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segunda-feira, janeiro 15, 2024

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«Ela faz que não ouviu; apesar da penumbra do quarto, Elói adivinha o que lhe vai na cara.» João Gaspar Simões, Elói ou Romance numa Cabeça (1932)

«Golpe num pé, infecção, Santa Casa, falecera de tétano aos dez dias de internado a uivar pela mulherzinha da sua alma.» Aquilino Ribeiro, Volfrâmio (1943)

«Uma estudantina ruidosa, com grande acompanhamento de pares, tocadores de guitarras e violas a abrir a marcha, levando os instrumentos cheios de fitas de seda, arrastara-o até ao Rossio, como se não pudesse fugir à avalanche de alegria que desembocava de todos os lados da praça.» Alves Redol, Os Reinegros (c. 1944/1972)

domingo, janeiro 07, 2024

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«As mulheres procuravam, agora, fazer caminho rente à casa de Manuel da Bouça, para mexericar junto de Amélia o grande acontecimento.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

«Comparo o efeito íntimo de determinadas derrotas pessoais ao que os japoneses, enquanto povo, terão sentido quando viram o divino imperador juntar-se aos mortais e acenar a bandeira branca da capitulação.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2013)

«Levantar-se todos os dias para o mesmo fim, com os mesmos gestos, as mesmas cerimónias sórdidas, as mesmas misérias corporais.!» João Gaspar Simões, Elói ou Romance numa Cabeça (1932)

quarta-feira, janeiro 03, 2024

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«De encontro ao céu, as oliveiras e os sobreiros hão-de parar os ramos mais finos; num momento, hão-de tornar-se pedra.» José Luís Peixoto, Nenhum Olhar (2000)

«O próprio gato, depois de ter brincado algum tempo à roda das saias da dona -- "Sape-gato, já me arranhaste!" -- pulou de leve para o lar da chaminé, e dorme agora enroscado na auréola de calor do fogareiro.» José Rodrigues Miguéis, A Escola do Paraíso (1960)

«Porque pensou nas horas, ouve pela primeira vez o "tic-tac" do despertador que o observa da mesinha-de-cabeceira, e, no mesmo instante, sente a cabeça arrastada por ele.» João Gaspar Simões, Elói ou Romance numa Cabeça (1932)

quarta-feira, dezembro 27, 2023

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«Diante dessa varanda, na claridade forte, pousava a mesa -- mesa imensa de pés torneados, coberta com uma colcha de damasco vermelho, e atravancada nessa tarde pelos rijos volumes da "História Genealógica", todo o "Vocabulário" de Bluteau, tomos soltos do "Panorama", e ao canto, em pilha, as obras de Walter Scott, sustentando um copo cheio de cravos amarelos.» Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires (1900) 

«Os amantes conservam-se afastados um do outro, desde que se desprenderam cuidadosamente, para não darem a impressão que tinham vontade de se afastar.» João Gaspar Simões, Elói ou Romance numa Cabeça (1932) 

«Os homens, mesmo os mais timoratos, aplaudiram a resolução -- e em quase todos eles existia, secreto, o desejo de imitar o audacioso.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

segunda-feira, maio 08, 2023

uma 'voltigeuse' banal e outros caracteres móveis

«Depois de uma voltigeuse  banal furando arcos de papel de seda, um intermédio cómico pelo primeiro clown, prodígios de equilíbrio duma criança sobre um arame, cães sábios, barras fixas, um salafrário num cavalo em pelo.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891) - «E enquanto as notas lhe passam para a mão, mergulha os olhos abstractos nos olhos da mulher.» João Gaspar Simões, Elói ou Romance numa Cabeça (1932) - «Como antes se disse: é completamente impossível conhecer-se inteira uma árvore genealógica; o que pode é cada um possuí-la toda no seu carácter.» José de Almada Negreiros, Nome de Guerra (1938)

sexta-feira, janeiro 06, 2023

a arte de começar

 «Elói está deitado. Amanhece. Ainda não abriu os olhos, mas, embora os abrisse, nada veria; a escuridão reina dentro do quarto Neste momento deve debater-se na impossibilidade de saber se dorme ou se está acordado. Volta, com esforço, a cabeça na almofada, . Lamenta não poder ver a escuridão, porque lhe cobrem a vista novelos de claridade absurdamente negros: novelos ou passadeiras de matéria luminosa que, do que supõe o tecto, descem, pesados, para o que supõe o chão.» João Gaspar Simões (1903-1987), Elói ou Romance numa Cabeça (1932)

terça-feira, dezembro 13, 2022

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«Eu experimentava uma vontade impaciente e desenganada de me descartar de mim próprio; sobretudo para fugir a não sei que obscura sensação de frio, terror, flacidez, que desde do princípio da noite me perseguia.» José Régio, Jogo da Cabra Cega (1934)

