No Now, ontem à noite, insersor alerta para a série "Inferno no Irão", assim tal e qual, à espera da mortandade, como qualquer necrófago; o mesmo a CNN-Portugal, relógio em contagem decrescente, excitação para as massas; imagino a sic, mas raramente passo por lá; talvez a RTP seja mais parcimoniosa, não reparei.
terça-feira, abril 07, 2026
7 versos de Pedro Tamen
«Ao frio do sal que sob os pés sentiam / e à escuridão mais fundo, ao sonolento / e bruto som da corda e da madeira, / às dores de fome e ao gemido fraco / duma saudade parda, à solidão / sem espelho, à gula insaciada, ao medo // -- a tudo combatia uma paixão»
Depois de Ver (1995) - «Os nautas»
o que está a acontecer
«Soriano ouvia, com interesse, o filho, enquanto utilizava a língua como um palito, ora empolando a face direita, ora a esquerda. Mas já Mercedes saía do quarto, sempre com movimentos apressados. Tinha avivado o pó-de-arroz e dado um jeito mais gracioso ao seu cabelo; no braço trazia uma pele de raposa.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)
« -- Chiu! -- mandou o furriel, chefe da equipa de cinco soldados. -- Vocês querem que os "turras" saibam que estamos aqui? -- interrogou com cara de poucos amigos. E sentenciou: -- Vamos lá a falar baixo. // -- "Chouriço de carne em óleo de mendobi", que raio será esta mistela avermelhada?... -- interrogava-se o Torrão, um soldado lingrinhas, uns olhos escuros de pardal brilhando debaixo da pala do quico, lendo o papel amarelo onde estava escrita a ementa:» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)
segunda-feira, abril 06, 2026
serviço público - Viriato Soromenho Marques
O que fizemos com a nossa liberdade? -- «Voltaremos ao mar. Não como conquistadores, nem como vassalos, mas como iguais, junto aos povos que lutam pela justiça e pela paz.»
3 versos de Manuel Bandeira
«Amor -- chama e, depois, fumaça... / Medita no que vais fazer: / O fumo vem, a chama passa...»
A Cinza das Horas (1917) - «Chama e fumo»
domingo, abril 05, 2026
zonas de conforto
Machado de Assis: «Pela janela viu na janela dos fundos de outra casa dous casadinhos de oito dias, debruçados, com os braços por cima dos ombros, e duas mãos presas. Mestre Romão sorriu com tristeza. / -- Aqueles chegam, disse ele, eu saio. Comporei ao menos este canto que eles poderão tocar...» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» António Ferro: «Os vestidos são os cartazes do corpo.» Teoria da Indiferença (1920) § Fialho de Almeida: «Nenhum canto de natureza infecundo!, o mesmo amor que sobe da terra, a revigorentar os arvoredos, comunica-se aos ninhos, cinge os casais de pássaros, extravasa no ar como nafta de bodas bíblicas, e comunica-se, aspira-se, vai-se infiltrando em toda a parte. Eu bem na sinto! Eu bem na sinto!» O País das Uvas (1893) - «Pelos campos» § Maria Gabriela Llansol: «["] É o instante físico, dilacerante, em que subo a um monte, e desço um declive. / É um sentimento incrível, o que estás a viver -- diz-me Eckhart, acusando-me com um sorriso. / Mas a sua companhia é doce, ágil, vai dando voltas ou descrevendo curvas à altura do meu sofrimento.» Sintra em Passo de Pensamento (póst., s.d.) § Branquinho da Fonseca: «É até, talvez, a única coisa sobre que tenho ideias firmes e uma experiência suficiente. Mas não vou filosofar; vou contar a minha viagem à serra do Barroso. / Ia fazer um sindicância à escola primária de V...» O Barão (1942) § Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano (1973): .../... «Dizem-me que se suspeita de uma ligação entre a iniciativa que conduziu aos actos efectuados na capela e a deflagração de explosivos, acompanhada da divulgação de panfletos, ocorrida no dia 31 de Dezembro. Gostaria, porém, de assegurar a V. Ex.ª que, conhecendo de muito perto, como V. Ex.ª sabe, o Prof. Francisco Moura, com quem tenho muito contacto, estou talvez melhor colocado que ninguém para poder considerar completamente absurdo que acerca dele se possa pôr a hipótese de ter qualquer relação com organizações cujos meios de acção sejam dessa natureza.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano (1985) - ed. João Freire Antunes
