segunda-feira, janeiro 18, 2021

50 discos: 25- MEUS CAROS AMIGOS (1976) - #9 «Basta Um Dia»




a arte de começar

«Rubicundo, pesadão de farto, o estômago bem lastrado com lombo de vinha-de-alhos, padre Jesuíno saiu a espairecer para a varanda que a aragem da serra brandamente refrescava. Manjericos e craveiros floriam dentro de velhos potes, e tão abertos, tão medrados, que do mainel transbordava para a casa e sobre o pátio uma onda álacre de primavera. Tarde de infinita benignidade -- era nas vésperas de Nossa Senhora de Maio, quando ela, de andor ao céu aberto avista tudo verde em redondo -- ali apetecia gozá-la com cristianíssimo ripanço ao passo moroso da digestão. Mas não tardou que argoladas fortes soassem à porta e Jesuíno, em tamancos, as calças presas no abdómen por um negalho, camisa de estopa deixando espreitar pelos bofes a pelúcia de cerdo à mistura com o alcobaça vermelho, cigarro nos beiços, toda a sua pachorra eclasiástica mais rabugenta que cão dormido, foi ver.»

Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)

50 discos: 21. BURNIN' (1973) - #9 «One Foundation»




domingo, janeiro 17, 2021

na estante definitiva

 


 «De maneira nenhuma este ensaio pode ser, nem pretende ser, um estudo exaustivo dos problemas que levantou, e levanta ainda, a música destas quatro primeiras décadas do século XX.»  Da «Advertência preliminar» à 1.ª edição, 1942; 2.ª ed., 1946, pp. 5-7.

Lopes-Graça era um extraordinário escritor, de primeira água e com nervo de polemista. Apresenta-se como músico que as circunstância levaram a escrever sobre música; mas, irónico, adverte «[...] não ser musicólogo -- palavra que o assusta, pelas responsabilidades que impõe a quem se adorna com ela.» E acrescenta que as circunstâncias levam-no pro vezes a escrever sobre música: quanto à primeira, diz não se para ali chamada -- e está-se a ver que a razão é política: tendo sido impedido de aceder ao lugar de professor do Conservatório, para cujo o concurso alcançara o primeiro lugar, tinha de ganhar a vida como professor de piano e escrevendo artigos aqui e ali; a segunda razão prende-se com a alegada incapacidade de dizer não aos convites que lhe dirigem a escrever sobras algo; finalmente a própria idiossincrasia, «[...] o impulso irreprimível que frequentemente nos assalta de sairmos com a pena a defender a música das mentiras, tranquibérnias e despautério com que constantemente a aviltam os próprios que se dizem seus servidores, seus sacerdotes, seus entendedores feros e esclarecidos.» E esta será sempre uma das melhores razões para alimentar uma disposição polemista notável: ideias arrumadas, convicções fortes e a ferramenta que maneja como um escritor de vastos recursos. E, conhecendo-se, avisa para um excesso de calor na prosa, «[...] um tal ou qual ardor prosélito, resulta isso de que nos é impossível escrever a sangue frio sobre um assunto que nos interessa profundamente [...]». Não sei se estava a ser sincero, que possa ser uma cortesia para com o leitor. Mas é precisamente  por cause desse ardor que as páginas de Lopes-Graça se lêem como peças literárias, e hoje tão bem como há oitenta anos.

«Horchata»

sábado, janeiro 16, 2021

quadrinhos

Bruno Brinsidi - Dylan Dog -- Até que a Morte nos Separe (1996) (texto: Mauro Marcheselli e Tiziano Sclavi
 

quinta-feira, janeiro 14, 2021

Tony Banks (1950) - Seis Peças para Orquestra (2012) #5 «The Oracle»




a boa política

 Daqui a duas semanas se verá, mas o funcionamento das escolas durante o confinamento parece-me acertado. Para os sectores mais destituídos da população, alimentados a lumpen televisivo e venturas, a interrupção das aulas é catastrófico. Uma vez que os especialistas não estão de acordo, a decisão tem de ser política. E esta, de António Costa e Tiago Brandão Rodrigues, é política da boa.

quarta-feira, janeiro 13, 2021

quadrinhos


Hermann, Duke -- Sou uma Sombra (2019)
texto: Yves H.

