terça-feira, abril 20, 2021

1957: «Rouge» - Miles Davis, BIRTH OF THE COOL #11.




«Leitor de BD»





Bob de Moor, Cori o Grumete -- 1. Os Espiões da Rainha

(aqui) 

domingo, abril 18, 2021

uma música apenas: «Blue 7» (Sonny Rollins)

 Blue 7. De Sonny Rollins (Nova Iorque, 7 de Setembro de 1930), faixa 5 de Saxophone Colossus (1956).

Sonny Rollins, sax tenor; Tommy Flanagan, piano; Doug Watkins, contrabaixo; Max Roach, bateria. 

Uma improvisação com tudo: o swing do contrabaixo a abrir, logo acompanhado pelos pratos da bateria -- do princípio ao fim. Os comentários aos solos de Rollins por Flannagan e Roach (tão grande que ele é) são para mim uma das volúpias de Blue 7.  John Fordham escreve que se trata de um dos grande momentos de sempre do jazz gravado. Ainda os solos do sax tenor, deixo para os especialistas aquí em baixo, não sem antes notar os ecos de Charlie Parker, cujo sax era outro, o alto. Ouvir aqui.

Referências: 

Blue 7

Ira Gilter (1956): «Doug Watkins and Max Roach set the solid, medium down groove for Blue 7, a minor blues of power with solos by all. Sonny has several statements of meaning separated by others' solo efforts. Max's fantastic polyrhythms and intelligent construction of ideas make his solo one of his best on record.» liner notes

John Fordham (1991): »[...] is the prolonged improvisation on the bleak, mid-tempo "Blue Seven", an assembly of brooding, stacatto variations that Rollins' control of shape and musical intelligence turns into one of the greatest episodes of recorded jazz.» The Essential Guide to Jazz on CD, Londres, Greenwich Editions, 1995

Raul Vaz Bernardo (1993) refere-se a Saxophone Colossus como «um dos grandes discos de jazz» e Blue Seven [...] cont[endo] alguns dos solos mais inspirados da história» desta música. «Facilidade e invenção», Expresso, Lisboa, 9 de Outubro.

Sonny Rollins 

André Francis (1982): «[Rollins] impôs seu toque maciço tirado de Coleman Hawkins, ao mesmo tempo que gozava da herança parkeriana tomando de Lester Young um pouco de sua fantasia em relação às barras de compasso.» Jazz, 2.ª ed., São Paulo Martins Fontes, 2000.

Carlos Martins (2005): «Era uma continuação de Parker no sax tenor.» «O saxofone como metáfora», Let's Jazz em Público # 27, Porto, Público. 

José Duarte (2005): «um histórico improvisador-compositor este Senhor Rollins / senso melódico e rítmico muito -- como poucos - desenvolvido».  Liner notes sobre «Decision» (1956/57).


Ludwig van Beethoven (1770-1827), CRISTO NO MONTE DAS OLIVEIRAS, Op. 85: - 3. Meine Seele ist erschüttert




doce lar

 «Tinha estado até então no Ministério, em comissão. Era a primeira vez que se separava de Luiza; e perdia-se já em saudades daquela salinha, que ele mesmo ajudara a forrar de papel novo nas vésperas do seu casamento, e onde, depois das felicidades da noite, os seus almoços se prolongavam em tão suaves preguiças!»

Eça de Queirós (1845-1900), O Primo Basílio (1878)

quinta-feira, abril 15, 2021

a entrevista

 Tudo na mesma: a ideia que fica é a de que o Ministério Público agarrou-se a tudo o que parecia susceptível de poder incriminar Sócrates; só que aquilo está tudo blindado. o documento que ontem mostrou sobre a opa da Sonae é mais uma acha para a fogueira do descrédito. Quando as magistraturas trabalham a toque do tabloidismo,..

Quanto ao amigo: tudo o que inclua dinheiro vivo, à partida está classificado, sem apelo nem agravo. Volto ao princípio: a chave está no amigo e de onde lhe vem a fortuna. E depois, aquelas escutas que foram vazadas para a imprensa são mortais. Mas parece que só é preciso ter cara de pau para que não se passe nada.