zonas de confronto
Jane Austen: «Primeira Carta // De Isabel para Laura // Quão frequentemente, em resposta às minhas incessantes e repetidas súplicas de que daria à minha filha um ror regular das desventuras e venturas da sua vida, me declarou: "Não, cara amiga, jamais irei concordar com o seu pedido até que esteja longe do perigo de uma vez mais experimentar tais horrores."» Amor e Amizade (1790) - trad. Inês Fraga
sábado, abril 04, 2026
sexta-feira, abril 03, 2026
o que está a acontecer
«um povo assim, está a perceber. pousou a caneta. queria tornar inequívoca aquela ideia e precisava de se assegurar da minha atenção. não tenho muita vontade de falar, sabe, senhor, estou um pouco nervoso, respondi.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)
«Soriano e o filho ergueram-se também. O taque-taque do relógio parecia mais nítido, mais corajoso, à medida que o iam deixando sozinho. Os dois detiveram-se no corredor. Paco comentava os numerosos palacetes que estavam a ser construídos em San Rafael, para elementos do Partido Radical.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)
« -- O filho da mãe que fez as correias tão estreitas é que devia andar aqui no mato a amargá-las com um saco às costas -- resmungou um soldado. / -- De-de-ve ser pa-pa-ra pou-pou-par -- gaguejou outro em resposta. / -- Chiu! -- mandou o furriel, chefe da equipa de cinco soldados. -- Vocês querem que os "turras" saibam que estamos aqui? -- interrogou com cara de poucos amigos. E sentenciou: vamos lá a falar baixo.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)
3 versos de Manuel Alegre
«Trago palavras como bofetadas / e é inútil mandarem-me calar / porque a minha canção não fica no papel.»
Praça da Canção (1965) - «Apresentação»
quinta-feira, abril 02, 2026
Henrique de Barros (1904-2000), Presidente da Assembleia Constituinte
1 verso de João Miguel Fernandes Jorge
«O mar em vez de nós.»
Alguns Círculos (1973) / A Pequena Pátria (2002)
zonas de confronto
Woody Allen: «Scott estava com uma grande problema de disciplina e, apesar de todos gostarem muito de Zelda, concordávamos que ela tinha um efeito adverso na sua obra, reduzindo a sua produção de uma novela por ano a uma esporádica receita de mariscos e a uma série de aspas.» Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura (1966) - «Memórias dos Anos Vinte» - trad. Jorge Leitão Ramos § Simone de Beauvoir: «Por exemplo, não é verdade que a massa dos opositores do existencialismo olhe o mundo com olhos ingénuos; apreendem-no através desses lugares-comuns que constituem a Sabedoria das Nações, incoerente, contraditória; essa sabedoria é, entretanto, uma visão do mundo que convém pôr em causa.» O Existencialismo e a Sabedoria das Nações (1948) - trad. Mário Matos § Leonid Andreiev: «Nos dias de festa e bem assim todos os domingos, o Director mandava içar a bandeira nacional pra reozijo dos doentes. O facto provocava uma sensação estranha e feliz a que chamaríamos garridice na demência.» Os Espectros (1904) - versão de Manuel do Nascimento § Balzac: «Há em certas cidades da província casas cuja visão inspira uma melancolia igual à que nos causam os claustros mais sombrios, as charnecas mais estéreis ou as ruínas mais lúgubres. Talvez haja nessas casas, ao mesmo tempo, o