sábado, agosto 24, 2019

um elogio (e não é por causa do Salazar, embora também por isso o mereça) à Câmara de Santa Comba Dão

A pintura à esquerda integra um conjunto de seis grandes telas da autoria do enorme Columbano Bordalo Pinheiro, muitas vezes vislumbradas nos telejornais, pois está nos Passos Perdidos, na Assembleia da República, Da esquerda para a direita: Mouzinho da Silveira, Duque de Palmela, Duque de Saldanha e José da Silva Carvalho. Este, que também é natural de Santa Comba Dão, fundador do Sinédrio e um dos líderes políticos da Revolução de 1820, foi, em minha opinião, bastante mais importante para a História de Portugal do que Salazar. E a Câmara local está a celebrá-lo, culminando, no próximo ano com o bicentenário do vintismo, a mais transcendente revolução da nossa contemporaneidade, e de que o 25 de Abril representa uma espécie corolário. Um exemplo, pois, que deveria ser seguido -- o que talvez seja esperar demasiado dum país sem política cultural.

quinta-feira, agosto 22, 2019

que fazer com o Salazar? (com adenda)

O Salazar só me lembra coisas que detesto: primeiro, a manha da conservação do poder; depois: pobreza, pide, missas, bufos, censura, colonialismo e atraso, moral e mental, do povo, que ainda estamos a pagar. 
Museu sobre Salazar em Santa Comba Dão? Um museu tem critérios. Se eles se verificarem -- existem regulamentos para tal. Não faço ideia dos critérios da câmara do sítio, para além do centro interpretativo (palavras da moda, como curadoria e outras). Espero que haja massa crítica para que aquilo não seja um santuário, com venda de pagelas bentas do santinho, nem redunde na mostra do penico do Salazar numa caixa acrílica -- mas nunca se sabe.  Tem bom remédio, porém: vá à universidade, Coimbra, ali perto, ou outra, e se quer fazer coisa séria, convide-a para parceira no delinear de um projecto e coordenação, e com isso mata o assunto.
Goste-se ou não, o Salazar governou este país durante quarenta anos. Foi, portanto, um dos homens que mais o influenciou, em quase nove séculos, que é o tempo que já levamos disto. A sua terra lembrá-lo -- agora, ontem, daqui a vinte anos -- é uma inevitabilidade, e pode fazê-lo bem, criticamente, ou não. Mas nesse caso já não será um museu. O que sempre me irrita são os activistas do costume (ponho de lado os antigos presos políticos) disfarçados de historiadores e cientistas sociais (oh...) a descabelarem-se em abaixo-assinados no facebook, tudo tão pequeninamente miserável e reles...

Adenda: entretanto fiquei a saber - e já poderia sabê-lo se tivesse consultado o sítio da CM de Santa Comba Dão, que o projecto está a ser coordenado pelo Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da U. Coimbra, o que assegura toda a fiabilidade do projecto. Parabéns, pois, à CMSCD.

Adenda 2: esta conversa liga-se à "Questão dos Descobrimentos", em que mais uma vez se mostra  a farsa intelectual veiculada por ideólogos travestidos de historiadores e afins.

não sei se náusea ou vontade de rir

Porquê decretar serviços mínimos durante uma greve numa companhia aérea irlandesa de baixo custo, conhecida pelas maravilhosas condições que proporciona aos seus trabalhadores -- ou colaboradores, se quiserem em dialecto sonso-estúpido e analfabeto?
Não há outras companhias aéreas alternativas, a começar pela TAP?
Que precedentes são estes num governo que se diz de esquerda, não sei se náusea ou vontade de rir?
Quando a direita voltar ao poder, se calhar mais cedo do que se pensa, já tem o caminho aberto e à vontade para fazer o que lhe vai na alma, e nunca teve coragem para tal.

A esquerdice deve estar no comunicado, gastando tinta, tempo, espaço e a paciência dos outros quando se refere aos cidadãos e às cidadãs (arre, que miséria!) 
Ena pá, é tão de esquerda, cidadãos e cidadãs, avião e aviã, a cona da mãe e o cono do pai; agora pessoal a lutar para ter 22 dias úteis de férias e outras merdas sem interesse nenhum, isso é que não pode ser.

O que andaríamos a chamar agora ao Passos Coelho?

terça-feira, agosto 20, 2019

domingo, agosto 18, 2019

vozes da biblioteca

«Para estar de acordo com o horário dos trens devíamos chegar às oito horas e alguns minutos à estação, e estou certo de que assim teria acontecido se não fosse o folgado e paciente atraso de duas horas e meia, que tivemos de aturar dentro dos compridos wagons de primeira classe, nada inferiores ao cárcere duro. Coelho Neto, A Capital Federal (1893)

«Para mim, João Jorge nasceu na noite em que o mataram, nas hortas a caminho da Vila Chã.» Bruno Vieira Amaral, Hoje Estarás Comigo no Paraíso (2017)

«Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu.» Machado de Assis, Dom Casmurro (1900)

quinta-feira, agosto 15, 2019

a crise energética, como eu a leio

De férias e sem televisão, e só agora com net no domicílio estival, não tenho visto tudo sobre a greve; mas o que li nos jornais e ouvi na rádio possibilitam-me escrever o seguinte:

1. O que parece incontroverso: o descontentamento elevado dos motoristas de pesados, em especial os das matérias perigosas, daí a forte adesão a esta greve.

2. Ordenados mínimos para estes trabalhadores, com extras pagos por baixo da mesa, de acordo com as notícias; ou seja: em baixa médica ou reforma, o trabalhador vence pelo mínimo. Além disso, fuga aos impostos por parte dos patrões.

3. Ao anunciarem uma greve por tempo ilimitado,  os dois sindicatos estão a dar um passo maior que a perna. Obviamente que o estado não pode ficar de braços cruzados em questões estratégicas. Crítica ainda aos sindicatos, por darem pretexto ao governo por exercer a maior limitação alguma vez vista ao direito à greve.

