sábado, setembro 22, 2018

«A pasta dos desenhos a mesa de uma única gaveta / cartas cordéis rasgadas fotografias.» João Miguel Fernandes Jorge, O Regresso dos Remadores (1982)

«Dentro de mim é Som: o eco longo / de uma nota sem fim e sem começo.» Sebastião da Gama, «Harpa», Serra-Mãe (1942)

«O poema nasce da atenção / ao esplendor / das ínfimas coisas: a porta / branca, um cânataro vermelho / a luz excessiva do estio.» Fernando Jorge Fabião, Nascente da Sede (2000)

os amores inúteis #16

O esgar do pirata Barba Ruiva a bordo do 'Falcão Negro'.

12 sinfonias: 7. Brahms, SINFONIA #1 (1876) - II Andante sostenuto

«Vivo na maré»

sexta-feira, setembro 21, 2018

baixa cozinha

Acabou, por agora, a chicanice da direita sem vergonha em torno da Procuradoria-Geral da República, excepto para Passos, que deus tem, num textículo que por aí circula, que não li nem torno a ler, assestando a mira em Rui Rio, que a gente não somos parvas. Entretanto, um zero à esquerda fala de 'pacóvios suburbanos', ou Rio a limpar PSD de atrasos de vida -- missão impossível.

Não quero ver Joana Amaral Dias vestida, e muito menos nua.

A extraordinária cacetada do reitor Cruz Serra numa medida tão demagógica quanto imbecil, a de diminuir o número de vagas nas universidades de Lisboa e Porto, para favorecer não sei bem o quê, se o interior, se a província. Os resultados estão à vista: as 1066 vagas a menos, originaram apenas 98 no resto do país. As famílias dos alunos que se vejam forçadas a mandar os filhos estudar para longe, que se lixem, como sucede[ia?] com as do Infarmed, em jogada igualmente miserável. Por isso, quando o PS manda afixar dispendiosos outdoors que alardeiam qualquer frase feita de propaganda básica como "as pessoas em primeiro" ou lá o que é, a vontade que dá é esfregar-lhos na tromba, metaforicamente, é claro.

o sapo Zé Manel

de Joana Quental para A Menina Gotinha de Água (1962), de Papiniano Carlos
(Campo das Letras, Porto, 2002)

os amores inúteis #15


O desenlace inesgotável da quinta de Tchaikovsky.
«A guerra era sempre lembrada: na escola e em casa, nos casamentos e nos baptismos, nas festas e nos almoços fúnebres.» Svetlana Alexievich, A Guerra não Tem Rosto de Mulher (1985) (trad.Galina Mitrakhovich)

«Estou só na noite.» Geneviève de Gaulle Anthonioz, A Travessia da Noite (1998) (trad. Artur Lopes Cardoso)

«Eu era um produto da era vitoriana quando os alicerces do nosso país pareciam firmemente assentes, quando a sua situação no comércio e nos mares não tinha rival e quando se consolidava, todos os dias, a grandeza do nosso Império e se afirmava o dever de a salvaguardar.» Winston Churchill, Memórias da Minha Juventude (1930) (trad. Leopoldo Nunes)

os amores inúteis #14

O delírio do Sir John Tenniel no País das Maravilhas.

quinta-feira, setembro 20, 2018

lido


Egas e Becas: é pena, pá, mas são só melhores amigos

O Egas e o Becas (e o Cocas, o Monstro das Bolachas, o Conde de Kontarr, etc., etc.) ainda chegaram a tempo de preencher o meu imaginário infantil. A «Rua Sésamo» deve ter-se estreado na RTP aí por 1976, andava eu entre os onze e os doze anos.
Nessa altura, no tempo do "Ciclo Preparatório" (!), fazíamos um jornal na escola, o Vikings, dinamizado pelo mais inteligente dos meus colegas -- ou o mais divertido dos meus colegas inteligentes, o João Carlos Seguro Seco (há décadas que não o vejo). Nesse jornalinho, de que saíram vários números (perdi-os todos num incêndio), as personagens da «Rua Sésamo» eram omnipresentes, pois trata-se talvez da mais genial série pedagógica para a infância que alguma vez foi produzida.
Nunca me apercebera de que se tratava de um casal gay , nem eu nem nenhum dos meus amigos. E nunca nos apercebemos porque, em linguajar tecno-burocrático, 'não se aplica'.
Como qualquer rafeiro ordinário, a imprensa generalista pouco séria abanou a cauda, salivou e gozou o vómito da aldrabice.  Este tal Mark Saltzman, de quem nunca ouvira falar, é apresentado como o criador das personagens, quando toda a gente sabe que quem criou todo o universo da «Sesame Street» e do Muppet Show»  foram o glorioso Jim Henson e Frank Oz. Saltzman foi um dos argumentistas. Eu até admito que o homem tenha respondido honestamente à pergunta, dizendo inspirar-se na sua vivência doméstica com o companheiro para a escrita das deliciosas trapalhadas e quiproquós da dupla, e que a revista de gay lifestyle, tenha extrapolado, e a partir a pasquinada global tenha começado a ladrar -- dou sempre o benefício da dúvida a criaturas que não conheço de ginjeira, o que por vezes me causa amargos de boca, mas já estou velho para mudar.
No entanto, com assombroso bom senso, para os tempos que correm (gosto destas tiradas conservativas, e conversativas também) a Sesame Workshop já veio pôr os pontos nos is -- são bonecos, não têm orientação sexual..., e mais importante, um dos verdadeiros criadores, Frank Oz, não só desmente, como se questiona, de modo gentil e inteligente, sobre o interesse da  questão.
 Os comics underground, da revista Mad para baixo (e já nem falo das tijuana bibles) sempre brincaram com as identidades sexuais das personagens de BD,  a começar pela parelha Batman & Robin enquanto casal homossexual, um clássico. Mas estamos no domínio da 9.ª Arte. Isto é outra coisa, particularmente estúpida e obviamente dolosa, que de artístico não tem nada -- mas felizmente um fogacho de cabeça de fósforo, que já nem deita fumo nem cheiro. 