 

terça-feira, janeiro 12, 2021

domingo, janeiro 10, 2021

quadrinhos

Chester Gould, Dick Tracy -- O Caso 3-D i(1957)


 

na estante definitiva

 1. Henrique Abranches (Lisboa, 1931 - África do Sul, 2004) foi um dos muitos portugueses que, indo crianças para Angola, cresceram assistindo à indignidade do colonialismo. É sempre um ultraje quando uma minoria, ainda para mais alienígena, se impõe pela força, subjuga, suga e domina os naturais de outro(s) país(es). Foi o seu caso, tornado angolano de armas na mão. O contributo que deu para a história, etnografia e literatura de Angola é vasto. Foi também um pioneiro da BD angolana. O desenho da capa é de sua autoria.

Este livrinho, Diálogo, publicado pela Casa dos Estudantes do Império - importante alfobre de intelectuais e políticos dos hoje PALOP's  -- é uma obra de dois países. Abranches português pelo nascimento, e como português o publicou em 1962, com o jovem autor a cumprir pena de residência fixa na cidade natal. Há verdura, mas também admirável empatia; ele escreve não sobre angolanos, mas como angolano. Tem um óbvio lugar na minha lista de livros que importam. comovem e me dão prazer.

*** 

2. «Diálogo no tempo morto», o texto inaugural, é uma conversa meditativa a propósito da terra devastada em a seca ransfin« a seca mata o tempo, traz a fome, leva os novos, anuncia a morte, priva dos prazeres mais elementares, uma cerveja fresca, uma boa cachimbada; só o sentimento de impotência é abundante: «Olha o céu de hoje, olha-o: sem uma nuvenzinha, como que envelhecido. Ele já não é capaz de fazer nada. Tudo o que é velho e incapaz é um fardo pesado. Nós somos velhos...»

Henrique Abranches, Diálogo (1962), leitura em curso

audições permanentes I (música erudita) - nova entrada


Johannes Brahms, Concerto para piano #1 (1858)*

Béla Bartók  (Nagyszentmiklós, 25.III.1881 - Nova Iorque, 26 de Setembro de 1945) Concerto para Orquestra SZ 116, BB 123 (1943) - Eugene Ormandy, Orquestra de Filadélfia (Sony Classical)

Georg Friedrich Händel (Halle, 23.II.1685 - Londres, 14.IV.1759) , Concerto para Órgão HWV 295, «O Cuco e o Rouxinol» (1731) - Simon Preston (órgão), Trevor Pinnock, The English Concert (Archiv)

Hector Berlioz (La Côte-Saint-André, 11.XII.1803 - Paris, 8.III.1869), Episódio da Vida de um Artista, Sinfonia Fantástica em Cinco Partes, opus 14 (1830) - James Colon, Orquestra Nacional de França (Erato)

Henryk Gorecki (Czernica, 6.II.1933 - Katowice, 12.XI.2010) Sinfonia #3, Op. 36 (1976) - David Zinman, Dawn Upshawn, London Sinfonietta (Elektra Nonesuch)

Johann Sebastian Bach  (Eisenach, 21 de Março de 1685 - Leipzig, 28 de Julho de1750) Concertos de Brandemburgo, BWV 1046-1051 (c.1718-21) Milan Muncliger, Ars Rediviva Ensemble (Supraphon); Magnificat BWV 243 (1733) Helmuth Rilling Gächinger Kantotei Stuttgart-Bach Collegium Stuttgar (CBS Recorda)

*Johannes Brahms (Hamburgo, 7.V.1833 - Viena, 3.IV.1897).Concerto para piano #1 Op. 15 (1858) Arthur Rubinstein, Colin Davis, Orquestra Sinfónica da BBC ((BBC Music); Sinfonia #1, Op.  68 (1876) Karl Bhöm, Orquestra Filarmónica de Berlim (Deustsche Grammophon).

