domingo, setembro 25, 2022

sábado, setembro 24, 2022

recordando as premissas básicas desta guerra, ou da honestidade intelectual (ucranianas CXXVIII)

 Primeira premissa: o conflito no Donbass, que opõe russos e ucranianos, e tudo o que decorreu desde 2014, ou seja, uma guerra que leva oito anos e que a diplomacia própria (Rússia-Ucrânia) e alargada não resolveu.

Segunda premissa: a interferência insolente norte-americana no coração russo -- Kiev (por alguma razão tem sido poupada) --, o culminar de um cadastro de alargamento da Nato às fronteiras da Rússia, que só os inocentes não vêem (desconto os aldrabões de serviço).

Conclusão: a não ser que a estratégia americana saia vitoriosa -- a corrosão do poder na Rússia, com o afastamento de Vladimir Putin --, a Ucrânia como a conhecemos já foi.

Vale isto uma guerra? Para nós, confortavelmente sentados à beira da Finisterra, cm uma história de 900 anos em que só queremos que nos deixem em paz, nem percebemos bem o porquê. Mas falamos com a barriga cheia de estado-nação; só tivemos disso vislumbre quando os povos por nós colonizados decidiram achar que já chegava. Para os outros, a começar já aqui ao lado na Catalunha, no País Basco ou até na Galiza, da Flandres à Escócia, da Bretanha ao Donbass, vale o que tiver de valer.

A História é como as dívidas dos países; não se resolve, gere-se, já dizia Sócrates, José.

«Don't Panic»

sexta-feira, setembro 23, 2022

a revolta das mulheres (e dos homens), carros da polícia a arder, imagens tão belas, só falta incendiar os aiatolas, se Deus quiser

Direito Internacional , é claro, mas só para alguns (ucranianas CXXVII)

 Um código civilizacional muito útil para manter a paz entre os estados que a ele se sentem ou são obrigados. Inútil quando se trate de Estados Unidos, China ou Rússia, ou países bem respaldados pelas grandes potências, v.g. Israel Os exemplos estão aí à mão, não me fatigo a escrevê-los outra vez.

Dito isto, é óbvio que os referendos são uma farsa, coisa que não sucedeu na Crimeia. Mas então o Ocidente alargado não quis saber. É agora a vez de os russos também não quererem saber. Pessoalmente, acho muito bem que os russos do Donbass e outras regiões vejam acolhida a pretensão de se juntarem à sua pátria. É a vida -- e além disso, não suporto hipócritas.

200 anos da Constituição - "A soberania reside essencialmente em a Nação"

Domingos Sequeira, Alegoria à Constituição de 1822

 

marginália

 

Anátema (1851), o primeiro romance de Camilo, meia dúzia de anos depois da estreia, em verso, com o bonito título Os Pundonores Desagravados...

Diz a contracapa da minha edição que o Camilo do futuro já lá está, e é verdade. O Camilo sarcástico, corrécio, inconveniente e iconoclasta; o escritor a metro, mas um metro abençoado, pois havia que fazer render o peixe do folhetim, diz-me o Alexandre Cabral. naquele invejável Dicionário, que publicado em 2-jornais-2, em Lisboa e no Porto --, o estilista límpido e poderoso. 

Completava vinte e seis anos, e os grandes eram então Garrett, Herculano e Castilho, aparecendo dizendo estar-se nas tintas para o romantismo e respectivos ideais revolucionários, que desprezava. «Escola militante» e «sociedade aspiradora», são duas expressões que dão ideia do vezo polémico deste grande reaccionário, que foi temível e destrutivo, quando queria. E em tom de desafio encerra a apresentação do livro: 

«O escritor destas coisas ainda não abriu matrícula, nem pede que o inscrevam ainda à custa de uma boa reputação de folhetinista. Se a escola, em nome do século, do futuro e da humanidade, o interrogar pela substância útil deste apontoado de palavras, o autor não lhe dá resposta alguma. / Dito isto, começa-se.»

É impossível não adorar este desavergonhado de génio.

quinta-feira, setembro 22, 2022

«A Bala»

a arte de começar

 «Este começa por onde acabam os outros.»

Camilo Castelo Branco (1825-1890), Anátema (1851)

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 «Em todo os estados e em toda a condição social o homem bem educado é um homem superior. O homem sem educação, por mais alto que o coloquem, fica sempre um subalterno.»

Ramalho Ortigão, As Farpas  II - As Epístolas

«O Novo Normal»

quarta-feira, setembro 21, 2022

duas notas breves sobre a alocução de Putin (ucranianas CXXVI)

1. Só ouvi excertos e cometários na rádio. Descontada a retórica anti-nazi (embora os neofascistas tenham na Ucrânia e noutros países um poder e influência tenebrosos), Putin tem toda a razão no que respeita às manobras dos americanos e respectivos cães-de-fila.

2. Não que as dificuldades militares não existam e não tenham surpreendido os russos, a têmpera guerreira ucraniana e o auxílio decisivo do ocidente alargado em armas e informações. Mas custe mais ou menos, leve mais ou menos tempo, não vejo grandes hipóteses para a Ucrânia, a não ser que as estruturas políticas ruam por dentro, a partir do Kremlin, no que seria uma vitória retumbante dos Estados Unidos, demonstrando o acerto da sua estratégia.

Não é isso que penso, com os dados que tenho, que são os de toda a gente: a Rússia vai abocanhar parte da Ucrânia -- veremos o quanto --, não haverá Ucrânia nenhuma na Nato, embora agora tenham a Finlândia à porta. muito bem enrolada. A rússia terá sempre uma vitória amarga; os americanos irão dar combate até os ucranianos ficarem exangues. Uma tragédia sem inocentes e com uns mais culpados que outros -- mas não são os russos.

Esta Noite Improvisa-se (no TEC)


 

terça-feira, setembro 20, 2022

«I Hear You Paint Houses»

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 «A arte não avança, move-se.» 

