terça-feira, maio 22, 2018

estou a ler


«Seu colo tem do lírio a rígida firmeza, / Seu amor é um céu católico e distante...» Gomes Leal, «O visionário ou Som e cor», Claridades do Sul (1875) *

«A filha do usineiro de Campos / Olha com repugnância / Para a crioula imoral.» Manuel Bandeira, «Não sei dançar» Os Melhores Poemas de Manuel Bandeira (1984)**


* Edoi Lelia Doura -- Antologia das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa (ed. Herberto Hélder, 1985)
** Poezz -- Jazz na Poesia em Língua Portuguesa (ed. José Duarte e Ricardo António Alves, 2004)

segunda-feira, maio 21, 2018

«No princípio de Julho, por um tempo extraordinariamente quente, ao anoitecer, saiu um rapaz do quarto modesto que ocupava na Rua de S...» Féodor Dostoievski, Crime e Castigo (1866) (trad. Maria Franco)

«Na minha opinião, não se podem criar personagens senão depois de ter estudado muito os homens, assim como não se pode falar uma língua senão depois de a ter aprendido a fundo.» Alexandre Dumas, Filho, A Dama das Camélias (1848) (trad. Sampaio Marinho)

«Isto só podia acontecer na Inglaterra, onde mar e homens se misturam, digamos -- onde o mar entra pela vida da maior parte dos homens e os homens sabem qualquer coisa ou tudo sobre o mar através do seu lazer, das viagens ou do pão de cada dia.»  Joseph Conrad, Mocidade -- Uma Narrativa  (1902) (trad. Aníbal Fernandes)

um verso de António Arnaut

«Só a linha recta ousa o infinito!» Nobre Arquitectura (2003)
«Estendido onde a sombra lhe parecera mais agradável, Manuel da Bouça seguia o trabalho da ave e recordava o tempo da infância, já distante, em que vasculhava veigas e montes à busca de ninhos, só pelo prazer de os descobrir e disso se vangloriar ante o rapazio do lugarejo.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

Ao longe, por detrás do segundo barco, mostravam-se as Desertas, negras na manhã radiosa, mas pousadas em mar tão manso que, mais do que ilhas atlânticas, dir-se-iam contrafortes dum lago.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

«Porém, como quer que o pai lhe falecesse, e a mãe contrariasse a projectada formatura, em razão de ficar sozinha no solar de Caçarelhos, Calisto, como bom filho, renunciou à carreira das letras, deu-se ao governo do casal algum tanto, e muito à leitura de copiosa livraria, parte de seus avós paternos, e a maior dos doutores em cânones, cónegos desembargadores do eclesiástico, catedráticos, chantres, arcediagos e bispos, parentela ilustríssima de sua mãe.» Camilo Castelo Branco, A Queda dum Anjo (1865)

domingo, maio 20, 2018

os dramáticos gritos das fêmeas

São várias as mulheres, não se vêem. Já uma vez tinha ouvido estes gritos lancinantes, quando, há uns anos, foram detidos uma série de indivíduos, no Porto, creio que no caso da máfia da noite, ou coisa que o valha. Então como agora, à porta do tribunal do Barreiro, os mesmos gritos, dramáticos, quase guturais. Gritos que não sei interpretar: se de desespero ou de conforto, se juras de fidelidade na adversidade ou ritual colectivo de raiva contra o mundo.

estampa CCCXIII - Léon Bakst


Modelo (1905)

sábado, maio 19, 2018

estou a ler


«Entre feridas brumas, um muro branco branco escorre do sol.» Vergílio Alberto Vieira, Coágulos (2002)

«Sem esta terra funda e fundo rio, / Que ergue as asas e sobe, em claro voo; / Sem estes ermos montes e arvoredos, / Eu não era o que sou.» Teixeira de Pascoais, As Sombras (1907)*

«-- Eu faço versos como quem morre.» Manuel Bandeira, «Desencanto», A Cinza das Horas (1917)**

* Antologia Poética, ed. Ilídio Sardoeira [1977]
** Os Melhores Poemas de Manuel Bandeira, ed. Francisco de Assis Barbosa (1984; 4.ª ed, 1986)


quanto tempo resiste um populista?

