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quinta-feira, julho 02, 2026

um ateu católico

Racionalista e ateu, sou, como a maioria dos portugueses, cristão e católico por formação e cultura.

Diria até que, num ecossistema financismo capitalista abominável e predatório, considero que o papel dos três últimos papas, Bento XVI, Francisco e Leão XIV (poderia falar também de líderes religiosos distantes como o actual Dalai Lama, Tenzin Gyatso) torna(ra)m o mundo um pouco mais respirável, no meio desta lixeira abjecto-comunicacional-argentária.

Valorizo o apelo a uma espiritualidade, que em mim terá correspondência numa necessidade metafísica (Schopenhauer), precisamente porque despojada de fantasmagorias e sempre ancorada na realidade.

Enquanto ateu, as questões internas da Igreja dizem-me pouco, são curiosidades; enquanto homem e cidadão, aprecio uma mensagem emancipadora que possa elevar-nos do lodo merdiático-reticular em que esbracejamos. 

Vem isto a propósito daqueles reaccionários do Lefebvre, que desafiaram o Papa. Esteticamente, acharia muito mais piada à missa em latim; mas não frequento missas e ,de fora, prefiro uma Igreja apesar de tudo emancipadora e não uma que sirva para enquadrar a carneirada no rebanho. Já tivemos disso durante muitos séculos -- da Santa Inquisição a cumplicidade com o Salazar -- com todas as honrosíssimas e dignificantes excepções, do fantástico Bispo do Porto D. António Ferreira Gomes ao extraordinário Padre Mário Oliveira, cuja evocação num livro recente de Luís Reis Torgal -- camarada de armas na Guiné, ao tempo em que o primeiro serviu como capelão-militar anticolonialista na Guiné, até ser recambiado --, me sensibilizou imenso.

Olhar para estes gajos, põe-me diante dos olhos o Estudo a partir de Velázquez, do Francis Bacon.

quinta-feira, junho 18, 2026

leitura humilde, mas alerta

 

5. Olho mais de uma vez para o retrato de António Lobato na badana da capa. Um homem passado da meia-idade, de aspecto sereno e apaziguado, ostentando a cicatriz de uma catanada que lhe atravessa o rosto de cima a baixo. Pelo que li até agora, algo me diz que não encontrarei aquilo que temo. (aqui)

6. Como testemunho, o livro é um admirável relato de sobrevivência numa situação inimaginável. Em alguns momentos transportou—me à Guiana Francesa, do Papillon (e de Dreyfus…).  É notável como naquela situação mente e corpo passam a ser não apenas o refúgio em que o eu encontra o si-mesmo; e um invólucro que é o corpo, fechado noutro invólucro, a cela, que passa a não ter limites. É evidente que eu poderia ser cínico e dizer que foi o instinto de sobrevivência que qualquer animal tem, além da sorte, que o preservaram. O que em minha opinião o distinguiu verdadeiramente como homem -- e lá obrigou o regime que andou a defender, pensando que era a nação que defendia --, foi a fidelidade ao juramento de bandeira, recusando a liberdade em troca de se bandear para o inimigo. Merece isto respeito? Neste caso, creio que sim. Muito jovem, o autor alistou-se como voluntário; não estava intelectualmente preparado para perceber o que de errado, desumano, humilhante significa ser-se colonizado.

7. Não posso dizer que encontrei o que temia – mas também não vi o que gostaria de ter encontrado, ou seja, uma denúncia do que foi a Guerra Colonial, um crime que ceifou incontáveis vítimas, aos milhares, por uma visão distorcida e cega da História, naqueles treze anos de guerra, além de interesseira para a clique que governava o país. Não basta, como fez o autor, exprobar os imperialismos todos que se puseram ao assalto das colónias portuguesas. É muito fácil dizer que a culpa foi dos russos, dos americanos e dos chineses e nós nos limitámos a honrar o nome dos “nossos egrégios avós”, como de forma algo patética o autor expôs.

E lamento-o, porquê? Porque vi no autor uma natural empatia para com o outro africano, mesmo após inevitáveis choques culturais; por exemplo o espantoso episódio do curandeiro, já na Guiné-Conakry; vi a forma respeitosa com que se referiu a Amílcar Cabral, um homem superior, e o modo agradecido nas alusões a Nino Vieira, a quem acreditou dever a vida. Aliás, ele deveu a vida ao PAIGC, que o retirou das mãos dos populares furibundos com os assassinos dos ares – como eloquentemente mostra na pág. 71, uma tabanca devastada pela metralha da aviação --, cuja vontade dos habitantes seria o de esfolá-lo ali já.

É graças a Nino que em Portugal vão saber que ele está prisioneiro, como testemunha a pág. 90. Aliás, oficialmente, Portugal não tem prisioneiros no campo inimigo, por isso, Lobato para todos os efeitos não existe. É pena que ingénua ou propositadamente, não veja que está ali a servir de carne para canhão para a sobrevivência de um regime português ilegítimo, assente na repressão e na fraude, e não ao serviço dos alegados nobres ideais de “egrégios avós”, fantasia de marinheiro republicano, H. Lopes de Mendonça, apanhada com as mãos ambas pelo Salazar.

