domingo, fevereiro 22, 2026

o que está a acontecer

«A postura de abatimento que lhe tomara o corpo, o olhar melancólico, fito nas orelhas do macho, a indiferença, a taciturnidade ou o manifesto mau humor, que nem as belezas e acidentes da paisagem natural conseguiam já desvanecer, o obstinado silêncio que apenas de quando em quando interrompia com uma frase curta mas enérgica, com uma pergunta impaciente sobre o termo da jornada, contrastavam com a viveza de gestos e desempenado jogo de membros do pedestre, com a sua torrencial verbosidade, a que não opunha diques  e com as joviais cantigas e minuciosas informações a respeito de tudo, por meio das quais se encarregava de entreter e ao mesmo tempo instruir o seu sorumbático companheiro.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

«Cemalim» (Altin Gün)


 

sábado, fevereiro 21, 2026

zonas de confronto

Génesis: «Assim surgiu a tarde e, em seguida, a manhã; foi o primeiro dia. / Deus disse: "Haja um firmamento entre as águas para as manter separadas umas das outras." Deus fez o firmamento e separou as águas que estavam sob o firmamento. E assim aconteceu.» Bíblia Sagrada (Missionários Capuchinhos) § Ivo Andrić: «Assim, olhando à distância, parece que é dos arcos amplos daquela ponte branca que brota e se alastra não só o verde Drina, mas também essa planura fértil e mansa, com tudo o que nela existe bem como os céus meridionais por cima.» A Ponto sobre o Drina (1945)trad. Lúcia e Dejan  Stanković § Geneviève de Gaulle Anthonioz: «A porta fechou-se pesadamente. Estou só, na noite. Mal me consegui aperceber das paredes nuas da cela. Tacteando, encontro a tarimba de madeira e a sua cobertura rugosa e estendo-me sobre ela, tentando regressar ao sonho interrompido: há pouco, caminhava por um caminho iluminado pela Lua, uma luz tão doce, tão benfazeja, e havia vozes que me chamavam.» A Travessia da Noite (1998) - trad. Artur Lopes Cardoso

o que está a acontecer

«No dia, entre todos bendito, em que a "Pérola" apareceu à barra com o Messias, engrinaldou a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelão e lona onde D. Miguel, tornado S. Miguel, branco, de auréola e asas de arcanjo, furava de cima do seu corcel de Alter o Dragão do Liberalismo, que se estorcia vomitando a Carta.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)

«Mas, com o mar colérico ou tranquilo como agora, ventasse rijo ou corresse, à tona, ligeira brisa, o espectáculo seria sempre de surpreender e extasiar, após a viagem desoladora. / No convés lavado de fresco, Juvenal Gonçalves, o busto flectido sobre a amura, ressuscitava a pretérita visão, com tanta pureza emotiva como se, realmente, fosse a primeira vez que ali aproasse um navio.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

«Depois, já não é a praia nem o mar, é a serra, com os seus socalcos montanhosos, as escarpas verdes semeadas de xisto e de granito. Esvaíram-se as figuras de Natália, de Carolina, da pequena Laura, mas a montanha enche-se de outros vultos.» Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis (2018)

sexta-feira, fevereiro 20, 2026

zonas de conforto

António Ferro: «A Vida é o atelier  do Artista.» Teoria da Indiferença (1920)

1 verso de Vergílio Alberto Vieira

«O que da espada é brilho em nada nos protege.» 

A Paixão das Armas (1983) - «Recado (quase prosaico) ao que chegou de Ceuta a manquejar dum olho»

quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Django Reinhardt, «Topsy»


 

4 versos de Camões

«"Desse Deus-Homem, alto e infinito, / Os livros, que tu pedes, não trazia, / Que bem posso escusar trazer escrito / Em papel o que na alma andar devia.. ["]» 

Os Lusíadas (1572) - I-66

quarta-feira, fevereiro 18, 2026

2 versos de Pedro Tamen

«Colaste ao Fado / a mais solar ternura.» 

