quarta-feira, março 04, 2026

o que está a acontecer

«Quando Joana Carda riscou o chão com a vara de negrilho, todos os cães de Cerbère começaram a ladrar, lançando em pânico e terror os habitantes, pois desde os tempos mais antigos se acreditava que, ladrando ali animais caninos que sempre tinham sido mudos, estaria o mundo universal próximo de extinguir-se.» José Saramago, A Jangada de Pedra (1986)

«Explica-se bem esta diferença, dizendo que o cavaleiro era um elegante rapaz de Lisboa, que fazia então a sua primeira jornada, e o outro um almocreve de profissão. / O leitor provavelmente há-de ter jornadeado alguma vez; sabe portanto que o grato e quase voluptuoso alvoroço, com que se concebe e planiza qualquer projecto de viagem, assim como a suave recordação que dela guardamos depois, são coisas de incomparavelmente maiores delícias, do que as impressões experimentadas no próprio momento de nos vermos errantes em plena estrada ou pernoitando nas estalagens, e mormente nas clássicas estalagens das nossas províncias.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

«E quando soube que o sr. D. Miguel, com dois velhos baús amarrados sobre um macho, tomara o caminho de Sines e do final desterro -- Jacinto "Galeão" correu pela casa, fechou todas as janelas como num luto, berrando furiosamente: / -- Também cá não fico! Também cá não fico!» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)

terça-feira, março 03, 2026

Bruce Springsteen, «The Price You Pay»


 

5 versos de Rui Knopfli

«Fluida, indecisa, volátil, / inconcreta, a ideia não / se submete facilmente / ao cerco insidioso / da palavra.» 

O Corpo de Atena (1984) - «Ideia do Poema»

zonas de conforto

Aquilino Ribeiro: «Mas rei a valer, e nenhum rei de copas, ali... de ceptro em punho, todos ajoelhados diante de mim a lamber-me os butes, sabendo que o era, pois rei era eu sem o saber. Que menos, com o rapariguedo à volta: Antoninho, cravo roxo! saúde de cavalo, açafate o que se chama farto, caminhos desimpedidos?! / Que o mundo é outro -- apregoa para aí o mestre-régio. -- Virou para melhor...» O Malhadinhas (1922) § Fialho de Almeida: «-- Eu bem na sinto!, eu bem na sinto! / E os dias lúcidos vão inundar de tonalidades esses subsolos de florestas da província. Uma virgindade cerra as espessuras e imacula as sombras das árvores, cuja cúpula, por cima, estrela o azul impecabilíssimo do céu. E pelas ramas que se engalfinham, se enlaçam, procuram frémitos de asas num mistério de núpcias.» O País das Uvas (1893) - «Pelos campos».§ Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano (1973): .../... «Aliás, o Prof. Moura esteve ausente do País nos dias que os precederam e não teve deles conhecimento até ao momento em que as pessoas já preocupadas com a direcção que os mesmos estariam a seguir lhe pediram para comparecer. Chegou à capela cerca de uma hora e meia antes da intervenção policial e durante esse período limitou-se a assistir em silêncio ao que se estava passando.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano (1985) - ed. João Freire Antunes § António Ferro: «A Vida é o atelier  do Artista.» Teoria da Indiferença (1920)

segunda-feira, março 02, 2026

1 verso de Pedro Tamen

«água que sabe a prados de cavalos idos,» 

Depois de Ver (1995) - «O Pintor ao Espelho Todas as Manhãs»

domingo, março 01, 2026

Genesis, «The Knife»