E de novo ao princípio volto: o patife do Madoff, que morreu hoje na cadeia, andou a ser investigado durante duas décadas. Se o caso era assim tão gritante e suspeito, talvez mais método e menos vontade de mostrar-se desse um outro resultado.

O entrevistador, José Alberto Carvalho, esteve no essencial bem naquele trabalho difícil.

Manifestantes: um punhado de salazaristas em desespero com a concorrência bem sucedida dum populista muito mais esperto, mostrou-se em toda a sua pobreza. Naqueles belos tempos de miséria ao sol, não havia nada disto, basta ver os jornais da época.

quarta-feira, abril 14, 2021

1958: «Ting-A-Ling» - Buddy Holly, THAT'LL BE THE DAY #5




juízes portugueses


Antigamente não se dava por eles. Aplicavam a Lei e o Direito, eram instrumentos do Estado. Quando tal sucedia, era pelas piores razões: os dos tribunais plenários (ou a Lei que se despreza e renega a si própria), juízes às ordens da PIDE, que continuaram tranquilamente a exercer após o 25 de Abril.

Ultimamente, uns casos curiosos: Carlos Alexandre prestou-se -- para dizer o mínimo, que mais é especulação -- a participar no grande reality show da detenção de Sócrates, vindo de Paris, em directo e a cores nas televisões, e dali directamente para a cadeia, sem passar pela casa da partida. É de homem. Perigo de fuga, alegou-se -- não vendo oportunamente um mail em que Sócrates se voluntariava para ser ouvido em tribunal (pois já sabia que andavam atrás dele, com as buscas em casa de um filho, se bem me lembro). Depois, aquela entrevista a uma televisão, com indirectas ao próprio Sócrates, bué edificante.

A seguir, aquele gajo da Relação, que veio ler acórdãos com provérbios. Para provérbios só há um, o Jerónimo de Sousa e mais nenhum. Seria depois apanhado a usar as instalações do Tribunal para os seus negócios privados, em que seria certamente bem pago.

Depois, aquele escroque que já foi irradiado, mas ainda não julgado, que vendia sentenças. Um tipo de elevada estatura e grande eco mediático.

Agora, Ivo Rosa e a avalanche dos últimos dias. Gabo-lhe a coragem, porque nenhum outro elogio nem crítica posso fazer-lhe, por falta de competência jurídica.

E por último, um maluco que anda para aí contra as máscaras e o confinamento. E digo "maluco" no sentido positivo. Não porque concorde com ele -- a nossa liberdade não pode condicionar a liberdade dos outros, dos que não querem ser contagiados por um vírus perigoso e potencialmente mortal --, mas porque sabe pôr a polícia na ordem. Todos sabemos que se a polícia não tiver rédea curta é por ali que os abusos começam. Todos o sabemos, porque de um modo ou de outro já tivemos alguma experiência desagradável com um agente da Autoridade.


1957: «Israel» - Miles Davis, BIRTH OF THE COOL #10




terça-feira, abril 13, 2021

«Leitor de BD»

Luc Ferry, Clotilde Bruneau, Dim. D & Federico Santagati,
O Nascimento dos Deuses

segunda-feira, abril 12, 2021

1954: «Hesitating Blues» - LOUIS ARMSTRONG PLAYS W. C. HANDY #10




elogio do juiz Ivo Rosa

 Ao contrário do que se anda para aí a ulular como em matança de judeus, o juiz Ivo Rosa não ilibou José Sócrates; tanto assim que este irá a julgamento. O que não deixou -- como garante dos direitos dos cidadãos -- foi que a pesca de arrastão do Ministério Público fosse levada por diante. Há rede, mas só o que a malha tem dimensões prescritas pelos códigos; ora atendendo ao nível que foi demonstrado, à tabloidização mancomunada da Justiça, para cevar os feios, porcos e maus deste circo, a malha do MP era tão larga que parecia uma profissional da beira da estrada, quando deveria ser uma catequista da Estrada da Beira. Se o MP não tem meios, no que se acredita, mais criterioso, fino e rigoroso deve ser o seu trabalho. Caso contrário, arrisca-se à sua desqualificação pública, como sucedeu -- o que nem é para admirar: qualquer observador atento percebeu que a acusação da Venezuela era uma tanga; e o caso Vale do Lobo foi liminarmente anulado pelas declarações do então ministro do Ambiente. Quanto ao resto, não sei, não tenho opinião, não me pronuncio. Faz-me confusão os tipos  da PT serem ilibados? Faz; mas não sei o que se passou e agradeço que não me expliquem, porque não tenho tempo. 