Depois de Ver (1995) - «Júlio» 

zonas de conforto

Jorge Amado: «Nasci empelicado, a vida foi pródiga para comigo, deu-me mais do que pedi e mereci. Não quero erguer um monumento nem posar para a História cavalgando a glória. Que glória? Puf! Quero apenas contar algumas coisas, umas divertidas, outras melancólicas, iguais à vida. A vida, ai, quão breve navegação de cabotagem!» Navegação de Cabotagem (1992) § Machado de Assis: «E então teve uma ideia singular: -- rematar a obra agora, fosse como fosse; qualquer cousa servia, uma vez que deixasse um pouco de alma na terra. / -- Quem sabe? Em 1880 talvez se toque isto, e se conte que um mestre Romão...»  Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» § Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano (1973): .../... «Desde que fui informado da detenção do Prof. Moura, procurei inteirar-me de todos os acontecimentos com ela relacionados. É-me assim possível afirmar ser totalmente infundada qualquer acusação ou suspeita de que o Prof. Moura haja sido organizador ou tenha desempenhado qualquer papel na orientação dos actos levados a cabo na capela do Rato.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano (ed. José Freire Antunes) § Maria Gabriela Llansol: «________________ a viagem que até hoje me trouxe mais paisagens foi o corpo a escrever. Não só mais. Sobretudo indeléveis. / À partida há a folha branca. Na realidade, quando esta se introduz na viagem, há muito que a viagem começou na percepção. Este o seu princípio de real.» Sintra em Passo de Pensamento (póst., s.d.) § Aquilino Ribeiro: «A gente não era falsa a bródios e funções, não só pelo preito que nos mereciam os santos como porque ninguém seria mais amigo de espairecer e folgar. / Ah, velha Barrelas dum sino! Tomara-me eu outra vez com vinte anos e saber o que hoje sei! Diabos me levem se não fosse rei.» O Malhadinhas (1922) § António Ferro: «A Arte é a mentira da vida. / A Vida é a mentira da Arte. / A mentira é a Arte da Vida.» Teoria da Indiferença (1920)

terça-feira, fevereiro 17, 2026

o que está a acontecer

«Só depois de dobadas várias décadas sobre o dia em que Zarco se apossara da terra ignorada, é que o Atlântico se tornara, para os lusos, ser feminino -- Atlântida legendária e de novo virgem, que eles iam deflorando pouco a pouco, sob o impulso da ambição e da glória.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933) 

«Enquanto o adorável, desejado infante penou no desterro de Viena, o barrigudo senhor corria, sacudido na sua sege amarela, do botequim do Zé Maria em Belém à botica do Plácido nos Algibebes, a gemer de saudades do anjinho, a tramar o regresso do anjinhoEça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)

«Do plano desviado donde as observo, nenhuma rivalidade lhes perturba os modos brandos e sabe-me bem que assim seja. Agora, uma menina de cabelos escuros brinca sozinha, correndo descalça pela orla da espuma. Às vezes dobra-se, enterra as mãos na areia molhada, espera que a onda venha tocar-lhe os pés.» Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis (2018)

Red Onions Jazz Babies, «Of All the Wrongs You've Done to Me»


 

3 versos de Manuel Bandeira

«As estrelas sorriem de escutar / As baladas atrozes / Dos sapos.» 

A Cinza das Horas (1917) - «Paisagem noturna»

segunda-feira, fevereiro 16, 2026

3 versos de Antero de Quental

«Ah! se Deus a seus filhos dá ventura / Nesta hora santa... e eu só posso ser triste... / Serei filho, mas filho abandonado!»  

Sonetos Completos (1886) - «Lamento»

domingo, fevereiro 15, 2026

enxurrada de veneno de rã-dardo de propaganda, como se fôssemos tão estúpidos como os pivôs dos telejornais -- ou os russos têm que aprender com os americanos como suicidar criminosos na prisão

Na última semana, a palavra de ordem da propaganda bélica anti-russa, do major-general Isidro à egéria Clinton, é a de inculcar na opinião pública europeia estas duas verdades insofismáveis: 1) a de que os russos são mesmo maus; 2) além de serem maus, militarmente não valem nada -- dois bons argumentos para começarmos a despejar tropas no cemitério ucraniano.