Como militar a sua admiração pelo PAIGC é notória, a “ordem” a “disciplina” a “autoridade” que verifica existir no acampamento de Nino Vieira; o que não o impede de ver, após uma (infelizmente) já esperada diatribe contra os “cravos” e os “vendilhões”, comiserar-se com o estado subnutrido de uns guineo-portugueses do outro lado da fronteira (p. 108) (e aqui Lobato já se sente muito à vontade para denunciar o colonialismo francês), saindo-se com esta pérola: «Nestes olhos esbugalhados de surpresa [o avistamento de um prisioneiro português branco], lê-se a esperança longínqua do regresso à terra-mãe, ao “doce chicote” do colonizador que durante quinhentos anos lhes garantiu tabanca fresca, pão, água,  e ainda alguns ensinamentos técnicos, científicos e culturais.”… (p. 111); escrevendo antes sobre uma alegada “partilha de quinhentos anos de uma nacionalidade comum” (p. 110), essa mesma nacionalidade comum que incluía o povo felupe, em que se praticava o canibalismo, temendo Lobato servir de pitéu a um certo Miguel que por lá andava, aí se esquecendo da nacionalidade comum, não fora o estrangeirado do PAIGC ter advertido um deles que «tuga não e[ra] para comer”… (p. 85)

8. O livro é pois, no que respeita a considerações que vão para além da circunstância, uma salgalhada incoerente, que a própria honestidade do autor evidencia; desde logo do ponto de vista formal, em que tanto caracteriza – sem aspas ou itálico – os soldados do PAIGC ora como terroristas, ora como guerrilheiros, sabendo-se que nenhum destes substantivos é neutro. Não atribuo, no entanto, nenhuma intenção especial, mas apenas uma evidência de que o autor não era, nem de perto nem de longe, um escritor, antes alguém que tinha coisas para contar e soube escrevê-las de forma minimamente inteligível. Deste ponto de vista, trata-se de um livro medíocre.

9. O capítulo final, acrescentado em edições posteriores, focando essencialmente o papel do autor durante o PREC, não tem nada que ver com o testemunho, e, com excepção do epílogo, agora na Guiné-Bissau, e já não Guiné Portuguesa – aliás bem interessante –, está aqui a mais, prejudicando a unidade do depoimento.

10. "Herói nacional", como o considerou o regime -- mesmo que a PIDE o tenha detido logo após o regresso após mais de sete anos de cativeiro (era preciso saber o que Lobato pensava...) e de não saber muito bem o que lhe fazer, obrigando-o a atitudes pouco ortodoxas para que reconhecessem a sua condição de prisioneiro de guerra? (Portugal sempre no seu melhor...) Que há um heroísmo pessoal em não vergar, isso é inegável, só um néscio ou alguém mal-formado o não reconhece. Que esse mesmo heroísmo tenha servido uma causa profundamente errada, é outra história. Aliás, entre história e História, António Lobato foi, quanto a mim, mais uma vítima desta, uma em milhares, e da circunstância da mentalidade de século XIX de Salazar, que aproveitava, e muito, à dos que prosperavam à custa da política colonial, alguns, poucos, descendentes de avós não lá muito egrégios.

quinta-feira, abril 30, 2026

notas sobre «O Banqueiro Anarquista», de Fernando Pessoa

I

Conto publicado na Contemporânea n.º 1 (1922) – revista para gente civilizada e para civilizar gente

Literariamente é uma novela de raciocínio em que se trabalha a destreza argumentativa; politicamente é uma blague, uma vez que o banqueiro não é efectivamente anarquista, embora queira convencer o interlocutor de que o é.

Posicionamento político de Fernando Pessoa: uma direita não alinhada, embebida de um nacionalismo místico, mas também mítico, contrastando com a decadência do país, que vem do século anterior.

Era um admirador contido do fascismo de Mussolini – também ele evocador de um passado mítico, brutal, vigoroso e tecnicamente progressivo (Marinetti, um futuro fascista) – e detestava Salazar pelo que este representava de passadismo, ruralismo, seminarismo…

E detestava ainda mais todas as ideias democráticas, revolucionárias e de esquerda, socialistas, anarquistas ou bolchevistas.

Talvez seja por isso que ele caracteriza os “falsos” anarquistas como “esses parvos dos sindicatos e das bombas” (p. 23)

 

II 

Senão, vejamos:

a glorificação ultra individualista do salvar-se a si próprio deixando de ser dominado pelo dinheiro, possuindo-o – nunca seria libertação, uma vez que se escravizou a esse desígnio: ter dinheiro para não ser dominado por ele e, naturalmente, todo esse capital acumulado na banca e nos negócios, se preciso de uma forma desleal, como confessa o banqueiro (p. 54), são incompatíveis com a ética e a moral anarquistas – até porque tal só seria conseguido, mais do que pelo engano, pela exploração dos outros.

Pessoa era suficientemente informado, embora pudesse detestar o anarquismo, de que nem este é incompatível com a actividade bancária ou comercial – previstas por Proudhon pelas mutualidades e pelas cooperativas. Mas isso já lhe estragaria o argumentário.

Outra fraqueza conceptual deste conto ou novela de raciocínio, reveladora aliás do preconceito do autor é a caracterização do anarquismo como algo que se concentra «nos tipos dos sindicatos e das bombas» (p. 22). Esta é uma expressão parcelar, incompleta e distorcida, no fundo a visão do vulgo burguês, pouco condizente, de resto, com as pretensões de uma revista de elite ou para as elites.

Sim, há um anarquismo individualista ou ultra-individualista, que põe o Eu em primeiro lugar, não caindo na imoralidade cínica do banqueiro pessoano que para se livrar a si escraviza forçosamente os outros, com a pobre desculpa que essa tirania já existiria, e que portanto ele limitou-se a utiliza-la, garantindo assim o anarquismo de um, o seu próprio.