silêncio do claustro, a aridez das charnecas e a desolação das ruínas.» Eugénia Grandet (1833) - trad. Jorge Reis § Génesis: «Deus chamou céus ao firmamento. Assim, surgiu a tarde, e, em seguida, a manhã; foi o segundo dia. / Deus disse: "Reúnam-se as águas que estão debaixo dos céus num único lugar, a fim de aparecer a terra seca". Deus, à parte sólida, chamou terra, e, mar, ao conjunto das águas. E Deus viu que isto era bom.» Bíblia Sagrada (Missionários Capuchinhos) § Geneviève de Gaulle Anthonioz: «De súbito, passou a haver apenas o feixe de uma lanterna, o rosto assustado da nossa chefe de barracão, a ordem rouca para me levantar e a sombra de dois SS. Pesadelo ou realidade? Baty e Félicité, as minhas vizinhas de enxerga, despertaram. Juntaram alguns objectos, entre os quais o meu púcaro e a minha gamela, ajudaram-me a descer do beliche, beijaram-me. Que sorte me espera?» A Travessia da Noite (1998) - trad. Artur Lopes Cardoso
quarta-feira, abril 01, 2026
Vitorino Nemésio, escrever como se respira
Vitorino Nemésio (1901-1978) é, consabidamente, um dos maiores escritores portugueses, não apenas do século passado. Grande como poeta, ensaísta, historiógrafo, atrevo-me a dizer (e não sou o único), que escreveu o mais extraordinário romance da nossa literatura, Mau Tempo no Canal (1944). É um real atrevimento, sabendo que poderíamos convocar para esta distinção umas boas duas dezenas, pelo menos, de outras extraordinárias narrativas. A Nemésio eu poderia juntar, sem dificuldade um ou mais títulos de Camilo, Júlio Dinis, Eça, Aquilino, Castro, Redol, Manuel da Fonseca, Vergílio Ferreira, Sena, Saramago, Cardoso Pires -- os grandes romances dos grandes.
Sem justificar, como deveria, a minha escolha por esta obra(-prima) do poeta de O Bicho Harmonioso (1938), apetece-me aludir ao seu estilo, que nos aparece como uma dádiva: Nemésio escreve como respira, sem se dar por isso, do mais trivial às mais profundas elucubrações, do breve registo oral às mais inesperadas ou cintilantes metáforas, com a naturalidade da água que corre; o que não sucede com a maioria dos seus pares, incluindo os atrás referidos, a não ser nos seus grandes momentos, que felizmente abundam. Como Nemésio, muito poucos me dão essa sensação num romance encorpado como a história de Margarida Clark Dulmo e João Garcia; talvez, apenas o melhor Eça, e Machado de Assis, do outro lado do Atlântico.
1 verso de José Fernandes Fafe
«Janelinha triste, escorrendo água,»
A Vigília e o Sonho (1951) - «Quase lírica»
terça-feira, março 31, 2026
3 versos de Camões
«Entre gentes tão poucas e medrosas, / Não mostra quanto pode, e com razão, / Que é fraqueza entre as ovelhas ser leão.»
Os Lusíadas (1572) - Canto I-68
segunda-feira, março 30, 2026
Trump, esta anedota
Não me lembro de quem, mas tenho pena: ontem um comentador numa estação fez notar que Trump -- tão bem enrolado pelo Netanyahú (e, quiçá, pelo próprio MBS) -- está a enviar toda aquela tropa para o Golfo Pérsico para forçar a abertura do Estreito de Ormuz, que estava aberto antes de começar este carnaval... Maior brilhantismo é impossível.
Antes, tínhamos um senil manipulado por falcões, Joe Biden; agora um tipo que não é estúpido, antes um mitómano doido varrido, rodeado de yes men. Num caso e noutro, ambos patifórios.
Escusado será dizer que quero muito que eles levem nas lonas. Veremos. Quem vai pagar as favas será Cuba, que passará do comuno-tropicalismo para os bons velhos tempos em que a ilha era um vasto casino e uma colorida casa de putas da máfia e demais elite n-americana.
4 versos de José Alberto Oliveira
«As buzinas dos carros proclamam / a vossa pressa de chegar a casa, / a um jantar desatento, / a caminho do sono.»
