domingo, maio 30, 2021

1 disco, 1 música

Move, Por Miles Davis, faixa 1 de  Birth of the Cool. (1957) Composito Denzil Best, arranjo de John Lewis, produzido por M.D., Gil Evans e J.L. Gravações de 1949 e 1950.

Miles Davis, trompete; Kay Winding, trombone; Junior Collins, trompa; Bill Barber, tuba; Lee Konitz, sax alto; Gerry Mulligan, sax barítono; Al Haig, piano; Joe Shulman, contrabaixo; Max Roach, bateria.

É uma maçada só poder escolher uma música num disco como este. Estive hesitante entre esta e Moon Dreams , muito diferente, como podem ouvir. Move tem lá todo o Birth of the Cool: as massas sonoras dos metais (Gil Evans), os solos (Miles, Konitz e Roach -- génios, chamou-lhes Mulligan, o colega), a nítida secção rítmica (Haig e Shulman), o noneto a carburar na perfeição. Senão, oiçam aqui

Referências:

«Ther'es a kind of perfection about those recordings.» Gerry Mulligan, 1971 - texto no livreto

«Miles Davis toca a essência da música quando o normal para um músico é tocar a música.» João Moreira, «Miles Davis, a essência da música», in Let's Jazz em Público, # 14

«[...] em matéria de solos Konitz é de todos o que mais impressiona dada a sua já super técnica e chuveiro de ideias ibacreditáveis [...]». José Duarte sobre Israel, ibidem.

quadrinhos



 

sexta-feira, maio 28, 2021

quinta-feira, maio 27, 2021

Portugueses

 



ANTÓNIO Sebastião Ribeiro DE SPÍNOLA

quarta-feira, maio 26, 2021

«Leitor de BD»

 

Yann e F. Vignaux, Thorgal -- La Selkie

terça-feira, maio 25, 2021

terrorismos de estado -- ou a União Europeia como seguro de vida de Lukashenko, enquanto Putin não se fartar



O sequestro de um avião de passageiros em trânsito entre Atenas e Vilnius (duas capitais da União Europeia) por meios aéreos da aviação bielorrussa é uma acto gravíssimo, sequer à luz do Direito Internacional, como dos próprios Direitos Humanos.

Tenho ouvido umas indignações selectivas quanto ao acto de pirataria, esquecendo que não há muitos anos, a força aérea americana desviou um outro avião onde seguia Evo Morales, obrigando-o a aterrar em Viena, já nem me lembro bem porque razão (talvez estivessem atrás do Snowden não me recordo). 

Pirataria por pirataria, portanto, é o pão nosso de cada dia. O que me importa é o casal de reféns daquela criatura que dá pelo nome de Lukashenko. Aliás, a Ryan Air nunca deveria ter levantado voo sem os passageiros, e depois é que iria ver-se.

Que ele faz o que faz porque tem as costas quentes do Putin (não sei se lhe foi pedir autorização), é evidente. Uma crise como esta só é possível pelo acantonamento de Putin, que, obviamente, entre ter um títere à porta de casa e um agente da CIA, só se fosse estúpido preferiria o segundo, dando o flanco à pirataria dos Estados Unidos, com um longo cadastro, aliás bastante assinalável na região, das Ucrânias às Geórgias.

Como tudo se irá passar, não será sob os nossos olhos. Na Europa manda a Alemanha, que nunca perdeu o tique de grande potência, com as suas áreas de influência, que disputa com a Rússia. Mas como na Alemanha mandam os Estados Unidos, até ver, creio que as coisas se podem complicar. Para quem? Em primeiro lugar para o refém de Lukashenko; depois só para a União Europeia. 

Porquê? Porque Putin não brinca em serviço, e sabe que a aposta americana é a neutralização da Rússia; e sabe também que a União Europeia, para as questões estratégicas, nada mais é do que um cãozinho obediente do presidente que estiver no cargo. 

Porque Lukashenko sabe que com o Putin não se brinca, é que se permitiu a uma diabrura destas. Portanto: a irresponsabilidade, cegueira e estupidez dos Estados Unidos (não é novidade) e da UE (também não...) protegem o ditador bielorrusso, que Putin só fara cair se e quando lhe apetecer.