 

zonas de confronto

Woody Allen: «Nos anos seguintes, a minha amizade com Scott foi crescendo, e muitos amigos comuns julgaram que ele baseara o protagonista da última novela na minha pessoa e que eu baseara a minha vida na sua novela anterior e acabei sendo considerado como uma personagem de ficção.» Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura (1966) - «Memórias dos Anos Vinte» - trad. Jorge Leitão Ramos § Simone de Beauvoir: «Hoje em dia, quando se ataca o existencialismo, não é geralmente contrapondo-lhe outra doutrina definida, mas antes recusando qualquer crédito à filosofia em geral. / Uma tal atitude está viciada desde a raiz, repousando em pressupostos que não são, nem axiomas a priori, nem leis experimentais, e que relevam eles próprios de uma filosofia.» O Existencialismo e a Sabedoria das Nações (1948) - trad. Mário Matos § Génesis: «Assim surgiu a tarde e, em seguida, a manhã; foi o primeiro dia. / Deus disse: "Haja um firmamento entre as águas para as manter separadas umas das outras." Deus fez o firmamento e separou as águas que estavam sob o firmamento. E assim aconteceu.» Bíblia Sagrada (Missionários Capuchinhos) § Ivo Andrić: «Assim, olhando à distância, parece que é dos arcos amplos daquela ponte branca que brota e se alastra não só o verde Drina, mas também essa planura fértil e mansa, com tudo o que nela existe bem como os céus meridionais por cima.» A Ponte sobre o Drina (1945)trad. Lúcia e Dejan  Stanković § Geneviève de Gaulle Anthonioz: «A porta fechou-se pesadamente. Estou só, na noite. Mal me consegui aperceber das paredes nuas da cela. Tacteando, encontro a tarimba de madeira e a sua cobertura rugosa e estendo-me sobre ela, tentando regressar ao sonho interrompido: há pouco, caminhava por um caminho iluminado pela Lua, uma luz tão doce, tão benfazeja, e havia vozes que me chamavam.» A Travessia da Noite (1998) - trad. Artur Lopes Cardoso

sexta-feira, fevereiro 27, 2026

1 verso de Fernando Assis Pacheco

«Quem sabe, amor, onde o amor se fere?» 

Cuidar dos Vivos (1963)

quinta-feira, fevereiro 26, 2026

2 versos de José Fernandes Fafe

«Os ventos sibilam roucos / a hora da nossa hora.» 

A Vigília e o Sonho (1951) - «Sonetilho velho e actual»

o que está a acontecer

«Naqueles três miúdos que brincam junto a um monte de urze, julgo reconhecer-me a mim e aos meus irmãos. Nas duas sombras que declinam mais à esquerda, parece que distingo o perfil curvado do meu pai e o semblante severo da minha mãe. Na figura debruçada sobre os declives pedregosos da encosta, o recorte de um livro na mão, reconheço Ernest e o seu hábito de venerar a paisagem.» Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis (2018)

«Durante a guerra com o "outro, com o pedreiro-livre" mandava recoveiros a Santo Tirso, a S. Gens, levar ao rei fiambres, caixas de doce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retrós atochadas de peças que ele ensaboava para lhes avivar o couro.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)

«A postura de abatimento que lhe tomara o corpo, o olhar melancólico, fito nas orelhas do macho, a indiferença, a taciturnidade ou o manifesto mau humor, que nem as belezas e acidentes da paisagem natural conseguiam já desvanecer, o obstinado silêncio que apenas de quando em quando interrompia com uma frase curta mas enérgica, com uma pergunta impaciente sobre o termo da jornada, contrastavam com a viveza de gestos e desempenado jogo de membros do pedestre, com a sua torrencial verbosidade, a que não opunha diques  e com as joviais cantigas e minuciosas informações a respeito de tudo, por meio das quais se encarregava de entreter e ao mesmo tempo instruir o seu sorumbático companheiro.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Cannonball Adderley, «This Here»


 

10 dias 10 - quem brinca com quem?

Sim, atira-se tudo ao Sócrates -- é tão fácil, não é? E ninguém quer passar por parvo. Todos topamos o gajo, manobras dilatórias, etc. Ontem num canal qualquer, um jornalista (!) espumava de raiva por a terceira advogada ter renunciado à defesa do ex-PM. Isto  tornou-se uma coisa pessoal, para uns quantos.

E então as burrices, incompetências, manipulações e vigarices da acusação, do espectáculo televisivo inicial até a constituição de megaprocessos de onde não se sairá?

