quarta-feira, novembro 16, 2022

José Saramago, centenário

 É um dos grandes, o Nobel fica-lhe muito bem, como ficaria a vários outros antes dele, portugueses e brasileiros.

Além de ser dos grandes é único: só Saramago é Saramago; há que escreva à Saramago, como houve quem escrevesse à Eça, por exemplo; mas o que distingue um verdadeiro escritor é o seu estilo único e reconhecível.

As minhas preferências vão para em especial para Levantado do Chão (1980), Memorial do Convento (1982) e O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). E ainda, mas menos, Ensaio sobre a Cegueira (1994) e A Viagem do Elefante (2008).

Curiosidades: Manual de Pintura e Caligrafia (1977), quando Saramago era igual a tanto outros, um suficiente + (não sou professor); Terra do Pecado (1947), juvenília promissora.

Romances falhados: A Jangada de Pedra (1986) e Ensaio sobre a Lucidez (2004), duas boas ideias, mas uma vai perdendo força e a segunda estampa-se por completo a meio da narrativa.

 Do pouco que li dos Cadernos de Lanzarote (1994-1998), salvam-se umas pepitas: muito distantes, porém, dos magníficos diários do Régio e do Torga; abaixo, inclusive, dos do Vergílio Ferreira, que não logra o nível dos primeiros. 

Do teatro, li há décadas A Noite. Guardo uma sensação agradável, mas nada de marcante; ao contrário de As Pequenas Memórias, muito conseguidas. A propósito: um dia, se tiver tempo, paciência e disponibilidade, farei o inventário dos vários paralelismos dos percursos de Ferreira de Castro e José Saramago, do nascimento à morte, há vários, e curiosos). Por falar em biografia: 

Não tenho nenhum livro de poesia dele. Recordo-me muito bem da «Fala do Velho do Restelo ao Astronauta», dos bancos da escola...

O Conto da Ilha Desconhecida (1997) não me ficou.

Saramago foi, ainda, um excelente blogger, embora não fosse ele a postar. Tenho de comprar o livro onde isso está reunido, O Caderno (2009).

Sentimentos de culpa: não ter lido ainda a História do Cerco de Lisboa (1989), O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), Todos os Nomes (1997), As Intermitências da Morte (2005) e Caim (2009). Curiosidade pelos restantes, em especial Clarabóia (2011, póstumo), também do ainda jovem José Saramago, que nasceu na aldeia da Azinhaga do Ribatejo -- que conheci bem na infância -- faz hoje 100 anos.

Não recomendo a biografia de Joaquim Vieira, que se perde no gossip, em histórias de saias que não interessam a ninguém. Mas eu quero lá saber se o Saramago era femeeiro?  A vida pessoal é o que menos interessa num escritor, por muito relevante e movimentada que tenha sido, o que acontece com poucos (alguém já pensou na chatice de vida que teve, por exemplo, o Vergílio Ferreira?) Numa biografia, nada deve ser escamoteado (salvo por razões atendíveis), mas o que importa mesmo é o que o biografado fez e deixou. É por isso grande a expectativa com que vou agarrar a de Filomena Oliveira e Miguel Real.


digamos que o Zelensky se comporta como um patife (ucranianas CXXXIX)

 Ninguém se atreve a dizer o que se passou na Polónia, se destroços de antiaérea, se um incidente. Pelo contrário, água na fervura, a começar pelos polacos e a acabar nos americanos -- excepção para os estados bálticos, tal é o pavor. E Zelensky, que não perde uma oportunidade para nos arrastar a todos, sabendo-se que chefia um estado que se presta ao papel de concessionário e procurador dos Estados Unidos nas questões russas. Insuportável.

terça-feira, novembro 15, 2022

JornaL

1. Bomba em Istambul. Do PKK? Tenho quase a certeza que não. O PKK é uma força política, não um bando de jihadistas infectos. Que eu saiba os seus alvos não são civis, mas sim elementos do estado turco, que ocupa uma boa parte do Curdistão, que só nos interessa quando o daesh nos assusta. Atenção às movimentações de exército turco, nos próximos dias. 

2. "Reconquista" de Kherson. Vai assim e entre aspas, por ser a aldrabice mais criativa desde a chamada "batalha de Kiev". A vigarice palerma generalizada. Fica para uma próxima. 

3. Putin ausente de G20 é sinal de pouco à-vontade, mas ele tem obviamente mais com que se preocupar. À tagarelice do Sunak (com bastante melhor aspecto do que o boi e alface que o antecederam), Putin envia uma ameixas mais, talvez para responder aos media imbecis que andam a vender que a cimeira vai condenar a Rússia. Está-se mesmo a ver.

4. Estou cansado de ouvir idiotas e vígaros, da meia-tigela noticiosa à cúpula política. 


segunda-feira, novembro 14, 2022

a arte de começar

«1.º AMIGO (bebendo conhaque e soda, debaixo de árvores, num terraço, à beira-d'água) Eça de Queirós, O Mandarim (1880)

 «Disse a crítica pela boca de Boileau: / Rien n'est beau que le vraie, / e não tardou que as fábulas, arabescos exóticos e exageros, oriundos principalmente de tempos heróicos, perdessem toda a soberania dantes exercida na ampla esfera das boas-letras.» Álvaro do Carvalhal, Os Canibais (1866)

« Já não posso com estes tipos.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póstumo, 1931)

«Moonlight»

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domingo, novembro 13, 2022

Raimundo, quase música para os meus ouvidos

Não sendo disciplinado e aparelhista, detestando a hierarquia e a autoridade, que não a dada pelo exemplo e pela vida, avesso a catecismos, direi que os fragmentos ouvidos do discurso de Paulo Raimundo, novo secretário-geral do PCP, foi quase música para os meus ouvidos: a caracterização da hiena capitalista, essa que se ri enquanto despedaça carcaças, o desmascarar da politicalha manobrista, do PS ao CDS (não ponho a lepra do Chega no mesmo saco, já a História ensina esse erro fatal), a denúncia do belicismo norte-americano, com a domesticação da UE (também aqui divirjo do PCP, e dou por mais do que justificada -- e até necessária -- a acção da Rússia na Ucrânia, campo de tiro do Pentágono). 

