quinta-feira, janeiro 31, 2019

quarta-feira, janeiro 30, 2019

vozes da biblioteca

«Apenas os relógios soavam as duas horas da sesta e ele -- surgindo inesperadamente, pois todos o julgavam na fazenda -- despachara a bela Sinhàzinha e o sedutor Osmundo, dois tiros certeiros em cada um.» Jorge Amado, Gabriela, Cravo e Canela (1958)

«Era uma sala grande, estranhamente vazia, com sacadas para a avenida, em que havia aquelas secretárias muito altas, de se escrever em pé nos grandes livros de comércio, encostadas às paredes.» Jorge de Sena, Sinais de Fogo (1979, póst.)

«o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo;»  Raduan Nassar, Lavoura Arcaica (1975)

orquestrais & concertantes. Bach, CONCERTO DE BRANDENBURGO #1 (c. 1718), I. Allegro

terça-feira, janeiro 29, 2019

Tony Banks: Composers That Have Influenced Me -- ou de Rachamaninov a Keith Emerson

A pesquisar para um novo bloco de orquestrais & concertantes, dou com esta resposta tão rápida quanto completa à inevitável pergunta sobre as influências, tanto ao nível da clássica como do rock. E, para quem esteja familiarizado com a música de Tony Banks, desde os primeiros Genesis, em 1969 (o som Beatles, antes de todos os outros) até aos grandes compositores ingleses, nada é surpreendente. Passos a enumerar: 1. erudita: Rachmaninov e Ravel, aspectos técnicos; e as sonoridades dos ingleses do século XX: Vaughan Williams, Holst, Elgar, Delius, and stuff; no rock, Beatles, Beach Boys, Kinks, Animals, sem esquecer as performances de Keith Emerson com os Nice, o primeiro e (talvez por isso mesmo) mais assombroso concerto assistido por Tony Banks -- para mim o principal esteio da sonoridade dos Genesis, nas suas melhores fases (1970-1974, 1976-1978, 1983) e também nas outras.

domingo, janeiro 27, 2019

vozes da biblioteca

«Buck não lia os jornais; caso contrário, teria sabido das atribulações que o aguardavam, de Puget Sound a San Diego, a ele e a todo o cão que fosse rijo de músculos e de pêlo abundante e aconchegador.» Jack London, O Apelo da Selva (1903) (trad. Rui Guedes da Silva)

«Nada ali indicava uma luta, nem sequer o rasgão da musselina que parecia separado em duas partes: havia apenas o silêncio e uma embriaguês esmagadora onde ele se afundava, separado do mundo dos vivos, agarrado à sua arma.» André Malraux, A Condição Humana (1933) (trad. Jorge de Sena)

«Todas as jovens da região vieram nesse dia a Sevilha, as generosas cabeleiras pendentes brilhando à luz do Sol, emoldurando, graciosas, os rostos corados que se debruçam.» Pierre LouÿsA Mulher e o Fantoche (1898) (trad. Emanuel Godinho Lourenço)

sexta-feira, janeiro 25, 2019

o que sei sobre os acontecimentos do Bairro da Jamaica

1. o que se confirma. A polícia foi chamada por alguém do bairro para pôr termo a uma zaragata que ocorrera entre mulheres. Fazendo fé na veracidade da fotografia que a PSP divulgou, um polícia foi agredido com uma pedrada na boca, e teve de receber tratamento médico. Isto é o que se diz, e tomo as informações como verdadeiras. Por isso, deve dizer-se que, mesmo com razões de queixa que possam existir sobre o comportamento censurável de alguns elementos da polícia, a agressão gratuita é inadmissível.

2. o que se vê. Polícias em torno de um indivíduo, eventualmente resistindo à coacção (as imagens não são nítidas). Era esse indivíduo o agressor? Não faço ideia; se era, a coacção policial justificava-se, se não era, a polícia esteve mal. E esteve também mal quando agrediu com bastonadas uma mulher e um homem, pais do indivíduo, veio a saber-se, quando se percebe nitidamente que não havia por parte deste qualquer atitude violenta, antes uma notória tentativa de apaziguamento.

3. o que não pode haver. Polícias que não circulem à vontade em qualquer aglomerado do país; polícias que desrespeitem os cidadãos, através do abuso da autoridade ou de qualquer espécie de abordagem racista, que deve ser sancionada exemplarmente; e recordo que tanto a PSP como a GNR dispõem de muitos agentes e militares negros; seria bom uma comissão independente, integrando elementos de todos os partidos com representação parlamentar, mas não só, ouvir a sua percepção da realidade. Talvez fosse útil, para esclarecimento de todos.

