«Preciso da tua lâmpada / para atravessar os dias»
Nascente da Sede (2000)
conservador-libertário, uns dias liberal, outros reaccionário. um blogue preguiçoso desde 25 de Março de 2005
«Preciso da tua lâmpada / para atravessar os dias»
Nascente da Sede (2000)
«Grinaldas foram as tripas do cão / antes de as nozes da ceia terem sido / uma madeira patética, leite de cabra a arder»
«O cão é o seu próprio pastor», O Livro do Cão (1991)
«Antes que o Inverno chegue / volto a ser cigarra. Canto.»
«Canto tardio», Marketing (1969)
«Andam sonhos cor do mar / Nas minhas quadras, imersos,»
«As quadras d'ele», Antologia Poética
Estamos num momento raro em que a realidade se altera diante dos nossos olhos e em que tudo pode estar em causa, incluindo as próprias Nato e União Europeia. Sobreviverão? Não sabemos. E se sim, de que forma, com que relevância?
O Conceito Estratégico de Defesa Nacional, cuja última revisão data de 2013, está datado e desactualizado. Mas há duas coisas que não mudam: a Geografia, mais ou menos desde a Pangeia -- estaremos sempre no extremo ocidental do continente euro-asiático, na Península Ibérica, virados para o Oceano Atlântico --; e a História, o que passou e nos deixou vínculos extra-europeus, sem os quais a nossa identidade não se completa. Eu sou mais português quando me relaciono com angolanos, brasileiros, moçambicanos, caboverdianos, etc. e Portugal, que afirmou a sua independência em 1128, e é estado, nação, língua, cultura -- e parece querer continuar a sê-lo -- é muito mais pequeno sem esse vínculos que se organizam em torno da CPLP. Esta é tão importante para nós quanto a União Europeia -- pois se há coisa que também somos -- muito antigos e decisivos na história do Velho Continente --, se há coisa que também somos e nunca deixaremos de ser, é europeus.
Mas não basta querer, é preciso saber e poder. Por isso, numa situação tão volátil e incerta, nestes debates deve ser perguntado aos líderes partidários de que modo concebem a independência de Portugal no actual quadro e que fazer no caso de uma desagregação das organizações que integramos, nomeadamente UE e Nato.
É evidente que o país tem problemas gravíssimos -- mas nenhum interpelará tanto o país como o que se pode estar a desenhar. Portugal tem interesses permanentes, entre a Europa e o Atlântico. O que têm os líderes políticos a dizer? E que perguntas têm os jornalistas a fazer? É o que veremos, a partir desta segunda-feira nos debates.
"A União Europeia perdeu a alma e o rumo» -- aqui.
(Frei João Álvares aos monges do Paço de Sousa, 1467) .../... «E esto podemos veer por exempro nas cousas naturais assi como é a cabeça, a qual, posto que seja a mais alta parte do corpo e a mais principal, nem pode porende estar sem o ofício e serviço dos outros nembros, e per essa mesma guisa os outros nossos nembros sem a sua cabeça se nom podem manter nem governar, assi que nem a cabeça aos nembros, nem os nembros à cabeça poderão dizer: "Eu poderei viver sem ti", porque será mintira, mas que um nom pode escusar o outro, como é verdade.» .../... in Andrée Rocha, A Epistolografia em Portugal (1965)
Eric Hobsbawm, Tempos Interessantes -- Uma Vida no Século XX (2002) Trad. Miguel Serras Pereira, Porto, Campo das Letras, 2005
Não vi, nem me interessa ver, a entrevista de Boaventura Sousa Santos dada há dias na televisão; tenho lido nos jornais os ecos. Por vezes até concordo com alguns dos seus pontos de vista, mas trata-se de um guru, susceptível de adoração e adulação (e agora de execração) o que me provoca sempre urticária. Depois, é um inoculador do vírus woke aqui na parvónia. O que lhe tem acontecido -- acusações de assédio sexual, aproveitando-se do poder que detinha -- é simplesmente grotesco. E das duas, uma: ou o homem é um reles charlatão, que faz o contrário do que apregoa, ou é vítima de uma cabala e lavagens cerebrais em que ele era o sumo-sacerdote da seita. Não estou grandemente interessado no assunto.
Anteontem no Diário de Notícias, surgiram relatos de alegadas vítimas suas e do antropólogo Bruno Sena Martins. Se ambos forem inocentes, nada poderá reparar o dano. Mas não é a propósito disso que quero escrever, mas sobre o veneno inculcado por esta espécie de sacerdotisos. A certo passo, uma das eventuais vítimas referia-se aos seminários de Verão na Curia como (cito de memória) sessões de descolonização das mentes e da luta contra o fascismo, o capitalismo e o patriarcado. Não é de rir? Como se perde tempo e gasta dinheiro público com parvoíces. E depois queixam-se do Trump...
Também é particularmente cómico que Sena Martins, tendo revelado a prática de um ménage à trois consensual -- parabéns para ele --, seja citado num questionário de Proust do Público, segundo o qual, a qualidade que mais aprecia no homem e na mulher, seja (de memória, outra vez) qualquer coisa como o desprezo profundo por manifestações de masculinidade, ou coisa que o valha. Poderia ter falado em marialvismo, que é a masculinidade de grunho.
Nem de propósito, no DN de ontem, aproveitando o balança da tal série que anda nas bocas do mundo, "Adolescência", creio -- que tem que ver com patologias psíquicas e sociais -- surge com este título, entre aspas: "'A masculinidade mata os homens'", com perorações no interior de vários júliosmachadosvazes, assim, sem sequer direito ao adjectivo substantivado "tóxico".
Mais: apresenta-se o crime de violação como prática de masculinidade. Fiquei sem saber, pois, que raio é isso de masculinidade, mas sei que desvios sexuais como violação, pedofilia, entre outros, são manifestações doentias e patológicas da personalidade por via sexo, que merecem tratamento psiquiátrico e eventualmente internamento compulsivo. O que raio tem isso que ver com 'masculinidade'?
Mas nada desta terminologia é para levar a sério. Não passa de charlatanismo pseudo-científico de que se nutre uma boa parte das chamadas "ciências sociais", lixo académico, portanto, que não serve para nada, a não ser aos maluquinhos da ideologia de género -- o que quer que isso possa ser e a quem possa interessar que não sejam as criaturas que se chateiam que possa haver muita e boa relação homem-mulher a vários níveis, não tendo ele que ser um pé-de-salsa ou ela um estafermo. E normalmente chateiam-se porque não gostam de si próprias. A psicanálise costuma ser útil.