Mais Tarde (2003) - «Manifesto»
o que está a acontecer
«1. o fascismo dos bons homens - somos bons homens. não digo que sejamos assim uns tolos, sem a robustez necessária, uma certa resistência para as dificuldades, nada disso, somos genuinamente bons homens e ainda conservamos uma ingénua vontade de como tal sermos vistos, honestos e trabalhadores.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)
« -- O que me importa e irrita é essa mania que tu tens de achar bom tudo quanto é estrangeiro e mau tudo quanto é espanhol. Mas não me admira nada; mesmo nada; todos os teus correligionários são assim... / Soriano contemplava-a com esse sorriso complacente e irónico de quem não está disposto a melindrar-se. Ela levantou-se da mesa e caminhou apressadamente para o seu quarto.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)
«Examina-se com mais minuciosidade, mas com menos entusiasmo; analisa-se mais e melhor; porém a própria análise é a prova de que se sente menos. Onde domina o sentimento e a imaginação, mal têm cabida a paciência e fleuma, necessárias aos processos analíticos. O homem positivo e frio recolhe de qualquer excursão à pátria com a carteira cheia de apontamentos; o entusiasta e poeta nem uma data regista. Viu menos, sentiu mais.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)
domingo, março 29, 2026
sexta-feira, março 27, 2026
quinta-feira, março 26, 2026
2 versos de Florbela Espanca
«Esmaguei meu coração / Para o triste te esquecer,»
Trocando Olhares (póst., 1994)
quarta-feira, março 25, 2026
1 verso de Antero de Quental
«Deu-te o Senhor, mulher! o que é vedado,»
Sonetos Completos (1886) - «A M. C.»
terça-feira, março 24, 2026
o que está a acontecer
«Só pelo preço de muitas jornadas se compra o hábito de ficar impassível no meio dos episódios destas pequenas odisseias, que atormentam e exaurem o ânimo dos Ulisses novatos; mas ai, quando se adquire esse hábito, também nos achamos já com a sensibilidade mais embotada para as comoções do belo.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)
«Porém, e este ponto de doutrina só raros o desconhecem, sobretudo se pertencerem à geração veterana, o cão Cérbero, que assim em nossa portuguesa língua se escreve e deve dizer, guardava terrivelmente a entrada do inferno, para que dele não ousassem sair as almas, e então, quiçá por misericórdia final de deuses já moribundos, calaram-se os cães futuros para toda a restante eternidade, a ver se com o silêncio se apagava da memória a ínfera região.» José Saramago, A Jangada de Pedra (1986)
«Ao ver a expressão da irmã, Soriano julgou adivinhar nela uma discordância que se continha por falta de tempo para discutir. / -- Há muitas excepções, é claro, e tu és uma delas... -- acrescentou ele a sorrir. / Não é isso o que me importa -- interrompeu Mercedes, pousando a chávena.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)
os persas...
Esqueçamo-nos dos aiatolas (mas não das suas malfeitorias); isto já são os velhos persas. Trump, borradíssimo, engole a própria basófia. Ou então prepara-se para ludibriar os iranianos outra vez. Mas quem se deixa ludibriar por Trump três vezes? Se este meter a viola no saco, o estreito de Ormuz será uma espécie de Termópilas para o estado do Golfo Pérsico, ou um novo David contra Golias.
1 verso de Fernando Assis Pacheco
«Com peso triste caminha na rua o Outono.»
Cuidar dos Vivos (1963) -- «Tentas, de longe»
segunda-feira, março 23, 2026
terrorismo(s)
Sendo contra toda a forma de coacção, seja ela violenta ou insidiosa , política e/ou religiosa, venha das igrejas ou das associações cívicas, só espero que o energúmeno que se atreveu a lançar um cocktail molotov para dentro de uma marcha que se autointitulava "pró-vida", e que tem todo o direito a manifestar-se publicamente, seja exemplarmente indiciado, acusado, julgado e condenado a uma pena pesada, seguida de obrigatoriedade de reeducação, para servir de exemplo aos patetas de esquerda e de direita.
