«Os passageiros, impacientes e exaustos, olhavam esgazeados, debruçavam-se nas janelas a perguntar se a demora ia ser grande, se tinham tempo para ir beber qualquer coisa. Ninguém os ouvia. De súbito o chefe apitava, a locomotiva respondia, os carregadores batiam uma continência marcial e o comboio arrancava, inclinava-se a fazer a curva, desaparecia entre os taludes.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
«O disco amarelo iluminou-se. Dois dos automóveis da frente aceleraram antes que o sinal vermelho aparecesse. Na passadeira de peões surgiu o desenho do homem verde. A gente que esperava começou a atravessar a rua pisando as faixas brancas pintadas na capa negra do asfalto, não há nada que menos se pareça com uma zebra, porém assim lhe chamam.» José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira (1995)
«Acuso-me também de ter rompido, com muitos outros, os nevoeiros premeditados, os abismos reais e os abismos ilusórios, que são ainda mais perigosos, as cadeias, as ameaças e os sortilégios do cercado em que conviria permanecermos por mais uns séculos, para glória e proveito dos nossos amos, que dispuseram de poderes suficientes para mandarem decapitar todos os seus servos, sem qualquer coima ou embargo, e não o ordenaram pelo simples facto de não poderem passar sem eles.» Alves Redol, Barranco de Cegos (1961)

.jpg)
































































