«Das maiores. -- Sonho premente desde a infância, não conseguira mais que arremedá-lo de cambulhada e, entre outros, com monas de trapos: uma saia velha, um atilho, apertado com força, a formar a cabeça, outro, a meio, a traçar a cintura» Assis Esperança, Servidão (1946)
«Pouco a pouco, entre ele e a paisagem foram-se interpondo novas visões: o baú de folha fechando-se sobre camisas e ceroulas; um comboio, rapa-terra, rapa-terra, até Lisboa; depois, o navio e o mar -- e o mar... Vinha, em seguida, uma nebulosa, "o não se sabe quê" -- "quem tem boca vai a Roma" e "um homem que trabalha nunca morre de fome"...» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)
«Nas estações, quase todas isoladas na serra, as cargas e descargas faziam-se lentamente, mas em grande alvoroço, os carregadores a gritar e a correr numa pressa de teatro, temerosos de que o chefe os repreendesse ou o senhor maquinista se irritasse por ter de esperar.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
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«Manuel Severim de Faria, em 1624, e Faria e Sousa, em 1639, no propósito assente de erguer a figura do poeta, imaginaram-no a estudar artes em Coimbra pelo mesmo processo de enaltecimento com que o graduaram fidalgo de primeira nobreza. Como Bento Camões, na qualidade de prior de Santa Cruz, fosse o primeiro cancelário da Universidade, vá de pô-lo à sua sombra e tutela, inclusive de desencantar um soneto e elegia que lhe seriam dedicados: «A ti, senhor, a quem as sacras musas / Nutrem e cibam de poção divina, / Não as da fonte Délia Cabalina / Que são Medeias, Circes e Medusas...»
Podiam dirigir-se estes versos a Bento de Camões, que não consta fosse poeta, ainda que aqui se trate dum poeta místico ou divino? O soneto é, além de muito mau, arrebicado, como não menos o é a elegia, para ser duma criança. Ao tempo, Camões teria treze anos. É incompatível com o espírito adolescente o tom de parénese que se filtra, por exemplo, destes versos: «Pois olha, pecador, que vás nadando / Nas procelosas ondas deste mundo, / Nos mistérios divinos contemplando...»Através destas estrofes atormentadas e solavancantes, em vez dum mocinho, que é mais razoável supor rendido aos móbeis risonhos da vida, vislumbra-se o asceta, que já encaixou o que basta de gozo, e de olhos encovados espreita para dentro de si e no vago a querer penetrar a escuridão do além.»
Aquilino Ribeiro, "Luís de Camões - Fabuloso*Verdadeiro". Ensaio (1950)
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