quarta-feira, novembro 20, 2019

o génio de José Mário Branco: a transgressão na tradição, ou vice-versa

transformar a banalidade em brilho. Sempre foi assim (embora por vezes também fosse um chato, um chato genial, vamos lá). Detestara o fado por más razões. (Então o fado não é o nosso blues?...) Até que se encontrou com ele: 2 fados 2 no Ser Solidário, grandes fados. E depois de o encontrar, faz o Camané, faz isto, com a maravilhosa Katia Guerreiro. E isto é revelador de uma segurança, de um conhecimento profundo, de um amor à música, e neste caso ao fado, que é o que lhe permite a transgressão, ou seja, o avanço, ou seja, o progresso, ou seja, a revolução. Sempre coerente.

"hoje já poderiam estar os 'caterpillares' a funcionar no Montijo"

Raras vezes ouvi em público tal brutal desfaçatez da ganância, como na entrevista deste senhor à Antena 1 e ao JE. A dos caterpílares é uma; outra é a lógica de merceeiro, expendida sem pudor: se os turistas não vierem para aqui irão para outro lado. Rebentar com o país por causa do turismo... Tudo isto é nauseante. Continuo a dizer que uma boa maneira de todos os portugueses de bem se manifestarem contra este processo lesivo e muito duvidoso será o da resistência contra este processo feito despudoradamente nas nossas barbas. E nós, mansíssimos, fracos, alienados, deixamos.
No caso de a construção ser aprovada, com a desculpa dos cinquenta anos que levamos para decidir, sem que tenham sido ponderadas e explicadas todas as hipóteses, como é obrigação do governo,  tenho esperança de que a malta na casa dos vinte e trinta, que ainda não está conspurcada pelo cacau -- no fundo, é só disto que se trata -- esteja na linha da frente dessa resistência activamente pacífica, cercando, ocupando, inviabilizando qualquer trabalho.
(E ainda não foi hoje que falei das aldeias do lítio).

terça-feira, novembro 19, 2019

José Mário Branco, a revolução melodiosa

foto de Rita Carmo
José Mário Branco era a revolução e o músico excepcional; alguém que começando por não gostar do fado se tornou um nome importantíssimo, nomeadamente no seu trabalho com Camané, e não só. Desde o início, ele andou por aqui, e também
aqui,
aqui

aqui



«Papuça»

segunda-feira, novembro 18, 2019

«Leitor de BD»

Logo Jornal i
sobre Conversas com os Putos e com os Professores Deles (Álvaro)
e O José Foi à Escola (Matos Barbosa)

estampa CCCLXXXIV - Frédéric Bazille


A Toilette (1869)

quinta-feira, novembro 14, 2019

erotica


Petra Skoupilová

Eça de Queirós, nos 150 anos do Canal do Suez



do Amor como categoria política

Ele existe, e a Joacine sabe do que fala; parece que tem costela anarca, tal como o Livre dela se apregoa. Quem não sabe ou não quer saber é Costa, bastante quadrado: «Discordo. A actualização do salário mínimo nada tem a ver com o amor.» Ah ah ah...

50 discos: 16. OS SOBREVIVENTES (1971) - #7 «Farto de voar



terça-feira, novembro 12, 2019

criador & criatura

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Dupa e Cubitus

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«Leitor de BD»


sobre Undertaker - 1. O Devorador de Ouro, de Xavier Dorison e Ralph Meyer,
e O Amor Infinito que Te Tenho, de Paulo Monteiro

estampa CCCLXXXIII - Boccaccio Boccaccino


Rapariga Cigana (1516)

segunda-feira, novembro 11, 2019

do que eu gostei mesmo nas eleições espanholas

foi a ERC-Esquerda Republicana da Catalunha, cujo líder, Oriol Junqueras, está preso com uma condenação a treze anos de cadeia, ter obtido mais três deputados que o partido do patife do Rivera.

domingo, novembro 10, 2019

orquestrais & concertantes: Beethoven, SINFONIA #5 (1808) - I. Allegro con brio / Muti

comunismo e nazismo, uma equiparação idiota, ou o Gulag não é Auschwitz

O tema já tem semanas, mas este post de Jorge Carreira Maia, em que faz muito bem o distinguo entre nazismo e comunismo, levou-me a alinhavar o que segue, na esteira do que ali ficou escrito.