O que me leva à questão política: o PSD tem razão quando denuncia a dramatização do governo; no entanto essa oportunidade foi concedida de mão beijada a António Costa pelos sindicatos grevistas, não só porque a greve é impopular (a maralha está sempre pronta a reclamar, mas, quando mexem com os seus interesses, endossa sempre a autoridade), como ainda não se apagou da memória a nódoa dos fogos de 2017, de que obviamente não foi o principal 'culpado', mas não se pode eximir à responsabilidade pela actuação da Protecção Civil.

A forma como se procurou matar a greve no ovo foi um golpe de génio, dirão alguns. Sim, temos um primeiro-ministro que é um habilidoso, um verdadeiro artista, como diria o outro; mas estas habilidades são dispensáveis e lesivas de uma vida democrática sã. Não é porém de agora, nem deste governo, mas não deixa de ser nauseante assistir ao cerceamento de um direito fundamental por parte do executivo da Geringonça. Não há-de a direita estar desorientada e em decomposição...

Verifico que é um sindicato da CGTP que esvazia a greve. E talvez com ganhos de causa, o que lhe dará alguma razão. Isso os especialistas dirão. Mas não deixa de ser curioso.

Finalmente, não tenho opinião formada sobre Pedro Pardal Henriques. Está na linha de fogo, inevitàvelmente. Se, como por aí se diz, vier a tornar-se candidato às legislativas por um partindúnculo qualquer, mostrará que não passa de um aventureiro e um espertalhão. No entanto, merece o benefício da dúvida, como qualquer pessoa. A circunstância de ser filho e irmão de motorista, também não é indiferente. Mas, centrar o problema neste indivíduo é querer fazer dos outros parvos, pois a questão essencial, com ou sem Pardal Henriques, está lá em cima, no ponto n.º 1.

P.S. (21-VIII): a candidatura confirma-se, por um partido sem credibilidade. São dois descréditos em um.

segunda-feira, agosto 12, 2019

«Leitor de BD»

Sobre André Oliveira e Joe Musial, no jornal i

terça-feira, agosto 06, 2019

criadores & criatura



Eddy Pappe, Greg e Luc Orient


segunda-feira, agosto 05, 2019

«Sympathy For The Devil»

«Leitor de BD»


Sobre José Ruy, Daeninckx & Tardi, no i.

vozes da biblioteca

«Experimento um prazer em saborear este sol e este cheiro infantil, a carteira, o giz, o quadro.» Antoine de Saint-Exupéry, Piloto de Guerra (1942) (trad. Ruy Belo)

«Ora, se há coisas que as mulheres de sociedade desejam ver, e encontravam-se ali mulheres de sociedade, é o interior dessas mulheres cujas carruagens salpicam de lama as suas, diariamente, que têm, como elas e ao lado delas, um camarote na Ópera e nos Italianos, e que exibem, em Paris, a insolente opulência da sua beleza, das suas jóias e dos seus escândalos.» Alexandre Dumas, Filho, A Dama das Camélias (1848) (trad. Sampaio Marinho)

«Teriam ambos quarenta anos, mas as linhas angulosas das suas feições denotavam energia, mais acentuada ainda pela barba espessa e hirsuta.» Emilio Salgari, O Corsário Negro (1898) (trad. A. Duarte de Almeida)

quinta-feira, agosto 01, 2019

erotica


Marisa Papen, por Laurent Masurel

quarta-feira, julho 31, 2019

estampa CCCLXIX - Italo Ferro


Aeropintura

os estúpidos no meio de nós

O secretário de estado da Protecção Civil, José Artur Neves, de quem até anteontem nunca ouvira falar, está no epicentro de dois casos polémicos, mas que, aparentemente, nada têm que ver um com o outro. O primeiro, o das célebres golas que eram inflamáveis mas que afinal já deixaram de o ser, contratadas com uma empresa que nem é de vão de escada mas de tenda de campismo, tem todo o aspecto da negociata manhosa dos chicos-espertos oriundos das jotas e que paulatinamente vão tomando conta do país, com toda a sua inépcia, todo o seu arrivismo, toda a falta de vergonha -- os tais vilões de que falei aqui, usando o Estado como se fosse coisa sua.
O outro caso parece bem diferente: o filho do secretário de estado é engenheiro civil e detém uma quota, creio que de 15%, numa empresa de construção. Esta, em concursos públicos, vê adjudicada empreitadas na Universidade do Porto e no Hospital de Vila Franca de Xira. De acordo com a lei, parece que há aqui uma irregularidade, ou mesmo um crime...
Ou seja: se eu for accionista de uma editora de livros escolares e tiver o azar de uma cunhada, casada com um dos meus sete irmãos, ser subsecretária de estado da pesca artesanal ou do bem-estar animal, já estou inibido -- eu e os meus sócios --, à face da lei, de ter qualquer tipo de contacto e de contrato com o Ministério da Educação. Num país pequeno, em que somos todos mais ou menos primos e cunhados uns dos outros,  esta disposição legal idiota já deve ter sido quebrada em todos os ministérios de todos os governos.
Trata-se, aliás, uma lei que pede ela própria para ser infringida. Não por especial perversidade do legislador, mas porque este não pôde deixar de ser um mentecapto. No Direito, aliás, assiste-se a uma concentração notável de mentes brilhantes, mas também de cavalgaduras. Já tropecei em algumas: do jurista que faz regulamentos insanos, a cabecinha cheia de trampa, ao causídico que pariu uma longa alegação, repetindo três vezes os mesmos argumentos, não sei se para que o meretíssimo percebesse ou o próprio ficar ciente do que escrevinhara.
Já agora, acho muito bem todas as associações de transparência, quero até uma em cada freguesia; mas não podem limitar-se a ser uma espécie de pan do sector: não basta invocar a lei; devem também ser pedagógicos e dizer que esta é uma lei estúpida, feita por estúpidos e incumprível. Mude-se portanto a lei, já que não podemos mudar os estúpidos, pois eles estão no meio de nós, e convencem-se de que têm coisas a dizer.


terça-feira, julho 30, 2019

«Moritat»

onde páram os vilões?

