«Tudo é igual, mecânico e exacto. // Ainda por cima os homens são os homens.»
Poeta Militante (1977) - «Viver sempre também cansa» (1931)
conservador-libertário, uns dias liberal, outros reaccionário. um blogue preguiçoso desde 25 de Março de 2005
«Tudo é igual, mecânico e exacto. // Ainda por cima os homens são os homens.»
Poeta Militante (1977) - «Viver sempre também cansa» (1931)
Repetindo-me, agora que as dejecções comunicacionais procuram convencer-nos das grandes dificuldades por que passaria a Rússia -- a Ucrânia, como sabemos, está destruída e despovoada, mas triunfa em toda a linha, segundo estes (barda)mé(r)dia --, o estadista corre o sério risco de receber um bonito galardão.
É verdade que (repetindo-me, que hei-de fazer?), se candidatou a presidente da Ucrânia garantindo que faria a paz com a Rússia. Foi uma aposta lógica do eleitorado: fora do sistema, entertainer televisivo, etnicamente nem ucraniano nem russo, mas judeu de língua materna russa, muito terão sido os cidadãos de ambos os lados que nele votaram.
Capturado pela estratégia neocon americana -- e nem preciso de vir com a conversa gasta, não sei se verdadeira se falsa de ele ter sido comprado --, o estadista fez-se um títere dos americanos; com a mudança Trump, passou a mandar na UE, dirigida por insignificantes inconscientes (uns estúpidos que deixarão que Zelensky nos arraste para a sua guerra, se não forem travados pelos cidadãos).
Parece que a Ucrânia é o suprassumo no que respeita a drones e coisas assim. Fantástico. Seria preciso ver o que era a Ucrânia quando ele tomou posse e o que é a Ucrânia hoje. E porque está assim. O contributo deste heróico estadista foi inestimável, o Nobel da Paz dos Cemitérios para ele.
«Húmidas dardejam ao sol, rápidas, / coruscantes e fatais línguas bífidas.»
O Monhé das Cobras (1997) - «O monhé das cobras»
«Duma ponta a outra são cento e vinte quilómetros, mas quer para cima, quer para baixo, aquilo era viagem que durava de manhã à noite. O comboio levava de tudo, parava em toda a parte.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
«Escrevo e descrevo / e descrevendo / o tempo insere-se nas linhas»
A Idade da Escrita (1998) - «A idade da escrita - Poema-ensaio»
Fialho de Almeida: «As águas, murmurantes por essas ravinas e barrancos; nas grandes relvas picadas da vivacidade das corolas, as calhandras fartas agacham-se para dormir, ao fundo a cordilheira distante, idealizada, incorpórea, é como uma nuvem rarefeita que se apaga.» O País das Uvas (1893) - «Pelos campos»
«eu estava deitado no assoalho do meu quarto, numa velha pensão interiorana, quando meu irmão chegou para me levar de volta; minha mão, pouco antes dinâmica e em dura disciplina, percorria vagarosa a pele molhada do meu corpo, as pontas dos meus dedos tocavam cheias de veneno a penugem incipiente do meu peito ainda quente;» Raduan Nassar, Lavoura Arcaica (1975)
«Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como um céu e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu.» José Luís Peixoto, Nenhum Olhar (2000)
«"Pare, escute e olhe", lê-se nelas em letras desvanecidas. Precaução que agora parece absurda, mas que também antes já o era, pois por dia passavam ali apenas dois comboios: o que "subia" até Duas Igrejas e o que "descia" até ao Pocinho, onde entroncava na linha do Douro.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
«Dentro de mim é Som: o eco longo / de uma nota sem fim e sem começo.»
Serra-Mãe (1945) - «Harpa»
Um dos grandes lugares-comuns dos analistas medianos e sebenteiros das relações internacionais e dos tecnocratas é pensar a Rússia enquanto grande potência, de acordo com o PIB que, dizem os expertos, andará aí por entre o da Itália e o da Espanha...
