sábado, fevereiro 04, 2023

antologia improvável - Pedro Tamen

 

Não tenho graves defeitos

nem tão-pouco grandes qualidades.

Leve portanto a barca

vai do lastro mais perigoso.


Tenho porém fortuitos golpes,

curtas memórias, amores subtis,

gulosas sensações bem mais que sentimentos.

Será isto pano para vela,

vento, seco pau do remo?

Guião de Caronte (1997)

«Emerald (Isle of Gola)»

negrume na linha clara

Depois de Tintin, o outro grande ícone belga da BD é Spirou, um adolescente, groom do Moustic Hotel. Criado em 1938 por Rob-Vel (1909-1991), para a revista que leva o seu nome e ainda hoje se publica, tem pontos de contacto com a personagem de Hergé: jovens que vão amadurecendo imperceptivelmente, guiados por um sentido de justiça e pelo companheirismo. Há uma mascote, o esquilo Spip; um amigo dilecto, Fantásio, jornalista; um sábio, o conde de Champignac; só não há Dupond & Dupont, mas em contrapartida uma criatura igualmente esquipática: o Marsupilami. Enquanto Tintin, porém, não teve continuidade, por vontade de Hergé, para Spirou trabalharam muitos artistas, sendo o mais notável André Franquin (1924-1997). A série foi, entretanto, confiada a diversos autores; um deles, Émile Bravo (Paris, 1964), tem em curso de publicação uma extensa narrativa de quatro tomos, L’Espoir Malgré Tout / A Esperança Apesar de Tudo, continuando a inicial e brilhante incursão do autor nas aventuras do nosso herói, em Le Journal d’un Ingénu (2008).

O primeiro volume, Un Mauvais Départ, coloca-nos em Bruxelas, em Janeiro de 1940, meses antes da invasão da Bélgica. Spirou, muito novo, mas com uma experiência de vida difícil, é uma personalidade forte, com dúvidas, paixões e uma candura própria da idade, contornada pela inteligência. Um dos motores da narrativa é a sua paixão por uma jovem comunista judia-alemã, do Komintern, de quem recebe uma carta inquietante – a História a desenrolar-se ao lado da vida, e a colher as suas vítimas.

Se Spirou representa a ética em tempos bárbaros, Fantásio aparece-nos como um indiferente e apatetado homem da rua, o que significa uma desvalorização da personagem como a conhecíamos. O jornalista originalmente é um obsessivo hiperactivo, o complemento de Spirou, tal como Haddock o é de Tintin; mas como Bravo de alguma forma refunda a série, é possível que Fantásio evolua com as provações da guerra. A trama é, de resto, muito rica e claramente escrita para os confusos dias de hoje.

Bravo tinha duas dificuldades de monta nesta abordagem vincadamente autoral: a primeira é a de se defrontar com um clássico; a outra, a compatibilização do fundo humorístico de Spirou com refugiados de guerra e crianças com fome. O que pareceria uma missão impossível, é plenamente conseguido, à custa, claro, do pobre Fantásio, a que se juntam, hilariantes, separatistas flamengos, vizinhos franceses, escuteiros católicos, colaboracionistas… – estes geralmente representados em tom cinzento, enquanto os nazis estão de negro carregado, em (im)pura linha clara.


L’Espoir Malgré Tout – vol. I

Texto e desenho: Émile Bravo.

Dupuis, Bruxelas, 2018

(Setembro de 2019)






sexta-feira, fevereiro 03, 2023

«Six In – Six Out»

figuras de úrsula (ucranianas CLV)

Figuras de úrsula. Esta boneca comandada pelos americanos veio com as aldrabices das sanções e de quão catastróficas elas estão a ser para a Rússia. E agora com o 10.º pacote é que vai ser.  

Deixada à vara larga pelos estados europeus, simboliza a impotência da UE, mero instrumento da política externa dos Estados Unidos, quando poderia ter sido muito outra coisa, parte da solução, quando efectivamente se tornou parte do problema. 

Ainda não vi nada sobre os resultados desta "cimeira". Apostaria dobrado contra singelo que dali não sairá nada a não ser palavreado oco e mais uns milhões para "ajudar a Ucrânia". 

Que estúpidos e que zeros...

1 disco, 1 faixa: NEW BLOOD (2011) - #2. «Downside Up»

quinta-feira, fevereiro 02, 2023

antologia improvável - Cecília Meireles

 NOITE


Húmido gosto de terra,

cheiro de pedra lavada,

-- tempo inseguro do tempo! --

sombra do flanco da serra, 

nua e fria, sem mais nada.


Brilho de areias pisadas,

sabor de folhas mordidas.

-- lábio da voz sem ventura! --

suspiro das madrugadas

sem coisas acontecidas


A noite abria a frescura

dos campos todos molhados

-- sozinha, com seu perfume! --

preparando a flor mais pura

com ares de todos os lados.


Bem que a vida estava quieta.

Mas passava o pensamento...

de onde vinha aquela música?

E era uma nuvem repleta,

entre as estrelas e o vento.

