terça-feira, novembro 28, 2017

domingo, novembro 26, 2017

no LEFFest #17

Heaven's Gate, de Michael Cimino (EUA, 1980). «Homenagem -- Isabelle Huppert». Um épico para finalizar o LEFFest, que é também uma celebração do cinema; episódio(s) da construção da América, feita a ferro e fogo.

estampa CCLXXIII - Iosif Oder


Odalisca

sábado, novembro 25, 2017

no LEFFest #16

Cosmopolis, de David Cronenberg (Canadá, França, Portugal e Itália, 2012). «Sessões especiais -- Cinema». É o filme de Cronenberg de que menos gostei; cheira-me que está demasiado preso ao texto do romance homónimo de Don Delillo, que não li. O tema não pode ser mais actual e pertinente, muitos diálogos são riquíssimos e os desempenhos excelentes, mas suspeito que o filme não descola do livro e que, embora se trate de linguagens estéticas diferentes, é neste que reside o proveito da fruição.

FLEURETTE AFRICAINE

estampa CCLXXII - Hans Baldung

Adão e Eva

no LEFFest #15

Verão Danado, de Pedro Cabeleira (Portugal, 2017). «Selecção oficial -- Em competição». É um primeiro filme dum jovem realizador, não queria ser muito desagradável; mas achar que isto é um filme sequer potável é entrar no domínio do embuste. De julgam que exagero, basta confrontá-los com alguns dos outros sete filmes a concurso: o coreano, o russo, o búlgaro, o iraniano, o francês, o norte-americano. Até o lituano, que é mau, está uns furos acima do 'nosso', com Locarnos e tudo. 
É isto que sai da  Escola Superior de (Teatro e) Cinema. O melhor é fechá-la, fazer outra ao lado e mandar vir professores de fora, que os rapazes e raparigas não têm culpa de tanta charlatanice. Não houve um filme português a concurso (um só!) que eu tivesse visto em várias edições do LEFFest (e não vi todos, sempre por impossibilidade de horário) -- não houve um sequer aceitavel...  Como diria o outro: "ver para descrer".

sexta-feira, novembro 24, 2017

no LEFFest #14

Last Flag Flying, de Richard Linklater (EUA, 2017). «Selecção oficial -- Fora de competição & antestreias». Um filme cheio de palavras. Quando o cinema americano é bom, é óptimo.

no LEFFest #13

Tesnota, de Kantemir Balagov (Rússia, 2017). «Selecção oficial -- Em competição.» Filme duma realidade crua: o Cáucaso russo em 1998. As tensões étnicas larvares, com a guerra ao lado, na Tchetchénia. Dispensava-se a extensão das imagens da chacina dos soldados eslavos, usadas, porém, sem intuitos propagandísticos (aliás, pelo nome, verifica-se que o realizador não é de etnia russa), e justificadas pela narrativa. Mas nem tanto, no entanto. Uma actriz esplêndida: Darya Zhovner.

quinta-feira, novembro 23, 2017

no LEFFest #12

Pictures Of The East, de Sandro Kanchelo e Gidon Kremer. «Sessões especiais -- Música». Para mim, o momento mais alto do LEFFest, até agora. Um curta-metragem de animação, de 28 minutos (precedida da execução, por Kremer, dos Preludes To A Lost Time, de Mieczyslaw Weinberg) a partir do magnífico trabalho do artista sírio Nizar Ali Badr, cujos esforços de Paul Branco para tê-lo no festival foram gorados pela recusa das autoridades da UE concederem o visto para esse efeito. Nem vou comentar, mas quando me aparecer o vinhático Juncker no ecrã, não vou reprimir dois ou três palavrões.

no LEFFest #11

A Ciambra, de Jonas Carpignano (Itália, EUA, França e Alemanha, 2017). «Selecção oficial -- Em competição». Não o vi todo, mas o que vi foi bom.