Não faço a mínima ideia de qual é o PIB da Rússia, informação disponível com qualquer clic, e que é das últimas coisas importantes com que o analista se deve preocupar. A demografia, por exemplo, será, a médio prazo, um problema estratégico bicudo.
Quando os tecnocratas me aparecem, caindo pela televisão abaixo, a falar do produto interno bruto e os simplórios das RI usam expressões em estrangeiro como a caracterização da Rússia as a China's junior partner, fatigam-me com a indigência do costume, que não percebe que uma nação e o estado que a configura é tão, tão mais do que isso -- e que, no caso da Rússia e outras velhas nações, vai muito além da grande cultura dos escritores, compositores, cientistas, pintores, etc.; inclui um ethos particular, a religiosidade, a memória colectiva, a forma como se vêem como pátria -- coisas que vêm do fundo da História.
«uma obra de arte comanda-se pela intuição / e só o rigor do instinto salva o artista,»
Doze Cantos do Mundo (2009) - «Albrech Dürer: Melencolia (1514)»
«Olhos a arder em êxtases de amor, / Boca a saber a sol, a fruto, a mel; / Sou a charneca rude a abrir em flor.»
Charneca em Flor (póst., 1931) - «Charneca em flor»
Como a União Europeia, e os países que a compõem, não se dá ao respeito, os delinquentes que governam Israel (e lhe estão a cavar a sepultura, a prazo) sentem-se livres, à vontade, à vontadinha, para as executar as tropelias a que assistimos.
É verdade que a Alemanha é um travão que se origina na má consciência dos descendentes dos nazis; mas os outros países é que não podem ser cúmplices de genocídio ajudando na expiação dos pecados do imperdoável Holocausto -- como imperdoável foi a perseguição que os judeus sofreram na Europa, ao longo da sua história --, ficando os palestinos a pagar as favas.
Não basta chamar o embaixador -- o que já é alguma coisa e não deve ser desvalorizada; é preciso ser mais assertivo e mais sonoro na execração daqueles patifes.
A presidente da república da Irlanda está orgulhoso da irmã; eu estou orgulhoso dos dois médicos portugueses, como já antes estivera da acção de Mariana Mortágua, parece que muito gozada pelos pobres de cristo do Chega e arredores.
«Não se contenta a gente portuguesa, / Mas seguindo a vitória estrui e mata; / A povoação sem muro e sem defesa / Esbombardeia, acende e desbarata.»
Os Lusíadas (1572) I-90
«Para ele, sim, é que os campos estavam mesmo a jeito: ali à mão, bastava prolongar o muro junto ao renque dos pinheiros, pois do lado de baixo o Caima constituía vedação natural. E o senhor Esteves, bem falado e com um presente de trutas, devia estar pelos ajustes, porque, feitas as contas, sempre era melhor ganhar dez duma só vez do que cinco em toda a vida.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)
«Que há[-de alguém] confessar que valha ou que sirva? O que nos sucedeu, ou sucedeu a toda a gente ou só a nós; num caso não é novidade, e no outro não é de compreender. Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre do sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)
«"O pai foi o inventor do bowling, é isso?", perguntou Mister DeLuxe. "O pai estava sempre bêbado e jogava bowling com as garrafas vazias", insistiu Austin, "Molero fixa-se nisto como no elo de uma cadeia, é o que ele diz."» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)
«Chega ao fim do dia / a hora mais lenta, quando o céu / é vago e as luzes se acendem / no prédio da frente.»
Oráculos de Cabeceira (2009) - «"I felt that it was all unreal."»
«A pomba que abraça / No ar o seu par, / E a nuvem que passa, / Não tem essa graça / Que tu tens a andar!»
