terça-feira, agosto 19, 2014

David Crosby: os Byrds e Pete Seeger

Para Crosby, Pete Seeger foi o músico mais político com quem trabalhou, disse-o à Classic Rock #200 (8/2014). Os Byrds nutriam grande admiração por ele, homenageando-o com uma versão de Turn! Turn! Turn! (1959) -- o que motivou uma carta do já então músico veterano:
"They used to do everything but burn crosses on my lawn for being a communist. Now they come around and ask for my autograph. You boys are wonderful!".
Em baixo, os mesmos Byrds, em 1965; e Seeger, em 2010, então com 89 anos.

segunda-feira, agosto 18, 2014

Peter Frampton: flores de Elvis

Até Frampton Comes Alive (1976), o guitarrista inglês tivera uma carreira modesta, mesmo nos Humble Pie. O duplo álbum gravado ao vivo quebrou todas as expectativas, incluindo as do próprio músico: "For a time -- disse à Classic Rock #200, 8/2014 -- I was the biggest artist in the world, and was selling more records than anyone had ever done. I got flowers from Elvis and had more atention than I coul ever have imagined. It was overwhelming."

trailers #5 - BATMAN, de Tim Burton (1989)

Jack Nicholson, pois claro, Joker insuperável; e também o Batmóvel, como já disse. Aceita-se o flashback envolvendo o vilão no assassínio dos pais de Bruce Wayne, mas não acrescenta grande coisa às personagens.


domingo, agosto 17, 2014

caracteres móveis

«Tentava provar que o mais importante para um homem não era andar depressa, mas saber para onde ir e porquê, e que, bem vistas as coisas, a velocidade nem sempre era uma vantagem. / -- Se fores para o Inferno, sempre é melhor que vás devagar -- disse ele, cínico, a um jovem comerciante.»

Ivo Andrić, A Ponte Sobre o Drina (1945)

trailers #4 - KING KONG, de Peter Jackson (2005)

Quando o vi, no cinema, ou revejo, em casa, sinto sempre um prazer juvenil do gozo da pura aventura, como quando li As Minas de Salomão, de Rider Haggard / Eça de Queirós, ou vi Os Salteadores da Arca Perdida. Há até um quase-Corto Maltese, na personagem do Capitão Englehorn...

Noddy Holder: tão milnove e setenta e quatro, e ainda fresco

Chega o Natal, e Noddy Holder (Slade) pensará: "Oh, God, here we go again?". Ao que ele responde (Classic Rock #200, 8/2014) estar orgulhoso de Merry Christmas Everybody, ao fim de quarenta anos: "it still sounds fresh to me and it's taken a life on its own." Como discordar?

sábado, agosto 16, 2014

Rick Parfitt: Cliff & The Shadows

Para Parfitt (Status Quo), tudo começou depois de ouvir Move It, por Cliff Richard com os Shadows: «I got a guitar, and just lost interest in everything at school.»

trailers #3 - WAY OUT WEST, James W. Horne (1937)

Bucha & Estica a Caminho do Oeste (1937). Um western-comédia com os lugares-comuns habituais. Velho e envelhecido.


sexta-feira, agosto 15, 2014

trailers #2 - CORPSE BRIDE, de Tim Burton (2005)


A Noiva Cadáver. Filme de animação sem mácula de Tim Burton. Não seria o primeiro, nem o último.


quinta-feira, agosto 14, 2014

Nick Mason: "A Saucerful Of Secrets"

No inquérito sobre a fama, essa hidra, ficamos a saber da modéstia de Nick Mason, também conhecido pela sua ligação ao desporto e coleccionismo automóvel. Perguntado (Classic Rock #200, 8/2014) qual o álbum dos Floyd que gostava fosse mais conhecido, refere-se ao segundo A Saucerful Of Secrets (1969): «There were lots of ideas on that one that helped us to work out where we were going.»


