domingo, outubro 04, 2026

o que está a acontecer

«Já saudámos Alhandra, a toireira; Vila Franca, a que foi de Xira, e depois da Restauração, e depois outra vez de Xira, quando a tal Restauração caiu, como a todas as restaurações sempre sucede e há-de suceder, em ódio e execração tal que nem uma pobre vila a quis para sobrenome.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

1 comentário:

Manuel M Pinto disse...

«Acontece porém que a canção é bordada na talagarça duma outra, de Boscán, perdendo assim com a falta de originalidade subjectiva, senão todo, boa parte do seu valor testemunhal. A poesia do poeta catalão, introdutor em Espanha dos metros novos italianos, é esta:
    'Claros e frescos rios,
   Que mansamente vays    
Siguiendo vuestro natural camiño, 
  ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...    
Pues quiso mi ventura    
Que uviesse de apartarme    
De quiem jamas osé pensar partirme,   
En tanta desventura    
Conviene consolarme,   
Que no es agora tempo de morirme.   
El alma ha-de estar firme...   
 ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... 
«O professor Hernâni Cidade, que fez o confronto das duas composições, sublinha quanto se ajustam no seguinte: "Dentro de cenários análogos -- um rio de águas mansamente deslizando -- a mesma perspectiva de mágoa de ausência, a mesma promessa de constância amorosa, não sem um ou outro eco, fugidio embora, da própria expressão." Que grau de importância, sob o ponto de vista de pragmática, digamos, se deve atribuir a uma composição, cujo pensamento e traça geral representam um decalque? Evidentemente que os estados de alma se repetem de indivíduo para indivíduo. Mas quem vê nesta canção um argumento comprovativo da estada de Luís de Camões em Coimbra não é difícil juiz. Fala do Mondego, e ainda que não pronuncie o nome de Coimbra, aceita-se que seja ela a florida terra, leda, fresca e serena. Mas tal circunstância não implica de modo irrefutável que, de facto, Luís de Camões ali vivesse ledo e contente.»
Aquilino Ribeiro, "Luís de Camões - Fabuloso*Verdadeiro". Ensaio (1950)