Elogio o juiz Ivo Rosa por não deixar-se amedrontar pela forma como o quiseram condicionar -- e à frente de toda a gente. Politicamente, é uma catástrofe, e é bem feita. Quem esfrega as mãos de contentamento, afirmando-se "revoltado", é o gajo do verdadeiro partido dos animais & outros erros da natureza.

Tudo o que escrevi a propósito de Sócrates está por aqui.

domingo, abril 11, 2021

sexta-feira, abril 09, 2021

"Leitor hipócrita -- meu semelhante -- meu irmão!"

 

Charles Baudelaire, Paris, 9 de Abril de 1821
Eça de Queirós e Fernando Pessoa (para falar dos que continuam vivos) sentiram-lhe a férula. 
Duzentos anos depois do seu nascimento, Baudelaire continua vivíssimo.
É só para alguns, para quase ninguém.

1959: «Cheek To Cheek» - Frank Sinatra with Billy May, COME DANCE WITH ME! #9.




terça-feira, abril 06, 2021

segunda-feira, abril 05, 2021

a arte de começar

 «Manuel Portugal, meu saudoso e muito amado pai, no princípio dos anos setenta do século passado numa despedida em Lisboa, que por lástima haveria de descobrir ser a derradeira, entregou-me um extenso acervo de fotografias, documentos, cartas velhas esmaecidas e dois livros gordos de capa rígida ao tempo utilizados nos registos de caixa de comércio: assentamentos de deve e haver. Em linhas direitas numa letra redonda, certa, apontando ligeiramente para a frente, com as certezas absolutas em que sempre viveu, anotou e percorreu as muitas estações da sua vida e da família. Recuou na busca e colecção de memórias até ao meu trisavô paterno: o anspeçada Josué Cristina, um homem de costados e olhares levantados e direitos, o que lhe acarretaria bons dissabores e uma mão cheia de sustos.»

Mário Silva Carvalho (1948), Regresso a Quionga (2019)


1954: «Chantez Les Bas (Sing 'Em Low)» - LOUIS ARMSTRONG PLAYS W. C. HANDY #9




domingo, abril 04, 2021

Putin a tremer de medo da pimponice do Biden, e ainda a propósito do documentário do Oliver Stone


A retórica é conhecida, e já fazia parte do arsenal soviético, a começar pelo genocídio das populações indígenas, continuando na segregação racial -- o tal racismo estrutural que para cá querem importar --, para não falar no resto. Como se previa, Putin que nem varas verdes.
Quanto ao resto, vi ontem a primeira de quatro partes do documentário do Oliver Stone sobre o Putin, que não só recomendo, para já, mas que se os restantes forem como o primeiro, aqui virão parar.
Oliver Stone, um novaiorquino que não se deixa comer por estúpido, tem outra vantagem, que é a de não se amedrontar com os lacaios e prostiputas do costume.
Ainda sobre o Stone, que combateu no Vietname, ao que parece com bravura, está imune a insinuações de traição ou falta de patriotismo (aliás, não é impunemente que se faz um filme como «Snowden»), o que foram as galdérias e os serviçais do costume arranjar? É evidente, assédio sexual. Uma coelha da Playboy diz que foi tocada nas mamas de forma inapropriada. Imagina-se... E apareceu também uma actriz, cujo nome omito com desprezo -- é uma das "justiceiras" do Woody Allen, com melhor currículo em ser apalpada do que a desempenhar papéis -- que também falou em maneiras impróprias, seja lá o que isso for.
Portanto, como não lhe pegam no patriotismo nem o intimidam ou coarctam, venha de lá o arsenal de abuso sexual, que tanto jeito dá e tão eficaz tem provado ser para calar um gajo.
Que falta de paciência...