numa Patópolis de ganância, desvio e luxúria

Lembremos as sombras de Alack Sinner e a virulência de Torpedo 1936. Vamos encontrá-las em Blacksad, com a particularidade de os episódios de violência, sexo &outros vícios serem protagonizadas por personagens antropomorfizadas, saídas do lápis de um desenhador da Disney -- e Guarnido foi-o, em tempos. Do meu conhecimento, havia  Canardo, que já entrara por aí; mas o pato era uma espécie de Columbo de penas, um pouco mais ébrio e atrevido. Claro, que o autor que mais longe levou o antropomorfismo na 9.ª arte adulta foi Art Spiegelman, mas estamos a falar doutro universo e doutro patamar.
Esta co-edição Público / Asa inclui os dois primeiros álbuns da série, Algures Entre as Sombras  (2002) e Arctic-Nation (2003): a primeira, passada em Nova Iorque, trata de um crime de assassínio de uma (eu ia escrever mulher...) fêmea de arromba, actriz que em tempos tivera um caso com o próprio Blacksad, seguindo a preceito os clichés do policial negro norte-americano. A Grande Maçã como uma Patópolis de ganância, desvio e luxúria. A segunda narrativa, é uma incursão muito conseguida no asfixiante universo das subterrâneas organizações racistas.


o som e a fúria

O segundo andamento do Concerto para piano #5 de Beethoven, «Imperador», louvor ainda da figura de Napoleão Bonaparte (como a Sinfonia #3), dedicatário fortemente renegado pelo compositor, quando o mito de libertador dos povos europeus, sob o lema da Revolução Francesa -- Liberdade, Igualdade, Fraternidade -- se revela um carrasco desses mesmos povos. É célebre a imagem da dedicatória furiosamente rasurada, o papel da partitura rasgado pelo furioso Ludwig, enquanto ouvia o troar dos canhões napoléonicos às portas de Viena.
Quanto à música, propriamente, o diálogo apaixonante entre o piano e a orquestra é duma beleza extraordinária.
A minha interpretação é a de Fleisher / Szell; ao vivo, escolho a magnificência de Arrau / Davis.

trailers #1 - BATMAN BEGINS, de Christopher Nolan (2005)

O meu Batman, já o disse, é o de Neal Adams; e, no cinema, o de Christopher Nolan (Bale mais convincente do que Keaton). O episódio Ra's Al Gul eestá bem metido; Michael Caine, um formidável Alfred; o batmóvel é excitante, mas falta-lhe a personalidade gótica do arquétipo, melhor no filme de Tim Burton; a conexão do Espantalho ao Asilo Arkham também me pareceu bem. A banda sonora cumpre melhor do que o trailer sugere; aliás, o trailer  é fraco.


quarta-feira, agosto 13, 2014

Dave Brock: um ateu sensível a hinos religiosos

Descrevendo-se a si próprio como ateu ("As we go forward in time and space in this universe, the less likely it becomes to find the great God that make it all.", Classic Rock #200, Agosto 2014), a verdade é que o frontman  dos Hawkwind não deixa de comover-se com a beleza de vários hinos religiosos. Certa vez, na América, ouviu All Things Bright And Beatiful, do seu compatriota britânico John Rutter, e "It made me feel so joyous I almost burst into tears." -- o que não deixou de constituir-se como surpresa para si. O que significa isto?, pergunta retórica: que Brock é um músico sensível e profundo, como um artista deve ser. Nada mais do que isso, que já é imenso --  creio, que como ele descreio.


ahahah...

terça-feira, agosto 12, 2014

Aretha Franklin: do coração

A propósito de religião, Aretha disse à Classic Rock deste mês que a alegria em cantar estende-se a todo o tipo de material, e não apenas ao de extracção religiosa -- que, aliás, está na sua génese de cantora. Mas é, claramente, uma área que muito lhe agrada, com muitas canções favoritas. E, por todas, elege Amazing Grace. O jornalista acrescenta que este hino se tornou uma espécie de assinatura para ela, e pergunta-lhe de que modo ela o aborda. Resposta: «I sing it in the way it should be sung -- from the heart.» 


segunda-feira, agosto 11, 2014

Iraque (?)

