sexta-feira, dezembro 31, 2021

diário de leitura

«Da capital da Andaluzia os jardins maravilhosos, prenhes de perfumes intensos, de lagos adormecidos, de rosas, de gerânios e de cravos, desabrochando em orgias de cor, interessavam mais à minha alma do que o espectáculo bárbaro do homem a defrontar-se com o touro, naquela tarde quente, mórbida e sensual de Junho.» 

Ferreira de Castro, «A morte do touro» (A Batalha, 16-VI-1924), in Contra as Touradas, edição de Luís Garcia e Silva

Numa delegação de jornalistas portugueses a Sevilha, convenceram-no a assistir, para depois poder falar. Por aqui se vê com que vontade.


música para salvar a Terra: «Canção pra Amazônia»

música para salvar o ano - #6 -«The Lydiot» (Orquestra Jazz de Matosinhos)

quinta-feira, dezembro 30, 2021

diário de leitura

«Da marinhagem e singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza, porque o não saberei fazer, e os pilotos devem ter esse cuidado. Portanto, Senhor, do que hei-de falar começo e digo:» 

Pero Vaz de Caminha, Carta a D. Manuel I (1500)

Uma absoluta clareza de expressão e lugar, cada macaco no seu galho, conforme faz saber ao rei. A mesma clareza, assertividade e economia que permitiu que este relatório de um obscuro escrivão se tornasse num dos maiores e mais importantes textos da história da cultura portuguesa, e que esteja ainda vivíssimo.

música para salvar o ano - #5. «Portas» (Marisa Monte)

música para salvar o ano - #4. «Passo Forte» (SAL)

quarta-feira, dezembro 29, 2021

a arte de começar

«Um dia, numa floresta, ao entardecer, quando por sobre as frondes ressoavam as buzinas dos porqueiros, e lentamente na copa alta dos carvalhos se calavam as gralhas, um lenhador, um servo, de surrão de estamenha, que rijamente trabalhara no souto desde o cantar da calhandra, prendeu a machada ao cinto de couro, e, com a sua égua carregada de lenha, recolheu pelos caminhos da aldeia, ao castelo do seu Senhor.» Eça de Queirós (1845-1900), S. Cristóvão (póstumo, 1912)

música para salvar o ano - #3 «Déjà Vu» (Miguel Ângelo)

terça-feira, dezembro 28, 2021

as vantagens de haver Putin na geopolítica global -- ou o que pode esperar a Ucrânia: análise e palpite

 Em primeiro lugar, a racionalidade: alguém que mede as consequências dos seus actos e percebe quem está do outro lado: um espertalhaço como Trump ou um caquético meio tonto como Biden, manobrado pelo (ou integrado no) complexo militar industrial dos Estados Unidos -- que crédito pode merecer alguém que alinhou na invasão do Iraque, embarcando com o simplório W. e com infame Cheney e restante quadrilha?

Depois, um efectivo poder militar que não hesita em usar quando sente a Rússia ameaçada. Ele foi claríssimo e incisivo quando exigiu a NATO ao largo das fronteiras -- a Ucrânia -- a partir de onde um míssil levará três minutos a chegar a Moscovo. Os americanos perceberam-no bem e já mudaram o discurso, acompanhados pela Alemanha do novo chanceler, Olaf Scholz. 

A Nato na Ucrânia é uma piada de mau gosto, em que alinham os europeus amestrados, sem grande dignidade. O sec-geral da Nato, o presidente do Parlamento Europeu, enfim...

Claro que a barragem de propaganda que nos é servida maciçamente, com a cumplicidade e/ou a ignorância bovina dos media, sugestiona os incautos; embora países como os estados bálticos ou a Polónia possam ter uma compreensível sensibilidade à flor da pele, é importante que não se deixem manobrar pelos freedom fighters da Casa Branca. 

Qualquer um que tenha um bocado de conhecimento das tensões leste-oeste da Guerra Fria quando se pronuncia o nome Finlândia sabe o que significa  o conceito de soberania limitada. É o que a Ucrânia deverá querer, para seu próprio bem. Não havendo bom senso -- e vamos acreditar que nenhuma III (e última) Guerra Mundial começará por causa da Ucrânia -- não havendo bom senso, será o fim do país, uma parte tomada pelos russos, a outra parte como república fantoche dos americanos.

"Leitor de BD"

«Leituras de 2021»

 

sexta-feira, dezembro 24, 2021

Feliz Natal!

Marge

 

quarta-feira, dezembro 22, 2021

«Leitor de BD»



Tu És a Mulher da  Minha Vida, Ela a Mulher dos Meus Sonhos, de Pedro Brito e João Fazenda

 aqui

«Cradle Rock»

segunda-feira, dezembro 20, 2021

caracteres móveis

«Era a hora mais custosa de suportar, hora em que a tristeza do dia agonizante inundava de melancolia a própria alma das coisas em redor, quanto mais a sua alma enfraquecida pela longa reclusão.» Joaquim Paço d'Arcos, Ana Paula (1938).