Talvez seja altura de dizer várias coisas -- ou até de repeti-las, como, por exemplo, que qualquer homem decente é feminista, qualquer homem que ama, gosta, aprecia mulheres, por tudo o que são e representam, qualquer homem que deseje uma mulher, é, tem de ser feminista -- se não for um traste --, e é claro que há muito traste por aí, aliás de ambos o s sexos; e é verdade que vimos de uma sociedade asquerosamente machista, e nela fomos educados. No entanto, lutar pela justiça, direitos humanos e igualdade na complementaridade entre homens e mulheres não é incompatível com a virilidade do homem e muito menos com a mais do que desejável feminilidade da mulher, para não falar da necessidade do próprio feminismo. Mas isso ficará para outra ocasião.
O TPI é uma farsa.
O Orbán é um farsolas, apesar de estar do lado certo.
O Netanyahu, um criminoso de guerra que deve ser capturado.
«-- Que estranhas e fantásticas derrotas, / Alguém batendo à porta, malogrou!»
«O que não aconteceu», Desaparecido (1935)
«Por que passou pelo bosque / tão amável perfeição, / se pelo bosque passava / apenas a solidão?»
«Ninfa», 77 Poemas (1955)
(para comentar e tecer considerações a propósito mais tarde)
«Amor da pátria é, para quem nele vive, o regaço materno em que todas as diferenciações se conformam e harmonizam, o regaço onde se preparam, através dos heróis, dos mártires, das multidões anónimas, as conquistas que aumentam a liberdade e a consciência do mundo.»
Augusto Casimiro, O Livro dos Cavaleiros (1922)
«Acima do portão, na verga quase vestida pela hereira que já amortalhara a pedra heráldica, a valer de baetão que a amantasse nos lutos, ainda lá se lia uma data, 1654, avivada pelo caseiro, por mimo, no tempo da poda, a riscos de caco.» Tomaz de Figueiredo, A Toca do Lobo (1947) «-- Há uma data na varanda desta sala -- disse Germana -- que lembra a época em que a casa se reconstruiu. Um incêndio, por alturas de 1870, reduziu a cinzas toda a estrutura primitiva. Mas a quinta é exactamente a mesma, com a mesma vessada, o mesmo montado, aforados à Coroa há mais de dois séculos e que têm permanecido na sucessão directa da mesma família de lavradores.» Agustina Bessa Luís, A Sibila (1954) «Ao cair de uma tarde de Dezembro, de sincero e genuíno Dezembro, chuvoso, frio, açoutado do sul e sem contrafeitos sorrisos de primavera, subiam dois viandantes a encosta dr um monte por a estreita e sinuosa vereda, que pretensiosamente gozava das honras de estrada, à falta de competidora, em que melhor coubessem.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)
...por isso, intervir desta forma na política, inviabilizando a candidatura de quem vai à frente nas sondagens é mesmo um tiro no sistema liberal que muitos dizem defender, mas só quando não sai dos carris. Resultado? Crise política e moral ainda mais devastadora, transformação de Le Pen em mártir pelos meretíssimos juízes (ninguém está acima da justiça, mas Le Pen parece estar abaixo dela), aumento exponencial do voto de protesto, pró e anti-Le Pen, centro político já desacreditado em derrocada.
A extrema-direita francesa é particularmente abjecta, apesar da lavagem de cara operada pela líder, mas se acham que é assim que vão lá, com sarkozys, hollandes e macrons -- ou com mélenchons, já agora...
«foste dando sinais de algum cansaço / nas palavras não -- estavam sempre à beira / de se erguerem com asas de estilhaço / e varrida ficava toda a feira.»
«Tuas palavras de aço», Sonetos de Amor Ilhéu (1994)
«E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras, / Correndo com firmeza, assomam as varinas. // Vêm sacudindo as ancas opulentas! / Seus troncos varonis recordam-me pilastras; / E algumas, à cabeça, embalam nas canastras / Os filhos que depois naufragam nas tormentas.»
«O sentimento dum ocidental -- I. Ave-Marias», O Livro de Cesário Verde (póst., 1887)
Melhor dizendo, para a sua intensificação -- ou seja:
os russos já começaram a atingir hospitais e creches, como no princípio;
o Zelensky quer-nos lá, já, para tentar limpar-se da merda que fez;
embaixatrizes organizam chás, com a presença do PR e com especialistas de centros académicos surgidos para comentarem um estudo de um think tank lituano, ou lá o que seja, sobre a desinformação russa, levantando suspeições sobre quantos têm uma posição crítica quanto à guerra da Ucrânia;
noventa por cento dos comentadores da academia continuam os mesmos atrasos de vida, e noventa por cento dos pivôs dos telejornais persistem analfabetos;
já há cartazes motivacionais para aliciar os nossos filhos e netos morrerem na Ucrânia, para (não) resolver uma guerra criada pelos americanos, com a cumplicidade de britânicos, franceses, alemães e parceiros menores.
"Há três anos que a UE se arruína com o seu envolvimento incompetente e imoral na guerra da Ucrânia. Agora que os EUA, os grandes responsáveis por esta tragédia, lavam as mãos e fogem, com razão, de um confronto suicida com a Rússia, na UE, líderes detestados pelo seu povo, como Macron, ou a Comissão Europeia de Ursula von der Leyen (com o seu auxiliar no Conselho Europeu, António Costa) querem continuar a alimentar a guerra com a Rússia."
De há meses para cá tememos que o último JL seja mesmo o último Publica-se há 45 anos, sempre com o mesmo director (e fundador), José Carlos de Vasconcelos. Tem número óptimos, compensando largamente um ou outro menos conseguido. O seu previsível (embora ainda não anunciado) fim ser(i)á catastrófico. Duvido que possa ser substituído. Comecei a lê-lo ainda estava a acabar o liceu, e tenho o primeiro número que comprei. (Qualquer dia farei aqui uma resenha). E guardei muitos outros, sem falar nos recortes.
Enquanto se mantiver, passarei a arquivar aqui citações retiradas de cada número que entretanto se publique. Talvez possa levar alguém a comprá-lo.