Numa perspectiva geopolítica, o que se está a passar no que ainda é conhecido por Iraque é terrivelmente fascinante. Fascínio que, naturalmente, esmorece diante da tragédia humana que se desenrola nas nossas barbas. Sobre a política criminosa de Bush & Bliar, entre outras criaturas, já me pronunciei o suficiente e escusado será chover no molhado: todos sabíamos do que se tratava antes de começar a guerra; e os falsos ingénuos e falcões amestrados que a denderam guardam hoje um comprometido e envergonhado silêncio.

desventuras dum esfomeado

Livro anónimo do século XVI, Lazarilho de Tormes  inaugura uma das marcas distintivas da literatura espanhola, a novela picaresca.
Lázaro, um habilidoso mal-nascido, sustenta-se como criado de diversas figuras-tipo, normalmente mais malandras do que ele, e que se vão sucedendo: um cego, um clérigo, um escudeiro, um frade, um proclamador de bulas, um capelão e um aguazil. Com excepção do escudeiro, pobre fidalgote que tudo faz para ocultar a miséria do seu estado, os outros sevandijas exploravam Lázaro, sem piedade. Mas, para velhaco, velhaco e meio, acabando, no final, o anti-herói por levar a melhor, ou quase, conseguindo uma colocação como pregoeiro em Toledo.
Livro subversivo, satirizando clero, nobreza e o funcionalismo emergente, não é de estranhar que o autor tenha querido usar de prudente reserva de identidade, nesse ano de 1554.
Impressionou-me sobremaneira o tema obsidiante da fome, que perpassa pela quase totalidade da novela: a fome que exaspera sempre Lazarilho, e também alguns dos seus amos. Desventuras de um esfomeado seria um subtítulo apropriado.
Há, ainda, um prefácio de Gregorio Marañon, que detestava a novela picaresca, não por ser má literatura, mas pelo que, no entender do ensaísta, deformava, não apenas a alma  espanhola -- pela amoralidade e apologia do comportamento desviante --, como também pela imagem distorcida que dos espanhóis passava além-fronteiras.

Ian Anderson, Dalí e Magritte

Ian Anderson gosta de arte e, não sendo um coleccionador, agrada-lhe tê-la, sabendo, de resto, o que ela vale, nos dois sentidos: "As a schooolboy I became acquainted with the work of Salvador Dalí [...]. He knew how to court the interest of the public and did so shamelessly. You get more bang for your buck with Magritte than Dalí." Classic Rock #200, Agosto 2014).


domingo, agosto 10, 2014

Thijs van Leer: Bach, o maior herói

Filho de um flautista apaixonado por Bach, Thijs van Leer (teclas, flauta e voz dos Focus), tem o mestre alemão como o maior dos seus heróis (continuo com o #200 da Classic Rock, Agosto 2014). Mas as referências do progger holandês estendem-se de Béla Bartók aos Earth Wind & Fire, de Miles Davis e John Coltrane aos Weather Report, entre muitos outros, sendo que na flauta jazz o ídolo é Roland Kirk: «The flute become an instrument that could be played alongside louder ones like guitar, bass and drums.»  Fora da música, van Leer menciona os existencialistas Kirkegaard e Sartre (rock progressivo é outra coisa) e Marcel Marceau.


sábado, agosto 09, 2014

Steve Harley: literatura americana e Dylan

Depois de ver -- presume que miúdo -- Bogart no papel de Sam Spade, Harley interessou-se pela literatura n-americana, e Hemingway foi o seu herói (volto à Classic Rock #200, Agosto 2014). Na música, apesar de mãe cantora em big band e bisavô organista de igreja, foi Blowin' In The Wind, de Bob Dylan, que fez querer tornar-se músico. Quanto a vilões, os ABBA ficam-se pelo bubblegum pop, enquanto que Madonna, musicalmente considerada por si a drag, cometeu um delito maior: «I dislike the whole girlie sexuality she helped to develop. It spawned Miley Cyrus, which is unforgivable.»


quinta-feira, agosto 07, 2014

da dissimulação

«e, repetia, se não dermos nas vistas, podemos passar uma vida inteira com os piores instintos, e ninguém o saberá.  com a liberdade, só os cretinos mais incautos passaram a ser má gente. tudo o resto preza-se e cabe na sociedade de queixo erguido. e isso leva-nos a quê, perguntei eu.»

Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)

quarta-feira, agosto 06, 2014

da arte como pudor

«Da sua obra não se poderá dizer, todavia, que é datada pois que dela se desprende precisamente o contrário, a insularidade e a distância de quem decidiu isolar-se para não se desperdiçar ou trair.»

Marcello Duarte Mathias, Mas É no Rosto e no Porte Altivo do Rosto (1983)

segunda-feira, agosto 04, 2014

Olha...

Parece que sou Aristóteles (nunca se senti tão humilde!).

coração, bússola doida

«Austin acendeu outro cigarro. "Temos aqui uma anotação, na margem da página catorze, uma anotação feita a lápis", disse ele. "Diz: coração, bússola doida." "Literário", disse Mister DeLuxe, "e, além de literário, devia ser para apagar porque está escrito a lápis". Austin acenou com a cabeça. "Está a lápis", insistiu Mister DeLuxe. "É óbvio", disse Austin, sem saber bem porquê.»

Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)

vassourada

Quando alguém com responsabilidades se comporta como qualquer um -- que foi o que se passou com alguns dos administradores do BES --, tem de haver um poder acima e com legitimidade democrática que ponha as coisas nos eixos. O que acaba de suceder é duma limpeza (uma vassourada) que eu não esperava, mas, para já, parece-me bem. Não porque tenha ódios de classe ou inveja social (nenhuma), mas pela razão de que é fundamental haver uma responsabilidade social com apertadíssimo rigor nos casos em que se lida com áreas fundamentais da sociedade. A banca tem sido um local mal frequentado de banditismo e trafulhice. O que fazemos quando os bandidos ameaçam, e os trafulhas enganam os incautos?



domingo, agosto 03, 2014

estampa CLXXXI - Gustave Moreau

Os Unicórnios (1885/1888)
Museu Gustave Moreau, paris

um devaneio de meridional

«Demorou-se à janela da saleta entretanto, a observar aquele quadro de relva onde bate o sol, e deixou-se perder num devaneio de meridional, temperado por bem mais preguiça do que nostalgia.»

Mário Cláudio, As Batalhas do Caia (1995)

sábado, agosto 02, 2014

a vida como saque

«Lembro-me dele a travar o pé com a bicicleta e a olhar para trás com tal desvanecido olhar como se eu fosse parte dum saque que era para ele a vida.»

Agustina Bessa Luís, Antes do Degelo (2004)

sexta-feira, agosto 01, 2014

...e para Tony Iommi, Django Reinhardt.

Ainda no mesmo inquérito (Classic Rock #2000, "Heroes & Villains", Agosto 2014), o guitarrista dos Black Sabbath, depois de referir Buddy Holly e os Shadows como os que mais o cativaram na juventude, alude ao acidente de trabalho que lhe levou duas falangetas da mão direita, amputação que, sendo canhoto, lhe trazia problemas acrescidos ao tocar. Então, alguém lhe falou e ofereceu um disco do soberbo Django Reinhardt, belga de etnia cigana, o grande swinger da guitarra jazz. E foi graças a essa inspiração e exemplo que temos ainda actuante (embora lutando contra doença grave) um dos maiores riffers da guitarra rock.


um directo no futuro

«Depois de correr os taipais, olhou o cartaz encaixilhado onde Santa Camarão esboçava um upercut  decisivo que era já uma recordação. Subiu a guarda, arqueou o tronco, ligeiro de pés, aplicou uma finta a duas mesas e acertou um directo no futuro.»