Em segundo lugar, “os tipos das bombas” são uma corrente ultraminoritária do movimento anarquista, que provocou muitos estragos à própria ideia, entre finais do século XIX e o princípio do XX, execrada pela larguíssima maioria das correntes e equiparadas a puro banditismo e marginalidade. Foi o que ficou no imaginário.

Também a ideia de que o anarquismo é uma corrente que provém do lúmpen social e proletário faz sorrir, se pensarmos nos nomes de algumas das suas maiores figuras: um conde Tolstói, um príncipe Kropótkin, um Malatesta, filho de um latifundiário pertencente a uma das grandes famílias nobres italianas desde a Idade Média. E só falo em aristocratas, podia falar doutros casos como o geógrafo Reclus, filho de um pastor protestante ou do nosso Neno Vasco, ou seja Gregório Nazianzeno Moreira de Queirós e Vasconcelos, jurista e revolucionário, filho de um abastado comerciante do Norte. Não foi Francisco de Assis, esse anarquista avant la lettre, um jovem rico que se despojou dos seus bens?


III

A construção é/parece perfeita; os pressupostos estão errados; logo, a conclusão é falsa.  

quinta-feira, abril 02, 2026

Henrique de Barros (1904-2000), Presidente da Assembleia Constituinte


Professor Universitário e prestigiado Agrónomo e académico, expulso da Universidade na primeira grande purga aos docentes feita pelo governo de Salazar, em 1934, foi o cidadão que presidiu aos trabalhos que elaboraram a Constituição de 1976, aprovada há cinquenta anos, a 2 de Abril. Era filho do poeta João de Barros, antigo ministro da República, e cunhado de Marcelo Caetano, o Presidente do Conselho de Ministros, deposto a 25 de Abril de 1974.




 

quinta-feira, julho 10, 2025

Sócrates, 4 - MP, 0

O novo julgamento de José Sócrates está a ser um deleite. 

Tenho cá umas ideias a propósito do que fui assistindo ao longo destes anos, que terei oportunidade de confirmar,  infirmar  ou antes pelo contrário.

Para já, ninguém desilude.

Sócrates e a sua postura imbatível de arrogância, muitas vezes justificada; o humor cáustico e a irascibilidade. No caso de inocente, aprecio bastante; tendo cometido algum dos crimes graves de que é acusado, entramos no domínio da desfaçatez pura, com laivos de mitomania e desequilíbrio psíquico

Os pobres jornalistas de plantão, lamentáveis, como de costume; só é pena que em vez deles lá não estejam os respectivos directores e chefes-de-redacção, da nossa em geral vil imprensa;

A boçalidade que vai pelo Ministério Público é indiscritível  (gravação de Sócrates a conversar com Granadeiro, relatando umas chalaças de Soares e Almeida Santos sobre a sexualidade do Salazar...) "Era para provar que eram muito próximos", justifica a criatura. A juíza, dignamente, lamenta o ocorrido.  

A juíza: trabalho dificílimo; excepcionalmente, gostaria de estar na pele dela.



quinta-feira, junho 12, 2025

há 150 anos com as mãos nos bolsos


Faz hoje 150 anos que o genial Rafael Bordalo Pinheiro criou o Zé Povinho, caricatura do povo português, que ficou sem o que fazer depois da independência do Brasil. Gonçalo Mendes Ramires bem sugeriu  África como remédio para a apatia, mas já era tarde. Bordalo pertencia a essa Geração de 70, a mais crítica da nossa contemporaneidade -- Santo Antero, papá Eça, avô Ramalho, tio Joaquim Pedro, philosophe... 

Queriam-nos mais europeus, sem deixarmos de ser portugueses. Os mais expeditos, ambiciosos, aventureiros emigraram; os outros ficaram, agarrados à enxada.  Salazar ajudou bastante, até que, faz hoje quarenta anos, Mário Soares assinou a nossa inevitável adesão à CEE, no claustro dos Jerónimos 

Imagem magnífica a da cerimónia no vetusto monumento doutras eras, e também túmulo do venturoso Manuel I: o que éramos e o que queríamos ser. Numa geração, passámos da enxada ao 5G. 

Como escreveu o Almada Negreiros, "Coragem portugueses", etc.


Rui Ochôa


sexta-feira, dezembro 06, 2024

o pior de Soares sempre foram os soaristas

Nunca simpatizei com a personagem, por razões muito diversas do ódio que lhe votava a grande massa dos chamados retornados ou da aversão que tinha por ele o PCP, partido a que pertenceu na juventude.

Uma das muitas coisas de que Portugal se deve orgulhar (um orgulho bem tardio, é verdade) é a Descolonização -- com todas as suas imperfeições --; a passagem do poder ao MPLA, ao PAIGC e à FRELIMO. Deveria ter sido outro o modo? Sim, mas a responsabilidade de como a descolonização foi feita deve-se apenas ao Salazar e entourage. Importante era descolonizar, em nome da decência; Soares foi um dos que esteve na Descolonização, por isso, viva Soares!

Soares liderou a contestação na rua aos que se preparavam para instaurar no país uma ditadura mais cruel e mais estúpida (parafraseio as palavras do sapateiro Manuel Joaquim de Sousa, antigo secretário-geral da CGT). Claro que Soares se aliou ao Diabo (Kissinger, CIA) e beneficiou do apoio da pequena burguesia assustada e da grande, defenestrada. É a vida.

