«também me parece / que muitos poetas / não querem dizer / o que dizem / quando dizem / o que querem»
De Nada (2012) /
/ Resumo - A Poesia em 2012 (2013)
conservador-libertário, uns dias liberal, outros reaccionário. um blogue preguiçoso desde 25 de Março de 2005
«também me parece / que muitos poetas / não querem dizer / o que dizem / quando dizem / o que querem»
De Nada (2012) /
/ Resumo - A Poesia em 2012 (2013)
«Que requintes de luxo para o corpo, e anelos de glória para a felicidade do espírito lhe não infloravam ao poeta de Elvira a dupla existência, quando ele escrevia: Héritiers des douleurs, victimes de la vie, / Non, non, n'espérez pas que sa rage assouvie / Endorme le Malheur,» Camilo Castelo Branco, O Romance dum Homem Rico (1861)
«Ele olhava, bestificado, as camas de ferro, os armários a pedir cadeado, as lajes frias e os colegas a despirem-se com ares de condenados. / -- Qual Cavalaria? -- perguntou com um ar imbecil -- Isto até me parece muito asseado. / -- A gente depois conversa. -- rosnou o Zé puxando a manta até aos olhos.» Abílio Teixeira Mendes, Henda Xala (1984)
A propósito da rebaldaria de Ceuta, com evidente intervenção da CIA -- só um anjinho não o vê --, não sei se em joint venture com a Mossad e a cumplicidade vergonhosa do próprio Marrocos em dia de aniversário de entronização de Mohamed VI, que deveria pintar a cara de preto, por monarca de um reino de onde os súbditos querem fugir --, a propósito de tal acontecimento vieram a católica nacionalista Meloni e a social-democrata Frederiksen falar daquilo que as preocupa, a imigração.
Não serei eu quem dirá que a imigração, de que tanto gosto -- mas dum gostar diferente do dos hoteleiros, empreiteiros e agricultores --, não acarreta problemas para os quais o país não está(va) preparado. Mas sem nunca fazer o jogo do Tullius Detritus.
Dizem as senhoras que são orgulhosas das raízes cristãs da Europa; pois eu também! Portugal fez-se com as milícias dos reis e com a Igreja. Mas também me orgulho muitíssimo da herança muçulmana, como deve suceder com todo o português patriota.
Vivo em Cascais, um concelho cheio de topónimos árabes, o mais importante dos quais será Alcabideche (onde nasceram os meus dois netos), terra natal do grande poeta árabe do Século XI Ibn Muqana, concretamente, Abu Zayd'Abd ar-Rahmãn ibn Muqana al-Qabdaqui al-Lishbuni. Gosto tanto dos poetas, como das palavras e dos moinhos (e dos cavalos, e um longo etecetera...) nos deixaram. Dois dos livros da minha vida são os quatro volumes do Portugal na Espanha-Árabe, do transmontano António Borges Coelho e O Meu Coração É Árabe, antologia de poetas árabes nascidos no território que veio a ser Portugal, do lisboeta Adalberto Alves.
Como, de resto, tenho muito orgulho na nossa herança judaica, considerando que a expulsão e conversão forçada dos judeus no final do Século XV foi não só o maior crime que Portugal cometeu, como foi catastrófico para o país em todos os sentidos. E, já agora, também da céltica, da romana, da sueva e da visigótica. Sem esquecer que uma das palavras preferidas da minha língua é gajo, de origem cigana, como se sabe.
Não quer com isto dizer que seja tolerante para com a religião deles (muçulmanos), como não sou para com a nossa (cristãos), quando começam a exorbitar. A religião é da esfera íntima, pessoal e familiar, mais do que isso só deve ser tolerada pelo estado laico, ou por razões identitárias ou de Estado, como sucede, e bem, com a Igreja Católica.
Que Meloni se ufane da herança cristã da Europa, está no seu direito; tal como Frederiksen, que, no entanto, proclamando-se socialista não junte a estas formulações pias o orgulho na herança iluminista, que nos deu a fórmula que mantém toda a razão de ser, enquanto houver ser humano sobre a terra -- e que absolutamente nada substitui, Liberdade, Igualdade, Fraternidade, isso é que foi pena; e nós não o devemos deixar esquecer: a Razão antes de tudo e em política geral; fantasias celestiais & outras, é com cada um, desde que não nos chateiem.