Edward Elgar (1857-1934), Concerto para violoncelo em mi menor, Op.85 (1919)




sábado, abril 03, 2021

domesticar o animal -- ou a vida, para que serve? -- notas em torno duma frase de Stig Dagerman (1923-1954)

 «Sem fé, ouso pensar a vida como uma errância absurda a caminho da morte certa.»

Stig Dagerman, A Nossa Necessidade de Consolo É Impossível de Satisfazer (póstumo, 1955)

Tantas vezes me ocorreu semelhante desesperação. A morte é certa, o nada, também. Mas absurda a vida, mesmo sem deuses?

A inexistência de Deus é para mim uma evidência. Que fazemos parte de algo que não conhecemos e ainda menos dominamos, também não oferece dúvidas. Donde vimos? Não sabemos. E a existência de uma entidade operosa é isso sim, um absurdo primitivo. 

(O que distingue os lencinhos brancos acenados a um boneco em Fátima da prostração diante de qualquer manipanso aborígene? Nada. Pelo contrário, assemelham-se pateticamente na expressão da impotência e do pavor da morte).

Para que serve, então, viver. Existimos para a morte? Isso sim, é um absurdo com que nunca me conformei. Dispor da faculdade de existir, ao contrário de biliões potenciais seres humanos que nunca o lograram, já é  consolo suficiente., creio eu. A não ser que sejamos um dos desgraçados cuja existência foi um longo e interminável calvário, do berço à cova, um desses "bobos da vida" de que fala Edgar Lee Masters num poema, a quem só a morta igualitária fará com que venha a sentir-se um homem como os demais. Mesmo no infortúnio, e não há maior do que a morte dos que nos são queridos, a vida compensa-nos -- a não ser que os que deveriam morrer depois de nós desapareçam primeiro. E mesmo aí, havendo descendentes, a sua presença nestes se reflecte. 

Mas não há errância absurda quando a vida tem um sentido, e esse é o de existirmos para os outros. Tornar a vida dos outros melhor, retirar ao absurdo da existência o quinhão de desesperança que ela comporta, e isso está ao alcance de qualquer um, varredor de rua ou poeta, cirurgião ou empregado de mesa. Claro que esta estética, esta ética do quotidiano não está nas mãos dos bobos da vida, das vítimas constantes de abusos de outro tipo, ou dos que morreram demasiado cedo, por doença implacável, capricho da Natureza ou vítimas da escória humana, como os inocentes chacinados em Bagdade por causa das armas de destruição maciça que todos sabíamos não existirem. 

Quanto a esta escória humana, traficantes de toda a espécie, dos passadores de carne humana aos ratos dos mercados financeiros, cujo fim existencial é gerar mais dinheiro sobre dinheiro, marimbando-se para os demais, incluindo os próprios descendentes, a quantos almejam dominar, manipular e servir-se do próximo, aos predadores e necrófagos sociais, não há melhor sentido para a vida do que contribuir para neutralizá-los, nem melhor consolo que travar esse combate, à escala e nas possibilidades de cada um.

A morte já é fatalidade suficientemente dura para que não se lute por uma civilização do Amor, por quimérica que ela nos surja. E essa luta começa dentro de nós, domesticando o animal.

1959: «Day In - Day Out» - Frank Sinatra with Billy May, COME DANCE WITH ME! #8






sexta-feira, abril 02, 2021

« Ilya Eremburg e eu chegamos silenciosos de uma conversa com figuras gradas nos altos escalões

a propósito de nosso amigo Jan Drda, atendendo pedido que ele me fez em Praga de onde venho para receber o Prêmio Internacional Estaline da Paz: o prêmio me credencia.»