estampa CCCXXXI - Christian Albert Jensen


Retrato de Hans Christian Andersen - 1836

quarta-feira, setembro 19, 2018

os amores inúteis #13


O Badalo Benzo, personagem criada pelo meu filho António.

terça-feira, setembro 18, 2018

estampa CCCXXX - János Vaszary


Mulher Sentada (1925)

os amores inúteis #12

O adagietto da 5.ª sinfonia do Thomas Mann -- perdão, do Gustav Mahler.

segunda-feira, setembro 17, 2018

um ajustamento e um acrescento lateral ao meu post e comentários sobre o caso Serena Williams

Mantendo a posição de princípio que aqui expus, gostaria de acrescentar o seguinte: A circunstância de ter uma bisavó brasileira mulata (logo, descendente de escravos), a avó Ida, sempre me divertiu e não perco ocasião para a propalar. Ainda ontem ao jantar, o meu pai, que já conta 87, me falava das suas bisavós, que ainda teve a sorte de conhecer, o que na sua geração não era comum. A uma, os bisnetos, todos miúdos, chamavam 'Avó Velha' (distinguindo-a, portanto da avó (mais) nova; quanto à outra bisavó, o meu pai, os irmãos e os primos recorriam dois nicks: ou 'Avó Pequenina', distinguindo-a da filha, que era muito alta, ou então 'Avó Preta' (viva a santa inocência das crianças!).


Este parágrafo memorialístico para significar que embora os traços genéticos dessas minhas boas antepassadas pouco se tenham manifestado visivelmente em mim, a não ser no cabelo encaracolado (o meu pai tem a pele claríssima e olhos azuis da mãe), e portanto nunca ter experimentado qualquer tipo de discriminação, sempre tive uma sensibilidade especial para essas questões, que, no entanto (convém esclarecer) não advém desse meu património histórico pessoal bastante acarinhado por mim, mas de uma consciência ética ao nível do mais básico senso-comum, em primeiro lugar, e depois pelo facto singelo da inexistência actual de raças humanas -- e digo actual, porque já existiu, de facto, uma outra raça de homem, morfologicamente diferente, o célebre Homem de Neanderthal, que, no entanto, permanece nos nossos genes (parece que em quantidades ínfimas, mas variáveis de indivíduo para indivíduo), por cruzamento com o Sapiens Sapiens, vingando estes e extinguindo-se os outros, menos adaptados aos desafios do meio envolvente. Além disso, sempre olhei para um racista no nosso tempo como um pobre diabo e atrasado mental, portanto sem categoria de cidade (já a xenofobia é um perigoso compósito de medo e pulhice egoísta).

Pondo-me na pele de um negro das Américas -- em princípio, menos difícil para mim do que para a loiríssima e parece que sacerdotiza J. K. Rowling, rapariga da minha idade --, concedo, compreendo e aceito que possa haver alguma amargura, atendendo aos terríveis antecedentes da escravatura. Mas também sei que qualquer homem ou mulher negros com discernimento e sem estarem gafados do tifo activista, estabelecem todas as diferenças entre um cartoon sobre uma protagonista global que se portou objectivamente mal e um propósito racista do cartoonista, embora também aceite que a forma como a oponente está representada, que na altura não valorizei, possa ser dúbia, e originar outra interpretação, embora, quanto a mim, já um pouco forçada

No entanto, trata-se sempre de questões -- quer a descriminação quer a liberdade --, demasiado importantes para que os tontinhos dos activismos vários fiquem sem contraditório.

(Ainda para o lado da Serena: no ténis, sou do Benfica, ou seja: não percebo nada da modalidade, nem quero perceber. Aliás, nunca pratiquei desporto, que é coisa que me aborrece. Mas se é verdade o que dizem sobre a existência de sexismo no ténis, então a fúria dela poderia ter razão de ser -- se o árbito não estivesse certo, como dizem que esteve --, o que não invalida, antes pelo contrário, a pertinência e o valor do cartoon do australiano Mark Knight.)



50 discos: 45 TUG OF WAR (1982) - #6 «Ballroom Dancing»



os amores inúteis #11


Todos os anarquistas
a) coerentes
b) sinceros
c) verdadeiros
(riscar o que não interessa)

sábado, setembro 15, 2018

os amores inúteis #9

Os ângulos da escultura do António Duarte.

12 sinfonias. 10. Mahler, SINFONIA #1 (1889) -- II Scherzo, Kraeftig bewegt

«Ao longo das madrugadas um frémito de frescura vem fundir-se com a seca quietação da terra e agitar levemente a superfície parada das águas represadas. » Orlando da Costa, O Signo da Ira (1960)

«Mas nós tolerávamos a sua displicência, o condado de Barcelona, a alma do gafanhoto, os mistérios, em troca de uma fascinante simpatia que afinal, sem que antes tivéssemos notado, irradiava dele, num misto de alegria infantil e acaciana gravidade, iluminando-lhe o rosto quadrado e vago, quando dissertava sobre o que lhe vinha à cabeça.» Jorge de Sena, Sinais de Fogo (póstumo, 1978)

«Nem alto, nem baixo, mas tão forte que o Dr. Cardoso, cacique em Montalegre, vira-se em dificuldades para o livrar do serviço militar, as pernas, se se arqueassem mais, tocariam calcanhar com calcanhar sob o ventre do cavalo.» Ferreira de Castro, Terra Fria (1934)

sexta-feira, setembro 14, 2018