Viagem (1938) / Antologia Poética (1963)

«Out to Sea»

quarta-feira, fevereiro 01, 2023

quadrinhos


 

«Never Belong»

o velho solar beirão e outros caracteres móveis

Triunfo (década de 1950) «As obras ficavam caras e os rendimentos eram reduzidíssimos, de forma que o velho solar foi tombando aos poucos, ficando a assinalar a antiga beleza arquitectónica, apenas, umas colunas góticas a que os rendeiros encostavam os utensílios da lavoura e molhos de canas altas, sustentando o alpendre e amparando os casebres que ainda abrigavam os caseiros.» Sarah Beirão

Viagens na Minha Terra (1846): «Na estalagem da Azambuja, o que havia era uma pobre velha a quem eu chamei bruxa, porque, enfim, que havia eu de chamar à velha suja e maltrapida que estava à porta daquele asquerosa casa?» Almeida Garrett

A Cidade e as Serras (póstumo, 1901): «Na idade em que se lê Balzac e Musset nunca atravessou os tormentos da sensibilidade; -- nem crepúsculos quentes o retiveram na solidão de uma janela, padecendo de um desejo sem forma e sem nome.» Eça de Queirós

quadrinhos


 

terça-feira, janeiro 31, 2023

a "tosca cariátide" e outros caracteres móveis

 Emigrantes (1928): «Assim imobilizado, era tosca cariátide de sobreiro aquele corpo meão mas rijo, de linhas enérgicas, mas sem adiposidades, todas elas atestando pertinácia no trabalho e saúde campesina, saúde dos que se levantavam quando se apagam as últimas estrelas e se deitam quando as primeiras se acendem.» Ferreira de Castro 

Húmus (1917): «Debaixo destes tectos, entre cada quatro paredes, cada um procura reduzir a vida a uma insignificância.» Raul Brandão

Nenhum Olhar (2000) «Há-de ser um instante em que não se veja um pardal, em que não se ouça senão o silêncio que fazem todas as coisas a observar-nos.» José Luís Peixoto

«I Swear (To God)»

antologia improvável - Antero Abreu

 COCKTAIL


Uma parte de insatisfação

Para duas de esperança

Algumas gotas

De filosofia e história.


Bebe-se dum trago

E dá força pra carago.

30/3/979

Poesia Intermitente (1987)

quadrinhos


 

segunda-feira, janeiro 30, 2023

"um repelão de remorso" e outros caracteres móveis

 O Barão de Lavos (1891): «A súbita aparição daquele par honesto e simples, caíndo de chofre com toda a galhardia e lúcida expansão duma vida exemplarmente calma no torvelinhante mistério da alucinação do seu vício, envergonhou-o, aclarou-lhe a razão, deu-lhe a medida do próprio aviltamento, e, como um raio de luz faiscando nas estalactites duma caverna, acordou-lhe na consciência um repelão de remorso.» Abel Botelho

Lilias Fraser (2001): «Acabaria por acostumar-se e quando, anos depois, em Portugal, viu abater-se uma cidade inteira, levantou-se em silêncio do enxergão, fechou a trouxa e foi dormir para o jardim, sem avisar ninguém daquilo que iria passar-se.» Hélia Correia

A Catedral (1920). «Agora, porém, fremindo nos estos do amor aceso, arrebatado por toque místico, com a visão experimentada e novo sentido das formas, o arquitecto adivinhara, sob o invólucro sacrílego de estuques e argamassas, a envergadura, o corpo esplêndido e branco duma catedral da Idade Média.» Manuel Ribeiro

«Carry On»

mandaram o Sérgio Furtado para a Ucrânia sem saber ler nem escrever, onde os galambas agora? (ucranianas CLIV)

 Deixei de ouvi-lo praticamente desde o início, espécie de Cândida Pinto de calças, que foi para Kiev debitar propaganda do Pentágono, coisa que poderia ter feito a partir de Lisboa.

Hoje, algo que deveria ter sido ensinado a um jornalista: não se entrevista prisioneiros de guerra com os carcereiros ao lado, coisa que este rapaz alegremente ignora ou para a qual se está a marimbar.

É só mais um atropelo; no entanto, estou curioso para saber o que dirá agora nas redes, o actual ministro Galamba, um asneirático incontinente que encheu de doestos o jornalista Bruno Amaral de Carvalho -- aliás, repórter exemplar que honrou a classe --, porque este se atreveu a fazer a cobertura da guerra pelo lado russo. 

domingo, janeiro 29, 2023

a arte de começar

 «Maria Adelaide completara dezasseis anos quando lhe colhi as primícias, e, à semelhança do que sucede com frequência na terra onde habitávamos, os pais, que eram pobres, consentiam em que mantivéssemos relações coram populo, indo eu todas as noites dormir na sua companhia. Podia tê-la tirado logo da família, montando-lhe casa à parte, mas nem eu nem os pais sentíamos grande desejo de efectuar a separação: eles porque tendo-a em sua companhia melhor lhe exploravam os proventos da mancebia; eu para não dar mais solidez à ligação, esperando vagamente que fosse passageira...» M. Teixeira-Gomes (1860-1941), Maria Adelaide (1938)

«Run Sister Run»

antologia improvável - Pedro Tamen

 HERODES

para Miguel Viqueira

Gritam, mijam, cheiram a leite

azedo. Andam por aí

pelos colos da mães, montados

em burros poeirentos. E há um

que aqueles pretos dizem que há-de um dia

sentar no meu coxim o cu borrado.

Não sabem nada, uns e outros,

soltam vagidos que ninguém entende.

Dou-lhes na mona a uns

e os outros que passeiem

Analogia e Dedos (2006)

sábado, janeiro 28, 2023

"uma claridade morrinhenta" e outros caracteres móveis

«A chama de uma candeia de azeite, assente no tampo de uma cómoda, espanejava uma claridade morrinhenta sobre as coisas.» Romeu Correia, Calamento (1950)

«Ao tecer o êxito futuro, a sua expressão tornara-se sombria: os olhos castanhos, pequeninos e movediços em outros azares, paravam agora em fundo querer; as faces secas desciam, sem contracções, sobre o negro e longo bigode e a boca, de lábios delgados, dentes sujos de tabaco, aquietava-se também em cima do queixo agudo, rude, plebeu.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

«Ponho o ouvido à escuta e ouço sempre o trabalho persistente do caruncho que róí há séculos na madeira e nas almas.» Raul Brandão, Húmus (1917)

