentativa de 'maidanizar' a Geórgia». 

https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/a-tentativa-de-maidanizar-a-georgia/

Viriato Soromenho Marques, «O novo outono alemão»

https://www.dn.pt/4074951637/o-novo-outono-alemao/

4 versos de Cesário Verde

«O seu olhar possui, num jogo ardente, / Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo; / Como um florete, fere agudamente, / E afaga como o pêlo dum regalo!» 

O Livro de Cesário Verde (póst., 1887)

sábado, junho 15, 2024

ucraniana CCLII - quando queremos ser caninos, somos mesmo pequeninos

Na manobra de propaganda mal amanhada da chamada cimeira da paz, a presidente da Suíça revela não estar para fazer figura d'úrsula, e disse que a ideia não era bem esta, mas algo que pudesse originar uma efectiva cessação das hostilidades.

É claro que isso vai contra os desígnios presentes dos Estados Unidos, que é o de alimentar a guerra, mas deixando as despesas para os europeus, que contam para isso com estas úrsulas e outros rangéis, sem esquecer uns quantos comentadores de serviço.

Por falar no Rangel, vi-o há dias a disfarçar: coiso e tal -. trata-se de um primeiro passo para uma conferência de paz -- um fiasco anunciado, abrilhantado por Marcelo, que irá dizer lapalissadas e mais uma vez deixar-nos mal vistos. Rangel, creio que o único ministro dos Estrangeiros da Europa Ocidental e do Sul a subscrever o pedido para começar já as negociações de adesão com a Ucrânia, deixando para trás uma série de países, como a Macedónia. Quando queremos ser caninos, somos mesmo pequeninos.

Por falar em Rangel, e assim à vista desarmada, eis um auxílio à Ucrânia que poderíamos fazer mais, e até temos preparação para isso: a recuperação dos soldados estropiados nesta guerra. Isso sim, é ajudar mais do que dar formação à tropa para tanques cujo destino deverá ser o dos nossos Leopard, transformados em sucata na planície ucraniana.

Quem acha que a Rússia vai facilitar, ponha o dedo no ar! 

Só há uma coisa que me deixa satisfeito no meio desta miséria: os russos a pôr os patifes dos americanos em sentido (falo da corja dominante, claro).

1 verso de Manuel Bandeira

 «Santa Clara, clareai.» in Berimbau e Outros Poemas (antologia)

sexta-feira, junho 14, 2024

Bob Seger, «Her Strut»

1 verso de Dick Hard

«Os poetas comem-se uns aos outros» 

De Boas Erecções Está o Inferno Cheio (2004)

quinta-feira, junho 13, 2024

serviço público - Carlos Matos Gomes: a Nato como promotora de migrantes, logo da extrema-direita europeia, sem esquecer "os pequenos rafeiros que dirigem os estados europeus" -- isto é, brilhante

 Carlos Matos Gomes, "O paradoxo da imigração e da guerra" 

https://cmatosgomes46.medium.com/o-paradoxo-da-imigra%C3%A7%C3%A3o-e-da-guerra-174b213846f6

150 portugueses: 56-60

56. D. Manuel II (1889-1932). Sobe ao trono aos dezoito anos, o último rei de Portugal, que só o foi pelo assassínio do pai e do irmão mais velho, D. Carlos e Luís Filipe. Um reinado de acalmação, que serviu os conspiradores de 1908, republicanos e monárquicos. No exílio adquiriu livros antigos, incunábulos e manuscritos, que deixou ao país.

57. D. Pedro II (1648-1706). Uma personagem. Último filho de D. João IV, depôe Afonso VI, seu irmão, ficando-lhe com a mulher. No seu reinado começa a chegar o ouro de Brasil, mesmo a calhar quando pelo Tratado de Methuhen se estoira com a nascente indústria dos lanifícios.

58. D. Sancho I (1154-1211) Segundo rei de Portugal, extraordinário no co-governo com o seu pai, e ainda depois, pelas políticas de povoamento e reforço da moeda, nunca deixando de ser um rei medieval, batalhador, mas também poeta e apreciador da nossa poesia trovadoresca, que parece ter cultivado.

59. D. Afonso V (1432-1481) Chamam-lhe o último rei medieval, contrariando a política de centralização do seu tio e sogro, na regência -- o Infante D. Pedro acabará em Alfarrobeira; e também pelas pelejas na Península e conquista das praças de África. 