«quem usa o sangue para escrever não consegue falar»
Resumo - A Poesia em 2012 (2013)
«1. O Regresso / Ainda os ouço, ainda os sinto, mesmo aqui, tão longe, do outro lado do mundo. Os seus passos a arrastarem-se, um restolhar de serpente ou de sombra no pasto seco. Mas não quero falar deles. Mais tarde, quem sabe? Agora, vou enterrá-los em sete palmos de silêncio, no lodo do Rio das Pérolas.» Dora Gago, Quem Rasgou os Meus Lençóis de Linho? (2026)
«Sentado na borda da cama, ombros baixos, o beiço superior fazendo um muxoxo de amuo, o Zé, filho de oficial, deixou escapar: / -- O meu velho tinha razão. Estamos quilhados. E logo nos havia de tocar a Cavalaria.» Abílio Teixeira Mendes, Henda Xala (1984)
«As comemorações dos setenta anos da fundação de Irisópolis e dos cinquenta de sua elevação a cidade, cabeça de comarca e sede de município, alcançaram certa repercussão na imprensa do sul do país. Se para tanto o dinâmico Prefeito despendeu de verba elevada, não incorre em crítica: tudo quanto se faça para para divulgar as excelências de Irisópolis, o passado de epopéia, o presente de esplendor, merece aplauso e elogio.» Jorge Amado, Tocaia Grande - A Face Obscura (1984)
«O frio dos Pirenéus e o aroma a traição / fazem-me regressar ao toque das tuas mãos.»
Resumo - A Poesia em 2012 (2013) - «Roncesvalles»
Deixo para quem interesse o historiar e o balanço da passagem do Fidel Castro pela terra. Nem faço ideia se a História o absolverá. O que sei, de saber certo, sobre Fidel Castro, foi ter sido alguém que, dirigindo um punhado de guerrilheiros, pegou num país que era uma cloaca dos Estados Unidos, casino e casa de putas dos mafiosos e do poder norte-americano, e deu dignidade e cabeça erguida a um país, um povo e uma bandeira. É comparar com a miséria latrino-americana em volta. Claro que há um deve e um haver, e não serei eu fazer do homem um santinho revolucionário, coisa que não existe, nem o Che Guevara. No entanto, antes cubano que nacional de quase tudo da américa-latinha de que os americanos gostam.
«Não estou contra / não vou contra / apenas subo um pouco / e desacelero»
Arte Nenhuma (2012) - «"Ich habe genug"» /
/ Resumo - A Poesia em 2012 (2013)
«Entrou nos recintos de Deus / um pouco desabrigado, mas de unhas limpas / e de peito aberto ao que viesse.»
De Amore (2012) /
/ Resumo -- A Poesia em 2012 (2013)
«Já tão pouco me resta dêsse fruto, / o qual não era ainda este enigma, / mas plena convulsão de gozo em bruto: / massa compacta a desenhar-se escrita»
Maçãs de Espelho (2012) - «Voto renovado de poesia» /
Resumo - A Poesia em 2012 (2013)
«Naquele tempo, a freguesia de Nossa Senhora do Rozário da Achadinha não era mais do que uma caganita de mosca, à qual se apontasse um dedo acima do dorso quase sempre verdoso do Atlântico, e a memória dos povoadores escorria ainda do basalto das calçadas e dos musgos marinhos.» João de Melo, O Meu Mundo não É Deste Reino» (1983)
«O "Avelona Star", de boa singradura, trouxera para a direita do seu casco o vulto negrusco que até aí apresentava pela linha de proa. Porto Santo avolumara-se, perdendo em mistério o que dava em relevo orográfico.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)
«Entrei numa das mais flácidas carruagens do comboio. / Vejam a egoísta e brutal natureza do homem-corpo! Nem quando a alma padecia tanto, se dispensou a ignóbil matéria dos regalos das almofadas! A angústia lamentosa; creio: mas em que recâmaras de asiática opulência se lamentava ele!» Camilo Castelo Branco, O Romance dum Homem Rico (1861)
«É feio apontar para fora de nós.»