«Lá fora fazia uma luz triste, coada através das nuvens pardacentas que alagavam o céu-» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1942)

«Num espelho ao lado, havia uma fotografia obscena de qualquer estrela decaída.» José Régio, Jogo da Cabra Cega (1934)

quadrinhos


 

sábado, dezembro 18, 2021

Vamos então admitir que Navalny é um activista pelos direitos humanos na Rússia; e o que são Assange e Snowden? (ou um Parlamento Europeu sem dignidade)

 Talvez influenciados por esses extraordinários democratas e combatentes pela liberdade -- desde o tempo das Repúblicas das Bananas da América Central ao glorioso derrube de Saddam -- outro marco na história da democracia, dos direitos humanos e da decência, já gora -- o Parlamento Europeu juntou-se à ofensiva anti-russa levada a cabo pelos Estados Unidos, com os estados-marionetes atrelados.

Ninguém sabe o que é Navalny, só o próprio ou pouco mais. Por mim, suspeito que seja um agente da CIA; mas dou-lhe o benefício da dúvida. O problema aqui não é Navalny mas o Parlamento Europeu que se presta a a fazer uma figura miserável, com a agravante de ser tolerante com a perseguição desumana que estão a fazer a Assange -- alguém a quem objectivamente todos devemos muito. E não falo no fantástico Edward Snowden, que se refugiou num dos raros países em que podia estar a salvo de uma condenação pesadíssima. Falar em Snowden é tabu para estes tipos sem nenhuma dimensão política.

A vergonha. Sou europeísta, sempre fui, e não sou dos que, contestando determinadas orientações políticas, pretendem deitar fora o bebé com a água do banho. Portanto, o meu sentimento de ultraje é grande, não apenas pelo facto de a UE e o PE se comportarem como paus-mandados dos interesses americanos, mas também pela cumplicidade que têm demonstrado no caso Assange.

quinta-feira, dezembro 16, 2021

"A situação exige mais pergúntaaaaas!..."


«A Arte de Ser Português», por Alberto Pimenta
RTP, 1979 - realização de Jorge Listopad

terça-feira, dezembro 14, 2021

«Leitor de BD»

 



O Burlão nas Índias, por Ayroles e Guarnido 

aqui

portugueses


JOSÉ EDUARDO de Lima PINTO DA COSTA 

 

domingo, dezembro 12, 2021

na estante definitiva


Nas «Lendas de Santos» de Eça de Queirós (Últimas Páginas, 1912, edição póstuma organizada por Luís de Magalhães), biografias ficcionadas de santos. «São Cristóvão», aliás o único que o escritor concluiu, é um dos textos queirosianos que prefiro. Numa imprecisa Idade Média, aparentemente francesa, Cristóvão é um ser disforme (um gigante) e simples, cheio de amor para dar; amor forjado no conhecimento da incrível história do Menino-Deus, que por amor virá a morrer na cruz ("Cristóvão", o que tem Cristo em si...). De tal forma Cristóvão é possuído por esse amor ao semelhante, que nunca é abalado pelas inúmeras rasteiras e traições que lhe são infligidas pelos seus irmãos em humanidade; o mesmo amor e coração puro que, não suportando a miséria o leva a chefiar  jacqueries... Eça mantinha bem viva a leitura do seu Proudhon. Da narrativa desprende-se  um ambiente benfazejo e etéreo, no meio de guerra e de opressão do forte em relação ao fraco (a mesma atmosfera que se evola do magnífico «O Suave Milagre», trazendo-me à memória, por essa mesma atmosfera miraculosa do indizível «O Gigante Egoísta», do Oscar Wilde). 
Em Eça sempre adorei a sua paixão pela História e a forma simultaneamente séria e lúdica com que lhe pegava. «Santo Onofre» é um dos padres do deserto, indivíduos que fugiam do mundo para encontrar Deus através da oração e da renúncia, sujeitando-se a todas as solicitações do Demónio, que mais não eram do que alucinações provocadas pela carência física e psicológica de tudo... Talvez o menos conseguido.
«S. Frei Gil», cujo plano da obra chegou até nós, poderia ser uma das grandes narrativas queirosianas, provavelmente abandonada (e isto é um palpite; precisaria de verificar cronologias) pelo felizmente concluído A Cidade e as Serras. Várias vezes me veio à memória a dispersão e a inconsistência do Jacinto de A Cidade e as Serras, ou mesmo de Gonçalo Mendes Ramires. Em todo o caso, ficamos com pena do corte abrupto da narrativa quando o volúvel Gil a caminho de Paris, na companhia do escudeiro Pêro, para estudar Medicina, é desviado do intento por um misterioso cavaleiro...
O segundo bloco desta Últimas Páginas, consiste num conjunto de «Artigos Diversos», textos todos de primeira água, em que avulta o também incompleto «O "Francesismo"», um magnífico ensaio de irónica autobiografia cultural.
Eça é sempre Eça. Imortal. 