Ludwig van Beethoven (Bona, 17.XII.1770 - Viena, 26.III.1827) Sinfonia #1, Op. 21 (1800)  Karel Ancerl, Orquestra Sinfónica de Praga (Supraphon)

Samuel Barber (West Chester, Pensilvânia, 9.III.1910 - Nova Iorque, 23.I.1981) Adágio para Cordas (1936) Leonard Bernstein, Orquestra Filarmónica de Los Angeles (Deustsche Gramophon)





Johannes Brahms (1833-1897): Concerto para piano #1, op. 15 (1858)




os debates (8)

 Ana Gomes-Marcelo Rebelo de Sousa. Uma superioridade visível no debate por parte do actual PR, com o caldo a entornar-se no fim, desnecessariamente, com aquela alusão viperina a Ricardo Salgado, desnecessária além de deselegante. Ana Gomes, mal assessorada, com o fito de marcar uns pontinhos, teve uma atitude em tudo idêntica à do ignóbil Ventura com a alusão a Paulo Pedroso.

Marisa Matias-Tyago Mayan Gonçalves. Talvez o melhor debate de todos. O formato, no entanto é péssimo, e portanto não deu para muito mais para além do que já se sabia.

João Ferreira-Vitorino Silva. O Tino de Rans é uma personagem de quem todos gostam, de uma maneira ou outra. Independentemente das suas ambições mais profundas, se as tem, é um indivíduo interessantíssimo e desarmante. Acho que nunca vi o João ferreira tão risonho como hoje...

O formato dos debates foi péssimo, meia hora para debater é indigente. Mas a verdade é que não havia grande debate a fazer-se numa eleição presidencial como esta. Nada ou muito pouco de política externa, CPLP, património histórico e cultural, de que o Presidente deve ser o principal garante, e um longo etecetera.


sábado, janeiro 09, 2021

«Leitor de BD»

 



Ghost Kid, de Tiburce Oger

(aqui)

50 discos: 21. GRAND HOTEL (1973) - #9 «Robert's Box»




os debates (7)

Ana Gomes-André Ventura. O esgar de nojo que por duas vezes Ana Gomes assestou ao boneco bastou. Dos três à esquerda quem, para mim, melhor susteve a marioneta foi Marisa Matias; mas o os mais eficazes foram os outros três, Marcelo em primeiro lugar.

João Ferreira-Maria Matias. O único verdadeiro debate da noite. Aprecio ambos, prefiro o discurso de Ferreira.

Tiago Mayan Gonçalves-Vitorino Silva. O liberal não disse nada que já não lhe ouvíramos; Tino é um homem do chão que eleva os outros.

sexta-feira, janeiro 08, 2021

50 discos: 18. ATÉ AO PESCOÇO (1972) - #9 «Maria-Canção»




os debates (6)

 André Ventura-Marisa Matias. Não foi um ko, mas a impostura do Ventura ficou exposta duma forma mais descarnada, como até agora ainda não se vira.

Ana Gomes-Tiago Mayan Gonçalves. Um debate desagradável e desinteressante, de frases feitas. Correu pior a ele. 

Marcelo Rebelo de Sousa-Vitorino de Silva. Um talk show, a praia de Marcelo. E como não foi um debate, o moderador até ajudou.


quinta-feira, janeiro 07, 2021

50 discos: 16. OS SOBREVIVENTES (1971) - #9 «Cantiga da Velha Mãe e dos Seus Dois Filhos»




os debates (5)

André Ventura-Marcelo Rebelo de Sousa. Não me lembro de ver Marcelo tão irritado, apesar da bonomia exemplar que usa. Aliás, é precisa a paciência dum santo para aturar aquele linguarejar para a tasca. Marcelo esteve muito melhor do que esperava. Boa moderação.