É fartar vilanagem! O poder atrai sempre os parasitas expeditos para as negociatas de ocasião. É da natureza humana, em relação à qual não tenho grandes ilusões; e para os combater há os mecanismos de controlo do estado democrático (quantas vezes sem meios) e a imprensa para noticiar e denunciar -- felizmente. Mas os vilões não se encontram apenas na infraestrutura dos faz-tudos da política, sempre à espreita da oportunidade; gostemos ou não, a vilania termina na elite dirigente que, mesmo com as mãos limpas num primeiro olhar, fecham os olhos e assobiam para o lado, para não verem as cenas indecorosas, para não inalarem o mau cheiro que vem do esgoto do arrivismo, não se coibindo porém de colher os frutos fertilizados pelo estrume.


segunda-feira, julho 29, 2019

Pinharanda Gomes (1939-2019)

Um dos mais impressionantes, fecundos e modestos intelectuais que tive a honra de conhecer. Referia/se a si próprio, se calhava, como 'o Pinharanda', e apresentava-se como funcionário de uma casa de máquinas agrícolas.

«Leitor de BD»

A partir de hoje, às segundas, no jornal i, e depois aqui.

sábado, julho 27, 2019

vozes da biblioteca

«Ai os turcos, uns porcos, tanto comiam batata crua, como comiam carne de gazela, uma carne preta que eu não sei o que era aquilo, mas remelgavam os olhos quando vissem a gente comendo carne de porco!» Olga Gonçalves, A Floresta em Bremerhaven (1975)

«Ainda os membros dispersos do cadáver de Domingos Leite Pereira apodreciam nos postes, quando saiu uma procissão de triunfo a desempestar especialmente as Ruas dos Torneiros e da Fancaria.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)

«O leitor provavelmente há-de ter jornadeado alguma vez; sabe portanto que o grato e quase voluptuoso alvoroço, com que se concebe e planiza qualquer projecto de viagem, assim como a suave recordação que dela guardamos depois, são coisas de incomparavelmente maiores delícias, do que as impressões experimentadas no próprio momento de nos vermos errantes em plena estrada ou pernoitando nas estalagens, e mormente nas clássicas estalagens das nossas províncias.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

orquestrais & concertantes: Bartók: O MANDARIM MIRACULOSO ([1918-24] 1926 / Uzcategui

na estante definitiva


Da posse: Outubro de 1990. Apesar do título esquipático, é um livro muito bem esgalhado e arrumado: como escreve o autor no prefácio, trata-se de uma «história da arte, e portanto já menos uma história das obras de arte, e ainda muito menos a crónica delas.» Deu-me imenso jeito quando preparava as 100 Cartas a Ferreira de Castro (1.ª ed., 1992), e que cito na bibliografia. Profusamente ilustrado com reproduções a preto e branco, uma importância acrescida nesse tempo em que ainda não navegávamos na net; e apesar da modéstia das reproduções era um gosto folhear e confrontar as obras no seu tempo histórico. Foi aqui que pela primeira vez vi A Cega Sanha do Povo, de Roberto Nobre, publicado n'O Diabo, em 1935; e talvez também o Café, do Portinari, do mesmo ano, com toda a repercussão que teve na Exposição do Mundo Português (1940), em especial junto dos jovens pintores e dos doutrinário do neo-realismo. Na capa, um ícone neo-realista, O Almoço do Trolha, do Pomar, de 1946.

ficha:
Fernando Alvarenga, Afluentes Teórico-Estéticos do Neo-Realismo Visual Português, Porto, Edições Afrontamento, 1989. 209 págs.

quinta-feira, julho 25, 2019

criadores & criatura



Francis, Maurice Tillieux e Marc Lebut



segunda-feira, julho 22, 2019

vozes da biblioteca

«de Lisboa e das cortes estrangeiras / não saberei dizer-te cousa alguma, / que o tempo todo gasto em ler Virgílio / no meu pobre, mas certo domicílio.» Correia Garção, «Epístola a Olino», Obras Poéticas (póst. 1778) / M. Rodrigues Lapa, Poetas do Século XVIII

«Fugir!... Deixar / essa tristeza de ser nau -- e não vogar, / Essa agonia de ser livre -- e de estar preso!...» João de Barros, Oração à Pátria (1917)

«Os botes tinham sido descidos de navios esguios, / as suas velas como lenços de cabeça de mulher, / mas imensos e brancos, / desenhados a cruzes» Ana Luísa Amaral, «O sonho», Escuro (2014) 

quarta-feira, julho 17, 2019

na estante defintiva

da posse: Uma capa austera, quase pobre, mas com fundo suave, que me cativou logo. A data da compra: «Natal 87», creio que foi na velha Livraria do Parque, no Estoril.  A Assírio & Alvim entrada já no período de ouro de Manuel Hermínio Monteiro.
É um dos livros da minha vida? Sem dúvida. Da poesia autóctone em língua árabe, creio que então só conhecia o Poema de Alcabideche, do Ibn Mucana, que aqui também surge em nova versão; e foi como se entrasse num pátio andaluz, para utilizar imagem a preceito.
Adalberto Alves, O Meu Coração É Árabe -- A Poesia Luso-Árabe, Lisboa, Assírio & Alvim, 1987, 190 págs.

terça-feira, julho 16, 2019

vozes da biblioteca

«A fúria do cão enchia-o de um atrevimento nervoso, como se Margarida estivesse em perigo ou o quisesse experimentar criando-lhe um inimigo inferior.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)

«Depois os ossos ficam limpos, tanto lhes faz, de chuva lavados, de sol cozidos, e se era pequeno o bicho nem a tal chega porque vieram os vermes e os insectos coveiros e enterraram-no.» José Saramago, Levantado do Chão (1980)

«Era uma paixão, uma paixão da alma, a mocidade na velhice, essa ânsia impotente dum coração que quer romper os tecidos atrofiados de cinquenta e cinco anos para dar quatro pulos em pleno ar.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854)

estampa CCCLXVIII - Federico Beltrán Masses


A Noite de Eva (1929)

segunda-feira, julho 15, 2019

lista para a estante definitiva (1-6)