«Os dois, enganados, pensadamente excitados, pelo estremecimento dos membros que se debatem, se estreitam, se torcem, talvez com ódio, talvez com amor, impacientes por se livrarem um do outro, mergulham num espasmo violento e traiçoeiro.» João Gaspar Simões, Elói ou Romance numa Cabeça (1932)

«Para o lado donde o rio vem são colinas baixas, de formas arredondadas, cobertas da rama verde-negra, dos pinheiros novos; em baixo, na espessura dos arvoredos, estão os casais que dão àqueles lugares melancólicos uma feição mais viva e humana -- com as suas alegres paredes caiadas que luzem ao sol, com os fumos das lareiras que pela tarde se azulam nos ares sempre claros e lavados.» Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro (1875)

terça-feira, dezembro 06, 2022

"O dia ainda vem longe."

 «Contudo, talvez ainda seja cedo. O calor da cama, o conforto dos colchões,  e aquele corpo, macio, tépido, convidam-no a esquecer. .O dia ainda vem longe.  E as pernas de Elói procuram as de Manuela.» João Gaspar Simões, Elói ou Romance numa Cabeça (1932)

quinta-feira, outubro 13, 2022

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 «Quando no homem fala o instinto, a inteligência cala-se.»

João Gaspar Simões, Crítica II -- Poetas Contemporâneos (1938-1961)

quinta-feira, maio 16, 2019

vozes da biblioteca

«Cansado da mesquinhez das terras arrendadas, o pai trabalhava agora na mina de volfrâmio dos ingleses como carpinteiro-escorador.» José Marmelo e Silva, Adolescente Agrilhoado (1948)

«Lamenta não poder ver a escuridão, porque lhe cobrem a vista novelos de claridade absurdamente negros: novelos ou passadeiras de matéria luminosa que, do que supõe o tecto, descem, pesados, para o que supõe o chão.» João Gaspar Simões, Elói ou Romance numa Cabeça (1932)

«Uma cabeça pequenina, cabelo rapado e com o maxilar inferior tão largo e comprido que parecia impedi-lo de fechar completamente a boca.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)

terça-feira, março 01, 2016

uma carta de José Régio

Publicada por João Gaspar Simões no livro autobiográfico José Régio e a História do Movimento da «presença». Tem essencialmente interesse documental, porque trata do início da presença, uma das mais importantes, talvez a mais importante e interessante revista literária portuguesa do século XX, cujo n.º 1 sairia a 10 de Março seguinte. 

ler aqui

sábado, julho 18, 2015

S de Simões, João Gaspar

Simões, João Gaspar - o Crítico, por antonomásia.


domingo, abril 26, 2015

a Casa do Dragão, de João Gaspar Simões

É de manhã e não faço ideia que tempo faz, pois estou a escrever isto de madrugada.
Não sei se a chuva dará para falar nele e na casa, mais daqui a um bocado, em Cascais.
A verdade é que da última vez que passei por ela, o novo proprietário (desconheço quem seja) arrancou este catavento único, que simbolizava a morada do dragão da crítica.
Parte-se-me o coração, só de olhar e não o ver lá.
(as fotos são de Guilherme Cardoso) 



sexta-feira, abril 10, 2015

elogio da cama

«Que terrível coisa a vida! Levantar-se todos os dias para o mesmo fim, com os mesmos gestos, as mesmas cerimónias sórdidas, as mesmas misérias corporais! Só Elói sabe quanto custa erguer-se daquela cama amaldiçoada e, apesar de tudo, -- o paraíso... Durante os momentos mais dolorosos e difíceis da sua luta quotidiana só uma coisa o conforta: a lembrança de que ela o espera com a sua profundidade, a sua separação do mundo, a sua colaboração com o mistério do sono e dos sonhos!»