José Saramago, Cadernos de Lanzarote I (1993)

segunda-feira, setembro 19, 2022

«Drive»

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 «Metade daquilo que valemos, moralmente e intelectualmente, devemo-la aos contactos e às sugestões dos indivíduos que nos têm rodeado através da existência.»

Ramalho Ortigão (1836-1915), As Farpas (1887-1890), vol. II 

domingo, setembro 18, 2022

continuem a fazer de nós parvos (ucranianas CXXV)

 Crimes de guerra. Já disse aqui o que penso sobre o assunto. Sobre os alegados de Izium, noto que o que foi assinalado como "vala comum " de mais de quatrocentos corpos com crucifixos, são na verdade valas comuns. Com crucifixos? A sério: os soldados russos iriam matar, abrir campas e ainda por cima colocar-lhes cristãmente uma cruz? Tomem-nos por parvos, mas não todos. A vala comum que parece realmente existir, com soldados ucranianos, essa sim é mais consentânea com as circunstâncias, ou seja: o inimigo tem de dar destino aos cadáveres, não od deixando apodrecer a céu aberto ou comidos por animais. Aí, sim, a ocorrência de vala comum faz todo o sentido. As centrais de propaganda a fazerem o seu trabalho, sabendo que a maioria não pensa, a começar pelos pobres pivôs de televisão, que teriam obrigação de o fazer. Quanto a tortura, salas da dita e parafernália digna da Inquisição, não faço a mínima ideia. Quando uma entidade credível como a Amnistia Internacional se pronunciar será outra coisa. Para já estas pseudonotícias valem zero. E mais uma vez, a rapidez orquestrada da difusão, como de costume, com ingleses e americanos, além dos checos tão lestos a pedir a constituição de um tribunal internacional, cheira mal, como eles.

O chorão do Pentágono. Foi um dos que apareceu a denunciar os crimes de guerra. Desta vez não verteu uma sentida lágrima. Testemunhar um tipo do Pentágono a chorar pelas vítimas da guerra é tão grotesco e atroz como ver um padre pedófilo no meio das criancinhas, abjecta canalha.

Democracia plena. A Hungria sancionada pelo Parlamento Europeu, presidido pela doida maltesa; a Polónia deixada em sossego. Por que será? Não andam fatigados de serem tomados por parvos?

«Dounia Tabolo»

sábado, setembro 17, 2022

pedir desculpa, patriotismo e individualismo distorcidos

 Wiriyamu foi ontem, A Guerra Colonial, um crime contra os povos africanos e português -- este também grande vítima de uma cupidez embrulhada num oitocentismo serôdio, insensato e, meço bem a palavra, criminoso. Ora acontece que o massacre perpetrado ontem em Wiriyamu o foi às ordens do mesmo estado e governo do país que hoje é representado por António Costa, que esteve, por isso muito bem. Eu, que nunca fui soarista, considero que um dos mais belos gestos da presidência de Mário Soares foi o pedido de desculpa aos judeus pelas perseguições sofridas no país entre os séculos XV e XVIII (e que tanto prejudicaram Portugal). O país saiu então engrandecido, e eu senti-me orgulhoso com essa contrição. 

O pseudonacionalismo oportunista e politiqueiro logo se manifestou pra arrebanhar simpatias de taberna, com este triste episódio em Moçambique, Não se mencione mais o lixo. Mas também não percebo quantos, como Pacheco Pereira, justificando terem sempre sido opositores ao colonialismo e à guerra, criticam o gesto mais do que justo e necessário do actual Primeiro-Ministro, que obviamente não o fez enquanto António Costa, nem precisava.

sexta-feira, setembro 16, 2022

quinta-feira, setembro 15, 2022

Mortimer encontra o Joker

 

O pastiche e a paródia, sobretudo em forma de homenagem, é uma prática comum em BD. Talvez o melhor exemplo seja a brincadeira de Uderzo e Goscinny com o pirata Barba Ruiva e tripulação, que vogavam nas páginas da revista Pilote, onde Jean-Michel Charlier e Victor Hubinon faziam publicar as aventuras do bucaneiro do 'Gavião Negro', as mesmas folhas que davam guarida a Astérix. E tão bem sucedida foi a graça, que os piratas recorrentemente postos a pique nos álbuns do pequeno gaulês se tornaram mais conhecidos que as personagens originais... A paródia pode mesmo constituir-se como subgénero: na revista Mad tem aí um dos seus pratos fortes; no mundo franco-belga, está nas bancas, inclusive em edição portuguesa, a bem sucedida charge a Blake e Mortimer, As Aventuras de Philip e Francis, de Nicolas Barral e Pierre Veys.

O pequeno volume da colecção «Quadradinho» #16, da autoria de Miguel Abrantes (Lisboa, 1960) e Miguel Rocha (Lisboa, 1968) é um despretensioso exemplo destas recriações. Título e capa remetem de imediato para as personagens de E. P. Jacobs: o primeiro é um divertido achado, combinando O Enigma da Atlântida  e A Armadilha Diabólica; o protagonista inominado, com barba passa-piolho, lembra o Prof. Mortimer, enquanto que o vilão não é o Coronel Olrik, mas um certo Conde Moloch, com acentuados traços do insano Joker, deslocado de Gotham para o lugar de Orelhos, onde se situa o solar lúgubre em que decorre a acção; em perigo e a pedir salvação, uma frágil jovem parecida com Adèle Blanc-Sec.  Melhores os desenhos que o texto, mas o conjunto funciona.  
O Enigma Diabólico (Associação Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto, 1998)

(2019)





«As Sylvie Was Walking»

quarta-feira, setembro 14, 2022

caracteres móveis

  «Não sou clássico nem sou romântico; de mim digo que não tenho seita nem partido em poesia (assim como em coisa nenhuma); e por isso me deixo ir por onde me levam minhas ideias, boas ou más, e nem procuro converter as dos outros; isso é para literatos de outra polpa, amigos de disputas e questões que eu aborreço.» 