brincar à política

(Um parênteses nos filmes.) O que é esta decisão sobre o Infarmed, sem ouvir os trabalhadores, senão leviandade e uma noção um bocado transviada de que os serviços do estado estão à mercê dos caprichos do político de turno? Inqualificável. Lembra-me a anedota da transferência duma secretaria de estado da Agricultura para a Golegã, no governo do Santana Lopes. E nada tem que ver com o provincianismo do Rui Moreira, que escreve parvoiçadas do fb, e depois apaga, e que nem merece um comentário, de tão pacóvio. Tomáramos nós que Lisboa estivesse descongestionada. Mas parece que Costa gosta de agradar a Moreira, vá-se lá saber porquê.

quarta-feira, novembro 22, 2017

no LEFFest #10

Crash, de David Cronenberg (Canadá, 1996). «Simpósio internacional -- Pode a arte ser ainda subversiva?» A pergunta é irritante e tonta: não há arte sem subversão; e neste filme de Cronenberg a subversão não está, quanto a mim, na sexualidade, digamos, desviante, ou coisa que o valha (acho que nem há 21 anos, tantos quanto leva o filme), mas na reificação do sexo, um dos aspectos da coisificação do ser humano -- fenómeno que diariamente nos tenta fecundar com cinco letras. A arte é indissociável da libertação individual, de quem a pratica, executando-a e de quem a recria, usufruindo-a (ou de quem a usufrui, recriando-a). Nesse sentido é sempre subversiva. Não o sendo, não é arte, mas espertalhice, publicidade, entretenimento para televisões, mercados de arte, desfiles de moda, e até, porventura, festivais de cinema.  

no LEFFest #9

As Guardiãs, de Xavier Beauvois (França, 2016). «Selecção oficial -- Em competição.»  Título equívoco, pois as mulheres guardam mais o desenrolar quotidiano com um mínimo de sobressaltos, estando os homens mobilizados; guardam(-se) também de inconveniências várias, inclusivamente reputacionais, mesmo que para tal seja preciso torturar a realidade. Produção de altíssimo nível, o nível do cinema francês. A certa altura desfilavam no ecrã as telas e as mulheres do Pissarro. Notável.

terça-feira, novembro 21, 2017

no LEFFest #8

Lou Reed's Berlin, de Julian Schnabel. (EUA, Reino Unido, 2007). «Retrospectiva Julian Schnabel». Concept album  de 1973, produzido pelo grande Bob Ezrin (Aerosmith, Alice Cooper, Kiss, Peter Gabriel, Pink Floyd, etc.), foi um flop comercial e também banda sonora da vida de Schnabel, que, amigo de Lou Reed, realizou este concerto. Tê-lo visto esta noite, já valeu o LEFFest. 

no LEFFest #7

Frost, de Sharuna Bartas (Lituânia, França, Ucrânia e Polónia, 2017). «Selecção oficial -- Em competição.» Mauzote, pretensioso e propagandístico, embora tente parecer que não o é. Sem surpresa, porém, dadas as 'entidades' envolvidas. Mas, acima de tudo, mauzote.

segunda-feira, novembro 20, 2017

no LEFFest #6

Um Homem Íntegro, de Mohamad Rasoulof (Irão, 2017). «Selecção oficial -- Em competição». Alguma coisa vai mudando lentamente no Irão para que se nos apresente com um filme tão subversivo como este. Da corrupção à religião, nada lhe escapa. Filme que vem de uma das cinematografias mais interessantes e estimulantes  com que tenho contactado. Tomara o pífio cinema português, que, com as honrosas excepções, oscila entre a alarvidade atávica e o onanismo especioso, acessoriamente masturbado pela imprensa arty e tontinha (vá, também com excepções) -- quem me dera que o pífio cinema português, repete-se, a séculos luz do cinema do Irão, pudesse aprender qualquer coisa com ele. 

no LEFFest #5

Lucky, de John Carroll Lynch (EUA, 2017). «Selecção oficial -- Em competição». "E diante do nada, que fazemos? Sorrimos..." Escrito a pensar em Harry Dean Stanton, que já não o viu.