E esta brincadeira de o tribunal dar prazos de meia dúzia de dias para que os advogados de defesa a possam exercer, também não? Para não falar daquele que esteve internado com uma pneumonia, tendo os meretíssimos dado de ombros à convalescença prescrita.

Segundo uns tipos espertíssimos há uma máquina bem oleada que aproveita todas as brechas que as nossa legislação -- normalmente redigidas por tipos que não sabem escrever (ler paleio de advogados & congéneres é de estarrecer). Se calhar até há, tal máquina que leva tudo à frente. E eu pergunto-me, siderado com tanta miséria intelectual: então os advogados não têm um nome na praça a defender? É que se tudo está tudo montado, como espumava o raivoso de ontem, quer dizer que os advogados que aceitam sujeitar-se a tais maquinações têm-se em muito pouca conta e a sua tabuleta não vale um caracol. Mas será mesmo assim? 

E quando o Estado tiver de indemnizar Sócrates, sabe-se lá daqui a quantos anos, quem será responsabilizado? Ninguém, é claro; não se pode responsabilizar falecidos nem exonerar ou despedir aposentados.

2 versos de Florbela Espanca

«O fado é andar doidinha / Perdida plos olhos teus» 

Trocando Olhares (póst., 1994)

terça-feira, fevereiro 24, 2026

1 verso de Alberto de Lacerda

«Metade da vida, não do meu ser.» 

Opus7 / Ofrenda II (1994) - «Soneto dos trinta e cinco anos»

segunda-feira, fevereiro 23, 2026

o que dirá a História destes quatro anos da Guerra da Ucrânia

Haverá questões sempre susceptíveis de debate, como "O que é a Ucrânia?"; ou os temas operacionais estratégicos e tácticos: do erro de cálculo e excesso de confiança da Rússia no início da Operação Militar Especial, que rapidamente degenerou em guerra, ao envolvimento no teatro de operações de países terceiros. 

O que a História dirá é que esta é mais uma das várias guerras iniciadas sob falsos pretextos, mas que nunca com até aqui houvera uma avalanche de propaganda e desinformação sobre as opiniões públicas ocidentais, nomeadamente europeias, para convencê-las da necessidade do desvio de recursos para "ajudar a Ucrânia" -- e também de tropas, se preciso for --, numa guerra de desgaste que os Estados Unidos decidiram mover à Rússia, usando a população da Ucrânia, e estribando-se no acirrar do nacionalismo radical e neo-nazi local.

Uma guerra que devastou um país, comprometeu o seu futuro próximo, alegadamente liderado por um humorista judeu de língua russa, que se fez eleger presidente assegurando que iria resolver os diferendos com o país vizinho. Muitos dos que enganou e lhe deram o seu voto, estão agora mortos; outros deixaram de ter a nacionalidade ucraniana: ou são russos, ou estão espalhados pelo resto da Europa. O estado do país é catastrófico, a perda de vidas humanas, a troco de nada, ou pior ainda: a troco de menos, é e será insuportável.

A União Europeia pôs-se ao serviço da anterior administração dos Estados Unidos, herdando agora o problema, depois de a política em Washington mudar. Ainda não se sabe o que irá acontecer à UE. mas a sua fraqueza e desunião nunca foram tão visíveis como hoje. Que UE teremos no fim da década? Ainda haverá UE?

O testemunho da chusma de nulidades jornalísticas e académicos medíocres que cobriram este conflito será utilíssimo, quando alguém no futuro vier a elaborar sobre O que foi e o que não foi a Guerra da Ucrânia.

2 versos de Alexandre Dáskalos

«A árvore sustém na copa de sombra / os ramos que apenas sabem que vacilam.» 

