domingo, outubro 12, 2025
sábado, outubro 11, 2025
o que está a acontecer
«-- Se eu te tivesse conhecido recém-nascida, teria odiado em ti o rosto incaracterístico da criança, balofo, sem vontade, que ri como um ébrio: -- esse rosto divino que 18 anos mais tarde eu havia de amar pela perversidade do seu sorriso, pela voluptuosidade que dele se desprende e voa até aos meus sentidos.» Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge (1924)
«Os homens pararam. Alguns, mais cansados, sentaram-se imediatamente, outros ainda procuraram árvores para aproveitarem a sombra e o encosto dos troncos. Abriram os camuflados, aspirando o cheiro ácido de suor que saía do peito, para se refrescarem.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)
«Estavam quase ao alcance da respiração um do outro: ela debruçada num muro de pedra de lava; ele na rampa de terra que bordava a estrada ali larga, acabando com a fita de quintarolas que vinha das Angústias até quase ao fim do Pasteleiro e dava ao trote dos cavalos das vitórias da Horta um bater surdo, encaixado.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)
sexta-feira, outubro 10, 2025
seis poemas de Liberto Cruz, na sua morte (1935-2025)
Quem a morte sentiu
Da vida não foge
(Livro de Registos / Última Colheita, 2022)
***
Tenho a idade
deste plátano
e desta tília.
Todavia sei
que não vamos
envelhecer juntos.
(Sequências, 2000)
***
Uma só vida não chega
Nem outra nem outra ainda
Para dizer que te amo
Meu amor meu só amor.
E quando a morte vier
Inevitável e certa
Que seja eu o primeiro
A ficar no livro inscrito.
Que ali discreto seja
E feliz por ter amado
A mulher por que morri
Vivendo. Nada mais quero.
Se de meu amor morri
Morrendo volto a viver.
(Caderno de Encargos, 1994)
***
Como defender a Pátria falando outra língua,
Se outra língua ouvindo sei que esta terra
Minha Pátria não é?
(Jornal de Campanha, 1986)
***
Em Portugal haver mocidade portuguesa
é um pleonasmo a evitar
(Gramática Histórica, 1971)
***
SÓ PORQUE ÉRAMOS PUROS
Só porque demos as mãos
E gritámos bem alto
O nome da amizade,
Só porque trocámos carícias
Sem o prazer dos sexos
E fomos amantes Como o luar e o rio,
Chamaram-nos devassos
E refugiaram-se no mundo
Torpe, em que não caímos.
(Momento, 1956)
2 versos de Alexandre Nave
«Rapazes enfezados no ventre da tarde / destroçam os pássaros no riso»
Columbários & Sangradouros (2013)
quinta-feira, outubro 09, 2025
zonas de conforto
Jaime Brasil a Ferreira de Castro (1925): «Paris, 14/10 // Meu caro Castro, // Como vai isso? Bem? Não sei se já lhe escrevi ou não. Ando arrasado das viagens, hábitos alterados... o diabo. O M. Domingues já veio? / Estou na R. Richer, 26 Pension Home. Se for necessário qualquer coisa escreva até ao dia 20. / Recomende-me à "Tertúlia". Abraça-o o am.º e camarada / Jaime» Cartas a Ferreira de Castro (2006) - ed. Ricardo António Alves § Vergílio Ferreira: «Fomos a Fontanelas, levámos o Lúcio, de Bolembre. Lúcio cresce, distancia-se. Não decerto no afecto -- no que no-lo marcou como criança. Com ele, também, a fuga do tempo. A casa do Rogério -- o jardim. Súbita melancolia, o espectro do passado, ou seja da morte.» Conta-Corrente 1 (1980) § José Duarte: «Em nome do Pai... / e do Filho... / e de John Coltrane» Cinco Minutos de Jazz (2000) § Machado de Assis: «É preciso dizer que ele padecia do coração: -- moléstia grave e crônica. Pai José ficou aterrado, quando viu que o incômodo não cedera ao remédio, nem ao repouso, e quis chamar o médico. / -- Para quê? disse o mestre. Isto passa.» «Cantiga de esponsais», Histórias sem Data (1884) § Manuel Tiago: «Mas em todo o seu físico, na rigidez do tronco e no dispor das pernas, nos gestos e olhares, transparecia qualquer coisa que o distinguia de um vulgar lavrador, qualquer coisa de arrogante, ousado e impertinente. Cinco Dias, Cinco Noites (1975) § José Bacelar: «E pontos de vista todos eles igualmente admissíveis, todos eles dignos de atenção, todos eles justos. Assim, que, na complicada construção dum edifício, o carpinteiro considere tudo sob o ponto de vista da carpintaria, o pedreiro sob o ponto de vista da alvenaria, o pintor sob o ponto de vista da pintura, são realidades contra as quais o espírito livre nada tem que dizer. Nada mais natural -- e nada talvez mais necessário.» Arte, Política e Liberdade (1941) § Fialho de Almeida: «Duma ocasião, sozinho no meu quarto, eu considerava uma rosa branca que emurchecia num copo, tão triste! Disse-lhe assim: "Tu sofres!" Ela curvou-se mais sobre a haste, aquiescendo, e vi-lhe duas lágrimas nas pétalas. Nunca pude saber quem fosse esta mulher.» O País da Uvas (1893) - «Pelos campos»
estes são quintas colunas de quem?
Estes acham que somos todos estúpidos, que ninguém está a ver a grosseira manipulação da opinião pública ocidental; a censura imposta aos media russos -- de propaganda, dizem, como se houvesse algum merdia que o não fosse; o fracasso da "política" (nem a designação merece...) europeia na Guerra da Ucrânia; a perigosa mediocridade da acção, com a falta de estratégia total da UE, a não ser a de ser cão dos Estados Unidos.
Acham estes idiotas que basta dizer que "houve um país que invadiu outro", como aconteceu mais uma vez com Pacheco Pereira há dias na televisão (o grau zero da análise) -- pois o público é basicamente constituído por crianças grandes -- por isso facilmente manipulável --, que basta dizer muitas vezes as mesmas parvoíces, como faz o Costa, que a malta engole. Engole, pois; mas não toda.
1 verso de Antero de Quental
«O Amor que nome tem? real, jamais o teve...»
Primaveras Românticas (1872)
cessar-fogo em Gaza, quem diria?...
Sem embandeirar em arco, a emoção é grande com o aproximar do termo desta carnificina.