4. a política.  A polícia, como em qualquer organização, tem gente de grande qualidade e tem escumalha. Concordo, portanto, completamente com as declarações Catarina Martins; também Marcelo Rebelo de Sousa disse o que competia a um Presidente da República: mostrou preocupação, equidistância e ponderação. O dirigente do SOS Racismo, Mamadou Ba, esclareceu claramente o teor das suas palavras. Só não percebem os estúpidos e os insignificantes à procura de cinco minutos de notoriedade.

Não vale a pena fingir que não há racismo, porque há -- em especial um racismo classista que larva por entre os segmentos mais desqualificados da população (é ouvi-los), que obviamente quer ser aproveitado pelos demagogos e pelos 34 activistas da extrema-direita que andam por aí a fazer pela vida, tentando que lhes dêem uma importância e influência que não têm.

A existência dum aglomerado daqueles num concelho da área metropolitana de Lisboa em 2019 é uma vergonha e não tem nenhuma justificação, em especial depois da existência dum Programa Especial de Realojamento (PER), que permitiu acabar com bairros degradados em vários concelhos. Se eu fosse do PCP, diria que isto é o resultado das políticas de direita; como não sou, digo que isto é o resultado das políticas de direita e das políticas do deixa andar, à direita e à esquerda.


quarta-feira, janeiro 23, 2019

criadores & criaturas

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E. Aidans, Jacques Acar e Os Franval

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cheira a podre e aa conspiratas fachas: felizmente há a imprensa

Não fora Joana Amaral Dias, honra lhe seja, e não saberíamos do conteúdo da auditoria à Caixa Geral de Depósitos relativa ao período 2000-2015, embora há que tempos se falasse dos grandes devedores. Não é tanto, embora seja importante, o desastre de cada negócio: uns correram mal, outros serão suspeitos de trafulhice a vários níveis -- cabe às autoridades apurar. Não é tanto, pois: trafulhices e maus negócios não começaram nem ficarão por aqui; o que é especialmente repugnante é 1) os prémios de gestão atribuídos aos quadros que descapitalizaram o banco público, o despudor e o abuso aí estão à vista de todos, e os premiados não pintam a cara de preto porque não têm vergonha na dita; 2) o encobrimento, obviamente protegendo o sindicato dos interesses com a activa cumplicidade das cúpulas políticas; 3) o alheamento ou a raiva dos cidadãos duramente extorquidos com impostos, desviados para alimentar o regabofe. Também isto cria bolsonaros & trumps, ainda mais do que as questiúnculas fracturantes.


O antigo ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, com quem não me encontro há vários anos, foi, pelo seu primeiro casamento, um familiar muito próximo, e conhecemo-nos ainda desde a adolescência dele e a minha jovem adultez (sou poucos anos mais velho). Creio que nunca aqui lhe fiz referência por essa razão e também, diga-se com frontalidade, por não ter e nunca ter tido pachorra para as empresas, para as bolsas e temas quejandos -- nunca leio as páginas de economia dos jornais, a não ser quando aparece um bom cronista, fenómeno pouco frequente. Vem isto a propósito da minha admiração pela sua substituição no Governo -- além de académico destacado, geria uma pasta que apresentava óptimos resultados para o Governo apresentar, além de ser pessoa de excelente trato -- logo a remodelação não me fez muito sentido (não foi, certamente, por causa da timidez  do ministro, factor parece que importantíssimo aí para o jornalismo raso e acéfalo da intriga política.)  Ainda por cima, substituído por um advogado, homem de confiança do PM, o que é mais ou menos como nomear um veterinário para director clínico do Santa Maria. Até que há dias se fez luz: havia um secretário de estado, parece que bastante competente, Jorge Seguro Sanches, que andava a tornar-se demasiado saliente. Havia que removê-lo, para cair sec. de estado, tinha primeiro de cair o ministro. É a minha leitura, e duvido que haja outra convincente.

Entretanto, a história do genro de Jerónimo de Sousa parece ter sido tratada de forma enviesada, segundo revela O Polígrafo . Não há que admirar: há uma extrema-direita subterrânea, larvar, vermínica,  motivado  pelos gelados ventos de leste, apostada em aproveitar a degenerescência política em que temos andado, desde o cavaquismo. Goste-se mais ou menos (e eu nem mais nem menos), o PC é um dos baluartes do sistema democrático, tal como existe desde 1974. Miná-lo é a tentativa de aspirar uma grossa fatia de eleitorado descontente que, a exemplo, por exemplo da França, alimentaria essa extrema-direita. Esperemos que 1) não seja bem sucedidos e 2) que se enganem.