Poesia (1961) - «Crepúsculo»

domingo, fevereiro 22, 2026

sábado, fevereiro 21, 2026

o que está a acontecer

«No dia, entre todos bendito, em que a "Pérola" apareceu à barra com o Messias, engrinaldou a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelão e lona onde D. Miguel, tornado S. Miguel, branco, de auréola e asas de arcanjo, furava de cima do seu corcel de Alter o Dragão do Liberalismo, que se estorcia vomitando a Carta.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)

«Mas, com o mar colérico ou tranquilo como agora, ventasse rijo ou corresse, à tona, ligeira brisa, o espectáculo seria sempre de surpreender e extasiar, após a viagem desoladora. / No convés lavado de fresco, Juvenal Gonçalves, o busto flectido sobre a amura, ressuscitava a pretérita visão, com tanta pureza emotiva como se, realmente, fosse a primeira vez que ali aproasse um navio.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

«Depois, já não é a praia nem o mar, é a serra, com os seus socalcos montanhosos, as escarpas verdes semeadas de xisto e de granito. Esvaíram-se as figuras de Natália, de Carolina, da pequena Laura, mas a montanha enche-se de outros vultos.» Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis (2018)

sexta-feira, fevereiro 20, 2026

1 verso de Vergílio Alberto Vieira

«O que da espada é brilho em nada nos protege.» 

A Paixão das Armas (1983) - «Recado (quase prosaico) ao que chegou de Ceuta a manquejar dum olho»

quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Django Reinhardt, «Topsy»


 

4 versos de Camões

«"Desse Deus-Homem, alto e infinito, / Os livros, que tu pedes, não trazia, / Que bem posso escusar trazer escrito / Em papel o que na alma andar devia.. ["]» 

Os Lusíadas (1572) - I-66

quarta-feira, fevereiro 18, 2026

2 versos de Pedro Tamen

«Colaste ao Fado / a mais solar ternura.» 

Depois de Ver (1995) - «Júlio» 

zonas de conforto

Jorge Amado: «Nasci empelicado, a vida foi pródiga para comigo, deu-me mais do que pedi e mereci. Não quero erguer um monumento nem posar para a História cavalgando a glória. Que glória? Puf! Quero apenas contar algumas coisas, umas divertidas, outras melancólicas, iguais à vida. A vida, ai, quão breve navegação de cabotagem!» Navegação de Cabotagem (1992) § Machado de Assis: «E então teve uma ideia singular: -- rematar a obra agora, fosse como fosse; qualquer cousa servia, uma vez que deixasse um pouco de alma na terra. / -- Quem sabe? Em 1880 talvez se toque isto, e se conte que um mestre Romão...»  Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» § Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano (1973): .../... «Desde que fui informado da detenção do Prof. Moura, procurei inteirar-me de todos os acontecimentos com ela relacionados. É-me assim possível afirmar ser totalmente infundada qualquer acusação ou suspeita de que o Prof. Moura haja sido organizador ou tenha desempenhado qualquer papel na orientação dos actos levados a cabo na capela do Rato.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano (ed. José Freire Antunes) § Maria Gabriela Llansol: «________________ a viagem que até hoje me trouxe mais paisagens foi o corpo a escrever. Não só mais. Sobretudo indeléveis. / À partida há a folha branca. Na realidade, quando esta se introduz na viagem, há muito que a viagem começou na percepção. Este o seu princípio de real.» Sintra em Passo de Pensamento (póst., s.d.) § Aquilino Ribeiro: «A gente não era falsa a bródios e funções, não só pelo preito que nos mereciam os santos como porque ninguém seria mais amigo de espairecer e folgar. / Ah, velha Barrelas dum sino! Tomara-me eu outra vez com vinte anos e saber o que hoje sei! Diabos me levem se não fosse rei.» O Malhadinhas (1922) § António Ferro: «A Arte é a mentira da vida. / A Vida é a mentira da Arte. / A mentira é a Arte da Vida.» Teoria da Indiferença (1920)

terça-feira, fevereiro 17, 2026

o que está a acontecer

«Só depois de dobadas várias décadas sobre o dia em que Zarco se apossara da terra ignorada, é que o Atlântico se tornara, para os lusos, ser feminino -- Atlântida legendária e de novo virgem, que eles iam deflorando pouco a pouco, sob o impulso da ambição e da glória.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933) 