João Ferreira-Tiago Mayan Gonçalves. Uma interessante troca de pontos de vista sobre duas inexequibilidades. A moderação foi competente. O único verdadeiro debate, uma vez que o anterior não pode realmente ser considerado como tal. É possível discutir com um vendedor de banha da cobra? Não é. Há apenas que expô-lo na aldrabice larvar. 

Ana Gomes-Vitorino Silva. Não foi um debate. 


quarta-feira, janeiro 06, 2021

50 discos: 15. MOONDANCE (1970) - #9 «Everyone»




os debates (4)

Ana Gomes-João Ferreira. Quando ia a começar a haver debate, o tempo acabou. Alguém explica àquele tipo que debates não são entrevistas paralelas? Um inferno.

André Ventura-Tiago Mayan Gonçalves. O candidato liberal e o candidato de taberna. A incompatibilidade foi total e a clara. Já se esperava, mas esplêndido.

Marisa Matias-Vitorino Silva. Não houve debate, como era previsível. De qualquer modo, ficámos a saber que era o João XXI, é o Guterres e há-de ser o Tino.

terça-feira, janeiro 05, 2021

Cutileiro, o escultor que mudou os pedestais à História


O Camões de João Cutileiro, em Cascais

 

os debates (3)

João Ferreira-Marcelo Rebelo de Sousa. Um bom debate, sem uma moderação excepcional, mas que pelo menos permitiu algum diálogo, embora sem grande controvérsia. As divergências eram conhecidas e o debate fez-se com civilidade e simpatia mútuas. 

Ana Gomes-Marisa Matias. Passei um bocado pelas brasas, tenho de confessar. Já conhecíamos as diferenças e as semelhanças. Aguardo os próximos. A moderação cansou-me.

André Ventura-Vitorino Silva. E Tino de Rans foi ao Forte de Peniche tomar alento para o frente-a-frente. Trouxe do mar pedras de várias cores e pô-las na mesa. Lindo.

segunda-feira, janeiro 04, 2021

50 discos: 14. LIVE AT LEEDS (1970) - #9 «A Quick One, While He's Away»




os debates (2)

Marcelo Rebelo de Sousa-Tiago Mayan Gonçalves. Poderia ter sido muito mais interessante, se o moderador soubesse moderar. Pelos vistos, não sabe. É extraordinário. Fantasias extremoliberais à parte (partilham com a esquerda uma ideia mirífica de que o bom senso se autorregula nas sociedades bem organizadas), gostei de ouvir o liberal de serviço. Mesmo assim, com entrevistas paralelas..., até agora o melhor debate, com pontos marcados dos dois lados. A maquinação das eleições para as CCDR's, com a passividade de Marcelo foi muito bem metida.

domingo, janeiro 03, 2021

os debates

Marcelo Rebelo de Sousa-Marisa Matias. É a candidata mais empática, mais despida dos artifícios performativos da actuação política. Seria talvez a melhor presidente, mesmo vinda de um partido que cada vez mais me é desagradável. Foi envolvida por Marcelo, essa velha raposa. Estiveram ambos bem, num debate que não acrescentou nada, a não ser a explicação convincente relativamente à "falta" para com a viúva do imigrante assassinado por agentes do Estado, Ihor Omeniuk. O moderador, sempre em correria, cansou-me. Candidato à pergunta mais idiota: a de saber se um mau resultado prejudicaria a eventual pretensão de Maria a coordenadora do BE. A intriga, o sarro de politica-lha com que se entretêm entre si e só interessa esse tipo de parasitas que se nutrem à volta dos jogos de poder.