terça-feira, janeiro 22, 2019

vozes da biblioteca

«Afeito à vida áspera do foro, que obriga a endurecer o coração e a dominar a sensibilidade, não soubera, porém, aceitar com indiferença aquela declaração franca, honesta, sem pensamento reservado, mas que para ele era paga de uma dedicação sem mancha e de uma devoção silenciosa: "a sua presença é uma das raras consolações da minha vida actual."» Joaquim Paço d'Arcos, Ana Paula (1938)

«Chegar, deitar-se: por vezes os dois actos sucedem-se e encadeiam-se com tal rapidez como se entre ambos não decorresse, hesitante ou cegamente precipitada, aquela operação, um tanto mágica à força de tão simples, de primeiro se descalçar, de logo em seguida se despir.» David Mourão-Ferreira, Um Amor Feliz (1986)

«Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrôcho da autoridade.» João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas (1956)

estampa CCCLI - Henry Ossawa Tanner


Salomé (c. 1900)

sábado, janeiro 19, 2019

vozes da biblioteca

«Essa minha paixão levava-me a passar horas perdidas, nos campos, a desenhar na terra, nas cascas de árvores, no chão, enfim, em todo o lado onde uma linha pudesse existir e fazer sentido ao lado doutra linha.» Rui Chafes, «A história da minha vida» (2011), Entre o Céu e a Terra (2012)

«Fui fazendo isto, porque não sou de me deixar estar, a permitir que o mundo me esfregue sal na grande ferida que sou.» Victória F., «Requerimento», Elogio da Infertilidade (2018)

«Os progressistas arregimentavam gente sã, todas as pessoas sensatas da terra, destas criaturas de uma só cara, que sabem por onde trazem a cabeça, maduras de anos e experiência, dignas de todo o respeito.» João da Silva Correia, «Mijados e chamorros», Farândola (1945) 

12 sinfonias: 12. Prokofiev, Sinfonia #1 (1918) - IV. Finale. Molto vivace

estampa CCCL - Thérèse Schwartze


Retrato de Lizzie Ansingh (1902)

sexta-feira, janeiro 18, 2019

«Julgo eu que se não pode ser grande escritor sendo pequeno homem, e que é preciso ter coisas em si para poder interessar aos outros.»

José Régio a João Pedro de Andrade, aqui.

vozes da biblioteca

«Julgas que é fácil ser-se mulher de um oficial da marinha que sonha com Índias e Vascos da Gama e que passa as noites a fazer as palavras cruzadas do jornal?» Luís de Sttau Monteiro, Angústia para o Jantar (1968)

«Sim: logo que vencesse a pior barreira, não me faltariam tempo e inteligência para dar explicações aos que tinham moedas a mais no bolso e engenho a menos na cabeça.» Francisco Costa, Cárcere Invisível (1949)

«Toda a memória lhe vem das janelas em guilhotina da 1.ª Classe , para onde tantas vezes olhou em vão, na esperança de que viessem socorrê-la.» João de Melo, Gente Feliz com Lágrimas (1988)

quinta-feira, janeiro 17, 2019

lido

capa: José Pádua

lido


VOZES DA BIBLIOTECA

«É muito bonito o meu amigo de agora; tem o mais belo pêlo da floresta, / e olhos onde brilha, em noite escura, / o faiscar do gelo nas alturas.» António Franco Alexandre, Aracne (2004)

«Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.» Carlos Drummond de Andrade, «Poema de sete faces», Alguma Poesia (1930) / 65 Anos de Poesia, edição de Arnaldo Saraiva (1998)

«Sim, é pai, mas -- a crença no-lo ensina: / Se viu morrer Jesus, quando homem feito, / Nunca teve uma filha pequenina!...» Afonso Celso, Poesias Escolhidas (1902) / Evaristo Pontes dos Santos, Antologia Portuguesa e Brasileira (1974)

quarta-feira, janeiro 16, 2019

50 discos: 19 ARGUS (1972) - #6 «Warrior»