«Camões viajou e viveu o seu próprio poema ao mesmo tempo que o escrevia.» Manuel Alegre
«[...] jornalismo, artes, literatura e compromisso social são colunas de um mesmo templo que, hoje, se redefine, correndo riscos de esboroamento porque a corrente da formatação desenfreada tudo parece levar à sua frente...» António Carlos Cortez
«[...] (o mundo já foi criado para sempre.)» Carlos de Oliveira
«Perante a guerra, o que se espera de um intelectual é o exercício da sua capacidade analítica, antecipada pela procura dos dados empíricos que são as fontes primárias que alimentam o pensamento crítico.» Viriato Soromenho-Marques
JL #1421, 19-III-2025
«I. Os Rebanhos. Logo que as cabras entestaram à corte, o "Piloto" deu por findo o seu trabalho. E antes mesmo de o pastor, que lhe aproveitava os serviços, se dirigir a casa, ele meteu ao extremo da vila. Rabo entre as pernas, focinho quase raspando a terra, ia triste, cismático, como perro vadio de estrada, descoroçoado da vida. Subitamente, porém, sorveu no ar algo que lhe era conhecido.» A Lã e a Neve (1947)
«Diante dessa varanda, na claridade forte, pousava a mesa -- mesa imensa de pés torneados, coberta com uma colcha desbotada de damasco vermelho, e atravancada nessa tarde pelos rijos volumes da "História Genealógica", todo o «Vocabulário» de Bluteau, tomos soltos do "Panorama", e ao canto, em pilha, as obras de Walter Scott, sustentando um copo de cravos amarelos.» Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires (1900)
«Era uma paixão, uma paixão da alma, a mocidade na velhice, essa ânsia impotente dum coração que quer romper os tecidos atrofiados de cinquenta e cinco anos para dar quatro pulos em pleno ar.. / Quem era a vítima desta paixão impetuosa? Uma menina de quinze anos, que a leitora, enjoada das indecentes cuecas do Sr. Silva, pode ver, no segundo andar desta mesma casa, sentada a costurar na varanda, com uma gata maltesa no regaço, e um papagaio ao lado, que lhe depenica os sapatos de cordovão.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854)
«Tinha a vocação íntima da música; trazia dentro de si muitas óperas e missas, um mundo de harmonias novas e originais, que não alcançava exprimir e pôr no papel. Era esta a causa única da tristeza de Mestre Romão.« Machado de Assis, Histórias sem Data (1884» -- «Cantiga de esponsais»
Não passam de fariseus quantos dizem que "regressámos ao século XIX" quando as grandes potências fazem pressão sobre territórios sobre os quais têm apetência. Dar-lhes-ia razão se dissessem que à sombra do Direito Internacional agonizante, as guerras não se fizeram por procuração, do Vietname a Angola e ao Afeganistão -- ou então através da desestabilização dos regimes, usando os respectivos agentes, do Kadafi ao Navalny, sem esquecer a Ucrânia, pois claro.
Ou se o status quo pelo qual agora choram alguma vez impediu o imperialismo e a lei do mais forte, da ocupação do Tibete ou a barbárie da guerra do Iraque, a tal das armas de destruição maciça, vistas e identificadas pelo Durão Barroso...
Que grande paciência é precisa para aturar os semi-canalhas e os hipócritas por inteiro.
«Tivesse eu umas pernas tão altas como as tuas / e travaria contigo o ardoroso combate / -- velha guerra amistosa e sem quartel --, / para meu e teu contentamento.»
«Fala de um cão basset a uma cadela são-bernardo com cio», Caderneta de Lembranças (2022)
-- Vinte anos disto. Valeu a pena?
-- Eu diria que sim... Perdeu-se nuns lados o que se ganhou noutros.
-- Mas é um bom blogue?
-- Escapa, tem dias.
-- E porque não fazes melhor?
-- Eh...
Espero sempre o pior deste ignorantão doutorado (o que mostra bem a miséria em que está parte da Universidade portuguesa -- mas miséria mesmo).
Já me estou a rir antecipadamente pelo rol de imbecilidades que antevejo. Tenho a certeza de que não me desapontará.
Adenda: Vi. É jornalismo de compostagem: cretinismo e má-fé. Sem novidade.
«Pertences / Ao comum dos mortais / Que contam os silêncios / Pelos dedos das mãos.»
«Na segunda pessoa», Sob Este Título (2017)
[14.8.1961] .../... «Esta mistura violenta de vida e de morte é, de resto, o sedimento da vida de Paris, o cadinho trágico donde dimanam as suas cristalizações de arte e de grandeza.» António de Cértima, Doce França (1963)
A inflexão da política externa norte-americana no sentido de um isolacionismo monroviano, que poderá ir além do(s) mandato(s) de Trump e de Vance, com a concomitante partilha do planeta em grandes esferas de influência entre Estados Unidos, Rússia e China -- para já -- com uma possível (embora para já me pareça improvável) dissolução da Nato, por obsolescência;
uma União Europeia presa por arames, como está, em que a unidade política é uma miragem e sê-lo-á sempre enquanto não se conjugar a livre, espontânea e informada adesão dos povos europeus com uma reforma política que assegure a democraticidade dos órgãos políticos europeus (a União Europeia será (con)federal, ou nunca será);
a circunstância de ninguém fazer ideia que realidades geopolíticas irão emergir com a convulsão em que actualmente vivemos, obriga tanto candidatos presidenciais, como as lideranças partidárias a serem instadas por jornalistas minimamente dignos desse nome a porem as cartas na mesa.
O que poderá estar em causa é apenas a continuidade de Portugal enquanto estado-nação independente e isso, por muito que custe perceber aos medíocres, transcende todas as questões de lana-caprina com que se entretém o espaço político-mediático.
Voltarei a este assunto, tentando reflectir sobre a estratégia política portuguesa em tempos de desagregação.
«Na crista das vagas, / o embalo da lua / lembra-me os teus braços, / acorda o meu desejo de ser tua.»
«Luar», A Maresia e o Sargaço dos Dias (2011)
"Perante as transformações, os dirigentes europeus e os seus produtores e distribuidores de opinião encontraram-se (e encontram-se) na situação dos cães abandonados pelos caçadores após o final da época de caça e que vagueiam perdidos, reunindo-se em alcateias que procuram sobreviver." (aqui)
«A livraria, clara e larga, escaiolada de azul, com pesadas estantes de pau-preto onde repousavam, no pó e na gravidade das lombadas de carneira, grossos fólios de convento e de foro, respirava para o pomar por duas janelas, uma de peitoril e poiais de pedra almofadados de veludo, outra mais rasgada, de varanda, frescamente perfumada pela madressilva, que se enroscava nas grades.» Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires (1900)
«O negociante representava cinquenta e cinco anos, bem conservados. No olho direito tinha muita vida; o esquerdo, porém, nesta ocasião, tinha um terçollho, e inflamado, de mais a mais, pelo calor. / Além do dito, o Sr. Silva estava sofrendo um segundo terçolho no espírito.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854)
«A escuridão remexe. Não se sabe bem onde o sonho acaba e começa a matéria, se é uma cidade desconforme, sepulta em treva e lavada em lágrimas, ou meia dúzia de casebres e uma torre banal. Uma luzinha alumia um Cristo aflitivo na abóboda de pedra sustentada por quatro arcos ogivais.» Raul Brandão, A Farsa (1903)
"Uma das mais dolorosas aprendizagens durante estes mais de três anos de guerra na Ucrânia tem sido a de confrontar-me com o trágico declínio da honorabilidade académica e do brio intelectual, tanto nas instituições universitárias como nos meios de comunicação social." (aqui)
«O universo é perverso»
Palavras, Músicas e Blasfémias que Envelheço na Cidade (1996)
Mas claro que não tem! Nenhum estado ou organização tem o direito a existir para o massacre.