Campo de Flores (1893) - «Amor»
Woody Allen: «Divertimo-nos imenso em Espanha naquele ano e viajámos e escrevemos, e Hemingway levou-me à pesca do atum e eu pesquei quatro latas e rimo-nos e Alice Toklas perguntou-me se eu estava apaixonado por Gertrude Stein, uma vez que lhe dedicara um livro de poemas, apesar de serem de T. S. Eliot, e eu disse que sim, que a amava, mas que nunca poderia resultar porque ela era demasiado inteligente para mim, e Alice Toklas concordou, e depois calçámos uma luvas de boxe e Gertrude Stein partiu-me o nariz.» Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura (1966), «Memórias do Anos Vinte» - trad. Jorge Leitão Ramos § Jane Austen: «Certamente cumpriu-se tal tempo. Tendes hoje cinquenta e cinco Primaveras. Se vez alguma uma mulher pode declarar estar a salvo da perseverança determinada de amantes desagradáveis e cruéis perseguições de pais obstinados, essa vez tem de se aplicar a esta altura da vida. // Isabel» Amor e Amizade (1790) - trad. Isabel Fraga. § Génesis: «Assim surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o terceiro dia. / Deus disse: "Haja luzeiros no firmamento dos céus para diferenciarem o dia da noite e servirem de sinais, determinando as estações, os dias e os anos; servirão também de luzeiros no firmamento dos céus para iluminarem a terra". E assim aconteceu.» Bíblia Sagrada (Missionários Capuchinhos)
4. João de Barros - «Vão, sem destino, errando ao sabor da corrente.»
3. António Barahona - «Nas minhas mãos o violino alado percorre distâncias incalculáveis no sonho.»
2. Sophia de Mello Breyner Andresen - «O corpo a corpo do espaço e da escultura»
1. Manuel de Freitas - «Falta-me a técnica, mas tenho o rancor»
«Se vivesse ainda com os pais, não haveria na sua expectativa lugar para dúvidas: receberia, prenda única de aniversário, os afagos e as lamurientas falas da mãe, penitente do mal da pobreza: -- "Nem uma blusinha te posso dar, filha!"» Assis Esperança, Servidão (1946)
«Próximo da ponte de tábuas, um milhafre dá três voltas vagarosas ao rés da terra, imobiliza-se no espaço e baixa-se repentinamente, como tocado por um tiro. Daí a nada, levanta-se num esticão, e leva um pinto no bico. Por um momento, o voo da ave de rapina é um traço negro na paisagem morena da planície. E só o homem, pela janela, vê o assalto.» Antunes da Silva, Suão (1960)
«As virtudes civis e, sobretudo, o amor da pátria tinham nascido para os Godos logo que, assentando o seu domínio nas Espanhas, possuíram de pais a filhos o campo agricultado, o lar doméstico, o templo da oração e o cemitério do repouso e da saudade.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)
«Mas como erguer-se o sonho duma literatura, se esse sonho é abafado nesse cárcere de sombras?»
Eduardo Frias, «80% de analfabetos!!»,
Renovação #1, 2-VII-1925
«Canto as armas e os homens / Porque a tribo me disse: tu guardarás o fogo.»
O Canto e as Armas (1967) - «O Canto e as Armas»
«A lei económica de Gresham, -- de que a má moeda expulsa a boa moeda, tem a sua mais completa exemplificação no nosso campo mental.»