no LEFFest #4

Western, de Valeska Grisebach (Alemanha, Áustria e Bulgária, 2017). «Selecção oficial -- Em competição.» Exercício interessante a propósito do choque de culturas e de mentalidade: o estrangeiro, outro, no seio aldeão, fechado e desconfiado.

domingo, novembro 19, 2017

no LEFFest #3

O Dia Seguinte, de Hong Sang-Soo (Coreia, 2017). «Selecção oficial -- Em competição». Ou Bergman no Extremo Oriente. Óptima direcção de actores e excelentes pormenores de realização.

no LEFFest #2

Loulou, de Maurice Pialat (França, 1980). «Homegam -- Isabelle Huppert». "Loulou" (Depardieu), apenas porque se tornou na vertigem de "Nelly" (Huppert, incandescente), personagem central deste filme.

no LEFFest #1

Noutro País, de Hong Sang-Soo (Coreia e França, 2012). «Homenagem -- Isabelle Huppert». Ideia bem sacada, mas nem nem Huppert, «actriz de mestria ilimitada», nas palavras de Susan Sontag, ou o final poético chegam para salvar um argumento que se enreda e tropeça, 

sábado, novembro 18, 2017

quinta-feira, novembro 16, 2017

estampa CCLXXI - [atribuído a] Leonardo da Vinci


Salvator Mundi (c. 1490-1519)
(colecção particular)

Arrematada ontem, em Nova Iorque, por 381,6 milhões de euros, esta cifra é para mim irrelevante: se de Leonardo, esta pintura não tem preço, por isso tanto monta dar por ela 381 euros ou 381 mil milhões; se de Leonardo, o seu valor não tem preço. Epítome do génio humano, Leonardo é um dentre as poucas centenas de verdadeiros imortais, dos biliões de seres humanos que já viveram, por isso, tudo quanto saiu das suas mãos e do seu espírito  será sempre de valor inapreensível ao mercadejar dos leilões e dos coleccionadores.

Não sei se é ou não de Leonardo, a autoria está sujeita a discussão.  Para mim, leigo em história da arte, há dois dados que me parecem seguros: em primeiro lugar, trata-se de uma obra a muitos títulos magnífica; depois, afigurasse-me quase incontroverso que este Salvator Mundi não pode deixar de ter saído da sua oficina, dele só ou com os aprendizes.

E se eu fosse bilionário, caprichoso no gosto e no luxo de ter um Leonardo para contemplar em minha casa e mostrá-lo aos outros? Impossível pôr-me nesse lugar (nem mil, quanto mais bil...); porém uma aquisição como esta só faria sentido partilhando-a com a comunidade, doando-a ao país, com as devidas salvaguardas quanto à sua integridade e garantias de nunca ela ser passível de alienação. É preciso ter um ego transviado para guardar isto só para si.

quarta-feira, novembro 15, 2017

criadores & criatura

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Tibet, A, P. Duchateau e Chick Bill 

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terça-feira, novembro 14, 2017

50 discos: 37. SNAKES AND LADDERS (1980) - #5 «Look At The Moon»



sentir-se bem em sua pele

Garret era um extraordinário bon vivant; nada do que respeitasse aos prazeres da vida lhe era alheio, o que não o inibiu de alcandorar-se em figura de primeira grandeza na vida pública e cultural do seu tempo. O legado político e literário confronta bem com as fraquezas, ou fortalezas -- depende do ponto de vista --, de João Baptista da Silva Leitão. E é isso que o capítulo inicial das Viagens evidencia em cada frase. Atente-se no sumário do capítulo I:
«De como o autor deste erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu imortalizar-se escrevendo estas viagens. -- Parte para Santarém. -- Chega ao Terreira do Paço, embarca no vapor de Vila Nova; e o que aí lhe sucede. A Dedução Cronológica e a Baixa de Lisboa. -- Lord Byron e um bom charuto. -- Travam-se de razões os íhavos e os bordas-d'água: -- os da calça larga levam a melhor.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra [1846], Mem Martins, Publicações Europa-América, 1976, p. 9.