Eu não ignoro que estes movimentos de fanáticos religiosos chamados "pró-vida" exercem uma coacção psicológica aviltante, ilegítima e ilegal junto de mulheres que planeiam abortar, seja por que razão for. Isto e um certo laxismo tolerante das autoridades para com estas práticas criminosas não pode ficar em claro.
Aceito que por razões éticas se faça campanha e procure influenciar a opinião pública contra ou a favor do aborto e da eutanásia. Já manifestações religiosas nesse sentido, parece-me mais complicado -- a religião é sem dúvida o ópio do povo, mas pode ser também o conforto do indivíduo ou o amparo e resistência de um povo (Timor-Leste). Tenho muitas questões éticas em relação ao aborto, mas considero que é em primeiro lugar um assunto que diz respeito a cada mulher; por outro lado, sou ferozmente pró direito à eutanásia e desprezo quem procure impor lixo religioso para impedir-me de poder escolher o meu fim.
Cada um tem o direito de acreditar ou não acreditar no que quiser, sem ser chateado nem chatear ninguém -- mas ninguém tem o direito a impor as suas convicções ou crendices a terceiros. Este imbecil que procurou atentar contra a integridade física dos manifestantes, além de ser um fanático de outro tipo, conseguiu, por exemplo, desviar as atenções das manifestações pela habitação que se realizaram em vários pontos do país; sem contar que está a dar gás às organizações de extrema-direita cuja violência está a deixar de ser larvar. Além de criminosamente fanático, é estúpido.
domingo, março 22, 2026
sexta-feira, março 20, 2026
projectos-lei do PSD, do CDS e do Chega -- é um dia bom
Restringir a demagogia e a estupidez deste activismo de manicómio; e já agora, proteger as famílias dos joõescostas & outras alimárias que se incrustam no aparelho de estado.
2 versos de Alexandre Dáskalos
«Só no silêncio o coração murmura / e desliza a vida para o que a alma quer.»
Poesia (1961)
quinta-feira, março 19, 2026
2 versos de Alberto de Lacerda
«Lembras-te da nuvem que tangia / de transparência as cavernas da terra?»
Opus 7 / Oferenda II (1994)
quarta-feira, março 18, 2026
terça-feira, março 17, 2026
1 verso de Manuel Matos Nunes
«Amou, floriu, morreu.»
Insolúvel Flautim (2023) - «João Bensaúde, quase heterónimo de José Régio»
segunda-feira, março 16, 2026
cada cavadela, cada minhoca -- são uma anedota estes americanos
Depois de acharem que poderiam não só derrotar como partir a Rússia aos bocados, usando os neonazis que tomaram conta da Ucrânia ocidental --, estes nabos em Washington viraram-se para o Irão (bem manipulados por Netanyahu), crendo que os aiatolas eram palhaços do tipo Maduro, e que a velha Pérsia, com milénios em cima e habituados a bater-se contra gregos, romanos, mongóis, otomanos e russos, iriam facilitar e não vender cara a pele.
E de tal maneira, que Trump já está em pânico de poder atolar-se ali, tendo começado a coagir os idiotas úteis da Europa e arredores, que tão prestimosos foram para com a administração alegadamente liderada pelo senil que o antecedeu.
Veremos se com tanta cordura solidária para com o nosso grande vizinho, ainda não seremos obrigados a enviar uma fragata -- afinal não somos da raça de Albuquerque, o Terríbil?...
2 versos de Armindo Reis
«Agitaram-se os cabelos / sobre as dunas. Estendida.»