Correia da Costa, «Da vida social portuguesa - Boletim semanal»,
Revista Portuguesa #2, 17-III-1923
(ed. fac-similada apresentada por Cecília Barreira)
Maria Gabriela Llansol: «["] Sinto que o mistério de cobrir vária áreas se desfaz, e uma só das suas gotas se adensa ainda, uma contracção enérgica de doçura que pousou sobre a mesa. Um ramo de roseira aponta para mim, e Eckhart, Suso, Hildegarda, Marie d'Oignies, Marguerite d'Ypres sentam-se à minha volta, observando-me no meu seio despido pelo cansaço."» Sintra em Passo de Pensamento (póst., s.d.) § Machado de Assis: «Sentou-se ao cravo; reproduziu as notas e chegou ao lá... / -- Lá, lá, lá... / Nada, não passava adiante. E contudo, ele sabia música como gente. / Lá, dó... lá, mi... lá, si, dó, ré... ré... ré... / Impossível! nenhuma inspiração. Não exigia uma peça profundamente original, mas enfim alguma cousa, que não fosse de outro e se ligasse ao pensamento começado.» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» § Fialho de Almeida: «Que bela a alegria sob os castanheiros dum parque, no coração da vida rústica, pelo braço da franzina miss com quem aos vinte anos se sonha, alta, musical, com maravilhas patrícias de mãos.» O País das Uvas (1893) - «Pelos campos» § Millôr Fernandes: «Quando um técnico vai tratar com imbecis, deve levar um imbecil como técnico.» Pif-Paf (2004) - «Confúcio disse» - antologia por João Pereira Coutinho § Branquinho da Fonseca: «Foi no Inverno, em Novembro, e tinha chovido muito, o que dera aos montes o ar desolado e triste dessas ocasiões. As pedras lavadas e soltas pelos caminhos, as barreiras desmoronadas, algumas árvores com os ramos torcidos e secos.» O Barão (1942) § Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano (1973) .../... «De todo o modo, e independentemente dos juízos que se formulam a respeito das posições que noutras circunstâncias têm sido assumidas pelo Prof. Francisco Moura, com cujas opiniões e atitudes eu mesmo não raras vezes me encontro em discordância, estou certo de que V. Ex.ª concordará com que se trata de uma pessoa merecedora do máximo respeito.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano (1985) - ed. João Freire Antunes
«Mosteiro de Santa Maria da Victoria, 1920
Na Cova da Batalha ficou dita um dia para sempre a Vontade de Portugal.»
José de Almada Negreiros, «Histoire du Portugal par Coeur»,
Contemporânea #1, Maio 1922
«Em cada poema estou mas não sozinho / antes de mim a língua e os que primeiro / cantaram antes de mim»
Praça da Canção (1965) - «Canção Primeira»
«O apeadeiro desapareceu. Um padre pediu à CP que lhe desse as belas pedras de granito das paredes e do cais, levou-as para a vila e fez com elas uma casa para a terceira idade. O local foi arrasado, mas por desleixo ou esquecimento deixaram as placas que avisavam do perigo de atravessar desatento a linha.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
«Hoje o tempo não me enganou. Não se conhece uma aragem na tarde. O ar queima, como se fosse um bafo quente de lume, e não ar simples de respirar, como se a tarde não quisesse já morrer e começasse aqui a hora do calor. Não há nuvens, há riscos brancos muito finos, desfiados de nuvens. E o céu, daqui, parece fresco, parece a água limpa de um açude.» José Luís Peixoto, Nenhum Olhar (2000)
«["] Há passagens do relatório que esclarecem o problema, passagens aparentemente insignificantes, mas que talvez sejam efectivamente outra coisa, como o facto de o pai jogar bowling com garrafas, quando lá no bairro ainda ninguém sequer sabia o que era o bowling, isto depois de beber o conteúdo das garrafas, eram garrafas de vinho, cerveja, aguardente e o mais que viesse, ele ficava bêbado e depois jogava bowling e partia as garrafas com uma grande bola de prata de chocolates, e o rapaz ficou sempre com o som nos ouvidos, o som de garrafas partidas enchendo a noite, um perpétuo estilhaçar de nervos."» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)
«Para o lobo o povoado não é uma aspiração: -- é uma necessidade. E quantas vezes o lobo encontra o seu quinhão tragado pelos vermes.!»
Ferreira de Castro, «"Os novos" -- Conceitos de Zaratustra», A Hora #1, 12-III-1922
(da edição fac-similada, apresentada por Paulo Samuel)
«É lei de Deus este aspirar imenso...»
Sonetos Completos (1886) - «A Santos Valente»
«A vida política duma nação é, em grande parte, o reflexo da sua vida intelectual, dos seus movimentos de ideias, das aspirações mais profundas do seu escol.»