Álvaro Guerra, Café Central (1984)

descobrir as diferenças


Foi o BCP, a lavar dinheiro em offshores; o BPN, puro gangsterismo, financeiro e não só; o BPP, sem pudor, a enganar clientes; agora o BES... Como hei-de classificar estes indivíduos, se não quiser ser vulgar, chamando-lhes ladrões? "Predadores", é talvez muito objectivo; "abutres"?, "vampiros"? -- demasiado literário; "escória"?, "marginais?" -- peca por rebarbativo. Acho que vou ficar-me pela vulgaridade. 
Há uma coisa que me aborrece especialmente: é a falta de vergonha, a desfaçatez de alguns deles, ligados a planos de desmantelamento do estado social, como o famigerado "Compromisso Portugal" ou o grotesco "Mais sociedade", à liquidação do que nos define como sociedade minimamente decente. 
São uns pimpões que abrem a boca para falar dos subsídios e dos rendimentos mínimos -- e vai-se a ver, não passam de vulgares vigaristas, homenzinhos engravatados que roubam descaradamente quem neles confiou. Se não fosse trágico para muita gente, daria vontade de rir.
No fundo, qual é a diferença entre um papa-hóstias como Jardim Gonçalves, um saloio como Oliveira e Costa, um arrivista como Rendeiro ou um "senhor" como Ricardo Salgado? Assim de repente, não estou bem a ver.

quinta-feira, julho 31, 2014

Com Geezer Butler foi Jack Bruce...

Geezer Butler (guitarra-baixo dos Black Sabbath) também tinha os Beatles por heróis. Certa vez foi ver os Cream. Andava tudo doido com o Eric Clapton ("Clapton is God", não é?), mas foi Jack Bruce quem lhe tocou a corda: "Everybody was going on about what an icredible guitarist Eric Clapton was, but I ended up being mesmerised by Jack Bruce. I'd never even thought about playing bass until I saw Jack [...]" (Classic Rock #200, "Heroes & Villains", Agosto 2014)
Um dos vilões que Butler nomeia é Bush, por causa do Iraque -- o que só lhe fica bem.
Em baixo, talvez fechando os olhos consigam ouvi-lo como deve ser.


entre o couro e a carne

«Entre outros homens que naquela companhia se achavam eram nela mais acostumados [...]; um velho não muito rico, que tinha servido a um dos Grandes da Corte, com cujo galardão se reparara naquele lugar, homem de boa criação, e, além de bem entendido, notavelmente engraçado no que dizia, e muito natural de uma murmuração que ficasse entre o couro e a carne, sem dar ferida penetrante.»

Francisco Rodrigues Lobo, Corte na Aldeia (1619)

quarta-feira, julho 30, 2014

Ozzy Osbourne e os Beatles

 Ozzy Osbourne (voz dos Black Sabbath) ia na rua pelos idos de '64 (ano em que eu nasci) quando ouviu pela primeira vez She Loves You, dos Beatles, no transístor que levava; e desde esses instante sentiu-se como que catapultado para uma dimensão da qual nunca mais saiu. Certa vez, o filho perguntou-lhe como era a onda, quando os Beatles estavam a a contecer, e Ozzy saiu-se com esta pepita: "The only thing I could say is that you go to bed today, then get up tomorrow morning and it's a completely better world."

(Num inquérito multitemático da Classic Rock #200, comemorativo desse número redondo, e do qual, nas próximas semanas, irei picar algumas resposta interessantes.)



godos moles

«Uma longa paz com as outras nações tinha convertido a antiga energia dos Godos em alimento das dissenções intestinas, e a guerra civil, gastando essa energia, havia posto em lugar dela o hábito das traições covardes, das vinganças mesquinhas, dos enredos infames e das abjecções ambiciosas. O povo, esmagado debaixo dos peso dos tributos, dilacerado pelas lutas dos bandos civis, prostituídos às paixões dos poderosos, esquecera completamente as virtudes guerreiras de seus avós.»

Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)

terça-feira, julho 29, 2014

"País 'civilixado'" é bestial.

Aqui.

cinco dias de pândega

«Calaram-se. Ficar sem féria seria perder a Feira. E a Feira era a verdadeira festa de despedida dos moços dos telhais. Cinco dias de pândega entre um Verão de canseiras que findava e um Inverno de miséria que surgia.»