E depois, foi o líder da nossa adesão à CEE. Não é sua a responsabilidade de a UE ser hoje uma entidade agónica e sem autonomia, dirigida por pequenos e habilidosos funcionários, da Úrsula ao Costa (neste último caso, é um vaticínio; gostava de me enganar, mas não creio). Ideia extraordinária a União Europeia, que talvez ainda possa ser salva. Não perguntem como, porque não sei, a não ser que a UE nunca o poderá ser enquanto as suas instituições não forem reformadas, com a obrigatória criação de uma segunda câmara que dê peso igual aos países, e com poderes reforçados, possivelmente numa perspectiva confederal.

Voltando a Soares, que não foi nenhum génio, mas um homem singular com qualidades e defeitos de sobra. Não admiro a pessoa, embora reconheça o seu lugar na História recente de Portugal -- uma obviedade, de resto. Mas o que sempre me causou particular repulsa foram os soaristas, coevos e póstumos, basbaques e engraxadores. Um horror. 

quarta-feira, junho 21, 2023

não é preciso chamar nazi ao Zelensky, porque ele não precisa (ucranianas CXCIV)

O nazismo foi a perfeita encarnação do Mal na História contemporânea, em maior grau ainda, pela sua selectividade espúria, do que a escravatura praticada em larga escala com destino às plantações das Américas (o ser humano tratado como mercadoria), os genocídios índio e arménio (atavismo territorial primitivo, no fundo à Gengis Khan), para não falar doutro departamento, o terror estalinista, todo um outro departamento. A depravação moral de Hitler e sicários (um sicariato que se estendeu, infelizmente, a milhares de alemães e povos vizinhos), que o fascista Mussolini quase passa por moderado e o chefe Salazar quase por democrata. O nazismo é único no Ocidente contemporâneo e não vale a pena equipará-lo com qualquer outro sistema de poder.

É por isso que me parece contraproducente o PCP enveredar por essa retórica de Putin (de quem aliás o partido tanto se preocupa em dissociar-se). E não é o único: lembremos Pedro Doares, na recente convenção nacional do Bloco de Esquerda, chamando neonazi ao Zelensky. No entanto, foi neste caso uma hiperbolização salutar, pois, mesmo para quem não é nem gosta do BE, como é o meu caso, causava vergonha e embaraço vê-lo alinhado com a nato ou com o Chega.

Dito isto, também não se pode escamotear a presença, o poder e a influência da extrema-direita neofascista e porventura neonazi em todo o processo que conduziu à guerra que decorre entre os Estados Unidos e a Rússia na Ucrânia.

A CIA, aliás, e beneméritas agremiações americanas congéneres às ordens do Pentágono e do complexo militar-industrial norte-americano (não, obviamente, do taralhouco do Joe Biden), gostam muito de recrutar e branquear este género de delinquentes. Veja-se o caso Navalny: independentemente de tresandar a homem-de-mão, foi membro do partido do Jirinóvsky que deus tem. Ou seja: o rebotalho, o lumpen político e social que a implosão da União Soviétiva excretou.

Voltando ao Zelensky: na mais benigna das hipóteses, foi um líder que hipotecou o próprio país ao ser incapaz de estabelecer um status quo com os russos do Donbass. Não é o único culpado? Não será; mas sujeitou-se a servir os interesses de uma potência global interessada em neutralizar a Rússia. Se perder a guerra, como parece irá perdê-la, ninguém lhe perdoará; se a ganhar, admitamos a hipótese académica, o custo será de tal modo elevado, que alguém irá perguntar-lhe se não teria sido preferível ter-se batido por uma solução que teria por base os Acordos de Minsk. É que -- e nisto o PCP tem toda a razão -- a guerra não começou no ano passado, como dizem para aí os intrujões -- cujo mentor é, recorde-se, Boris Johnson (um Nobel da Paz para ele) --, com a invasão da Rússia pela Ucrânia.     

sábado, junho 10, 2023

Liberto Cruz

Álvaro Neto (pseudónimo de Liberto Cruz), no capítulo próprio da sua Gramática Histórica (1971), apresenta o exemplo de um "Requerimento para Exame de Admissão à Morte" -- 10 de Junho de 1968 -- ainda o Dr. Salazar não caíra da cadeira, na banheira, ou lá onde foi.

quinta-feira, maio 11, 2023

por uma vez, os polacos quase têm razão

 Salvo circunstâncias muito especiais (como foi o caso da Ponte Salazar, autoglorificação ou engraxamento, qualquer deles abusivo porque com o dinheiro dos contribuintes, como agora se diz), sou contra o rebaptizar de ruas, escolas, monumentos, regiões, países. Aquele nome, Kaliningrado, é deveras horroroso, independentemente dos defeitos ou qualidades dos homenageados. Faz-me lembrar a estúpida cunhagem de povoações africanas com nomes como Carmona (sic), Salazar (sic!), Lourenço Marques (sic) ou até Sá da Bandeira -- um nome grande do liberalismo português. Mas os polacos só têm meia razão: a  Królewiec que eles pretendem voltar a usar soa a qualquer coisa como unguento para os calos. E pensar que o nome verdadeiro da cidade é Conisberga, a Königsberg do Kant, relógio e filósofo da terra...

sexta-feira, julho 29, 2022

Vasco Gonçalves, a História não se apaga, ou da inevitabilidade de um monumento

A única desculpa que a Direita tem para este ataque de tosse pelo projectado monumento a Vasco Gonçalves, da autoria do grande Siza Vieira, é a circunstância de tratar-se de um protagonista da história recente (tal como Salazar -- cujo centro interpretativo em Santa Comba Dão, enquadrado por historiadores insuspeitos defendo e defenderei). Uma história com feridas recentes, paixões ainda à flor da pele.