60. Carlos Paredes (1925-2004). Tinha o som do país na sua guitarra.

2 versos de José Pascoal

 «O verso é uma linha / Sem rosto.» Sob Este Título (2017)

quarta-feira, junho 12, 2024

3 versos de Luísa Dacosta

 «No fundo do mar, / perdidos, / estão os sonhos,» A Maresia e o Sargaço dos Dias (2011)

porra, morreu o Fernando Grade

Foi já no dia 8, mas só agora soube. Inesquecível, o Fernando Grade; e fiquei triste.

(ver aqui e aqui, por exemplo); e um texto de José d'Encarnação.

terça-feira, junho 11, 2024

Europeias, coisas que me agradaram

Internamente, a manutenção do PCP no PE, e também a do BE, confesso. Acho ainda civilizante haver uma representação liberal, independentemente dos protagonistas. Uma sociedade complexa tem liberais e conservadores, como radicais de vários matizes. Gostei do trambolhão do Chega, apesar de tratar-se de eleições diferentes; no entanto, indicia que aquela votação para as legislativas foi inflacionada por votos de protesto e outros que tais. Talvez venha a ter um destino parecido com o dos partidos dos reformados, dos marinhos e dos coelhinhos. Há sempre pobres de espírito disponíveis. 

Por falar em trambolhões, foi muito agradável ver, lá fora, o dos Verdes vendidos na Alemanha e o da organização de que Macron é ceo. O PSF, chegando aos 14% deixou de ser um cadáver. Apenderão algo com isso, ou continuarão na senda de coisos como a Ségolène ou do Hollande -- essa nódoa, que não só trouxe o Macron da banda para a política -- que saloio... -- como quis endrominar o Putin nos Acordos de Minsk? 

Cat Stevens, «Wild World»

2 versos de Miguel Barbosa

«iremos de bosão em bosão / buscar o nosso estatuto de deuses» Um Mensalão É Urgente no Meu País (2014)

segunda-feira, junho 10, 2024

serviço público - João Paulo Oliveira e Costa

 João Paulo Oliveira e Costa,  "Portugal, uma longa e improvável existência de nove séculos" -

https://www.dn.pt/3795070181/portugal-uma-longa-e-improvavel-existencia-de-nove-seculos/

Frank Sinatra, «That Old Feeling»

4 versos de Helder Macedo

«Na mesma estrada de sempre / o mesmo velho de sempre / dava corda ao realejo / que toca sem fazer som» Viagem de Inverno (1994)

domingo, junho 09, 2024

quadrinhos

fonte

 

2 versos de Fernando Namora

 «Eu sabia que a Lua era azul /antes de lá irem dar-me razão;» Marketing (1969)

sábado, junho 08, 2024

o único voto que me é possível, entre marionetas do Pentágono e da CIA e a esquerda idiota útilis

Entre tantas questões importantes ou decisivas -- da concorrência fiscal dentro da UE à manutenção do voto por unanimidade em questões decisivas no Conselho -- nada me parece mais grave do que a guerra da Ucrânia, entre Estados Unidos e Rússia. 

Das forças em presença nestas eleições, temos as marionetas do Pentágono e da CIA -- PSD, PS, CDS, Chega e IL (mercearias e lugares-comuns -- nunca menosprezar a validade destes); e do outro lado, o antiputinismo epidérmico e risível, que leva BE, Livre, PAN a contemporizar com os grandes criminosos  da outra banda atlântica.

Claro que vou votar em João Oliveira e na CDU, creio que pela primeira vez em eleições para o Parlamento Europeu. Nem tenho outra alternativa.

Billie Holiday, Buddy DeFranco, Red Norvo, «Billie's Blues»

sexta-feira, junho 07, 2024

8 versos de Luís de Camões

«As armas e os barões assinalados, / Que da ocidental praia lusitana, / Por mares nunca dantes navegados, / Passaram ainda além da Taprobana /E em perigos e guerras esforçados / Mais do que prometia a força humana, / E entre gente remota edificaram / Novo Reino, que tanto sublimaram;» Os Lusíadas, I.1 (1572)

Nota: Hoje, 7 de Junho, dia de Cascais (7 de Junho de 1364, a carta de vila de D. Pedro I autonomiza o burgo piscatório de Sintra). A Cascais, a 7 de Abril de 1570, na companhia de Diogo do Couto, aporta Camões, com o manuscrito d'Os Lusíadas.

quinta-feira, junho 06, 2024

ucraniana CCLI - explicação (em stand up e em estrangeiro) sobre a natureza da guerra na Ucrânia, destinada a antigos e actuais ministros, jornalistas & outros analfabetos

Querendo, também podeis ler a coluna à direita, texto escrito por um não-especialista quando a guerra começou. Não é nada de especial, basta ter lido umas coisas, um mínimo de espírito crítico e estar atento.

