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segunda-feira, junho 10, 2019

a propósito da morte de Luís Mourão

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Compro o jornal na loja da bomba de gasolina e vejo, na primeira página, a notícia da morte de Luís Mourão, um extraordinário ensaísta. Conheci-o há trinta anos, em contexto profissional, e tivemos um óptimo relacionamento. Tenho dois livros seus: Conta-Corrente 6 -- Ensaio sobre o Diário de Vergílio Ferreira (1990) e Um Romance de Impoder -- A Paragem da História na Ficção Portuguesa (1997).
Com ensaístas de gerações anteriores, como João Bigotte Chorão, recentemente falecido, aprendi que escrever sobre o que quer que seja -- e, por maioria de razão, sobre literatura -- exige que sejamos escritores; mais canhestros ou melhor sucedidos, não se pode partir para uma obra, literária ou outra, com vícios burocráticos e expectativas curriculares, sob pena de se negar o objecto de estudo e, já agora, ser portador de um razoável grau de indignidade. Com Luís Mourão aprendi que o ensaísta é também ele um criador, com todos os riscos que isso implica. Para mim, que sou de História, e valorizo os documentos -- sempre --, gostando pouco de fantasias, foi um ensinamento importante para escapar à condição de 'positivista utilitário', labéu que me foi atirado pedagogicamente por um bom professor, E. Gonçalves Rodrigues, em intento profiláctico dos meus arroubos radicais, prevenção de que nunca me esqueci.
Regressando a Luís Mourão, mal o reconheço nas fotografias; porém os depoimentos de amigos trazem-me a pessoa de há trinta anos. Tenho algumas cartas dele, talvez publique uma, no sítio próprio.

segunda-feira, fevereiro 25, 2019

na morte de João Bigotte Chorão

Ensaísta, crítico e também diarista, ao lermos a reunião dos seus ensaios em volumes como O Escritor e a Cidade, Galeria de Retratos ou O Espírito da Letra ou ainda sínteses modelares como O Essencial sobre Camilo Castelo Branco, verificamos que ele pertence àquele grupo de autores, que não é multidão, que tem a literatura como alimento espiritual (não exclusivo, é certo) e paixão, que a serve em vez de dela se servir. Era o maior camilianista vivo; e a escritores, como Carlos Malheiro Dias, João de Araújo Correia, Francisco Costa ou Tomás de Figueiredo, entre muitos outros, deu o brilho da sua inteligência e a elegância do seu estilo.
Entre nós, alguns encontros, após aquele primeiro em que, já não sei porquê, evocámos a função salvífica dos sonetos do Shakespeare na vida periclitante de Stefan -- herói do Bosque Proibido, do Mircea Eliade --, numa circunstância dramaticamente incerta.

sexta-feira, fevereiro 09, 2018