A pressão sobre as partes foi certamente gigantesca, dos Estados Unidos, que são quem realmente manda em Israel, sobre Netanyahu; do mundo árabe e islâmico, não apenas os mediadores Qatar, Egipto e agora a Turquia (aliada do Hamas), sem falar da posição do Irão de apoio à proposta de acordo, nesta terça-feira. Ou seja: o início do diálogo estava assente -- o que não é pequena coisa.
A Cisjordânia e os colonatos ilegais é o caso mais bicudo -- penso nos judeus extremistas e nas ocorrências do passado; depende também muito da parte sã (laica) de Israel e do continuar da forte pressão sobre o Likud (os partidos religiosos são irrecicláveis e têm de ser controlados, pelo menos).
A situação de Marwan Barghouti, preso há 23 anos e que os radicais israelitas não querem libertar -- e todos sabemos porquê -- também ditará boa parte do caminho que agora poderá começar.
Sim, de facto não havia alternativa. Quem diria?...
quarta-feira, outubro 08, 2025
2 versos de Fernando Assis Pacheco
«não: era de noite àquela hora a alegria / das casas funde-se com um estalido cruel»
Siquer Este Refúgio (1976)
terça-feira, outubro 07, 2025
3 versos de José Alberto Oliveira
«como pode alguém tão arrimado ao vulgar / ter o desplante de sugerir emoções / que lhe são desconhecidas?»
Peças Desirmanadas e Outra Mobília (2000)
segunda-feira, outubro 06, 2025
3 versos de Alberto de Lacerda
«Águas múrmuras: a fina / Repetição infinita / Do mesmo som sempre o mesmo»
Elegias de Londres (1987)
zonas de confronto
Svetlana Alexievich: «Para nós tudo vinha daquele mundo horrendo e misterioso. Na nossa família, o avô ucraniano, pai da minha mãe, foi morto na frente de combate e sepultado algures em terra húngara, e a avó bielorrussa, mãe do meu pai, morreu de tifo enquanto estava com os partisans, os seus dois filhos estiveram no Exército e desapareceram nos primeiros meses de guerra, dos três só regressou um. O meu pai.» A Guerra não Tem Rosto de Mulher (1985) - trad.Galina Mitrahovich § Woody Allen: «Lembro-me de uma tarde em que estávamos sentados num alegre bar do Sul de França com os pés confortavelmente pousados em tamboretes do Norte de França, quando Gertrude Stein disse: "Estou agoniada." Picasso achou essas palavras divertidas, e Matisse e eu tomámo-las como a deixa para partirmos para África.» Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura -- «Memórias dos Anos Vinte» - trad. Jorge Leitão Ramos § Mikhail Bakunin: «É preciso ser-se dotado de uma grande dose de estupidez, é preciso ser-se cego e surdo para não reconhecer importância a este movimento. E quem quer que tenha conservado uma réstia de vida e de bom-senso, que não tenha sido corrompido por interesses ou doutrinas, reconhecerá, como nós, que só um movimento se não traduz por uma agitação ridícula e estéril, e que traz no seu seio o futuro, o movimento internacional dos trabalhadores.» O Socialismo Libertário, «O movimento internacional dos trabalhadores» - trad. Nuno Messias § Félix Cucurull: «Aqui te estou a escrever estas palavras de despedida neste cartão que perdi quando tinha vinte anos e do qual as chuvas apagaram o nome e a morada. Encontra-la-ás no bico de qualquer pardal. Ao leres as minhas palavras pensarás: "Sempre disse que este moço iria muito longe a escrever histórias divertidas." Entretanto, a rapariga que eu beijei quando ainda tinha gengivas e dentes deve ser já avó.» «Carta de despedida», Antologia do Conto Moderno - trad. Manuel de Seabra § Michael Gold: «Ao longe, na cidade, a noite é calma e silenciosa. Nas ruas dormentes homens e mulheres deslizam em idílios. Os agentes balouçam os bastões e bocejam sonolentos. / No sossego de suas casas, depois de um dia enervante nos tribunais, os juízes lêem versos às esposas. / No escuro dos cinemas, há pares de namorados que, em contacto furtivo, vibram de desejo.» Para a Frente, América -- «Cárcere» - trad. Manuel do Nascimento
domingo, outubro 05, 2025
o que está a acontecer
«Entrava em pormenores, Margarida ouvia-o agora vagamente distraída, de cabeça voltada às nuvens, como quem tem uma coisa que incomoda no pescoço, um mau jeito. O cabelo, um pouco solto, ficava com toda a luz da lâmpada defronte, de maneira que a testa reflectia o vaivém da sombra ao vento.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)
«Berenice silenciara-se também, nesse recanto deserto da popa do transatlântico: -- angustiada pela dor da partida: -- da partida do seu amante para um mundo que ela ignorava: -- e que só entrevia através duma neblina colorida, onde os seres e as coisas se revestiam de esplendores estranhos.» Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge (1924)
«I.A Primeira Operação / 1. Um comando não tem fome nem sede... / Finalmente veio a ordem desejada, murmurada no passa-palavra, da frente para a retaguarda da companhia de comandos: / -- Parar para almoçar, meia hora, a última equipa monta segurança.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)
sábado, outubro 04, 2025
sexta-feira, outubro 03, 2025
agora a sério, o Putin tem um piadão, caraças!... - ahahah
Sem falar no entrevistador -- ainda mais, se pensarmos nos tristes que nos caem no prato com as suas tristes figuras de analfabetos funcionais.... E então se compararmos o Putin com, por exemplo, António Costa & os seus Patetas... (esgar)
2 versos de Fernando Jorge Fabião
«um gesto camponês / lavrando a solidão incendiando a terra»
Na Orla da Tinta (2001)
quinta-feira, outubro 02, 2025
ucraniana CDIV - mais 220 000 000 € deitados ao lixo
E lá vamos nós outra vez na manada, dar dinheiro ao Zelensky, balões de oxigénio, bovinos alinhados na estupidez geral de prolongar uma guerra perdida provocada pelos americanos, e que por isso mesmo saltaram fora, Não sem que antes se assegurassem que os parolos da UE e da Nato continuariam a financiar o complexo militar-industrial americano a risco zero.
"A defesa da Ucrânia é a defesa da Europa" e outras frases lindas: mas quão estúpido pode ser-se?
Claro que, a continuarmos com este conjunto de dirigentes europeus, mistura letal de estupidez, oportunismo, inconsciência e ignorância, arriscamo-nos, um dia destes, a um par de galhetas da Rússia, pelo menos, e não é que eles não tenham avisado.