André Ventura-João Ferreira. Se é uma questão de decibéis e falta de vergonha, Ventura ganhou o debate, mesmo quando Ferreira expõe o carácter mentiroso do oponente e lhe lança no fim com os três votos sobre o Novo Banco: contra, abstenção e a favor. Nunca visto. Claro que o atirar das torpezas do bolchevismo e a impossibilidade de João Ferreira de demarcar daquilo, não o favorece. Este devia ter sido mais incisivo no destapar dos financiadores de Ventura, de quem este é testa de ferro, fantoche. A moderadora, que aprecio como pivot, foi muito atacada. Não é fácil pôr ordem naqueles galifões. mas a acusação de que as perguntas estavam montadas, até pela suspeição de que um dos financiadores de Ventura é accionista da TVI é gravíssimo. O jornalismo nunca foi grande coisa neste país, mas está assim tão baixo?

música para salvar o ano (passado):- #11 e final: «Vias de Extinção» (Benjamim)

na estante definitiva

 O texto introdutório é uma justificação da procura e resgate empreendidos pelo autor duma cultura e tradição varridas da narrativa historiográfica portuguesa com honrosas excepções, fruto da Reconquista e da bagagem ideológica que se lhe colou. triunfo do cristianismo, derrota do outro, que éramos também nós próprios e não sabíamos: «Conheci então o que sempre de mim fora conhecido.»

E há um óbvio apontar de dedo aos basbaques do país traduzido do francês em calão. O autor fala de subserviência, eu vejo o complexo do bimbo que gosta de mostrar que bebe do fino. Misérias. A constatação do abandono e do desinteresse, em 1987 mais pungente que hoje, por certo, peso o vírus jihadista que entretanto contaminou tudo o que pudesse emanar eflúvios de arabismo, E nesse então, a pergunta: «E quantos Árabes ilustres ligados à nossa terra têm merecido a atenção da nossa intelectualidade? Apenas responderá um silêncio que magoa.»  A melhor resposta é dada com este volume, que é obviamente um livro essencial dos estudos arábicos do século passado, como o foi esse outro maravilhoso gesto de António Borges Coelho com Portugal na Espanha Árabe (quatro volumes, 1972-1975). É isto que realmente interessa, o resto são inanidades para o agora.
Adalberto Alves, Portugal na Espanha Árabe (1987),

música para salvar o ano (passado): «Tudo no Amor» (Clã)

sábado, janeiro 02, 2021

a arte de começar

«Eu tinha chupado a vida por uma palhinha e o que restava dela e de mim era um monte de ossos com algum sebo! Acabara de ter uma desilusão de amor com uma cadastrada e estava a reaprender a amar na altura em que estes sinistros crimes se passaram. Vivia sem grande futuro e pior presente numa mansarda perto das Portas do Sol na Rua da Judiaria. Por companhia tinha um lavatório de ferro com tantos gatos como os que passavam miando pelo telhado  e um desenho a lápis do Hogan preso na parede por um adesivo onde se viam os dedos impressos pela fome. A única divisão servia-me também de escritório e, pendurado na porta da rua, tinha porto um letreiro com uma letra gorda dizendo "Agência Privada de Detectives". E para disfarçar a crise e enganar os clientes, com uma opulência fictícia, comprara um telefone a fingir e uma velha máquina de escrever na Feira da Ladra. Luxos que não podiam esconder o prédio, um pardieiro quase a cair, , alcunhado o "P.I.B. de Alfama", porque estava tão deficiente como a situação do país. De tal modo a casa se tornara popular no bairro que na taberna em frente se apostava, entre dois copos de tinto, quem ia dar primeiro com as trombas no chão: o prédio, o governo ou eu, vítima do meu arriscado ofício de impoluto investigador.» 