Eu, que fui por largos anos defensor e admirador daquilo, quanto mais crimes comete o bando de Netanyahu, que tem a agravante de ser um líder político democraticamente eleito, maior se torna a minha aversão ao estado judaico.
Estado, cuja obrigação moral seria o de, mesmo defendendo-se e anulando agressões exteriores, ter um padrão moral inatacável nos princípios e na prática.
Quando se elege repetidamente um comprovado facínora, com os resultados que estão à vista, o direito à cidadania perde-se.
Haverá sempre uns quantos atrasados mentais no universo político-comunicacional cá do burgo que agitem o espantalho do antissemitismo. Não sei se é por não terem princípios (suspeito que sim) ou se caem facilmente na esparrela montada pela propaganda governamental. Mas estão ao nível dos coitados que ainda dizem que a guerra na Ucrânia se deveu à invasão russa (É não perceber um boi...).
Quanto mais olho para os oficiais do exército israelita, mais os acho parecidos com nazis.
Por mim, e continuando a impunidade dos pulhas que têm o poder, o estado israelita não só pode, como deve acabar.
Quando digo isto, é isto.
«Este é o bode de Deus / que põe o pecado no Mundo / o sátiro dos bosques / com cheiro putrefacto»
«A Última Ceia», De Boas Erecções Está o Inferno Cheio (2004)
«Ecoam os passos na eira deserta, abre-se a porta da cozinha e o criado atura ao lume um braçado de poda: entre estalidos, a labareda ilumina as figuras atentas, o homem seco como as vides e a cabeça toda branca; a senhora Emília metida na sombra, calada como se não existisse; os filhos, o José que é ladrão, a Rosa que acabou nas vielas; e o criado, o Manco, sempre a cantar, como aqueles grilos a quem se tira uma perna para cantarem melhor.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póst., 1931)
«És o nome em que tropeço / a água que me prende»
«És o nome», Nascente da Sede (2000)
«em outra língua trago um sabor / a merda ressequida -- é o medo // roendo-me às ocultas como traça»
«Ouve o meu desabafo» Sonetos de Amor Ilhéu (1992)
Fartei-me aqui de falar sobre Sócrates e dos atrasos de vida no sistema da Justiça em Portugal. A justiça acompanha o jornalismo e a política partidária na pocilga em que transformam o país. Incompetentes, medíocres e até maus.
Estou-me nas tintas para o julgamento de Sócrates. E nauseado também. Depois de tanto tempo (nem me vou dar ao trabalho de ver quantos anos já passaram), é agora que vai haver julgamento? E, provavelmente, com a expertise que têm demonstrado, correndo o risco de ver o julgamento anulado. É mesmo isso que parece estarem a pedir.
Para já, Sócrates mandou-os à merda. É isto.
«A tarde afoga-se na marina do Vieux Port, / acontecem desavenças por tão pouco, / rosas que murcham no íntimo de Maio:»
«Como regressei de Marselha, incólume, quase», O que Vai Acontecer? (1997)
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| Rafael Bordalo Pinheiro |
Escritor
completo, cultivou todos os géneros literários: é o efabulador romântico de Romance de um Homem Rico (1861) e Amor de Perdição (1862), o escritor
realista de A Queda dum Anjo (1866) ou
O Retrato de Ricardina (1868), o
romancista “histórico” de A Filha do Regicida (1875), o autor
ironicamente à la page com o
naturalismo em Eusébio Macário (1879)
e A Corja (1880); é o poeta de Nas Trevas (1890); o dramaturgo de O Morgado de Fafe em Lisboa (1861); o
folhetinista de cordel de Maria! Não me
Mates que Sou Tua Mãe (1841); o polemista de O Clero e o Sr. Alexandre Herculano (1850) ou Vaidades Irritadas e Irritantes (1866); o memorialista das Memórias do Cárcere (1862); o crítico de
Esboços e Apreciações Literárias
(1865); o biógrafo de D. António
Entre as convulsões da Guerra Civil e a agonia do Ultimato, o Portugal do século XIX, dos Cabrais à Regeneração, espelha-se na obra de Camilo. Mas, erudito, vem de trás, das crónicas vigiadas de Fernão Lopes aos cartapácios fantasiosos de Frei Bernardo de Brito; prosador exímio e mestre da língua, é herdeiro do Padre António Vieira e está também na génese de Aquilino Ribeiro; instável, sarcástico, violento e ao mesmo tempo lírico, encerra uma verdade envolta em fingimento que não deixa indiferente o leitor do século XXI.
É um dos génios tutelares da cultura portuguesa. O seu nome próprio, Camilo, tem dimensão idêntica aos de Camões, Vieira, Bocage, Garrett, Antero, Eça, Cesário ou Pessoa. Amor de Perdição emparceira em peso e relevância canónicos com Os Lusíadas, Menina e Moça, Viagens na Minha Terra, Os Maias, O Livro de Cesário Verde, Só, Clepsidra, Mensagem, Andam Faunos pelos Bosques, A Selva, Mau Tempo no Canal, Sinais de Fogo, Para Sempre – clássicos absolutos. Escritores como Teixeira de Pascoais, Aquilino, Vitorino Nemésio, José Régio, João de Araújo Correia, entre muitos outros de primeira água, sentiram-se interpelados pelo génio do «colosso de Seide», dedicando-lhe estudos de amplitudes várias; também artistas plásticos como Roque Gameiro, Stuart Carvalhais, Francisco Valença, Leal da Câmara, Diogo de Macedo, Tom, João Abel Manta ou Mário Botas não lhe ficaram indiferentes.
O tempo, ele próprio – em boa parte graças aos jornais e às bibliotecas itinerantes, primeiro, ao audiovisual e aos curricula escolares, depois – encarregou-se de tornar o acervo literário de Camilo em elemento identitário dos portugueses, o que se verifica quando a cultura popular se deixa impregnar pela criação erudita, e vice-versa. Esse intercâmbio fecundo é a glória dos criadores: por um lado assegura a perenidade do seu nome e de parte da sua obra; por outro, acrescenta densidade à comunidade nacional em que o autor e os seus livros se fizeram.