Mais 220 milhões de euros, "pelo menos"... Não me bastava o espertalhaço do Costa, ainda tenho de ouvir as histórias da carochinha do Montenegro.
2 versos de Dora Gago
«Sigo as pegadas da memória / inscritas na areia do tempo»
«Início», Flores de Cinza (2025)
quarta-feira, outubro 01, 2025
ainda o plano de paz de Trump para Gaza, ou quando a paciência me falece
Como disse Gouveia e Melo na entrevista que deu à cnn-Portugal (só para esclarecer: não tenho o meu voto decidido para as presidenciais, a não ser numa eventual segunda volta: qualquer um que venha a defrontar o taberneiro oportunista), é melhor um mau plano de paz do que não haver plano nenhum.
Não é justo? Não é. E a sua maior falha talvez seja a ausência de um tal cronograma; mas mão diria que o plano é mau. Está aliás sustentadíssimo pela comunidade internacional, e desse ponto de vista não me lembro de uma possibilidade tão forte. E obviamente que as pressões sobre o Hamas devem ser muitas, o mesmo se passará com o degenerado Netanyahu.
Se houvesse justiça e o Direito Internacional fosse letra viva para quem detém a força (se calhar achavam que as violações do dito só ocorreram agora na Ucrânia...), as fronteiras seriam pelo menos as de 1967, e o p-m israelita, entre outros, estaria sentado no banco dos réus como genocida. Mas, como sempre, o que comanda a política internacional são os interesses e a força para os fazer valer. É da natureza humana -- digo eu, que sou um pessimista -- e da natureza dos estados. E pobres daqueles que no meio da voragem parecem não saber o que andam aqui a fazer (v.g. Portugal e a Guerra da Ucrânia).
Voltando a Gaza: o que deve orientar qualquer cúpula política que possa representar e servir um povo, para além do Direito e do Ideal -- e sem deixar de lado a ousadia -- nunca deve abandonar 1) o realismo na análise; 2) o pragmatismo na acção.
Qualquer acto que não imponha o opróbrio da submissão tem de ter em conta a correlação de forças. A força de Israel, suportada pelos americanos, é brutal, impiedosa, cruel -- e a passividade e a impotência da comunidade internacional diante do massacre, da limpeza étnica, do genocídio é inultrapassável. Resta a negociação, o direito, a contenção de danos.
Resta, acima de tudo, a vida das pessoas, entre os quais a dos inocentes que estão a ser chacinados todos os dias. Por isso é com desprezo que vejo o comentariado crítico que classifica como submissão & etc. a aceitação deste plano, qualificado e muito bem por Leão XIV como "realista". Volto a perguntar: qual é a alternativa? O extermínio que os maluquinhos dos fanáticos religiosos fariam diligentemente entre duas orações?...
É muito fácil a intransigência de princípios com o sangue e a vida dos que estão para lá longe e não nos são nada.
P.S. - Não estou optimista, a começar pelo facto de o dito Bibi estar na equação.
2 versos de Rui Knopfli
«Servidor incorruptível da verdade e da memória / escrevo sentado e obscuro palavras terríveis»
«Proposição», O Escriba Acocorado (1978)
terça-feira, setembro 30, 2025
o plano de Trump para Gaza: o melhor e o menos bom
Lidos os 21 pontos, confesso que estou surpreendido, e muito, e pela positiva.
Centrando-me nas questões essencialmente políticas:
a criação futura de um estado palestino resulta inevitável do cumprimento do acordo, mesmo que o criminoso Bibi já esteja a virar o bico ao prego para salvar o coiro da enxovia (os partidos religiosos já lhe tiraram o tapete) -- esta é a principal conclusão a tirar do documento;
os membros do Hamas que o aceitarem serão amnistiados, ou ser-lhes-á facultada a saída do território com garantias de segurança;
as organizações a operar no terreno serão a ONU, a Cruz Vermelha e outras congéneres;
um governo temporário de tecnocratas, constituído por palestinos;
a criação de um órgão internacional de transição, denominado Conselho da Paz, infelizmente presidida por Tony Blair, outro criminoso de guerra;
a desmilitarização de Gaza e a retirada do exército israelita;
as condições, com as reformas na Autoridade Palestina, para a criação de um caminho para a autodeterminação e criação do estado da Palestina;
o apoio dos países árabes (Egipto, Jordânia, Arábia Saudita e monarquias do Golfo), dos principais países islâmicos (Turquia, Paquistão e Indonésia, com a compreensível excepção do Irão no contexto actual, mas que não ficou esquecido no texto) e o já anunciado apoio da Rússia.
A maior fragilidade é a de não haver um cronograma estabelecido para a criação do estado e a ausência de referência aos colonatos ilegais na Cisjordânia;
Repito: a maior potência militar do mundo compromete-se com a autodeterminação do povo palestino e força o pm israelita a reconhecer o seu direito a um estado.
Qual é a alternativa?
Gouveia e Melo sobre o que se passa na Europa
A bem dizer, não me espantaram as afirmações por quem é almirante da Marinha, antigo CEFA e candidato à Presidência da República.
A primeira^, é o distanciamento desta retórica belicista, ligeira e estúpida com que se fala no abate de aviões de guerra russos no caso de violação do espaço aéreo, como se não houvesse protocolos e nos céus da Europa se preparassem duelos ao sol, como se de uma grande coboiada se tratasse. Ele é um militar experiente e de topo, e sabe do que está a falar. Prudência na firmeza e sobretudo diplomacia. Já o seu acordo com a possível entrega dos Tomahawk à Ucrânia (operados por quem?), não me parece avisado...
Sábio é o que não disse: parar a guerra, salvando o que pode ser salvo: mas, no fundo, considerando ele que a vitória da Rússia é um problema para a Europa -- deveria ter desenvolvido por que razão a Europa se meteu neste atoleiro --, deve ainda acreditar que há espaço para uma qualquer vitória do Ocidente, Não há nenhuma; e o saltar fora dos Estados Unidos é disso um sinal evidente.
Importante foi o que afirmou sobre a questão atlântica: os nossos interesses vitais estão no Atlântico, Norte e Sul, e não podem ser descurados. Como têm negligentemente sido, acrescento.
segunda-feira, setembro 29, 2025
a flotilha
Só para que fique registado que tenho respeito pela coragem dos que integram a flotilha rumo a Gaza, entre os quais está Mariana Mortágua, que enfrentarão a força de um estado terrorista e genocida -- não me interessa nada que haja intuitos políticos outros. Perante a catástrofe, tal é irrelevante.