Almeida Garrett (1799-1854), Camões, nota à 1.ª ed., 1825

terça-feira, setembro 13, 2022

«The Mysterious Vanishing of Electra»

uma guerra stalinista, segundo um general da nato (ucranianas CXXIV)

 O major-general Isidro Morais Pereira, comentador da guerra, apresentado como ex-representante de Portugal na Nato, não tem, neste particular, deixado os seus créditos por mãos alheias. No outro dia, compungido com a destruição provocada pela guerra, disse que os russos levam a cabo uma "guerra stalinista" na Ucrânia, pelo volume de destruição infligido. Dando de barato ao major-general a bestialidade da guerra, e recordando que as malfeitorias infligidas pelo Zé Estaline aos alemães na II Guerra foram para baixo de um décimo da que foi exercida por Hitler a todos os povos da União Soviética (russos e ucranianos à cabeça), o lamento do general suscita-me duas observações: a primeira prende-se com a orografia do território, insusceptível de confronto em campo aberto, em especial quando a desproporção de meios é grande, sendo, portanto, nas cidades e ao seu redor que as refregas acontecem; em segundo lugar, esqueceu-se de que a defesa ucraniana colocou o arsenal bélico dentro, em cima e em torno dos edifícios, ocasionando aquelas imagens de civis usados como escudos humanos, que a insuspeita Amnistia Internacional denunciou, para raiva dos propagandistas do "Ocidente alargado" -- uma maneira de os comentadeiros se referirem aos Estados Unidos sem lhe dizerem o nome.

Acho também extremamente cómico este general Nato, intelectualmente propulsionado pelos nossos (deles) valores, que, como sabemos, são muito democráticos, e até liberais... Nem é preciso recordar a liberalidade com que despejaram napalm no Vietname, faz meio século; ainda há pouco levaram a democracy (os nossos, deles, valores) aos iraquianos chacinados.

Podemos chamar muitos nomes ao Putin (eu, nem por isso, até ver): que tem um nacionalismo distorcido, que é ditador ou mesmo um mauzão (esquecendo-nos que ele salvou a Rússia da debâcle e está a prevenir hoje voltar ao caos dos tempos de Ieltsin -- mas isso é outra história, certamente contestável e com sombras várias). O que não se pode dizer do Putin é que ele invadiu a Ucrânia para rapinar as riquezas do país, como os democráticos e liberais americanos fizeram no Iraque.  Esses arautos do "Mundo Livre" -- criminosos de guerra -- ainda mexem e têm nome, sendo Biden, volto a lembrar, com o seu voto favorável à invasão, no mínimo cúmplice e co-responsável moral pela miséria de que foram agentes, o crime mais hediondo de que fomos testemunhas. 

A Guerra da Ucrânia, perversa, como todas as guerras, não tem mais nem menos valor do que a guerra no Tigré (em África) ou no Iémen (na Ásia), que estão aí a decorrer na indiferença de todos.  O resto é conversa fiada é para tolinhos.

segunda-feira, setembro 12, 2022

»The Gift»

aconselho um pouco de calma (ucranianas CXXIII)

 Nota prévia: sou ignorante em muitas matérias, uma das quais a que concerne à táctica militar. A opinião que se segue estriba-se no que ouvi entre sábado à noite e hoje de manhã a três militares -- Mendes Dias, Arnaut Moreira e Isidro Morais Pereira --, todos partidários de uma derrota russa, embora, quanto a mim, apenas o primeiro se mostrasse objectivo e isento.

A contra-ofensiva ucraniana parece ser um facto, tal como os russos parecem ter sido surpreendidos, pelo que, a acreditar nas imagens vindas a público, estaremos entre a fuga, pela surpresa do ímpeto atacante e a retirada táctica, para reagrupamento e contra-ataque.

Não sei se o que fez a diferença foi o tal armamento ocidental; pelo que tenho ouvido, não terá sido decisivo, como desde o início sucede, o auxílio da Nato nas informações prestadas -- além, obviamente do ímpeto de quem defende o país, de onde deveremos retirar o Donbass, de maioria russa e em guerra desde 2014 (o que serve para os ucranianos serve também para os russos), para não falar na Crimeia, russa até à medula, reposta que foi a normalidade, corrigindo-se a parvoíce etilizada do camarada Krushtchev,

Passando da táctica para a estratégia, só podemos arriscar prognósticos, pois ninguém ainda sabe como isto vai acabar e se o bom senso irá prevalecer em ambos os lados:

A Rússia sairá sempre vitoriosa, embora parcialmente, se mantiver Donetsk e Lugansk -- a Crimeia é um dado mais do que adquirido --, além da interdição permanente da pertença da Ucrânia à Nato (quanto à UE, vamos ver); será derrotada se algum destes pressupostos não se verificarem -- para além da derrota objectiva que significa a adesão da Finlândia e da Suécia; no entanto estas não têm, nem de perto nem de longe a importância, desde logo simbólica que a Ucrânia tem para a Rússia.

Mas pode ser que o bom senso não impere, que o Pentágono -- a entidade que está a dar guerra aos russos utilizando a mão-de-obra ucraniana -- ache que pode alcançar um pouco mais e contribuir para a queda de Putin, o grande objectivo, uma jogada muito arriscada. Nesta altura, como mencionou Mendes Dias, há na Rússia mais radicais que o Putin no que respeita à Ucrânia e à guerra surda -- e agora sou eu que digo -- que os Estados Unidos lhe movem, com a cumplicidade perversa ou a subserviência enconada europeias, conforme os casos. Os próximos tempos dirão o que irá prevalecer, tudo depende da habitual ponderação dos interesses em jogo de cada parte.   

Quanto à situação no terreno, aconselho calma e algumas orações concernentes à resposta russa. Demasiado importante, Kiev tem sido poupada, e esperemos que assim continue.