«All We Know»

segunda-feira, maio 24, 2021

Portugueses


CARLOS SANTOS PEREIRA

O exemplo do que um jornalista deveria ser: culto, informado. honesto e profundo. 
Uma raridade. O seu livro Da Jugoslávia à Jugoslávia é um assombro de erudição e seriedade.
 

terça-feira, maio 18, 2021

1958: «Don't Come Back Knockin'» - THAT'LL BE THE DAY - #10




«Leitor de BD»

 


Os 3A - Os Piratas do Nevoeiro, A.P. Duchâteau & Mittéï

(aqui)

leitura contínua: A CATEDRAL (1920), cap. VI


Continuar: «Fora de angústia mortal aquela semana que acabava de passar.» 

Manuel Ribeiro, A Catedral (1920), início do cap. VI, pp. 117-132, da minha edição. 

* Os espíritos amam-se já intensamente, sem outra ousadia que não a da sublimação, Luciano pela estética, Maria Helena pela mística. A erecção de uma capela consagrada à Virgem, acarinhada pela condessinha, a exemplo de certa catedral medieval francesa mas à partida e intimamente rejeitada pelo arquitecto, é mediada pelo capelão cantor, o padre Anselmo, personagem «inocente e insexuada», segundo o narrador. 

*A forma arrebatada como fala com Maria Helena acerca das criptas dos edifícios religiosos é reveladora do como o mundo do capelão cantor é doutro Reino: «A cripta é o âmago inviolado, o santuário discreto, o recolhimento interior, onde se comunga plenamente Deus. Aí as formas apagam-se, a criatura desintegra-se e dá-se toda ao seu Senhor. Em cima Deus é de todos. Em baixo, na cripta, é o encontro face a face, o desabafo sem testemunhas, a intercessão directa, sempre escutada e atendida.»

* O idealismo de Luciano e a paixão que vive tornam-lhe a ideia aceitável: «Quantas vezes sonhara ele erguer uma Santa Capela de Paris, onde reflorisse em formas imortais a beleza espiritual da Idade média, como protesto contra o industrialismo moderno, utilitária, interesseiro.»

* Enquanto Luciano se deixa absorver pela planta da Sé, Maria Helena embrenha-se na leitura edificante da Legenda Aurea, de Tiago de Voragine, não sem angústia. E então, como sucedera já com a liturgia, o narrador esparrama algumas páginas embevecido, invocando uma série de mártires da fé cristã. E com o auxílio do narrador alcançamos a reflexão da condessinha: «Sofria-se por uma crença, mas o objectivo era uma ideia.» Uma ideia que Manuel Ribeiro andava a perseguir, e também a ser perseguido por outra que lhe seria incompatível, ou talvez não: do comunismo anarquista passara ao comunismo bolchevique e daqui ao catolicismo. São tortuosos os caminhos do Senhor...



segunda-feira, maio 17, 2021

Portugueses


Paulo Gaio Lima



1950: «I Didn't Know What Time It Was» - Charlie Parker, BIRD AT ST. NICK'S #1




Portugueses


 Pedro Lains

Portugueses

 

Miguel Madeira



Eduardo DINIS Leitão dos Santos DE ALMEIDA

acabou a paciência para Israel

No conflito israelo-palestino não há inocentes. Mas há vítimas. Com mais ou menos acidentes, até este vigarista do Bibi ter tomado o poder. Até aí podíamos apreciar o estado democrático (para os judeus) e contrapô-lo às autocracias árabes, umas menos repelentes que outras. Mas já chega de aldrabices e meias-verdades. É fácil acusar o Hamas de cobardia com a história dos escudos humanos quando eles ali estão num cárcere a céu aberto; como é igualmente fácil acusá-los de querem a destruição do estado de Israel, quando este tudo fez para sabotar a viabilidade de um estado palestino. Não me venham, portanto, falar no Hamas, quando o governo judeu está nas mãos dos partidos religiosos, nem da intolerância palestina quando os sionistas dominam e se aproveitam dum aldrabão sem escrúpulos. Portanto, não há mais paciência. Israel merece a condenação internacional e de todas as pessoas decentes. 