Mas o que me agarrou logo, mal comecei a ouvi-lo -- suponho que pouco passava do início do discurso --, foi a afirmação de que os comunistas lutam por uma sociedade em que as crianças tenham, entre outros, o direito a brincar. Alguém imagina esta pureza vinda do Costa, do Montenegro ou dessa caricatura do liberalismo que dá pelo nome de Cotrim? 

Em tempo: ouvi-o no Telejornal; gostei bastante. Julgo perceber a escolha de Jerónimo

«Loves Missing»

sábado, novembro 12, 2022

sexta-feira, novembro 11, 2022

o acordo russo-americano (ucranianas CXXXVIII)

 Parece que a guerra entre a Rússia e os Estados Unidos está com novos desenvolvimentos: de acordo com o major-general Agostinho Costa, que ouvi ontem na RTP3, os russos deixaram de atacar centrais elétricas e outras estruturas vitais, em contrapartida os ucranianos facilitam a retirada para a margem esquerda do Dniepre, sem fustigações de artilharia na travessia do rio, em balsas, o que provocaria uma hecatombe russa.

Muito me ri ontem a imaginar as cambalhotas do comentariado incapaz ou esportulado pelos americanos, pelo contorcionismo a que assistirei nos próximos dias; os analfabetos dos jornalistas e pivôs (com honrosas excepções), esses ainda não devem ter percebido.

Eu cá estarei, espero, no fim dos combates (ou no início das negociações), para ver onde falhei e acertei. Nem me darei ao trabalho de apontar o dedo aos incompetentes das RI e aos generais-Nato, que andam a vender banha-da-cobra desde Fevereiro..

Pelo que parece, correndo o risco de ser prematuro, os americanos preparam-se para tirar o tapete aos ucranianos, coisa que fazem com grande à-vontade, como é do seu cadastro. E como se trata duma guerra entre a Rússia e a América, com ucranianos e europeus usados para interesses que não são os seus, com o colaboracionismo, e até traição, da cúpula política dirigente -- sacrificando os interesses próprios aos do Pentágono e ao complexo militar-industrial de que a benemérita organização é braço institucional --, as superpotências militares tratam entre si: o conselheiro de defesa americano foi a Kiev dizer ao Zelensky para pôr-se fino; Putin mandou os militares realizar um fake, quase tão mau como uma série portuguesa.

É e será assim?: muito provavelmente sim. Cá estaremos.

quinta-feira, novembro 10, 2022

«Labirinto ou não Foi Nada»

caracteres móveis

«Agora, quero morrer tranqüilamente, metodicamente, ouvindo os soluços das damas, as falas baixas dos homens, a chuva que tamborila nas folhas de tinhorão da chácara, e o som estrídulo de uma navalha que um amolador está afiando lá fora, à porta de um correeiro.» Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)

«Empoados como no tempo galante dos Luíses, pusemos pé na plataforma da estação, claramente alumiada pelas grandes lâmpadas foscas que dão ao sítio uma luz de luar, pálida e triste.» Coelho Neto, A Capital Federal (1893)

«Se não tinha amigos na redondeza, não tinha inimigos, e a única desafeição que merecera fora a do doutor Segadas, um clínico afamado no lugar, que não podia admitir que Quaresma tivesse livros: "Se não era formado, para quê? Pedantismo!"» Lima Barreto, Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915)

quarta-feira, novembro 09, 2022

terça-feira, novembro 08, 2022

qualquer tipo decente deveria boicotar o mundial do Qatar

Como nem sou muito de futebóis, o sacrifício não é grande. A participação de qualquer selecção nacional, após os milhares de mortos  de imigrantes que trabalharam na construção de estádios e infraestruturas, é aviltante. Espero bem que as autoridades nos poupem às romarias a Belém e S. Bento.

«Hollywood Ending»

segunda-feira, novembro 07, 2022

caracteres móveis

 «A vizinhança já lhe conhecia os hábitos e tanto que, na casa do Capitão Cláudio, onde era costume jantar-se aí pelas quatro e meia, logo que o viam passar, a dona gritava à criada: "Alice, olha que são horas; o major Quaresma já passou."» Lima Barreto, Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915)

«E eu, a ouvir-lhe as suaves palavras, via as árvores passarem vertiginosamente, como se os campos e os montes assustados fugissem diante do comboio rápido.» Coelho Neto, A Capital Federal (1893)

«E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as dúvidas nem as ânsias do moço príncipe, mas pausado e trôpego, como quem se retira tarde do espetáculo.» Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)


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domingo, novembro 06, 2022

sexta-feira, novembro 04, 2022

"Sintra, lugar de Ferreira de Castro" - 12 de Novembro - Programa


12 de Novembro de 2022

Museu Ferreira de Castro – 10-18 h.

 

Programa

10 h.: Apresentação dos Encontros

10,15h. Vítor Viçoso, «A Lã e a Neve e o Imaginário Neo-Realista: convergências e divergências»

11,00 h. Manuel Matos Nunes: «Tiago, o “Estica”, em A Selva, de Ferreira de Castro»

11,45 h.:  Fernando Ramos Machado, «Ferreira de Castro e os Grão-Mestres de Malta»

12,30 h: Debate

 

14,15 Annabela Rita, «Ferreira de Castro e a globalização»

15h. Ana Cristina Carvalho, «Rigores de Inverno em romances Castrianos: Cenário, personagem e mensagem»

15,45h. Clara Campanilho Barradas: «O teatro de Ferreira de Castro»

16, 30h Carlos Jorge F. Jorge, «Traços do destino e projeções da natureza humana nas representações da água em Ferreira de Castro»

17,15h : Debate


Entrada livre, mediante inscrição prévia

dbmu.museu.fcastro@cm-sintra.pt


 

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segunda-feira, outubro 31, 2022

Lula

 O discurso de vitória de Lula, elevado, consistente, político na melhor acepção da palavra, sem esconder as feridas -- "quiseram enterrar-me vivo"-- as feridas do golpismo alarve, que pôs um imbecil no poder.