Não tenho nenhum respeito pelos defensores das acções do estado israelita, em especial os que querem atirar areia para os olhos, falando no Hamas, e nas imagens filtradas pelo Hamas, e pelos números avançados pelo Hamas e pelo massacre de 7 de Outubro. Zero respeito.
2 versos de António Jacinto
«Fraternidade nas lágrimas / que dos teus olhos mereço»
«Lutchinha», Sobreviver em Tarrafal de Santiago (1985)
domingo, setembro 28, 2025
o que está a acontecer
«I- Quem o diria, Berenice?... Sim, porque quando tu nasceste eu já não era um adolescente: -- já tinha realizado aspirações, sofrido desilusões... / Mário d'Albuquerque calou-se por momentos: -- como se o sufocassem as recordações da sua mocidade já longínqua: -- dessa mocidade que já se perdia num céu de olvido e tristeza.» Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge (1924)
«Permiti-me observar-lhe que estranhava, porque a arte dos que escrevem em "Orpheu" sói ser para poucos. Ele disse-me que talvez fosse dos poucos. De resto, acrescentou, essa arte não lhe trouxera propriamente novidade: e timidamente observou que, não tendo para onde ir nem que fazer, nem amigos que visitasse, nem interesse em ler livros, soía gastar as suas noites, no seu quarto alugado, escrevendo também.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)
« -- Demoro-me pouco... palavra! Cursos de milicianos... Moeda fraca! Para a infantaria, três meses. Se não fecharem os concursos para secretários-gerais, então aproveito. Bem sei que há só três vagas mais de cem bacharéis à boa vida... Mas não tenho medo das provas. Bastam algumas semanas para me preparar a fundo... rever a legislação.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)
sábado, setembro 27, 2025
5 versos de A. M. Pires Cabral
«Um rio refém / das memória de outra geração: / quando era um ímpeto de ira / como um punhal tirado da bainha / ou pedra arremessada contra o vidro.»
«Rio refém», Douro: Pizzicato e Chula, 2004
sexta-feira, setembro 26, 2025
2 versos de Carlos Daniel
«O princípio / Foi uma mancha maravilhosa e branca»
«O tempo», Os Meus Dias (2018)
quinta-feira, setembro 25, 2025
2 versos de Ruy Belo
«esses americanos gente do dinheiro e do veneno / de um veneno talvez chamado dinheiro»
«Requiem por Salvador Allende», Toda a Terra (1976)
quarta-feira, setembro 24, 2025
2 versos de Manuel Bandeira
«Essa dor de sorrir bebendo o ar fino, / A esmorecer e desejando tanto...»
«A António Nobre», A Cinza das Horas (1917)
terça-feira, setembro 23, 2025
ucraniana CDIII - angelismo
Não falo em má-fé -- não conheço a pessoa --, mas achar que o alargamento da Nato ocorreu na base dos bonitos princípios ali enunciados, é não ter noção das pulsões imperiais -- que, em abstracto, tanto assistem americanos, russos, chineses e outros.
A partir deste (pseudo)angelismo, constrói-se uma grelha de análise maniqueísta, entre bons e maus, que os impreparados, os ignorantes e os oportunistas absorvem, servindo-lhes talvez de justificativo para a irracionalidade dos actos dos decisores políticos no sentido de uma escalada insana -- a "fuga para a frente", como bem caracterizou Carlos Branco --, demasiado perigosa se o objectivo for a lavagem ao cérebro das opiniões públicas para que aceitem os gastos previstos com a defesa.
Mas o que ali se lê são as balelas de sempre dos neocons; e o que se defende, sem coragem para o afirmar, é mesmo o confronto directo com a Rússia. Nada disto é novo, andamos há três anos e tal a ouvir as mesmas coisas. No fundo, uma guerra limitada a solo europeu -- santa ingenuidade, ou a desfaçatez dos warmongers -- estrangeirismo que apanhei a Carlos Matos Gomes, cuja cultura e agudeza de análise tanta falta fazem.
O que também impressiona naquela análise de um português é a ausência de Portugal na equação, dos seus interesses permanentes, que, obviamente como tenho aqui escrito sempre, não podem ser antagonistas do nosso grande vizinho atlântico que são os Estados Unidos e muito menos alienar, prejudicar, secundarizar um dos nossos maiores activos estratégicos, a comunidade dos países de língua portuguesa, que é o que nos dá peso relativo, como se viu na recente viagem de Luís Montenegro à China. Ao contrário, Portugal figura ali como uma espécie de Kosovo -- ou seja, não existe.
2 versos de Sebastião Alba
«E oiça-se a restolhada das palavras / quando caminhamos para o poema»
«Parêntesis», A Noite Dividida (1982)
o que está a acontecer
«Um dia qualquer, que nos aproximara talvez a circunstância absurda de coincidir virmos ambos jantar às nove e meia, entrámos em uma conversa casual. A certa altura ele perguntou-me se eu escrevia. Respondi que sim. Falei-lhe da revista "Orpheu", que havia pouco aparecera. Ele elogiou-a, elogiou-a bastante, e eu então pasmei deveras.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)
«Pegávamos nos cocharros, abaixávamo-nos e, fincadas no desembaraço de gente do Monte, atestávamos as quartas com toda a ligeireza, que a arranchada, impacientada pelas sequidões do amanho do alqueive, não nos consentia molezas -- a tal indolência que os cá de cima, com a língua afiada de desdém, afiançam ser jeiteira da gente lá de baixo.» Silvério Manata, A Bicicleta do Ourives Ambulante (2016)
«I- A Serpente Cega / -- Mas não voltas tão cedo... / João Garcia garantiu que sim, que voltava. / Os olhos de Margarida tinham um lume evasivo, de esperança que serve a sua hora. Eram fundos e azuis, debaixo de arcadas fortes. Baixou-os um instante e tornou: / -- Quem sabe...?» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)
segunda-feira, setembro 22, 2025
serviço público - Carlos Branco
«Em permanente fuga para a frente»:
"Aliados com os setores norte-americanos mais belicistas, contra o interesse dos povos que representam, os dirigentes europeus caminham como sonâmbulos para o abismo presos à sua autoilusão, incapazes de perceberem o beco sem saída em que se meteram e para onde nos estão a levar com a obsessão ucraniana. A profundidade do seu envolvimento nesta guerra impede-os de dar uma volta de 180 graus e recuar. Para salvarem a face, preferem fazer uma fuga para a frente, mesmo que isso envolva uma guerra em larga escala. A possibilidade de uma confrontação na Europa aumenta diariamente, deixando agora de ser apenas retórica. Entretanto, políticos e comentadores néscios continuam a achar que a Europa vai conseguir vencer militarmente a maior potência nuclear do mundo no seu território. Livrem-nos desta gente, que dos russos livramo-nos nós."