Jorge Amado, «(Moscovo, 1952 -- Os desmemoriados)» Navegação de Cabotagem (1992)


Trata-se do primeiro fragmento destas memórias propositadamente desconjuntadas, que se lêem dum trago. Leio-o também como um aviso à navegação por ocasião da debâcle soviética, para quantos pudessem andar à cata de episódios sórdidos relacionados com o Partido -- a maiúscula e o sentido de compromisso mantêm-se. O mal-estar concentracionário do pesadelo estalinista -- é difícil imaginar algo tão avesso ao tropicalismo solar de Jorge Amado -- está bem vincado, não pelo que diz, mas pelo que transpira; não há nada mais desonroso do que ser considerado como um trânsfuga; e depois Jorge Amado, por generosidade ingénua e voluntarismo, foi um arauto desastrado desse mesmo estalinismo; e ele não o nega. Felizmente a sua obra em geral vale muito mais que isso; mesmo quando errado, esteve sempre do lado certo no que respeita ao seu Brasil. E é esse Brasil miscigenado, violento, alegre, injusto, brutal em tudo o que tem de bom e de mau; são obras-primas do romance como Mar Morto (1936), Gabriela, Cravo e Canela (1958) -- resposta elevadíssima do ponto de vista literário e ideológico a todos quanto, depois de O Mundo da Paz (um desastre propagandístico de louvação a Stalin, 1951) ou Os Subterrâneos da Liberdade (1954), veio clamar que Jorge se tinha aburguesado; se tal sucedeu ou não, é assaz irrelevante para o escritor, que é o que interessa; todavia se houve coisa de que ele se não absteve foi o de travar, sempre, o bom combateTenda dos Milagres (1969) -- o primeiro que li, e parece que o seu preferido -- aí está para o demonstrar; a propósito do qual um crítico exigente exarou: "Jorge Amado em estado de graça".

fragmento para ler aqui. 

quarta-feira, março 31, 2021

1958: «Modern Don Juan» - Buddy Holly, THAT'LL BE THE DAY #3.




Louçã não é maluco

 Francisco Louçã, que é conhecido por ter um enorme sentido de humor, semelhante ao de uma caixa de sapatos, lembrou-se de gozar com uma deputada municipal do PPM, num voto que defendia a equiparação do comunismo ao nazismo, algo que eu contesto, como já escrevi aqui.

A circunstância de haver um grau de natureza diferente entre nazismo e comunismo, não significa que passe a ser legítimo branquear as patifarias do Stálin, que foi um monstro, nem sequer as do Lenine e muito menos as malfeitorias do Trostky. Não se branqueie o bolchevismo, que eu para esse peditório não dou; como não dou para esse outro, que é o de branquear o nazismo com comparações espúrias. 

No entanto, concedo uma sensibilidade especial a Aline Hall de Beuvink, dada a sua ascendência ucraniana. Mas comparar ambos não é objectivo nem verdadeiro. O bolchevismo em acção traduziu-se pela tomada do poder de uma clique não olhando a meios -- o trivial, portanto. O nazismo, entre outras lindezas, tratou de exterminar duas etnias. E a verdade é que o sucessor do dito Stálin, georgiano, foi Krushtchev, ucraniano, que fez todo o seu percurso a lamber as botas do outro.

Um colunista da Rádio Observador, Alberto Gonçalves, que costumo ouvir no carro, esta segunda-feira pegou nesta intervenção de Louçã num jornal da Sic-Notícias desta sexta-feira, obrigando-me a ir vê-lo. E, na verdade, é terrível: Louçã tenta ter gracinha à conta de um genocídio (e parece que manipulou as imagens, é pelo menos a acusação que lhe é feita). O cronista, nessa segunda-feira, ciente de que à figura falta qualquer sentimento de empatia objectiva pela pessoa concreta (é mais fácil simpatizarmos com as grande abstracções) chamou-lhe sòciopata e maluco. Ora eu creio que Louçã não é maluco.

1957: «Boplicity» - Miles Davis, BIRTH OF THE COOL #8.




terça-feira, março 30, 2021

domingo, março 28, 2021

a arte de começar

«O apito do navio era como um lamento e cortou o crepúsculo que cobria a cidade. O capitão João Magalhães encostou-se na amurada e viu o casario de construção antiga, as torres das igrejas. Os telhados negros, as ruas calçadas de pedras enormes. Seu olhar abrangia uma variedade de telhados, porém da rua só via um pequeno trecho onde não passava ninguém. Sem saber porquê, achou aquelas pedras, com que mãos escravas haviam calçado a rua, de uma beleza comovente. E achou belos também os telhados negros e os sinos das igrejas que começaram a tocar chamando a cidade religiosa para a bênção. Novamente o navio apitou rasgando o crepúsculo que envolvia a cidade da Bahia. João estendeu os braços num adeus. Era como se estivesse despedindo de uma bem-amada, de uma mulher cara ao seu coração.»