«One People One World»

antologia improvável - Carlos Daniel

 ÁGUAS DO FIM


Era o momento mais frio das águas

Um tempo norte

De películas densas

Vidro e aço

Sobrepostos

Um peso desmesurado na queda

Um sonho medonho

Uma dor intensa

Sem motivo

E um pingar pulsado

No fundo do poço

Um desabar infinito

Um cilindro de pedra

Um grito na paragem súbita

Um sonho

Uma lata vazia

Uma tampa nos olhos

Os Meus Dias (2018)

sexta-feira, janeiro 27, 2023

"pessoas mecânicas"

«Os quinze anos de Simão têm aparências de vinte. É forte de compleição; belo homem com as feições de sua mãe, e a corpulência dela; mas de todo avesso em génio. Na plebe de Viseu é que ele escolhe amigos e companheiros. Se D. Rita lhe censura a indigna eleição que faz, Simão zomba das genealogias, e mormente do general Caldeirão que morreu frito. Isto bastou para ele granjear a malquerença de sua mãe. O corregedor via as coisas pelos olhos de sua mulher, e tomou parte no desgosto dela e na aversão ao filho. As irmãs temiam-no, tirante Rita, a mais nova, com quem ele brincava puerilmente, e a quem obedecia, se lhe ela pedia, com meiguices de criança, que não andasse com pessoas mecânicas.» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)

«In the Arms of Mrs Mark of Cain»

da ideia de Civilização

«Por uma conclusão bem natural, a ideia de Civilização, para Jacinto, não se separava da imagem de Cidade, de uma enorme Cidade, com todos os seus vastos órgãos funcionando poderosamente. Nem este meu supercivilizado amigo compreendia que longe de armazéns servidos por três mil caixeiros; e de mercados onde se despejam os vergéis e lezírias de trinta províncias; e de bancos em que retine o ouro universal; e de fábricas fumegando com ânsia, inventando com ânsia; e de bibliotecas abarrotadas, a estalar, com a papelada dos séculos; e de fundas milhas de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de fios de telégrafos, de fios de telefones, de canos de gases, de canos de fezes; e da fila atroante dos ónibus, tramways, carroças, velocípedes, calhambeques, parelhas de luxo; e de dois milhões de uma vaga humanidade, fervilhando, a ofegar, através da Polícia, na busca dura do pão ou sob a ilusão do gozo -- o homem do século XIX pudesse saborear, plenamente, a delícia de viver!» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póstumo, 1901)

quinta-feira, janeiro 26, 2023

antologia improvável - Costa Andrade

 Nunca digas fim

                        a qualquer esperança


A pitangueira

                       que termina o ciclo

(repara)

deixa sementes.


Ainda que as formigas bravas e as lagartas

se tornem egoístas muitas vezes.

1961

Terra de Acácias Rubras (1961)

«In another life»

quadrinhos


 

quarta-feira, janeiro 25, 2023

oh os tanques -- mais uns quantos para os russos rebentarem (ucranianas

A julgar pelas acções eficacíssimas dos palhaços que lideram a Europa, é de esperar que os russos arrumem com os tanques -- se é que os carros vão chegar à frente de guerra. Ou alguém acredita que a Rússia abandonará as suas províncias da Crimeia e do Donbass?

Aliás, a minha convicção é a de que a Ucrânia não só já deixou de existir tal como a conhecemos, como é muito duvidoso que seja outra coisa no futuro que não um satélite de um dos contendores -- como de facto já é. Desse ponto de vista, não sei por que razão os russos deixariam Kiev, a sua capital histórica nas mãos dos americanos... Se tal acontecer, pode dizer-se que será uma derrota para a Rússia.


antologia improvável - Alberto de Lacerda

 IMPROMPTU


E assim te foste, luz de vagalume,

feita de segredo e brevidade.

Impossível definir aquele perfume

que o teu surgir me trouxe nessa tarde.

77 Poemas (1955) / Oferenda I (1984)


«Caregiver part 1 (breathing)»

terça-feira, janeiro 24, 2023

quadrinhos


 

a arte de começar

 «Foi no Domingo de Páscoa que se soube em Leiria que o pároco da Sé, José Miguéis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia. O pároco  era um homem sanguíneo e nutrido, que passava entre o clero diocesano por "comilão dos comilões". Contavam-se histórias singulares da sua voracidade. O Carlos da Botica -- que o detestava -- costumava dizer, sempre que o via sair depois da sesta, com a face afogueada de sangue, muito enfartado: / -- Lá vai a jibóia esmoer. Um dia estoura!» Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro (1875)

ética garrettiana -- ou de como sem ter visto ainda nada, Garrett vira já (quase) tudo

«Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. -- No fim de tudo isso, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas de dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1946)

«Ca Ta Da»

segunda-feira, janeiro 23, 2023

silva

 1. «Eu canto porque o instante existe / e a minha vida está completa.» Cecília Meireles

2. «Eu gostava de ter um alto destino de poeta, / Daqueles cuja tristeza agrava os adolescentes / E as raparigas que os lêem quando eles já são tão leves / Que passam a tarde numa estrela, / A força do calor na bica de uma fonte / E a noite no mar ou no risco dos pirilampos.» Vitorino Nemésio

3. «Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse. Vai, Carlos, ser gauche  na vida!» Carlos Drummond de Andrade


1. «Motivo», Viagem (1939) / Antologia Poética (preparada pela própria).  2. «O bicho harmonioso», O Bicho Harmonioso (1938)  3. «Poema de Sete Faces», Alguma Poesia (1930) / 65 Anos de Poesia (edição de Arnaldo Saraiva)

«When I Get To The Border»

domingo, janeiro 22, 2023

"um silêncio inquietante"

 «De fora chegava um silêncio inquietante. Nem estoiro de bomba, taque-taque de metralhadora, nem ruído de veículos ou de patas de cavalo. Nada.» Ferreira de Castro, O Intervalo (póstumo, 1974 [1936])

«The System Only Dreams in Total Darkness»

quadrinhos


 

sábado, janeiro 21, 2023

antologia improvável (nova série*) - Fernando Jorge Fabião

 POEMA


amparamos o mundo

à pele

fio a fio

ano após ano


por vezes

resta uma cicatriz invisível

semelhante à água de um rio

sem foz

coração aberto

cinza antes da chama


nada mais.