Em tempo: nas cidades da Europa civilizada, muita gente veio para a rua, em solidariedade com os palestinos; aqui, na Parvónia, houve uma manifestação contra as vacinas e as máscaras, parece que em defesa da liberdade... Há que explicar a estes estúpidos que não há liberdade para contagiar os outros, podendo esses mesmos outros ir desta para pior à conta da inofensiva rebeldia destes indígenas.

sábado, maio 15, 2021

sexta-feira, maio 14, 2021

1964: «Doralice» - Stan Getz & João Gilberto, GETZ / GILBERTO #2




a arte de começar

 «Janela aberta sobre o mundo. Coado, o som do trabalho, do suor. Quase irreal, ali. Procuro e não encontro essa voz. Sereias trazendo notícias de desastres em terras quase sem nome e até de afogados já frios descansando em leitos de algas marinhas. Eu, lá fora. Onde? Os eléctricos estoiram nas calhas e deixam estrelas fugazes nos cabos que enredam a cidade. Teu rosto, a tela queimada para lá da vidraça. Olhos vazios como os meus. Esquecidos algures, no tempo. Eram.. quase azuis, fluidos nas emoções. Luminosos quando irados.»

Vasco Branco (1919-2014), Os Generosos Delírios da Burguesia (1980)

quarta-feira, maio 12, 2021

segunda-feira, maio 10, 2021

«Leitor de BD»


BéKa & Munuera, Les Tunique Bleues -- L«Envoyé Special

 aqui

1958: I'm Changing All Those Changes - Buddy Holly, THAT'LL BE THE DAY #9






vou passar a ver o "Sexta às 9"

Ainda não foi demitido, o Galamba? E o sec. de estado da perseguição (aos alunos), também não? Isto só na Hotentócia seria tolerado.

leitura contínua: VIAGENS NA MINHA TERRA (1846) cap. I


1. incipit da Viagem à Volta do Meu Quarto (1839), de Xavier de Maistre (1763-1852), servindo como epígrafe às Viagens na Minha Terra (1846). Tom paródico, mas também a noção de uma via que Garrett abre, um arejamento na prosa nacional, brisa que chega até nós.

«Qu'il est glorieux d'ouvrir une nouvelle carrière, et de paraître tout-à-cop dans le monde savant un livre de découvertes à la main, comme une comète inattendue étincelle dans l'espace!»

2. Garret era um extraordinário bon vivant; nada do que respeitasse aos prazeres da vida lhe era alheio, o que não o inibiu de alcandorar-se a figura de primeira grandeza na vida pública e cultural do seu tempo. O legado político e literário confronta bem com as fraquezas, ou fortalezas -- depende do ponto de vista --, de João Baptista da Silva Leitão. E é isso que o capítulo inicial das Viagens evidencia em cada frase. Atente-se no sumário do capítulo I:
«De como o autor deste erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu imortalizar-se escrevendo estas viagens. -- Parte para Santarém. -- Chega ao Terreira do Paço, embarca no vapor de Vila Nova; e o que aí lhe sucede. A Dedução Cronológica e a Baixa de Lisboa. -- Lord Byron e um bom charuto. -- Travam-se de razões os íhavos e os bordas-d'água: -- os da calça larga levam a melhor.» 

Todo o tom é optimista, gozoso e sadio: o prazer da partida, a literatura, a paisagem, a política, mesmo quando adversa, as pessoas, a coloquialidade e a ironia, os pequenos prazeres, o humor -- acima de tudo. O tom de alguém que agarrou a vida com as duas mãos, dela sabendo retirar recompensa estética e sensorial, permitida ou conquistada. É um estilo de alguém que se sente muito bem na sua pele.

3. Começar. «Que viaje à roda dos seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como Sampetersburgo -- entende-se.»


4. 17 de Julho de 1843: o quarto não chega. «Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei-de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há-de fazer crónica.» 

5. Humor (em itálico). Depois de atribuir à intriga política de um jornal segundas intenções a esta jornada: «Pois por isso mesmo, vou: -- pronunciei-meO pronunciamento militar na primeira metade do século XIX português era o método principal de fazer política.