A superioridade da esquerda democrática ante o golpismo revanchista e bronco liderado pelo gripezinha. Lula, o verdadeiro imbrochável.

(A passo de corrida, ausente no país profundo.)

sábado, outubro 29, 2022

quinta-feira, outubro 27, 2022

quarta-feira, outubro 26, 2022

terça-feira, outubro 25, 2022

"verdades essenciais"

 

Noutros tempos, quando o país era eminentemente rural, um almanaque era, depois do missal, o breviário que encontrava guarida em todos os lares, concentrando numa mesma publicação tudo quanto era necessário à travessia do ano sem percalços, da meteorologia aos dias santos a guardar. Eça de Queirós, que escreveu sobre o assunto como ninguém, na apresentação do Almanaque Enciclopédico para 1896, falava de como estes livrinhos singelos mas profusos guardavam as «verdades essenciais que a humanidade necessita saber, e constantemente rememorar».

André Oliveira (Lisboa, 1982) – um dos mais prolíficos argumentistas da BD portuguesa –, ao escolher para esta colectânea o título Almanaque, teve, por certo, a intenção de espelhar a diversidade de que o volume se compõe. São 24 «curtas de BD», algumas inéditas, outras publicadas na revista Cais, em parceria com outros tantos desenhadores: André Diniz, Rui Lacas, Phermad, Bernardo Majer, Pedro Serpa, João Lam, Nuno Frias, Afonso Ferreira, João Vasco Leal, Luís Louro, Patrícia Furtado, Miguel Andrade, Daniela Viçoso, Tiago Lobo Pimentel, Selma Pimentel, Filipe Andrade, Darsy Fernandes, Catarina Paulo, João Sequeira, David Cerqueira, Susana Resende, Susa Monteiro e Marta Teives. Parte destas narrativas caracterizam-se pelo humor, cujos melhores exemplos serão o nonsense garoto do díptico «Coisas que o t-rex não consegue fazer» e «Coisas que o dentes-de-sabre não consegue fazer», com desenhos de Pedro Serpa; ou ainda «Se Janeiro deixar» (com João Sequeira), a lembrar os Gato Fedorento.

Mas o melhor André Oliveira surge, quanto a nós, naqueles relatos em que perpassa uma melancolia fina, uma angústia existencial insistente, em confronto com o sentimento trágico da vida, a sua fragilidade, e que por isso mesmo procura valorizar o que é verdadeiramente importante para si, denunciando um romantismo que não vai bem com a modernidade suicidária que vivemos: a constância no amor, os vínculos familiares, a fidelidade a si próprio, a memória da inocência, quantas vezes ao sabor dos caprichos do acaso – outras verdades essenciais que Eça estava longe de desconhecer, mas que não tinham a primazia para o público, numa época que ainda não voltara costas ao campo e se orientava pela regularidade das estações. «Mesmo assim, abandonei-te» (com desenhos de Rui Lacas), «No meu lugar» (Filipe Andrade), «Saudade» (Darsy Fernandes), «Nina» (Catarina Paulo) ou «Narciso» (Susa Monteiro, também autora da capa), são alguns dos momentos inexcedíveis deste livro.


Almanaque

Argumentos: André Oliveira.

Desenhos: vários autores.

Bicho Carpinteiro, Lisboa, 2018

(2019)

segunda-feira, outubro 24, 2022

«Delicadeza»

de acordo com o Sarkollande (ucranianas CXXXVII)

 A lei do mais forte não deve prevalecer, disse Macron em Roma.  Ferpeitamente! No entanto, este sonso sarkollande em segunda mão não se referia ao óbvio -- a circunstância de as forças armadas americanas serem. só por si, maiores e mais poderosas que as de todos os outros países juntos. É por isso que, conhecendo-lhes o cadastro, dou sempre de mãos postas graças a deus por haver pelo menos um país no mundo que os obriga a pensar várias vezes antes de cada golpada.  

bombas sujas, propagandas sujas - coisas de bandalhos (ucranianas CXXXVI)

 Dizem os Estados Unidos, a Inglaterra e a França que a Ucrânia não vai usar nenhuma bomba suja, como a Rússia denunciou. E dizem muito bem por duas razões:

1. A propaganda suja não é só feita do lado de cá; do outro lado também o fazem (e nós, o papel de rebanho, como sempre);

2. Com candura de microfone ou altifalante, televisões, rádios, etc. dizem que os Estados Unidos (com a Inglaterra e a França) negam que tal seja verdade. Os Estados Unidos negam, porque -- e di-lo-ei até à exaustão -- usam a Ucrânia como território seu, os ucranianos como cobaias, com a cumplicidade dos dirigentes lá da terra.

Mais uma vez: muita paciência tiveram os russos com a Nato a ladrar-lhe à porta (palavras do papa Francisco). Estão lá, não saem de lá -- afinal aquilo é terra russa, e não uma invenção soviética reciclada pelos americanos. E suspeito que ainda não recuperaram tudo o que lhes pertence, como, por exemplo Odessa -- o que será muito bem feito, para americanos e bandalhos adjacentes, para aprenderem a não ser salientes.


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domingo, outubro 23, 2022

o urso, a raposa, os chihahuas & outros rafeiros (ucranianasCXXXV)

1. Para começar: os russos estão na Ucrânia e disporão dela do modo que quiserem. A paciência que têm demonstrado tem sido enorme. A raiva para com os americanos é cada vez maior, o desprezo para com todos os borréis provoca vergonha alheia, a insignificância com que tratam a cúpula ucraniana é mais do que merecida. 