Uma cabazada de eurodeputados maioritariamente de países do antigo Pacto de Varsóvia, e que hoje tão válidas lições de democracia e direitos humanos nos dão, esmagadoramente pertencentes aos grupos conservadores, com meia dúzia de liberais e quatro socialistas, entre os quais uma luminária do PS, subscreveram uma moção, aprovada por esmagadora maioria, que o nazismo / fascismo e o comunismo eram equiparáveis. (Está aqui o pastelão, para quem tiver pachorra; eu não tive, fio-me na imprensa.)

Há ali uma compreensível motivação de ajuste de contas com o passado recente e ressentimento por parte dos países que foram ocupados pelos soviéticos, boa parte deles, de resto, aliados da Alemanha nazi, o que não justifica essa ocupação disfarçada, é claro, e muito menos o esmagamento da insurreição húngara de 1956 ou da Primavera de Praga, liderada pelo eslovaco Alexander Dubceck, um dos meus heróis, secretário-geral do PC checoslovaco, e que bem caro pagou a coragem e audácia à mão dos apparatchiks do Partido.

Então, por que razão comparar nazismo e comunismo é duma estupidez crassa? Não matou o comunismo ainda mais gente que o nazismo? Sim, tal não me oferece dúvidas, atendendo ao tempo que se mantiveram no poder, do sátrapa Stálin (nem falo do megalómano Mao, no psicopata do Pol Pot ou na monarquia comunista norte-coreana, pois são realidades um bocado chinesas para nós -- não os percebemos...). Não foram (e são) o comunismo soviético um monstruoso embuste, que caiu de podre como a URSS e satélites? Sim, o comunismo soviético foi uma vergonha e um embaraço para qualquer pessoa intelectualmente honesta.

No entanto, ah, no entanto, aqui vai o diabo do pormenor: as palavras têm peso e correspondem a ideias. Na esteira do que bem escreveu Jorge Carreira Maia, em especial no segundo parágrafo, o factor da irracionalidade do nazismo, faz com que o mal seja assumido sem ambiguidade, na desumanização dos não-(ditos)arianos; enquanto que, o lastro racionalista do marxismo-leninismo, filho do iluminismo, nunca poderá acomodar qualquer espécie de opressão étnica, nem tal pode ser admitido, sob pena de autodesclassificação, mesmo quando episodicamente o tenham feito, no tempo de Stálin, sob pretextos fantasiosos (a chamada "conspiração judaica" e outras paranóias do Zé dos Bigodes).

Que são ambos regimes totalitários, é indesmentível; que um aponta para o Céu e outro para o Inferno (para os sub-homens, não "arianos"), é-o também. Não há que admirar: o marxismo-leninismo, ao tornar os cidadãos funcionários e dependentes do Estado, criou de imediato as condições para que o sistema criasse entropias que estão na base da sua futura desagregação, que só não se deu mais cedo graças à criação dum estado policial e perversamente repressivo -- a negação e repressão da liberdade como instrumento de manutenção do poder. Dessa funcionalização surgiu o que é previsível e surge sempre nestas circunstâncias: os carreiristas, os oportunistas, os desavergonhados e os alienados inofensivos completamente inseridos no sistema, que viviam a sua vida e achavam que era assim e teria de ser assim para todo o sempre. A RDA, no seu desmoronamento de há trinta anos aí está para comprovar isso e o seu contrário: andava o Muro a cair e ainda havia polícias e burocratas a tentar parar o vento com as mãos. No entanto, prometendo sempre o Sol e as bem-aventuranças neste mundo.

(Claro que no comunismo houve e há muita gente de bem; mas a sua adesão a esse ideário é do domínio da, não do racional; mas, que diabo!, não há gente a  acreditar na existência de "Deus", na imortalidade da alma e coisas assim?...)

Uma subtileza, pois, que não interessa nada, aqui no rectângulo, à direita democrática com reserva mental, saudosa do salazarismo e que à boca pequena execra a abrilada, como carinhosamente chama ao 25 de Abril, nem perdoa a descolonização, além de tudo o que cheira a esquerda (ainda ontem vi um pacóvio a torcer-se todo por causa da libertação do Lula e com vergonha de defender o Bolsonaro, que só sabe contar até 9).

