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quinta-feira, março 28, 2024

caracteres móveis

«As pálpebras arregaladas, a pele crispada da cara, as sobrancelhas de repente revoltas, tudo isso, qualquer o pode verificar, é que se descompôs pela angústia.» José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira (1996)

«Sobressaltada e deixando a visita com a chávena entre o pires e o lábio peludo, D. Mariana galgou corredor e salas, angustiada por ruim pressentimento.» Álvaro Guerra, Café República (1982)

«Trazia os olhos baixos, a boca travada de ira.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

quarta-feira, janeiro 18, 2023

a arte de começar

 «Até àquele dia de Junho de 1914 nunca fora pronunciado, em Vila Velha e no seu Concelho, o nome de Sarajevo. Em todo o país, aliás, os dedos da mão chegavam para contar aqueles que sabiam da existência de Sarajevo e onde era. Mesmo assim, o dr. Teófilo de Oliveira, notário, e autoproclamada testemunha omnisciente da história contemporânea e dos meandros da heráldica dos duques de Vila Velha, não resistiu a situar, com inesperado acerto, Sarajevo nos Balcãs, ao profetizar em pleno Café República as graves consequências do assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando da Áustria.» Álvaro Guerra (1936-2002), Café República (1982)

sexta-feira, janeiro 13, 2023

gritos na noite, e outros caracteres móveis

 «De grito a grito, tudo ficava morto em silêncio.» Castro Soromenho, Terra Morta (1949)

«Educado na crença viva daqueles tempos; naturalmente religioso porque poeta, foi procurar abrigo e consolações em Aquele cujos braços estão abertos para receber o desgraçado que neles vai buscar o derradeiro refúgio.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)

«Subitamente, um estrondo ecoou nas traseiras da Casa Grande, para as bandas do pátio onde ficava a cavalariça e se arrumava o FordÁlvaro Guerra, Café República (1982)

sábado, novembro 26, 2022

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«Como centro do mundo, Vila Velha era um lugar relativamente abrigado das contingências e caprichos da História.» Álvaro Guerra, Café República (1983)

«De súbito o chefe apitava, a locomotiva respondia, os carregadores batiam uma continência marcial e o comboio arrancava, inclinava-se a fazer a curva, desaparecia entre os taludes.» J. Rentes de CarvalhoA Amante Holandesa (2003)

«A labareda gigante da siderurgia lá longe na Outra Banda e ali à mão rolas a arrolhar de papo em beirais pombalinos e gatos narcisos a lamberem-se ao sol.» José Cardoso Pires, Balada da Praia dos Cães (1982)

sexta-feira, novembro 25, 2022

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«Elias, com lume brando e desencanto que baste, aquece o leite da manhã.» José Cardoso Pires, Balada da Praia dos Cães (1982)

«Como dizia D. António Lencastre, o nobre lavrador da Quinta das Toupeiras, quando do alto da milorde parada à porta do café, ao sábado à tarde, debitava pródigas e audazes verdades, republicanos, em Vila Velha, havia três, um barbeiro, um judeu e um estafeta, quando muito quatro, contando com o Praga de Mãe, "que nem é homem nem mulher".» Álvaro Guerra, Café Central (1983)

«Da linha do comboio de via estreita, abandonada, ficaram os carris a marcar a presença, e um ou outro poste, donde pendem os fios do telégrafo.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)

quinta-feira, novembro 24, 2022

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«Aqui e além bocados de vinha, casebres perdidos, rochedos cobertos de musgo, aldeias tão longínquas que são apenas manchas brancas na paisagem.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)

«Cozinha, pia de pedra e janela para as traseiras onde há varandas com pombais e roupa estendida a secar; vasos e caixotes de flores nas janelas, ervas selvagens a crescerem nos telhados por onde passeia a rataria, antenas de televisão.» José Cardoso Pires, Balada da Paia dos Cães (1982)

«Embora se conhecessem os seus dedicados serviços à monarquia apeada em 1910, ninguém contestava a autodefinição que ele apregoava, depois do advento da República: "Nem monárquico, nem republicano -- homem de bem ao serviço da coisa pública."» Álvaro Guerra, Café República (1984)

quarta-feira, novembro 23, 2022

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 «Muito seu continua o jeito de como ao falar cerra os olhos em duas fendas chinesas, antes risonhas, agora insondáveis.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)

«O primeiro grande massacre do século ia começar mas, em Vila Velha e em muitos outros lugares, ninguém sabia de nada.» Álvaro Guerra, Café República (1984)

«Viu no fundo duma cova uma conspiração de cães à volta do cadáver dum homem; alguns saltaram para o lado assim que ele apareceu mas logo retomaram a presa; outros nem isso, estavam tão apostados na sua tarefa que se abocanhavam entre eles por cima do corpo do morto.» José Cardoso Pires, Balada da Praia dos Cães (1982)

segunda-feira, abril 29, 2019

vozes da biblioteca

«Até àquele dia de Junho de 1914 nunca fora pronunciado, em Vila Velha e no seu Concelho, o nome de Serajevo.» Álvaro Guerra, Café República (1984)

«Até hoje, e já lá vão muitos anos, nunca vi o mar, embora dele tenha ouvido contar muitas histórias, e, não sei porquê, parece-me que o conheço todo só por causa daquela fotografia.» Alves Redol, Fanga (1943)

«No seu entusiasmo, Lucinda inclinara-se, com o peito muito branco na abertura do roupão.» Francisco Costa, Cárcere Invisível (1949)

segunda-feira, março 19, 2018

estou a ler


quinta-feira, outubro 29, 2015

conversa de notário da União Nacional

«A manha do "Manholas"... Programa para mais três décadas. Com Vila Velha agradecida por ter sido salva das bombas. Aliadas? Alemãs? O notário Teófilo de Oliveira considerava, a posteriori, tal eventualidade como "bombas antiportuguesas». Para facilitar.»

Álvaro Guerra, Café Central (1984)

terça-feira, outubro 13, 2015

três longos dias

«De resto, tudo chegava tarde a Vila Velha. As notícias, também. Desde o momento em que Gavrilo Prinzip desfechou a pistola nos peitos nobres do herdeiro do Império Austro-Húngaro e da duquesa Sofia até que o Dr. Teófilo de Oliveira desdobrasse, com idêntico dramatismo, a gazeta chegada da capital, à mesa do Café República, decorreram três longos dias durante os quais os mortos se contaram apenas nas fileiras dos nacionalistas sérvios.»

Álvaro Guerra, Café República (1984)

segunda-feira, março 16, 2015

1 parágrafo

«Quando esgotou o stock de feltros e a paciência, o chapeleiro Augusto Fernandes fechou calmamente a porta do estabelecimento onde passara a maior parte dos seus 64 anos e foi instalar-se em casa do genro José Castro, o Século, onde comia discretamente por três, bastando os dedos de uma só mão para contar as palavras que proferia diariamente.»

Álvaro Guerra, Café Central (1984) 

sexta-feira, agosto 01, 2014

um directo no futuro

«Depois de correr os taipais, olhou o cartaz encaixilhado onde Santa Camarão esboçava um upercut  decisivo que era já uma recordação. Subiu a guarda, arqueou o tronco, ligeiro de pés, aplicou uma finta a duas mesas e acertou um directo no futuro.»

Álvaro Guerra, Café Central (1984)