Fernando Jorge Fabião

Novembro / 2022

*Retomo esta antologia improvável, iniciada em Março de 2005, com um poema de Eugénio de Castro, e quu, durante uns tempos, passou a blogue, com um poema inédito do meu Amigo Fernando Jorge Fabião.



«The Governor»

a pedincha dos tanques (ucranianas CLII)

Quem anda há quase um ano a acreditar na desinformação sobe o que se passa na Ucrânia, deve estar admirado não só com a pedincha desesperada da liderança ucraniana dos já famosos tanques Leopard, como das cautelas alemãs, para não falar das desculpas esfarrapadas dos americanos para não dispensarem os seus.

Admirados, pois: então aquilo não era uma razia de russos?, mortos ás cabazadas com fome e mal equipados, tendo mesmo que fazer crowdfunding para arranjar botas?... E agora o que se vê são os ucranianos ó tio ó tio (Sam), americanos a empurrarem alemães e estes a não quererem deixar-se empurrar?...

Acontece que a pedincha resulta do facto de o alegado exército de maltrapilhos em que um grupo de propagandistas quis transformar a tropa russa rebentou com a capacidade blindada do exército ucraniano, que contava no início de guerra com mais de 850 tanques.

Que credibilidade têm esses comentadores? Nenhuma. Que respeito merecem os patetas que passam por jornalistas e continuam a debitar o que as centrais de propaganda lhe põem à frente? Que zeros...

sexta-feira, janeiro 20, 2023

grande Laerte... :D

 

«Stop and Listen»

a TAP e o desinteresse nacional

 Não é apenas o ataque à TAP por parte dos lobistas e os seus esportulados que é, no fundo um ataque ao país (como se o valor de algo tivesse que ver com a forma, quantas vezes dolosa, como é administrado...). O que acabo de ouvir, prevendo a possibilidade de ser encarada a inclusão da companhia no grupo da Iberia, é sinal de que tudo é permitido. No entanto, tal seria apenas o acelerar do desinvestimento e a perda de importância de Lisboa no contexto peninsular. A privatização da TAP não passa de um golpe na soberania do país, com todas as consequências geopolíticas que tal implica. Ponto final parágrafo.

quadrinhos


 

Costa ri-se com o estafermo, eu também lhe acho um piadão


quinta-feira, janeiro 19, 2023

dois generais, duas análises - tirem conclusões (ucranianas CLI)



 

"a Europa tem na Rússia um inimigo" (ucranianas CL)

Acabado de ouvir no carro, TSF. A frase (cito de cor) é de Diana Soller, investigadora em Relações Internacionais e também docente na Universidade de Miami, uma dos vários comentadores que se têm distinguido por servir a fast food da mal enjorcada propaganda do Pentágono.

É preciso dizer à senhora que a Rússia é tão europeia quanto Portugal, e que tem para a cultura universal, e europeia em particular, uma importância que só compara com meia dúzia de países.

Como aqui tenho escrito tantas vezes, foi a União Europeia que não soube ser independente ou equidistante q.b. numa contenda entre imperialismos, e que se tudo correr o pior possível, será outra vez vítima, desta vez não apenas de si própria. Ou então, pior; o que não é descartar: foi, como parece ser cúmplice, tendo sido já agente activo no desmantelamento sanguinário da antiga Iugoslávia.

Quando alguém balbucia disparates tão inocentemente, não sendo destituída de juízo, melhor seria afinar um pouco os critérios e ajudar a identificar os nós do problema que é esta guerra na Ucrânia; se for para amplificar propaganda, a inutilidade e cacofonia são manifestas.

razões de sobra para o Donbass russo (ucranianas CXLIX)

 O argumento histórico de há muito deixou de ser tido em conta, sobrepondo-se-lhe o Direito Internacional. Este, no entanto, como digo desde o início, é imposto aos fracos; os estados poderosos (EUA, Rússia, China) ou os que têm as costas quentes (Israel, Coreia do Norte) acatam-no e cumprem-no quando convém. Não preciso voltar a trazer exemplos.

Portanto, quando comentadores de meia-tigela vierem falar do DI ou dos "nossos valores", já se sabe que não sabem do que falam, no mínimo e para ser benigno.

Esquecendo então a História (uma utopia...) e pondo o Direito Internacional no âmbito das suas possibilidades, o Donbass ucraniano já foi, para não falar na Crimeia, obviamente, russa, e quanto ao resto se verá...

Se há Direito que não prescreve e que nunca deixará de ser exercido, quer em ditaduras como a China ou ditas democracias ditas liberais, como a Espanha, é o da Autodeterminação dos Povos. (Nós próprios aprendemo-lo à custa do nosso sangue, derramado em nome da política criminosa de Salazar nas colónias.)

Assim:

Primeira razão: Perseguidos, descriminados, acossados pelo nacionalismo de extrema-direita, incluindo neo-nazis, os russos do Donbass fartaram-se e quiseram regressar à Mãe Rússia. Já lá estão, e agora invertam a situação. (Boa sorte é do que precisam, o que obviamente não desejo.)

Segunda razão: o meio abstruso estado ucraniano sujeitou-se a ser um peão do imperialismo bélico americano com o cortejo de miséria que estamos a ver.