Raul Proença, "Apresentação" da Seara Nova #1, 15-X-1921
(todos as citações a partir da Antologia organizada em 1971 por Sottomayor Cardia,
sem esquecer o imprescindível trabalho coordenado por Luís Andrade, Revistas de Ideias e Cultura,
e ainda uma calorosa saudação a Daniel Pires
«Andam pombas assustadas / No teu olhar adejando,»
Trocando Olhares (póst., 1994)
«Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo;» Raduan Nassar, Lavoura Arcaica (1975)
«Por cima da estrada real, nem a sombra de uma nuvem põe um remendo no buraco do céu. O sol abre os grandes olhos de rei, estende os braços fumegantes para os quatro pontos cardeais e arde, enfeitiça o mundo.» Antunes da Silva, Suão (1960)
«Abriu os olhos, estremunhada. A necessidade, feita hábito, de acordar cedo, perdera-a, ela, logo nos primeiros dias de adaptação aos horários e empecilhos daquela casa. Nessa manhã, porém, fazia dezassete anos.» Assis Esperança, Servidão (1946)
Tão excitados que estão para aí uns comentadores perante a alegada ameaça de Zelensky perturbar as comemorações do dia da vitória em Moscovo. Ouvindo-os, ficamos a saber que Putin está cheio de medo. Estou para ver, acção e reacção.
«Eis nos batéis o fogo se alevanta / Na furiosa e dura artilharia; / A plúmbea péla mata, o brado espanta; / Ferido, o ar retumba e assobia.»
Os Lusíadas (1572) , I-89
Já me ri hoje com este título analfabeto do Expresso; mas o que não deve ser deixado passar em claro são as reacções asnáticas no parlamento, equivalentes ao asinino título do Expresso, no que respeita à posição do PCP.
Ora o PCP tem salvo a honra daquele convento. Pessoalmente, talvez preferisse que os únicos deputados (creio) que sobre a guerra da Ucrânia têm uma posição decente e ponderada, tivessem permanecido no hemiciclo em silêncio e sem aplaudir (como pode o silêncio ser eloquente, em certas situações...) -- mas eles é que sabem.
Quem insulta a inteligência é a criatura que pergunta sobre qual seria a posição do PCP se a Rússia invadisse Portugal -- arre, que não tem vergonha na cara, ou então é estúpida todos os dias; ou o acólito do CDS que pediu desculpa à Ucrânia pela posição do PCP.
Não sei do que me ria mais: se do deputado Núncio (oh, são tantas as vezes...) ou dos burros do Expresso.
«Até parecia injustiça de Deus que aqueles campos tão férteis, tão vastos, estivessem quase ao abandono, porque o senhor Esteves, sendo rico, morava na vila, nunca vinha ali e o rendeiro, velho e sovina, preferia deixar a terra sem cultivo a pagar a alguém que o auxiliasse.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)
«Invejo -- mas não sei se invejo -- aqueles de quem se pode escrever uma biografia, ou que podem escrever a própria. Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho a dizer.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego (póst., 1982)
«No meio, porém, da decadência dos Godos, algumas almas conservavam ainda a têmpera robusta dos antigos homens da Germânia. Da civilização romana elas não haviam aceitado senão a cultura intelectual e as sublimes teorias morais do cristianismo. » Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)
«Regressarei àquela terra / Que, por não ser minha, / O é ainda mais?»
Ouvir a Palavra (2017) - «Nenhum movimento se repete»
«Às vezes dentre o muro / Irrompe o pássaro / Da imaginação»
Opus 7 / Oferenda II (1994)
«A cada par que a aurora enlaça, / como é pungente o entardecer!»
A Cinza das Horas 1917) - «Chama e fumo»
Caracterização: romance de costumes; romance de espaço; romance psicológico; romance social, autobiografismo
Tema: o
desencontro amoroso (tema eterno - José Régio), a questão de classe; o entendimento
do casamento por Margarida 394-395.
Personagens -- o narrador mostra simpatia por todas Margarida Clark Dulmo, João Garcia, mas também o homossexual Ângelo ou
patifes como Januário Garcia e Diogo Dulmo, não são desprovidos de humanidade.