João Gaspar Simões, Elói ou Romance numa Cabeça (1932)

domingo, dezembro 21, 2014

música celestial

«Diante dele está a caixa registadora National e no vidrinho dos registos os números 4, 5 e 0. Quatro escudos, cinquenta centavos. Um sabonete. Elói acaba de comprar um sabonete. Detrás da caixa surge uma mão fina. Elói espreita. Está ali uma mulher que o faria feliz. Porque continua só no mundo? E enquanto as notas lhe passam para a mão, mergulha os olhos abstractos nos olhos da mulher. Manuela sorri. Uma moeda cai. É um momento. Tornou a apanhá-la. No dia seguinte volta. Volta muitos dias. Agora já ela o conhece. "O Sr. Elói deseja?..., o Sr. Elói precisa?..., como queira, Sr. Elói..." Não pode passar sem aquilo. É uma música celestial. Volta sempre, todos os dias.»

João Gaspar Simões, Elói ou Romance numa Cabeça (1932)

sexta-feira, agosto 02, 2013

uma ilustração

creio que de Bernardo Marques (a assinatura
terá sido comida), para a capa da 2.ª edição de Pântano
de João Gaspar Simões (1946)

segunda-feira, março 06, 2006

Fórmula

Uma biblioteca em casa, ao nosso dispor desde a infância. A colecção de contos da Atlântida, ou a da Arcádia, dirigida pelo Gaspar Simões. Soletrar nomes estranhos que soem bem: Erskine Caldwell, Ramón del Valle-Inclán, Somerset Maugham, Panait Istrati. Capas de Bernardo Marques e Victor Palla. [Possíveis reagentes para obter um bom leitor.]

sábado, junho 18, 2005

Correspondências #5 - José Régio a João Gaspar Simões

Coimbra, 18 de Fevereiro de 1927

Meu caro Simões:

Recebi a sua carta, justamente quando pensava em lhe escrever. Muito lhe agradeço o ter pensado tanto no jornal e em mim que se me antecipou. As notícias são: O Branquinho partiu há 8 dias para Lisboa, de modo que fiquei sozinho em Coimbra a preocupar-me com a saída do primeiro número da Presença. Escrevi a alguns presuntivos colaboradores da dita, e recebi: Versos do António Navarro (de que Você gostará mais que do Soneto da Contemporânea); informação do Mário Saa de me mandar brevemente qualquer coisa; informação do Martins de Carvalho de mandar também brevemente um trecho da sua dissertação; esperanças do meu irmão de também brevemente mandar um desenho com algumas palavras sobre arte. Logo que todos estes «brevemente» sejam «presente» -- o número sairá. Além desta colaboração, o primeiro número terá: Versos do Branquinho, do Bettencourt e do Fausto; prosa sua, do Almada e minha. Como vê, já a dificuldade de encher espaço vai sendo substituída pelo do espaço para conter... No entanto tudo se arranjará, e creio que o primeiro número da «Presença» gritará de facto: Presente! Peço-lhe para mandar o seu artigo logo, mesmo logo, que esteja pronto. Queria escrever-lhe mais, mas escrevo-lhe da Central, e com uma pena de tinta permanente... Quer isto dizer que a tinta me falta a cada palavra que escrevo, porque nunca me afiz a semelhantes viadutos de tinta. Escreva, sim? e, uma pergunta: Quando vem dar uma fugida cá?
Saudades dos amigos, e um abraço do
José Maria dos Reis Pereira
In João Gaspar Simões, José Régio e a História do Movimento da «presença»

João Gaspar Simões, por Mário Eloy

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domingo, junho 05, 2005

Querelas literárias

A propósito da leitura dos dois ensaios que compõem o voluminho Sobre o Romance Contemporâneo, publicado em 1940 e redigido um par de anos antes, na prisão:
Casais Monteiro, um poeta menor, foi um excelente ensaísta, dos melhores do seu tempo. Havia então uma querela entre a chamada literatura humanista, neo-realista, que tinha os mais estrénuos defensores em Mário Dionísio e Álvaro Cunhal e, doutra parte, aqueles que, acusados de «psicologismo», elitismo e até de desumanidade -- porque não punham os problemas materiais do homem na primeira, ou na segunda, linha das suas preocupações enquanto artistas -- gravitavam em torno da revista presença. A história veio dar razão a Casais, a Régio e a Gaspar Simões, directores da folha coimbrã, não porque o outro lado não tivesse autores de primeira água, que os tinha, simplesmente porque o que sobrevive hoje dessa literatura tem que ver com questões de todas as épocas: por um lado, o homem visto como um problema total, não só material mas também espiritual; por outro, os aspectos da técnica literária, principalmente narrativa, que uma boa parte dos escritores política e/ou socialmente empenhados dominavam muito bem. A querela aludida acima, se hoje (nos) é risível, causou então fortíssimas polémicas, interessantíssimas historicamente, mas que actualmente seriam, mais do que intoleráveis, ridículas...