Nós, os Desconhecidos (2012) - «É feio apontar» /
Resumo -- A Poesia em 2012 (2013)
«-- Que eu seja apenas Som que um outro cante / e, na renúncia de mim, / igual a mim um dia me alevante!...»
Serra-Mãe (1945) - «Harpa»
«Tendo-o visitado com intervalos que nunca excederam mais de quinze anos -- e, em geral, muito menos ainda --, foi-me lícito observar a vertiginosa ascensão daquela pátria e daquele povo entre as outras nações do continente americano.» João de Barros, Adeus ao Brasil (póst., s.d.) - «Brasil de hoje».
«Eu bem na sinto!, eu bem na sinto! E, apoiada sem peso ao nosso braço, a criatura vai vaporosamente, no silêncio duma ventura profunda, de olhos descidos, o rosto fino, e bons dias a esta árvore e àqueloutra, uma palestra sem fim com os carvalhos e velhos olmos.» Fialho de Almeida, O País das Uvas (1893) - «Pelos campos»
«E como não há macdames que resistam a este trânsito fantástico a que estão sujeitos os macdames do Norte da França, a legião dos que se empregam em os reparar constitui um verdadeiro exército, que trabalha sem descanso e cuida com desvelo de impedir que as estradas, trilhadas por toda a casta de veículos, se tornem intransitáveis.» Adelino Mendes, «A cidade d'Albert», A Capital, 29-III-1917, Repórteres e Reportagens de Primeira Página (s.d.)
«não tenho nome ou idade, / nem sequer um coração // para sofrer outra ofensa:»
Oráculos de Cabeceira (2009) - «"É bom viver na terra?"»
«Até me diz na carta que o pároco é um belo rapagão. De sorte que -- acrescentou sorrindo com satisfação -- depois de "Frei Hércules" vamos talvez ter "Frei Apolo". / Em Leiria havia só uma pessoa que conhecia o pároco novo: era o cónego Dias, que fora, nos primeiros anos do seminário, seu mestre de Moral. No seu tempo, dizia o cónego, o pároco era um rapaz franzino, acanhado, cheio de espinhas carnais...» Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro (1875/1880)
«No meio de tantos e tão cruéis vexames e padecimentos, o mais custoso e aborrecido de todos eles para os afeminados descendentes dos soldados de Teodorico, de Torismundo, de Teudes e de Leovigildo era o vestir as armas em defensão daquela mesma pátria que os heróis visigodos tinham conquistado para a legarem aos seus filhos, e a maioria do povo preferia a infâmia que a lei impunha aos que recusavam defender a terra natal aos riscos gloriosos dos combates e à vida fadigosa da guerra.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)
«Assim o povo que tem sempre melhor gosto e mais puro do que essa escuma descorada que anda ao de cima das populações, e que se chama a si mesma por excelência a Sociedade, os seus passeios favoritos são a Madre de Deus e o Beato e Xabregas e Marvila e as hortas de Chelas.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)
«Gorda, bojuda, de alongado pescoço / liso, macio veludo, recordo-a»
O Monhé das Cobras (1997) - «A moringa»
«A manhã era uma sombra, um desafio, / uma promessa ínvia: ela conhecia como ninguém / o fragor da distância, o remorso lívido do corpo, / o gume vivaz da vida por cumprir.»