No outro dia, o Isidro dizia no seu espaço de comentário que os russos estavam a levar tanta porrada, mas tanta porrada, que até ficamos admirados como o Zelensky ainda não tomou Moscovo; depois, o Rutte da Nato -- esse tipo que não se reproduz --, a ridicularizar as capacidades militares do inimigo; Hillary, essa esposa exemplar, ataca Trump por causa da Ucrânia; mas o melhor de tudo foi isto: de acordo com os idóneos ingleses (que têm na chefia do MI6 uma neta de um criminoso de guerra ucraniano nazi; a Ursula parece que é só neta de um nazi normal, que foi juiz), de acordo, pois, com os ingleses $ associados, o neonazi Navalny foi envenenado com uma toxina rã-dardo!...

Eu gabo a paciência dos russos (deve ser por isso que eles são tão incompetentes no campo de batalha): têm o Navalny preso no Árctico, e em vez de o matarem ao frio, deram-se ao trabalho de importar veneno de rã do Hemisfério Sul para matar o liquidar à bizantina.

Os russos têm de aprender com os americanos, que suicidaram o Epstein na prisão, na precisa altura em que o circuito interno de videovigilância inexplicavelmente caiu. O que vale é que partilhamos todos os mesmos valores, aqui no Ocidente.

«Hamnet»

«Hamnet», de Chloé Zao, é mais um título memorável, shakespearianamente falando, na filmografia do Bardo, embora por pouco não resvalasse para o melodrama. A sua intensidade é tal, que acaba por estar ali em cima do muro, tem-te não caias entre o quase sublime e a quase histeria; no fim, aguenta-se e resulta.

A realização delicada e subtil de Chloé Zao recomenda que o vejamos de novo; os desempenhos dos actores -- por vezes em risco de overacting --, em particular a irlandesa Jessie Buckley, força da natureza, um animal de representação; o crescendo do filme, até às fortíssimas cenas finais em Londres, no Globe Theatre.

Irão - Estados Unidos: o que eu realmente quero

Porta-aviões americanos ao fundo, e aiatolas pelos ares, caralho...

Seria bonito, ambas as coisas, o pior é o resto.

sábado, fevereiro 14, 2026

Wynton Marsalis e Eric Clapton, «The Last Time»


 

zonas de confronto

Hans Christian Andersen: «Voltei, assim, a ver os meus amigos de juventude, com eles e com os seus vivi por um tempo, vi uma parte do seu belo país, que não conhecia e, como a maior parte dos meus compatriotas, tão pouco sabia dele. Eis as recordações, passadas fugazmente ao papel, dessa viagem realizada no ano de 1866.» Uma Viagem a Portugal em 1866 (1868) - trad. Silva Duarte § Génesis: «No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo, e o Espírito de Deus movia-Se sobre a superfície das águas. / Deus disse: "Faça-se a luz". E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. Deus chamou dia à luz e às trevas  noite.» Bíblia Sagrada (Missionários Capuchinhos) § Leonid Andreiev: «Logo que o seu transtorno mental o afastou do serviço, a esposa de quem se separara, havia quinze anos, julgou-se com direito à pensão do Estado e para fazer valer tal direito, levou a questão para o tribunal; mas perdeu a causa e o dinheiro reverteu para o enfermo.» Os Espectros (1904) - versão de Manuel do Nascimento § Woody Allen: «Havia algo de verdadeiro nos Fitzgeralds; os seus valores eram básicos. Eram pessoas modestas, e quando Grant Wood, mais tarde, os convenceu a posar para o seu quadro intitulado Gótico Americano, lembro-me como ficaram lisonjeados. Zelda contou-me que durante as sessões Scott esteve sempre a deixar cair a forquilha.» Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura (1966) - «Memórias dos Anos Vinte» - trad. Jorge Leitão Ramos § Simone de Beauvoir: «"Em França, vocês pensam nos problemas sem os resolverem", dizia-me, um dia, um americano. "Nós não pensamos nos problemas: resolvemo-los." / Resumia assim, nesta tirada agressiva, as críticas que em todos os tempos têm sido dirigidas ao pensamento especulativo: este não ajudaria a viver, e distrairia até da vida. É preciso viver.» O Existencialismo e a Sabedoria das Nações (1948) - trad. Mário Matos § Ivo Andrić: «Da ponte estende-se, como um leque, todo o vale ondulante com a pequena cidade de Visegrad e as suas cercanias, com povoações aninhadas nas abas das colinas, cobertas de searas, prados e ameixoais, riscada por muros e sebes e salpicada de pequenos bosques e raros tufos de verdura.» A Ponte sobre o Drina (1945) - trad. Lúcia e  Dejan Stanković