Todo o tom é optimista, gozoso e sadio: o prazer da partida, a literatura, a paisagem, a política, mesmo quando adversa, as pessoas, a coloquialidade e a ironia, os pequenos prazeres, o humor -- acima de tudo. O tom de alguém que agarrou a vida com as duas mãos, dela sabendo retirar recompensa estética e sensorial, permitida ou conquistada. É um estilo de alguém que se sente muito bem na sua pele.
 

segunda-feira, novembro 13, 2017

estampa CCLXX - Géza Faragó


Mulher com Gato (1913)

um país sem futuro

 Esta historieta do Panteão é acima de tudo reveladora da indignidade dos círculos do poder (o passa-culpas grotesco governo-oposição);  é uma manifestação da desvergonha do nosso atraso e da nossa saloiice: qualquer  monumento, palácio, museu está sujeito a albergar um repasto, basta ter a carteira suficientemente recheada e gosto duvidoso.
"Web Summit", nada contra e, desde o início, nenhum interesse; os orgasmos analfabetos da imprensa, ainda me deixam a rosnar sozinho, mas cada vez ligo menos. (Qualquer dia desisto -- já estive mais longe --, e arranjo um Vale de Lobos à minha pobre medida.) Porém, em face dos deslumbramentos da semana passada -- alguns, certamente justificados -- lembrava-me da sala de concertos do Conservatório Nacional, entre outras coisas que não interessam a ninguém, nem sequer ao Menino Jesus, que renasce para o mês que vem: o património histórico ao abandono, dos castelos aos clássicos da nossa língua, que deveriam ter um programa em larga escala e competência editorial em edições acessíveis, a pensar em nós, portugueses, e naqueles a quem coube em sorte partilhar o nosso idioma. Nada, nada, nada -- zero.

Por falar em memória histórica, um programa excepcional de Fernando Rosas sobre o colonialismo português, é transmitido em horário envergonhado, na RTP2, à hora dos telejornais indigentes dos três canais. O desconhecimento da História não aproveita a ninguém; pelo contrário, é substituído pelo preconceito e pelas ideias feitas -- as mesmas que não nos permitiram assumir de frente a nossa história recente, deixando entregues a si próprios quantos combateram pelo "império" e serviram de carne para canhão, alimento de básicos interesses de dominação mascarados de nacionalismo transcendente. Uma vergonha nunca vem só.
Este alinhavar desencantado -- e exemplos não me faltam --, para dizer apenas a seguinte banalidade: um país que não valoriza a sua memória histórica, senão quando ela serve para propaganda e obtenção de votos, não é só um país indigno, é também um país sem futuro.

«Basta um Dia»

domingo, novembro 12, 2017

quinta-feira, novembro 09, 2017

uma carta de Ferreira de Castro

Parece que causou controvérsia a questão do adultério da protagonista de Terra Fria (1934) na então longínqua Padornelos. Ao contrário do que pode parecer, a paciência de Ferreira de Castro foi infinita, em face dos pundonores (provincianos) desgravados.
(aqui)

estampa CCLXVII - David Inshaw


Artista e Modelo (1994)

quarta-feira, novembro 08, 2017

terça-feira, novembro 07, 2017

50 discos: 36. MAKING MOVIES (1980) - #5 «Hand In Hand»