(no seguimento deste post)

1. A Catedral, de Manuel Ribeiro (1920) - Literatura portuguesa. Romance.
2. A Guerra Não Tem Nome de Mulher, de Svetlana Alexievich (1985) - História da II Guerra Mundial.  História do Século XX. Historiografia.
3. A Tentação de Existir, de E. M. Cioran (1956) - Ensaio. Filosofia. Fragmentos.
4. Afluentes Teórico-Estéticos do Neo-Realismo Visual Português, de Fernando Alvarenga (1989) - História da arte. História de Portugal. História do Século XX.  
5. O Meu Coração É Árabe, de Adalberto Alves (1987). Poesia. Poesia do Al-Andaluz. História de Portugal.
6. Os Charutos do Faraó, de Hergé (1934/1955). Quadradinhos. BD franco-belga.
[acho que vou fazer um blogue só para isto, com comentários a cada livro]

sexta-feira, julho 12, 2019

vozes da biblioteca

«a recta, a espiral, e o nada / que só à filigrana se consente, / são todo o meu orgulho, e no final / ter desenhado esse lugar exacto / onde em segredo posso ser humano.» António Franco Alexandre, Aracne (2004)

«Vão, sem destino, errando ao sabor da corrente.» João de Barros, Algas (1900)

«você me diz psiu, violência / no jeito de piscar as pálpebras» Ademir Assunção, Na Virada do Século -- Poesia de Invenção no Brasil (ed.. Claudio Daniel e Frederico Barbosa, 2002)

quarta-feira, julho 10, 2019

pelo direito de Bonifácio a ser simplória

Fui ler. O artigo de Maria de Fátima Bonifácio não passa dum arrazoado de generalizações da vox populi, de que a senhora irremediavelmente é porta-voz, sem um mínimo de problematização e muito menos sofisticação. Parte de generalizações e lugares-comuns sobre ciganos e africanos para deles extrair uma representação geral que é indigna de qualquer intelectual, condição a que Bonifácio  renunciou para juntar-se aos venturas e outros espertalhões de feira.
Mas nem pensar admitir que o Estado, através do ministério público ou do governo, se atreva a proceder contra a senhora, que se autodesqualificou com aquele texto, duma indigência que só encontra paralelo nas chamadas 'redes sociais' ou nas caixas de comentários dos jornais, era o que faltava. A estupidez institucional é muito pior e mais danosa do que a nesciedade individual.  Bonifácio é uma cidadã que goza do direito à opinião e de liberdade de expressão, pelo que qualquer tentativa de criminalização não pode ser admitida e deve ser contestada com a mesma veemência com que se tem de combater o racismo e a xenofobia -- e, já agora, as organizações criminais que passam por entidades políticas e concorrem alegremente a eleições.  Causas como o combate ao racismo, à xenofobia e a outras exclusões dispensam bem os polícias da linguagem e os agentes fardados do controlo do pensamento. Ideias básicas ou parvas combatem-se com argumentos; no caso de desonestidade intelectual, há sempre recurso à ironia queirosiana. Costuma ser mortal.

terça-feira, julho 09, 2019

erotica


Hoang Viet Nguyen

vozes da biblioteca

«Depois o silêncio, a mudez concentrada da noite, a nuvem negra coalhada sobre as ruínas da vila toda lavada em lágrimas.» Raul Brandão, A Farsa (1903)

«Eu, que nunca fui poeta, não consigo ignorar o encanto docemente melancólico do crepúsculo, quando a noite desce devagar.» Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis (2018)

«Sentei-me, contra o muro, a uma das mesas do mais vulgar mármore rosa, e mandei vir não sei quê que me não apetecia tomar.» José Régio, Jogo da Cabra Cega (1934) 

domingo, julho 07, 2019

orquestrais & concertantes: Copland, RODEO (1943) V. Hoe-Down / Roth

vozes da biblioteca

«A velha casa na colina usava o telhado inclinado com beiral como quem usa um chapéu de aba descaída enterrado até às orelhas.» Arundhati Roy, O Deus das Pequenas Coisas (1997) (trad. Teresa Casal)

«Apesar de estar a tocar a segunda chamada, continuavam todos ali, em cachos, para respirarem o cheiro a molhado, a verde dos álamos, a relvas regadas, que refrescava os rostos suados, misturando-se com hálitos de terra e de crostas cujas gretas se fechavam ao fim de longa seca.» Alejo Carpentier, A Perseguição (1956) (trad. Margarida Santiago)

«Chamava-se Faunia Farley e, fossem quais fossem os sofrimentos que suportava, escondia-os atrás de um daqueles inexpressivos rostos ossudos que não escondem nada e denunciam uma imensa solidão.» Philip Roth, A Mancha Humana (2000) (trad. Fernanda Pinto Rodrigues)

João Gilberto (1931-2019), «O Barquinho»

sexta-feira, julho 05, 2019

estampa CCCLXVII - Edgar Degas


Depois do Banho (c. 1883)

vozes da biblioteca

«o vento / leva-lhe a quase / saia / e vê-se a jóia / surpresa lapidada» Frederico Barbosa, «Paulistana de Verão», Cantar de Amor Entre os Escombros (2002)

«Pior, pior de tudo foi ter sido / par de Camões que continua vivo / só pele e canto ossificado em espanto» António Barahona, Rizoma (1983)

«Vitorioso o rei regressa à frente dos exércitos / e há fome e peste nas aldeias arrasadas.» Manuel Alegre, Praça da Canção (1965)

quarta-feira, julho 03, 2019

criador & criatura

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François Craenhals e Cavaleiro Ardent

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quarta-feira, junho 26, 2019

em bicos de pés

O tipo que passa por alguém e se cruzou com o Kissinger no check in, e vem dizer para a bloga ou para os jornais. «Certa vez, em viagem com Kissinger (...)»; ou quando alguma figura morre, um fartar de intimidades, que provavelmente nunca existiram mas que podem alardear-se à vontade sem haver grandes riscos de desmentidos ou rectificações; ou o indivíduo de antes dos voos charter para os destinos paradisíacos,  que nunca passara de Badajoz mas se referia à passeata como uma ida ao estrangeiro.
Risível, mas verdadeiro, até com gente não desprovida de valor, como o Torga, para quem, no Diário, quase não há confrade que lhe mereça duas linhas, a não ser se for defunto e ícone (trocou duas cartas com o Fernando Pessoa, que o detestou) ou ícone e estrangeiro: quando fala dos seus encontros com a Yourcenar ou o Borges -- que até aí lhe desconheciam a existência, não fora o protocolo de estado querer mostrar que também tínhamos.
Enfim, lembrei-me disto ao passar por um caramelo bem embrulhado. 