Quadratura do Círculo

Nunca percebi por que razão a Quadratura do Círculo se configurou para não passar das meias-tintas, no que respeita à amplitude de visões políticas do seus intervenientes. Recordo-me que o «Flashback», da TSF, e de onde provém a QdoC, começou com Pacheco Pereira, nessa altura uma das figuras mais proeminente do cavaquismo, José Magalhães, então aguerrido deputado do PCP, e Vasco Pulido Valente, tão instável quanto estimulante. A saída de Pulido Valente foi remediada por Miguel Sousa Tavares, durante pouco tempo, depois Nogueira de Brito, e, finalmente, com Lobo Xavier. É já com essa composição, e Magalhães passado para o PS, que o programa se reinventa na televisão, com o nome que o conhecemos.
Estranhei na altura o convite a Jorge Coelho, um homem de aparelho, muito inteligente e eficaz, porém sem grande bagagem intelectual; achei que aquilo se tinha tornado numa coisa institucional e de meias-tintas -- não fosse a progressiva e salutar radicalização  de Pacheco Pereira --, que o convite a António Costa para substituir Coelho mais não fez do que confirmar. Do ponto de vista da troca dos pontos de vista, seria, à partida, mais interessante o "Prova dos 9", da TVI, com Rosas, Silva Pereira e o inefável Rangel, ou o outro lado, na RTP 3, com Rui Tavares, Pedro Adão e Siva, normalmente com grande solidez, e José Eduardo Martins. 
A QdoC mantinha-se, porém, como o meu programa preferido de debate político: o contraste entre um Pacheco Pereira muito incisivo, geralmente indo ao nó dos problemas, fazia um bom contraste com o conservadorismo respeitável de Lobo Xavier, e era em ambos que muitas vezes se polarizava o debate. Jorge Coelho, muitos furos abaixo, em especial de Pacheco Pereira, colmatava essa diferença com performances muito vivas, bulldozer em acção, que nem o atabalhoamento do discurso e os pontapés na garmática detinham.
Desfecho lógico no processo de animalização das televisões privadas, que vão esticando a corda tanto quanto as deixarem. A alternativa deve ser linda, estou curioso por continuar a acompanhar o processo de degradação da baiuca. Divertidas foram as justificações sonsas do director: parece que o programa acaba, aproveitando a mudança de instalações. Brilhante, como tudo o que dali sai. Já agora, podiam acabar com o normalmente pífio «Expresso da meia-noite». Desse sim, ninguém iria sentir-lhe a falta, a começar pela música épica do genérico, tão desajustada que só não vê quem não se enxerga; e os tweets palermas do público em rodapé, que não passa de irritante visual.
Em resumo, mais um passo na poluição comunicacional do espaço público, com todas as consequências que daí advêm.
em tempo: provavelmente, o programa político da nova grelha será esta coisa em forma de assim

criadores & criatura

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Iron Man / O Homem de Ferro
Stan Lee, Larry Lieber, Don Heck e Jack Kirby

terça-feira, janeiro 15, 2019

432-202: Brexit ao fundo!

Grande dia em que se abre a possibilidade de dar ao povo britânico os meios de reverter uma situação a que o conduziram políticos sem escrúpulos e gente manhosíssima. Se isso suceder, será um bom dia para a Europa e para Portugal, pois com ou sem a Inglaterra, a União Europeia é uma coisa completamente diferente. 

vozes da biblioteca

«Com a queda do velho Lemos, no Pará, os Alcântaras se mudaram da 23 de Junho para uma das três casas iguais, a do meio, de porta e duas janelas, 160, na Gentil Bittencourt.» Dalcídio Jurandir, Belém do Grão-Pará (1960)

«O beijo de despedida, que pertencera ao ritual familiar, perdera continuidade nos últimos tempos (como muitas outras coisas), sem que, aliás, tivesse havido um motivo para que o hábito se alterasse.» Fernando Namora, O Rio Triste (1982)

«Outrora não teria hesitado e, zape-zape, pinheiro arriba, iria ver em que estado se encontrava o novo berço e voltaria, depois, pelos ovos ou pelas avezitas ainda implumes, as pálpebras cerradas e o biquito glutão semiaberto ante qualquer ruído.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

segunda-feira, janeiro 14, 2019

domingo, janeiro 13, 2019

vozes da biblioteca

«Ora aconteceu que, uma vez, caiu sobre a Terra uma noite muito longa e santa.» Selma Lagerlöf, Os Milagres do Anticristo (1897) (trad. Liliete Martins)

«Tenho vinte e seis polegadas de altura, mas sou perfeitamente constituído e proporcionado, salvo no que respeita à cabeça, que é um pouco grande.» Pär Lagerkvist, O Anão (1944) (trad. João Pedro de Andrade)

«Tinha-lhe parecido que aquele casamento iria ser, entre todos os casamentos, uma aventura.» D. H. Lawrence, A Mulher que Fugiu a Cavalo (1925) (trad. Aníbal Fernandes)

12 sinfonias: 11. Sibelius, SINFONIA #1 (1899) -IV. Finale (Quasi una fantasia): Andante. Allegro molto. Andante assai. Allegro molto come prima. Andante (ma non troppo)

sábado, janeiro 12, 2019

vozes da biblioteca

«Era engenheiro de minas, no dia seguinte devia partir para Beja, para Évora, mais para o sul, até S. Domingos; e aquela jornada, em Julho, contrariava-o como uma interrupção, afligia-o como uma injustiça.» Eça de Queirós, O Primo Basílio (1878)