uma terra sem amos nem apparatchiks

Já não sei quantas vezes aqui escrevi que a melhor vacina que tive para a prevenção do bolchevismo e o comunismo soviético (há outros comunismos) foi a leitura, ainda muito jovem, do Soljenitsin. O Marc Ferro também ajudou, alguns anos depois; e a visão, ainda fresca, da Primavera de Praga -- os tanques do Pacto de Varsóvia contra o povo nas ruas de Praga (o Dubcek é outro dos meus heróis, também já o escrevi, mais de uma vez).
Acontecimento magno da história do século XX, quem o duvida? Revolução mais do que justificada numa autocracia? Igualmente (a execução vil de toda a família imperial não faz esquecer os crimes de Nicolau II e do seu círculo). Que sem ela, as condições de vida dos trabalhadores ocidentais teria sido outra? Parece mais do que evidente. Nunca saberemos que caminho seguiria a Rússia sem a Revolução de Outubro, com Nicolau II ou com Kerensky. Sabemos que Lénin e Trótski tomaram e consolidaram o poder que a Rússia Branca não estava disposta a permitir, tendo, em simultâneo desbaratado os anarquistas de Nestor Makno e outros, nada dispostos a deixarem-se manietar pelos comunistas autoritários, numa velha contenda que vinha do século anterior. E sabemos, também, que a União Soviética, criada em 1922, é uma configuração de Stálin após a eliminação interna dos inimigos, reais ou supostos. É Stálin que torna a Rússia uma superpotência e é com a sua morte, em 1953, que se inicia o declínio. Krushtchev é uma válvula de escape; Brejnev, a sedimentação do estado totalitário e um novo desenvolvimento do imperialismo soviético em taco-a-taco com o americano: Vietname, Iémen do Sul, Angola, Afeganistão, cada um usando(-se) (d)os seus peões. Depois da grotesca parada de senectude ao mais alto nível (Andropov, Tchernenko), Gorbachev foi o homem certo na altura (im)própria. A circunstância de a queda da União Soviética, desmoronando-se de podre, ter ocorrido praticamente sem baixas, é um milagre bem palpável que a Humanidade deve a Gorbachev. Ieltsin (um bebedolas, provavelmente comprado pelos americanos), e Putin, um político frio e superiormente inteligente (muito mais do que gostaria o imperialismo americano -- imperialismo de rapina, como é condição de todos os imperialismos) -- (Ieltisn e Putin) são já protagonistas de outra realidade, que nem por isso deixa de ser herdeira da finada URSS, tal como esta, quando necessário, foi buscar o substrato à alma da Mãe Rússia.       

uma carta de Manuel Laranjeira

...ou da franqueza e da lealdade nas relações e na escrita.

estampa CCLXV - Barend Cornelis Koekkoek


Retrato de Jovem (1846)

segunda-feira, novembro 06, 2017

ia-me esquecendo deste...


um filme de Étienne Comar (2017)

domingo, novembro 05, 2017

Catalunha: nacionalismos, internacionalismos, outras confusões e alguns farsantes

Sou um cosmopolita e aspiro a uma Europa confederal. Faço minhas as palavras do Mitterand, segundo o qual "o nacionalismo é a guerra". É, porém, evidente -- ou deveria sê-lo para quem se detivesse a pensar um pouco -- que este cosmopolitismo, ou mesmo um internacionalismo de qualquer espécie, só é aplicável a jusante da autodeterminação. Daí que sejam especialmente patetas as observações que pretendem condenar o independentismo catalão a pretexto de uma pretensa aversão aos nacionalismos, como ontem tive a infelicidade de ouvir a dois legumes. Seria como se condenássemos os nacionalistas angolanos, moçambicanos e guineenses, que pretendiam ver-se livres da tutela portuguesa, em nome de bonitos princípios.  Princípios de resto que estes indivíduos evocam conforme lhes apetece -- dando de barato, com alguma boa-vontade de que sabem do que falam, o que nem é certo.

E a propósito de princípios, gostaria que me demonstrassem de que modo alguém pode afirmar-se democrata, se endossa de bom grado ao poder vigente a possibilidade de impedir que um povo possa ser auscultado sobre a sua  autodeterminação. Não é claramente um democrata; não passa dum oportunista e dum farsante se se disser tal.

Mais: como pode alguém definir-se como liberal (um termo nobre, diga-se), liberal numa concepção de largo espectro, que pode ir dum certo conservadorismo não-reaccionário até ao liberalismo mais extremo, que é o anarquismo, como se pode definir esse alguém como liberal se pactua e aplaude o poder da força de um estado central? Será um liberal de acordo com as suas conveniências. É pouco, não serve, não interessa.