50 discos: 31. FURA FURA (1979) - #7 «Achégate a Mim Maruxa (Cantar Galego)»



terça-feira, junho 25, 2019

autobibliografia

Os livros, portanto. Nada mos substitui, troco quase tudo pela sua companhia. Não de todos os que possuo, é claro. Ter muitos livros é prático e aconchegante, mas o meu desígnio de despojamento seria munir-me apenas de algumas centenas -- uma boa estante -- e neles mergulhar uma e outra vez, nunca descurando, porém, novas leituras, sempre na expectativa de ir forçando a estante ideal. Apetece-me cada vez mais essa selecção.

segunda-feira, junho 24, 2019

sexta-feira, junho 21, 2019

quarta-feira, junho 19, 2019

vozes da biblioteca

«O mouro Bichara, engajado quem sabe a pulso, um dos tantos heróis esquecidos na hora das celebrações e das recompensas: o almirante cobre-se de glória, os marinheiros cobrem-se de merda -- apesar de erudito, Raduan Murad tinha a boca suja.» Jorge Amado, A Descoberta da América pelos Turcos (1994)

«Sobre isto, um tom denegrido e uniforme: a humidade entranhou-se na pedra, o sol entranhou-se na humidade.» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Trazia o cabelo sujo e desgrenhado; alguns fios partiam da densidade do todo e enroscavam-se-lhe na testa, como as gavinhas que saem de sob as folhas das videiras à procura de um corpo para se abraçarem.» Ferreira de Castro, A Experiência (1954)

terça-feira, junho 18, 2019

50 discos: 27. DARKNESS ON THE EDGE OF TOWN (1978) - #7 «Factory»



o dever de registar

Não tive o benefício de conhecer Ruben de Carvalho, embora lhe deva alguns momentos da minha vida de Baden Powell aos Dexy's Midnight Runners, passando pela única ocasião em que vi cantar o Adriano Correia de Oliveira, único e inexcedível. Tive algum pudor em escrever mais um obituário, mas ontem ao deitar-me, ouvi-o nas suas «Crónicas da Idade Mídia», num programa que creio não ser repetição, antes um póstumo... E falava do Pete Seeger, que também trouxe, e que vi no velho Pavilhão dos Desportos (no Ao Vivo em Lisboa também lá está gravada a minha voz a entoar o We Shall Overcome e o Guantanamera) -- falava do Pete Seeger com uma fluência, um gosto e um saber que saboreei como se fora a primeira vez que o ouvisse. E, portanto, resolvi deixar-me de pruridos sem sentido; e já que de dívida se trata, de mim para com ele sem que nos conhecêssemos, aqui cumpro para comigo mesmo o meu dever de registar.


(imagem daqui) 


segunda-feira, junho 17, 2019

vozes da biblioteca

«A infância mantinha-a viva.» Sarah Adamopoulos, «Sozinha no cemitério», A Vida Alcatifada (1997)

«-- Este cão é um grande sacana, caça um bocado e depois põe-se a fazer a parte, olha para ele, está-se nas tintas para as codornizes e para nós.» Manuel Alegre, Cão como Nós (2002)

«Só ao ar livre é que o seu tamanho variava e, se por acaso estivesse muito tempo sem dizer palavra, até seria bem capaz de desaparecer chão abaixo ou quase. Alface, Um Pai Porreiro Ganha Muito Dinheiro (1997)

domingo, junho 16, 2019

orquestrais & concertantes: Bartók, CONCERTO PARA ORQUESTRA (1943) - IV. Intermezzo interrotto / Ozawa

cabaz da feira

À Margem da História, de Euclides da Cunha (Martin Claret)
Cartas Dispersas, de Camilo Castelo Branco, edição de Castelo Branco Chaves (Campo das Letras)
Contos Amazônicos, de Inglês de Sousa (Martin Claret)
Nós, de Evgueni Zamiatine (Antígona)
O Ateneu, de Raul Pompéia (Martin Claret)
Terra Morta, de Castro Soromenho (Cotovia) 
Um Copo de Cólera, de Raduan Nassar (Companhia das Letras)

sábado, junho 15, 2019

vozes da biblioteca

«Para o humilde autor deste relato, os casos tiveram o seu berço foi mesmo nesse esquecido ano de mil oitocentos e oitenta, aquando da chegada a Luanda de um moço benguelense, de sua graça Jerónimo Caninguili.» José Eduardo Agualusa, A Conjura (1998)

«Respondiam três, respondiam quatro, sabia-se lá, e abriam caminho a disputar a primazia, procurando iludir o sobrenome de baptismo.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)

«Sempre de nariz no ar e olhos investigadores ao lado dos operários, que a detestavam porque ele intervinha em todos os pormenores -- olhe isto, olhe aquilo, assim não está bem, faça assim, faça assado -- de tal forma se portara que, durante semanas e mais semanas, a vida tivera um incómodo sentido provisório no meio do movimento e da desordem em que tudo aquilo andava.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)

estampa CCCLXV - David Jagger


Uma Senhora Elegante (c. 1930)