A liderança ucraniana não tem pois perdão, assim como não tem a da União Europeia -- particularmente estúpida e miserável --, cujo papel não difere daquela.

«Monkey in a Silo»

quarta-feira, janeiro 18, 2023

à deriva, povo e país - caracteres móveis

«Alguns, no entanto, adoçando o mando do capitão, ou subtraindo-se à vigilância dos seus homens, não conseguiram acoitar-se no veleiro, remoçando os sonhos, na secreta convicção de que aportariam a São Vicente, onde a caridade havia de acolhê-los.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)

«Pormenor importante: enfrento a janela de guilhotina que dá para o único café da povoação, do outro lado da rua, e, mais para diante, vejo o largo, a estrada de asfalto e um horizonte de pinhais dominado por uma coroa de nuvens: a lagoa.» José Cardoso Pires, O Delfim (1968)

«Vestiam os seus trinta e quatro anos feitos e vividos sempre ali, entre a agressividade dos elementos, um casaco e colete velhos, enodoados, a camisa sem gravata.» Ferreira de Castro, Terra Fria (1934)

«Mais ou Menos Isto»

a arte de começar

 «Até àquele dia de Junho de 1914 nunca fora pronunciado, em Vila Velha e no seu Concelho, o nome de Sarajevo. Em todo o país, aliás, os dedos da mão chegavam para contar aqueles que sabiam da existência de Sarajevo e onde era. Mesmo assim, o dr. Teófilo de Oliveira, notário, e autoproclamada testemunha omnisciente da história contemporânea e dos meandros da heráldica dos duques de Vila Velha, não resistiu a situar, com inesperado acerto, Sarajevo nos Balcãs, ao profetizar em pleno Café República as graves consequências do assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando da Áustria.» Álvaro Guerra (1936-2002), Café República (1982)

quadrinhos


 

terça-feira, janeiro 17, 2023

os generais-baboseira a brincar com o pagode (ucranianas CXLVIII)

 Também costumo chamar-lhes generais-nato, pensam que somos todos parvos e analfabetos e que engolimos a estratégia da guerra da informação que os Estados Unidos travam com a Rússia, cujos objectivos são: 1) convencer-nos da justeza da "ajuda" à Ucrânia (como se não fora a Ucrânia um mero peão na guerra que movem á Rússia), e portanto garantir a conformação para as dificuldades que daí advém (inflação e carências várias) e, em última análise, preparar a opinião-pública para um envolvimento directo na guerra. 

Mas como sabem que o bicho-homem é egoísta, e quando vê o cinto apertar esquece-se rapidamente das solidariedades supostamente devidas, ratam de brandir a ameaça militar russa que imopende sobre as nossas cabeças.

Porta-vozes destas tretas têm sido, entre vários outros os majores-generais Arnaut Moreira e Isidro Morais Pires, este ainda ontem, o primeiro num programa recente da RTP, "Janela Global" -- em que para discutir a guerra estavam convidados três intervenientes com as mesmíssimas posições, ou de como a televisão pública se demite miseravelmente de informar. Dizem então os nossos generais a seguinte baboseira: se não se trava a Rússia, a seguir vão os países bálticos, a Polónia, a Finlândia e sabe-se lá mais o quê. Como eu não acredito que os nossos generais sejam estúpidos, concluo que querem fazer de nós tontinhos, pois sabem perfeitamente o que significaria se as patacoadas que vêm dizer para a televisão se concretizassem -- ou não diz a Nato (sem precisar de o fazer) que defende cada centímetro do seu território. Portanto estes generais vêm para as televisões aldrabar descaradamente a opinião pública. Porque o fazem, não me cabe a mim dizê-lo.

Poder-se-á retorquir: ah, mas o Putin está mentalmente desequilibrado e portanto tal e coiso. Essa foi uma das muitas patranhas com que se procurou iludir a opinião pública ocidental para justificar o injustificável: o choque entre o Ocidente e a Rússia a que estamos a assistir, e só meia dúzia de patetas ainda engole isso. Aliás, se bem ouço as pessoas no café, cada vez engolem menos as patranhas, bem podes os me(r)dia e os indigentes dos pivôs falar no ataque de um missil hipersónico russo a um bloco de apartamentos...

Em antecipação: no fim da semana o secretário da Defesa dos Estados Unidos vem à Europa despejar as ordens aos vassalos Europeus, com Scholz a arrastar os pés (pudera...). Veremos quem tem mais força, mas preparem-se para a entrega dos tanques alemães à Ucrânia, pelo menos os da Polónia (sedenta por molhar o bico) e a Finlândia da marioneta dançante. Curiosamente, ainda não ouvi (provavelmente falha minha) referência à utilização por parte dos russos dos T-90, creio que o correspondente aos Leopard alemães, agora tão em foco. De qualquer modo, espero bem que os russos rebentem com os caminhos-de-ferro e com as autoestradas, prevenindo a chegada à frente de batalha, não apenas dos Leopard, como dos que os ingleses -- sempre cães-de-fila dos americanos -- já anunciaram. 

«Huzoor»

segunda-feira, janeiro 16, 2023

oh as casas

A nossa casa é, idealmente, o lugar por excelência onde melhor nos sentimos, refúgio, castelo, recinto privilegiado em que assistimos ao desenrolar das vidas dos que nos são próximos. Um edifício abandonado ou em ruínas confronta-nos desapiedadamente com vida vivida, para sempre desaparecida ali e, por consequência, com a melancolia da finitude. É sobre isto que nos fala The Building (O Edifício, na tradução brasileira), de Will Eisner (1917-2005), dos autores mais talentosos que a BD já conheceu, criador do Spirit, e um dos pioneiros da graphic novel.