Rusty Brown (Miguel Barbosa, 1925-2019), Os Crimes do Buraco da Fechadura (2010)

quarta-feira, dezembro 30, 2020

quadrinhos

Dany & Denis Lapière (texto), Un Homme qui Passe (2020)

 

música para salvar o ano: #7 «Ondas do Mar» (Tim)

«Leitor de BD»

 

Doze livros de 2020

terça-feira, dezembro 29, 2020

música para salvar o ano: #6 «O Novo Normal» (Sérgio Godinho)

a procura do risco primitivo -- «A Catedral» (1920) (1)


«Era a hora de Matinas. A sineta do claustro tangia, a convocar os capitulares para o coro, quando Luciano passou da sua alcova à biblioteca, entreabrindo uma pequena porta e afastando uma massa rígida dum brocado que descia do lambrequim em pregas hirtas, adornado de eucarísticos lavores de seda e oiro. Em seguida, acercando-se duma janela cujas portadas tinham ficado despreocupadamente abertas, descerrou, num gesto largo, as vidraças de par em par, e aspirou com delícia a onda do ar fresco, que inundou a casa, impregnado dos vapores que do jardim, em baixo, se evolavam.»  O parágrafo inicial do romance de Manuel Ribeiro A Catedral (1920), pp. 4-28 da minha edição: Guimarães & C.ª Editores, Lisboa, s.d.


O tempo. Matinas -- antes do raiar do Sol, hora de oração e leituras de textos bíblicos e hagiográficos. Tempo histórico apenas referido no segundo capítulo.
O espaço. A referência a um claustro, a capitulares e a um coro, indica estarmos numa casa religiosa, obviamente sem surpresa, atendendo ao título do romance. Uma ligação directa da alcova à biblioteca, pode indiciar um aposento privilegiado para quem tenha hábitos, necessidades e práticas do foro intelectual.
Personagem. Luciano, habita no recinto, no qual parece deambular à vontade. Sabemo-lo, quantos lemos o romance, tratar-se de pessoa decidida e com ideias firmes. O «gesto largo» com que abre as janelas e aspira o ar da rua a plenos pulmões são gestos e atitudes que prenunciam a sua assertividade.
Impressões. o som (a sineta que tangia); a visualização do peso do lambrequim; o ar madrugador e refrescante que Luciano aspira a plenos pulmões.
O modo. As referências ao brocardo revela a permanência da estética naturalista, com todas as minúcias descritivas, aliás riquíssimas.

O capítulo inicial do romance põe em cena três personagens: o já citado Luciano, um jovem arquitecto de vinte e dois anos, interessado pela História da Arte e apaixonado pela Sé Catedral. Além de impetuoso e apaixonado pelo velho monumento, Luciano «desdenha[va] da profissão o utilitarismo interesseiro»; era, pois, um idealista. O parágrafo seguinte dá-nos o laço estabelecido entre o protagonista do romance e o enlevo pelo objecto da sua realização pessoal, e não tanto profissional:
«Luciano tinha-se deixado ficar à janela e contemplava, com alvoroço e flama estranha no olhar, a basílica qye se erguia já doirada nos cumes pelo sol matutino.  Vista do ramo transversal do claustro e no prolongamento do eixo da igreja, a ábside desenrolava em frente do espectador a sua elegante redondeza, e o frémito alado dos arcobotantes, com a ossatura frágil em pleno equilíbrio aéreo, dava-lhe tal ar de vida palpitante, que era de recear que uma carícia mais quente do sol filtrando-se nos poros da pedra, a catedral abrisse as asas e erguesse o largo voo nessa lúcida manhã de tempo claro.»
Esta relação quase erotizada que o narrador descreve dá também a medida de como Manuel Ribeiro se envolveu com esta testemunha vetusta do tempo. O conhecimento minucioso de cada passagem do templo é-nos dado com uma leveza correspondente à delicadeza deste perscrutar sensível que empreendeu. A Sé fora vítima das injúrias dos anos e dos pseudo-restauros, e Luciano anseia por arrasar com toda a «beleza falsa», para tentar recuperar o risco original. 
O pai de Luciano era o cónego da Sé, Porfírio de Sampaio e Melo, uma figura prestigiada do clero, aristocrata de origem  tradicionalista, filho segundo destinado à vida religiosa, desiderato que cumpre, menos por vocação do que atinência a uma ordem estabelecida, cuja família é um dos esteios. O arquitecto é fruto de «amores com uma certa beata lasciva» que rejeita o rebento. É o pai que o acolhe e perfilha, embora para o mundo apareça como sobrinho.
Uma terceira personagem, o padre Anselmo, jovem musicólogo apaixonado pelo canto gregoriano, chegando a corresponder-se com a maior autoridade da época o monge beneditino André Mocquereau, da abadia de Solesmes, alguém que estabelece com Luciano um diálogo no mesmo comprimento de onda.
Há ainda uma alusão à protagonista feminina do romance, Maria Helena de Monforte, condessa de Borba, ou a condessinha, como se lhe referem, com uma devoção por Santa Cecília, cuja capela a família mantém há gerações.
Um concurso para restauro será aberto e Luciano, provavelmente por influência do cónego, será o escolhido.