2. Os chihahuas dos americanos, como a Estónia e a Letónia, membros da Nato e da UE, decretaram a Rússia, sua vizinha, como estado terrorista. Bravo! Estão a ir pelo melhor caminho. O medo transforma países em bases militares Destes, bem como da Polónia -- uma raposa nesta história, potência regional e arqui-inimiga da Rússia --, há que estar sempre à espera de qualquer provocação.

3. Provocação: fazer com que algum destes países Nato possam alegar ter sido atacados. Não tenho dúvidas de que há alucinados em Washington que crêem poder defrontar militarmente a Rússia -- ou seja, brincar com o fogo,

4. Porque o que quer que pensemos sobre a guerra da Ucrânia, há um facto indesmentível: nenhum país Nato foi atacado militarmente, embora muitos estejam a imiscuir-se na guerra. Por exemplo: o Canadá treina soldados ucranianos em território polaco. Esplêndido. Melhor seria entrar já, oficialmente, porque oficiosamente andam lá em combate, e a fazer de nós parvos. O medo que inculcam nas opiniões públicas europeias está, por enquanto, a pagar

5.  O galheteiro da UE (von der Leyen, Michel e Borrell) em aparente roda livre, na passividade dos governos europeus com peso. Uma miséria intelectual e moral: como sempre tenho dito, a Europa deveria poder afirmar-se por si neste conflito, mas é liderada por rafeiros, os freaks ingleses & outros macrons, 

6. Se a estratégia americana vingasse -- minar o regime e fazê-lo cair por dentro, no que duvido bastante --, tal só aconteceria depois de uma hecatombe social nos países da União Europeia. Como disse a única analista de mercados que pude ouvir sem bocejar (infelizmente esqueci-me do nome), por cada sanção que a UE desfere contra a Rússia, ela retorna a triplicar.

 

«Big Red Moon»

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sexta-feira, outubro 21, 2022

«Before You Know It»

"Anarquismo, Insubmissão, Inconformismo"

      


Estudos sobre Raul Brandão, A Batalha  e Raul Brandão, Campos Lima, Manuel Ribeiro, Neno Vasco, Ângelo Jorge, Jaime de Magalhães Lima, António Gonçalves Correia, Jaime Cortesão e Eça de Queirós, Pinto Quartim, Assis Esperança, Ferreira de Castro, Jorge Teixeira, Mário Domingues, José Régio, João Pedro de Andrade, Roberto Nobre, Alves Redol e os anarquista e anarco-sindicalistas, revista Pensamento. 
Apresentação por António Baião, Museu Ferreira de Castro, 22 de Outubro de 2022, 15 horas

 

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quinta-feira, outubro 20, 2022

quem deu gás aos aiatolas? (adivinha

antiamericana primária, secundária e terciária): pois quem houvera de ser? Sempre os mesmos. E porquê? (pergunta incrédula: o Grande Satã?...): porque um primeiro-ministro iraniano achava que os proventos do petróleo, também ele iraniano, deveriam reverter para o... Irão -- e não para a Anglo-Persian Oil Company. E o que faz a CIA, mancomunada com os ingleses? Instiga a revolta junto do clero xiita com ascendente sobre o povo ignaro (Mossadegh era um jurista laico, intelectual e cosmopolita, além de patriota). E a partir daí foi sempre em crescendo de miséria política até à revolução islâmica de 1979, em que por justiça poética, o fantoche que ocupava o trono (filho, aliás, de um usurpador militar que se autoproclamou xá) foi atirado borda fora pelos mesmo aiatolas que, no início do seu ridículo reinado, tudo haviam feito para derrubar o verdeiro estadista.

quarta-feira, outubro 19, 2022

terça-feira, outubro 18, 2022

235 paus para ver o papa

 Esta conversa lembra-me as digressões de gurus manhosos que se fazem pagar bem por cada arenga aos perdidos da vida, ou então a iurd.

Eu até gosto deste papa e distingo o muito de positivo que a Igreja tem originado ao longo da História (da arte à filosofia) e o negativo também (Cruzadas, Inquisição, perseguições de toda a ordem), assim como no presente, do mais elevado, como a Teologia da Libertação, ao repugnante dos abusos sexuais e a sua ocultação -- entre mais uma miríade de coisas boas e péssimas.

Mas onde ficam os jovens pobres no meio deste arraial?

«The Wild Rover»

segunda-feira, outubro 17, 2022

a grande rebaldaria


The Katzenjammer Kids / Os Sobrinhos do Capitão surgem em 1897 no New York Journal. William Randolph Hearst, magnata da imprensa – o homem que inspirou o «Citizen Kane» de Orson Welles –, confiara a Rudolph Dirks (1877-1968) a criação de uma série inspirada no livro de infantil de Wilhelm Bush, Max und Moritz (1865). Quando mais tarde Dirks se passa para o grupo do rival Joseph Pulitzer, levando as personagens consigo, Hearst contratou o excelente Harold Knerr (1883-1949) como substituto. E assim, dois jornais concorrentes publicavam com o mesmo título as tropelias das mesmas personagens, mas com autores diferentes – uma proeza digna de Hans e Fritz, os dois sobrinhos... Em tribunal, o juiz permitiu que ambas continuassem, mas obrigou Dirks a mudar o nome, e The Captain and the Kids ficou.

«Uma verdadeira saga de destruição», escreveu o crítico brasileiro Marco Aurélio Lucchetti na introdução a este livro de páginas dominicais saídas entre 1957 e 1960, da autoria de Joe Musial (1905-1977), um dos vários émulos e sucessores de Dirks e Knerr. Cada página com Hans e Fritz, Dona Chucrutz, a mãe, o Capitão e o Inspector é um atentado à tranquilidade dos últimos, dois aposentados, com doses equilibradas de estupidez e maldade. Bem sucedidos muitas vezes, noutras os rapazes não se livram de uma tareia à antiga. O êxito deve-se ainda ao exotismo do cenário – palmeiras e coqueiros são omnipresentes –, situado numa colónia alemã da África Oriental, onde não faltava um régulo sabido e, no original, um inglês arrevesado com alemão, que exponencia o cómico das situações. Com ingredientes politicamente letais, a série perdeu espaço na América de hoje, terminando em 2006.