 (Curiosamente a luta pela autodeterminação catalã, não apenas lá, como cá, compreende um conjunto de defensores muito lato, precisamente do conservadorismo ao campo libertário. Do outro lado, por cá, descontando os que não sabem o que dizem, os autoritários, os argentários e suas derivações e uma categoria de criaturas que está comprometida com o poder, lesto em assinar por baixo as directivas de Rajoy.) 

estampa CCLXIV - Agda Holst


Vista do Meu Estúdio

sexta-feira, novembro 03, 2017

"Puigdemont no país de Hergé"

Tomás Serrano


Concentrar o foco no líder político Carles Puigdemont revela uma de duas coisas: ou uma pobreza analítica que confrange, como se a questão catalã pudesse ser reduzida a um homem -- um dentre muitos no seu próprio partido, o PDeCat, já não considerando a ERC, a CUP e principalmente aqueles que não têm partido...; ou mera caixa de ressonância, propositada ou involuntária, do espanholismo madridista, um pântano em que germinam os herdeiros políticos e judiciários do franquismo, e no qual vicejam e singram os interesses mais básicos* -- ai Deus do Céu, que radical e extremista me saí, pobre pai de família pequeno-burguês que acima de tudo quer que não o macem...  
Dito isto, denunciar a fuga de Puigdemont para Bruxelas como um abandonar de barco (aliás, os que o fazem de boa-fé, não manifestam mais do que uma convicção palpitante), é duma precipitação arriscada. Eu prefiro vê-la -- e até agora não tenho razões para crer no contrário -- como uma retirada estratégica de enorme inteligência e alcance de quantos estão à frente do processo independentista, como aliás se verifica pelos erros sobre erros que a facção madridista comete. Aliás a posição de Oriol Junqueras, o vice-presidente do governo catalão e dirigente da ERC, ominosamente preso em Madrid, indica de que é disso que se trata.   
(Ah, e viva Hergé!)


*(ler a entrevista do líder da associação patronal espanhola ao i de hoje, notável pelo que revela -- ainda não consegui o link).



Estúpido de seu natural, o franquismo vai mordendo os iscos

Sem prejuízo de análise mais fina, registo o enterranço do espanholismo, que se põe a si próprio numa posição insustentável: até 30 anos de cadeia?; quanto milhões de euros de fiança? Daria vontade de rir, se não fosse grave. Entretanto, o independentismo catalão quanto mais acossado, mais forte, neste jogo do gato e do rato, sem erros, com uma bem sucedida estratégia de internacionalização e ainda sem um morto, felizmente. O franquismo, estúpido de seu natural, a morder todos os iscos.

quinta-feira, novembro 02, 2017

uma carta de António Sérgio

Carta que espelha o ambiente das elites intelectuais no final da República: António Sérgio, elemento da Seara Nova, grupo que se situava na ala mais à esquerda de regime; António Sardinha, o membro mais destacado do Integralismo Lusitano, defensor da monarquia tradicional, cujo órgão era a Nação Portuguesa. No entanto, para além dos pólos opostos em que ambos os grupos se situavam no espectro político, por mais de uma vez convergiram na acção cultural, de que a revista Lusitânia foi um dos exemplos. Sérgio, escreverá o seu artigo polémico na Seara, mas já não obterá resposta de Sardinha, que entretanto falece. É muito interessante verificar que o jovem Castelo Branco Chaves (24 anos) é o mediador deste desentendimento, -- suscitado pelo livro de Manuel Múrias, O Seiscentismo em Portugal (1923) --, uma vez que fora monárquico integralista, sendo o seu primeiro ensaio, um livro sobre Fialho de Almeida, prefaciado por Sardinha. E como explica Luísa Ducla Soares, a editora desta correspondência, Sérgio, instigado pelo brilho do jovem intelectual, tomou a iniciativa de o conhecer, forjando-se uma amizade entre ambos que levaria Chaves para as fileiras da Seara Nova. (aqui)

50 discos: 35. REGATTA DE BLANC (1979) - #5 «Deathwish»



quarta-feira, novembro 01, 2017

caderninho

«Para o homem sábio toda a terra é utilizável, porque a pátria da alma excelente é todo o mundo».
Demócrito