Mostrar mensagens com a etiqueta Tomás Ribeiro Colaço. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tomás Ribeiro Colaço. Mostrar todas as mensagens

sábado, novembro 01, 2025

o que está a acontecer

«Tinham acabado de almoçar. / A sala esteirada alegrava, com o seu tecto de madeira pintado a branco, o seu papel claro de ramagens verdes. Era em Julho, um domingo; fazia um grande calor; as duas janelas estavam cerradas, mas sentia-se fora o sol faiscar nas vidraças, escaldar a pedra da varanda; havia o silêncio recolhido e sonolento de manhã de missa; uma vaga quebreira amolentava, trazia desejos de sestas, ou de sombras fofas debaixo de arvoredos, no campo, ao pé da água; nas duas gaiolas, entre bambinelas de cretone azulado, os canários dormiam; um zumbido monótono de moscas arrastava-se por cima da mesa, pousava no fundo das chávenas sobre o açúcar mal derretido, enchia toda a sala de um rumor dormente.» Eça de Queirós, O Primo Basílio (1878)

«-- Olhava em torno de esguelha, com lumes de esperteza no canto do olho. / -- Lá vem o Chumbo. Aquele é o Antero Chumbo. / Eram baforadinhas sonoras que ele saboreava como um perfume. Sorvia o comentário, seduzindo-o, provocando-o.» Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória (1947)

«Não será portanto necessário perguntarmo-nos se o que nos junta é a paixão comum de exercícios diferentes, ou o exercício comum de paixões diferentes. Porque só nos perguntaremos então qual o modo do nosso exercício, se nostalgia se vingança.» Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas (1972)

quarta-feira, outubro 29, 2025

o que está a acontecer

«Ficara sentada à mesa a ler o "Diário de Notícias". Roupão de manhã de fazenda preta, bordado a soustache, com largos botões de madrepérola; o cabelo louro um pouco desmanchado, com um tom seco do calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabeça pequenina, de perfil bonito; a sua pele tinha a brancura tenra e láctea das louras: com o cotovelo encostado à mesa acariciava a orelha, e, no movimento lento e suave dos seus dedos, dois anéis e rubis miudinhos davam cintilações escarlates.» Eça de Queirós, O Primo Basílio (1878)

«Pois que toda a literatura é uma longa carta a um interlocutor invisível, presente, possível ou futura paixão que liquidamos, alimentamos ou procuramos. E já foi dito que não interessa tanto o objecto, apenas pretexto, mas antes a paixão; eu acrescento que não interessa tanto a paixão, apenas pretexto, mas antes os seu exercício.» Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas (1972) 

«Havia certa imponência no seu jeito de segurar com os dedos claros, de unhas roídas, uma pasta acorcodilada e sempre pletórica. O andar, cuja morosidade provinha de infidelidades ao pedicuro, convertia-o ele numa altiva pachorra ao singrar entre mesas a caminho do seu cenáculo, como lanchão bojudo coleando no porto em demanda do cais.» Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória (1947)

sábado, outubro 25, 2025

o que está a acontecer

«Nas mesas, onde uma turba espessa se coagulava, corria um dar de cotovelos, um cruzar de olhos, um rastilhar mexeriqueiro. / -- Olha. Lá vem o Chumbo. Aquele é o Antero Chumbo. O que escreve. O tipo parece que tem valor. / E era verdade. Isto é, ali ia ele.» Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória (1947)

«Esfregaram a cara e os cabelos molhados da transpiração com o lenço verde do regulamento, ou mesmo com o quico camuflado, um bonezinho em feitio de canoa, de aba curta e quebra-nuca para proteger a cabeça dos ardores do sol. / Abriram as latas de conserva das rações E que a Manutenção Militar distribuía para alimentação das tropas em operações.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«Do lado oposto à cidade a estrada descrevia uma curva ao longo de muros e cerrados, onde os grilos pareciam, de Verão, o queixume da ilha abafada e em que pairava agora um pasmo solto de tudo menos de mar. As lâmpadas da rede, lá para Porto Pim, faziam mais escura a massa de água que devia rolar enrefegada a um começo de vento levantado, pouco e já duro.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)

quarta-feira, outubro 15, 2025

o que está a acontecer

«I-EXPERIÊNCIA / Uma das coisas discutidas no Café Martinho era a virgindade de Antero. / Havia rumorejos quando ele entrava. / Já então um pouco obeso, mas empertigado por aquela volúpia do próprio mérito, que é sugestiva como um cartaz, -- principiava a usar o seu famoso chapéu preto de grandes abas, que implantava um pouco à banda, com audácia, sobre penugens dizimadas pela seborreia.» Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória (1947)

«Esqueceram os mil pormenores da instrução de comando, as forças não chegavam para tudo, mas a arma, essa ficou ali à mão de semear... Tiraram lentamente as mochilas de cima dos ombros e morderam os lábios com a dor dos músculos dormentes cortados pelas correias de lona.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«Dali à entrada da quinta corria um muro de pedra solta onde espreitavam trepadeiras, e só a uns vinte metros se erguia uma parede nobre com o grande portão verde de padieira grossa, que ao abrir bem até atrás, devido a uma posição mal calculada, batia na borda da sineta arrematada do naufrágio de um veleiro.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)

sexta-feira, setembro 11, 2020

a arte de começar - Tomás Ribeiro Colaço (1899-1965)


«Uma das coisas discutidas no Café Martinho era a virgindade de Antero.»