Cântico Escorreito (2020) - «Sobre as dunas»
o que está a acontecer
«Outra coisa que igualmente não se sabe é por que mutações orgânicas teria passado o famoso e altissonante canídeo até chegar à mudez histórica e comprovada dos seus descendentes de uma cabeça só, degenerados.» José Saramago, A Jangada de Pedra (1986)
«Em Espanha não só se come tarde, mas também se come demasiado. Provavelmente, o nosso carácter violento deve-se, em grande parte, ao excessivo trabalho que damos ao fígado... E é ver as nossas mulheres... Tão bonitas, tão sedutoras antes dos trinta anos! Mas, depois dos trinta, porque jantam tarde e se deitam, quase todas, em seguida ao jantar, começam a exibir umas ancas tão prósperas como se fossem mães de toda a Humanidade...» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)
«A dureza do colchão, em que se dorme, do albardão ou selim sobre que se monta, o tempero ou destempero do heteróclito cozinhado com que se enche o estômago, a lama que nos incrusta até os cabelos, o pó que se nos insinua até os pulmões, o frio que nos inteiriça os membros, o sol que nos congestiona o cérebro, tudo então nos desafina o espírito, que trazíamos na tensão necessária para vibrar perante as maravilhas da natureza ou da arte.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)
domingo, março 15, 2026
sexta-feira, março 13, 2026
"uma proposição apodítica"
Com palavras de 7$50, o Ministério Público mandou arquivar o inquérito sobre os cartazes miseráveis, xenófobos, badalhocos e racistas (portanto, inconstitucionais e fora-da-lei) do Chega.
Que asnal falta de vergonha, que imbecilidade, que estrabismo e que espessa estupidez, como bem demonstra a professora de Direito Cláudia Santos (texto para arquivar).
"Uma proposição apodítica"... Arre!, que se lhes foi a inteligência toda com as descargas de autoclismo diárias do "Processo Marquês".
2 versos de José Alberto Oliveira
«uma tarde que outra (e os dias passam) / há percalços que nos traem»
Mais Tarde (2003) - «Quem Espera?»
quinta-feira, março 12, 2026
quarta-feira, março 11, 2026
2 versos de Rui Pires cabral
«inopinada a nossa casa (onde só podemos ser / o que fomos) chama por nós de outro tempo,»
Capitais da Solidão (2006) - «1992»
zonas de conforto
Machado de Assis: «O princípio do canto rematava em um certo lá; este lá, que lhe caía bem no lugar, era a nota derradeiramente escrita. Mestre Romão ordenou que lhe levassem o cravo para a sala do fundo, que dava para o quintal: era-lhe preciso ar.» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de Esponsais» § Maria Gabriela Llansol: «Lembro-me de uma tarde sob o sol e sobre o mar; a intensidade amorosa era tão grande que peguei num papel qualquer que ali se encontrava à mão e, mal lhe toquei, veio-me -- digamos à memória -- a presença estática e vibrante de alguém, e escrevi: "Eu tenho o corpo com dores, atraído pelo feminino e pelo masculino, pela memória antiquíssima da variedade dos géneros.» Sintra em Passo de Pensamento (póst., s.d.) - «Escrita e viagem» § Aquilino Ribeiro: «Mas rei a valer, e nenhum rei de copas, ali... de ceptro em punho, todos ajoelhados diante de mim a lamber-me os butes, sabendo que o era, pois rei era eu sem o saber. Que menos, com o rapariguedo à volta: Antoninho, cravo roxo! saúde de cavalo, açafate o que se chama farto, caminhos desimpedidos?! / Que o mundo é outro -- apregoa para aí o mestre-régio. -- Virou para melhor...» O Malhadinhas (1922) § Fialho de Almeida: «-- Eu bem na sinto!, eu bem na sinto! / E os dias lúcidos vão inundar de tonalidades esses subsolos de florestas da província. Uma virgindade cerra as espessuras e imacula as sombras das árvores, cuja cúpula, por cima, estrela o azul impecabilíssimo do céu. E pelas ramas que se engalfinham, se enlaçam, procuram frémitos de asas num mistério de núpcias.» O País das Uvas (1893) - «Pelos campos».§ Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano (1973): .../... «Aliás, o Prof. Moura esteve ausente do País nos dias que os precederam e não teve deles conhecimento até ao momento em que as pessoas já preocupadas com a direcção que os mesmos estariam a seguir lhe pediram para comparecer. Chegou à capela cerca de uma hora e meia antes da intervenção policial e durante esse período limitou-se a assistir em silêncio ao que se estava passando.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano (1985) - ed. João Freire Antunes § António Ferro: «A Vida é o atelier do Artista.» Teoria da Indiferença (1920)
terça-feira, março 10, 2026
começar com o pé direito
Nunca ouvira falar de Mourísia, no concelho de Arganil, aldeia que esteve cercada pelas chamas no Verão passado. A desertificação do interior é um dos maiores problemas do país, e dos mais demorados e difíceis de resolver. Imagino o quão gratificante terá sido para aquela população -- e, por extensão, para todas a Mourísias da nação -- o acto simbólico da visita de António José Seguro, no dia seguinte à sua tomada de posse.