Os Sobrinhos do Capitão

texto e desenhos: Joe Musial

Editora Opera Graphica, São Paulo, s.d.

(Agosto, 2019)

«Puta»

sábado, outubro 15, 2022

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quinta-feira, outubro 13, 2022

caracteres móveis

 «Quando no homem fala o instinto, a inteligência cala-se.»

João Gaspar Simões, Crítica II -- Poetas Contemporâneos (1938-1961)

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quarta-feira, outubro 12, 2022

terça-feira, outubro 11, 2022

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alvos civis & crimes de guerra, tudo serve para manter a manada em estado bovino (ucranianas CXXXIII)

Ouvi ontem dois militares credíveis, o coronel Mendes Dias, primeiro, e depois o major-general Carlos Branco, dizerem que a Rússia enviara duzentos ou mais projécteis para a Ucrânia (e não os cerca de oitenta anunciados). A Ucrânia informou ter abatido cerca de quarenta, pelo que restam à volta de cento e sessenta. Se as informações ucranianas estão certas -- embora não sendo de fiar --, morreram dezanove pessoas, está-se mesmo a ver a lengalenga para enganar os incautos e conduzir a manada à aceitação acrítica das consequências da guerra que eles próprios fomentam. 

Cento e sessenta mísseis e dezanove mortos? Ou os ucranianos têm o guarda-chuva de Nosso Senhor, porque caíram no caldeirão de água-benta em pequeninos (embora o patriarca de Moscovo reze pelos seus), ou os russos visam mesmo alvos legítimos, estando nós diante de mais uma trafulhice em que esta guerra é fértil, com a passividade batráquia da generalidade dos líderes europeus, impotentes para lidar com a pressão americana, e os peões de brega do Pentágono na Europa -- do aborto do n.º 10 à tríade da UE, já para não falar de uma boa parte do comentariado, do Serafim Saudade às descabeladas que andam desde Fevereiro a dizer que "já estamos em guerra", insuportáveis tontas. 

O título ontem de manhã, no inserçor da inefável sic notícias era mais ou menos assim: Rússia bombardeia um parque infantil; claro que como a caricatura era demasiada, até para aqueles toscos, a voz off lá dizia estar o espaço de lazer (pelas imagens, parece tratar-se de um parque urbano com um equipamento para crianças) na área onde se situam os serviços secretos ucranianos. Ao lado, na tvi/cnn, sempre se dizia que um dos ataques fora feito nas imediações do tal parque. 

Os pobres pivôs caem que nem patos, e têm de ouvir os militares, com contida ironia, dizer que nenhum país, se outras razões não houvesse, desperdiça um míssil que custa largos milhares a atacar parques infantis ou centros comerciais; e que para intimidação basta senti-los passar por cima das cabeças, não é preciso estragar o baloiço do parque ao lado. Claro que o perito lá tem de explicar que por acção bem sucedida de uma antiaérea, os destroços do míssil entretanto neutralizado vão cair onde calha.

Em tempo: acabo de ler que outro clown, o Stoltenberg:"Se Putin ganhar ficamos todos em perigo". Só faltou  um Eia! para a manada. O perfunctório norueguês que o vá dizer aos iraquianos que há vinte anos foram abençoados pelas descargas da verdadeira democracy, com o incentivo do senil que está agora em Washington, mas que há duas décadas era só um poltrão.


segunda-feira, outubro 10, 2022

«Burning Tree»

piadolas II (ucranianas CXXXII)

Não sei que vídeo colocará agora o infeliz embaixador ucraniano na ONU. A guerra estimula-lhes os humor, parece.

Zelensky, esse, deixou-se de graças, passando ao registo habitual, que é o de quere a toda a força que nós vamos para lá morrermos pelos americanos, e já agora também por eles, armados em pimpões, com as costas quentes do ceo Biden.

E por falar em ceo, a ursa da União Europeia o quasímodo catalão pela mão anda cheia de vontade de ser prestável. Eu sei que não é possível dar-lhe um chuto antes de terminar o mandato; mas que tal pôr no lugar esta ex-ministra da defesa alemã, cujo governo diligenciou tão bem com o tal regime de Putin? Ou o hobby  dos governos nacionais é continuar a enganar o povo quanto à guerra?

E um trapo no focinho de quem vier falar no Direito Internacional, num continente em que em tempos existiu uma federação iugoslava. Direito Internacional, que boa piada.


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piadolas (ucranianas CXXXI)

 Depois do ataques à ponte do Estreito de Kerch, Zelensky, nas suas conversas em família, aludiu ao bom tempo em todo o país, excepto nuvens pairantes na Crimeia. O actor cómico veio ao de cima; já o embaixador na ONU, qual youtuber, postou algures uma montagem da imagem da ponte a arder e a pobre Marylin drunfada a cantar os parabéns não ao Kennedy, mas a Putin. O nível é este. 

Não sei se estão preparados e continuarão a fazer humor quando a Rússia responder. Pode ser até que a especulação do major-general Carlos Branco faça algum sentido: o de tratar-se de uma provocação dos ucranio-americanos com o propósito de levar a uma resposta brutal que leve o senil do Biden e o novo aborto britânico a, finalmente!, intervir. 

Que ele, Zelensky, anda a querer levar a carta a Garcia, lá isso não restam dúvidas. Mas se o nosso oficial especula a propósito, os russos já fizeram o mesmo. No entanto, receio que a resposta não vá ser nada meiga. E que o senil, o neoaborto britânico, a Úrsula não se enxerguem, tal como não se enxergam os américo-ucranianos. 

