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quinta-feira, outubro 02, 2014

ainda a algibeira da avó Francisca

«Noutra divisão da prodigiosa algibeira, cabiam as deliciosas línguas-de-gato, biscoitos de Valongo, rosquilhos de Lousada, que nos tornavam mais lambões que obedientes, petisqueiros de tantas guloseimas, havendo de acrescentar-lhes, para nosso regalo, os ladrilhos de marmelada, copinhos de geleia e o arroz doce guardados no armário da copa, travessa de aletria nos domigos, com dois corações pintados a canela que a Joaquina cozinheira garantia serem da avó Francisca carolina e do neto João Maria!»

João Sarmento Pimentel, Memórias do Capitão (1967)

terça-feira, setembro 30, 2014

da bolsa da avó Francisca

«Por baixo da grande saia rodada, a avó Francisca prendia uma enorme algibeira, da qual tirava as coisas mais incríveis: a caixinha de prata do simonte, o branco lenço de linho para assoar, que o tabaqueiro era vermelho, de meio côvado, e com ramagens, metido na cintura sob o avental; um molho de chaves pequenas e vários tamanhos para as gavetas do toucador, dos armários das cómodas; o rosário de caroços de azeitona das oliveiras que deram sombra ao meigo e triste Nazareno, e seu crucifixo de metal amarelo, que o Reitor do Ermeiro lhe trouxe da Terra Santa e foi benzido pelo Patriarca de Jerusalém; a bolsinha de malha de prata para os tostões e as outras moedas de valor, um saquitel de pano com os trocos de cobre e a chave dourada do oratório D. João V que tinha um Cristo de marfim, muita da devoção da mãe da avó Francisca e ao qual a piedosa senhora fizera a promessa de lâmpada perpétua por o marido voltar são e escorreito das guerras do Napoleão.»

João Sarmento Pimentel, Memórias do Capitão (1967)

terça-feira, setembro 23, 2014

para caber onde ia

«Ao recordar acontecimentos daquela época tão distante, ainda hoje desfila diante de mim a figura paquidérmica do pai do velho Joaquim Cardoso, marmeleiro na mão esquerda, quinzena desabotoada, e as abas largas a abanar, braço direito estendido e a mão espalmada, no gesto de arredar meio mundo para caber onde ia.»

João Sarmento Pimentel, Memórias do Capitão (1962)