O caso Bruno de Carvalho (estreia absoluta neste blogue) deve ser um regalo para os sociólogos, politólogos e outros observadores. Sem fazer grandes juízos de valor sobre tudo o que se passa no espaço público -- a não ser que este país é extraordinariamente cansativo pela boçalidade que se estende do bom povo às más elites --, neste momento só uma coisa me suscita interesse: ver como resiste o populista Bruno de Carvalho (emprego o termo 'populista' da forma mais neutral possível), ao ataque do mundo dos futebóis, da imprensa, da política e, eventualmente, do judicial. Por quanto tempo? À partida, diria que está por um fio; ninguém tem tanta força para arrostar com alguns dos sectores mais fortes da sociedade; mas quantos dos tais 3,5 milhões estão com ele?; e quem e quantos, do submundo da finança, continuam a sustentá-lo? A questão que prende o país nos próximos dias. 

«Going Places»

«o teu retrato transita de solidão em solidão» m. parissy, «canção do mar» Cafurnas (2002)

«A luz do mundo nestas margens irreais do rio triste / Nas águas brilha é um rumor é um clamor metal intenso» Luís de Miranda Rocha, Os Arredores do Mar, os Subúrbios da Noite (1993)

«Passei pela minha vida / Um astro doido a sonhar.» Mário de Sá-Carneiro, «Dispersão», Dispersão (1914)

quinta-feira, maio 17, 2018

50 discos: 26. SONGS FROM THE WOOD (1977) - #6 «Velvet Green»



«Por vezes as cartas geográficas representam / uma aldeia marítima entre rochas / muros brancos / onde uma criança desenha um barco esconde / o mar.» João Miguel Fernandes Jorge, Alguns Círculos (1975)

«Depois, / com valados, elevações e planuras, e mais rios // entrecortando a savana, e árvores e caminhos, / aldeias, vilas e cidades com homens dentro, / a paisagem estendia-se a perder de vista / até ao capricho de uma linha imaginária.» Rui Knopfli, «Pátria», O Escriba Acocorado (1978)

«Quantos há que passaram entre as turbas, / Os felizes do mundo, as alegrias, / E ninguém os viu rir!» Gomes Leal, «Trevas», Antologia Poética (s.d.) (ed. Cecília Barreira)
«O local não era desagradável, era mesmo perfeito, desde que não se encarasse como uma decepção, mas sim como um sonho.» G. K. Chesterton, O Homem que Era 5.ª Feira (1908) (tradução de Domingos Arouca)


«Tinha uma voz profunda, sonora, e os seus modos revelavam uma espécie de afirmação obstinada de si mesmo em que não havia agressividade.» Joseph ConradLord Jim (1900) (tradução de Cármen González)


«Tudo nele se  caracterizava pela ênfase: o modo autoritário, a voz decidida, inflexível, os cabelos eriçados em torno de uma brilhante careca.» Charles Dickens, Tempos Difíceis (1854) (tradução de Domingos Arouca)

quarta-feira, maio 16, 2018

contentamentos de pai


«Perfeito o horizonte se descerra / tecnicamente pela mão de Deus» António Barahona, Noite do Meu Inverno (2001)

«Cheira a ervas amargas, cheira a sândalo... / E o meu corpo ondulante de sereia / Dorme em teus braços másculos de vândalo... » Florbela Espanca, Juvenília (1931, póst.)