Subtileza que de facto o não é; que entra pelos olhos dentro de qualquer pessoa com informação suficiente e tenha por hábito pensar, a diferença abissal entre comunismo (mesmo que soviético, pois há outros) e nazismo; e que chateia ver o PS embarcar em tão más companhias, por desleixo ou estupidez, não interessa. 

Por muito que lhes custe, e, principalmente, por muito que tenha custado ás vítimas, o Gulag não é Auschwitz; há toda uma diferença de escala na maldade e na perversidade, cuja avaliação nunca poderá ser quantitativa. Qualquer pessoa de boa-fé e com dois dedos de testa percebe isso. Quem não percebeu foram as criaturas que votaram a equiparação da pêra rocha com a pirite alentejana. Um mistela intelectual que me lembra uns turistas chineses no restaurante em que costumo almoçar, que misturam azeitonas na mousse de chocolate.

sábado, novembro 09, 2019

a grilheta da escrita

«Vim : -- e a pena, asa sublime do Sonho, transformou-se em instrumento de suplício : e a mesa de trabalho em cadafalso inexorável.» Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge (em colaboração com Eduardo Frias),  «A Legenda do Pórtico» (1924)

orquestrais & concertantes: CONCERTO DE BRANDEMBURGO #4 (C. 1718-21) - II Allegro / Richter

Lula livre!



https://lulalivre.org.br/blog/2019/11/07/stf-decide-em-defesa-da-constituicao/

sexta-feira, novembro 08, 2019

«Off The Ground»

lixo

Foi presa a mulher que deitou o filho que acabara de parir, sozinha numa tenda, para dentro de um contentor de lixo. Deve haver por aí muitos alvitres, eu não tenho nenhum. Só me parece que quem se sente e toma por lixo aí deposita o sangue do seu sangue.

"a possibilidade vocálica de Deus"

«Talvez a realidade possa ser apreendida na forma estranha da arte, mas eu, fincando em espaços divinos, lembro-me destas palavras: Floresta -- Dália -- Medusa -- Silvalde -- Maresia -- Saudade -- Sonho e cheiro do mar na onda da praia na concha da espuma quando também me lembro do cheiro misterioso em castanhos efeitos a sair da terra molhada. E... vejo o céu na nuvem passeante adormecida na cor sem forma de adeus. O ritmo de palavra é como se pode ver uma expressão musical -- quanto mais afinado está o ritmo harmónico mais sensível aparece o estado de alma dado em pormenor pelo som silábico. Os meus estudos imaginativos têm-me levado a estas novas possibilidades onde a alma consegue definir-se estaticamente, o verbo é a criação e o ritmo é a necessidade de agitação de sonho para o homem -- As palavras são essência da vibração como folhas de árvore são necessidade de vento. Toda a religiosidade da natureza é dada pela interpretação ritmada do verbo -- o verbo divino nada mais é do que a possibilidade vocálica de Deus!» Ruben A., Páginas I (1949)

50 discos: 9. OS AFRO SAMBAS (1966) - #7 «Bocoxé»



quinta-feira, novembro 07, 2019

"hoje, o artigo do dia é poesia"

«Curiosamente, hoje, o artigo do dia é poesia. Nos bares da moda, nas portas de teatro, nos lançamentos, livrinhos circulam e se esgotam com rapidez. Alguns são mimeografados, outros, em offset, mostram um trabalho gráfico sabido e diferenciado do que se vê no design industrializado das editoras comerciais. Mesas-redondas e artigos discutem o acontecimento. O assunto começa -- ainda que com alguma resistência -- a ser ventilado nas universidades. Trata-se de um movimento literário ou de mais uma moda? E se for moda, foi a poesia que entrou na moda ou foram os poetas? O fato é que a poesia circula, o número de poetas aumenta dia-a-dia e as segundas edições já não são raras.» Heloisa Buarque de Hollanda, 26 Poetas Hoje (1975)

quarta-feira, novembro 06, 2019

«Pennies From Heaven»

tomem um chá de camomila...