Só que... A figura de Vasco Gonçalves agigantou-se de tal forma no tempo em que lhe coube agir -- os dicionários passaram a registar o termo "gonçalvismo" -- que os meses em que governou, nos idos de 1974-1975, acabam por ser um dos períodos mais significativos dum estado e de uma nação a cumprir 900 anos em 2028.

Ainda hoje passei os olhos -- tão em diagonal que só tenho uma vaga ideia do título -- por um textículo do inefável Camilo Lourenço, a luminária que disse algures que a História não interessava para nada... (um retrato deste país básico, iletrado, primário -- parece que tem milhares de seguidores nas "redes"...), que obviamnte se manifestava e tentava condicionar Carlos Moedas -- como, de resto, é o seu direito num país livre.

Só que... (outra vez), isto ultrapassa totalmente Carlos Moedas, os proponenentes e os opositores do que está em causa. Acreditem que daqui a 200 ou 500 anos, os manuais e os livros de História de Portugal irão falar de Vasco Gonçalves e do gonçalvismo -- período charneira e apaixonante que não é para simplismo e para simplórios -- e ninguém irá saber quem foi por exemplo Mota Pinto. Ou Guterres, Ou Durão Barroso. Ou Sócrates. Ou Passos Coelho -- a não ser os eruditos que estudam o período.

 Resumindo: um monumento -- estátua, busto, memorial, o que seja -- a Vasco Gonçalves com o traço de Álvaro Siza Vieira? É como se já lá estivesse, meus caros, agora ou mais adiante. 

terça-feira, outubro 19, 2021

portugueses



ARISTIDES DE SOUSA MENDES do Amaral Abranches

Ora então quem foi o maior português do século XX? Não foi, certamente, o Salazar. Não foi Gago Coutinho, extraordinária figura de inteligência e acção ou Jaime Cortesão, outra. Foi o homem que o Estado hoje homenageou, depois de lhe arruinar a vida -- o amoralismo de Salazar não se detinha diante de ninguém -- e depois ocultá-lo para que se esquecessem. Foi preciso que um historiador expatriado no Canadá, Rui Afonso, trouxesse luz sobre um homem que foi sacrificado por ser bom e digno, salvando centenas ou milhares de vidas (pouco importa para o caso a exactidão do números), para que o país o conhecesse. Salvar vidas, destruindo a sua própria, chama-se a isto heroísmo.

quarta-feira, setembro 15, 2021

emporcalhamento

 Concordo com o Presidente Marcelo quando diz que não devemos dar grande trela aos animais que foram coagir Ferro Rodrigues quando almoçava com a mulher. É possível que espectáculos destes sejam o pão-nosso-de-cada-dia na cmtv ou nas outras que as copiam. Mas eu nunca vira nada assim: tontinhos, feios, porcos, maus, com linguagem rufia ("estás marcado...", "este restaurante está marcado...") a arrotar insultos a alguém que, ainda por cima, preside ao Parlamento -- ou seja, à assembleia dos representantes do Povo --, pilar de um sistema que, por muitos defeitos que tenha -- e tem tantos --,  não se arranjou outro melhor, até agora, que o substitua? Que querem estes idiotas? Haviam de estar no tempo do Salazar, ou em sistema soviético que nem piavam. 

E este emporcalhamento aconteceu porquê? Por causa das vacinas? Do maluquinho que é juiz e está prestes a ir borda fora, por indecente e má figura, e as porcarias que ele foi buscar ao Processo Casa Pia? Não sabe este idiota que a propósito do escândalo da pedofilia uma certa direita montou uma conspiração para decapitar a liderança mais à esquerda do PS, no que foi amplamente bem sucedida, aliás com a colaboração activa do Expresso, então dirigido por outro cretino encartado? 

A evolução permitiu a estes toscos passar de ratos em ditadura a carneiros em democracia. Eu também prefiro assim, se bem que a ditadura tivesse a grande ventura de os ratos se verem com menos frequência, era mais higiénico. Assim, ao ar livre e de cabeça descoberta, o ambiente fica pestilento, como é próprio dos ratos. 

sexta-feira, junho 25, 2021

a histeria com a Hungria

 Os valores europeus. Ouvindo Ursula von der Leyen, pensava que esta se referia aos exilados catalães, mas não. É sobre a proibição de fazer endoutrinação lgbt às criancinhas húngaras. Uma questão de direitos humanos, como toda a gente sabe. Não a Catalunha, não os palestinianos ou os rohingya, por exemplo.

Santos Silva, o ministro. Rasgou as vestes e arrancou cabelos a propósito da lei húngara, que qualificou como "indigna". Vieram-me as lágrimas aos olhos.

Orbán. A personagem diz que lutou pelos direitos dos homossexuais no tempo do comunismo. Se ele o diz... Mas lá que eles eram perseguidos, eram. E por cá também. Excepto os que pertenciam à elite das elites, porque a esses tudo se permitia, até o Salazar fechava os olhos reprovadores. O povo, a pequena burguesia que dele emergia, tinha que calar, não bufar, ir à missa e só comer peixe às sextas.