3 versos de Maximiano Gonçalves
«Está muito bem que fales da Palavra / Com palavras. / Mas ouve-a, antes,»
Ouvir a Palavra (2017) - «Ode à Palavra»
segunda-feira, março 09, 2026
o que está a acontecer
«Não, não queria ficar na terra perversa donde partia, esbulhado e escorraçado, aquele rei de Portugal que levantava na rua os Jacintos! Embarcou para França com a mulher, a sr.ª D. Angelina Fafes (da tão falada casa dos Fafes da Avelã); com o filho, o Cintinho, menino amarelinho, molezinho, coberto de caroços e leicenços; com a aia e com o moleque.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)
«Como se teria formado a arreigada superstição, ou convicção firme, que é, em muitos casos, a expressão alternativa paralela, ninguém hoje o recorda, embora, por obra e fortuna daquele conhecido jogo de ouvir o conto e repeti-lo com vírgula nova, usassem distrair as avós francesas a seus netinhos com a fábula de que, naquele mesmo lugar, comuna de Cerbère, departamento dos Pirenéus Orientais, ladrara, nas gregas e mitológicas eras, um cão de três cabeças que ao dito nome de Cerbère respondia, se o chamava o barqueiro Caronte, seu tratador.» José Saramago, A Jangada de Pedra (1986)
«As pequenas impertinências, em que se não pensa antes, que se esquecem depois, ou que a saudade consegue até doirar e poetizar a seu modo; esses microscópicos martírios, que de longe não avultam, actuam-nos, na ocasião, a ponto de nos inabilitar para o gozo do que é realmente belo.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)
2 versos de Carlos Matias
«A melodia canta neve e alegria. Falcões / transportam visões ligeiras. Aves, flores, cores.»
Luz Triste (2005)
domingo, março 08, 2026
sexta-feira, março 06, 2026
Zelensky a pisar ainda mais o risco
Não sei se é para que se lembrem dele, agora que estamos todos virados para o Golfo Pérsico, mas, ao ameaçar Orbán, Zelensky nem na União Europeia tem lugar.
Estou curioso para ver a reacção: provavelmente, a cúpula da UE assobiará para o lado, fazendo de conta que não foi nada; o mesmo em relação aos chefes de estado e de governo. Mas é possível que alguém que não Fico (um socialista que os me(r)dia classificam como populista...) ou Salvini; talvez a Europa ainda tenha governantes decentes que ponham o Zelensky na ordem.
2 versos de Manuel Alegre
«só cantando se pode incomodar / quem à vileza do segredo nos obriga.»