Duke Ellington, «Sepia Panorama»

4 versos de Sebastião da Gama

«Ó meu Amor, cheia da graça / que a um tempo sobre os dois desce, / nas horas pagas a desgosto / ganhámos esta que não passa.» Pelo Sonho É que Vamos (post., 1953)

quarta-feira, junho 05, 2024

Bob Seger, «You'll Accomp'ny Me»

1 verso de Alberto de Lacerda

«Anónimo navio, beleza do inconstante!»  77 Poemas (1955)

terça-feira, junho 04, 2024

ucraniana CCL - mas o que quer este "especialista"?

 Raramente vejo a sic, não tenho, por isso, de o ouvir. Mas como compro o Diário de Notícias, lá o leio, de vez em quando e a contragosto. Não há diferença nenhuma entre o que ele diz e o que ouvimos a pessoal como o secretário-geral da Nato, um qualquer ministro inglês dos Negócios Estrangeiros, um porta-voz da Casa Branca. Não, na verdade, há: o carregar nas tintas. Para este Germano Almeida, há que espicaçar, conformar e fazer aceitar a opinião pública da inevitabilidade da guerra.

Fala-nos dos "longos tentáculos da espionagem russa", que obviamente existe, mas cala-se em relação aos porta-vozes oficiosos dos interesses dos Estados Unidos, como vários comentadores ligados a institutos americanos. Não sei se é o caso, e na verdade estou-me nas tintas, de tal forma aparece como comentador comprometido com a estratégia estadunidense.

Vejamos o início deste parágrafo: "Sem uma Ucrânia democrática não haverá uma Europa democrática.» Está-se mesmo a ver, não é? Curiosamente, a democrática Finlândia, só para falar no caso mais evidente, aguentou-se como tal durante décadas, a fazer fronteira com a União Soviética, e nem precisou de aderir à Nato, uma vitória actual dos Estados Unidos e dos seus propagandistas.

Depois, defende que Putin está nos boletins de voto destas eleições. Pois estará, assim como o Pentágono e a CIA, mas para Germano ça va sans dire.  Por mim, podem chamar-me putinista à vontade, apesar de alguns pergaminhos. Dito por esta tropa, é para o lado que durmo melhor. De qualquer modo, sem esquecer a brutalidade na Chechénia, contra a qual, nas minhas fracas possibilidades me insurgi (e posso prová-lo), não me esqueço convenientemente dos massacres da Segunda Guerra do Iraque -- nem agora da duplicidade mostrada perante os crimes do governo israelita.

O que escreve sobre a farsa da "Conferência de Paz" na Suíça, fá-lo sem um pingo de espírito crítico; é pura propaganda para convencidos e ignorantes. Mas tem quase razão quando diz que para a Rússia ver a Ucrânia na UE é, tornou-se uma impossibilidade -- ou não estivesse a UE transformada em instrumento dos EUA.

Lengalenga para atrasados mentais: "Não foi a Ucrânia que invadiu a Rússia; é a Rússia que está a invadir a Ucrânia.» Decididamente, nunca leu Platão. Além disso, "o próprio direito de fronteira -- sustenta -- passará a estar em causa", se a Rússia vencer a guerra. A Sérvia que o diga...

Finalmente, evoca Zelensky com o seu "os russos só entendem a linguagem da força", para terminar, funéreo: «E nós demorámos tempo demais a compreender isso verdadeiramente.» 

Então que conclusões tirar, depois de lido este "especialista"? Que temos, Europa, de ir para a guerra. Há outra?

E porque vai a Europa para a guerra? Segundo Germano & Cia., é a democracia europeia que está em perigo com uma vitória da Rússia (ela está aí, semi, ou total). A obscena Nuland -- "Fuck the EU" -- não diria melhor.

6 versos de Carlos de Oliveira

«Amazónia. / O Negro e o Índio e o mais que me souber: / o fogo doutro céu, / o nome doutro dia / e tudo o que estiver / nos nervos que me deu.» Turismo (1942)

quadrinhos

fonte

 

segunda-feira, junho 03, 2024

5 versos de Mário de Sá-Carneiro

«Volteiam dentro de mim, / Em rodopio, em novelos, / Milagres, uivos, castelos, / Forcas de luz, pesadelos, / Altas torres de marfim.» Dispersão (1914)