«Enquanto o adorável, desejado infante penou no desterro de Viena, o barrigudo senhor corria, sacudido na sua sege amarela, do botequim do Zé Maria em Belém à botica do Plácido nos Algibebes, a gemer de saudades do anjinho, a tramar o regresso do anjinhoEça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)

«Do plano desviado donde as observo, nenhuma rivalidade lhes perturba os modos brandos e sabe-me bem que assim seja. Agora, uma menina de cabelos escuros brinca sozinha, correndo descalça pela orla da espuma. Às vezes dobra-se, enterra as mãos na areia molhada, espera que a onda venha tocar-lhe os pés.» Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis (2018)

Red Onions Jazz Babies, «Of All the Wrongs You've Done to Me»


 

3 versos de Manuel Bandeira

«As estrelas sorriem de escutar / As baladas atrozes / Dos sapos.» 

A Cinza das Horas (1917) - «Paisagem noturna»

segunda-feira, fevereiro 16, 2026

3 versos de Antero de Quental

«Ah! se Deus a seus filhos dá ventura / Nesta hora santa... e eu só posso ser triste... / Serei filho, mas filho abandonado!»  

Sonetos Completos (1886) - «Lamento»

domingo, fevereiro 15, 2026

enxurrada de veneno de rã-dardo de propaganda, como se fôssemos tão estúpidos como os pivôs dos telejornais -- ou os russos têm que aprender com os americanos como suicidar criminosos na prisão

Na última semana, a palavra de ordem da propaganda bélica anti-russa, do major-general Isidro à egéria Clinton, é a de inculcar na opinião pública europeia estas duas verdades insofismáveis: 1) a de que os russos são mesmo maus; 2) além de serem maus, militarmente não valem nada -- dois bons argumentos para começarmos a despejar tropas no cemitério ucraniano.

No outro dia, o Isidro dizia no seu espaço de comentário que os russos estavam a levar tanta porrada, mas tanta porrada, que até ficamos admirados como o Zelensky ainda não tomou Moscovo; depois, o Rutte da Nato -- esse tipo que não se reproduz --, a ridicularizar as capacidades militares do inimigo; Hillary, essa esposa exemplar, ataca Trump por causa da Ucrânia; mas o melhor de tudo foi isto: de acordo com os idóneos ingleses (que têm na chefia do MI6 uma neta de um criminoso de guerra ucraniano nazi; a Ursula parece que é só neta de um nazi normal, que foi juiz), de acordo, pois, com os ingleses $ associados, o neonazi Navalny foi envenenado com uma toxina rã-dardo!...

Eu gabo a paciência dos russos (deve ser por isso que eles são tão incompetentes no campo de batalha): têm o Navalny preso no Árctico, e em vez de o matarem ao frio, deram-se ao trabalho de importar veneno de rã do Hemisfério Sul para matar o liquidar à bizantina.

Os russos têm de aprender com os americanos, que suicidaram o Epstein na prisão, na precisa altura em que o circuito interno de videovigilância inexplicavelmente caiu. O que vale é que partilhamos todos os mesmos valores, aqui no Ocidente.

«Hamnet»

«Hamnet», de Chloé Zao, é mais um título memorável, shakespearianamente falando, na filmografia do Bardo, embora por pouco não resvalasse para o melodrama. A sua intensidade é tal, que acaba por estar ali em cima do muro, tem-te não caias entre o quase sublime e a quase histeria; no fim, aguenta-se e resulta.

A realização delicada e subtil de Chloé Zao recomenda que o vejamos de novo; os desempenhos dos actores -- por vezes em risco de overacting --, em particular a irlandesa Jessie Buckley, força da natureza, um animal de representação; o crescendo do filme, até às fortíssimas cenas finais em Londres, no Globe Theatre.

Irão - Estados Unidos: o que eu realmente quero

Porta-aviões americanos ao fundo, e aiatolas pelos ares, caralho...