Veremos o que nos reserva a manhã.

sábado, outubro 08, 2022

o Nobel da Paz - Bialiatski, muito bem, mas esqueceram-se do Assange

Confio na boa-fé do Comité Nobel para a Paz, e não é por nem sempre ter acertado que perde importância. Tem-se falado do falhanço de Barack Obama quanto à politica externa; sim, mas também não: Cuba e Irão fizeram jus ao galardão, do meu ponto de vista. Poderia falar de muitos casos, mas o antigo presidente norte-americano chega.

Quanto aos que foram atribuídos ontem: começo já por dizer que não estou suficientemente informado sobre as duas associações da sociedade civil, portanto remeto-me à tal confiança no dito Comité.

Quanto a Ales Bialiatski, de quem nunca ouvira falar, só posso louvar a decisão. Prisioneiro político, assim designado pela sempre credível Amnistia Internacional, tenho por estas pessoas a maior admiração e consideração e simétrico desprezo pelo poder ou poderes que combatem. Tenho pena que a Nobel tenha esquecido Assange -- não sei se por medo de polémica, que parece não ter, ou Snowden, felizmente ao abrigo de retaliações.

A anedota merdiática: não faltou quem mencionasse Zelensky, uma marionete do Pentágono ou do Navalny, alcandorado a democrata pelos patifes dos americanos, e que desconfio não passar de um agente da CIA (quem vem do partido nacionalista-populista do Jirinovsky, o crédito que tem é zero).

»Vias de Extinção»

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quinta-feira, outubro 06, 2022

«The Evil Has Landed»

a pila pequena do Kim Jong-un

Os potenciais cabelos brancos de Xi Ji-ping deveriam explicar ao rapazinho que agora não podemos brincar, que as pessoas crescidas, ele, o Putin, o Biden, o Modhi (não o Nódi), em breve o Lula, andam muito ocupados a tratar do Mundo e não lhe podem dar atenção.

"sintonia franciscana" - os Franciscanos sabem

 


Lula  recebe o apoio dos Franciscanos
(ou o catolicismo de rosto humano)


quarta-feira, outubro 05, 2022

miúdas iranianas oferecem arnaldos aos aiatolas


Uma alegria de se ver.
E é tão espontânea a revolta contra estes masturbadores obcecados com o sexo, como sucede com todos os padrecas de qualquer religião, que o propalado aproveitamento pelos patifes dos americanos é pouco verosímil; mas neste caso é para o lado que durmo melhor. 

 

«Over Again»

terça-feira, outubro 04, 2022

a teatrice do Biden de dedinho em riste, no dia da anexação -- e ainda Edward Snowden, para embrulharem (ucranianas CXXX)

Putin pode ser muitas coisas, mas não é parvo. Como também não é louco, é óbvio que nunca, mas nunca, atacará um país Nato, pois sabe que a resposta seria imediata e, pelo menos, proporcional.

Esta possibilidade insana tem sido vendida à opinião pública ocidental, demasiado imbecilizada para ler por detrás das palavras e facilmente manipulável. Só isso justifica que países como a Suécia e a Finlândia, que aguentaram firmes a pressão soviética -- ao pé da qual a chamada Operação Militar Especial não passa disso mesmo, uma guerra dir-se-ia envergonhada --, se vissem forçadas pelo medo a renunciar à neutralidade.

À estratégia inicial, desgastar a Rússia usando a mão-de-obra ucraniana pobre -- porque os ricos puseram-se ao fresco, como podemos testemunhar diariamente e ao vivo --, somam-se os réditos da venda de armas que compensará certamente os milhares de milhões de dólares da ajuda  americana ao suicídio ucraniano (para não falar dos grandes contratos para a reconstrução em perspectiva).

Escrevi aqui, no início da guerra, que os americanos iriam defrontar a Rússia até ao último ucraniano; é o que estão a fazer, com razoável insucesso -- apesar de a propaganda mostrar a conquista de cada aldeola como uma nova batalha de Stalingrado.

À anexação dos antigos territórios da Ucrânia, Biden, teatral, esticou o dedinho e "avisou" Putin que defenderia cada centímetro do território dos países Nato. 

Como este patife sabe que a Rússia não é suicidária, a propaganda pateta feita para patetas tem como finalidade única a de prolongar a guerra. Para já, os cúmplices declarados, além dos britânicos e do governo ucraniano, são os polacos, os estados bálticos e a Comissão Europeia, essencialmente. Mas não admira nada que a cumplicidade se alargue, quando forem ainda melhor sucedidos em arrastar-nos para esta guerra de merda. E não faltarão pascácios, desgrenhadas ou belicistas de sofá -- citando o general Carlos Branco, este e alguns mais que deveriam ser ouvidos por quem quer aprender qualquer coisa -- a pretenderem atirar-nos para dentro do caldeirão, em nome dos nossos valores.

Por falar nesta piadola farsante designada por nossos valores -- os dos filhos-da-puta que me censuraram a RT, por exemplo  --, ao atribuir a cidadania russa a Edward Snowden, pondo-o a salvo da tortura que há anos os nossos valores infligem a Julian Assange, fez mais o negregado presidente russo pelos ditos do que todos estes propagandistas de circo.  

segunda-feira, outubro 03, 2022

domingo, outubro 02, 2022

'crowdwritting'

Quando atravessamos talvez o melhor momento de sempre da BD portuguesa, pela profusão e qualidade de desenhadores e argumentistas, é de elementar justiça lembrar aqui o último abencerragem dos tempos heróicos das histórias aos quadradinhos nacionais: José Ruy (Amadora, 1930), das páginas de O Papagaio, O Mosquito, Cavaleiro Andante, Tintin, Spirou – até hoje. Apaixonado pela História e pela sua divulgação, não por acaso, a principal personagem que criou é o navegador Porto Bomvento, a singrar pelos cinco cantos do globo; e dois dos seus trabalhos mais marcantes resultem das adaptações em banda desenhada da Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto e Os Lusíadas, de Luís de Camões, a que podemos acrescentar as muitas monografias sobre cidades e vilas do país, sem esquecer as várias biografias, de Charles Chaplin a Dimitrov, reveladoras desse interesse. No campo humorístico, o artista deu o seu contributo na que foi talvez a melhor revista que por cá se publicou, o semanário Tintin. Quem lhe percorreu as páginas, decerto não esquece a dupla de repórteres Clique e Flash deambulando pela redacção do hebdomadário, caricaturando com imensa graça quem a produzia semanalmente, em especial Dinis Machado e Vasco Granja, que nela tiveram influência decisiva.