O Edifício é uma história sobre um prédio nova-iorquino situado no cruzamento de duas avenidas, que albergou dezenas de famílias e indivíduos ao longo de décadas, silenciosa testemunha de outras tantas existências. Uma epígrafe inicial de John Ruskin, dá o tom: «Os edifícios antigos não nos pertencem. Em parte são propriedade daqueles que os construíram; em parte das gerações que estão por vir. Os mortos ainda têm direitos sobre eles: aquilo por que se empenharam não cabe a nós tomar.»

Com o desenho singular que o caracteriza, o tratamento opulento da prancha como vinheta isolada ou superfície única para várias vinhetas, sem cercadura, Eisner consegue o pleno na arte combinatória da novela gráfica.


O Edifício

Texto e desenhos: Will Eisner

Editora Abril, São Paulo, 1987

(Setembro 2019)




o eleitorado gosta de bandidos

 No meu tempo adulto vi vários serem eleitos pelo Povo. No início, havia a desculpa de estarem apresentáveis ao eleitorado, com falinhas mansas, sabonetes vendidos imaculados. Não é particularmente vergonhoso as pessoas deixarem-se aldrabar escroques como Clinton, Blair ou Aznar; as embalagens ocultavam o fedor, como sucedeu agora com Biden, um senil pouco recomendável. 

O que escandaliza é este eleitorado bestializado votar em mentecaptos ou gângsteres, sabendo que estão a fazê-lo e importando-se pouco com isso, alguns já por niilismo, para rebentarem com tudo muito depressa. Três exemplos: Donald Trump, Boris Johnson, Jair Bolsonaro.

O primeiro, com dinheiro suficiente para fazer-se eleger, ao contrário da harpia Hilária: Trump teria sido reeleito não fora apanhado na curva pela Covid-19, donde se percebe que entre ressentidos e niilistas, o eleitorado norte-americano é constituído por bois. Mas não é que os bois tinham razão? Para quê defenestrar um vulgar bandido, quando em seu lugar se apresentava o decano duma quadrilha? O eleitorado brasileiro votou -- e tornou a votar, metade dele -- num mentecapto que só sabe contar até nove, tão mentecapto como aquele mesmo eleitorado que foi manobrado como cobaia de laboratório desde o golpe que destituiu Dilma Rousseff até ao sacrifício de Lula, aplaudido até por tantos judas que o mesmo Lula arrancara à pobreza. É claro que ninguém pode eximir o actual presidente brasileiro de ter sido demasiado brando -- ou quem sabe conivente -- com a quadrilha que se instalou no poder, à sombra do PT. Em ponto pequeno, o que sucede entre nós com o PS, como já sucedeu com o PSD. Não se segue por isso que o povo endosse o voto a um aldrabão de feira como Ventura. Até agora, não; uma miséria como o Chega não chega aos 10%, porque todos já toparam a pinta do animal; mas é preciso que os partidos do poder se degradem ainda mais para que o povo se agarre a qualquer porcaria que bolse música para os seus ouvidos corrompidos. Basta-lhe ser bem-falante, simular convicções e com uma leve ponta de excentricidade (o que o Montenegro gostaria de ser mas não é) para a maralha em desespero se agarrar a um novo credo quia absurdum. Veja-se Boris Johnson: do Brexit à guerra na Ucrânia, patife ardiloso que enganou todos, e parece que gostaram, pois deram-lhe maioria absoluta... Agora choram. Pobres dos que nunca votaram no celerado.

«Culpada»

domingo, janeiro 15, 2023

sexta-feira, janeiro 13, 2023

gritos na noite, e outros caracteres móveis

 «De grito a grito, tudo ficava morto em silêncio.» Castro Soromenho, Terra Morta (1949)

«Educado na crença viva daqueles tempos; naturalmente religioso porque poeta, foi procurar abrigo e consolações em Aquele cujos braços estão abertos para receber o desgraçado que neles vai buscar o derradeiro refúgio.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)

«Subitamente, um estrondo ecoou nas traseiras da Casa Grande, para as bandas do pátio onde ficava a cavalariça e se arrumava o FordÁlvaro Guerra, Café República (1982)

quadrinhos


 

quinta-feira, janeiro 12, 2023

"da face do verde oceano" e outros caracteres móveis

«Das outras vezes que a Madeira lhe surgira da face verde do oceano, todo ele era alvoroço perante os cenários da meninice já longínqua.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

«Já foram gente, é o que lembra vê-los assim impressos, em grão de cinza.» José Cardoso Pires, Balada da Praia dos Cães (1982)

«Os automobilistas, impacientes, com o pé no pedal da embraiagem, mantinham em tensão os carros, avançando, recuando, como cavalos nervosos que sentissem vir no ar a chibata.» José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira (1995)

«You Want It Darker»

arte de começar

 «----------------- um dos quais, cão de fora e jamais identificado, foi aquele que chamou a atenção dum pescador local e o levou à descoberta do cadáver. Este cão parece que tinha sobrancelhas amarelas, que é coisa de rafeiro lusitano. Provavelmente andava à divina pela costa e como tal deve ter pernoitado na zona dos banhistas que nesta época do ano se resume a algumas armações de ferro e pavilhões a hibernar. Pelo terreno encontravam-se restos de férias, farrapos de jornais soterrados no areal, um sapato naufragado, embalagens perdidas; a bóia de socorros a náufragos sempre à vista, dia a enoite; refugos de marés vivas; o conhecido cartaz PORTUGAL, Europe's Best Kept Secret, FLY TAP crucificado num poste solitário. Foi neste verão fantasma que o cachorro em viagem se veio acolher.» José Cardoso Pires, Balada da Praia dos Cães (1982)

herói da guitarra (Jeff Beck)

quarta-feira, janeiro 11, 2023

caracteres móveis

«Decidido, arrepiou caminho, arrastando-se em andar lento e pesado, fazendo ranger as velhas tábuas, corredor em fora.» Ferreira de Castro, A Selva (1930)