Ou seja, não são caricaturas, pecha muito apontada, por exemplo, ao Eça;
Margarida: uma
mulher e três homens: João Garcia, formado em Direito, mas poeta; militar de
circunstância; Roberto Clark, o tio de Londres, muito na sua; André Barreto, o
aristocrata de modos e extirpe recente, mas endinheirado;
Mateus Dulmo, o velho tio; os
mortos, como Margarida Terra ou a moribunda mãe de João Garcia, Emília;
(Alfredo Nina – Jaime Brasil);
a memória de Fernão Dulmo (Ferndinand van Homen) - um dos primeiros povoadores da ilha Terceira, com mercê em 1486, por D. João II da capitania da Ilha das Sete Cidades e outras a descobrir.
Episódios: a "peste" (o imponderável); a caça à baleia (o trabalho); a hospitalidade e os dias passados na Urzelina; a tourada em São Jorge (o lazer); o epílogo perfeito: a serpente
Estratificação social: nobrezas
antiga, burguesia recente e povo (Manuel Bana).
Atmosferas:
paisagens, clima, o território (ilhéu, neste caso); o mar omnipresente.
Estilo ironia, graça, fluência, riqueza das imagens e das metáforas; Nemésio escreve como a água que corre -- já o escrevi e repito.
Erudição profunda do esplêndido académico, dada com toda a naturalidade do grande poeta que foi.
Um tratado em tom elegíaco sobre a amizade, o amor e o sentido da vida. Em paralelo: uma demasiado humana nostalgia de um mundo morto e em vias de ser sepultado pelos escombros da guerra (o livro saiu em 1942). Não diria nostalgia do Império Áustro-Húngaro -- bizarro em quem fora, em tempos, comunista, e depois dissidente -- mas de uma circulação, e até mistura, de povos e línguas, hábitos e indumentárias, dentro de fronteiras reconhecíveis; dir-se-ia o núcleo primevo de O Mundo de Ontem, do Stefan Zweig.
I
Conto publicado na Contemporânea n.º 1 (1922) – revista para gente civilizada e para civilizar gente
Literariamente é uma novela de raciocínio em que se trabalha a destreza argumentativa; politicamente é uma blague, uma vez que o banqueiro não é efectivamente anarquista, embora queira convencer o interlocutor de que o é.
Posicionamento político de Fernando Pessoa: uma direita não alinhada, embebida de um nacionalismo místico, mas também mítico, contrastando com a decadência do país, que vem do século anterior.
Era um admirador contido do fascismo de Mussolini – também ele evocador de um passado mítico, brutal, vigoroso e tecnicamente progressivo (Marinetti, um futuro fascista) – e detestava Salazar pelo que este representava de passadismo, ruralismo, seminarismo…
E detestava ainda mais todas as ideias democráticas, revolucionárias e de esquerda, socialistas, anarquistas ou bolchevistas.
Talvez seja por isso que ele caracteriza os “falsos” anarquistas como “esses parvos dos sindicatos e das bombas” (p. 23)
II
Senão, vejamos:
a glorificação ultra individualista do salvar-se a si próprio deixando de ser dominado pelo dinheiro, possuindo-o – nunca seria libertação, uma vez que se escravizou a esse desígnio: ter dinheiro para não ser dominado por ele e, naturalmente, todo esse capital acumulado na banca e nos negócios, se preciso de uma forma desleal, como confessa o banqueiro (p. 54), são incompatíveis com a ética e a moral anarquistas – até porque tal só seria conseguido, mais do que pelo engano, pela exploração dos outros.
Pessoa era suficientemente informado, embora pudesse detestar o anarquismo, de que nem este é incompatível com a actividade bancária ou comercial – previstas por Proudhon pelas mutualidades e pelas cooperativas. Mas isso já lhe estragaria o argumentário.