O Expresso "contra o preconceito".  A cristinaferreirização da imnprensa. E que tal as cores da Palestina ou da Catalunha? Mas a manada nem pensa nisso. Quem lhes tira o 5 prà meia noite tira-lhes tudo.

Histeria. Faço o link para uma notícia que simpatiza com a causa. É brasileiro, podia ser português: é tão pobre que é estúpido. Em contrapartida, talvez isto.

(continuação daqui)

segunda-feira, fevereiro 22, 2021

barbarismos

(Até me custa comentar isto, dada a insignificância. Vale tudo para cair  nas bocas do mundo, não é?...)

Num artigo leviano e mal pensado , de quem detém um mestrado em Gestão e um vasto currículo em cargos públicos mas que de História não sabe nada, comecemos pela expressão hedionda "mamarracho", normalmente uma observação bárbara de ignorância de boi frente a um palácio. É muito comum ser utilizada pela vox populi quando surge no espaço público um edifício arquitectonicamente disruptivo (passe a palavra medonha), que, obviamente, depois de a ele se acostumar passará a defendê-lo com unhas e dentes. 

Ora, o mamarracho  de Ascenso Simões, o Padrão dos Descobrimentos, cujo friso de personagens é absolutamente extraordinário (é preciso não ter a mínima noção de nada e/ou andar desesperado por ser falado), apresenta a particularidade de ter autores, a saber: Cottinelli Telmo e Leopoldo de Almeida; a direcção dos trabalhos e o interior coube a Pardal Monteiro e a envolvente a Cristino da Silva; entre os responsáveis pela estrutura esteve o grande engenheiro Edgar Cardoso. Além de apagar a memória histórica, Ascenso quer deitar para o lixo as obras de cinco artistas portugueses do século XX. 

Depois dos disparates contestando um pretenso Museu dos Descobrimentos, em abaixo-assinado por activistas disfarçados de historiadores, idiotas úteis e alguns ingénuos, e na sequência da importação saloia do conceito de racismo sistémico, que faz todo o sentido nos Estados Unidos, mas não cá -- onde, repetindo-me à exaustão não há racismo sistémico nenhum para com a comunidade negra (ao contrário do que se passa com os ciganos), mas um "racismo" classista incidindo sobre quem é pobre; e se há tantos negros pobres é porque estamos a falar sobretudo de imigrantes -- havíamos de chegar aqui, e acredito que ainda não vimos a estupidez toda. Um dos nossos grandes defeitos e problemas é o complexo de inferioridade provinciano que nos leva a querer estar sempre no pelotão da frente de tudo, quando ainda estamos na cauda em tanta coisa.

E volta ainda à carga com o alegado museu do Salazar, fazendo tábua rasa de quem está à frente do projecto e da necessidade histórica de se confrontar o passado; o que ele parece querer defender no artigo, mas porque não percebe nada do que está a falar e lhe dá jeito ser populista, está-se nas tintas para o caso.

Gosto sempre de falar das minhas origens afro, a minha bisavó Ida, brasileira mulata, que vivia na Baixa durante a República, e para salvaguardar casa e família daquilo a que chamavam "revoluções", mandava hastear a bandeira brasileira na fachada e assim ver-se livre de apuros. Tenho numa estante uma estatueta de um escravo, que me faz lembrar o negro Tiago de A Selva, do Ferreira de Castro, e em homenagem a esses meus ancestrais que foram escravizados.

Para Lisboa ser decente, ao contrário do que defende o deputado, não é remover a História, mas sim tê-la por inteira. Faça-se um monumento aos escravos, um memorial, como se fez aos judeus perseguidos, e aí sim, seremos uma capital mais decente.

terça-feira, janeiro 26, 2021

na estante definitiva

 2. Continuar: «Na história da estética portuguesa do século XIX, onde situar com mais evidência as primeiras correspondências a uma "arte útil"?» Cap. I: «Até finais de 1935: motivações e primórdios de um trajectória de inspiração marxista» (pp. 11-22).