Cadernos do Verão (2021) - «Irisalva»
Simone de Beauvoir: «Por detrás da política mais crua, mais linear, há sempre uma ética que se dissimula. É isso que descobrimos de forma evidente, assim que consideramos o caso concreto.» O Existencialismo e a Sabedoria das Nações (1948) - trad. Mário Matos § Honoré de Balzac: «Casas três vezes seculares ainda se conservam sólidas, apesar de construídas de madeira, e os seus diversos aspectos contribuem para a originalidade que recomenda esta parte de Saumur à atenção dos antiquários e dos artistas.» Eugénia Grandet (1833) - trad. Jorge Reis § Génesis: «Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o quarto dia. / Deus disse: "Que as águas sejam povoadas de inúmeros seres vivos, e que na terra voem aves, sob o firmamento dos céus." Deus criou, segundo as suas espécies, os monstros marinhos e todos os seres vivos que se movem nas águas, e todas as aves aladas, segundo as suas espécies.» Bíblia Sagrada (Missionários Capuchinhos)
«Se durar muito tempo, a popularidade acaba tornando a pessoa impopular» Millôr Fernandes, Pif-Paf (2004) - «Confúcio disse»
Camilo Castelo Branco a José Barbosa e Silva: «Meu caro José Barbosa // Mr. Óscar, pianista de grande merecimento, tenciona tocar em Viana. É escusado falar-te ao amor da arte, para o mover em coadjuvá-lo em tudo que estiver ao teu alcance. O cavalheiro, portador desta carta, é de si tão modesto, que, se o não auxiliarem, terá uma casa vazia. Esta carta vale para todos os nossos amigos -- // Teu do C / Camilo Cast.º Br.º» Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva (1984) - ed. Alexandre Cabral
«Estes continuavam ali, com as mãos presas e os braços passados nos ombros um do outro; a diferença é que se miravam agora, em vez de olhar para baixo. Mestre Romão, ofegante da moléstia e da impaciência, tornava ao cravo; mas a vista do casal não lhe suprira a inspiração e as notas seguintes não soavam. / -- Lá... lá... lá...» Machado de Assis, História sem Data (1884) -- «Cantiga de esponsais»
«1. A acreditar-se nos historiadores ibéricos, sejam espanhóis sejam portugueses, a descoberta das Américas pelo turcos, que não são turcos coisíssima nenhuma, são árabes de boa cepa, deu-se com grande atraso, em época relativamente recente, no século passado, não antes.» Jorge Amado, A Descoberta da América pelos Turcos (1994)
«Apertava-se o coração do pobre pai, ao lembrar-se que os sóis ardentes de Julho ou os tufões regelados de Dezembro haviam de encontrar sem abrigo aquele débil criança, que mais se dissera nascida e criada em berços almofadados e sob cortinados de cambraia, do que no leito de pinho e na grosseira enxerga da aldeia.» Júlio Dinis, As Pupilas de Senhor Reitor (1867)
«Quase dois contos atirados por água abaixo! / No topo da escada, esbatendo-se na penumbra, surgiu o abdome e logo o rosto avermelhado de Macedo, proprietário da "Flor da Amazónia". / Então, senhor Balbino? / -- Nada!» Ferreira de Castro, A Selva (1930)
«Quatro anos antes, o arcediago de Barroso, padre Leonardo Taveira, amigo velho do Sr. Silva, em expansiva conversa com o seu amigo, num domingo de tarde, nas hortas de Campanhã (onde semanalmente saturavam as respectivas massas adiposas com o excelente vinho verde de Cabeceiras de Basto), quatro anos antes, vinha eu dizendo, falava assim, com o seu amigo, o rubicundo arcediago: / -- Sabes tu, Silva, que me está dando bastante cuidado o futuro de Rosa!» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854)
Aqui. De acordo em 99% de tudo quanto diz. O caso Luís Neves, ou de como é fácil conspurcar tudo à volta; o estranho caso do assalto e vandalização do gabinete do Ventura; o novo aeroporto, decisões à portuguesa, o país lesado; a compra de caças última geração para atacar a Rússia (uma piada de péssimo gosto), a ausência de uma esquadrilha mínima para combate aos incêndios, como se fôssemos o Burkina Faso ou o Nepal -- o país traído.
«Oh caminho da vida nunca certo, / Que aonde a gente põe sua esperança / Tenha a vida tão pouca segurança!»
Os Lusíadas (1572)
«O fundo escuro / das paisagens, o lugar da alma, / a oblíqua forma / dos pensamentos ocultados.»
Verso Antigo (2001)
O assunto Luís Neves, explicadíssima a questão do atrelado, passou a não-assunto. Irrelevâncias políticas, porcariazinhas e peaners usados pelo populismo sem escrúpulos e aproveitado como subsídio alimentar, ganha-pão arredondado para alguns especialistas da "comunicação".
