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domingo, outubro 20, 2024

correspondências

(Eugénio de Andrade a Jorge de Sena) «Porto, 30 de Maio de 1955 // Meu querido Jorge: se o Proust não tivesse dito ao Gide palavras semelhantes, eu dir-lhe-ia: valeu a pena ter perdido o prémio só pelo prazer de ter recebido a sua bela carta.» .../... Cartas de Eugénio de Andrade a Jorge de Sena (3)

(Afonso de Barros a João de Barros) «Figueira, 26-6º-1926 // Meu querido João // Obrigado pela tua pronta resposta à minha precedente carta, e oxalá que o teu optimismo se realize, mas as prisões já começaram!... Cautela meu João! / E conta sempre comigo para tudo (que não poderá ser muito) que eu possa fazer. / Beija os meus queridos netos e querida Raquel, e a ti, beijo-te // e abraço-te de todo o meu coração / Afonso // Faz favor de dar à irrequieta Teresa o papelinho junto e ela que entregue ao [...?]» Cartas a João de Barros (2)

(Raul Brandão a Teixeira de Pascoais) «Meu Exm.º Amigo // Li ontem dum fôlego o Verbo Escuro. Eu gosto imenso de livros assim, mas o seu, tão profundo e tão belo, há-de ser compreendido por poucos leitores. É o livro dum grande poeta e dum filósofo. / Felicito-o e abraço-o. Creia-me sempre / De V. Ex.ª/ad.or e a.º agr.º / Raul Brandão // Alto / 27 Março / 1914» Correspondência (1)



(1) Raul Brandão - Teixeira de Pascoaes, Correspondência (ed. António Mateus Vilhena e Margarida Marques Mano, 1994.

(2) Cartas a João de Barros (ed. Manuela de Azevedo) s.d.

(3)  Cartas de Eugénio de Andrade a Jorge de Sena (ed. António Oliveira, 2015)

terça-feira, setembro 03, 2013

Antologia Improvável -- Júlio Evangelista

ARRÁBIDA

O vento bate na face
De quem sobe àquela serra.
Vento que por ali erra
Bate na face a quem passe
Perto do cimo da serra.

Bate forte, o vento forte,
Chicoteando com força,
Ao vir das bandas do norte,
Chicoteando com força,
Dono da serra e da morte.

Consente, vento, que eu passe
Pelo alto desta serra
E não me batas na face
Porque, se mais não bastasse,
Basta eu ser da tua terra.

Não grites assim tão forte
Nem te exaltes contra mim,
Porque eu também sou do norte:
Donde tu vens, também vim,
Vento que ventas do norte.

Venho ver frei Agostinho;
Trazer ao Frade saudades
Das verdes terras do Minho:
Venho falar de saudades
Com o Poeta Agostinho.

Morreu o Sebastião
Que lhe falava, falava,
Das coisas do coração.
E o frade está desolado
Era quase como um irmão!...

Ele mora ali em cima
E a conversa não demora.
Venho falar-lhe do Lima,
Venho falar-lhe de Ponte,
E outras coisas que ele ignora.

Regresso depois ao Minho,
Vento que sopras do norte
E guardas Frei Agostinho.
Se um dia quiser recados,
Traze-los tu, vento norte?


Arrábida, 8/3/53


António Mateus Vilhena e Daniel Pires,
A Serra da Arrábida na Poesia Portuguesa

sábado, novembro 19, 2005

Correspondências #22 - Raul Brandão a Teixeira de Pascoais

Amigo
Li ontem a Era Lusíada. Também penso pouco mais ou menos assim e há anos que preparo uma História de Portugal idealista. Nós começamos a morrer desde que começamos a descrer. Precisamos de encontrar Deus e de comungar todos a mesma hóstia. O pior é que é necessário que Ele se revele -- e, enquanto o não faz, vamos ao fundo...
Adeus. Obrigado pelo seu admirável livrinho. No fim do mês vou para a Foz, Cantareira, 61. Tem-me aí ao seu dispor.
Ad.or e a.º m.to agr.º
Raul Brandão
21 de Junho
1914
Correspondência
(edição de António Mateus Vilhena e Maria Emília Marques Mano)