«As virtudes civis e, sobretudo, o amor da pátria tinham nascido para os Godos logo que, assentando o seu domínio nas Espanhas, possuíram de pais a filhos o campo agricultado, o lar doméstico, o templo da oração e o cemitério do repouso e da saudade.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)
sexta-feira, maio 15, 2026
quinta-feira, maio 14, 2026
revista de imprensa
«A lei económica de Gresham, -- de que a má moeda expulsa a boa moeda, tem a sua mais completa exemplificação no nosso campo mental.»
Correia da Costa, «Da vida social portuguesa - Boletim semanal»,
Revista Portuguesa #2, 17-III-1923
(ed. fac-similada apresentada por Cecília Barreira)
zonas de conforto
Maria Gabriela Llansol: «["] Sinto que o mistério de cobrir vária áreas se desfaz, e uma só das suas gotas se adensa ainda, uma contracção enérgica de doçura que pousou sobre a mesa. Um ramo de roseira aponta para mim, e Eckhart, Suso, Hildegarda, Marie d'Oignies, Marguerite d'Ypres sentam-se à minha volta, observando-me no meu seio despido pelo cansaço."» Sintra em Passo de Pensamento (póst., s.d.) § Machado de Assis: «Sentou-se ao cravo; reproduziu as notas e chegou ao lá... / -- Lá, lá, lá... / Nada, não passava adiante. E contudo, ele sabia música como gente. / Lá, dó... lá, mi... lá, si, dó, ré... ré... ré... / Impossível! nenhuma inspiração. Não exigia uma peça profundamente original, mas enfim alguma cousa, que não fosse de outro e se ligasse ao pensamento começado.» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» § Fialho de Almeida: «Que bela a alegria sob os castanheiros dum parque, no coração da vida rústica, pelo braço da franzina miss com quem aos vinte anos se sonha, alta, musical, com maravilhas patrícias de mãos.» O País das Uvas (1893) - «Pelos campos» § Millôr Fernandes: «Quando um técnico vai tratar com imbecis, deve levar um imbecil como técnico.» Pif-Paf (2004) - «Confúcio disse» - antologia por João Pereira Coutinho § Branquinho da Fonseca: «Foi no Inverno, em Novembro, e tinha chovido muito, o que dera aos montes o ar desolado e triste dessas ocasiões. As pedras lavadas e soltas pelos caminhos, as barreiras desmoronadas, algumas árvores com os ramos torcidos e secos.» O Barão (1942) § Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano (1973) .../... «De todo o modo, e independentemente dos juízos que se formulam a respeito das posições que noutras circunstâncias têm sido assumidas pelo Prof. Francisco Moura, com cujas opiniões e atitudes eu mesmo não raras vezes me encontro em discordância, estou certo de que V. Ex.ª concordará com que se trata de uma pessoa merecedora do máximo respeito.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano (1985) - ed. João Freire Antunes
quarta-feira, maio 13, 2026
revista de imprensa
«Mosteiro de Santa Maria da Victoria, 1920
Na Cova da Batalha ficou dita um dia para sempre a Vontade de Portugal.»
José de Almada Negreiros, «Histoire du Portugal par Coeur»,
Contemporânea #1, Maio 1922
3 versos de Manuel Alegre
«Em cada poema estou mas não sozinho / antes de mim a língua e os que primeiro / cantaram antes de mim»
Praça da Canção (1965) - «Canção Primeira»
o que está a acontecer
«O apeadeiro desapareceu. Um padre pediu à CP que lhe desse as belas pedras de granito das paredes e do cais, levou-as para a vila e fez com elas uma casa para a terceira idade. O local foi arrasado, mas por desleixo ou esquecimento deixaram as placas que avisavam do perigo de atravessar desatento a linha.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
«Hoje o tempo não me enganou. Não se conhece uma aragem na tarde. O ar queima, como se fosse um bafo quente de lume, e não ar simples de respirar, como se a tarde não quisesse já morrer e começasse aqui a hora do calor. Não há nuvens, há riscos brancos muito finos, desfiados de nuvens. E o céu, daqui, parece fresco, parece a água limpa de um açude.» José Luís Peixoto, Nenhum Olhar (2000)
«["] Há passagens do relatório que esclarecem o problema, passagens aparentemente insignificantes, mas que talvez sejam efectivamente outra coisa, como o facto de o pai jogar bowling com garrafas, quando lá no bairro ainda ninguém sequer sabia o que era o bowling, isto depois de beber o conteúdo das garrafas, eram garrafas de vinho, cerveja, aguardente e o mais que viesse, ele ficava bêbado e depois jogava bowling e partia as garrafas com uma grande bola de prata de chocolates, e o rapaz ficou sempre com o som nos ouvidos, o som de garrafas partidas enchendo a noite, um perpétuo estilhaçar de nervos."» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)
terça-feira, maio 12, 2026
revista de imprensa
«Para o lobo o povoado não é uma aspiração: -- é uma necessidade. E quantas vezes o lobo encontra o seu quinhão tragado pelos vermes.!»