«Era um homem de olhos pequeninos, penetrantes, entrincheirados nuns óculos de míope, e tinha os cabelos raros e revoltos sobre a testa vasta e luzidia.» José Rodrigues Miguéis, Páscoa Feliz (1932)

«"Lembre-se do que lhe disse, Austin, todas as infâncias são estranhas, o que equivale a dizer que nenhuma delas o é."» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)

12 sinfonias: 10. Mahler, SINFONIA #1 (1889) - IV. Stürmisch bewegt

quinta-feira, janeiro 10, 2019

vozes da biblioteca

«Na curta viagem do comboio suburbano, escutando a nossa conversa, a menina, que não teria dez anos e veio a morrer de tuberculose tempos depois, fitava-me sem falar, com uma expressão de angústia infantil nos grandes olhos claros, ao mesmo tempo que em vão puxava para baixo, nos joelhos friorentos, a barra do vestidinho demasiado curto.» José Rodrigues Miguéis, Uma Flor na Campa de Raul Proença (1979) [1985]

«O António Pedro, um bocado na senda do Dalí, garantia ter recordações do útero materno.» Alexandre Babo, Recordações de um Caminheiro (1993)

«Uma mão que se apertou, umas palavras que se trocaram, uma amizade que aflorou, aqui, ali, a norte, a sul, neste país, neste e naquele continente, para cá e para lá dos oceanos.» Ferreira de Castro, «Delfim Guimarães» (1934) [1996]

50 discos: 14. LIVE AT LEEDS (1970) - #6 «Substitute»



vozes da biblioteca

«Depois aproximou-se do soldado ferido deitado no chão, com um dos pés transformado numa bola de massa onde se misturavam o coiro preto da bota, a terra castanha empapada em sangue e donde emergiam tendões brancos desligados dos ossos.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«Encostando o ombro a uma esquina do velho Teatro Nacional, onde tantas vezes fora aplaudido e ovacionado, pôs-se a ouvir o movimento surdo e enrolado da cidade.» João de Melo, Lugar Caído no Crepúsculo (2014)

«O escritório do Medeiros, director da Comarca, era escuro e desconfortável; uma vulgar secretária de pinho, dois ou três cadeirões com almofadas de palha, um quebra-luz de missanga na lâmpada do tecto e montes de jornais aos cantos; cheirava a pó como num caminho de estio.» Carlos de Oliveira, Uma Abelha na Chuva (1953)

quarta-feira, janeiro 09, 2019

a prepotência com falinhas mansas

A história, verdadeira, dos 50 anos para decidir da construção de um novo aeroporto dá imenso jeito para justificar uma solução mal amanhada, isto é, de recurso. Esperar meio século por um remendo é demasiado mau. Mais valia esperar 52, e fazer o que nunca se fez: estudar, primeiro; decidir depois. Deixo de lado todas as questões em torno da solução Montijo, nem volto a falar de Beja, embora gostasse de ter sabido da sua ponderação, e nem sequer percebo como se põe de lado um aeroporto às moscas, a quarenta minutos de Lisboa, se tanto, em comboio de alta velocidade. Nem a continuação, e alargamento, do aeroporto no centro da cidade, quando o que se devia fazer era tirá-lo de lá.
O que me aborrece, desgosta e enfurece é o desrespeito pelas populações, de que falou João Joanaz de Melo, ao celebrar-se um protocolo para um aeroporto no Montijo sem a conclusão do estudo de impacto ambiental: é uma prepotência com falinhas mansas, e no fundo antidemocrática.
Um filme, aliás, que já vimos: eu tinha uma razoável opinião sobre António Costa, até ao lamentável caso do Infarmed. (Quer dizer, ela já tinha vindo a mudar, com seu comportamento toca-e-foge em relação a António José Seguro ou o calculismo um bocado impudico na questão Sócrates.)
O filme é portanto o mesmo: ideias generosas, desenvolvimento sustentável, descentralização  e outras patranhas que se lêem aos meninos para dormir, mas no fim o que é preciso é facturar politicamente. Um artista, como dizia o outro, que Deus tem -- e que, por acaso, das poucas decisões decentes que tomou durante os seus dois penosos mandatos foi a liquidação do aeroporto na Ota, já decidido pelo governo de então e potencialmente catastrófico, como explicou na altura um piloto da TAP no «Prós & Contras» a um país atónito -- atónito por descobrir-se governado por irresponsáveis, chega-se à conclusão. Para mim, Costa politicamente, e em condições normais, já está há muito que está riscado: se é assim, sem maioria, como seria (ou será) com ela?