Como disse há pouco Fernando Medina no Now -- e de forma claríssima --, isto é não apenas um ajuste de contas do Ventura com o tipo que lhe desmontou o discurso oportunista, xenófobo e racista, como um aviso aos que estão a investigar o Chega em vários departamentos (financiadores, associação a grupos criminosos, e por aí fora) para se porem a pau quando se metem com a organização.
Nesta questão, só há uma posição política admissível (tanto mais que o ministro admitiu lapsos e incorrecções menoríssimas e que é esta: distanciamento da estratégia habilidosa do Ventura -- aqui Mariana Leitão a funcionar como a idiota útil do Chega -- e desmontagem da sua parlapatice. Porque é preciso ser-se muito estúpido ou muito ambicioso para fazer o jogo daqueles espertalhões, jogo que os prostiputos da "comunicação" ajudam a alimentar.
«E o teu silêncio / é de súbito um sino / tocado pelo vento / em todas as aldeias do meu sangue.»
O Canto e as Armas (1967)
«É irreal é excessivo o som do mundo do real»
Os Arredores do Mar, os Subúrbios da Noite (1993)
«A dor não me pertence. // Vive fora de mim na natureza / livre como a electricidade.»
Poeta Militante (1977) - «Melodia» (1932)
Millôr Fernandes: «Nada é mais falso do que uma verdade estabelecida.» Pif-Paf (2004) § Camilo Castelo Branco: «-- Eu não sou da tua família, ouviste, jacobino? -- replicou a velha; e, fazendo-lhe duas figas, acrescentou: -- Toma, que te dou eu, hereje! / -- Ó tio Luís! -- perguntou o pegureiro -- Vossemecê viu aí na Agra da Cruz uma cabra?» Maria Moisés (1876-77) § Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano (1973): .../... «De facto, além de dar sinais muito visíveis de contacto físico e moral, o Prof. Moura apresentou-se no parlatório com o cabelo cortado (!) e queixando-se de frio, sono e isolamento. Das suas palavras parece inferir-se que se encontra numa cela onde não entra a luz do sol. / Queira aceitar, Senhor Presidente, com as expressões da minha mais elevada consideração, os melhores cumprimentos do // A. Sedas Nunes» Cartas Particulares a Marcello Caetano, ed. José Freire Antunes (1985)
«A cada minuto a agitação crescia. Pregoava-se água fresca, pastelinhos, tâmaras. Dum primeiro andar, com tabuinhas verdes, logo abaixo do Circo, meninas de batas brancas convidavam : -- Psiu! não sobes, ó catitinha? -- aos janotas que passavam.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)
«Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei. E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as ânsias nem as dúvidas do moço príncipe, mas pausado e trôpego, como quem se retira tarde do espetáculo. Tarde e aborrecido.» Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)
«E, insistentes, aos ziguezagues: / -- Persegue-me, anda, persegue-me, que levas dois butes. / -- Lá isso, ouve-se outro a dizer na rua, lá isso não digo eu...Que ele há um deus que nos governa; é boa! / Eu entrava, cumprimentando os velhos conhecimentos. / -- Ditosos olhos, estudantinho, dizia um. / -- Ó seu seu casaca!, fazia outro.» Fialho de Almeida, A Ruiva (1878)
Não sei se o Tullius teve isso em mente quando anunciou a Comissão Parlamentar de Inquérito putestativa. Também aqui o Estado de Direito pode estar em causa. À atenção da DGS -- a DGS de agora, claro, claro...
«Se ao meu ouvido / Chega o rugido / Do teu vestido / Indo a roçar, / Que som me vibra / Não sei que fibra, / Que me equilibra / A mim no ar?»
Campo de Flores (1893) - «Casto lírio»
A não ser que algo de muito grave seja revelado sobre a acção do ministro enquanto director da PJ -- no que não acredito --, era o que faltava que o país embarcasse na campanha que o Tullius Detritus deliciadamente empreende contra Luís Neves, que tem mostrado ser o homem certo no lugar certo. O Tulius, os antigos colegas que querem fazer-lhe a folha e as peidorrices do comentariado que ganham a vida a doutar-nos com as suas doutíssimas perspectivas.