Se o crowdfunding é uma prática normalizada pela comunicação das redes sociais, com A Ilha do Corvo que Venceu os Piratas (Âncora Editora, 2018), José Ruy tornou-se pioneiro do que poderemos chamar croudwriting, uma vez que a narrativa teve a participação activa dos corvinos, na composição deste relato de história antiga. No século XVII, aquela população isolada fez frente, com êxito, a um ataque duma frota de dez embarcações de piratas barbarescos – assim eram chamados os salteadores marítimos baseados em Argel e em Túnis –, que frequentemente empreendiam razias nas ilhas e no continente, em especial no Algarve, saqueando e fazendo cativos, vendidos nos mercados de escravos do Norte de África.

A narrativa parece seguir de perto as fontes documentais de que o autor lançou mão, por vezes com excesso de didactismo. Trata-se, porém, duma BD clássica de autor histórico, que à História e aos clássicos consagrou uma boa parte do seu labor.  O traço ágil de José Ruy conserva-se inalterado. As vinhetas iniciais da primeira prancha são esplêndidas em movimento e cor, dando em cheio a solidão da pequena ilha, exposta à inconstância dos elementos naturais no meio do Atlântico, e o insulamento daquela população entregue a si própria e a Deus, apenas lembrada pelo donatário, quando este exigia o tributo anual.

A Ilha do Corvo que Venceu os Piratas (Âncora Editora, 2018)

Texto e desenhos: José Ruy

(2019)

sábado, outubro 01, 2022

«Cristina»

quadrinhos


Jacques Tardi e Didier Daeninckx, Varlot Soldado (1999)

 

sexta-feira, setembro 30, 2022

quinta-feira, setembro 29, 2022

a arte de começar mais depressa

 «Prelúdio (A música das ondas)». «Dispensou a cadeira de rodas e atravessou o portão do hospital cambaleando.»

«Amizade». «Quase toda a manhã é o mesmo suplício: quando chego na portaria, a vizinha gorda do trezentos e dois já está esparramada no banco de madeira, tendo ao lado o seu irritante cachorrinho peludo.»

«Gosto de enxofre». «Uma mulher entrar sozinha no bar, escolher a mesa, se sentar e pedir uma cerveja são coisas que nunca se vê por aqui.»

«Caminhos». «Diante da banca de jornais e revistas, o homem parece petrificado, os olhos grudados na primeira página do jornal que estampa a manchete MARADONA ESTÁ MORTO».

«O pedido». «A mulher está sentada na varanda, xícara de café e latinha de biscoitos de maisena no colo.»

«Cicatriz». «Seu Júlio disse que o homem cultivava cavanhaque grisalho e tinha uma cicatriz no rosto que ia do nariz até perto da orelha.»

«A primeira vez».  «Eu jogava futebol de botão no  piso da sala quando a ambulância freou na porta de casa.»

«Como num quadro sacrossanto». «Deus me perdoe, mas parecia que eu estava diante do quadro da Virgem e o menino Jesus -- o delegado repetia.»

«Estação Fim do Mundo». «-- Quanto é a a bala de tamarindo? -- pergunta o homem.»

«Café fraco». «Do jeito que me cataram em baixo da marquise, me despejaram aqui, sem uma palavra sequer, de explicação ou de consolo.»

«O amor é mais frio que a morte».  «Não há nada mais triste do que cemitério em dia de chuva.»

«O último post». «Eu poderia ter resolvido o assunto no tuíter, com menos de cem caracteres, algo como Quando vocês acabarem de ler isto aqui, eu terei acabado com tudo, mas ficaria faltando alguma coisa.»

«Mortos na cabeceira». «E esse medo de ir para a cama?»

«Herança». «A nuvem avermelhada manchava o céu desde o começo da manhã, prometendo que o dia não seria como outro qualquer.»

«Mangas vermelhas». «Marcaram encontro para o fim da tarde e pegaram o caminho da chácara.»

«Ternura». «A filha do velho recomendou que eu não usasse roupas "pronunciantes".»

«Queima de arquivo.» «A dupla formada por repórter e fotógrafo que fazia o plantão da madrugada na redação -- num tempo em que ainda havia plantões, jornalistas e redações -- me tirou da cama antes do galo cantar.»

«A última lembrança».  «Ele disse que não queria me ver nunca mais, nem pintada de ouro.»

«Decisão». «Foi dele mesmo a decisão de se mudar para a casa de repouso -- Solar da Amizade, estava escrito na placa de madeira -- e também a escolha do asilo.» 

«A crooner do Norte». «Hoje eu me lembrei de você, Cauby.»

«Deus sabe». «Quando minha mãe vinha com a trouxa de roupas descosturadas ou precisando de remendos, eu já ficava nervosa.»

«Tempos difíceis». «Cenário: Ponto de ônibus.»

«Cada um sabe de si.» «Lucinha chega ao trabalho com uma mão no olho e outra na boca, cobrindo o hematoma no supercílio e o machucado no lábio.»

«Cruzamento». «Ainda lembrava como se tivesse acontecido ontem do dia em que ela chegou com os olhos duros, aquele mesmo par de olhos que já amolecera tanto antes dos seus.»