Seria bonito, ambas as coisas, o pior é o resto.

sábado, fevereiro 14, 2026

Wynton Marsalis e Eric Clapton, «The Last Time»


 

zonas de confronto

Hans Christian Andersen: «Voltei, assim, a ver os meus amigos de juventude, com eles e com os seus vivi por um tempo, vi uma parte do seu belo país, que não conhecia e, como a maior parte dos meus compatriotas, tão pouco sabia dele. Eis as recordações, passadas fugazmente ao papel, dessa viagem realizada no ano de 1866.» Uma Viagem a Portugal em 1866 (1868) - trad. Silva Duarte § Génesis: «No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo, e o Espírito de Deus movia-Se sobre a superfície das águas. / Deus disse: "Faça-se a luz". E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. Deus chamou dia à luz e às trevas  noite.» Bíblia Sagrada (Missionários Capuchinhos) § Leonid Andreiev: «Logo que o seu transtorno mental o afastou do serviço, a esposa de quem se separara, havia quinze anos, julgou-se com direito à pensão do Estado e para fazer valer tal direito, levou a questão para o tribunal; mas perdeu a causa e o dinheiro reverteu para o enfermo.» Os Espectros (1904) - versão de Manuel do Nascimento § Woody Allen: «Havia algo de verdadeiro nos Fitzgeralds; os seus valores eram básicos. Eram pessoas modestas, e quando Grant Wood, mais tarde, os convenceu a posar para o seu quadro intitulado Gótico Americano, lembro-me como ficaram lisonjeados. Zelda contou-me que durante as sessões Scott esteve sempre a deixar cair a forquilha.» Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura (1966) - «Memórias dos Anos Vinte» - trad. Jorge Leitão Ramos § Simone de Beauvoir: «"Em França, vocês pensam nos problemas sem os resolverem", dizia-me, um dia, um americano. "Nós não pensamos nos problemas: resolvemo-los." / Resumia assim, nesta tirada agressiva, as críticas que em todos os tempos têm sido dirigidas ao pensamento especulativo: este não ajudaria a viver, e distrairia até da vida. É preciso viver.» O Existencialismo e a Sabedoria das Nações (1948) - trad. Mário Matos § Ivo Andrić: «Da ponte estende-se, como um leque, todo o vale ondulante com a pequena cidade de Visegrad e as suas cercanias, com povoações aninhadas nas abas das colinas, cobertas de searas, prados e ameixoais, riscada por muros e sebes e salpicada de pequenos bosques e raros tufos de verdura.» A Ponte sobre o Drina (1945) - trad. Lúcia e  Dejan Stanković

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

2 versos de Manuel Matos Nunes

«Também eu queria conhecer essa rapariga / estendida ao sol no relvado de um colégio inglês» 

Insolúvel Flautim (2023) - «Ruy Belo: a rapariga de Cambridge»

o que está a acontecer

«O que estava para além, não se sabia; lendas e pensamentos estabeleciam cortina espessa, que vinha das alturas do céu, onde se acendiam as luminárias orientadoras, e, golpeando a enorme massa líquida, descia até profundidades abissais, julgadas sem fim. Proa que aspirasse a rompê-la devia ser de caravela onde apenas gesticulassem heróis ou loucos, votados, por livre desejo, à morte.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

«Na sala nobre da sua casa (à Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do "seu salvador", enfeitado de palmitos como um retábulo, e por baixo a bengala que as magnânimas mãos reais tinham erguido do lixo.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)

«Eu, que nunca fui poeta, não consigo ignorar o encanto docemente melancólico do crepúsculo, quando a noite desce devagar. Natália avança pela praia, os cabelos em rebuliço, a mão em pala sobre os olhos. Carolina aproxima-se pela outra banda, no seu passo inclinado. Quando as trajectórias de ambas se cruzarem, como dois raios de luz convergentes, as duas mulheres hão-de encarar-se sorridentes, segurando os vestidos que o vento quer levantar.» Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis (2018)

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

1 verso de Armindo Reis

«Sozinha aprendeu a amar.» 