Néscio: ignorante, inepto, estúpido, diz o Priberam. Acrescentem: vigaristas! E depois arranjem todos os sinónimos que puderem, e ainda ficarão longe de fazer justiça a estes palhaços-pulhas.
ucraniana CDII - se o Peskov desmente a intrusão no espaço aéreo da Estónia, eu acredito, mesmo que esteja a mentir
Verdades, do lado de cá, só por acidente.
1 verso de José Emílio-Nelson
«Contra o boxe, mas porquê? Animal para animal. Duros golpes.»
Humoresca (2002)
domingo, setembro 21, 2025
2 versos de Moreira das Neves
«Dize-o tu se calas o que sentes, / Eu te direi se vales o que dizes...»
«A poesia é silêncio», Mendigo de Deus (1944)
sábado, setembro 20, 2025
o que está a acontecer
«Um caldo parelho a esse mas sem o bacalhau a enricá-lo; açorda singela, já se vê, que os tempos eram outros. Era um migalho de gente, para aí desta altura, mais ou menos. Acudia ao chamamento da mãe, à espera, junto ao poial das bilhas, alcançava a mais tamaninha, à medida dos meus quatro, cinco anitos de gaiata, assentava-ma na cabeça e abalávamos, caminho do pego, até à barroca para onde escorria, pelas frinchas das penedias, a água.» Silvério Manata, A Bicicleta do Ourives Ambulante (2016)
«E não faltam ao mundo cheiros, nem sequer a esta terra, parte que dele é e servida de paisagem. Se no mato morreu animal de pouco, certo que cheirará ao podre do que morto está. Quando calha estar quieto o vento, ninguém dá por nada, mesmo passando perto. Depois os ossos ficam limpos, tanto lhes faz, de chuva lavados, de sol cozidos, e se era pequeno o bicho nem a tal chega porque vieram os vermes e os insectos coveiros e enterraram-no.» José Saramago, Levantado do Chão (1980)
«A sua voz era baça e trémula, como a das criaturas que não esperam nada, porque é perfeitamente inútil esperar. Mas era porventura absurdo dar esse relevo ao meu colega vespertino de restaurante. / Não sei porquê, passámos a cumprimentarmo-nos desde esse dia.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)
sexta-feira, setembro 19, 2025
lacaios
As propostas para alteração das leis laborais fazem corar com vergonha alheia.
Como é possível ser-se tão servil, tão indignamente agente do patronato, mostrar tanto descaso pelas pessoas, pelas suas vidas? Pergunta estúpida. Claro que é possível, a criadagem pela-se por ser útil.
E agora também baixa de impostos para empresas com lucros acima de não sei quantos milhões.
Devo dizer que nada disto me afecta ou atinge pessoalmente, creio; apenas a náusea nauseabunda que atiram para a rua, da janela do Conselho de Ministros; a falta de higiene moral do capitalismo selvagem e de quem o serve.
3 versos de Francisco Bugalho
«Coitada daquela rua! Nunca prende quem lá passa!... / Há uma enorme desgraça / Que ali, silente, flutua:»
«Coimbra», Margens (1931)
quinta-feira, setembro 18, 2025
quarta-feira, setembro 17, 2025
2 versos de Armindo Rodrigues
«Cada desejo é um fim / E cada fim um começo.»
«Cavalgada», Romanceiro (1944)
terça-feira, setembro 16, 2025
segunda-feira, setembro 15, 2025
o que está a acontecer
«Soube incidentalmente, por um criado do restaurante, que era empregado de comércio, numa casa ali perto. / Um dia houve um acontecimento na rua, por baixo das janelas -- uma cena de pugilato entre dois indivíduos. Os que estavam na sobreloja correram às janelas, e eu também, e também o indivíduo de quem falo. Troquei com ele uma frase casual, e ele respondeu no mesmo tom.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (1982)
«Não havia, por esses corgos abaixo, tamanha fartura: arriávamos as quartas. afundávamos os pés no chão barrento e, num instantinho, apanhávamos uma arregaçada para engrossar as sopas d'alho, onde, calhando as pitas terem sido generosas, até o luxo de uns ovos apareciam a boiar na fervura em cima da trempe ao borralho.» Silvério Manata, A Bicicleta do Ourives Ambulante (2016)
«Não faltam cores a esta paisagem. Porém, nem só de cores. Há dias tão duros como o frio deles, outros em que não se sabe de ar para tanto calor; o mundo nunca está contente, se o estará alguma vez, tão certa tem a morte.» José Saramago, Levantado do Chão (1980)
ucraniana CDI - a testa de Paulo Portas
Aqui, ou o exemplo da superficialidade da análise, para ser benévolo.
Sobre as razões profundas de que falam os russos, zero. Para aquela gloriosa cabeça, deve ser tudo uma aldrabice e perfídia do Putin.
"Se Donald Trump deixar a Rússia vencer na Ucrânia, a Rússia não parará na Ucrânia" -- finalizou Portas.
Depende, alvitro. Se a ideia é continuar a provocar, instabilizar, não acaba de certeza. Contudo, não foi a Rússia que se expandiu, não foi ela que fez tábua rasa dos tratados de proliferação de armas estratégicas, não foi ela que começou a interferir nos sistemas políticos do ocidente com a ideia de civilizar ou regenerar sociedades em ruptura.
2 versos de Adolfo Casais Monteiro
«A rua: sem vozes, lisa e brilhante / sob a luz fria da lua.»
«Luar numa rua», Poemas do Tempo Incerto (1934)
domingo, setembro 14, 2025
4 versos de Branquinho da Fonseca
«A rua cheia de luar / Lembrava uma noiva morta / Deitada no chão, à porta / De quem a não soube amar.»