A parvoíce da semana é a conversa fiada da gaguez da deputada Joacine Katar Moreira, enquanto parlamentar.
Sobre o assunto, tenho a dizer: a gaguez é uma deficiência como outra qualquer; e assim como na anterior legislatura o Parlamento teve de adaptar-se à cadeira de rodas do deputado Jorge Falcato, do BE, nomeadamente no que respeita às acessibilidades, aqui vai ter de adaptar-se à gaguez de Joacine. E o melhor, quanto a mim, é estabelecer já um critério, e não deixar ao bom senso ou à boa vontade de quem estiver a presidir à sessão. Os deputados têm um minuto para intervir?; ela terá dois, e certamente saberá acondicionar o discurso ao tempo que lhe está reservado. Aliás, estou convencido que à medida que a actividade parlamentar for deixando de ser uma novidade, a própria deputada ganhará maior à-vontade e maior fluência no discurso.
Quanto ao resto, é conversa comunicacional sem substância, vale zero.
Enquanto não se habituarem, levem um termo com cidreira.
Já agora, a primeira proposta do Livre, apresentada por Joacine, será o da trasladação dos restos mortais de Aristides de Sousa Mendes para o Panteão Nacional. Se há alguém que merece inequivocamente lá estar é ele (eu aristidiano ou aristidiófilo me confesso).
Com uma ressalva: não sei se ele está enterrado com a sua mulher, Angelina, por quem a provação também passou. Se assim for, como provavelmente será, não me parece justo separá-los -- diz-mo o meu incorrigível romantismo; e se fosse descendente, embora satisfeito com a reparação do país, não autorizaria essa separação.

terça-feira, novembro 05, 2019

«Entardecer»

Um poemeto acolhido aqui, com a benevolência de José Pascoal, a quem agradeço.

«Leitor de BD»


sobre O Coleccionador de Tijolos, de Pedro Burgos
e Fora de Boneville, de Jeff Smith

criador & criaturas

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Bonvi e Sturmtruppen

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segunda-feira, novembro 04, 2019

as guerras da água

foto
Quando, ainda no século passado, se dizia que as guerras deste seriam determinadas pela água, eu imaginava refregas no Médio Oriente e em África e estava longe, na minha ignorância, de suspeitar que o problema se poria com grande acuidade aqui. Claro que não é previsível nenhum conflito grave com Espanha no momento presente, mas esta é uma típica situação de potencial casus belli
Além da seca, assistimos à predação do património que é de todos, com a óbvia cumplicidade dos sucessivos governos, uma vez que estas barragens são exploradas pelas companhias eléctricas, cuja gestão dos caudais é feita com contabilidade merceeira a benefício dos accionistas (shareholders, em estrangeiro). 
Ora aqui está mais uma inadmissibilidade a que urge pôr cobro, independentemente das ameaças e das pressões comunicacionais dos mercenários e putéfias da caneta agenciados, que visam intimidar todos quantos defendem os bens públicos, e de caminho desvirtuar as suas ideias. (E isto também serve para os aeroportos, e para o lítio, de que ainda falarei).

"Dou palavras um pouco como as árvores dão frutos"

«Ao escrever, e independentemente do valor do que escrevo, tenho às vezes a vaga consciência de que contribuo, embora modestamente, para o aperfeiçoamento desta terra onde um dia nasci para nela morrer um dia para sempre. Dou palavras um pouco como as árvores dão frutos, embora de uma forma pouco natural e até antinatural,porquanto, sendo como o é a poesia uma forma de cultura, representa uma alteração, um desvio e até uma violência exercidos sobre a natureza. Mas, ao escrever, dou à terra, que para mim é tudo, um pouco do que é da terra. Nesse sentido, escrever é para mim morrer um pouco, antecipar um regresso definitivo à terra.» Ruy BeloTransporte no Tempo (1973), «Breve programa para uma iniciação ao canto».