o sentido de humor do director da PJ

 Creio que foi sexta-feira ao almoço que vi no restaurante umas imagens do director da PJ, Luís Neves, a propósito do foragido Rendeiro. Segundo o que consegui então ler, dizia que o homem seria apanhado e que a PJ tinha tempo e paciência para levar a cabo a sua missão. Sábado acordei com a notícia da detenção do dito na África do Sul. Portanto, enquanto estava a proferir aquelas declarações, já tinha  o homem localizado e controlado pela polícia sul-africana. É de mestre. E revela também um bom e saudável sentido de humor.

sábado, dezembro 11, 2021

quinta-feira, dezembro 09, 2021

cimeira para a democracia

 Sorriso amargo e vergonha alheia.

«Leitor de BD»

 


Macho-Alfa, vol 1, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina

aqui

«Lucifer»

quarta-feira, dezembro 08, 2021

a cimeira Biden-Putin -- quem anda a fazer o Telejornal?

 Eu bem sei que isto da Ucrânia é a fingir. Ou melhor, é muito sério para os russos: para os americanos é business as usual. Não sei se o pivô do Telejornal tem noção do trabalho de merda que apresentou ontem. Talvez até tenha noção, e não queira saber; ou talvez não saiba mesmo. 

Não sei quem foi o responsável por aquela peça nada inocente. Vale a pena ir à box, seleccionar o Telejornal de ontem e, mais para o fim, ver com atenção. Trata-se da cimeira Biden-Putin, e a notícia reza mais ou menos assim: os Estados Unidos mostram-se preocupados etc,; ameaçam com sanções económicas fortes, etc,; Biden diz que etc. Imagens do Putin sentado como um nababo, e a cara do Biden no ecrã em frente, talvez para que não se veja o sorriso de gozo. Sobre o que o Putin disse, a posição da Rússia, nem se deram ao trabalho, tal é o descaramento. Para quê, para estes brutos mansos e amestrados?

Portanto, estar lá o Adelino Faria ou a minha cadela a apresentar o Telejornal, prefiro a minha cadela.  

 

segunda-feira, dezembro 06, 2021

sábado, dezembro 04, 2021

portugueses


PEDRO GONÇALVES
(1970-2021)



 

fachos de esquerda

Parece que a palavra Natal é para desaparecer, sendo substituída por "festividades". E o que festejam as festividades? O Pai Natal? Também. E o nascimento de Cristo, igualmente, figura e acontecimento basilar da nossa civilização, sejamos crentes ou ateus. Aliás, a personagem histórica de Jesus Cristo foi sempre um ícone revolucionário para a esquerda, algo que estas caricaturas esquecem, se é que alguma vez pensaram nisso.

Mais valia que esta comissária maltesa, de cujo nome me esqueci, oriunda do Partido Trabalhista (que deve estar minado, como o PS daqui), e que parece não ter mais nada importante para fazer, se empenhasse em realçar outros aspectos culturais, inclusivamente festivos, de comunidades diversas presentes na Europa (isso sim, seria a verdadeira inclusão), em vez de procurar apagar, fazer desaparecer. Que estúpida, que estúpida.

O que esta bicharada não percebe é que a questão não está em suprimir ou apagar. Podiam aprender com os Estados Unidos, que com os seus muitos defeitos, é um exemplo para a relativização da questão religiosa, remetendo-a ao seu devido lugar, o da consciência individual. O Stálin também quis apagar a Igreja, transformando templo em garagens. Após setenta anos de comunismo totalitário, ela é hoje poderosíssima na Rússia.  Pensam estes pobres que mudando nomes fazem desaparecer a coisa.

Fachos de esquerda, feliz expressão que li não sei onde, a propósito de um assunto do mesmo género.  São os mesmos pidescos que querem reescrever os livros do Mark Twain e do Monteiro Lobato, que mandam retirar quadros dos museus porque exibem mulheres nuas, que queimam livros do Tintin Fachos de esquerda, que alimentam os fachos originais, mas mais perigosos, porque parecem ser dos nossos. Mas não são.

quinta-feira, dezembro 02, 2021

«Leitor de BD»

 

Will Eisner, Um Contrato com Deus (2)

caracteres móveis

«Vivo a minha vida como se o Mal tivesse triunfado.»

Alexandre Pinheiro Torres, «Aquele que nunca falará às aves» (1982) 

quarta-feira, dezembro 01, 2021