   

sábado, setembro 10, 2022

quadrinhos

Marta Teives e Pedro Moura, Os Regressos (2018)

 

sexta-feira, setembro 09, 2022

«Richard»

mil quilómetros quadrados (ucranianas CXXII)

O massacre pseudonoticioso a propósito da morte de Isabel II tem-nos poupado por um instante às manobras propagandísticas dos assessore do Pentágono. A última, impagável, é a da contra-ofensiva ucraniana ter ganho já mil quilómetros quadrados. Qualquer dia estão em Moscovo, o que não é de estranhar, com os pobres dos soldados russos a terem de fazer crowdfunding para arranjar botas. Vergonha alheia.

«Ondas do Mar»

quinta-feira, setembro 08, 2022

que era isabelina?

Designação de certo modo, inevitável, com setenta anos de reinado. Mas a História dirá. A sua homónima, Isabel I, também de longo reinado (quarenta e quatro anos) é a rainha da afirmação marítima do país -- depois de desbaratada a Invencível Armada, de Felipe II --, a soberana de Francis Drake, Walter Raleigh, mas também de Shakespeare ou John  Dowland -- a era isabelina, o teatro isabelino, sobressaindo do âmbito mais largo da dinastia Tudor. Este brilho irá preparar o apogeu inglês e britânico noutro longo reinado (sessenta e quatro anos), o de Vitória, imperatriz das Índias. O que foi a era vitoriana, creio que ainda hoje o sentimos: de Disraeli a Dickens, de Darwin a Thomas Hardy, dos Pré-Rafelitas a Elgar, e um longo etc. -- é quase parvoíce desfiar nomes.

Com Isabel II, de Churchill a Thatcher, a inevitável desagregação imperial, uma transformação vertiginosa, entrada e saída na UE. Entre muitas outras coisas, vai ser o período dos Beatles, oh se vai, mas também dos Sex Pistols e dos Smiths. E bom é que assim seja, pois irá sedimentá-la mais no tempo histórico que viveu.

quarta-feira, setembro 07, 2022

«Brinde»

"Leitor de BD", o derradeiro


Marcela Godoy e Renato Guedes, papa-Capim -- Noite Branca

 aqui

terça-feira, setembro 06, 2022

da miséria estratégica da União Europeia (ucranianas CXXI)

 Ouvir a horrível galinhola que preside à Comissão Europeia falar na chantagem do gás por parte da Rússia, ou dá para rir ou para partir a televisão. Se não, vejamos:

Em vez de ser uma terceira parte, cooperando activamente para dirimir a questão do Donbass, a União Europeia pôs-se sob as ordens dos americanos, não só cooperando activamente na intoxicação da sua opinião pública, como ladrando ferozmente a cada pacote de sanções. Quando a Rússia responde, recorrem à dramaticidade das grandes expressões, como a chantagem energética, etc. 

Ao fazerem dos europeus estúpidos, não se importam eles próprios de fazer figura igual. É preciso ter uma grande paciência para aturar esta malta. Era bem feito que a Rússia cortasse o gás todo, para que a UE aprendesse a não ser um mero boneco da estratégia americana.

Acho também muita graça às luminárias que dizem que a Rússia está cada vez mais dependente da China, avançando com uma espécie de satelitização, quando a União Europeia, que contém no seu seio países como a Alemanha, a França, a Itália e até há pouco o Reino Unido, não consegue ter uma autonomia estratégica e uma manifestação de vontade como, por exemplo, a Índia, o Brasil ou até a África do Sul.

A União Europeia, que poderia ser um player (como agora se diz) respeitado, e fazer-se respeitar quer pela Rússia quer pelos Estados Unidos (para não falar da China) é, ao invés, esta miséria, desprezada por russos e americanos, com todas as consequências que daí advêm.

Nunca alinhei na conversa da falta de estadistas, não gosta nada da ideia de "homens providenciais" -- mas perante os homúnculos políticos que lideram a Europa e os respectivos governos nacionais, a situação é mesmo esta: o desprezo que vem com a subserviência; o risco de se tornar numa grande Ucrânia, ou seja: um território onde outros combatem.

Ao contrário do que se diz por aí, a situação está como está porque a União Europeia como realidade estratégica é um mero actor passivo.  

segunda-feira, setembro 05, 2022

«Yadra»

Pacheco Pereira driblado por João Oliveira (ucranianas CXX)

 Ao contrário doutros que andam para aí a falazar, Pacheco Pereira não é um palonço ou um simplório; no entanto, parece que algo se lhe tolda em momentos cruciais. Foi assim (se a memória estiver a atraiçoar-me, alguém corrija) com a justificação / apoio / compreensão com a malfadada guerra do Iraque. 

A posição do PCP é essencialmente correcta, embora muito fácil de ser contestada. Não é porém a minha. Enquanto o partido -- responsabilizando principalmente a Nato, consegue encontrar uma malfeitorias à Rússia capitalista --, eu, deplorando embora a guerra, acho que dificilmente haveria outra alternativa senão a de conter a bandidagem do Pentágono, que manobra e tem a soldo o governo ucraniano, além da boa-vontade do quarteto maravilha das instituições europeias, executando, até ver, o que os americanos mandam fazer.

A verdade é que João Oliveira toureou facilmente Pacheco Pereira. em especial quando este veio com a história da carochinha de que a Nato até havia recusado a entrada da Ucrânia, sendo lembrado pelo ex-deputado do PCP dos exercícios da mesma Nato em solo ucraniano, no ano passado -- tendo ficado na memória aquela provocação do navio de guerra britânico no limiar das águas da Crimeia, e cujo mensagem do lado russo foi: "pela vossa saúde, dêem meia volta".