«Naufrágio», Mar Coalhado (1931)
zonas de confronto
Mikhail Bakunin: «Que os homens de Estado e os políticos, aristocratas e burgueses de todos os países se inquietam, temos disso provas nos discursos que pronunciam; não deixam escapar uma só ocasião que seja para exprimir as suas simpatias tão profundas e sobretudo tão sinceras por esta massa tão generosa e tão interessante de trabalhadores, que, depois de ter servido durante todos estes séculos de pedestal passivo e mudo a todas as ambições e a todas as políticas do mundo, se cansou enfim de desempenhar um papel tão pouco lucrativo e tão pouco digno, e anuncia hoje a sua firme vontade de não viver nem trabalhar mais senão para si própria.» «O movimento internacional dos trabalhadores» (1869), O Socialismo Libertário - trad. Nuno Messias «§ Woody Allen: «Gris era genuinamente espanhol e Gertrude Stein costumava dizer que só um verdadeiro espanhol se comportaria como ele; quer dizer, falava espanhol e às vezes ia a Espanha ver a família. Era realmente maravilhoso de ver.» Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura - trad. Jorge Leitão Ramos § Svetlana Alexievich: «Certa vez um miúdo vizinho perguntou-me: "O que fazem as pessoas debaixo da terra? Como é que vivem lá?" Também queríamos decifrar o mistério da guerra. / Foi quando comecei a pensar na morte... E nunca deixei de pensar nela, tornou-se para mim o maior mistério da vida.» A Guerra não Tem Rosto de Mulher (1985) - trad. Galina Mitrakovich § Félix Cucurull: «Eu olhava, abúlico, para o levante. Tu comentaste: "Está muito sereno". Nesse momento dei porque o vento me erguia no ar, como se fosse um balão de S. João. Eu gritava: "Dá-me a mão! Agarra-me!" Andei a esvoaçar pelas montanhas. Fiquei preso aos ramos de uma oliveira.» «Carta de despedida», Antologia do Conto Moderno -- trad. Manuel de Seabra § Michael Gold: «Como criança amedrontada, o pobre corpo já sangrento soluça: / -- Fala! / Em torturada agonia, o cérebro arde-lhe e clama: / -- Fala! / E o sangue latejante segreda-lhe: "A tua mulher está à espera... É só falares...". / E em todo ele um milhão de vozes grita: / -- Fala!... Fala! / ...Mas o preso não quer falar». «Cárcere», Para a Fente América... - trad. Manuel do Nascimento
sábado, setembro 13, 2025
7 versos de Afonso Lopes Vieira
«Vem, ó soldado Português da guerra, / Dormir enfim na tua terra: / E que a tua presença / Espectral, / A tua imensa presença acusadora e aterradora / Para quem te exportou como um animal, / Se estenda sobre o céu de Portugal...»
Ao Soldado Desconhecido (1921)
zonas de conforto
«O vasto céu cobre o eirado e o casebre, mas o céu parece-me diferente, cheio de espaços vazios. Se a gente se demora a olhá-lo e se debruça um pouco mais, cai nesse buraco negro e dourado. Não é possível contemplá-lo muito tempo, porque o céu enche-nos de pensamentos confusos. Mete-se connosco, impõe-nos a sua grandeza e faz-nos sentir a nossa insignificância.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póst., 1931)
«Não conseguira, porém, reprimir a ideia à solta e tivera medo de si próprio, medo dessa flor proibida e fanada que as suas vindas ali iam fazendo reverdecer, medo do sol tímido que sobe pelos muros invernais, musgosos e tristes.» Ferreira de Castro, A Missão (1954)
«Foi no dia seguinte, em novo encontro, que o conheceram. De 40 a 50 anos, o Lambaça, baixo e seco, tinha um rosto sombrio, de um moreno forte, realçado pela barba cerrada, a escova negra do bigode e uns olhitos pretos e observadores. Pelo seu trajo, um fato preto enrugado e acanhado e um chapéu igualmente preto enterrado sobre as sobrancelhas, dir-se-ia um pequeno lavrador endomingado.» Manuel Tiago, Cinco Dias, Cinco Noites (1975)
sexta-feira, setembro 12, 2025
o que está a acontecer
«Passei a vê-lo melhor. Verifiquei que um certo ar de inteligência animava de certo modo incerto as suas feições. Mas o abatimento, a estagnação da angústia fria, cobria tão regularmente o seu aspecto que era difícil descortinar outro traço além desse.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)
«Mas isso depende do que no chão se plantou e cultiva, ou ainda não, ou não já, ou do que por simples natureza nasceu, sem mão de gente, e só vem a morrer porque chegou o seu último fim. Não é tal o caso do trigo, que ainda com alguma vida é cortado. Nem do sobreiro, que vivíssimo, embora por sua gravidade o não pareça, se lhe arranca a pele. Aos gritos.» José Saramago, Levantado do Chão (1980)
«Gente do monte - Colhíamo-las ao rés da vereda que sobe do Barranco do Campaniço, do lado em que entesta com a chapada, já ao endireito do Monte. Logo ali, onde uns palmos de atasqueiro conservam a fresquidão e se tapam de beldroegas pela primavera.» Silvério Manata, A Bicicleta do Ourives Ambulante (2016)
ucraniana CD - "para Oeste", ou o humor de Vladimir Putin
Parece que é a tradução de "Zapad" (2025)...
Bons tempos em que Putin tratava os países do Ocidente por parceiros ou amigos. Quando as luminárias do costume nos Estados Unidos (ler sempre O Americano Tranquilo, do Graham Greene) resolveram impor uma "derrota estratégica" à Rússia, usando a Ucrânia, como antes fora ensaiado com outros vizinhos, e a que os geniais estadistas europeus, com seus bobos da corte, aderiram sem reservas, ficámos nesta situação caricata de ouvir os latidos de quem não tem dentes para morder.
Apesar de tudo isto não ter graça nenhuma, Putin não é desprovido de humor, mesmo que negro.
1 verso de António Botto
«Variam os mundos -- / E a maldade humana mantém o seu posto.»
A Vida que Te Dei (1938)
quinta-feira, setembro 11, 2025
ucraniana CCCXCIX - os drones na Polónia, a minha falta de paciência
Alguém sabe o que se passou? Eu ainda não, mas atendendo ao cadastro dos envolvidos, não me admiraria se houvesse aqui as manigâncias do costume. Aliás, fica já escrito que tenho mais facilidade em acreditar nos russos do que na presidente do conselho europeu ou na s-g da nato. Aliás, aquele estafermo anunciou ontem em Estrasburgo "a Europa está em guerra e terá de o dizer aos europeus"
O Zelensky está, grão a grão, a conseguir o que quer, a envolver os europeus, já que não consegue envolver os americanos. Europeus, que se estão a habilitar.
O Rangel convoca o embaixador russo para pedir "explicações"... A falta de sentido do ridículo foi sempre apanágio da figura.
Seguro ontem esteve bem, muito melhor do que Gouveia e Melo -- a não ser que o almirante saiba algo que o povo ignaro não sabe... E as reacções de Nuno Melo foram melhores do que eu esperava, ou seja, sensatas.
