«Tira as mãos detrás das costas e coloca-as nas fundas algibeiras das calças de cotim. Finca os pés no chão de cimento e dá um suspiro tão grande, tão fundo, que todo o seu corpo oscila.» Antunes da Silva, Suão (1960)
«Desenrolo-me como uma meada multicolor, ou faço comigo figuras de cordel, como as que se tecem nas mãos espetadas e se passam de umas crianças para as outras. Cuido só de que o polegar não falhe o laço que lhe compete. Depois viro a mão e a imagem fica diferente. E recomeço.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)
«Chegará. Hei-de distingui-lo no horizonte. Tão bem quanto sei isto agora, sabia-o ontem quando entrei na venda do judas e pedi o primeiro copo e pedi o segundo e pedi o terceiro. Mais, sabia que por toda a planície se calarão as cigarras e os grilos. De encontro ao céu, as oliveiras e os sobreiros hão-de parar os ramos mais finos; num momento hão-de tornar-se pedra.» José Luís Peixoto, Nenhum Olhar (2000)
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1 comentário:
«Já tivemos também ocasião de dizer que a estirpe dos Camões, por aquela época, era vasta e difusa. Famílias com este patronímico habitavam, ao que parece, Coimbra, Lisboa, Avis, Crato, Alter Pedroso, Alter do Chão, Castelo de Vide, Cabeço de Vide, Sardoal, Estremoz, Alenquer, Chão do Couce, Mação, Amêndoa, Belver, Santarém, Évora, Ribeira do Sor, etc., etc. Para entroncarem todas em Vasco Perez de Camões, quatro vidas acima, haverá que pressupor um patriarcado, émulo de Abraão na prolificidade. Este Fr. Bento foi uma das estrelas alfa da nebulosa, mas que só por mera presunção se trouxe para o zodíaco do poeta. Os dois colégios, colocados sob a égide de Santa Cruz, de que chegou a ser reitor, não se adaptam de resto à condição que se nos afigura liminar em Luís de Camões. A ele, como primogénito fidalgo, não cabia seguir a carreira das letras, mas, sim, a das armas. A estopada das humanidades, com o latinório e a gramática, afugentava os moços de prol, que tinham por mais bonito e agradável consagrar-se à arte da gentil-homeria, como fosse montar a cavalo, jogar as armas, aprender os ardis da caça, dançar e versejar na medida velha por ser ainda prenda de sala. O resto era panorama. Ficava a sabença para os filhos segundos e bastardos, destinados desde o berço à cleresia, aquela em que a fecunda e lauta Igreja lusitana ia recrutar seus príncipes e prelados. Ora a estes estava reservado o Colégio de S. Miguel de Coimbra. Só lá entravam de barão para cima. Tiveram cela neste internato D. António, prior do Crato, D. Teodósio e D. Fulgêncio, rebentos segundos da Casa de Bragança, um que foi arcebispo de Évora e outro Dom Prior de Guimarães, e D. Gonçalo da Silveira, da Casa de Sortelha, que reuniam as condições supracitadas. O Colégio de Todos-os-Santos recebia, segundo a letra dos estatutos, os filhos dos fidalgos pobres e da alta burguesia, destinados à carreira eclesiástica, exclusivamente. Ora, Luís de Camões não correspondia aos requisitos exigidos para a admissão.»
Aquilino Ribeiro, "Luís de Camões - Fabuloso*Verdadeiro". Ensaio (1950)
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