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sexta-feira, março 22, 2013

Julio Dinis: do amor filial


[Papá]

     Nesta ocasião em que o meu futuro se fixou, não posso deixar de me recordar do muito que devo ao Papá pelos sacrifícios feitos por mim.
     [...] Meus irmãos foram privados, não sei por que vistas providenciais, de colherem neste mundo os frutos da esmerada educação que lhes dera. Esse mesmo poder, que os sacrificou tão novos, parece ter-me reservado como que para realizar em mim a recompensa que lhe merecia a resignação do Papá.
     Alegra-me esta ideia e anima-me a acreditar que não me faltará a vida e a saúde para poder cumprir essa missão talvez providencial.
     Creia-me que tenho sentimentos para avaliar todos os seus sacrifícios e para compreender o alcance da delicadeza com que procurava não mos fazer sentir.
     Neste dia, um dos mais solenes de toda a minha vida, permita-me que cumpra com o meu primeiro dever beijando-lhe respeitosamente a mão.

[a seu pai,  informando da nomeação para a Escola Médica do Porto,
Felgueiras, 24 de Julho de 1865]

Júlio Dinis, Cartas e Esboços Literários, Porto, Livraria Civilização, 1979.
editor: Egas Moniz

quinta-feira, março 21, 2013

Camilo Castelo Branco: "o q me espanta é viver"


[Ex.mº Sn.or]

Não ha que esperar na velhice quando a mocid.e foi desbaratada, contrahindo emprestimos adiantados ás forças da vida porvindoura. Não me admiro deste esfacellamento: o q me espanta é viver.

[a Tomás Norton, S. Miguel de Ceide,  7 de Novembro de 1884]

Doze Cartas Inéditas de Camilo Castelo Branco, Lisboa, Portugália Editora, 1964.  
editor: Luís Norton

quarta-feira, março 20, 2013

Ferreira de Castro: "pratiquei um acto de solidariedade humana"


[Senhor Director]

[...] Aquilino Ribeiro e eu somos acusados de termos agredido, em romances nossos, o concelho de Montalegre.
Que eu saiba, o grande Aquilino nunca escreveu livro algum sobre aquela região e, no meu romance «Terra Fria», pratiquei um acto de solidariedade humana com o Povo de Barroso, então completamente abandonado ao seu destino. Uma solidariedade que me exigiu alguns sacrifícios, diga-se sobriamente de passagem.

[ao director do  Notícias de Chaves,  Dezembro de 1972] 

Diálogo com Ferreira de Castro, Braga, Editora Pax, 1973.
editor: Barroso da Fonte

terça-feira, março 19, 2013

Manuel Laranjeira: "só as nulidades morais se não estimam"


[Ex.mº Sr. ...]

É que nós vamos atravessando tempos difíceis, em que cada um que preze a sua honestidade sente precisão de definir a sua atitude, para não ser confundido com as biltres trivialidades que para aí fervilham. Só as nulidades morais se não estimam -- ...ou estimam-se no seu valor real, que é nenhum.

[a João de Barros,  Espinho, 3 de Maio de 1903]

cartas de Manuel Laranjeira, Lisboa, Relógio d'Água, s.d.
editor: ?

domingo, março 17, 2013

Viana da Mota: humor de compositor


[Meu caro am.º]
Ia pois escrever-lhe para ali quando a M.ª da Graça me abalou todas as minhas suposições dizendo-me que lhe «parecia» que o seu «Quartel general» -- (-- gostava que me dissessem se há também um «Quartel tenente» ou um «Quartel sargento» e se não deveríamos dizer «Direcção general das Belas Artes --) era em Coimbra.

{a Fernando Lopes-Graça,  29 de Setembro de 1942]

in Fernando Lopes-Graça, Opúsculos (3), Lisboa, Editorial caminho, 1983.
(editor: FL-G)

sábado, março 16, 2013

Ferreira de Castro: "escreva-me sobre o Algarve"


     [..., meu prezado amigo]

     Se você num momento de melancolia tiver desejo de escrever, escreva-me sobre o Algarve, as suas praias, os seus caminhos. Eu amo tanto a província que vivo nela por imaginação, vivo-a por impressões alheias, quando, como agora, não a posso viver por impressões próprias.

[a Roberto Nobre, Lisboa, 19 de Setembro de 1922]

Ferreira de Castro / Roberto Nobre, Correspondência (1922-1969), Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, 1994
editor: Ricardo António Alves

sexta-feira, março 15, 2013

Raul Brandão: "Eu gosto imenso de livros assim"


[Meu Ex.mo Amigo]

Li ontem dum fôlego o Verbo Escuro. Eu gosto imenso de livros assim, mas o seu, tão profundo e tão belo, há-de ser compreendido por poucos leitores.

[a Teixeira de Pascoais, Guimarães, 27 de Março de 1914]

Raul Brandão - Teixeira de Pascoaes, Correspondência, Lisboa, Quetzal Editores, 1994
editores: António Mateus Vilhena e Maria Emília Marques Mano

quinta-feira, março 14, 2013

Alexandre Cabral: "tosca prosa prolixa"


[Exm.º Sr. ...]

     Não tem esta por fim dirigir a V. Ex.ª palavras aduladoras que o v/ espírito consistente e desempoeirado rejeita, nem tão-pouco patentear-lhe novamente a minha admiração pelo vosso talento, que no citado artiguelho em tosca prosa prolixa ficou bem impressa.

[a Ferreira de Castro,  Lisboa, 30 de Novembro de 1936, 
enviando um artigo sobre a sua obra]

Cartas de Alexandre Cabral para Ferreira de Castro, separata de Vária Escrita #6, Sintra, Câmara Municipal, 1999.
editor: Ricardo António Alves

quarta-feira, março 13, 2013

Oliveira Martins: "vibrei"


[Meu querido...]

     Vibrei, certamente, vibrei todo o dia hontem, lendo a sua primorosa obra. V. fez um milagre.

[a Luciano Cordeiro, 1894
referência às  Cartas, de atribuídas a Mariana Alcoforado]

in Soror Mariana Alcoforado, Cartas de Amor -- Ao Cavaleiro de Chamilly [1894], Porto, Editora Ausência, 2002.
editor: Luciano Cordeiro

Jaime Brasil: "o último dos últimos"


[Meus caros...]

A mim q. tão afastado ando dos cenáculos literários e q. nas galés do jornalismo sou o último dos últimos, sensibilizou-me a vossa gentil manifestação de camaradagem espiritual.

[a Ferreira de Castro e Eduardo e Eduardo Frias, 20 de  Junho de 1924,
agradecendo A Boca da Esfinge]

Cartas a Ferreira de Castro, Sintra, Câmara Municipal / Museu Ferreira de Castro e Instituto Português de Museus, 2006
editor: Ricardo António Alves

terça-feira, março 12, 2013

José da Cunha Brochado: da veneração


     O respeito que sempre tive e devo ter à pessoa e ao carácter de V. Ex.ª, me levou sempre à veneração de suas altas prendas pelo seguro caminho de uma pura e fiel contemplação, entendendo que, como V. Ex.ª é todo espírito e todo inteligência, mais se pagaria das respeitosas meditações da minha fé, que das intrometidas assistências da minha dignidade.
(duma carta a desconhecido, novo embaixador em Viena,
7 de Maio de 1696)

Cartas, Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1944
editor: António Álvaro Dória