Jorge Amado (1912-2001), Terras do Sem-Fim (1943)

«My Baby Just Cares For Me»

«Saturday Night (Is the Loneliest Night of the Week)»

sexta-feira, março 26, 2021

1959: «Saturday Night (Is The Loneliest Night Of The Week)» - Frank Sinatra with Billy May, COME DANCE WITH ME! #7




«Nesse ano, o Menino-Jesus, que o padre deu a beijar no dia de Natal, na arruinada capela do lugar,

foi um menino vivo, um menino de carne e osso.»

«Conto de Natal», de João de Araújo Correia, uma divertida história aldeã de arrependimento, em que dois velhos, uma curiosa  e um padre, surgem como instrumentos beatíficos da Graça divina -- para ler aqui.

quinta-feira, março 25, 2021

1958: «Good Bait» - Nina Simone, LITTLE GIRL BLUE #7




palavras como monumento

«Também aqui, com o decorrer do tempo, as casas enxamearam-se e os bairros multiplicaram-se de ambos os lados da ponte. A cidade vive da ponte e cresce dela como de uma raiz eterna.» 

Ivo Andrić, A Ponte sobre o Drina (1945) 

quarta-feira, março 24, 2021

1958: «Blue Days Black Nights» - Buddy Holly, THAT'LL BE DE DAY #2




um ateu a caminho da conversão

Continuar: «Maria Helena passava agora, todos os dias, alguns momentos na catedral, em serviço do Apostolado.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920), pp. 87-116 da minha edição.

Um capítulo um pouco extenso, mas delicioso, em que sobressaem alguns aspectos muito relevantes. Comecemos por um parágrafo em que a descrição das obras na Sé nos dá a ideia de um trabalho num organismo vivo -- ou pelo menos não inanimado.

«Renascia a catedral. Todo o navio arfava no ritmo da vida. Mais do que nunca, a Sé parecia animar-se. A sofreguidão dos trabalhos, a azáfama das obras, a vibratilidade que parecia terem adquirido as estruturas íntimas sob o influxo restaurador, infundia tudo o sentimento da força a agir, do sangue a circular. A catedral vivia, palpitava, sentia, e isto revelava-se na epiderme nova dos silhares, nos tufos arbóreos das nervuras, nessa inesperada primavera da pedra que desabrochava pelos capitéis uma flora estilizada. A catedral vivia. E que admirar era que as catedrais vivessem? Não formavam o substractum de tanta vida decomposta, o resíduo dos seus artistas que até os corpos lhes haviam dado? Elas tinham, de facto, surgido das entranhas da terra, argamassadas com o seu sangue e caboucadas com os seus ossos, assim como as ilhas madrepóricas, que sobem do fundo dos oceano feitas dos cadáveres dos seus artífices...» 

O comunista e antigo anarco-sindicalista não esquece o factor trabalho, aqui iluminado pelo entusiasmo que o narrador empresta ao afã operário, como se trabalhadores e edifício participassem duma mesma célula.

Um outro aspecto, o da atracção que se vai desvelando entre Luciano e Maria Helena, esta que, transpondo inopinadamente o limiar da capela de família, vê-se retratada num capitel que aquele esculpia, com Luciano «só deseja[ndo] que o sorvesse o chão, que a catedral o tragasse.»:

«[...] uma deliciosa e adorável cabeça de mulher, reproduzida da máscara e de que ressaltava em medalhão a face, surgia, graciosa e grave, a expressão suave e melancólica, um ar antigo de santa. Reparando bem, parecia que a folhagem não era mais que uma imperceptível sequência da sua cabeleira ondulada que se bipartia na testa e inflectia delicadamente aos lados, até surgir gradualmente, na grinalda de miudinhas folhas.» 