Chegou a ser cómico. Praticamente não vejo a sic, mas ontem quis assistir. Foi um bom entretenimento.

uma apologia da ruralidade

 

Madalena regressa à aldeia onde viveu parte da infância com a avó paterna, havia pouco falecida, num reencontro com o espaço e o tempo em que foi feliz. Criança diferente, aberta aos sinais da Natureza, girando de médico para psicólogo, os pais decidem-se a deixá-la aos cuidados da avó, a única que não a punha em questão, fazendo perguntas dolorosamente incrédulas a respeito dos relatos da pequena, após as sortidas à floresta, nas imediações da casa. A partir daqui, tece-se uma narrativa de rememorização e perda, até Madalena se integrar no seu derradeiro lugar.

A capa, comecemos por aí, em que predomina a cor verde, dá-nos a imagem de uma jovem mulher à beira-rio, fumando e lendo um livro -- que no interior saberemos tratar-se dos contos de Julio Cortázar, Todos os Fogos, o Fogo, e que ocasionalmente se atravessam na narrativa. O reflexo da água dá-nos a mesma Madalena, mas ainda criança. A imagem prolonga-se para a contracapa, e o tom da clorofila cede aos castanhos de um grosso tronco, provavelmente um carvalho, ao centro do qual lemos o mote, como que inscrito na casca: "Nunca regresses ao lugar onde já foste feliz."
Numa BD, a prancha inicial é tão importante quanto a primeira frase ou o primeiro parágrafo de um romance. Em Os Regressos, quatro vinhetas (uma dela funcionando como duas) incidindo sobre a linha de caminho-de-ferro, condensam o tom da história: a partir da vista aérea panorâmica, a imagem vai fechando-se progressivamente até ao pormenor da máquina sobre os carris, à beira de trucidar um pequeno pássaro campestre. Mas a narrativa começa ainda antes da primeira página, em quatro vinhetas dispostas no frontispício e no verso deste -- recurso repetido no fim --, revelando um cuidado com o detalhe narrativo, sem dúvida um dos aspectos fortes do livro.
Trata-se, em suma duma apologia do mundo rural, com o que este pode revelar para lá das evidências. Texto de Pedro Moura (Lisboa, 1973) que respira muito bem nas pranchas de Marta Teives (Lisboa, 1977), com recurso sabiamente doseado quer à elipse quer ao pormenor, como requer uma narrativa desenvolta, lograda pelos autores. O trabalho da autora mereceu, aliás, o prémio para o álbum com melhor desenho do Amadora BD em 2018. Dito isto, o autor destas linhas, talvez por defeito seu, está longe das visões idílicas da ruralidade, muito distante da estesia pagã que o livro veicula, pois nem o campo se constitui necessariamente como lugar de harmonia em que o todo universal se funde nem a cidade forçosamente obriga ao império do gadget e do prozac. Cidade, idealmente, é sinónimo de civilização; o campo, sê-lo-á, ou não. (Polvo, Lisboa, 2018)
(2019)





domingo, setembro 04, 2022

«Viina Villi»

sábado, setembro 03, 2022

caracteres móveis

 «Deus passa de lado e vê, mas não diz nada sobre a miséria destes seres que ele criou.»

Paulina Chiziane (1955), Niketche -- Uma História de Poligamia (2002)

«Pedestrian At Best»

sexta-feira, setembro 02, 2022

dois nomes óbvios para o Prémio Camões

Maria Teresa Horta (1937)

António Barahona (1939)

(tenho outros, menos óbvios que estes, qualquer deles -- guardo para depois)


o futuro de Portugal

 O futuro de Portugal está no seu passado. No conhecimento dele, e principalmente na sua língua, falada pelo povo e trabalhada pelos escritores -- os que são trabalhadores, os verdadeiros, os que ficam.  (E sim, também a música e as artes do risco. As artes de risco.)

O resto é nada: aeroportos, hubs, manadas turísticas, lítio, escória, porcaria, zero, nada.

um simplório (ucranianas CXIX)

Uma personagem chamada Pedro Marques Lopes, que surgiu do nada e paga tributo constante ao vazio, caiu-me no café da manhã, porque comprei a Visão. Não sou masoquista, e portanto não o leio-o, sempre que me dá para adquirir o hebdomadário; mas como hoje a luminária escrevia sobre a Ucrânia, fui ver, sabendo de antemão dali sairia uma parvoiçada. Há tipos sofisticados, que sabem embrulhar o recado -- no magazine encontram-se alguns, e quem não os tope, até pensa que se tratam de tipos sérios. Este, não; deve ser mesmo sério, mas é como aquelas crianças que acreditam em tudo no que dizem os adultos. O artigo só está disponível para assinantes (não vale o incómodo e o preço), mas resumindo, na guerra da Ucrânia há os bons e os maus, (sofisticação analítica do W. Bush, os evils doers, quem se lembra?) e desta grelha o pobre não sai. Como ele, a perorar inanidades há-se-os aos pontapés, mas não é esta publicação que passa pela news magazine, assim mesmo em estrangeiro, líder não sei do quê na imprensa portuguesa? A sério? Ainda estou para ver o criaturo de facha azul e amarela, de preferência com uma lágrima artisticamente executada.

quinta-feira, setembro 01, 2022

«Old Churchyard»

do risco da sinceridade

Um dos riscos de escrever o que se pensa, como aconteceu no post abaixo, é poder ser confundido com vendidos, cuja associação me provoca náuseas. O facto de eu ser totalmente crítico do bolchevismo, não significa que não sinta muita estima -- e nalguns casos até amor -- por gente do PCP, nada de confusões. Seria para mim repugnante estar no mesmo comboio que o serafins saudade do bolsar comentarial a propósito da Festa do Avante!, à qual não irei porque tenho o Guincho à minha espera. O cartaz deste ano é notável; quem me dera lá estar.

quarta-feira, agosto 31, 2022

Gorbachev, nome de liberdade

 

Última grande figura do século passado, pegou numa União Soviética em perda após a retirada do Afeganistão, incapaz de acompanhar os Estados Unidos na chamada "guerra das estrelas", acaba por ser o homem que dá a Liberdade aos russos (e a outros povos) -- russos que transitaram do jugo do assassino apatetado Nicolau II para o dos assassinos sectários (e revolucionários profissionais) Lenine e Trostky, culminando no grande sátrapa José Estaline. Os testemunhos são às centenas; a mim, ficou-me o de Milovan Djilas, braço-direito de Tito, e depois também ele dissidente do titismo, para aquilatar do satrapismo do velho Zé dos Bigodes.