Ferreira de Castro, «"Os novos" -- Conceitos de Zaratustra», A Hora #1, 12-III-1922
(da edição fac-similada, apresentada por Paulo Samuel)
1 verso de Antero de Quental
«É lei de Deus este aspirar imenso...»
Sonetos Completos (1886) - «A Santos Valente»
segunda-feira, maio 11, 2026
revista de imprensa
«A vida política duma nação é, em grande parte, o reflexo da sua vida intelectual, dos seus movimentos de ideias, das aspirações mais profundas do seu escol.»
Raul Proença, "Apresentação" da Seara Nova #1, 15-X-1921
(todos as citações a partir da Antologia organizada em 1971 por Sottomayor Cardia,
sem esquecer o imprescindível trabalho coordenado por Luís Andrade, Revistas de Ideias e Cultura,
e ainda uma calorosa saudação a Daniel Pires
2 versos de Florbela Espanca
«Andam pombas assustadas / No teu olhar adejando,»
Trocando Olhares (póst., 1994)
domingo, maio 10, 2026
101 poetas e um verso só - António Barahona
1. Manuel de Freitas - «Falta-me a técnica, mas tenho o rancor»
2. Sophia de Mello Breyner Andresen - «O corpo a corpo do espaço e da escultura»
3. António Barahona - «Nas minhas mãos o violino alado percorre distâncias incalculáveis no sonho.»
zonas de confronto
Jane Austen: «Certamente cumpriu-se tal tempo. Tendes hoje cinquenta e cinco Primaveras. Se vez alguma uma mulher pode declarar estar a salvo da perseverança determinada de amantes desagradáveis e cruéis perseguições de pais obstinados, essa vez tem de se aplicar a esta altura da vida. // Isabel» Amor e Amizade (1790) - trad. Isabel Fraga. § Génesis: «Assim surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o terceiro dia. / Deus disse: "Haja luzeiros no firmamento dos céus para diferenciarem o dia da noite e servirem de sinais, determinando as estações, os dias e os anos; servirão também de luzeiros no firmamento dos céus para iluminarem a terra". E assim aconteceu.» Bíblia Sagrada (Missionários Capuchinhos)
o que está a acontecer
«Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo;» Raduan Nassar, Lavoura Arcaica (1975)
«Por cima da estrada real, nem a sombra de uma nuvem põe um remendo no buraco do céu. O sol abre os grandes olhos de rei, estende os braços fumegantes para os quatro pontos cardeais e arde, enfeitiça o mundo.» Antunes da Silva, Suão (1960)
«Abriu os olhos, estremunhada. A necessidade, feita hábito, de acordar cedo, perdera-a, ela, logo nos primeiros dias de adaptação aos horários e empecilhos daquela casa. Nessa manhã, porém, fazia dezassete anos.» Assis Esperança, Servidão (1946)
sábado, maio 09, 2026
sexta-feira, maio 08, 2026
estou para ver...
Tão excitados que estão para aí uns comentadores perante a alegada ameaça de Zelensky perturbar as comemorações do dia da vitória em Moscovo. Ouvindo-os, ficamos a saber que Putin está cheio de medo. Estou para ver, acção e reacção.
4 versos de Camões
«Eis nos batéis o fogo se alevanta / Na furiosa e dura artilharia; / A plúmbea péla mata, o brado espanta; / Ferido, o ar retumba e assobia.»
Os Lusíadas (1572) , I-89
quinta-feira, maio 07, 2026
Ucrânia e Portugal, os burros do Expresso, o deputado Núncio, etc.
Já me ri hoje com este título analfabeto do Expresso; mas o que não deve ser deixado passar em claro são as reacções asnáticas no parlamento, equivalentes ao asinino título do Expresso, no que respeita à posição do PCP.
Ora o PCP tem salvo a honra daquele convento. Pessoalmente, talvez preferisse que os únicos deputados (creio) que sobre a guerra da Ucrânia têm uma posição decente e ponderada, tivessem permanecido no hemiciclo em silêncio e sem aplaudir (como pode o silêncio ser eloquente, em certas situações...) -- mas eles é que sabem.