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

2 versos de Manuel Matos Nunes

«Também eu queria conhecer essa rapariga / estendida ao sol no relvado de um colégio inglês» 

Insolúvel Flautim (2023) - «Ruy Belo: a rapariga de Cambridge»

o que está a acontecer

«O que estava para além, não se sabia; lendas e pensamentos estabeleciam cortina espessa, que vinha das alturas do céu, onde se acendiam as luminárias orientadoras, e, golpeando a enorme massa líquida, descia até profundidades abissais, julgadas sem fim. Proa que aspirasse a rompê-la devia ser de caravela onde apenas gesticulassem heróis ou loucos, votados, por livre desejo, à morte.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

«Na sala nobre da sua casa (à Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do "seu salvador", enfeitado de palmitos como um retábulo, e por baixo a bengala que as magnânimas mãos reais tinham erguido do lixo.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)

«Eu, que nunca fui poeta, não consigo ignorar o encanto docemente melancólico do crepúsculo, quando a noite desce devagar. Natália avança pela praia, os cabelos em rebuliço, a mão em pala sobre os olhos. Carolina aproxima-se pela outra banda, no seu passo inclinado. Quando as trajectórias de ambas se cruzarem, como dois raios de luz convergentes, as duas mulheres hão-de encarar-se sorridentes, segurando os vestidos que o vento quer levantar.» Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis (2018)

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

1 verso de Armindo Reis

«Sozinha aprendeu a amar.» 

Cântico Escorreito (2020) - «Singela Flor»

quarta-feira, fevereiro 11, 2026

2 versos de Antero de Quental

«Pelo mundo procuro um Deus clemente, / Mas a ara só lhe encontro... nua e velha...» 

Sonetos Completos (1886) - «Ignoto Deo»

terça-feira, fevereiro 10, 2026

David Benoit e Al Jarreau, «Happiness»


 

3 versos de Fernando Assis Pacheco

«Eu vi as amantes ensandecerem / com esse peso de Outono. Perderem as forças / com o Outono masculino e sangrento.» 

Cuidar dos Vivos (1963) - «Peso de Outono» 

segunda-feira, fevereiro 09, 2026

2 versos de José Alberto Oliveira

«Dias turvos e inconsequentes sucedem / a dias inconsequentes e turvos.» 

Mais Tarde (2003) - «Proposição»

sábado, fevereiro 07, 2026

o dever de votar, com alegria

Amanhã exercerei o meu direito e o meu dever de votar por -- que é também um voto contra. António José Seguro não foi o meu candidato na primeira volta, mas é-o agora, pois representa a dignidade e a decência -- palavra muito usada, e apropriadamente. 

O meu voto terá, assim, um significado humanista, que não significa outra coisa senão a ideia da dignidade intrínseca de todo e cada ser humano como valor único e irrenunciável.

A única política aceitável e decente é a que acolhe e promove os princípios iluministas de liberdade, igualdade e fraternidade. A liberdade individual como condição absoluta; a igualdade de partida como condição necessária; a fraternidade humana como ideal a perseguir, sempre. Por isso, irei votar com alegria.