domingo, novembro 03, 2019

erotica


solitude

«A estação de Ovar, no caminho de ferro do Norte, estava muito silenciosa pelas seis horas, antes da chegada do comboio do Porto.» Eça de QueirósA Capital! (póstumo, 1925)

quinta-feira, outubro 31, 2019

«Just The Same»

ministério da aviação climática

O Governo quer instituir o provedor do animal, certamente a pensar nas aves afectadas no caso do aeroporto no Montijo avançar (a APA acaba de dar o seu aval). A tutela fica no Ministério da Aviação Climática. 
Creio que a sociedade irá resistir, sob pena de merecer o que os interesses estão a fazer à sua custa e nas suas barbas.

terça-feira, outubro 29, 2019

estampa CCCLXXXI - Marc Chagall


Uma Árvore Verde (1948)

«Leitor de BD»

Sobre
Petit poésie des Saisons (Zep) e
O Avião do Nanga (René Sterne)

domingo, outubro 27, 2019

criadores & criaturas

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Louis Salverius, Raoul Cauvin e Os Túnicas Azuis

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orquestrais & concertantes: Brahms, SINFONIA #4 (1884) - III. Allegro giocoso / Sado

cabaz do 30.º Amadora BD

Buck Rogers, de Dick Calkins e Phil Nowlan (Futura)
Cisco Kid - II, de José Luis Salinas (Futura)
Conversas com os Putos -- e com os Professores Deles, Álvaro (Insónia)
Dylan Dog -- O Velho que Lê, de Fábio Celoni (G. Floy Studio)
Dylan Dog -- Trevas Profundas, de Dario Argento, Stefano Piani e Corrado Roi (A Seita)
El Diablo, de Brian Azzarello e Danijel Zezelj (Opera Graphica)
Ermal -- Sementes no Deserto, de Miguel Santos (Escorpião Azul)
Hergé Filho de Tintin, de Benoît Peeters (Verbo)
Living Will #6, de André Oliveira e Pedro Serpa (Ave Rara)
Living Will #7, de André Oliveira e Joana Afonso (Ave Rara)
O Coleccionador de Tijolos, de Pedro Burgos (Chili com Carne)
Selva!!!, de Filipe Abranches (Umbra)
Um Capuchinho Vermelho, Marjolaine Leray (Orfeu Negro)
Undertaker -- 1. O Devorador de Ouro, de Xavier Dorison, Ralph Meyer e Caroline Delabie (Ala dos Livros)

quarta-feira, outubro 23, 2019

estampa CCCLXXIX - Charles Burchfield


A Casa Assombrada /(191\8)

um texto magnífico sobre o problema catalão

«[...] eu, que sou o produto de uma escola espanhola, na qual a cultura catalã, a língua catalã e a literatura catalã eram uma página em branco, e que fui criado sob o espírito das glórias do espanhol D. Pelágio, do Cid Campeador, do Império de Carlos V, dos Terços de Flandres e da Armada Invencível, “abduzido” pela grandeza de uma Espanha una e não plural, no entanto aqui escrevo constatando, tarde demais, a grandiosidade de uma Península Ibérica, diversa, tão peculiar, que poderia ter sido imensa. Portugal saiu a tempo, pois hoje corria o risco de se ver protelado no uso da sua língua, entre muitas outras coisas. /
 [...] defino-me como independentista à força, principalmente depois do 1 de Outubro e desta sentença. Explico: foi a Espanha que me expulsou, não fui eu que me quis ir embora.»

Um artigo de Pedro Ferré, professor da Universidade do Algarve, para ler todo aqui , e a partir daqui.

terça-feira, outubro 22, 2019

«Kingmaker»

«Leitor de BD»

Logo Jornal i
sobre Deadpool Mata os Clássicos! (Cullen Bunn e Matteo Lolli)
e As Investigações do Coronel Clifton (Raymond Macherot)

segunda-feira, outubro 21, 2019

diálogo sobre a questão catalã

Jaime Santos, cujas opiniões demoliberais prezo, pois não divergem muito das minhas,  comentou este post, levantando questões que me parecem úteis trazer para aqui, em vez de ficarem perdidas numa caixa de comentários. Para facilitar a leitura, intercalo as minhas observações com o seu comentário: o texto dele vai entre aspas e em itálico, o meu vai em redondo e a bold.

«Comparar, meu caro, Saddam, Assad ou o Estado Islâmico com o PSOE ou o PP é um bocadinho puxado, penso eu (mesma coisa a compará-los com Franco).»