Soeiro Pereira Gomes, Esteiros (1941)

segunda-feira, julho 28, 2014

28 de Julho de 1914 -- a Grande Guerra começou há cem anos, e assombra-nos.

A pretexto de um assassínio político perpetrado um mês antes, há 100 anos a Áustria-Hungria declarava guerra à Sérvia. Não passou de mero pretexto, porém. A causa da Grande Guerra radica em vários factores, a saber: a disputa imperialista centrada no Velho Continente, através do sistema de alianças, mas com ramificações e palcos extra-europeus, em concorrências territoriais e de supremacia armamentista; e a inconsciência geral, quer do rápido desenvolvimento transnacional do conflito (num ápice a guerra tomou o freio nos dentes), quer dos custos humanos e económicos que iria acarretar -- o que justifica o acolhimento delirante e patético do anúncio do conflito por parte das opiniões públicas.
Conflito, aliás, que não terminaria em 1918, mas em 1945, pois Hitler (e até Stálin) são a um tempo consequência da vertigem ou da deliquescência imperiais e da ganância dos potentados económicos e financeiros.
Hoje, continuamos com um sistema de alianças, em recomposição, o imperialismo é norte-americano, russo, mas agora também chinês, e a cupidez mercantil e argentária está globalizada. Mas ninguém, em seu perfeito juízo, poderá vir para a rua simploriamente saltar e cantar, se... Um  se que nunca será de excluir, por mais absurdo, irracional e indigno, pois nada na animalidade dos homens o garante. Quem tiver dúvidas que olhe para o lado (ou para o espelho, se tiver coragem), e diga se gosta do que vê.



domingo, julho 27, 2014

Não me pude vencer, mas posso-me esmagar
Mário de Sá-carneiro

silêncio

«Na frente, um homem que prendia as rédeas debaixo do braço caminhava curvado dentro do capote, enrolando um cigarro. Atrás, Mateus baloiçava o tronco desajeitado. Em volta, seguia gente olhando para o fundo do carro, onde Adriano adivinhou o corpo do Doninha, coberto pela manta esburacada.»

Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)

sábado, julho 26, 2014

L, de Romance


Quando é que percebemos que um romance é um grande romance? Quando ao fim das primeiras vinte ou trinta páginas verificamos duas coisas: o autor dando muito (ou tudo...) de si, dádiva que recebemos por vezes até com algum pudor; e quando o estilo é um profundo e honesto trabalho sobre a escrita, muitas vezes na corda bamba, pois a literatura com L tem de estar sempre  nesse patamar elevado em que o autor a si próprio se desafia. 
Vem isto a propósito do romance de João de Melo, Gente Feliz com Lágrimas (1988), saga (ou anti-saga) duma família açoriana. Irmãos com infâncias fechadas e trabalhosas, tiranizadas pelas idiossincrasias paternas; a saída da ilha (uma fuga, no fundo), seminário e convento, guerra em África, emigração para a América, desenraizamento. Alguns triunfos com amargos de boca, na escrita ou na vida. A narrativa flui a várias vozes, a personagem principal, Nuno, seminarista expulso, depois professor e escritor; mas também alguns irmãos, cada um dando a sua perspectiva ao leitor; Nuno e Marta, depois, (ex-)marido e (ex-)mulher; e o duplo de Nuno, Rui Zinho, pseudónimo com que assina a obra literária.
É um dos grandes romances portugueses do século XX, de extrema poeticidade, elaborando sobre a passagem do tempo, onde, apesar das lágrimas, se vai à procura de alguma felicidade imaginada, construída para além dos traumas.

anoitecia

«O castelo do baliado principiava a assombrar-se  e a denegrir-se. O chiar dos carros e as vozes dos lavradores tinham cessado. Os cães da aldeia começavam a latir de espaço e as casas e arribanas, que rodeavam aqui e ali a fortaleza, emantilhavam-se no espesso fumo resinoso que lhes saía pelas fendas dos tectos palhiços e que a calma da atmosfera deixava estacionar sobre eles.»