terça-feira, janeiro 08, 2019

estampa CCCXLVIII - Júlio Resende


Retrato de Marta Maria (1954)

vozes da biblioteca

«Cada dia / promete o infinito em meia dúzia / de palavras -- o amor, / a vida, o tempo, a morte, a esperança, / o coração.» Fernando Pinto do Amaral, «Palavras», Pena Suspensa (2004)

«Não sabiam, / porque viviam no centro do seu tempo, / e o centro do tempo não sabe nunca o que lhe irá ser percurso, / como um rio que corre não conhece a sua foz, / só as margens por que passa e o iluminam, ou ensombram.» Ana Luísa Amaral, «Entre mitos: ou parábola», Escuro (2014)

«sim, Ana / morreremos loucos / mas / esta noite / dormiremos / juntos» Ademir Assunção, «5 dias para morrer», Na Virada do Século -- Poesia de Invenção no Brasil (2002) (edição de Claudio Daniel e Frederico Barbosa)

«Welcome To The Jungle»

domingo, janeiro 06, 2019

vozes da biblioteca

«Domingos José Correia Botelho de Mesquita e Meneses, fidalgo de linhagem e um dos mais antigos solarengos de Vila Real de Trás-os-Montes, era em 1779, juiz de fora em Cascais, e nesse mesmo ano casara com uma dama do paço, D. Rita Teresa Margarida Preciosa da Veiga Caldeirão Castelo Branco, filha dum capitão de cavalos, neta de outro, António de Azevedo Castelo Branco Pereira da Silva, tão notável por sua jerarquia, como por um, naquele tempo, precioso livro acerca da Arte da Guerra.» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)

«Era, agora, mesmo mais difícil do que ficar indiferente àquela água que o céu despejava, torrencial, e que não seria suficiente para lavar-lhe a consciência maculada.» José de Matos-Cruz, Os Entre-Tantos (2003)

«No dia em que saí de casa, pondo fim a uma vida em comum de oito anos,, encontrei no caixote do lixo o exemplar de Os Versos do Capitão, de Pablo Neruda, que há muito tempo, apaixonado e previsível, oferecera a Sara.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2013)

12 sinfonias: 9. Dvorák, SINFONIA #8 (1890) - IV. Allegro ma non troppo

mérdia 1, mérdia 2 e mérdia 3


mérdia 1: Vi hoje uma notícia de grande significado numa zona da Europa em que estamos política e militarmente envolvidos, e muito mal, diga-se. Trata-se da quebra do vínculo secular entre a igreja ortodoxa ucraniana e a russa, deixando aquela de estar sob a influência patriarca de Moscovo para passar à alçada do de Constantinopla. A cerimónia, de enorme importância a todos os níveis, teve lugar em Istambul, com a presença, e discurso, do presidente da Ucrânia.
Escusado será dizer que vi esta notícia na BBC e não na RTP, que prefere ocupar o espaço com três mortos num incêndio doméstico em Barcelona. A indigência dos telejornais da RTP não difere, na substância, das dos outros canais. É mais contida, mas paupérrima, e nem é preciso, para atestá-lo, haver um pivot que nos pisca o olho e locuta as notícias como se estivesse a falar para criancinhas. Ou para atrasados mentais.

mérdia 2: O episódio da tvi, do Goucha e do nazi. Nem merece comentários adicionais. Vale tudo, como se sabe. No outro dia falei da sic, a propósito doutra coisa; agora são os espertalhões da tvi. É muito cansativo perder tempo com estas porcarias, mas, que diabo, é preciso chamar nomes a estes bois. Vi aqui que um membro do governo se indignou, e bem. Mas não chega a indignação, há que apertar com eles -- e quando escrevo eles, ainda não me estou a referir à meia dúzia de nazis que por cá refocilam, embora, em nome da higiene pública, devam andar devidamente açaimados e com idas periódicas ao veterinário. Refiro-me a esta corja das televisões, que há anos transformam em pocilgas o espaço público. É claro que não vão fazer nada. A ERC para nada serve, e foi para isso mesmo que foi criada, nem querem arranjar chatices, eles ou quem os tutela.
Ameaçá-los de lhes revogar as licenças de emissão e de não lhes renovar a concessão, seria preciso que na cúpula do Estado democrático houvesse estadistas, mas o que mais há é artistas. E não digo isto especialmente por causa do nazi, que é uma mera decorrência da selvajaria em que se tornou o espaço merdiático.

mérdia 3: passaram cem anos sobre o nascimento de Eduardo Teixeira Coelho. Não fora o JN, e a data teria passado em branco na imprensa. Felizmente, há blogues.