Também para Luciano se dava a osmose do edifício com a vida, tal como sucedia com os trabalhadores. E aqui paixão e vida entranhavam-se: «Ele amava, amava Maria Helena nas formas artísticas da catedral.»

Mercê do seu trabalho diuturno e pelo facto de residir no sopé da catedral, e pela vontade de se aproximar da condessinha, percebendo-a e tentando decifrá-la na sua religiosidade, começa a interessar-se pelos ofícios litúrgicos. E é então que estudando, intuindo, compreendendo, tendo como (inconsciente?) coadjuvante o jovem padre Anselmo, que Luciano «começa a resvalar no pendor místico da religião». E as formas, os cânticos, os símbolos -- o «admirável jardim [...] litúrgico» -- começam na sua harmonia a interessá-lo, a conquistá-lo, como de resto haviam já conquistado o narrador, como se pode ver neste parágrafo:

«A álea [desse jardim] começava no Advento em fundos dominantes de violeta donde sobressaíam de longe em longe, os grandes lírios alvos dos confessores, as castas rosas brancas das virgens, os cactos rubros dos apóstolos e dos mártires. No tempo do Natal, tudo se decorava duma brancura láctea, tudo era branco, até a própria vigília da Epifania. Depois a paisagem reverdecia. Em breve, porém, o horizonte arroxeava-se, e a septuagésima passava violácea entre os maciços de goivos de Quinta-feira maior e a cinza trágica de Sexta-feira santa. Mas já no tempo pascal, a paisagem desentenebrecia-se, os tons amaciavam e o branco criador surgia de novo, galopava, polvilhava tudo de penas alvas. E outra vez reapareciam, do Pentecostes e o Advento, as largas manchas verdes, donde sobressaíam, de longe em longe, os grande lírios alvos dos confessores, as rosas brancas das virgens e os cactos rubros dos apóstolos e dos mártires...»

Se o ofício completo da missa seduz Luciano como «uma refinada condensação de arte», o acto de orar apresenta-se-lhe como «atitude estética empolgante», sentimento reforçado pelo misticismo do seu interlocutor, o padre Anselmo, para quem a oração periódica diária se reveste de uma indizível transcendência: «E há na vida ocupação mais digna, trabalho de mais apreço, de maior elevação espiritual que este culto ininterrupto ao grande Mistério que envolve o universo e a que só é indiferente a mais grosseira materialidade?»

Fosse pelo amor, fosse pela estética, fosse, ainda, por um preenchimento de um vazio interior, Luciano parece resvalar a passos largos para dentro da fé. E quando o jovem padre começa a explicar a Liturgia das Horas, com os cânticos que lhe pertencem, ao arrebatamento da música associada ao ofício divino, puro esplendor monacal, então é já o narrador que se vislumbra tocado pela Graça:

«-- Matinas é o cântico da noite, a hora que simboliza a adoração dos anjos e dos pastores a Jesus recém-nascido, e o início da sua Paixão na dolorosa noite do Horto. Luzem no céu as estrela e nem prenúncios de alva assomem no oriente. O invitatório e o salmo Venite exsultemus com que ele alterna em ritornelo, a seguir à doxologia, incitam os fiéis a que louvem Deus na alegoria dessa exortação dos anjos aos pastores ma messiânica noite redentora -- e são o prólogo dos três Nocturnos que chegam rolantes como batarias, guarda avançada dos salmos que vão desfilar pelo dia adiante. Apagados os ecos das três vigílias, que simbolizam as três vezes que Jesus se afastou dos discípulos para orar, quando foi preso, e as três etapas da lei religiosa -- patriarcal, mosaica e cristã, -- eleva-se aos domingos e nas festas de rito simples, o apoteótico cântico ambrosiano, esse rutilante Te Deum laudamus, que nimba o remate da hora com os primeiros raios de sol nascente.»

Recorde-se que Manuel Ribeiro dirigia o jornal bolchevique Bandeira Vermelha. Se falamos de um ateu -- ou talvez agnóstico, distinção a fazer-se -- a caminho da conversão, não podemos esquecer também a circunstância de Manuel Ribeiro, ex-anarco-sindicalista, comunista bolchevique. Que a conversão já lá anda, parece quase evidente, salvo melhor opinião.