Cântico Escorreito (2020) - «Singela Flor»

quarta-feira, fevereiro 11, 2026

2 versos de Antero de Quental

«Pelo mundo procuro um Deus clemente, / Mas a ara só lhe encontro... nua e velha...» 

Sonetos Completos (1886) - «Ignoto Deo»

terça-feira, fevereiro 10, 2026

David Benoit e Al Jarreau, «Happiness»


 

3 versos de Fernando Assis Pacheco

«Eu vi as amantes ensandecerem / com esse peso de Outono. Perderem as forças / com o Outono masculino e sangrento.» 

Cuidar dos Vivos (1963) - «Peso de Outono» 

segunda-feira, fevereiro 09, 2026

2 versos de José Alberto Oliveira

«Dias turvos e inconsequentes sucedem / a dias inconsequentes e turvos.» 

Mais Tarde (2003) - «Proposição»

sábado, fevereiro 07, 2026

o dever de votar, com alegria

Amanhã exercerei o meu direito e o meu dever de votar por -- que é também um voto contra. António José Seguro não foi o meu candidato na primeira volta, mas é-o agora, pois representa a dignidade e a decência -- palavra muito usada, e apropriadamente. 

O meu voto terá, assim, um significado humanista, que não significa outra coisa senão a ideia da dignidade intrínseca de todo e cada ser humano como valor único e irrenunciável.

A única política aceitável e decente é a que acolhe e promove os princípios iluministas de liberdade, igualdade e fraternidade. A liberdade individual como condição absoluta; a igualdade de partida como condição necessária; a fraternidade humana como ideal a perseguir, sempre. Por isso, irei votar com alegria.

Bruce Springsteen, «Ramrod»


 

o que está a acontecer

«Moram na viela íngreme e cascosa, que revê humidade em pleno Verão, velhas a quem só restam palavras, presas, alimentadas, encarniçadas, como um doido sobre uma coroa de lata que lhes enche o mundo todo.» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Juvenal Gonçalves já o surpreendera, assim, de outras vezes.  Mas nunca, como agora, o emocionara tanto, fazendo-o reviver a sensação que deviam ter fruído, outrora, os descobridores, ao ver surgir o arquipélago. Até então, o Atlântico ainda era para os portugueses um elemento masculino, fero e enigmático.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

«Essa imagem não se ajustava à impressão que eu sentia. Quase no fim da Avenida, tinham os pardais ficado há muito para trás e ainda eu perseguia a ideia rebelde. "Absurda mania", disse comigo, fincando a bengala no passeio. E com imensa surpresa vi-me em frente da casa dos Albalongas.» Francisco Costa, A Garça e a Serpente (1944)

sexta-feira, fevereiro 06, 2026

2 versos de Alberto de Lacerda

«O desejo o horror o terraço a cratera / E ao fundo no fundo mais lúcido das águas» 

Opus 7 / Oferenda II (1994)

quinta-feira, fevereiro 05, 2026

2 versos de Rui Knopfli

«Que, transformando-as enfim, o amor das palavras / não corrompa e destrua o amor da verdade.» 

O Corpo de Atena (1984)

quarta-feira, fevereiro 04, 2026

Genesis, «Dusk»

cítara, corno, rabeca, sacabucha

ou seja: guitarra, trompa, violino, trombone (de uma entrevista de Pedro Caldeira Cabral ao DN de hoje). 

4 versos de Ana Hatherly

«E lançando de meus braços o desejo / não invejo / admiro / a sufocante beleza deste ocaso» 

Rilkeana (1999) - «Wer, wenn ich schriee»

terça-feira, fevereiro 03, 2026

1 verso de João Miguel Fernandes Jorge

 «cada vez mais azul onde o azul clarece em azul» 

Turvos Dizeres (1973) / A Pequena Pátria (2002)

segunda-feira, fevereiro 02, 2026

3 versos de Carlos Matias

«Aves nos pulmões do vento. Vão distantes / da verdade. Acendem, por onde vão, palavras, / cidades.» 

Luz Triste (2005)

«Y si amanece por fin» (Puntos Suspensivos)