Isto para dizer que a União Soviética, com o seu gulag, a sua polícia política, a sua censura, os seus apparatchiks, e respectivos privilégios foi uma traição a qualquer ideia de emancipação humana. Poderão avançar, aqueles que julgam que somos parvos, com a justificação da constante sabotagem e guerra a que a URSS foi sujeita; está bem, mas não chamem àquilo comunismo ou socialismo.

(Obviamente que não quero com isto cantar loas ao capitalismo de putedo americano, onde tudo se compra e vende, sendo o presidente de turno o guarda-livros dos proxenetas daquele bordel.)

Gorbachev, sim, grande figura, ainda que empurrado pelas circunstâncias. Ele e Putin criticavam-se mutuamente, mas Gorbachev sabia que, mal ou bem, Putin tomara para si o desígnio de defender a sua pátria, que é o que está precisamente a fazer. Muito interessante a última entrevista de Gorbachev à BBC -- aliás, apoiou Medvedev na anexação do território russo da Crimeia. 

segunda-feira, agosto 29, 2022

sexta-feira, agosto 26, 2022

«First Trip»

Abomino a prisão de opositores políticos, mas não transformemos o Navalny em herói, como faz o imbecil do Borrell

Antigo membro do partido de um boi chamado Jirinovsky -- soube-o há pouco --, fiz uma procura rápida de ligações.  Figura mais do que duvidosa, suspeito-o um agente da CIA -- essa instituição da democracy e dos direitos humanos a que tanto deve o mundo livre. Encontro no Contacto -- jornal português sediado no Luxemburgo -- este vídeo no YouTube do próprio. O jornal diz que Navalny se refere a imigrantes muçulmanos, o que é desprezível, embora -- sem que perceba o que diz -- veja apenas imagens de islamitas; e nesse caso sou inteiramente navalnysta: ou seja, as religiões, quando saem dos templos e procuram condicionar os indivíduos, têm de ser empurradas de volta: católica, ortodoxa, islâmica, budista, hindu -- a porcaria é a mesma.
De qualquer modo, suponho que este não seja o tom que mais agrade aos defensores da democracy, dos nossos valores, a começar pela galinhola que preside à Comissão Europeia.

quinta-feira, agosto 25, 2022

101 livros na mochila imaginária - parte II: 51-101

(a continuação desta lista)*


51. Rebelo da Silva (1822-1871), Contos e Lendas (1866) - 44 anos

52. Bulhão Pato (1828-1912), Memórias (1894-1907) - 66 anos

53. João de Deus (1830-1896), Campo de Flores (1893) - 63 anos 

54. Conde de Ficalho (1837-1903), Uma Eleição Perdida (1888) - 51 anos

55. Abel Botelho (1854-1917), Amanhã (1901) - 47 anos

56. Fialho de Almeida (1857-1911), Figuras de Destaque (1923)

57. Antero de Figueiredo (1866-1953), Além (1895) - 29 anos

58. Camilo Pessanha (1867-1926), Clepsidra (1920) - 53 anos

59. Carlos Malheiro Dias (1875-1941), Em Redor de um Grande Drama (1913) - 38 anos

60. José Duro (1875-1899), Fel (1898) - 23 anos

61. Júlio Dantas (1876-1962), Nada (1896) - 20 anos

62. António Patrício (1878-1930), Pedro, o Cru (1918) - 40 anos

63. Sarah Beirão (1880-1974), Triunfo (década de 1950)

64. João de Barros (1881-1960), Algas (1900) - 19 anos

65. João Sarmento Pimentel (1888-1987), Memórias do Capitão (1963) - 75 anos

66. Reinaldo Ferreira (Repórter X) (1897-1935), Memórias de um Ex-Morfinómano (1933) - 36 anos

67. João da Silva Correia (1896-1973), Farândola (1944) - 48 anos

68. João de Araújo Correia (1899-1985), Noite de Fogo (1974) - 75 anos

69. Maria Archer (1899-1982), Ida e Volta duma Caixa de Cigarros (1938) - 39 anos

70. Fernanda de Castro (1900-1994), Cartas para Além do Tempo (1990) - 90 anos

71. João Gaspar Simões (1903-1987),  Elói ou Romance numa Cabeça (1932) - 29 anos

72. Soeiro Pereira Gomes (1909-1949), Esteiros (1941) - 32 anos

73. Castro Soromenho (1910-1968), Terra Morta (1949) - 39 anos

74. Manuel Tiago / Álvarfo Cunhal (1913-2005), Cinco Dias, Cinco Noites (1975) - 62 anos

77. Mário Dionísio (1916-1993), Terceira Idade (1982) - 66 anos

75. António José Saraiva (1917-1993), Maio e a Crise da Civilização Burguesa (1970) - 53 anos

76. Romeu Correia (1917-1996) , Calamento (1950) - 33 anos

77. Bernardo Santareno (1920-1980), O Pecado de João Agonia (1961) - 41 anos

78. Antunes da Silva (1921-1997), Suão (1960) - 39 anos

79. Carlos de Oliveira (1921-1981), Trabalho Poético (1976) - 55 anos

80. Francisco José Tenreiro (1921-1963), Ilha de Nome Santo (1942) - 21 anos

81. Agustina Bessa Luís (1922-2019), A Sibila (1954) - 32 anos

82. Eduardo Lourenço (1923-2020), O Labirinto da Saudade (1978) - 55 anos

83. Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013), Roteiro de Emergência (1966) - 43 anos