A década de 1930 foi apaixonante no que respeita a debates e confrontos de posicionamentos estéticos sobre os méritos e deméritos de uma arte útil ou inútil (para simplificar...). A questão vinha já detrás e de fora, no prefácio de Théophile Gautier ao seu romance Mademoiselle de Maupin (1835), proclamando que toda a arte para o ser não deveria servir outro propósito que não o seu próprio, o célebre prinípio da arte pela arte.
Alvarenga recua à Geração de 70 e a Antero de Quental, que no prefácio às Odes Modernas (1865) afirma: «A poesia que quiser corresponder ao sentir mais fundo do seu tempo, hoje, tem de forçosamente de ser uma poesia revolucionária.» Estranho a ausência de uma referência à conferência de Eça de Queirós do Casino Lisbonense, em 27 de Maio de 1871, «A "Literatura Nova" ou "O Realismo como nova expressão da arte», provavelmente porque o texto se perdeu, sendo reconstituída posteriormente através dos relatos da imprensa. 
Esta ideia de uma arte interventiva ou útil nos moldes proudhonianos terá continuidades e desenvolvimentos na geração da Seara Nova como de A Batalha, que ficarão situados, digamos, a meio caminho entre os presencistas e os neo-realistas, para não falar do curioso caso de O Diabo, fundado em 1934 por um grupo de escritores e jornalistas anarquistas e republicanos, que progressivamente passará par as mãos da geração seguinte, propriamente considerada neo-realista, até ao seu encerramento compulsivo, em 1940, circunstância que não é para já abordada; mas será a partir do Congresso dos Escritores Soviéticos, em 1934, com a defesa de um realismo socialista, que o debate irá aquecer, mas com nuances, fazendo o autor o levantamento de algumas tomadas de posição, com especial destaque para José Régio no campo do que eu chamaria de arte livre -- mas nunca de arte pela arte, no seu caso, e um destaque ainda para do outro lado, mas sem intenção polemizante, um outro nome maior: José Rodrigues Miguéis, enquanto ficcionista, em entrevista ao Diário de Lisboa ou, antes dele, no campo da crítica e do ensaio, Álvaro Salema, com o artigo publicado no jornal Gládio, em Janeiro de 1935, «O antiburguesismo da cultura nova», propondo a ultrapassagem dos conceitos defendidos pela Geração de 70, ou seja, uma abordagem marxista da literatura e da arte em geral.
Nestes debates, aparece como sumamente importante o artigo de Adolfo Casais Monteiro, com o artigo publicado n'O Diabo em 1935, «Sobre o que a Arte é, e sobre algumas coisas que não poderá ser», de onde se retira a famosa frase em prol da independência artística, «a arte é, não serve» -- embora o autor não o refira, é uma reacção ao discurso de Salazar na Sala do Risco, em que elabora sobre o papel dos artistas, mas que acabará por ver-se apontado aos que no pólo oposto queriam essa arte comprometida com as ideias ascendentes da humanidade. Há a contraposição de meio termo de Amorim de Carvalho no artigo «O carácter social da Arte», também n'O Diabo, em Agosto de mesmo ano, interpelação directa a Casais, quando escreve que «A Arte pode servir, sem deixar de ser»; e uma síntese de Julião Quintinha em três artigos no mesmo semanário com o mesmo título, «A Arte e os artistas», posição com proximidade à de Régio, nomeadamente no terceiro, «O artista ante o problema social e político»: «Parece coisa natural que o artista, possuído por determinados sentimentos sociais, muito sinceramente os exteriorize na sua obra. O essencial é que não seja faccioso na afirmação ou negação desses sentimentos, que vá até ao ponto de os transformar em baixo instrumento político, e que acima de tudo, não se esqueça do que deve à Arte.» 
Estudo sobre arte, Fernando Alvarenga dá-nos exemplos de outras intenções, com Roberto Nobre e A Cega Sanha do Povo (1935) e Companheiros, de António Lopes (s.d.), que reproduzo em baixo, fechando com uma apreciação de Heliodoro Caldeira, no inevitável O Diabo, a propósito de dois reconhecidos muralistas mexicanos: Diego Rivera e David Alfaro Siqueiros e dos chamados Frescos de Cuernavaca, apresentando-os como exemplo duma arte a fazer-se, em que estivessem patentes, como ali, a «linguagem simples e reveladora das grandes verdades».

Roberto Nobre, A Cega Sanha do Povo (1935) - Museu de Faro

António Lopes, Companheiros



Diego Rivera, História de Cuernavaca e Morelos.
 Plantação de Açúcar



Fernando Alvarenga, Afluentes Teórico-Estéticos do Neo-Realismo Visual Português, Porto, Edições Afrontamento, 1989.

quinta-feira, julho 09, 2020

o caso Rita Rato, desconfianças e bocas da reacção

Chamam-me a atenção para o bruaá no Facebook sobre a nomeação de Rita Rato para directora do Museu do Aljube. Não me apetece nada andar ao tiro ao comunista, quando há anos que apanhamos com a tralha neoliberal e assistimos aos fascistas de ocasião (ou seja, aqueles que se prestam a tudo o que o lumpen cívico quiser), bolsarem para o meio da rua.

Depois do "museu das descobertas" -- não há descobertas mas, em bom português, Descobrimentos, e com maiúscula e que devem ser celebrados criticamente, apesar dos analfabetos da margem esquerda --, depois do propalado museu que, com a cagunfa do costume, já deve estar, com a viola no saco e metido na gaveta --; depois da gritaria com o Museu Salazar ou Centro Interpretativo, projecto liderado por historiadores à prova de bala, que deu brado porque a História é um pormenor para uma determinada concepção política do mundo, incluindo os que se dizem historiadores; agora, o Museu do Aljube.

Independentemente do benefício da dúvida que darei à senhora quanto à sua honestidade intelectual -- parece que não sabia bem o que fosse o gulag, etc. -- e esperando, igualmente que, quanto à Resistência ao Salazar, não se fique pelos camaradas e o frete, noblesse oblige, à tralha republicana (e à gente boa também, Seareiros à cabeça), não se esqueça da Resistência dos anarquistas (é verdade, vai hoje na RTP2 um documentário sobre o Emídio Santana…), dos católicos progressistas e até dos monárquicos.
Considero o PCP, dos grandes e médios partidos, o único consistente e politicamente sério; o resto, do Bloco ao CDS, é a pastelaria do costume. Mas a seriedade do PCP no que respeita à História, dispenso-a eu bem. Tenho exemplos para a troca, caso seja preciso, todos nacionais.
Desejo a Rita Rato o maior sucesso. É claro que não precisa de ser historiadora para dirigir o Museu (e ser militante do PCP não é cadastro, antes pelo contrário), precisa tão-só de ser interessada, que qualidades tem-nas, certamente, deixar o cartão do Partido à porta e perceber que há mais mundos, citando o grande José Régio, também ele oposicionista e resistente, aliás duma coragem moral e cívica assinaláveis.
Mas é preciso estar atento, para evitar não só a tentativa de apropriações -- sem deixar de reconhecer o papel do PCP nessa mesma Resistência -- e manipulações da História. Espero, por isso, que Rita Rato desminta todas as desconfianças e cale as bocas da reacção. Porque não me apetece nada dar razão aos observatórios & outros lavatórios.


domingo, junho 07, 2020

JornaL

António Costa Silva. Parece ter muita uva. Trabalhou um mês sem que  ninguém soubesse, pelo menos cá fora. Por que raio?...