O
legado artístico camiliano constitui-se como património incomparável. O mesmo
se passa com outras manifestações seculares equivalentes em importância: das
cantigas de D. Dinis e os autos de Gil Vicente à obra romanesca dos nossos maiores
escritores contemporâneos; das gravuras rupestres do Vale do Côa aos projectos
de Siza Vieira, passando pelos painéis de Almada Negreiros; das sonatas de
Carlos de Seixas às sinfonias de Luís de Freitas Branco e à guitarra de Carlos
Paredes; dos retábulos da escola de Nuno Gonçalves às telas de Júlio Pomar, dos
retratos de Columbano aos cartoons do
seu genial irmão, Rafael Bordalo Pinheiro – a cultura portuguesa não é susceptível
de ser apreendida sem estas, e outras, manifestações do espírito. Assim com
Camilo Castelo Branco.
Texto inédito, datado de 31-V-2010
«Quem a vida lava / Que vidas oculta?» Liberto Cruz, Última Colheita -- «Livro de Registos» (2022)
«Pátria é a soma de interesses nobres, de deveres sagrados, de justas aspirações, de puras finalidades, de ideal e sonho, em que a tua actividade e a tua ventura não diminuem, antes servem, a ventura dos do teu sangue e a das outras Pátrias.» Augusto Casimiro, O Livro dos Cavaleiros -- «Da Pátria» (1922)
«Há uma espécie de indulgência que é a indulgência do desinteresse. Uma indulgência mil vezes nefasta -- porque igualiza tudo e todos.» José Bacelar, Revisão 2 -- Anotações à Margem da Vida Quotidiana -«Prefácio» (1936)
«A infância foge dos braços / mas o peso continua: / é a vida que pergunta / quando acaba.»
«Evidência», Marketing (1969)
«A barba do cão faz anos / e nesses cabelos a crescer / ficamos todos mais velhos.»
«Há livros perversos que mordem o pêlo do cão», O Livro do Cão (1991)
«Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda, / Por entre o campo e o mar, bucólica, morena, / Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.»
«Manhãs brumosas», O Livro de Cesário Verde (1887)
«Desde as quatro horas da tarde, no calor e silêncio do domingo de Junho, o Fidalgo da Torre, em chinelos, com uma quinzena de linho envergada sobre a camisa de chita cor-de-rosa, trabalhava. Gonçalo Mendes Ramires (que naquela sua velha aldeia de Santa Ireneia, e na vila vizinha, a asseada e vistosa Vila-Clara, e mesmo na cidade em Oliveira, todos conheciam pelo "Fidalgo da Torre") trabalhava numa novela história, "A Torre de D. Ramires", destinada ao primeiro número dos "Anais de Literatura e de História", revista nova, fundada por José Lúcio Castanheiro, seu antigo camarada de Coimbra, nos tempos do Cenáculo Patriótico, em casa das Severinas.» Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires (1900)
«O Sr. Silva, inquieto e resfolegando como um hipopótamo, passeava no seu escritório. O seu traje era muito simples: andava de cuecas e alpercatas de estopa com sola de cortiça. Este vestido, conquanto singelíssimo, e o primeiro talvez que se seguiu ao que trajou Adão no Paraíso, dava-lhe ares dum sátiro voluptuosamente gordo.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854)
«A torre da Sé deformou-se: o granito aliado à névoa, a névoa de mistura com a noite, abriram arcarias, alongaram as portas, e fizeram dos restos da muralha antiga um tropel caótico. É um amálgama de realidade e pesadelo, trapos de nuvens e palácios desmedidos.» Raul Brandão, A Farsa (1903)
Ficaria de mal com a minha consciência se, depois de ouvida a entrevista, não acrescentasse ao que aqui escrevi o seguinte: dando de barato que o PM disse a verdade e que as explicações foram convincentes, resta apenas isto: teríamos de confiar na palavra do PM de que sempre exerceu as suas funções com honestidade e que quando um potencial conflito de interesses se antevia, ele se abstinha de tomar parte nas respectivas decisões concernentes. No entanto, resultaria bizarro se a nação não tivesse outro remédio senão a confiança na palavra dada do governante, quando esse governante, por via conjugal ou outra, beneficiou de um estipêndio a que absolutamente se deveria eximir.
«Lá passa a doida cantando / Num suspiro doce e brando / Que mais parece chorar!»
«A doida», Antologia Poética (ed. Fernando Pinto do Amaral)
Não há volta a dar: são 4500 euros por mês no orçamento familiar, enquanto primeiro-ministro, mas já antes como líder do PSD, entregues por uma sociedade que tem negócios que dependem de confirmação estatal. Não querem eleições? Ainda bem. Demita-se o PM e apresente o partido um nome para formar novo governo. Está o caso resolvido. Com eleições, será um merecido massacre: 4500 euros vezes quantos meses? O líder de um partido de governo a ser subvencionado por uma empresa que tem negócios com o Estado? Onde é que há ponta por onde se pegue?... Como disse António Filipe -- eleito deputado também com o meu voto, felizmente --, ninguém é obrigado a ser primeiro-ministro.
«Canto a cálida calma do teu corpo, / Deitado na praia; / A fina brisa que te ondula a saia, / O Sol que queima a tua pele!»
de «Sete caprichos para ela», Desaparecido (1935)
"Nem os fanáticos que queriam declarar guerra ao império britânico, na sequência do Ultimato de 1890, nem o furioso Afonso Costa, colocando Lisboa a ferro e fogo em maio de 1915 para enviar, por decisão unilateral, milhares de soldados analfabetos para a Flandres, se comparam à façanha do mesquinho consenso nacional que vai de António Costa a Rui Tavares, numa contemporânea demonstração da veracidade da tese de Unamuno que considerava ser Portugal um país de suicidas."
Ao contrário do que escrevem para aí uns asnos todos os dias, a unanimidade de ontem quanto ao rearmamento europeu é muito mais aparente do que efectiva. É facílimo concordar com empoderamento (peço desculpa pela palavra horrível) europeu quando se embrulha a Ucrânia com a Gronelândia e o Árctico com o Sahel...
Quando for a doer é que se vai ver, já dizia o Shakespeare: quem comanda quem e o quê, e quem é comandado, contra quem, onde e como. Minudências...
Como até a minha boxer já percebeu, não é possível uma política externa e de defesa comum com esta União Europeia -- felizmente, acrescento, porque se é para isto, mais vale deixar como está.
Continuam sem perceber um boi, estas andorinhas do jornalismo. Mas não são as únicas (ainda ontem, ao ouvir o quase sempre lastimável debate com Agostinho Costa, malgré lui). Tenho aliás aprendido que há tetrápodes que riem e burricos que moderam.
«Pertences / Ao comum dos mortais / Que contam os silêncios / Pelos dedos das mãos.»