«Combination Of The Two»

sexta-feira, junho 14, 2019

as cortinas de fumo no Golfo Pérsico

O "ataque" aos petroleiros do Golfo Pérsico é uma manobra demasiado grosseira para que não  desconfiemos, ou seja: num momento em que Shinzo Abe, primeiro-ministro japonês, é recebido pela liderança iraniana, Khamenei e Rohani, dois navios, um dos quais com bandeira do Japão, são alvo de um atentado -- o que, com as subtilezas conhecidas de Trump, Bolton e Pompeo, põe-nos todos a olhar para os Estados Unidos. É possível serem tão estúpidos quanto aparentam? É bem provável. Ou poderá haver aqui uma terceira mão (não falo de Israel, cujo governo é o cão-guia dos americanos na região)?

quinta-feira, junho 13, 2019

vozes da biblioteca

«Sua íntima atitude / é a das estátuas por fora» Sebastião Alba, «Os poetas», A Noite Dividida (1996)

«Um sucessivo deserto / verso a verso decantado / no canto interrompido / do bulbul exausto / do seu próprio eco» António Barahona, Ritual Análogo (1986)

«Viver sempre vergado sobre a terra, / a nossa terra / pobre / ingrata / querida!» Jorge Barbosa, Ambiente (1941) / No Reino de Caliban I (ed. Manuel Ferreira, 1975)

criadores & criatura


Stan Lee, Jack Kirby e Silver Surfer / O Surfista Prateado


terça-feira, junho 11, 2019

vozes da biblioteca

«Ainda o senhor estude: agora mesmo, nestes dias de época, tem gente porfalando que o Diabo próprio parou, de passagem, no Andrequicé.» João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas (1956)

«Na estrada de Orléans, numa noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam partiu, e o nédio senhor, a delicada senhora da casa da Avelã, o menino, marcharam três horas na chuva e na lama do exílio até uma aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram nos bancos de uma taberna.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)

«Era o esquecimento, a tranquilidade, o sono.» Mário de Sá-Carneiro, A Confissão de Lúcio (1914)

segunda-feira, junho 10, 2019

«Vicious»

a propósito da morte de Luís Mourão

imagem
Compro o jornal na loja da bomba de gasolina e vejo, na primeira página, a notícia da morte de Luís Mourão, um extraordinário ensaísta. Conheci-o há trinta anos, em contexto profissional, e tivemos um óptimo relacionamento. Tenho dois livros seus: Conta-Corrente 6 -- Ensaio sobre o Diário de Vergílio Ferreira (1990) e Um Romance de Impoder -- A Paragem da História na Ficção Portuguesa (1997).
Com ensaístas de gerações anteriores, como João Bigotte Chorão, recentemente falecido, aprendi que escrever sobre o que quer que seja -- e, por maioria de razão, sobre literatura -- exige que sejamos escritores; mais canhestros ou melhor sucedidos, não se pode partir para uma obra, literária ou outra, com vícios burocráticos e expectativas curriculares, sob pena de se negar o objecto de estudo e, já agora, ser portador de um razoável grau de indignidade. Com Luís Mourão aprendi que o ensaísta é também ele um criador, com todos os riscos que isso implica. Para mim, que sou de História, e valorizo os documentos -- sempre --, gostando pouco de fantasias, foi um ensinamento importante para escapar à condição de 'positivista utilitário', labéu que me foi atirado pedagogicamente por um bom professor, E. Gonçalves Rodrigues, em intento profiláctico dos meus arroubos radicais, prevenção de que nunca me esqueci.
Regressando a Luís Mourão, mal o reconheço nas fotografias; porém os depoimentos de amigos trazem-me a pessoa de há trinta anos. Tenho algumas cartas dele, talvez publique uma, no sítio próprio.

orquestrais & concertantes: Brahms, SINFONIA #2 (1877) - IV. Allegro con spirito / Chung

domingo, junho 09, 2019

Companhia Nacional de Bailado

vozes da biblioteca

«As nossas virtudes não são mais, na maior parte das vezes, que vícios mascarados.» François de La Rochefoucauld, Máximas (1664) (trad. Cristina Proença)

«Cada época histórica contempla-se no quadro e na mitologia activa do próprio passado ou de um passado tomado de empréstimo a outras culturas.» George Steiner, No Castelo do Barba Azul (1971) (trad. Miguel Serras Pereira)

«Não há obra que não se volte contra o seu autor: o poema esmagará o poeta, o sistema o filósofo, o acontecimento o homem de acção.» E. M. Cioran, A Tentação de Existir (1956) (trad. Miguel Serras Pereira e Ana Luísa Faria)

orquestrais & concertantes: Chopin, CONCERTO para piano #2 (1830) - III. Allegro vivace / Rubinstein, Prévin

sábado, junho 08, 2019

vozes da biblioteca

«E mal o fogo destruiu o cadáver e as armas, / plantámos uma estrela num montículo, e, ao alto, / o seu remo de fácil manejo» António Barahona, Pátria Minha (1980)

«Lá fora, / Dizem que sou deste mundo.» José Pascoal, «A incerteza do poeta», Sobe Este Título (2017)

«Se o caminho é falso, é comigo... / Que linda voz me está a chamar!» José-Aurélio, «Primeiro poema do quarto assombrado», As Folhas de Poesia Távola Redonda (edição de António Manuel Couto Viana, 1988).