«Um sentido clamor, como suspiro / De amargurado tom, vem da amurada / Do alteroso galeão.» Almeida Garrett, Camões (1825)

terça-feira, maio 15, 2018

Israel compromete o seu direito à existência

Fui um admirador do estado de Israel, pelo menos até à reiterada confiança que o seu eleitorado tem dado a um tipo pouco recomendável, chefe de governos que albergam organizações ultranacionalistas e religiosas.
Até agora, fui um defensor da existência de Israel; mas quando vejo um estado abater como gado gente que se manifesta contra a ocupação da terra que lhe foi roubada e da qual foi expulsa (não precisam de ser mulheres, crianças e velhos) --, não só não me apetece continuar a defendê-lo, como estou a um passo de considerar a sua existência nociva.
«Era o pino do inverno / e a cidade atravessava uma idade glacial // do coração.» Rui Pires Cabral, «"Em algumas das fotos aparecíamos juntos."», Oráculos de Cabeceira (2009)

«E quando páro e faço a propaganda / dos lugares mais comuns da poesia / há um terror quase obsceno / nos seus olhos maternais» Alexandre O'Neill,, «Em pleno azul», Tempo de Fantasmas (1951)

«Na noite da consciência / versos só podem ser pragas.» José Fernandes Fafe, «Sonetilho velho e actual», A Vigília e o Sonho (1951)

segunda-feira, maio 14, 2018

criadores & criatura

 

Uderzo, Goscinny e Humpá-pá, o Pele-Vermelha
imagem


«O sol descia rápido, já perto / De seu diurno termo, começava / A distinguir no verde-mar das águas / A açafroada cor de que se adorna / No ocaso derradeiro.» Almeida Garrett, Camões (1825)

«Se ao meu ouvido / Chega o rugido / Do teu vestido / Indo a roçar, / Que som me vibra / Não sei que fibra, / Que me equilibra / A mim no ar?» João de Deus, «Casto lírio», Campo de Flores (1893)

«Um caminho de areia conduzindo a parte nenhuma.» Rui Knopfli, «Pátria», O Escriba Acocorado (1978)

«Take The 'A' Train»

quinta-feira, maio 10, 2018

lido


«Era a terra calada como um monge...» Florbela Espanca, «Idílio», Antologia Poética (2002)

«O som do mundo é irreal sobre a cidade de Lisboa» Luís de Miranda Rocha, Os Arredores do Mar, os Subúrbios da Noite (1993)

«os cigarros são fumados com a promessa / de que o fumo não acabe» m. parissy, «viagem de comboio com poemas do zé petinga», Cafurnas (2002)
«Na cabeça calva, faces lívidas, queixo recuado, os olhos guardavam um terror de demência, dilatados de espanto pelo próprio grito que lhe escancarava a boca.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)

«Nas costas da Cantábria o paquete encontrou tão rijos mares que a sr.ª D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga do beliche, prometeu ao Senhor dos Passos de Alcântara uma coroa de espinhos, de ouro, com as gotas de sangue em rubis do Pegu.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póstumo, 1901)

«Respirei o ar quente e húmido, cheirando a frutas e a cana-de-açúcar, e pouco a pouco comecei a perceber um outro odor, mais subtil, como o de um corpo em decomposição.» José Eduardo Agualusa, Nação Crioula (1997)

quarta-feira, maio 09, 2018

Dia da Europa

O LIVRE elaborou várias bandeiras alusivas ao Dia da Europa ou Dia da União Europeia, e partilhou-as com os seus amigos. Porque a ideia é demasiado boa (a das bandeiras também, mas refiro-me à de união europeia), e porque não podemos permitir-nos deitar fora o bebé com a água do banho, continuo a ser fortemente por uma Europa, dos povos, claro e não das corporações. Várias das bandeiras são particularmente bem esgalhadas, mas como o desafio é para escolher uma, vai a óbvia, que em si acolhe todas as outras.
«O meu destino é outro -- é alto e é raro.» Mário de Sá-Carneiro, «Partida», Dispersão (1914)

«Venho de longe, no verbo latino, no axioma / grego, fui escravo no Egipto, homens / morreram a meu lado e vendo-lhe os olhos / agónicos e súplices, voltei horrorizado o rosto.» Rui Knopfli, «Proposição», O Escriba Acocorado (1978)

«Ontem choveu sem descanso / e fizemos tudo mal.» Rui Pires Cabral, «"We are flint and steel to each other."» Oráculos de Cabeceira (2009)