Chega. Polítiquice de taberna, futebóis e bardatelevisão. Uma sondagem dá-lhe 4%. Afinal, bom povo português...

EDP. Mexia e Manso Neto vão passar a trabalhar em casa. É o chamado distanciamento social. Mais que isto, só na prisão.

George Floyd. Morrer assassinado sem se saber imortal.

Machado de Assis. Tradução na Penguin das Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) esgotou em um dia nos Estados Unidos, ou o que tem valor nunca perde validade.

O pirilau de Salazar. Parece que afinal não caiu da cadeira, mas na banheira; mas sempre no forte de Santo António, no Estoril.

Prostituição. Actividade louvável a quem a ela se entrega por opção, muito útil em várias situações. Estou a pensar em quanto vale mais ser puta que, por exemplo, corrector na Bolsa ou escriba em agência de comunicação. Legalização para ontem e já!

Touradas. Um espectáculo soberbo, o motivo é fútil. Confine-se. Mas antes, a caça e a pesca desportiva. Tiros só em batidas às pragas.

Violência. Por vezes não há mesmo alternativa, quando do outro lado só se percebe a linguagem da força. E quando a força da lei está adormecida, há que despertá-la.


quarta-feira, abril 08, 2020

na estante definitiva

Leitores de Jorge Amado, há-os de três tipos: os que gostam do primeiro Jorge Amado, o autor militante comunista, o que influenciou a primeira geração dos neo-realistas e que caiu fundo em vários modernistas da presença -- quem a leu, sabe que é assim -- e que a partir do progressivo afastamento do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) se aburguesara, tornando-se, inclusivamente uma espécie de propagandista turístico de certas delícias tropicais; outros pelo contrário, acham que este era um panfletário e que o grande escritor é o segundo Jorge Amado. Ambos estão fundamentalmente errados, embora algumas das críticas e ditirambos possam fazer sentido de forma parcelar. A verdade é que no essencial se trata do mesmo Jorge Amado: sim, há uma epígrafe de Karl Marx em Seara Vermelha (1944) e sim, Dona Flor encorna o marido vivo com o marido morto, os três na mesma cama. Sim, O Mundo da Paz é uma intragável mistela propagandística do regime de Stalin e Navegação de Cabotagem  é o renegar da cegueira sem eliminar ou esconder dsse zelo funcionário.
O título charneira, o antes e o depois, dá-se com Gabriela, Cravo e Canela, o romance que se sucede, após quatro anos, a Os Subterrâneos da Liberdade (1954), um louvor ao PCdoB...
Que Gabriela, Cravo e Canela é um romance extraordinário, balzaquiano no melhor sentido da palavra, não há dúvida; resiste a todas as adaptações, por boas ou muito más que sejam. Resiste até a uma miserável capa deste minha edição portuguesa das Publicações Europa-América, quando esta editora a estreara em 1960 -- após a autorização a contragosto de Salazar, que quis ler o que estava em vias de autorizar… --, com uma bela cobertura de António Domingues, e um prefácio de Ferreira de Castro, que só não o escrevera a contragosto porque ditado pela amizade, já então de três décadas, entre ambos.

Jorge Amado, Gabriela, Cravo e Canela [1958], 15.ª edição portuguesa, prefácio de Ferreira de Castro, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1978.
Colecção: «Obras de Jorge Amado» #7
Data de posse: Outubro de 1983

sexta-feira, setembro 06, 2019

2 elogios a Cristas 2

Não sendo a minha praia política, registo a recusa da cooptação numa alegada geringonça de direita do espertalhão do Chaga ou do Besta, não sei bem; e também a recusa, ontem, no debate com Rio, a responder a uma pergunta cretina sobre género e casas de banho, ou lá o que era. Deveria a moderadora ter, em seguida, inquirido Rio sobre a posição do PSD a propósito das alterações ao código da estrada no que respeita à prioridade nas rotundas; ou a posição do PSD sobre a utilização de anabolizantes por crianços nos ginásios; ou a posição do PSD sobre a saída de Maria Cerqueira Gomes das manhãs da tvi; ou a posição do PSD sobre... Tenho a certeza de que se perguntasse ao Costa, ele respondia.
nota: soube da existência de Maria Cerqueira Gomes graças àqueles agregadores de notícias da net, em que metade delas não interessam a ninguém. Poderia dizer o mesmo acerca das que envolvem a pessoa em causa, mas não digo, apesar de só a conhecer de vista; estou até agradecido aos respigadores de futilidades (oh, sim, parece uma nota sexista; será? muito provavelmente. paciência, é prò lado que durmo melhor, e pesadamente. A seguir, hei-de escrever uma coisa mais séria. Está-me a apetecer, ambrósios, qualquer coisa sobre o Domingos Abrantes e o alegado museu do Salazar, com todo o respeito pelo primeiro, claro está.)