«Os caçadores e a caça (Um conto de Natal)». «Na volta da escola, caminhando às margens da belíssima lagoa que ilumina e transluz no crepúsculo, o menino vê o homem passar correndo.»

«A vida é troca». «A vida é dura, doutor.»

«Mais cedo ou mais tarde o teto desaba». «A cena se passa no ano de mil novecentos e setenta e um.»

«Ainda tem sol em Ipanema». «De mãos dadas, Sergio e Clara pulam das pedras do calçadão para a areia morna e caminham para o mar.»

Luís Pimentel, Ainda Tem Sol em Ipanema (2022)

Prémio Ferreira de Castro / 2021

apresentação: Museu Ferreira de Castro, 30-IX-2022, 18 h.

(estão todos convidados)


quarta-feira, setembro 28, 2022

«Stonemilker»

quadrinhos


Jacques Tardi e Didier Daeninckx, Varlot Soldado (1999)

 

a Rússia com o problema resolvido (ucranianas CXXIX)

 Quer dizer: já não sai do Donbass, como era previsível, e também duvido que largue Kherson -- ou o que quer que seja, o que é muito bem feito para quem andou estes anos a provocar e a fazer de peão dos americanos. 

Ah, claro: há sempre a possibilidade de a estratégia americana resultar com o desgaste interno. Eles andam há anos a tentar. Acabam de aprovar o auxílio  de mais doze mil milhões de dólares para a guerra em que só os ucranianos irão perder.

A UE se não se desembaraça da Úrsula y sus muchachos está com os dias contados, o que é uma pena.

segunda-feira, setembro 26, 2022

«Lines In Sand»

Giorgia on my mind (continuem. que vão bem)

 

Giorgia Meloni tem o pecado original do fascismo, de que se quis distanciar -- no entanto o símbolo do partido desmente-o. Faço ideia os rios de tinta e o latim gasto com a ascensão desta mulher -- não sei neste momento se neo-fascista, se ultaconservadora. Mais do que conservador, um fascista é um contra-revolucionário, um reaccionário extremista, violento, ressentido e por norma cobarde.

O cenário para já, parece-me este: a julgar pelo que se tem dito ela é uma mulher de convicções e inteligente -- a inteligência política poderá centrá-la --; mas terá que ter cuidado com o principal aliado, Salvini, um faz-tudo, oportunista, modelo dos políticos de taberna como a anedota que dá pelo nome de André Ventura (zero convicções, tudo ambições); e Berlusconi, um artista de variedades, cadáver adiado da política italiana, cujo desígnio parece ser a presidência da República. vai ter que se precaver com a UE. A França já mandou recados, como se tivesse grande autoridade para falar, no que toca aos migrantes que lhe chegam. Mas a Itália é um grande país, e portanto a UE vai ter que falar fininho.

As minhas irritações. 

1.a politicalha medrosa, calculista e enganadora, cujo grande desígnio é a gestão da própria permanência no poder: os Sanchez, os Macrons, os Boris desta vida, sem esquecer o Costa das pensões e do todos e todas (credo...); e do Montenegro da troika, do leite achocolatado e do chumbo do pec iv, que aparece agora a consolar velhinhos, depois de os terem roubado e aumentado as rendas miseravelmente.

2. o wokismo imbecil, que entretanto domina já as corporações -- quem não se lembra de um merceeirx qualquer que foi ou é administradorx da TAP, e que, não lhe bastando ser saloix, identificando o cargx que ocupava em estrangeirx, deixou de ser chairman, passando a chairperson,?; ou do poderoso lóbi lgbt, Mickey em tons de arco-íris promovido pela Walt Disney Company (melhor que isto foi quando o dito lóbi avançou, sem sucesso, felizmente, com a tentativa de homossexualizar o Egas e o Becas, coisa duma pertinência enorme -- "direitos humanos, pá!...")? Por cá, a perseguição aos alunos e família de Famalicão por outra anedota que era secretárix- de-estadx e hoje ministrx-- ahahah...

A malta chateia-se, enerva-se, e depois vota na Meloni. Continuem, que vão bem.


1 disco, 1 faixa: SEVEN COMPOSITIONS TRIO (1989) - #3. «Composition 40J / Composition 110A ((+108B+69J)»

domingo, setembro 25, 2022

desenhar a morte

Jacques Tardi (n. 1946) é um dos mestres da banda desenhada europeia, um estilo único; mais do que herdeiro da linha clara de Hergé e Jacobs, foi alguém que a transfigurou, tornando-a marca pessoal imediatamente reconhecível. Neto de um soldado das trincheiras, a Grande Guerra é um tema obsidiante neste autor, que, logo no verso do frontispício, avisa-nos ao que vem: «Tenho a impressão de que não podemos fugir à guerra. Mesmo nós, mesmo hoje. / A guerra que mostro não é mais que o décor de 14-18, os uniformes. / Acho que continua actual, o que me inquieta.» Neste álbum, com argumento do romancista Didier Daeninckx (n. 1949), a insanidade da carnificina do conflito mundial de 1914-18 aparece carregada na sua crueza pela utilização magistral do preto e branco, com terra e carne humana retalhadas pelos projécteis arremessados por todas as bocas de fogo, abrindo crateras no lamaçal da Flandres. Duas vinhetas por página são quanto basta para a respiração do texto de Daeninckx: «Uma tonelada de pólvora da casa Krupp destruiu tudo: os mortos, o pelotão, a pocilga onde nos tinham fechado.» A trama, sendo simples, é rica, explorando os quiproquós em que a comédia humana é fértil, aqui exponenciados pelos desencontros da guerra, à rectaguarda: o hospital de campanha, o bordel, os desertores com destino marcado.

Varlot Soldado (1999)

Argumento: Didier Daeninckx

Desenhos: Jacques Tardi

(EdiçõesPolvo, 2001)

(2019)