«Acima do portão, na verga quase vestida pela hereira que já amortalhara a pedra heráldica, a valer de baetão que a amantasse nos lutos, ainda lá se lia uma data, 1654, avivada pelo caseiro, por mimo, no tempo da poda, a riscos de caco.» Tomaz de Figueiredo, A Toca do Lobo (1947)
«-- Há uma data na varanda desta sala -- disse Germana -- que lembra a época em que a casa se reconstruiu. Um incêndio, por alturas de 1870, reduziu a cinzas toda a estrutura primitiva. Mas a quinta é exactamente a mesma, com a mesma vessada, o mesmo montado, aforados à Coroa há mais de dois séculos e que têm permanecido na sucessão directa da mesma família de lavradores.» Agustina Bessa Luís, A Sibila (1954)
«Ao cair de uma tarde de Dezembro, de sincero e genuíno Dezembro, chuvoso, frio, açoutado do sul e sem contrafeitos sorrisos de primavera, subiam dois viandantes a encosta dr um monte por a estreita e sinuosa vereda, que pretensiosamente gozava das honras de estrada, à falta de competidora, em que melhor coubessem.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)
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«Luís de Camões, que não tinha profissão, que nunca a teve, menos a de homem de armas no Oriente, e a aleatória de escrevente público, que viveu pobre e miseravelmente e assim morreu, segundo a legenda gravada na sua sepultura, era desses, de quem são remotos parentes os cegos que ainda hoje cantam pelas romarias ao som roufenho dum harmónio ou duma rabeca desafinada. Mas reparem para as Odisseias que acordam por debaixo da voz trémula, na linha dinástica do rapsodo, e todas as majestades do espírito se erguem nos horizontes. Camões era dos tais, e versejava se lho pedia a inspiração, porque não? mas, não menos, se lhe encomendavam versos, de que tinha oficina, como lavrante de oiro, arrecadas ou pulseiras.»
Aquilino Ribeiro, "Luís de Camões - Fabuloso*Verdadeiro". Ensaio (1950)
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