A Calçada da Glória (1947)

quarta-feira, julho 22, 2020

um parágrafo de Tomás Ribeiro Colaço

«Dias sem conta, Antero releu gulosamente as próprias palavras que, assim compostas noutro jornal, com outro tipo, assumiam novo sabor. Andava ufano. Aquilo estava bem! Ter a coragem de chamar aos Lusíadas com tão firme poder de síntese anacrónica o cartaz luminoso das Descobertas; escrever com tão valente garotice que Luís de Camões previu muito, sabia ver e prever, tinha o olho da previdência; definir com tamanha arte de crítica sintética, o poema épico, concurso hípico das Musas; conceder, com tão bizarra ironia: -- eu admiro ainda assim um Luís de Camões; cuidou muito bem do seu reclame; era um Luís de oiro, do oiro das Descobertas, oiro sem liga, como uma perna nua..." -- Caramba! Aquilo sim que era novo. Era coisa que vinha de algures denunciando Alguém. Antero Chumbo tinha uma obra, em marcha.»
A Calçada da Glória (1947)

quinta-feira, junho 25, 2020

caracteres móveis

«A uma extremidade da plataforma, um rapaz magro, de olhos grandes e melancólicos, a face toda branca da frialdade fina de Outubro, com uma das mãos metida no bolso dum velho paletot cor de pinhão, a outra vergando contra o chão uma bengalinha envernizada, examinava o céu de manhã chovera; mas a tarde ia caindo clara, e pura; nas alturas laivos rosados estendiam-se como pinceladas de carmim muito diluído em água e, longe, sobre o mar, para além duma linha escura de pinheirais, por trás de grossas nuvens tocadas ao centro de tons de sanguínea e orladas de ouro vivo, subiam quatro fortes raios de sol, divergentes e decorativos -- que o rapaz magro, comparava às flechas ricamente dispostas num troféu luminoso.» Eça de Queirós, A Capital! (c. 1878, póst., 1925)


«Ele falava lentamente, tristemente, como se falasse de mortos muitos queridos.» Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge (1924)




«O andar, cuja morosidade provinha de infidelidades ao pedicuro, convertia-o ele numa altiva pachorra ao singrar entre mesas a caminho do seu cenáculo, como lanchão bojudo coleando no porto em demanda do cais.» Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória (1947)

sábado, maio 25, 2019

vozes da biblioteca

«Automaticamente os seus dedos nodosos iam enrolando novo cigarro, enquanto o ombro esquerdo procurava suporte no tronco rugoso dum sobreiro.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

«E como a corroborar as últimas palavras da mulher, um criado passou pelo convés agitando uma grande campainha: -- miniatura de sino dobrando tristeza: -- avisando aos estranhos que estavam a bordo, que deviam abandonar o navio, porque este ia partir.» Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge (1924)

«Já então um pouco obeso, mas empertigado por aquela volúpia do próprio mérito, que é sugestiva como um cartaz, -- principiava a usar o seu famoso chapéu preto de grandes abas, que implantava um pouco à banda, com audácia, sobre penungens dizimadas pela seborreia.» Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória (1947)

sexta-feira, junho 30, 2017

começar

Um Camilo é sempre um Camilo, mesmo quando participa da categoria de literatura alimentar, ou seja, da que o bruxo de Seide lançava mão para, profissional das letras, se sustentar. Por isso, O Judeu será sempre um romance de visita recomendável, também pelas leituras de época, António José da Silva, dito 'o Judeu', Cavaleiro de Oliveira, a quem A. Gonçalves Rodrigues chamou 'o protestante lusitano', ambos ardido no fogo da Santa Inquisição, um em carne e espírito, o outro em efígie.
Emigrantes é um dos textos históricos do romance português do século XX. A ficção mudou com ele. Neste incipit, Ferreira de Castro põe-nos no ponto de observação do protagonista, Manuel da Bouça, esse pobre de espírito que irá acabar mal, o que se perceberá aqui, e confirmará uns romances depois, em A Lã e a Neve (1947). 
O 'Antero' de A Calçada da Glória é uma caricatura, aliás impiedosa, de António Ferro, com quem Tomás Ribeiro Colaço -- um nome com pedigree  nas letras portuguesas -- ajusta contas nesta narrativa terminada em 1940, porém só publicada no exílio brasileiro anos mais tarde. Creio, aliás, que nunca teve edição portuguesa.
1866 - «Há um fenómeno moral, muitas vezes repetido, e todavia inexplicável: é a esquivança desamorosa de mãe a um filho excluído da ternura com que estremece os outros, filhos todos do mesmo abençoado amor e do mesmo pai que ela, em todo o tempo, amara com igual veemência.» Camilo Castelo Branco, O Judeu

1928 - «Preta e branca, preta e branca, preta e branca, o preto mui luzidio e muito níveo o branco, a pega, de cauda trémula, inquieta, saracoteava entre carumas e urgueiras, esconde aqui, surge ali, e por fim erguia voo até a copa alta do pinheiro, levando no bico ramo seco ou graveto.» Ferreira de Castro, Emigrantes

1947 - «Uma das coisas discutidas no Café Martinho era a virgindade de Antero.» Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória

quarta-feira, outubro 28, 2015

escozinhar com molho de Camões

«Em certo 10 de Junho quando todos os jornais molemente escozinhavam com molho de Camões e as entidades oficiais transportavam ramos tristes para o Largo das Duas Igrejas, Antero Chumbo teve um dos seus rasgos: atirou algumas sem-cerimónias ao épico.»

Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória (1947)

segunda-feira, janeiro 26, 2015

pândegas retoiçantes

«Realmente ele não ia aos clubes, de que falava com enjoo. Nunca se associava a pândegas retoiçantes pelos arredores da cidade, com coristas, mulherio desbragado e sentimental.»

Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória (1947)