«Triste e fraca, parece vergada ao peso de uma culpa ou de um remorso.» Manuel da Fonseca, Seara de Vento (1958)

«Um breve ruflar de saias compridas no silêncio, desliza imperceptivelmente, traz um molho de couves num braçado, tia Luísa.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

«The Belly of the Earth»

notícia do mar desértico

Outrora um dos maiores lagos do mundo, situado entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, o recuo do Mar de Aral é considerado uma das maiores tragédias ecológicas da nossa época. Consequência de políticas desenvolvimentistas erradas, para cuja concretização foram desviados os seus rios afluentes, a região envolvente é hoje descrita pelos autóctones como o deserto de Aral… É neste cenário que José Carlos Fernandes (Loulé, 1964) e Roberto Gomes (Silves, 1983) desenvolvem, a primeira história deste álbum, que lhe dá também o título: «Mar de Aral».

A capa é magnífica. Apresenta uma figura misteriosamente suspensa na âncora de um navio, imagem cujo significado só apreenderemos em todo o seu alcance depois de lida esta narrativa. As palavras de José Carlos Fernandes ganham um encantamento poético à medida da desolação que se nos depara: «O mar fugiu como um cavalo assustado. / O mar fugiu e deixou atrás de si barcos ferrugentos, planícies de sal e aldeias piscatórias encalhadas na areia.» Mas como estamos no domínio do fantástico, o argumento desenvolve-se em torno dos estratagemas de sobrevivência dos peixes desse habitat.

O desenho faz jus ao que a capa nos promete; a disposição das vinhetas realça os grandes espaços de solidão e abandono (notável a página dupla em que se representa a fímbria que une mar e deserto); nas cores, predominam o castanho, o sépia e os tons arenosos, contrastantes com as três pranchas finais, quando a acção passa a desenrolar-se numa viela nocturna de cidade velha, nas proximidades, carregando de negro a atmosfera de estranhamento que até aqui a narrativa nos transmitira.

É a mais extensa de cinco ficções inauditas, e a que de longe se destaca, mas todas se recomendam: do tom paródico de «Um boi sobre o telhado» e «Roupas de defunto», à melancolia de «A inauguração do Canal do Panamá» e «A arte esquecida de nadar rio acima».

Para não destoar, as notas biográficas dos autores participam da irrealidade geral: José Carlos Fernandes aparece identificado como um misterioso cientista cuja vida decorreu entre 1891 e 1938. Entusiasta da Revolução Russa de 1917, transfere-se para a pátria soviética, alterando o nome para Osip Ernantzev. A acreditar no biografema, e para sermos eufemísticos, não foi propriamente bem sucedido. Quanto a Roberto Gomes, é apresentado ao leitor como um peixe do Mar de Aral, «que escapou por pouco a ser transformado em sushi».


Mar de Aral

argumento: José Carlos Fernandes

desenhos: Roberto Gomes

G. Floy Studio e Comic Heart, 2019

(Setembro de 2019)






terça-feira, janeiro 10, 2023

uma das razões pela qual o populismo parafascista deve ser tratado sem contemplações, como dejecto que é, e não com paninhos quentes "liberais", a começar pelo aborto do Ventura

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As Mulatas, de Emiliano Di Cavalcanti (1962)

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«Suspirium»

quadrinhos


 

novas visões do futuro, e outros caracteres móveis

«Pouco a pouco, entre ele e a paisagem foram-se interpondo novas visões: o baú de folha fechando-se sobre camisas e ceroulas; um comboio, rapa-terra, rapa-terra, até Lisboa; depois, o navio e o mar -- e o mar...» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)  

«Hoje desci à terceira, a ver de perto a carneirada humilde que em rebanho se aglomera no poço da ré.» Joaquim Paço d'Arcos, Diário dum Emigrante (1936)  

«E lançava a vista sobre o manto de panículas aloiradas, que os camalhões percintavam e a aragem branda enrugava, como mareta em oceano de oiro.» Alves Redol, Gaibéus (1939)

segunda-feira, janeiro 09, 2023

«Guru»

dois tipos de bolsonaristas (serve também para o eleitorado do Chega), e uma nota à margem (Ibaneis?...)

 A massa, vimo-la ontem em toda a sua fealdade e grosseria, enrolada em bandeiras nacionais e vestindo a camisola da selecção nacional, enquanto destruía o património do país (peças partidas, telas rasgadas, tudo vandalizado, com gáudio). Depois há os outros, piores, mais facínoras, que dizem condenar a selvajaria, mas com reserva mental. Não lhes fica bem o cheiro a suor do povo, com a aparente sofisticação exterior. No entanto, descendentes de imigrantes, tantos deles miseráveis, nunca se conformaram, pobres diabos, que um operário liderasse o país. Um homem, aliás, de enorme inteligência, cuja vida é uma contínua aprendizagem, posta ao serviço da comunidade.

Não é a massa, ignorante e manobrável, que é desprezível, mas tão só digna de pena. A verdadeira escumalha está por exemplo nos bairros privilegiados do Rio de Janeiro, habitando em prédios que mantêm o elevador para os serviçais. Uma canalha bem vestida, perfumada, aparentemente articulada com horror à pobreza da qual tem beneficiado ao longo das gerações; abortos morais esquecidos das suas raízes, 99,9% oriundos de pobres diabos que fugiram à fome e à miséria, de Portugal, da Galiza, de Itália, da Suíça, da Polónia, da Rússia, de todo o velho mundo. Estes, os verdadeiros miseráveis.