sábado, janeiro 05, 2019

vozes da biblioteca

«No ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescente virgem.» Gabriel García Márquez, Memória das Minhas Putas Tristes (2004) (trad. Maria do Carmo Abreu)

«O eterno retorno é uma ideia misteriosa de Nietzsche que, com ela, conseguiu dificultar a vida a não poucos filósofos: pensar que, um dia, tudo o que se viveu se há-de repetir outra vez e que essa repetição se há-de repetir ainda uma e outra vez, até ao infinito!» Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser (1983) (trad. Joana Varela)

«Sim, meu amigo, tu tens por certo razão, os homens teriam pesares menos agudos se... (Deus sabe porque eles são feitos assim...), se concentrassem toda a força da sua imaginação em renovar sem cessar a lembrança dos seus males, em vez de tornarem o presente suportável.»  J. W. Goethe, Werther (1774) (trad. João Barreira)

12 sinfonias: 8. Tchaikovsky, SINFONIA #4 (1878) - IV. Finale. Allegro con fuoco

criadores & criatura

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Jean-Michel Charlier, Jean Giraud (Moebius) e Blueberry

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sexta-feira, janeiro 04, 2019

a minha cadela Bolota, a crise do Benfica e a pança da sic-notícias

Maravilhoso passeio que dei ontem com a Bolota, a minha cadela, já perto da meia-noite. Um frio de entrar pelos ossos adentro, nevoeiro e uma humidade marítima de enregelar. Ela é que beneficiou da bandalheira que grassa por esses canais de televisão, alegadamente de notícias. Como a «Quadratura do Círculo» nunca mais começava, apesar de anunciado, porque os toscos que dirigem o canal preferiram continuar a ruminação do momentoso problema da saída do Rui Vitória do SLB -- um mastigar que vinha já da noite anterior, em que o programa do Gomes Ferreira, salvo erro director-adjunto de informação daquela chafarica pretensiosa, também saltara, apesar de igualmente anunciado -- (como nunca mais começava a «Quadratura») andei a fazer zapping pelos canais internacionais, detive-me um pouco na Euronews e, em seguida, na TPA, onde fiquei a saber dos problemas na área da saúde em Malange. Depois, aventurei-me no frio com a cadela.
Diante deste pobre espectáculo de ausência de brio, de critério e de respeito pelos espectadores como pelos seus próprios colaboradores, ocorre-me perguntar: 1) para que serve a ERC?; 2) como não foi a primeira, nem a segunda nem a terceira, nem... que a sic-notícias se borrifa em Pacheco Pereira, Lobo Xavier e Jorge Coelho, até quando estão eles dispostos a aturar este tratamento, que nem classifico?

quinta-feira, janeiro 03, 2019

vozes da biblioteca

«Ao tempo da sua partida, quando os pais o foram despedir a bordo da galera América, ele era um minhoto atarracado, de largos ombros, biceps de atleta, tórax saliente, e o pescoço curto e grosso, como o dos valentes bois do Barroso.» Luís de Magalhães, O Brasileiro Soares (1886)

«E, pelos rasgões do chambre, um seio branco, rechonchudo, com mais vergonha que se o Padre Santo António lhe publicasse os segredos, mostrava o mamilo, tão rubro, tão jucundo como o morango primeiro que pinta no morangal.» Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)

«Não mais o frio das noites frias, a esteira, no chão, a fazer de cama para ela e para os irmãos, "cobertas de farrapos" a cobrirem-nos, por mantas quentes os jornais que a mãe estendia entre coberta e coberta: dispunha, agora e para sempre, de um leito nupcial, de príncipes, almofadas e almofadões a adornarem-no.» Assis Esperança, Servidão (1946)

50 discos: 22. BURNIN' (1973) - #6 «Small Axe»



o problema índio e a insolência intelectual

Embora a política do Bolsonaro seja de temer (de Temer?...), estou na generalidade de acordo com o que escreve Luís Teixeira no Observador, no que respeita ao relativismo cultural, que a propósito de bons sentimentos (preservação cultural e étnica) acaba por ter uma atitude paternalista em relação aos povos indígenas.
Sou, aliás, particularmente sensível à indesejável subsunção do indivíduo a uma categoria grupal, seja étnica, política, religiosa, sexual.
Fui espreitar a página da FUNAI. O jargão usado é assustador, entre outras coisas, pelo irrealismo. Leia-se a pérola:
«A Funai entende que conhecer as regras de organização, de conduta, os pontos de vistas, valores, anseios e o tipo de relação que os povos indígenas querem estabelecer com a sociedade nacional é o primeiro passo para uma relação respeitosa e, consequentemente, para a elaboração de leis e para a implementação de políticas que atendam à construção de um Estado verdadeiramente pluriétnico.»