84. Alexandre O'Neill (1924-1996), No Reino da Dinamarca (1958) - 34 anos

85. José Cardoso Pires (1925-1998), Balada da Praia dos Cães (1982) - 57 anos

86. Jorge Reis (1926-2006), A Memória Resguardada (1990) - 64 anos

87. Luís de Sttau Monteiro (1926-1993), Angústia para o Jantar (1961) - 35 anos

88. António Alçada Baptista (1927-2008), Uma Vida Melhor (1984) - 57 anos

89. David Mourão-Ferreira (1927-1996), Um Amor Feliz (1986) - 59 anos

90. Alberto de Lacerda (1928-2007), Oferenda I (1984) - 56 anos

91. Herberto Helder (1930-2015), Ou o Poema Contínuo (2001) - 71 anos

92. Mário António (1934-1989), Amor (1960) - 26 anos

93. Pedro Tamen (1934-2021), Guião de Caronte (1997) - 63 anos

94. Álvaro Guerra (1936-2002), Café República (1982) - 46 anos

95. Artur Portela Filho (1937-2020), A Funda (1972-1977) - 35 anos

96. Fernando Assis Pacheco (1937-1995), Respiração Assistida (2003)

97. Armando Silva Carvalho (1938-2017),  Alexandre Bissexto (1983) - 46 anos

98. Vasco Pulido Valente (1941-2020), Às Avessas (1990)-- 49 anos

99. Eduardo Guerra Carneiro (1942-2004), A Noiva das Astúrias (2001) - 59 anos

100. José Bação Leal (1942-1965), Poesias e Cartas (1971)

101. Vasco Graça Moura (1942-2014) , Laocoonte -- Rimas Várias, Andamentos Graves (2005) - 63 anos


* Enquanto que a primeira metade é provavelmente definitiva, ou próximo disso, esta não é tal: faltam-lhe autores importantes, que ainda não li, ou não li o suficiente para que possam aqui figurar. Enquanto que na primeira, os escritores são mesmo aqueles, sem tirar nem pôr, e os livros sofreriam poucas alterações se daqui a uns anos a revisse, a mesma segurança não a tenho quanto a esta outra metade, 

quarta-feira, agosto 24, 2022

ucranianas (em férias) CXVIII

1. Parvoíces a propósito da Crimeia. Uma Crimeia ucraniana é uma ficção que a Rússia teve de suportar no tempo da União Soviética, com o camarada Kruschev, tal como depois, com o camarada Ieltsin. O camarada Putin fartou-se. Que maçada para a Ucrânia e para o Ocidente. Podem sempre declarar guerra à Rússia, sandice que alguns andam desejosos se concretize (têm cara de estúpidos, pensam como estúpidos, são mesmo estúpidos). A conversa do Zelensky a propósito da Ucrânia é patética, e só não suscita gargalhadas porque tudo isto é trágico, pelo sofrimento humano e pela pulhice dos vários interventores. Uma Crimeia ucraniana não é só má ficção, é uma anedota mal contada, o que é sempre terrível

2. Portugal lá esteve representado nesta plataforma, como tinha de estar, infelizmente. E com a ministra a dizer inanidades, pelo que ouvi no carro. Continuamos com o argumento analfabeto da invasão injustificada?... Eu sei que a ministra é doutorada em questões de género nas Forças Armadas -- sem ironia, um tema importante, ao nível de uma secretaria de Estado; mas vir para um fórum repetir as baboseiras que os Estados Unidos e a Inglaterra mandam dizer, mostrando que não percebe ou faz de conta que não percebe nada de geopolítica, é desnecessário. Chegava lá, dizia que já tínhamos ajudado muito e continuaríamos a ajudar, e pronto. Ou então temos medo de levar mais um puxão de orelhas do Zelensky. E também sei que os governos enganam os cidadãos.

3. Quanto ao atentado em Moscovo. É trabalho de serviços secretos. Qual deles? Não faço ideia e estou-me nas tintas (para além de lamentar a morte, etc. e tal), mas é giro de analisar a quem pode servir uma acção destas, o que não farei, pois estaria apenas a palpitar. E de palpiteiros está esta guerra cheia.

quinta-feira, agosto 18, 2022

quadrinhos


Edgar P. Jacobs, O Mistério da Grande Pirâmide

 

quarta-feira, agosto 17, 2022

101 livros na mochila imaginária (sécs. XIX-XX), escritores que me alegram a existência - os primeiros 50

 Os que escrevem com as vísceras, como qualquer verdadeiro escritor.

Os que trabalham o idioma.

Os mortos, pois as baixezas que tenham cometido são já do outro mundo. (Uma excepção nesta lista.)

Os bravos, os que tomaram posição, fosse ela qual fosse.

 Os que me dão prazer, emocionam e divertem.

São alguns, só em língua portuguesa, um título para cada autor -- e só portugueses porque calhou.

Num próximo post, direi mais qualquer coisa; daqui a uns dias, mais 51 (chama-se a isto estar de férias).


1.      Almeida Garrett (1799-1854), Frei Luís de Sousa (1844) - 45 anos

2.      Alexandre Herculano (1810-1877), Eurico o Presbítero (1844) - 34 anos

3.  Camilo Castelo Branco (1825-1890), Amor de Perdição (1862) - 37 anos

4. Ramalho Ortigão (1836-1915), Rei D. Carlos, o Martirizado (1908) - 72 anos

5.  Júlio Dinis (1839-1871), A Morgadinha dos Canaviais (1868) - 29 anos

6.  Antero de Quental (1842-1891), Bom Senso e Bom Gosto (1866) - 22 anos

7 .  Eça de Queirós (1845-1900), A Cidade e as Serras (1901)