Duas notas: 
1. Não estava a pensar em Saddam ou no Assad (duas personagens muito diferentes), mas simplesmente na Turquia e no PKK, cujo enfrentamento vai muito para além (e para trás) da era Erdogan. Aliás, o Saddam está aqui a mais, pois tratava-se de um psicopata; o Franco e o Assad são dois ditadores que mantêm o poder e a unidade territorial dos respectivos estados pela força que for precisa. Não sei por que razão quer há-de você ser benevolente para com o generalíssimo pela graça de deus...
2. Não se trata de uma questão de grau de repressão -- porque, gostemos ou não, a repressão, mais bárbara ou mais civilizada, está sempre presente --, mas do princípio elementar da autodeterminação dos povos, que aos catalães está vedada.
(Isto leva-me a falar na ignorância atrevida e crassa de muitos comentadores da questão: quando esta se levantou no ano passado, ouvi uma corifeia, a partir do palanque merdiático que detém, comparar o problema com uma eventual vontade de secessão do Porto ou coisa que o valha, para significar a absurdez da situação, no seu vesgo modo de ver. É não ter a mínima noção do que fala; mas como além de falta de noção também lhe mingua a vergonha, continua por aí a perorar, provavelmente não repetindo o dislate, pois alma caridosa provavelmente chamou-lhe a atenção para o disparate). Há dias, não um comentador mas um singelo director de informação, punha a questão secessionista ao nível do Açores e da Madeira, achando que podia comparar o incomparável, não percebendo nada (ou não querendo perceber), misturando autonomias  de natureza diferente). E o que ele devia perceber é que não há espanhóis; ou então: espanhóis somos todos, como lembrou D. João II aos Reis Católicos, os tipos que armaram este sarilho. Açorianos e madeirenses são tão portugueses como transmontanos e algarvios, e não se sentem outra coisa; a Espanha é uma entidade política artificial, imposta pela força das armas, ao longo dos séculos, uma unidade de que fizemos parte em várias situações e das quais saímos porque quisemos sair, ou não quisemos entrar, em várias ocasiões, sempre pela força das armas, em duas delas contra a legalidade, com D. Afonso Henriques e D. João IV (D. Afonso V também quis subjugar Castela e dela tornar-se soberano).

«Os meios devem ser ponderados à situação presente e a Espanha ainda não começou a meter pessoas indiscriminadamente na cadeia ou a torturá-las, ou o que seja (isso não impede as presentes condenações de serem exageradas e sobretudo injustas).»

Não, meu caro, as condenações não são exageradas; provavelmente as sentenças são impecáveis, porque de acordo com a legalidade do estado espanhol, mas profundamente ilegítimas, pois negam um direito básico de qualquer povo (daí a minha referência aos curdos), o tal da autodeterminação. E as leis mudam-se, é uma questão de bom senso, ou de força... 

«Quando alguém se levanta contra uma ordem constitucional (porque a presume ilegítima) deve estar preparado para sofrer as consequências. Nessa medida, Junqueras ou Forcadell merecem muito mais a minha admiração que Puigdemont. Escolhem como Gandhi (ou Mandela que mais tarde se converteu à solução política do conflito na África do Sul), sofrer pelas convicções.»

Sim, deve estar preparado, mas essas considerações implicam um julgamento que não só não adianta nada, como é bastante fácil de enunciar a partir do teclado. O exílio não deve ser um mar de rosas; em segundo lugar, não sabemos que articulação terá havido entre os protagonistas; e por fim, o Puigdemont serve a sua causa em Bruxelas, e não creio que haja catalão que não o apoie.
E, deixe-me que lhe diga, a conversa da constituição é uma treta, pois na transição todos queriam ver-se livres do regime e aceitaram todos os compromissos para acabar com o franquismo. Falar de constituição nesta altura do campeonato é de um grande cinismo (não seu, mas dos políticos de Madrid).