Bruce Springsteen, «Ramrod»


 

o que está a acontecer

«Moram na viela íngreme e cascosa, que revê humidade em pleno Verão, velhas a quem só restam palavras, presas, alimentadas, encarniçadas, como um doido sobre uma coroa de lata que lhes enche o mundo todo.» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Juvenal Gonçalves já o surpreendera, assim, de outras vezes.  Mas nunca, como agora, o emocionara tanto, fazendo-o reviver a sensação que deviam ter fruído, outrora, os descobridores, ao ver surgir o arquipélago. Até então, o Atlântico ainda era para os portugueses um elemento masculino, fero e enigmático.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

«Essa imagem não se ajustava à impressão que eu sentia. Quase no fim da Avenida, tinham os pardais ficado há muito para trás e ainda eu perseguia a ideia rebelde. "Absurda mania", disse comigo, fincando a bengala no passeio. E com imensa surpresa vi-me em frente da casa dos Albalongas.» Francisco Costa, A Garça e a Serpente (1944)

sexta-feira, fevereiro 06, 2026

2 versos de Alberto de Lacerda

«O desejo o horror o terraço a cratera / E ao fundo no fundo mais lúcido das águas» 

Opus 7 / Oferenda II (1994)

quinta-feira, fevereiro 05, 2026

2 versos de Rui Knopfli

«Que, transformando-as enfim, o amor das palavras / não corrompa e destrua o amor da verdade.» 

O Corpo de Atena (1984)

quarta-feira, fevereiro 04, 2026

Genesis, «Dusk»

cítara, corno, rabeca, sacabucha

ou seja: guitarra, trompa, violino, trombone (de uma entrevista de Pedro Caldeira Cabral ao DN de hoje). 

4 versos de Ana Hatherly

«E lançando de meus braços o desejo / não invejo / admiro / a sufocante beleza deste ocaso» 

Rilkeana (1999) - «Wer, wenn ich schriee»

terça-feira, fevereiro 03, 2026

1 verso de João Miguel Fernandes Jorge

 «cada vez mais azul onde o azul clarece em azul» 

Turvos Dizeres (1973) / A Pequena Pátria (2002)

segunda-feira, fevereiro 02, 2026

3 versos de Carlos Matias

«Aves nos pulmões do vento. Vão distantes / da verdade. Acendem, por onde vão, palavras, / cidades.» 

Luz Triste (2005)

«Y si amanece por fin» (Puntos Suspensivos)

domingo, fevereiro 01, 2026

o que está a acontecer

«Ràpidamente, atravessei as paralelas sombrias da Baixa, e, mais além, na Avenida da Liberdade, vendo o passeio oriental ainda morno de sol, achei ilógico subir pelo outro lado. Por cima de mim, os cachos de pardais enegreciam os troncos seminus, produzindo uma chilreada compacta. Dir-se-ia emanar das próprias árvores, pensei. Mas logo franzi o nariz. Não. Era outra coisa.» Francisco Costa, A Garça e a Serpente (1944)

«Moram os que enriquecem no fundo das lojas, onde as fazendas petrificaram. Mora aqui o egoísmo que faz da vida um casulo, e a ambição que gasta os dentes por casa, o que enche a existência de rancores e, atrás de ano de chicana, consome outro ano de chicana.» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Era vulto apardaçado nos extremos, erguendo, algures para o céu, um mamilo vulcânico e deixando que a sua encosta central se doirasse, suavemente, na luz matutina. Visto de longe, a medrar, a medrar parecia recém-nascido no mistério oceânico, para enlevo de olhos fatigados pela monotonia marítima.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

Cannonball Adderley , «I'll Close My Eyes»

temas eternos podem dar filme eternos



Se tudo já foi dito, escrito, filmado, o modo  de o fazer é tão variável quanto talento de cada indivíduo, passe a lapalissada. E não há como fugir (ou porque fugir) aos chamados temas eternos que nos moldam a vida: amor, família, casa, o que queremos da vida ou o que fizemos dela. Isto está em «Valor Sentimental», de Joachim Trier (1974), filmado com a contenção do pormenor preciso e servido por actores extraordinários e muito bem dirigidos: Renate Reinsve e Stellan Skarsgård* (e também Inga Ibsdotter Lilleaas** e Elle Fanning***).