Portugal, por todas as razões, da decência aos interesses próprios, deve lidar com esta cáfila com o maior cuidado. Para carnificina, já nos chegou aquela a que os patetas dos republicanos (com excepções) nos conduziram e a que o colonialismo salazarista infligiu aos daquém e dalém mar...
3 versos de Florbela Espanca
«Trata por tu a mais longínqua estrela, / Escava com as mãos a própria cova / E depois, a sorrir, deita-te nela!»
«A uma rapariga», Charneca em Flor (póst., 1930)
quarta-feira, setembro 10, 2025
4 versos de João Saraiva
«"Sou alta" -- diz a Amizade. / "Sou profundo" -- diz o Amor. / E lembram bem, na verdade, / Montanha e vale , ao sol-pôr.»
«A montanha e o vale», Sol-Posto (1943)
o que está a acontecer
«Um, por exemplo, tinha certo modo de cortar no ar (cerrando depois o punho sobre a mesa) que revelava todo o seu gosto de pôr, dispor, e possuir. Estas particularidades ferem-me sempre em certos momentos sonambúlicos. Incapaz de apanhar então o panorama ou a síntese das coisas, a minha atenção esfarrapada choca-se com detalhes inúteis. Só a minha memória, trabalhando depois sobre eles, pede à minha imaginação que lhes dê sentido.» José Régio, Jogo da Cabra Cega (1934)
«O que mais há na terra, é paisagem. Por muito que do resto lhe falte, a paisagem sempre sobrou, abundância que só por milagre infatigável se explica, porquanto a paisagem é sem dúvida anterior ao homem, e, apesar disso, de tanto existir, não se acabou ainda. Será porque constantemente muda: tem épocas no ano em que o chão é verde, outras amarelo, e depois castanho, ou negro. E também vermelho, em lugares, que é cor de barro ou sangue sangrado.» José Saramago, Levantado do Chão (1980)
«Assim, afrontando o claro sol e gárrulo estridor das aves, a ceifeira incorruptível veio surpreender, no dobrar dos sessenta, aquele homem rígido cujo coração era um compêndio de expressões imperativas, e onde, com a idade, começavam a pungir alguns flácidos rebentos de amor.» José Dias Sancho, Bezerros de Ouro (póst., 1930)
terça-feira, setembro 09, 2025
1 verso de Queirós Ribeiro
«Se a vossa luz me afasta, o vosso abismo atrai-me!»
«Aspirações», Cinzas (1896)
segunda-feira, setembro 08, 2025
3 versos de Anrique Paço d'Arcos
«Reluz num cerro a alvura duma ermida / Velhinha abandonada ao esquecimento, / Batida pela chuva e pelo vento...»
«Crepúsculo montanhês», Divina Tristeza (1925)
domingo, setembro 07, 2025
parece que na Austrália é dia do pai...
e a minha filha Teresinha (filho n.º 3), que está lá para baixo, enviou-me um cartão em que gaba as minhas muitas qualidades... Estou vaidoso.
sábado, setembro 06, 2025
o que está a acontecer
«Jamais! Jamais! É lei da natureza que tudo se transforma, que as pessoas e as coisas se modificam, e mudam, e se apagam, como riscos de giz num quadro de ardósia: as estrelas e as flores, as águias orgulhosas e os rasteiros vermes, os soldados obscuros -- e os emplumados e gloriosos generais.» José Dias Sancho, Bezerros de Ouro (póst., 1930)
«Há aqui ódios que minam e contraminam, mas como o tempo chega para tudo, cada ano minam um palmo. A paciência é infinita e mete espigões pela terra dentro: adquiriu a cor da pedra e todos os dias cresce uma polegada.» Raul Brandão, Húmus (1917)
«E ao lado estavam dois homens gordos, conversando com gestos que pareciam mais curtos pela altura do ventre e a largura dos ombros. Mas à força de cupidez, sinceridade ingénua, e teimosia em mùtuamente se lograrem, -- os seus gestos eram pitorescos e fortes.» José Régio, Jogo da Cabra Cega (1934)
ucraniana CCCXCVIII - 26 países dispostos a "ajudar" a Ucrânia, mas é segredo -- salta fora, Montenegro!
Eu só espero que Putin continue a manter o sangue frio diante destes bandalhos, liderados (forte liderança...) pelo eunuco moribundo Macron.
Por falar em eunucos, o que está a fazer na pseudo-coligação o s-g da Nato, aliança alegadamente defensiva?...
Luís Montenegro disse na AR que Portugal estaria disposto a estar presente numa missão, sob o mandato das Nações Unidas. Estarei aqui para elogiar a coerência e honestidade política do p-m, até porque não há outra possibilidade de conduzir uma acção legítima neste assunto.
4 versos de Alberto de Serpa
«Ouço-a, / Os olhos fechados, a cabeça entre as mãos... // Ponho nela a minha vida, / E não há mais simples nem mais bela música...»
«Música», Descrição (1934)
sexta-feira, setembro 05, 2025
ucraniana CCCXCVII - o superno Gaspar dá-nos a solução para a guerra e torna-se sério candidato ao Nobel da Paz, ameaçando o sonho Trump
Carlos Gaspar, o académico que parturejou uma série de especialistas em relações internacionais e adjacências, grande parte deles a iluminar desde há três anos e meio um ecrã perto de si, e também guru de editores de meia tijela da área internacional, deu ontem, aos microfones da TSF, numa intervenção em que só apanhei a parte final, a sua (e não apenas) receita para acabar com a guerra, e é esta:
os países europeus juntam-se (quantos?, quais?, sob que comando?), projectam as suas forças na Ucrânia, assim à Lagardere, e pronto. A que o gaguejante jornoeditor retruque: -- Mas assim vão entrar em guerra com a Rússia... Impassível, egrégio, definitivo e catedrático, remata Gaspar: os países europeus avançam para a Ucrânia e a Rússia pára a guerra.
E porquê?, pergunto-me ao volante. Gaspar não disse mais, e eu fico a supor que a Rússia terá medo de uma força constituída, digamos, por franceses, britânicos (os italianos e os polacos já disseram que não entram, sequer após um acordo), mais uns bálticos e uns escandinavos e quiçá 3 soldados da GNR 3, e a Rússia.
Eu cá, se fosse Putin, agora que o crude estabilizou, e além do mais parece que é desta que os europeus vão deixar de comprar matérias-primas à Rússia, directa ou, em manigância pulha, disfarçadamente à Índia -- se fosse Putin dava não só corda aos sapatos, como encomendaria uns milhares de pares de botas no extremo-oriente e um valente suprimento de máquinas de lavar.