«Na segunda pessoa», Sob Este Título (2017)
(Frei João Álvares aos monges de Paço de Sousa, 1467) «Aos filhos amados em Deus, monjes do moesteiro de S. Salvador de Paço de Sousa, da ordem de S. Bento, saúde e bênção em Nosso Senhor Jesu Cristo. Certo é que Nosso Senhor Deus, por sua bondade e misericórdia, ordenou que todos assi fôssemos juntos, como somos, polo legamento da caridade, pola (qual) eu cá onde ando, e vós lá onde estais todos a reveses possamos gouvir de nossos benefícios e orações, e que eu convosco e vós comigo nos hajamos de salvar, e que todos juntamente, feitos executores do que prometemos, possamos receber a glória que nos é prometida se perseverarmos com boa obediência nos santos mandamentos da regra.» .../... in Andrée Rocha, A Epistolografia em Portugal (1965)
(José da Cunha Brochado a desconhecido, 1696) .../... «Estas reverentes vozes na fé do indulto deste dia mereçam, meu Senhor, alguma dissimulação na graça de V. Ex.ª, a cujos preceitos quer a minha obediência ter a ousadia de resignar-se. Deus guarde a V. Ex.ª muitos anos / 7 de Maio de 1696.» Cartas**
(Eugénio de Andrade a Jorge de Sena, 1955) .../... «E, para que lhe não fique a menor dúvida, dir-lhe-ei só mais isto -- um dos poemas do livro, suponho que o intitulado Frente a frente, é-lhe dedicado -- bem assim como todo o livro à Sofia -- dedicatórias essas que retirei, por razões óbvias, nas cópias que mandei. Quando o livro for publicado você encontrará tais dedicatórias no seu lugar.» .../... Cartas de Eugénio de Andrade a Jorge de Sena*
** ed. António Álvaro Dória, 1944
* ed. António Oliveira, 2015
«Na cidade nasci; nela nasceu / A minha dispersiva inquietação; / E o meu tumultuoso coração / Tem o pulsar caótico do seu.»
«Cidade», Desaparecido (1935)
«escondes-Te / em tudo o que há / para não Te mostrares»
Palavras, Músicas e Blasfémias que Envelheço na Cidade (1986)
«E uns olhos que era difícil, / E era admirável, / Fitar. / Contava dum outro Reino, / E ensinava / Um novo modo de amar.»
«Quando Deus fala», As Encruzilhadas de Deus (1936)
Existe uma ameaça russa? Existe pois! Vejamos:
1. Quando o compromisso -- tomado com Gorbachev! -- de os Estados Unidos não expandirem a Nato para a área do antigo Pacto de Varsóvia é desprezado...;
2. Quando as plataformas para mísseis são colocadas em países como a Polónia com o argumento de servirem sistemas defensivos relativamente a possíveis ataques do Irão...;
3. Quando um homem de Washington, que ocupava então a presidência da Geórgia, avança com tropas sobre território russo, provocando a resposta que se conhece...;
4. Quando são rasgados os Acordos de Minsk, subscritos por Rússia, Ucrânia, França e Alemanha, sem nenhuma intenção destes de serem cumpridos, segundo confessaram, enganando uma vez mais os russos...;
5. Quando a desestabilização política é fomentada por ong's na própria Rússia, na Bielorrússia, no Casaquistão, na Geórgia, na Ucrânia -- aqui com a visível intervenção política dos americanos no terreno, com a deposição do presidente eleito, o que leva à subsequente ocupação e anexação da Crimeia (após referendo que obviamente a Rússia ganharia sempre, sem precisar de recorrer a fraude), seguindo-se as intervenções nos oblasts separatistas do Donbass...;
Depois, foi a guerra.
Sim, a Europa, principalmente agora com a nova política americana, tem todas as razões para temer a "ameaça russa", uma vez que a Rússia não vai deixar-se imolar como cordeiro para a Páscoa, no que faz muito bem.
Mas o que a Europa realmente deve temer, são os seus dirigentes: em negação, Starmer quer mandar britânicos para o matadouro; Macron propõe, com falsa candura, uma trégua aos russos por um mês, uma grande oportunidade, segundo eles, para Putin mostrar a sua boa-fé -- como se ele estivesse ávido de reconhecimento por parte destes indivíduos; como se a Rússia não estivesse a ganhar no campo de batalha -- trégua para quê?... Ursula von der Leien, que faz de estadista eleita, dirige -- pretende dirigir e deixam-na -- a política europeia de defesa, como se tal lhe fosse atribuível. E por estes três me fico.
Trump acaba de suspender a transferência de meios militares para a Ucrânia por tempo indeterminado. O plano europeu que Starmer apresentará ao POTUS deverá ter um lindo destino, o caixote do lixo, se é que nesta altura ainda exista. Boots on the ground sob a protecção americana. Faz rir, certo?
Menos graça é ouvir comentadores sem vergonha e incompetentes -- é difícil ver tanta incompetência e cegueira juntas -- falarem da tal ameaça russa, da potência invasora e da vítima invadida, da sensibilização da opinião pública e dos eleitorados, e do "medo" da Europa, segundo estes valentões das dúzias. A propaganda desbragada vais continuar, a não ser que a paz se estabeleça rapidamente, por acordo ou capitulação. Vai continuar a lavagem ao cérebro e será bom que os povos da Europa estejam atentos para onde os querem levar.
E dialogar com a Rússia, não?... Basta olhar o mapa e ver o que era a ocupação da Crimeia e do Donbass, e o que é agora, ao fim destes três anos. Que estúpidos...
Como já muitos disseram, «Ainda estou Aqui» não precisava de Óscar nenhum para ser o grande filme que é, de que não gostam os bronco-fascistas brasileiros e portugueses nem o fanatismo totalitário woke. Viva Walter Moreira Salles, Marcelo Rubens Paiva, Fernanda Torres e todos os outros. E viva eu, que tenho raízes no grande Brasil também da escravatura!
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| Arturo Holmes |
«ainda me perturbam todos os nomes e as regiões agora / desabitadas / gente que vi partir deixando o olhar parado à volta / nas encostas e nos telhados vermelhos / gente perdida nas altas escarpas do norte e / no passado interminável...»
«Nunca mais sossegou a minha vida», Deste Lado Onde (1976)
Já aqui escrevi que Napoleão Bonaparte (1769-1821) é uma das poucas personagens de carne e osso que compara com as grandes personagens da ficção, de Ulisses a Dom Quixote, tal a desmesura da sua personalidade e do efeito da sua acção, que ainda hoje continua a marcar o Velho Continente, do edifício judiciário à mentalidade geopolítica -- veja-se a Guerra da Ucrânia. Contextualizando um pouco mais, Napoleão, génio político e militar -- embora nem todos assim o considerem tal, como Tolstói em Guerra e Paz (1869) -- perdura no imaginário comum ocidental, e não só, de conquistadores, guerreiros e e estadistas lendários, de Alexandre o Grande e Júlio César a Carlos Magno e Gengis Khan, Carlos V ou mesmo Luís XIV.