Ainda ontem, uma insignificância bolsonarista na televisão portuguesa se referia a Lula e à história de chamar "genocida" ao tosco do Bolsonaro, mais ou menos desta forma: "Ele nem sabe o significado da palavra genocida." É preciso ser-se muito poucochinho para se referir assim a um homem como o Lula aliás -- vale o que vale, mas para estas cabecinhas simbolicamente vale muito --, Doutor Honoris Causa pela vetusta Universidade de Coimbra.

À margem:

Não, o agora suspenso governador de Brasília não tem antepassados lituanos. O homem chama-se Ibaneis Barros Rocha Júnior, apelidos portuguesíssimos, o que me leva a pensar que certos minhotos ou beirões, atravessado o Equador e instalados nos trópicos, ficam avariados. Mas isto é lá nome de gente? Eu ainda percebo que tenham querido fugir ao estigma das padarias e das mercearias do Manuel ou do João, mas Ibaneis?...


das ideias justas e outros caracteres móveis

«Nenhuma ideia justa -- como nenhuma semente -- se perde; e todas elas vão ter a sua repercussão na consciência geral; essa repercussão mais cedo ou mais tarde transforma-se em facto.» Eça de Queirós, «Revista crítica dos jornais», Distrito de Évora (1867) -- Prosas Esquecidas (edição de Alberto Machado da Rosa)

«Repara na fé dos nossos militantes, no seu desinteresse, nos seus sacrifícios, nas suas abnegações, na sua propaganda corajosa por não isenta de perigos.» Manuel Ribeiro, «A um herói da Rotunda», O Sindicalista (1912-13) -- Na Linha de Fogo.

«Nunca o homem chega a esquecer tanto a própria dignidade, como nestes dias torvos, em que tudo são chagas sangrando e vinho, em vómitos.» Jaime Brasil, «Carta do Povo sobre a loucura do carnaval», A Batalha (1924) -- Voz que Clama no Deserto (edição de Elisa Areias e Luís Garcia e Silva)

«Para mim, que conheço a inutilidade dos exércitos, que os considero perniciosos, indignos da nossa época, o gesto do capitão Sadoul, quando há anos demandou a Rússia, mereceu a simpatia do meu espírito.» Ferreira de Castro, «Sadoul e Wrangel», A Batalha (1924) -- Ecos da Semana -- A Arte o Artista e a Sociedade (edição de Luís Garcia e Silva)

Brasil


O focinho da extrema-direita e do particularmente estúpido classismo brasileiro está aí para ser visto por toda a gente; a resposta de Lula é civilizada, mas a civilidade e a civilização têm de partir a espinha àqueles que organizaram a tentativa de golpe e arregimentaram a manada.

 

domingo, janeiro 08, 2023

«Don't Bring Me Coffee»

olhar de mãe, e outros caracteres móveis

 «A mãe mostrou apenas o seu olhar brilhante, que por fim baixou, e foi imediatamente encher as malgas do caldo, com um vapor espantoso à sua volta.» José Marmelo e Silva, Adolescente Agrilhoado (1948)

«Possuí-los, ser seu dono, semear e colher o milho que aloirava aos primeiros calores fortes e, no Inverno, a erva dos lameiros, que formava tapetes sempre húmidos, era o seu único sonho, a grande aspiração da sua vida.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

«Que lhe devia ela, a ele que nem sequer em verdade sabia se lhe restituiria intacto, após aquela batalha, o nome que o marido honrara e maculara também?» Joaquim Paço d'Arcos, Ana Paula (1938)

sábado, janeiro 07, 2023

1 disco, 1 faixa: FROM THE BOTTOM (1970) - #1. «From the Bottom»

a arte de começar

 «"Na cidade não dormem. Pois ela não tem noite! Eu bem lhe vejo o clarão no céu..." -- congeminava o garoto.» José Marmelo e Silva, Adolescente Agrilhoado (1948)

«Végtelen kék»

sexta-feira, janeiro 06, 2023

António Cartaxo e A. Campos Matos


Ontem morreu António Cartaxo. O seu livro Ao Sabor da Música é daqueles que se derretem entre língua e palato. Das coisas mais deliciosas que alguma vez  li.


Quanto a Campos Matos (também sergiano), bastaria o Dicionário de Eça de Queiroz (que grafava à antiga), que coordenou -- o primeiro do género que se fez por cá, sem falar no miraculoso Dicionário de História de Portugal, de âmbito mais vasto. Bastaria isso.



 

«Moribund the Burgermeister»

católico de trazer por casa (ucranianas CXLVII)

Os comentários do palerma do Joe Biden a propósito da trégua de Natal decretada pela Rússia.

a arte de começar

«Naquela altura o meu pai fazia fanga e eu tinha começado a ajudá-lo no trabalho, embora pouco ou nada fizesse de proveito. Mas sempre me ia habituando, porque no campo, mal a gente deita fora as fraldas -- isto é um modo de dizer, pois julgo que nunca as usei, a supor pelo que vejo nos cachopitos --. começa logo na lida, até depois de os braços e as pernas não darem jeito a mexer-se.» Alves Redol (1911-1969), Fanga (1943)

a arte de começar

 «Elói está deitado. Amanhece. Ainda não abriu os olhos, mas, embora os abrisse, nada veria; a escuridão reina dentro do quarto Neste momento deve debater-se na impossibilidade de saber se dorme ou se está acordado. Volta, com esforço, a cabeça na almofada, . Lamenta não poder ver a escuridão, porque lhe cobrem a vista novelos de claridade absurdamente negros: novelos ou passadeiras de matéria luminosa que, do que supõe o tecto, descem, pesados, para o que supõe o chão.» João Gaspar Simões (1903-1987), Elói ou Romance numa Cabeça (1932)

quinta-feira, janeiro 05, 2023