«Relativamente ainda à acção violenta, o insuspeito Camus disse um dia que entre a Justiça e a sua Mãe (que vivia na Argélia), ele escolheria a sua Mãe. Eu faria exactamente a mesma escolha...
E, chame-me cobarde ou reaccionário, não vou criticar nenhum Espanhol ou Catalão (Pied-Noir ou não) que faça também essa escolha. E cuidado com aqueles que a fizerem. O terror, como bem mostra a História, não é normalmente só a arma de um dos lados... A Guerra Civil de Espanha foi tudo menos um conflito entre os bonzinhos e os mauzinhos... Cuidado com o que se deseja...»

O Camus era um individualista, e bem; também eu me considero tal. As nossas opções são sempre sopesadas entre a ética e as convicções, por um lado, e os custos e danos por outro. Cada um deve ter a liberdade de agir em conformidade com a sua consciência, sem entrar no tropel da manada. Mas tenho a certeza de que faria suas as extraordinárias palavras do José Martí: «Si no luchas ten al menos la decencia de respetar a quien sí lo hace.»
O "terror". Chamar terroristas a quem pega em armas para defender-se é o que faz o Erdogan aos curdos do PKK e os que lutaram contra o Daesh, era o que o Salazar chamava aos movimentos de libertação das colónias. Não, meu caro, não faço esse favor aos opressores, mesmo que sejam opressores 'soft' ou 'light'. Se um comando catalão atacar pelas armas a sede da polícia espanhola, não serei eu quem levantará a voz para os condenar, era o que faltava. Embora, como escrevi, considere mais produtiva e inteligente um movimento de desobediência civil essencialmente pacífico e simbólico, mas eficaz. 
Terror é o que fez aquele islamita em Nice, que varreu dezenas de pessoas ao volante de um camião; ou os guerrilheiros da UPA, que massacraram colonos e indígenas, mulheres e crianças no norte de Angola, em 1961, ao contrário do MPLA, que assaltou uma cadeia onde estavam presos políticos nacionalistas / patriotas angolanos. Terror é condenar um líder político a 13 anos de cadeia.
Não, a Guerra Civil foi uma insurreição contra um governo democrático legítimo, chefiada por uma ratazana cujas ossadas vão ser despejadas daquele ignominioso Vale dos Caídos, o tipo que mandou fuzilar o Companys, presidente da Generalitat durante a II República. Não há mauzinhos nem bonzinhos; quando muito tipos do lado certo e outros do outro lado.


«Mas depois, existe um pequeno problema, aparte a falta de coragem dos Partidos Espanhóis que não querem abrir a caixa de Pandora dos referendos e se preparam para abrir a do separatismo porventura violento.»

Não querem, porque a direita espanhola é profundamente reaccionária e franquista, do aldrabão do Alberto Rivera (filho de colonos andaluzes que o Franco mandou para lá, que cortou o 'o' do nome para parecer catalão) ao gajo do Vox, a extracção é toda a mesma: o PP, o partido nascido do franquismo.  Fui um pouco injusto com o PSOE, que quis de facto dar um salto a tempo para outro patamar político, mas sempre bloqueado pelos franquistas do PP. É a minha embirração com o Sanchez, de que me penitencio, em período eleitoral, embora não dê nada por ele, como político ou indivíduo (um tipo que plagiou a tese, não é?...).

«A maioria dos catalães votou, nas últimas eleições, em Partidos Unionistas, a maioria presente no Parlement deve-se a um sistema eleitoral não proporcional e o mesmo se passou na anterior eleição que deu o Parlement que declarou a independência. Fazer um referendo sem sequer se dispor de uma maioria parece-me um bocadinho forçado...»

Creio que está a incluir nessa alegada 'maioria' o Podem, que em bom rigor não é unionista nem separatista (o que faz a propaganda...) E se é como você diz, não percebo por que razão os 'arriba españa' não viabilizam o referendo, gozando do seu triunfo em todas as frentes, e passam pela vergonha de serem desprezados em países civilizados. Aliás, tem-se visto quem vem para a rua em Barcelona, a defender a integração: aqueles embuçados de braço levantado em saudação fascista. Não era preciso ver, já se sabia, mas assim é mais eloquente.

«Quanto à vida ser feita de crises, bom, eu contrariamente àquele escritor francês, prefiro o aborrecimento à barbárie. O aborrecimento tem futuro, a barbárie não tem nenhum...»