Praça da Canção (1965) - «Apresentação»
zonas de confronto
Leonid Andreiev: «O hospital onde Pomerantzev fora internado era uma acolhedora casa de campo à entrada de um pequeno bosque lindante com a estrada que conduzia à cidade. Distava desta umas quantas centenas de metros. O telhado era muito alto e sugeria um machado de gume voltado para o solo.» Os Espectros (1904) - versão de Manuel do Nascimento § Woody Allen: «Nos anos seguintes, a minha amizade com Scott foi crescendo, e muitos amigos comuns julgaram que ele baseara o protagonista da última novela na minha pessoa e que eu baseara a minha vida na sua novela anterior e acabei sendo considerado como uma personagem de ficção.» Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura (1966) - «Memórias dos Anos Vinte» - trad. Jorge Leitão Ramos § Simone de Beauvoir: «Hoje em dia, quando se ataca o existencialismo, não é geralmente contrapondo-lhe outra doutrina definida, mas antes recusando qualquer crédito à filosofia em geral. / Uma tal atitude está viciada desde a raiz, repousando em pressupostos que não são, nem axiomas a priori, nem leis experimentais, e que relevam eles próprios de uma filosofia.» O Existencialismo e a Sabedoria das Nações (1948) - trad. Mário Matos § Génesis: «Assim surgiu a tarde e, em seguida, a manhã; foi o primeiro dia. / Deus disse: "Haja um firmamento entre as águas para as manter separadas umas das outras." Deus fez o firmamento e separou as águas que estavam sob o firmamento. E assim aconteceu.» Bíblia Sagrada (Missionários Capuchinhos) § Ivo Andrić: «Assim, olhando à distância, parece que é dos arcos amplos daquela ponte branca que brota e se alastra não só o verde Drina, mas também essa planura fértil e mansa, com tudo o que nela existe bem como os céus meridionais por cima.» A Ponte sobre o Drina (1945) - trad. Lúcia e Dejan Stanković § Geneviève de Gaulle Anthonioz: «A porta fechou-se pesadamente. Estou só, na noite. Mal me consegui aperceber das paredes nuas da cela. Tacteando, encontro a tarimba de madeira e a sua cobertura rugosa e estendo-me sobre ela, tentando regressar ao sonho interrompido: há pouco, caminhava por um caminho iluminado pela Lua, uma luz tão doce, tão benfazeja, e havia vozes que me chamavam.» A Travessia da Noite (1998) - trad. Artur Lopes Cardoso
quinta-feira, março 05, 2026
António Lobo Antunes, para mim
Apanhei o Lobo Antunes no início dos anos 80. Surge num período de renovação da ficção portuguesa, nos temas e modo de narrar, atingindo um público mais vasto (Dinis Machado, João de Melo, Carlos Vale Ferraz), embora exemplos houvesse já de fuga ao rame-rame discursivo com Nuno Bragança e, antes de todos, Ruben A. Antes de todos, o que não era para todos. Sim, obviamente Memória de Elefante e Os Cus de Judas (ambos de 1979). Com Auto dos Danados (1985), tornou-se para mim evidente que estávamos diante de um grande. Depois distanciei-me, nem sei bem porquê -- necessidade de ler outras coisas e outros autores, provavelmente. Fui mantendo contacto com as crónicas, sempre de nível alto, embora outros cronistas tivessem a minha preferência, por exemplo Augusto Abelaira ou Vasco Pulido Valente. Por vezes era surpreendido pelas letras de canções para o esplêndido Vitorino. Aquelas diatribes com o Saramago irritaram-me, tornaram-.no mesquinho ao meus olhos. Se há coisa que não perdoo, sobretudo num escritor, é a mesquinhez. Lembro-me que o Ferreira de Castro, quando escreveu pela primeira vez sobre o Raul Brandão, afirmou que não o conhecia nem queria conhecê-lo, precisamente por isto. (É claro que viriam a relacionar-se.) Há poucos anos li o Sôbolos Rios que Vão (2010), que alguns apontam como o seu grande livro dos últimos anos. Não me parece, mas não serei taxativo sem uma releitura. Não trocaria uma página do Autos dos Danados por todo o Tôdolos; como não troco o Finisterra pelo Uma Abelha na Chuva, do Carlos de Oliveira. Continuarei com livros do Lobo Antunes ao longo da vida, os mesmos livros e certamente outros. É o melhor que os escritores nos deixam; é só, na verdade, o que realmente interessa.
2 versos de João Miguel Fernandes Jorge
«Para compreender e tornar transparente esta cidade é necessário seguir, / noite fora, ruas e praças.»
Alguns Círculos (1975)

.jpg)


.jpg)































