* Vi agora que entrou em «Mamma Mia», um dos filmes mais estúpidos da minha vida...
** Apesar do nome estapafúrdio para os mossos ouvidos, fala muito bem português com sotaque brasileiro.
*** Vi-a há vinte anos em «Babel», um filmaço do Iñarritu. Ela tinha oito e eu estou a ficar velho.

sexta-feira, janeiro 30, 2026

«Streets of Minneapolis» (Bruce Springsteen)

3 versos de Alexandre Dáskalos

«No compasso de espera, / ainda dia e não sei se noite, / é que acorda o nosso coração.» 

Poesia (1961) - «Crepúsculo»

quinta-feira, janeiro 29, 2026

4 versos de Camões

«Nem sou da terra, nem da geração / Das gentes enojosas de Turquia, / Mas sou da forte Europa belicosa; / Busco as terras da Índia tão famosa.» 

Os Lusíadas (1572) - Canto I

o que está a acontecer

«Moram os que moem, e remoem e esmoem, os que se fecham à pressa e por dentro com uma mania, e os que se aborrecem um dia, uma semana, um ano, até chegar a hora pacata do solo ou a hora tremenda da morte.» Raul Brandão, Húmus (1917)

I. »Manhã alta, toda vestida de azul, com folhos brancos que o mar tecia e esfarrapava ao sabor da ondulação, a sombra escortinada na linha do horizonte ia crescendo e definindo-se em caprichoso recorte. Mais do que a terra próxima, como queriam os passageiros e a ciência náutica afirmava, dir-se-ia nuvem estática na luminosidade imperante.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

I. «Entreabre-se uma janela - "Este Novembro de 1917 continua frio mas dourado. Por isso eu hoje desci muito devagar a escadaria do banco e me detive a calçar as luvas, mirando a faixa de céu azul que sorria entre os prédios altos. Seria um verdadeiro crime não aproveitar a doçura da tarde...» Francisco Costa, A Garça e a Serpente (1944) 

quarta-feira, janeiro 28, 2026

1 verso de José Fernandes Fafe

«...Mansa, a manhã escorre pelo sono das estrelas,» 

A Vigília e o Sonho (1951) - «Ode»

Django Reinhardt, «I Love You»

terça-feira, janeiro 27, 2026

quem vota em Ventura, para além dos pobres de espírito?

1. Os traumatizados da História, aqueles que justa e/ou injustamente foram apanhados pelo turbilhão da Revolução e da Descolonização.

2. Os seis intelectuais salazaristas, nem todos assumidos, estes os melhores.

3. Cento e cinquenta nazis dos subúrbios do nosso Portugal.

4. Os ressentidos da vida, os que padecem de inveja social (oh, tantos).

5. Os desertores do CDS, que nunca o convidariam para sua casa nem para a sua mesa quando ele era comentador do Correio da Manha tv (crime e bola), mas que agora exultam com a diabolização dos terríveis últimos cinquenta anos.

7. As patetas das mulheres deles, que entre duas hóstias na igreja de Santo António se arrepiam com tanto imigrante, mas têm a sua nepalesa como criada, a sua brasileira a fazer de babá (ou vice-versa), e até o seu par de ucranianos ou moldavos como caseiros, algures.