O resultado final é bastante bom, mesmo se o traço de Fiorentino não seja o que mais aprecio, mas é uma subjectividade minha; o trabalho conjunto, muito difícil numa obra de cariz biográfico como esta, estou a pensar, por exemplo, nas dificuldades da découpage, que foram muito bem contornadas, em favor da fluidez da narrativa.
O primeiro tomo compreende o período que vai da infância na Córsega, período controverso quanto a informações fidedignas, à retirada do Egipto para ganhar a França.
I- «Em 1815, um dos mais abastados mercadores de panos da Rua das Flores, na cidade do Porto, era o Sr. António José da Silva. E, a 23 de Agosto do mesmo ano, o negociante da Rua das Flores que mais suava e bufava aflito com a calma era o mesmo Sr. António José da Silva. O Sr. António, como os seus caixeiros o chamavam, tinha razão para suar. As bochechas balofas e trémulas, dilatadas pelo calor do Estio, ressumavam-lhe um suco oleoso, que descia em regos pelos três rofegos da barba e vinha aderir à camisa às duas grandes esponjas, que formavam os seios cabeludos do nosso amigo atribulado.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854)
«Ai que ma levam! / É o único grito que irrompe do escuro, lúgubre, aflitivo, raspado. Depois o silêncio, a mudez concentrada da noite, a nuvem negra coalhada sobre as ruínas da vila toda lavada em lágrimas. Só aquele grito ressoa na praça solitária.» Raul Brandão, A Farsa (1903)
«Depois, demorando nele os olhos pestanudos e pretos: / -- Oh Jacinto "Galeão", que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas pedras? / E Jacinto, aturdido e deslumbrado, reconheceu o senhor infante D. Miguel! / Desde essa tarde amou aquele bom infante como nunca amara, apesar de tão guloso, o seu ventre, apesar de tão devoto, o seu Deus!» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)
Não foi bonito, mas foi muito bem feito, e lembrou-me de quando o Zelensky tinha encontros com estes patéticos dirigentes europeus, ou era recebido nos seus parlamentos, e se achava à vontade para dar reprimendas aos anfitriões. Pois não era ele o moço de fretes dos Estados Unidos?
Não sei se ele caiu numa armadilha, nem me interessa. Fartos do presidente ucraniano, Vance disse-lhe o óbvio: era o tempo da diplomacia -- essa mesma diplomacia que Biden não autorizou que prosseguisse na Turquia. Pois não era o objectivo daqueles idiotas infligir uma "derrota estratégica" à Rússia? Era. E Zelensky, como moço de fretes, obedeceu, secundado pelos lacaios da UE.
E Trump disse a verdade àquele aldrabão/incompetente/inconsciente (riscar o que não interessa): quer ele estava a brincar à III Guerra Mundial. Ou já se esqueceram dos pedidos/exigências da no fly zone, que poria a Nato em guerra directa com a Rússia? Esta foi uma das primeiras das muitas brincadeiras de Zelensky.
Carlos Branco num dos seus textos, classificou Zelensky como um instrumento da administração Biden; eu chamo-lhe o mesmo, sem carícias: moço de fretes.
O frete deixou de ser preciso, e Zelensky ou assina ou assina -- caso contrário é deixado à sua sorte. De qualquer modo, o destino da Ucrânia está traçado, graças à inteligentíssima estratégia de Biden e dos idiotas da UE, com a activissima colaboração do Zelensky: um país amputado e controlado pela Rússia, ou amputado pela Rússia e o remanescente subjugado pelos Estados Unidos. Brilhante!
A União Europeia cacareja. E a verdade é que não pode fazer outra coisa -- não por estar desarmada, mas pelo que tenho referido: não é um país ou uma federação. Países com interesses diferentes não podem ter uma política externa comum. Mas isto fica para depois.
Falta-lhes o subsílio (como diz o povo) da benemérita USAid, que parece financiava também ópera transgénero na Colômbia, que deve ser uma coisa maravilhosa de se ver e ouvir.
Nobel da Inclusão para o Joe Biden, já!
-- Ah, mas o gajo é o porco que queria provocar uma derrota estratégica à Rússia, até ao último ucraniano...
- E isso que interessa?!...
(Nota: é possível que a USAid tenha actividades meritórias. Não sei, não fui ver. Na verdade, estou-me nas tintas.)
«Quando falas / uma brisa furtiva povoa a casa»
Nascente da Sede (2000)
Mas por que diabo iria o PCP aliar-se em Lisboa com os amigos do Zelensky -- o mesmo é dizer -- o homem da nato em Kiev, estúpida e imbecilmente apoiado entre nós, do Chega ao Bloco, sempre às ordens e de cu para o ar? Só se não tivesse coluna vertebral... Digo eu, que voto onde me apetece, e ainda não tenho candidato em Cascais.
E lá se vai também outra oportunidade para fazer de Junho o mês arco-íris em Lisboa (o grande projecto do Livre, quando fez caminho com Medina). Pobre Lisboa, pobres sardinhas, pobres varinas de outrora, pobres duendes...
Mal por mal, antes o Moedas, vigiado pelo CDS, é claro.
«Na varanda do vizinho / todas as manhãs / canta / a rola da minha infância.»
«Canto», Marketing (1969)
Agora que parece avizinhar-se o fim da Guerra da Ucrânia, através da previsível entente entre os Estados Unidos e a Rússia, convém lembrar a políticos loquazes como Marcelo Rebelo de Sousa (e aos papagaios do comentário, se tivessem vergonha e competência) que os interesses permanentes de Portugal e o seu espaço geopolítico principal são o Atlântico e a Ibéria -- esquematicamente: Estados Unidos (mais do que a Inglaterra, por razões óbvias), a Espanha, estado multinacional, e os países da CPLP. A Ucrânia para Portugal, país que assinalará os seus 900 anos em 1128 (Batalha de S. Mamede -- e não em 1143, como pretendem para aí uns chungas) -- para Portugal, a Ucrânia representa aproximadamente zero. Bem sei que já não estamos no Século XIX, mas a História e a Geografia continuam -- e de que maneira.
É claro que não podemos ignorar que somos um país europeu e que pertencemos à União Europeia. Esta (ainda) é uma extraordinária construção política, e é também uma associação de estados independentes com interesses próprios, por vezes conflituantes. Não é uma confederação, e muito menos uma federação. E também já vi o seu fim mais longe.