Anarquista, comunista, católico. Manuel Ribeiro quando escreve A Catedral é um elemento minoritário, embora cheio de prestígio, na Confederação Geral do Trabalho (CGT). Está, aliás, em choque com a corrente mais apolítica (aqui entendendo-se como apartidária). Torna-se, assim, em 1919, a principal figura da Federação Maximalista Portuguesa, que irá originar, em 1921, o PCP. Em 1920 (não consegui apurar se antes ou depois de publicado o romance), Ribeiro estará preso na Cadeia do Aljube, do outro lado da rua da Catedral...

segunda-feira, dezembro 28, 2020

sábado, dezembro 26, 2020

a arte de começar

 :ra uma vez antigamente, mas muito antigamente, nas profundas do passado quando os bichos falavam, os cachorros eram amarrados com lingüiça, os alfaites casavam com princesas e as crianças chegavam nos bicos da cegonhas. Hoje meninos e meninas já nascem sabendo tudo, aprendem no ventre materno, onde se fazem psicoanalisar para escolher cada qual o complexo preferido, a angústia, a solidão, a violência. Aconteceu naquele então uma história de amor.»

Jorge Amado, O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá (1976 -- escrito em 1948)

música para salvar o ano: #1 «Delicadeza» (Cristina Branco)

«Leitor de BD»


 Natal & etc.

sexta-feira, dezembro 25, 2020

quinta-feira, dezembro 24, 2020

Feliz Natal!


 Marge

terça-feira, dezembro 22, 2020

quadrinhos


Will Eisner, O Edifício (1987)

 

domingo, dezembro 20, 2020

JornaL - por favor, não me cansem com conversa fiada

Graça Freitas. Agradeceu à Natureza o ter passado incólume pelo ataque do SARS.Cov2. Por cá ainda não temos a parvoíce de agradecimentos públicos a Deus ou encomenda de orações, como sucede nos Estados Unidos, essa espécie de Arábia Saudita em potência do Ocidente.

Partidos. Cheguei à conclusão que, no actual sistema, os partidos mais necessários à ecologia dos portugueses são o PCP e o CDS. Um dia destes explico. A propósito: a entrevista de João Ferreira à RTP foi bastante boa. Zero de demagogia. Gostei.

Presidenciais. Já tive mais vontade de votar em Marcelo, na verdade o único candidato a sério. No entanto... Decido-me depois dos debates. 

Tortura. Ihor Omeniuk foi torturado até à morte num cubículo sem câmaras de vigilância. Enquanto não houver um sistema de interno de captação de imagens, susceptível de ser requisitado para visionamento, excepto nos sanitários, escusam os responsáveis de virem maçar os cidadãos com conversa fiada. Quero começar a ouvir o que os partidos políticos têm a dizer sobre isto. É insuportável

quadrinhos

Laerte, Classificados (2001)