Quem insulta a inteligência é a criatura que pergunta sobre qual seria a posição do PCP se a Rússia invadisse Portugal -- arre, que não tem vergonha na cara, ou então é estúpida todos os dias; ou o acólito do CDS que pediu desculpa à Ucrânia pela posição do PCP.
Não sei do que me ria mais: se do deputado Núncio (oh, são tantas as vezes...) ou dos burros do Expresso.
o que está a acontecer
«Até parecia injustiça de Deus que aqueles campos tão férteis, tão vastos, estivessem quase ao abandono, porque o senhor Esteves, sendo rico, morava na vila, nunca vinha ali e o rendeiro, velho e sovina, preferia deixar a terra sem cultivo a pagar a alguém que o auxiliasse.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)
«Invejo -- mas não sei se invejo -- aqueles de quem se pode escrever uma biografia, ou que podem escrever a própria. Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho a dizer.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego (póst., 1982)
«No meio, porém, da decadência dos Godos, algumas almas conservavam ainda a têmpera robusta dos antigos homens da Germânia. Da civilização romana elas não haviam aceitado senão a cultura intelectual e as sublimes teorias morais do cristianismo. » Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)
quarta-feira, maio 06, 2026
3 versos de Maximiano Gonçalves
«Regressarei àquela terra / Que, por não ser minha, / O é ainda mais?»
Ouvir a Palavra (2017) - «Nenhum movimento se repete»
terça-feira, maio 05, 2026
3 versos de Alberto de Lacerda
«Às vezes dentre o muro / Irrompe o pássaro / Da imaginação»
Opus 7 / Oferenda II (1994)
segunda-feira, maio 04, 2026
2 versos de Manuel Bandeira
«A cada par que a aurora enlaça, / como é pungente o entardecer!»
A Cinza das Horas 1917) - «Chama e fumo»
sábado, maio 02, 2026
notas sobre «Mau Tempo no Canal», de Vitorino Nemésio
Caracterização: romance de costumes; romance de espaço; romance psicológico; romance social, autobiografismo
Tema: o
desencontro amoroso (tema eterno - José Régio), a questão de classe; o entendimento
do casamento por Margarida 394-395.
Personagens -- o narrador mostra simpatia por todas Margarida Clark Dulmo, João Garcia, mas também o homossexual Ângelo ou
patifes como Januário Garcia e Diogo Dulmo, não são desprovidos de humanidade.
Ou seja, não são caricaturas, pecha muito apontada, por exemplo, ao Eça;
Margarida: uma
mulher e três homens: João Garcia, formado em Direito, mas poeta; militar de
circunstância; Roberto Clark, o tio de Londres, muito na sua; André Barreto, o
aristocrata de modos e extirpe recente, mas endinheirado;
Mateus Dulmo, o velho tio; os
mortos, como Margarida Terra ou a moribunda mãe de João Garcia, Emília;
(Alfredo Nina – Jaime Brasil);
a memória de Fernão Dulmo (Ferndinand van Homen) - um dos primeiros povoadores da ilha Terceira, com mercê em 1486, por D. João II da capitania da Ilha das Sete Cidades e outras a descobrir.
Episódios: a "peste" (o imponderável); a caça à baleia (o trabalho); a hospitalidade e os dias passados na Urzelina; a tourada em São Jorge (o lazer); o epílogo perfeito: a serpente
Estratificação social: nobrezas
antiga, burguesia recente e povo (Manuel Bana).
Atmosferas:
paisagens, clima, o território (ilhéu, neste caso); o mar omnipresente.
Estilo ironia, graça, fluência, riqueza das imagens e das metáforas; Nemésio escreve como a água que corre -- já o escrevi e repito.
Erudição profunda do esplêndido académico, dada com toda a naturalidade do grande poeta que foi.
sexta-feira, maio 01, 2026
nota sobre «As Velas Ardem até ao Fim», de Sándor Márai
Um tratado em tom elegíaco sobre a amizade, o amor e o sentido da vida. Em paralelo: uma demasiado humana nostalgia de um mundo morto e em vias de ser sepultado pelos escombros da guerra (o livro saiu em 1942). Não diria nostalgia do Império Áustro-Húngaro -- bizarro em quem fora, em tempos, comunista, e depois dissidente -- mas de uma circulação, e até mistura, de povos e línguas, hábitos e indumentárias, dentro de fronteiras reconhecíveis; dir-se-ia o núcleo primevo de O Mundo de Ontem, do Stefan Zweig.
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