O Nobel da Paz para Gaspar.
O Elevador da Glória
O pudor em face da tragédia e da minha impreparação técnica e o desinteresse pela luta partidária, impedem-me de dizer para já o que quer que seja sobre este acidente. No entanto há considerações válidas, cujo o acerto os inquéritos em curso tratarão de demonstrar, e outras inenarráveis. Porque, neste e noutros casos, só há uma verdade: o Estado falha sempre quando renuncia ao seu papel. O chamado outsourcing é um expediente com funções várias: encobrir impotência, desleixo e incompetência organizacional -- basta isto, nem é preciso recorrer a expedientes fáceis como os de eventual corrupção e favorecimento de interesses particulares.
3 versos de António Correia de Oliveira
«Ondas mortas! e, sobre elas, / Espectros de caravelas, / Sombra de lenda infinita.»
«O cativeiro», Na Hora Incerta ou A Nossa Pátria - VIII. Os Sinos do Cativeiro (1927)
quinta-feira, setembro 04, 2025
3 versos de Américo Durão
«Olhos verdes a que chamo / Dois rouxinóis do desejo / Cantando ao desafio...»
Tômbola (1942)
zonas de conforto
«Viu-o passar aquele meu vizinho que foi buscar um mendigo ao Porto para repartir com ele o caldo e o pão, e deu-lhe de comer à lareira, deixando-o ir embora com indiferença. /-- É um probe que põe medo... / Fujo do velho casarão abandonado e vou para a lareira do Fortunato.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póst., 1931)
«Um vago e adocicado cheiro a óleo colava-se ao ar. De novo se ouviu, súbito e insólito, agora mais distante, o chocar dos vagões em manobras. / Adiante pararam. Voltados um para o outro, Lambaça e André procuravam adivinhar com que tipo de homem tinham de se haver. No escuro nada viam, porém.» Manuel Tiago, Cinco Dias, Cinco Noites (1975)
«Havia um sabor no ar. Um ímpeto secava a garganta. Ele tentara pensar na razão das suas visitas, pensar no homem que estava doente para além da porta que se abria ao lado do banco e que uma trepadeira popular engrinaldava.» Ferreira de Castro, A Missão (1954)
quarta-feira, setembro 03, 2025
terça-feira, setembro 02, 2025
o que está a acontecer
«Uma manhã de Agosto, azul e soalheira, morreu na frondosa Quinta da Roca esse homem birrento e astuto cuja voz abalava os ecos! / Jamais os servos, constrangidos, entenderiam, como um clamor de combate, a ordem imperativa de que se servia para os pedidos mais triviais, por exemplo, aquele formidável berro com que era de uso mandar vir -- um copo de água...» José Dias Sancho, Bezerros de Ouro (póst., 1930)
«Principiara, parece, uma chuva invisível e contínua... Eu sentia-me tão frouxo que entrei no primeiro café cuja mancha luminosa esparrinhava nas pedras molhadas. Fui contra um criado que andava de cá para lá.» José Régio, Jogo da Cabra Cega (1934)
«As paixões dormem, o riso postiço criou cama, as mãos habituaram-se a fazer todos os dias os mesmos gestos. A mesma teia pegajosa envolve e neutraliza, e só um ruído sobreleva, o da morte que tem diante de si o tempo ilimitado para roer.» Raul Brandão, Húmus (1917)
serviço público: não se deixem levar por bonitas palavras vazias, para enganar lorpas
Eu, que não sou especialista em Defesa, até concordo, na generalidade, com os pressupostos aduzidos por Ana Miguel dos Santos neste artigo. Não estou eu farto de falar do desperdício do nosso soft power?, das exigências iniludíveis da nossa situação geográfica e geopolítica?, da necessidade de reavaliar o nosso conceito estratégico nacional?...
O problema deste artigo e outros que saíram e sairão é que fazem tábua rasa da situação em concreto -- ou seja, a forma como a Rússia -- superpotência militar e científica, grande potência económica, como se está a ver, e um dos padrões da cultura europeia e ocidental -- se vê ameaçada pela predação e pelas subculturas que se tornaram bandeiras ideológicas do Ocidente, e, obviamente quer ignorar o papel dos Estados Unidos na crise por eles criada, obviamente derrotados, como percebeu Trump.
Isto é: a Europa comprou o confronto entre os Estados Unidos e a Rússia, por fraqueza e ausência de estratégia própria que não fosse a dependência dos americanos; e agora que a América quer sair, esmifrando aliás a UE, esta, patética, sem força nem orientação para além dos robertos que lhe dão a cara, quer assumir toda a despesa -- não estando nós, europeus, livres de sermos arrastados para uma guerra em largas dimensões, em virtude de provocações que ocorram no Báltico ou alhures.
Perante isto, que nos dizem as bonitas palavras de Ana Miguel dos Santos? Que Portugal, estado com todos aqueles atributos, divergindo do seu vizinho e aliado na Nato -- que por acaso é a maior superpotência mundial --, e divergindo ainda dos seus países irmãos, como gostamos de dizer, os da CPLP, deve continuar a alinhar com a acefalia da UE, e vá de ir até aos 2% e a seguir saltar para os 5% do pib em gastos militares (ditados por terceiros) e como se tal fosse possível.
Este tipo de argumentação, que passaremos a ouvir insistentemente, nem sequer precisa que lhe aduzamos os graves problemas sociais, económicos e políticos dela decorrentes. Militar e políticamente será um desastre para a Europa e para nós por arrasto. Ou crê a articulista que a Rússia se resignará a largar a sua Ucrânia ao Ocidente?... Mas por esta andar, nem será preciso nenhuma guerra com a Rússia para rebentar com a UE -- ela prórpia, com a ajuda dos Estados Unidos disso se encarregarão.
"Coragem estratégica" é saber ler os interesses permanentes da nação portuguesa e as linhas de força que fizeram de Portugal um estado de nove séculos e que pode resumir-se nisto, pelo menos desde D. Dinis: primeiro o Atlântico, e só depois a Europa. O que Portugal tem demonstrado na guerra da Ucrânia como noutros assuntos, para além de desorientação e desleixo, tem sido, ao contrário, cobardia estratégica -- e dela dificilmente sairemos quando os dirigentes são isto.
2 versos de João de Barros
«Ó Sol quente de Julho, ó Sol das romarias / Queimando e endoidecendo as multidões sadias;»
«Alegria», Terra Florida (1909)




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