Não conheço o homem de lado nenhum, por isso estou à vontade; se o conhecesse, e continuasse a fazer dele a mesma ideia, o meu à-vontade talvez fosse ainda maior.
Pôr na grelha um tipo que fez um trabalho notável na Judiciária, que desmontou a lengalenga criminosa do Detritus sobre imigração e criminalidade, que é um operacional de primeira-água, só num país inviável... Acho muito bem que o governo o defenda e que a oposição séria se contenha, sem deixar de fazer o seu papel, que não é certamente andar a ver as facturas da brita.
«Meu Deus, dai-me esta calma, esta pobreza! / Dou por elas meu trono de Princesa, / E todos os meus Reinos de Ansiedade.»
Charneca em Flor (póst., 1931) - «Rústica»
Por cima do maior aquífero de água doce da Península Ibérica, e com um aeroporto já construído ao lado (Beja -- a muito menos de uma hora da capital em TGV), os zombies que há décadas governam continuam a empurrar o/um novo aeroporto às portas de Lisboa, o mesmo é dizer, na grande Lisboa.
Rebentar com o país, encher o bandulho aos industriais do turismo, aos empreiteiros e aos lacaios que lhes tratam das papeladas continua a ser o grande desígnio nacional.
Como velhíssimo do Restelo, lamento que o Camões continue a servir de fantoche a estes arautos do desenvolvimento e do crescimento -- na verdade da ganância mais desavergonhada.
«Das mulheres muito amigo: / Se o tomais nas mãos, vos digo / Que haveis de achá-lo sisudo; / Mas, sorumbático e mudo, / Sem que vos diga o que quer, / Vos haveis de oferecer / A seu serviço, contudo.»
Boca do Inferno - «A umas freiras que mandaram perguntar por ociosidade, ao poeta, a definição de Príapo, e ele lha mandou definido e explicado nestas décimas»
«Da Fundição para baixo tudo é prosaico e burguês, chato, vulgar e sensabor como um período da Dedução Cronológica, aqui e ali assoprado numa tentativa ao grandioso do mau gosto, como alguma oitava menos rasteira do Oriente.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)
«Alguns padres tinham-se escandalizado com o artigo; conversou-se sobre isso, acremente, diante do senhor chantre. / -- Não, não, lá que há favor, há; e que o homem tem padrinhos, tem -- disse o chantre. -- A mim quem me escreveu para a confirmação foi o Brito Correia (Brito Correia era então ministro da Justiça).» Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro (1875/1880)
«Tudo queria bilhete. Havia chapéus tombados, ombros que penetravam à cunha, braços arpoando vigorosamente os alizares castanhos dos postigos, mãos retirando triunfantes, muito erguidas, com um papelinho azul ao vento.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)
«Aprendeu cenas cubistas o cortar da madeira / chávenas toalhas dobrados guardanapos / trabalhos de sociedade anónima o triangular azul.»
O Regresso dos Remadores (1982)
«A voz saía de onde a garganta / termina e o coração começa.»
Nada Tão Importante que Não Possa Ser Dito (2007) - «Saídas de incêndio»
«Pisa as riquezas da perdição das almas / e tem os cabelos engrinaldados / por sobre o olhar de nuvem»
Cadernos do Verão (2021) - «A auxiliar da cozinheira Françoise»
«O pensamento cria / e ultrapassa / o seu próprio abismo»
A Idade da Escrita (1998) - «Cativo o ouvido vem»
«"Vós que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que têm honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor do nosso ilustre finado."* Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)
«As leis de Vamba e as expressões de Ervígio no duodécimo concílio de Toletum revelam quão fundo ia nesta parte o cancro da degeneração das Espanhas.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)
«O sangue materno girava-lhe mais abundante nas veias, do que o sangue cheio de força e vida, ao qual José das Dornas e Pedro deviam aquela invejável construção. / Votar Daniel à vida dos campos seria sacrificá-lo.» Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor (1867)
«No ano em que eu era comido pelo escorbuto / chegavam as tuas enviadas com limões de oiro»
Memórias do Contencioso (1976)
Segue-se a norma adoptada em Angola e Moçambique, que é a da ortografia decente.