Orquestrais & concertantes: Dvorák, SINFONIA #9 (1893) - IV. Allegro con fuoco

erotica


Dahmane Benanteur

quinta-feira, junho 06, 2019

75 anos - 6 Junho 1944 - o Dia D

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vozes da biblioteca

«As irmãzinhas haviam-na abandonado num camarote sem ar e sem vigias: uma luz mortuária por cima da cabeça, sacos de plástico para o enjoo arrumados numa bolsinha fatídica, o beliche estreito e uma mistura dos cheiros que só existem nos barcos -- salitre, tintas quentes e o amoníaco entorpecente das latrinas muito próximas.» João de Melo, Gente Feliz com Lágrimas (1988)

«Como se as pupilas que todos os dias o viam o esmagassem: pupilas de escravos, pupilas de homens que temiam dizer o que pensavam -- homens mutilados.» Augusto Abelaira, A Cidade das Flores (1959) 

«Quanto ao pequeno drama pessoal de Nacib, sùbitamente sem cozinheira, dele apenas seus amigos mais íntimos tomaram conhecimento imediato, sem lhe dar, aliás, maior importância.» Jorge Amado, Gabriela, Cravo e Canela (1958)

terça-feira, junho 04, 2019

segunda-feira, junho 03, 2019

Agustina Bessa Luís: a vida continua

Quando morrem os grandes escritores, a vida continua para eles. Agustina Bessa Luís está nesse clube: trabalhou a frase com a mestria de quem sabe que a literatura não tolera lugares-comuns e encorpou os livros com a sabedoria de quem vira a comédia humana do avesso; desde cedo que a sua obra teve ampla recepção crítica; mas mais importante que isso, ela pertence ao número restrito de romancistas que são objecto de conversa de sala e de café por parte dos leitores. Merecidamente, o tempo em que viveu será também o tempo de Agustina, uma inevitabilidade.

vozes da biblioteca

«A minha mãe, viúva, vendo-se sem marido e sem amparo, resolveu-se chegar aos bons para ser um deles, e foi viver para a cidade, onde alugou um buraco, e começou a fazer comida para os estudantes, e a lavar a roupa dos moços de estrebaria do comendador da Madelena, e assim começou a frequentar as cavalariças.» Anónimo, Lazarilho de Tormes (1554) (trad. Ricardo Alberty)

«Acontece que, como sabem, sou muito vulnerável à beleza feminina.» Philip Roth, O Animal Moribundo (2001) (trad. Fernanda Pinto Rodrigues)

«Winston Smith, de queixo fincado no peito num esforço para fugir ao vento impiedoso, esgueirou-se rápido pelas portas de vidro da Mansão Vitória; não tão rapidamente, porém, que pudesse impedir um turbilhão de terra entrar com ele.» George Orwell, Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (1949) (trad. L. Morais)

sábado, junho 01, 2019

orquestrais & concertantes: CONCERTO DE BRANDENBURGO #1 (c. 1718)- IV Menuetto - Trio I - Menuetto da capo - Polacca - Menuetto da capo - Trio II - Menuetto da capo / Abbado

vozes da biblioteca

«O chefe da estação, um gordo com os queixos amarrados num lenço de seda preta, o bonnet  de galão sujo muito posto ao lado, apareceu então, à porta da sala de bagagens, de charuto nos dentes.» Eça de Queirós, A Capital! (póst. 1825)

«O povo, esmagado debaixo do peso dos tributos, dilacerado pelas lutas dos bandos civis, prostituído às paixões dos poderosos, esquecera  completamente as virtudes guerreiras de seus avós.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)

«O vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso, penetrou na camarata, bufou, deu um abanão.» Aquilino Ribeiro, A Casa Grande de Romarigães (1957)

sexta-feira, maio 31, 2019

«Whole Lotta Shakin' Goin' On»

livros que me apetecem

Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, de Natália Correia (Ponto de Fuga)
Filho da Mãe, de Hugo Gonçalves (Companhia dos Livros)
Marcha para a Morte!, de Shigeru Mizuki (Devir)
O Exílio e o Reino, de Albert Camus (livros do Brasil)
Os Deuses Têm Sede, de Anatole France (Cavalo de Ferro)
Romanceiro Cigano, de Federico García Lorca (Quetzal)
Viragem aos Oitenta seguido de Viagem a uma Terra Antiga, de Henry Miller (Vasco Santos Editor)

quarta-feira, maio 29, 2019

«The Village Green Preservation Society»

à maneira do Xerife de Nottingham

A imagem de um homem a quem a Autoridade Tributária, com a colaboração da GNR, acabava de confiscar um atrelado,  levando um cavalo pelo cabresto na via pública, com uma criança atrás com outro animal, foi das coisas mais degradantes que vi o Estado perpetrar, tantas vezes caloteiro (basta lembrar a demora no pagamento aos fornecedores, as dívidas a particulares e a empresas, sempre tarde a más horas).
É fácil contrapor a parcimónia com a divulgação da lista dos grandes devedores à banca, no mesmo dia em que se revela que o mesmo Estado aí injectou nos últimos anos cerca de 24.000.000.000€ (vinte e quatro mil milhões de euros). É fácil, e é isso mesmo que deve ser feito, independentemente de haver 'grandes devedores' que o são porque a conjuntura económica assim impôs ou, na arraia-miúda, muito vígaro especializado em sacar e fugir -- a questão é de princípio, Não é este, porém, o ponto de que me apetece falar, mas antes a facilidade com que o Estado comete excessos de autoridade.
Tudo leva a crer que acção de ontem configura um abuso de poder, aliás inadmissível. Num país civicamente exigente e consciente, coisa que o nosso não é (não se passa impunemente da miséria de subsistência dos pais no Estado Novo para a indigência moral 5G dos filhos na UE), já teriam rolado todas as cabeças abaixo do Centeno, cujos agentes (os menos responsáveis) actuaram como sicários do Xerife de Nottingham.
O abuso de poder foi possível porque um dirigente qualquer das finanças quis mostrar serviço, contando para isso com a falta de discernimento de comandantes da GNR, cujas cabeças devem servir apenas para usar a boina; o abuso de poder foi travado porque, felizmente, vivemos numa sociedade democrática em que a imprensa é livre, convém nunca esquecer.

vozes da biblioteca

«Nas minhas mãos o violino alado percorre distâncias incalculáveis no sonho.» António Barahona, «Pássaro-Lyra», Pássaro-Lyra (2002)

«O outono é isto -- / apodrecer de um fruto / entre folhas esquecido.» Eugénio de Andrade, «Adagio», Primeiros Poemas (1977)

«Passividade suave e feiticeira / tentou-me, em tua boca mal pintada, / nos teus olhos azuis d'alucinada, / na estopa a rir da tua cabeleira.» Edmundo de Bettencourt, «Passividade», presença #1, 10-III-1927

terça-feira, maio 28, 2019

segunda-feira, maio 27, 2019

«O lenço da Carolina»

as eleições por cá

1. o desapontamento. Não tinha grandes ilusões sobre as possibilidades de êxito do Livre, embora alimentasse uma esperança mínima. O momento foi há cinco anos; agora será difícil, mas o projecto é interessante. Uma candidatura mobilizadora em Lisboa e noutras cidades grandes talvez possa ainda viabilizá-lo. Também lamento o insucesso do candidato do Aliança, mas só mesmo nestas eleições.