Ora, somos dois! Mil vezes o aborrecimento da vida burguesa e medíocre dentro dos carris. Mas, lá está, não irei criticar quem se revolta contra a indignidade. Viver de joelhos deve ser muito aborrecido, e por vezes também deve custar a olhar para o espelho. Li já há uns bons anos uma entrevista dum escritor catalão que se assumia como independentista, e lembrava, com indignação, de como no seu tempo de criança e jovem, estava proibido de aprender a sua língua na escola. É realmente desagradável andar agachado.
Deus queira você tenha razão nesse optimismo quanto à falta de futuro da barbárie. Mas, como tenho dito, os catalães é que sabem. E note que não tenho nenhum preconceito contra os castelhanos, muito pelo contrário; mas as coisas são como são.

sexta-feira, outubro 18, 2019

quinta-feira, outubro 17, 2019

terça-feira, outubro 15, 2019

«Leitor de BD»

sobre Dylan dog -- Até que a Morte Vos Separe (Marcheselli, Sclavi e Brindisi)
e Little Nemo in Slumberland (Winsor McCay)



segunda-feira, outubro 14, 2019

«All Your Love»

Catalunha, aí vamos nós

A Espanha é governada por uns consabidos merdas. O PSOE obviamente não ousa a acção política, mesmo em defesa da unidade do estado espanhol noutros moldes, mais confederais, pois teme que aquela o afaste por muitos e bons do governo, ao contrário do PODEMOS, parece, se ainda não mudou de posição. Não é de espantar a sentença a pesadas penas de prisão emanadas pelo flato do supremo castelhano. Percebe-se que a vontade  de partir tudo fale mais alto, diante da indignidade, e não serei eu que irei condenar qualquer forma de luta que a sociedade catalã pretenda assumir, incluindo a armada, desde que os alvos sejam legítimos. (Não se pode ser a favor dos curdos e assobiar para o lado quando se trata da Catalunha.) Mas o mais inteligente é mesmo uma resistência firme mas não-violenta, à Gandhi, desde que a sociedade catalã esteja mobilizada para o sacrifício que tal acarreta. Nesta fase, visto de fora e à margem, parece-me ser a maneira mais eficaz de desmascarar a unidade espanhola, imposta pelo sangue. Quanto à UE, não se pode esperar grande coisa; parece que política comum só em relação ao Brexit. Talvez o Tribunal Europeu obrigue Madrid a ter vergonha na cara, o que iria abrir uma crise sem precedentes com a UE, mas a vida é feita de crises. Só espero que nenhum país se manche em relação aos exilados políticos catalães que acolhe. 

domingo, outubro 13, 2019

sábado, outubro 12, 2019

orquestrais & concertantes: Brahms, SINFONIA #4 (1884) - II. Andante moderato / Sado

estampa CCCLXXVII - Leon Bakst


Auto-Retrato 

parece que sabem assinar...

Fica aí ao lado a fotografia da Joacine Katar Moreira, até tomar posse na Assembleia da República. Quanto ao lúmpen que assina esta petição tonta e mal-intencionada -- 19 mil grunhos, ou seja, o equivalente em criaturas a duas ruas compridas de qualquer subúrbio de Lisboa, e não mais do que isso --,, ficamos a saber que pelo menos conseguem assinar o nome.

sexta-feira, outubro 11, 2019

quarta-feira, outubro 09, 2019

vozes da biblioteca

«achei que aquele silva era um imbecil dos grandes e que me estava a empatar as energias com retóricas a chegar a um ponto em que a irritação me fazia agir contra a vontade de estar quieto.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)

«Não é bem a vida que faz falta -- só aquilo que a faz viver.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

«No telhado antigo, com o pó dos tempos fixado em crostas esverdeadas que nenhuma chuva conseguia lavar, os pardais faziam o ninho na Primavera.» Ferreira de Castro, A Missão (1954)

estampa CCCLXXIV - Egon Schiele


A Irmã do Artista, Melanie (1908)

segunda-feira, outubro 07, 2019

«Leitor de BD»

sobre Duke -- Sou uma Sombra (Hermann & Yves H.)
e Aventuras e Desvnturas de Quim e Filipe (Hergé)