Outra fraqueza conceptual deste conto ou novela de raciocínio, reveladora aliás do preconceito do autor é a caracterização do anarquismo como algo que se concentra «nos tipos dos sindicatos e das bombas» (p. 22). Esta é uma expressão parcelar, incompleta e distorcida, no fundo a visão do vulgo burguês, pouco condizente, de resto, com as pretensões de uma revista de elite ou para as elites.
Sim, há um anarquismo individualista ou ultra-individualista, que põe o Eu em primeiro lugar, não caindo na imoralidade cínica do banqueiro pessoano que para se livrar a si escraviza forçosamente os outros, com a pobre desculpa que essa tirania já existiria, e que portanto ele limitou-se a utiliza-la, garantindo assim o anarquismo de um, o seu próprio.
Em segundo lugar, “os tipos das bombas” são uma corrente ultraminoritária do movimento anarquista, que provocou muitos estragos à própria ideia, entre finais do século XIX e o princípio do XX, execrada pela larguíssima maioria das correntes e equiparadas a puro banditismo e marginalidade. Foi o que ficou no imaginário.
Também a ideia de que o anarquismo é uma corrente que provém do lúmpen social e proletário faz sorrir, se pensarmos nos nomes de algumas das suas maiores figuras: um conde Tolstói, um príncipe Kropótkin, um Malatesta, filho de um latifundiário pertencente a uma das grandes famílias nobres italianas desde a Idade Média. E só falo em aristocratas, podia falar doutros casos como o geógrafo Reclus, filho de um pastor protestante ou do nosso Neno Vasco, ou seja Gregório Nazianzeno Moreira de Queirós e Vasconcelos, jurista e revolucionário, filho de um abastado comerciante do Norte. Não foi Francisco de Assis, esse anarquista avant la lettre, um jovem rico que se despojou dos seus bens?
III
A construção é/parece perfeita; os pressupostos estão errados; logo, a conclusão é falsa.
«Disponho-me a confessar pecados / que não cometi, esperando que a penitência / corresponda à gravidade de todas as omissões.»
Mais Tarde (2003) - «Contrabando»
«No Talasnal o Emílio Riço já nos noventa e seis anos de idade morreu com a boca cheia de moscas a apanhar o sol da tarde, e a mulher foi dali levada à força para um asilo da Lousã, mais cega do que uma fraga e com o juízo de todo varrido da cabeça, porque também com mais de noventa anos punha de fora da blusa os sacos vazios das mamas e gritava, Olívia de Ataíde, pura e bela!,» Ascêncio de Freitas, A Noite dos Caranguejos (2003)
«E de repente dobra o ângulo oposto da casa, vem direita a mim. Um breve ruflar de saias compridas no silêncio, desliza imperceptivelmente, traz um molho de couves num braçado, tia Luísa. / -- Já vieste, Paulinho? / Pára um pouco ao pé de mim. / -- Estás morta! -- grito-lhe eu para o espaço em redor.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)
«Alguns tentaram abrir as conservas com as chaves apropriadas, mas não conseguiram melhor que esventrá-las depois de terem cortados os dedos nos irregulares e afiados rebordos metálicos. / -- Quem lhes metesse as chaves d'arame pas goelas a baixo! -- resmungou um gigante fardado, grande como um eucalipto, de olhos pequenos e redondos, mal encaixados pela testa curta, as maçãs do rosto avermelhadas e que transmitia a ingenuidade do sorriso de uma criança própria dos simples de espírito.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)
«Aquilo a que em Portugal chamam impropriamente modernismo, chama-se exactamente -- renovação. Renovação na arte, na literatura, na vida social, para que a vida social, a literatura e a arte sejam de hoje e sejam por conseguinte a verdade.»
Victor Falcão, Manifesto da Revista Portuguesa #1, 10-III-1923
«Brisas sopram. Sopram, sobre nós, nas veias. Sangue / sobre sangue. Veias sobre veias.»
Luz Triste (2005)
Segue-se a norma adoptada em Angola e Moçambique, que é a da ortografia decente.