8. Os filhinhos, desde cedo treinados para estúpidos e ceo's, que enfim, até votaram Cotrim à primeira volta.

3 versos de Florbela Espanca

«Eu quero viver contigo / Muito juntinhos os dois / O tempo que dura um beijo,» 

«Trocando Olhares» (póst., 1994)

zonas de conforto

Vergílio Ferreira: «Vida em superfícies lisas, desinfectadas, vida no instantâneo presente. Vi há dias um filme: Le Viol. Interiores brancos, ou seja, sem cor, móveis sintéticos. E nas paredes, quadros à Mondrian -- a estéril geometria. O tempo -- criação do nosso abandono. O futuro deve inventar uma eternidade à rebours. O instante neutro.» Conta-Corrente 1 (1980) § António Ferro: «Não sou um discípulo de Óscar Wilde. Quando o li pela primeira vez, tive a impressão de que tinha sido plagiado.» Teoria da Indiferença (1920) § Jorge Amado: «Não nasci para famoso nem para ilustre, não me meço com tais medidas, nunca me senti escritor importante, grande homem: apenas escritor e homem. Menino grapiúna, cidadão da cidade pobre da Bahia, onde quer que esteja não passo de simples brasileiro andando na rua.» Navegação de Cabotagem (1992) § Aquilino Ribeiro: «Ia-se à Senhora da lapa, à Senhora da Penha do Vouga, de cruz, estandarte e borracha à tiracolo, no bornal o pão amarelo de azeite e ovos, no merendeiro as trutas do Paiva. Em toda a parte punha ramo a nossa mocidade -- rapazes capazes de arremeter contra uma baioneta, moças a puxar para loirinhas, que por aqui não correu sangue africante.» O Malhadinhas (1922) § Machado de Assis: «Em músicas! justamente esta palavra do médico deu ao mestre um pensamento. Logo que ficou só, com o escravo, abriu a gaveta onde guardava desde 1779 o canto esponsalício começado. Releu essas notas arrancadas a custo, e não concluídas.» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» § Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano: «4/I/73 // Exmo Senhor Prof. Doutor Marcello Caetano, / Ilustre Presidente do Conselho // Senhor Presidente, // Como V. Ex.ª sabe, o Prof. Francisco Moura encontra-se detido pela DGS em Caxias desde a noite de 31 de Dezembro.  A este respeito permita-me V. Ex.ª que leve ao seu conhecimento o seguinte.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano (1985) - ed. José Freire Antunes 

segunda-feira, janeiro 26, 2026

Murray Perahia & Radu Lupu, «Andante e Variações» (Mozart)

4 versos de Maximiano Gonçalves

«Ao leres, / Ouve a Palavra em silêncio, / Olha o corpo que tem / E prova-lhe o sabor,» 

Ouvir a Palavra (2017) - «Ode à Palavra (Ouve a Palavra)»

domingo, janeiro 25, 2026

sábado, janeiro 24, 2026

o que está a acontecer

«Moram as Teles, e as Teles odeiam as Sousas. Moram as Fonsecas, e as Fonsecas passam a vida, como bonecas desconjuntadas, a fazer cortesias. Moram as Albergarias, e as Albergarias só têm um fim na existência: estrear todos os semestres um vestido no jardim.» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Eu vou à frente, que esse aí está às escuras, tem as janelas de dentro trancadas. Dá como este para o caminho. A cama é alta. É um leito. Antiga, sim. A senhora conhece que é de cana! Pois será, será. Deitaram-lhe esse verniz, também mo disseram.» Olga Gonçalves, A Floresta em Bremerhaven (1975)

«E a história. E história assim poderá ouvi-la a olhos enxutos a mulher, a criatura mais bem formada das branduras da piedade, a que por vezes traz consigo do céu um reflexo da divina misericórdia: essa, a minha leitora, a carinhosa amiga de todos os infelizes, não choraria se lhe dissessem que o pobre moço perdera honra, reabilitação, pátria, liberdade, irmãs, mãe, vida, tudo, por amor da mulher  que o despertou do seu dormir de inocentes desejos?!» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)

sexta-feira, janeiro 23, 2026

Red Onion Jazz Babies, «Texas Moaner Blues»

4 versos de Ana Hatherly

 «Neste ardente ardor / só tu és pausa / fuga / além-palavra» 

Volúpsia (1994)