5. Paisagem: o vapor afasta-se.  «Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando este majestoso e pitoresco anfiteatro de Lisboa oriental, que é, vista de fora, a mais bela e grandiosa parte da cidade, a mais característica, e onde, aqui e ali, algumas raras feições se percebem, ou mais exactamente se adivinham, da nossa velha e boa Lisboa das crónicas.» 

6. O desgosto burguês e a pureza do povo. «Assim o povo, que tem sempre melhor gosto e mais puro do que essa escuma descorada que anda ao de cima das populações, e que se chama a si mesma por excelência a Sociedade, os seus passeios favoritos são a Madre de Deus e o Beato e Xabregas e Marvila e as hortas de Chelas. A um lado, a imensa majestade do Tejo em sua maior extensão e poder, que ali mais parece um pequeno mar mediterrâneo; do outro, a frescura das hortas e a sombra das árvores, palácios, mosteiros, sítios consagrados todos a recordações grandes ou queridas.» Desgosto por desagrado e por estética também. O povo é são, a burguesia (e quem a apoiar) é escumalha. O povo não está degradado, a burguesia (e quem a apoiar) é degradada por natureza: veja-se o sentido de harmonia desse mesmo povo, sobre quem as excelências cavalgam ou pisam. É bonito? É... É falso? É pelo menos forçado; mas em estética tudo se permite.

7. Vila Franca de Xira (outrora "da Restauração"): depoimento de um soldado liberal. «[...] Vila Franca a que foi de Xira, e depois da Restauração, e depois outra vez de Xira, quando a tal Restauração caiu, como todas as restaurações sucede e há-de suceder, em ódio e execração tal que nem uma pobre vila a quis para sobrenome. / -- A questão não era de restaurar, mas de se livrar a gente de um governo de patuscos, que é o mais odioso e engulhoso dos governos possíveis.»

8. Do progresso (ou do optimismo). «Este necessário e inevitável reviramento por que vai passando o mundo há-de levar muito tempo, há-de ser contrastado por muita reacção antes de completar-se...»

9. Epicurismos. «No entretanto, vamos acender os nossos charutos [...] / [...] sentir na face e nos cabelos a brisa refrigerante que passou por cima da água, enquanto se aspiram molemente as narcóticas exalações de um bom cigarro de Havana, é uma das poucas coisas sinceramente boas que há neste mundo.»

10. Bairrismos: campinos e varinos. «Pois nós, que brigamos com o mar, oito e dez dias a fio numa tormenta, de Aveiro a Lisboa, e estes, que brigam uma tarde com um toiro, qual é que tem mais força?» 
cap. I : 9-13

sexta-feira, maio 07, 2021

1964: «The Girl From Ipanema» - João Gilberto, Astrud Gilberto, Stan Getz & Antônio Carlos Jonim, GETZ/GILBERTO #1




caracteres móveis

«A súbita aparição daquele par honesto e simples, caindo de chofre, com toda a galharda e lúcida expansão duma vida exemplarmente calma no torvelinhante mistério da alucinação do seu vício, envergonhou-o, aclarou-lhe a razão, deu-lhe a medida do próprio aviltamento, e, como um raio de luz faiscando  nas estalactites duma caverna, acordou-lhe na consciência um repelão de remorso.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)

«Ela tinha o espírito de parecer vulgar.» Agustina Bessa Luís, A Sibila (1954) 

«Este necessário e inevitável reviramento por que vai passando o mundo há-de levar muito tempo, há-de ser contrastado por muita reacção antes de completar-se...» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

1963: «I Saw Her Standing There» - The Beatles, PLEASE, PLEASE ME #1




terça-feira, maio 04, 2021

Portugueses (3)

 

Herberto Smith





em Odemira, os nepaleses

 Não fora a covid-19 e estaríamos todos nas tintas para a situação dos trabalhadores imigrantes no Alentejo, como nos estamos a ralar para os malefícios da agricultura intensiva. Queremos o nosso conforto à mesa; conforto de sociedade ocidental rica e esbanjadora, capitalista e selvagem; os proprietários querem facturar, o mais possível e ao mais baixo custo, que esta é a bonita natureza das coisas. Para tal, recorrem a empresas de trabalho temporário, que deveriam ser proibidas, pelo menos nestes moldes. E os governos querem que tudo siga na "normalidade", sem grandes ondas. 