"A FUNAI entende"... A FUNAI é um mero organismo estatal, e não tem que entender nada. É a Constituição do estado de direito democrático que entende, e, em obediência à lei fundamental, o governo democraticamente empossado. O resto é paternalismo puro -- para não dizer racismo --  e inútil. Ter a veleidade de achar que os povos indígenas podem ser «preservados», não só é duma insolência intelectual abominável, como totalmente inexequível no mundo contemporâneo.

A pergunta é (deveria ser) esta: quem sou eu (quem és tu), para determinar que uma comunidade tem de estar afastada de outra para não ser contaminada? O quê ou quem te investiu nessa prerrogativa? Por que razão devo considerar-te outra coisa (uma cobaia), que não um ser humano por inteiro, e se pertenceres a uma comunidade com determinadas práticas a ética e o bom senso considerem nocivas, se o teu povo pratica a excisão genital, a decapitação dos inimigos, a menorização da mulher a todos os níveis ou a predação do planeta em nome de um alegado crescimento económico insustentável -- quem sou eu, quem és tu, para dizer que, como integras um povo com uma mundividência própria, estás autorizado a que as tuas meninas sejam sujeitas à ablação do clitóris, que os teus inimigos sejam torturados, mortos e desfigurados, que as mulheres do teu povo tenham de estar em sociedade parcial ou totalmente veladas, que podes continuar a delapidar o planeta em nome do crescimento económico, do bem-estar de curto prazo, do contentamento dos mercados, pois a tua índole é a da livre iniciativa

Podíamos prosseguir a análise do parágrafo, até acabar com os votos pios de «um Estado verdadeiramente pluriétnico», o que com os pressupostos anteriores qualquer um vê que tal é irrealizável. A não ser que pretendamos acabar com o Estado (não parece ser o caso da FUNAI), e aí já seria outra a conversa.

Um bocado menos de ideologia de conserva e emprenhada pelos ouvidos e um pouco mais de bom senso e inteligência indicaria que a melhor forma de as sociedades preservarem as suas identidades é estarem munidas de todos os instrumentos que têm ao seu dispor para se defenderem -- pois que correm perigos evidentes, decorrentes da cupidez capitalista --, como certo líder activista índio que vi há tempos, com o seu telefone satélite.  O resto é para atirar ao caixote do lixo da História.

quarta-feira, janeiro 02, 2019

vozes da biblioteca

«Cuido não andar longe da verdade se afirmar que a minha Aventura Poética começou aí por volta de 1908, tinha eu os meus oito anos, no dia em que reparei (ou procedi como se reparasse) na existência das palavras, extraídas da vaza da algaraviada comum por homens estranhos, incumbidos da missão especial de dizerem o que mais ninguém ousava.» José Gomes Ferreira, A Memória das Palavras I ou o Gosto de Falar de Mim (1965)

«Mesmo antes de despertar -- um sonho me alvissarou que era hoje; um sonho em contorções e desesperos de pesadelos; seringas que se quebravam nas mãos, agulhas que me fugiam por entre os dedos, frascos de droga que se esvaziavam, por diabólico ilusionismo -- no próprio instante da picada.» Reinaldo Ferreira (Repórter X), Memórias dum Ex-Morfinómano (1933)

«Sentei-me a uma das carteiras e, não tendo coragem de levantar os olhos, fixei-os no abecedário, que crescia e se deformava constantemente.» Ferreira de Castro, «[Memórias inéditas»] (1931)

o mistério Bolsonaro

Como todos os portugueses, e talvez muitos brasileiros, só ouvi falar no Bolsonaro quando o homem produziu aquela lamentável declaração de voto nesse mau carnaval que foi o golpe de destituição da Dilma Rousseff, aliás uma mácula que o acompanhará sempre, pelo menos enquanto não se retratar. Algo, já agora, pelo qual a sua mui cristã mulher, Michelle Bolsonaro -- com uma certa piada, devo dizê-lo com frontalidade -- deveria velar, pois duvido que o Senhor Jesus tenha achado graça à tirada. A alma em risco.
O grande mistério Bolsonaro, para mim, que vejo de fora, não é a sua eleição -- quem já viu Trump, viu tudo --, mas a sobrevivência política durante quase trinta anos dum gajo que, pelos vistos, não fazia nada no parlamento, inscrito num partidículo cujo nome ainda não consegui fixar.
(Saltar daqui para a incompetência das esquerdas, que parece ter sido vasta, é outro assunto.)

terça-feira, janeiro 01, 2019