Há, na União Europeia quem queira a guerra com a Rússia (coitados). Se os bálticos, os finlandeses, os escandinavos ou os polacos, por razões e medos históricos querem guerra, eles que a façam; se a França quer tirar desforço por estar a perder posições em África por causa da Rússia, ela que se enterre sozinha, que a nós não nos interessa nada. O perigo islamita radical, larvar mas real no Magrebe, tanto é combatido por franceses como por russos, estes talvez o façam até melhor, e pelo menos não têm contra si o pó dos antigos países colonizados
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| bonecos |
«Amo-te cidade da infância, / com girassóis e casas de madeira e zinco / a dormir na neblina da memória.»
«Carta para um amor», O País dos Outros (1959)
«Sem boas estradas não se pode fazer a guerra, tão grande é a influência que o motor exerce nesta luta devastadora e gigantesca. Se a gasolina desaparecesse, a guerra não poderia continuar. Faltava-lhe o camion, e sem camions não há, no nosso tempo, possibilidade de alimentar exércitos com rapidez.» Adelino Mendes, «A cidade d'Albert», (A Capital, 29-III-1917), Repórteres e Reportagens de Primeira Página (s.d.)
«Só tenho pena de não me restar o tempo necessário para ver em que tudo isso vai dar. Bem que gostaria. / Oitenta anos vividos intensa, ardentemente, de face para a vida, em plenitude. Minha criação romanesca decorre da intimidade, da cumplicidade com o povo. Aprendi com o povo e com a vida, sou um escritor e não um literato, em verdade sou um obá -- em língua iorubá da Bahia obá significa ministro, velho, sábio: sábio da sabedoria do povo.» Jorge Amado, Navegação de Cabotagem (1992)
«E os olhos delas perecem dizer-me: "Recordas-te", trémulos, querendo falar... Disse-me um dia Henri Heine, prosseguindo no meu espírito esta identificação perturbadora, entre as floritas mudas e a alma errante dos mortos que nos foram caros: "Os perfumes, meu filho, são os sentimentos das flores. Assim como as emoções do coração são mais profundas de noite, se estamos sós e sem testemunhas, assim as flores parecem esperar que escureça, para no espaço exalarem seus perfumes, almas nostálgicas de noivas!, numa fantástica ronda de divagações emotivas."» Fialho de Almeida, «Pelos Campos», O País das Uvas (1893)
Desde o início da guerra entre os EUA e a Rússia na Ucrânia que muito se tem falado em Munique '38 e o nefasto apaziguamento de Hitler, que se verificava já pelo menos desde 1936, com a reocupação do Ruhr. A equiparação é fácil de entender, Putin o novo Hitler, e, claro, associando-lhe características idiossincráticas e ideológicas do estafermo austríaco: insânia, espaço vital, superioridade rácica e todo o folclore, para sugestionar simplórios. Que pivôs feitos jornalistas à pressão ou uns quantos pobres de Cristo do direito ou das relações internacionais o digam, ao fim de três anos de estupidez começa a ser tradicional; que historiadores de meia-tigela venham com comparações fáceis mas erradas, é uma nódoa de que não poderão limpar-se.
(Lembram-me outros historiadores que no seu activismo se esqueceram de que o eram, contestando a palavra/expressão Descobrimentos para designar uma parte fundamental das navegações e expansão portuguesas. Que estúpidos...)
Mas... -- há sempre um mas. Se enquanto vigorar a Nato, um ataque, por exemplo, aos países do Báltico ou à Polónia seria suicidário (e para quê, o ataque?...), não se segue que, no momento, presente Estónia, Letónia e Lituânia, com uma forte minoria de nacionais russos entre a sua população (num dos países, quase chega aos 50%), não devam ter em atenção o tipo de política que a estes é dirigida, e não fazer como na Ucrânia, perseguição, proibição, massacre até -- sem dúvida o que levou as autoridades russas a falarem com merecido desprezo da necessidade de desnazificação. (Também há para lá nazis, embora os propagandistas de cá digam que não).
Ontem ouvi o major-general Agostinho Costa referir-se a este pormaior; e seria bom que estes mini-estados resistissem à tentação fácil. Se é a guerra que eles querem -- como se fartam de gritar -- começá-la será facílimo. Imitem a Ucrânia. Destas provocações, sim, é preciso ter medo.
«agora eu era linda outra vez / e tu existias e merecíamos / noite inteira um tão grande / amor»
O Resto da Minha Alegria (2003)
«a súplica: por que estamos tão perto de chegar, por que simular / enfado, por que parou o comboio, o que vai acontecer?»
«"Eu vi a luz (...)», O que Vai Acontecer? (1997)
Que a opinião pública, desenquadrada e alheia da complexidade das questões estratégicas e diplomáticas se deixasse levar como uma criança por onde um forte arsenal de propaganda de serviços secretos, ong's dissimuladas e utilização da incompetência me(r)diática a dirigia foi compreensível, pelo menos ao princípio, pois com desenvolvimento a que se assistiu qualquer bípede com dois dedos de testa percebeu que não se tratava de uma guerra da Rússia com a Ucrânia, mas entre aquela e os Estados Unidos (a minha cadela já o tinha compreendido ao fim de seis meses). Inaceitável é a incompetência e indigência de boa parte dos académicos, ou a excessiva prudência de alguns deles, mesmo sabendo que ao princípio não era nada fácil furar a barragem de fogo propagandístico que era lançada até ao absurdo.
O que assistimos agora na Europa é não apenas negação e cobardia dos grandes países, em especial França e Inglaterra, para não falar na cúpula da UE -- a Polónia mostra-se apesar de tudo mais realista, enquanto que os Países Bálticos, no seu pavor patológico, não desistiram ainda de nos arrastar para uma guerra com a Rússia. (Há que ter calma, que a Nato ainda não acabou; e só acreditarei no seu fim depois de ver.)
Para já, o plano dos americanos é deixar-nos, europeus, com o menino nos braços e fazer-se pagar (um outro nome para pilhagem) da "ajuda" à Ucrânia, como dizem os jornalistas analfabetos. Uma win-win-win situation: levam-lhe a guerra e destruição (com cumplicidades internas e europeias, claro), sacam-lhe boa parte das terras raras e aposto como ainda terão parte de leão no reerguer do país.
As viagens da semana que começa de Macron e Starmer aos Estados Unidos e de Sánchez e ainda von der Leyen e Costa à Ucrânia (porquê?, o que vão lá fazer? com mandato de quem?... Vai ser cómico ouvi-los.) serão muito esclarecedoras. A UE, sim, está em risco, por demissionismo de boa parte dos governos europeus que levou ao extravasar de competências da Comissão Europeia.
Algumas desta reflexões foram suscitadas pelo esplêndido artigo do major-general Carlos Branco
Segue-se a norma adoptada em Angola e Moçambique, que é a da ortografia decente.