Com excepção das associações de defesa dos imigrantes ou dos poucos cidadãos com espírito cívico, estamo-nos todos a marimbar para as condições dos nepaleses de Odemira; a não ser quando nos toca a nós também. Bolas, também podemos morrer com a covid, que os gajos, amontoados em contentores (como todos sabíamos) podem espalhar.

Quando os industriais, no século XIX, desataram a fazer bairros operários, foi porque perceberam que também eles eram vulneráveis às doenças contraídas pelos trabalhadores que exploravam à laia de negreiros; não por humanismo, que sentimentos desses são só para alguns.

Encerro com uma música do Fausto, um clássico, dedicada a todos os patrões, especialmente os das empresas de trabalho temporário: O Patrão e Nós, com a diferença de que aquele nós não é connosco, que de há muito estamos do lado do patrão; o nós agora é para os imigrantes.

1958: «Love Me» - Buddy Holly, THAT'LL BE THE DAY #8




segunda-feira, maio 03, 2021

quadrinhos


 

1 disco, 1 música

Podia ser grande a dificuldade em escolher apenas uma faixa num disco todo ele excelente -- dificuldade com que me depararei muitas vezes, felizmente. Li algures tratar-se do melhor disco de Armstrong na década de 1950; que é extraordinário, basta ouvi-lo quem não for surdo. O próprio George Avakian, ciente do que ajudara a produzir, termina desta forma as liner notes: «The way I feel about this record, can be summed up this way: When I die, I want people to say: "That's the guy that if it hadn't been for him and Louis Armstrong and W. C. Handy, there wouldn't have been that great record, 'Louis Armstrong Plays W. C. Handy'."».

Em Dezembro de 2005 (vais fazer dezasseis anos...) escrevi este post  a propósito de Louis Armstrong Plays W. C. Handy (1954), um dos meus discos de eleição:

 «Nunca morrer sem ouvir e re-ouvir, muitas vezes, o álbum Louis Armstrong Plays W. C. Handy -- qualquer coisa como o pai do jazz a homenagear e tocar o pai dos blues, músicas que nenhum deles propriamente inventou mas que contribuíram decisivamente para fixar e standardizar. Handy (1873-1958) foi também uma espécie de etnomusicólogo, recolhendo e anotando uma série de temas que músicos anónimos negros iam tocando itinerantemente pelo sul dos Estados Unidos, à guitarra e ao banjo, e por vezes ao piano, durante o século XIX e princípios do XX. Este disco é uma jóia, e claro que lá estão aquelas que Eric Hobsbawn (também um grande crítico de jazz) considerou como algumas das melhores composições de Handy: «St. Louis Blues», «Memphis Blues», «Yellow Dog Blues» e «Beale Street Blues», datadas de 1912-16. Armstrong (trompete e voz) está soberbo, acompanhado por Velma Middleton (voz), Trummy Young (trombone), Barney Bigard (clarinete), Billy Kyle (piano), Arvell Shaw (contrabaixo) e Barrett Deems (bateria). Nas preciosas notas da contracapa, George Avakian dá-nos este testemunho do «pai dos blues»: «"I never thought I'd hear my blues like this." W. C. Handy said again and again. "Truly wonderful! Truly wonderful! Nobody could have done it but my boy Louis!"» [CBS, 1954]

E a faixa que escolho é a sétima, Beale Street Blues.  Beale Street, nas margens do Mississípi, em Memphis, onde tudo se passa, lícito e principalmente ilícito. Composta por Handy em 1916, fala-nos, nostálgica, do bruaá e da urgência da vida. Nenhum lugar trocaria o sujeito poético por aquele sítio de boa e má frequência, fremente de vida, até os taipais fecharem por morte de homem.

Satchmo, cantor extraordinário, dá-nos essa melancolia dos dias passados com tanta graciosidade... Nos solos, sempre fortíssima a trompete, com fraseado e comentários por clarinete e trombone. É ouvir, por favor, aqui.

Referências:

George Avakian: «[...] Louis sings and plays this 1916 classic to a fare-thee-well; this is one of the great blues of our time, and Louis gives it it's most memarable performance.» liner notes


domingo, maio 02, 2021