2. a indiferença. A vitória do PS, esperada (ouvir o cabeça de lista a falar na defesa da Natureza, depois de ter dado a cara pelo aeroporto em Alcochete, um atentado ambiental que a ser aprovado terá efeitos irreversíveis, deixou-me de sorriso amargo); a eleição do deputado do PAN: embora o reforço da ecologia seja importante, trata-se de um partido de fanáticos que têm nos despolitizados e nos patetas da humanização dos animais um pasto eleitoral inesgotável; a troca entre BE e CDU: bons candidatos, nada a dizer, o grupo a que pertencem, pela parte portuguesa ficou na mesma.

3. o contentamento. a derrota da falta de vergonha, especialmente do inenarrável cabeça de lista do PSD, péssima escolha do presidente do partido, como se viu pela campanha miserável; a derrota clamorosa do CDS, que chega a ser cómica. Talvez de manhã acorde e fique a saber que o CDS desceu para a casa dos cinco por cento, na companhia do PAN -- e não é essencialmente por culpa do cabeça de lista, já todos o conhecemos, mas antes daquela incrível líder. Nos dois casos, a derrota da política  dos casos e do mero oportunismo. Já agora, é também para rir o espetanço do candidato da cmtv e do inefável causídico de província. O povo foi sábio em ter ido para a praia, em vez de lhes dar o voto.  

sábado, maio 25, 2019

erotica


Alexey Tishevsky

orquestrais & concertantes: Debussy, O MAR (1905) - III. Diálogo do Vento e do Mar / Abbado

vozes da biblioteca

«Automaticamente os seus dedos nodosos iam enrolando novo cigarro, enquanto o ombro esquerdo procurava suporte no tronco rugoso dum sobreiro.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

«E como a corroborar as últimas palavras da mulher, um criado passou pelo convés agitando uma grande campainha: -- miniatura de sino dobrando tristeza: -- avisando aos estranhos que estavam a bordo, que deviam abandonar o navio, porque este ia partir.» Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge (1924)

«Já então um pouco obeso, mas empertigado por aquela volúpia do próprio mérito, que é sugestiva como um cartaz, -- principiava a usar o seu famoso chapéu preto de grandes abas, que implantava um pouco à banda, com audácia, sobre penungens dizimadas pela seborreia.» Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória (1947)

Varoufakis apela a voto no LIVRE e em Rui Tavares

sexta-feira, maio 24, 2019

quarta-feira, maio 22, 2019

vozes da biblioteca

«Olhava lá do alto daquele combro / a melodia, / tão merencória na infância, ata- / viada de fitinhas no chapéu de palha» António Barahona, Noite do Meu Inverno (2001)

«Ontem entrei numa baiuca infame, / Numa taberna de bandidos reles -- / Pois que eu desci às espirais misérrimas / Do Lameiro de Job!...»  in Herberto Helder, Edoi Lelia Doura -- Antologia das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa (1985)

«Trago palavras como bofetadas / e é inútil mandarem-me calar / porque a minha canção não fica no papel.» Manuel Alegre, Praça da Canção (1965) 

Camões, grande Camões


Chico Buarque, Prémio Camões 2019


terça-feira, maio 21, 2019

«Gluttony»

em quem vou votar

Só ontem, com pena, vi um debate por inteiro, mas espreitei os outros e tenho apreciado a postura correcta e segura de Pedro Marques, ao contrário das chinelices do Rangel que provocam vergonha alheia. Se fosse de direita, votaria em Paulo de Almeida Sande, apesar daquela ficção partidária que o apoia; e gostei do Vasco Santos, o tipo sensacional do MAS, apesar de mas. Há outros candidatos interessantes, em vários partidos, mas eu quero mesmo é votar em Joacine Katar Moreira, com quem aliás, devo estar em desacordo em várias coisas, mas creio que não no essencial.

«Drinkin’ Wine Spo-Dee-O-Dee»

segunda-feira, maio 20, 2019

vozes da biblioteca

«Eram lagartos enormes e tinham o pescoço enrugado como o do velho e os mesmos olhos miúdos e misteriosos.» José Eduardo Agualusa, «Dos perigos do riso», Fronteiras Perdidas (1999) 

«No ritmo do mundo nasceu a Perfídia envolvida pela volúpia.» Ruben A., «Sonho de imaginação», Páginas I (1949) / Antologia (2009)

«Uma poeirada medonha... tudo absolutamente seco, até mesmo a nossa pele velha e encortiçada.» Henrique Abranches, «Diálogo do Tempo Morto», Diálogo (1962)

sábado, maio 18, 2019

sexta-feira, maio 17, 2019

quinta-feira, maio 16, 2019

vozes da biblioteca

«Cansado da mesquinhez das terras arrendadas, o pai trabalhava agora na mina de volfrâmio dos ingleses como carpinteiro-escorador.» José Marmelo e Silva, Adolescente Agrilhoado (1948)

«Lamenta não poder ver a escuridão, porque lhe cobrem a vista novelos de claridade absurdamente negros: novelos ou passadeiras de matéria luminosa que, do que supõe o tecto, descem, pesados, para o que supõe o chão.» João Gaspar Simões, Elói ou Romance numa Cabeça (1932)

«Uma cabeça pequenina, cabelo rapado e com o maxilar inferior tão largo e comprido que parecia impedi-lo de fechar completamente a boca.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)