8.   Cesário Verde (1855-1886), O Livro de Cesário Verde (1887)

9.  M. Teixeira-Gomes (1860-1941), Agosto Azul (1904) - 44 anos

10.  António Nobre (1867-1900), Só (1892) - 25 anos

11.  Raul Brandão (1867-1930), Húmus (1917) - 50 anos

12.  Manuel Laranjeira (1877-1912),  Cartas (1943)

13.  Manuel Ribeiro (1878-1941), A Catedral (1920) - 42 anos

14.  Jaime Cortesão (1884-1960), Memórias da Grande Guerra (1919) - 35 anos

15.  Aquilino Ribeiro (1885-1963), Andam Faunos pelos Bosques (1926) - 37 anos

16.  Fernando Pessoa (1888-1935), Livro do Desassossego (1982)

17.  Fidelino de Figueiredo (1888-1967), Um Coleccionador de Angústias (1951) - 63 anos

18. Assis Esperança (1892-1975) - Servidão (1946) - 54 anos

19.  José de Almada Negreiros (1893-1970), A Cena do Ódio (1915) - 22 anos

20.  Ferreira de Castro (1898-1974), Emigrantes (1928) - 30 anos. 

21.  Francisco Costa (1900-1988), Última Colheita (1987) - 87 anos

22.  José Rodrigues Miguéis (1901-1980), Gente da Terceira Classe (1962) - 61 anos

23.  Vitorino Nemésio (1901-1988), Mau Tempo no Canal (1944) - 43 anos

24.  José Régio (1901-1969), Páginas de Doutrina e Crítica da «presença» (1977)

25.  João Pedro de Andrade (1902-1974), A Hora Secreta (1942) - 40 anos

26.  Saul Dias (1902-1983), Obra Poética (1980) - 78 anos

27.  Tomás de Figueiredo (1902-1970), A Toca do Lobo (1947) - 45 anos

28.  Armindo Rodrigues (1904-1983), Voz Arremessada ao Caminho (1943) - 39 anos

29.  Branquinho da Fonseca (1905-1974), O Barão (1942) - 37 anos

30.  António Gedeão / Rómulo de Carvalho (1906-1997), Poemas Póstumos (1983) - 77 anos

31.  Fernando Lopes-Graça (1906-1994), A Caça aos Coelhos (1940) - 34 anos

32.  Alberto de Serpa (1906-1992), Drama -- Poemas da Paz e da Guerra (1940) - 34 anos

33.  Carlos Queirós (1907-1949), Desaparecido (1935) - 28 anos

34.  Miguel Torga (1907-1995), Bichos (1940) - 33 anos

35.  Joaquim Paço d’Arcos (1908-1979), Ana Paula (1938) - 30 anos

36.  Manuel da Fonseca (1911-1993), Cerromaior (1943) - 32 anos

37.  Alves Redol (1911-1969), Barranco de Cegos (1961) - 50 anos

38. Políbio Gomes dos Santos (1911-1939), A Voz que Escuta (1944)

39.  José Marmelo e Silva (1911-1991), Sedução (1937) - 26 anos

40.  Vergílio Ferreira (1916-1996), Para Sempre (1983) - 67 anos

41.  Manuel Ferreira (1917-1992), Hora di Bai (1962) - 45 anos

42. Fernando Namora (1919-1989), Retalhos da Vida de um Médico (1949) - 30 anos

43.  Jorge de Sena (1919-1978), O Indesejado (António, Rei) (1951) - 32 anos

44. Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), Contos Exemplares (1962) - 43 anos

45.   Ruben A. (1920-1975), O Mundo à Minha Procura (1964-66-68) - 44 anos

46.   José Saramago (1922-2010), O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984) - 62 anos

47.   Dinis Machado (1930-2008), O que Diz Molero (1977) - 47 anos

48.    Rui Knopfli (1932-1997), Mangas Verdes com Sal (1969) - 37 anos

49.   Ruy Belo (1933-1978), Homem de Palavra[s] (1969) - 36 anos

50.   Maria Isabel Barreno (1939-2016), Maria Teresa Horta (1937),  Maria Velho da Costa (1938-2020), Novas Cartas Portuguesas (1972) - 33, 35 e 34 anos


em tempo: (17/VIII): 

prevalência evidente do romance e da poesia;

curiosidade: o autor mais velho à época de edição, Francisco Costa, 87 anos, esteve para ser o mais novo, com vinte, uma vez que hesitei entre o livro de estreia, o magnífico Pó (1920), e o último.

domingo, agosto 14, 2022

quadrinhos


Hergé, auto-caricatura
a propósito disto

 

sábado, agosto 13, 2022

a arte de começar

 «Um estrondo ouve-se do lado de lá. Uma bomba. Mina antipessoal. Deve ser a guerra a regressar outra vez.»

Paulina Chiziane (n. 1955), Niketche --Uma História de Poligamia (2002)

o atentado a Salman Rushdie

 só mostra o que todos sabíamos: uma vez lançado o anátema, a sanção que o acompanha só se esvai com a morte, o que significa que, se escapar desta, a sua vida continuará a correr perigo. 

Religiões à solta só conhecem a linguagem da força, triste facto. Infelizmente, isto já não vai lá invertendo as políticas de direita, como dizem alguns. Mas como deter largos milhares de fanatizados e as suas armas brancas ou veículos tornados máquinas de morte? 

Como já não estamos no tempo do Pombal, que mandava executar quem lhe fizesse frente e ameaçava o papa; nem no do Joaquim António de Aguiar, o liberal "Mata Frades"; nem se admite agora o achincalho da República, ou o que o Zé Estaline fez na União Soviética, transformando igrejas em garagens (um homem prático) ou, ainda, o controlo férreo das confissões como se processa na China -- como lidar com estes selvagens? Dialogar sobre quê, se há com eles uma raiva e um sentimento de humilhação que se lhes cola à pele e ao nome, e que sublimam com estes actos irracionais, consequência de um profundo mal estar existencial?  Ainda por cima camuflados no seio de uma comunidade ela própria dividida em face destas acções? Como se lida com isto? Rebentar com Israel? Não me parece exequível, nem desejável. Mostrar (ao menos) equidistância na questão palestiniana? E o resto?... Nós por cá ainda vamos indo; franceses, belgas, alemães, etc. estão metidos num molho de bróculos.