Arnaldo Gama, O Balio de Leça (póstumo, 1872)

sexta-feira, julho 25, 2014

O caso Espírito Santo, explicado às crianças e ao povo:

A ocasião faz o ladrão.

lastro aldeão

«O quarto, largo e branco, dava para um terraço, onde fios de roupa brilhavam ao sol; ; e um gralhar de galinhas que se ergueu não sei de onde lembrou-me sùbitamente os grandes silêncios da aldeia.»

Vergílio Ferreira, Aparição (1959)

quinta-feira, julho 24, 2014

ao sabor da pena

«Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei-de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há-de fazer crónica.»

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

quarta-feira, julho 23, 2014

Fender vs. Gibson: Francis Rossi e Tony Iommi



nova mas feia

«Ao pé da fogueira, uma velha sentada. Não me senti à vontade. Estava embaraçado, sem saber o que devia fazer, quando chegou uma senhora a procurar por mim. Era a professora, que, sabendo da minha chegada, vinha esperar-me. Nova mas feia. Contudo simpática e com um olhar de inteligência que a tornava atraente. Sem a menor hesitação resolveu logo o meu problema, como se aquilo fosse habitual.»

Branquinho da Fonseca, O Barão (1942)

terça-feira, julho 22, 2014

criador & criatura

 Chester Gould e Dick Tracy

domingo, julho 20, 2014

estampa CLXXX - Canaletto

Auto-Retrato
col. particular, Cambridge

um amanhã absolutamente amanhã

«Hoje! Já! Mas eu sinto que não queria que fosse hoje! Queria que fosse amanhã, um amanhã indefinido, uma amanhã absolutamente amanhã -- daqueles que nunca chegam... e tanto assim -- que ontem, véspera de hoje, quando hoje era ainda um amanhã -- não me confrangia tanto a ideia do meu internamento -- da minha cura. Pelo contrário: bazofiava de animoso e, com pimponice de valente, afirmava a decisão enérgica de desenclavinhar da carne, do sangue, dos nervos, do espírito, as garras veludosas de quatro anos de morfinismo.»

Reinaldo Ferreira (Repórter X), Memórias de um Ex-Morfinómano (1933)

sexta-feira, julho 18, 2014

com o lenço verde do regulamento

«Os homens pararam. Alguns, mais cansados, sentaram-se imediatamente, outros ainda procuraram árvores para aproveitarem a sombra e o encosto dos troncos. Abriram os camuflados, aspirando o cheiro ácido de suor que saía do peito, para se refrescarem. Esqueceram os mil pormenores da instrução de comando, as forças não chegavam para tudo, mas a arma, essa ficou ali à mão de semear... Tiraram lentamente as mochilas de cima dos ombros e morderam os lábios com a dor dos músculos dormentes cortados pelas correias de lona. Esfregaram a cara e os cabelos molhados da  transpiração com o lenço verde do regulamento, ou mesmo com o quico camuflado, um bonezinho em feitio de canoa, de aba curta e quebra-nuca para proteger a cabeça dos ardores do sol.»

Carlos vale Ferraz, Nó Cego (1983)

quinta-feira, julho 17, 2014

Johnny Winter (1944-2014)

[(muito) branco por fora, escuro por dentro)

quarta-feira, julho 16, 2014

miopia israelita

O conflito entre Israel e a Palestina é demasiado antigo e complexo para tomadas de posição ligeiras e piedosas. A verdade é que este antagonismo radica na história secular, com um revivescer no último século, com a então toda-poderosa Europa arrogando-se a prerrogativa de inventar países e desenhar fronteiras.Não há inocentes políticos de parte a parte; e se só lamentamos as vítimas palestinas é porque Israel tem a capacidade militar do seu lado. Só por isso.
É evidente que isto não desculpa o estado israelita de sistematicamente boicotar a viabilidade do outro estado e de seguir com uma criminosa política de colonatos, jogando a política do facto consumado no longo prazo. O que políticos míopes como Netanyahu -- e todos quantos insistem do lado de Israel nessa política cega -- não vêem, é que o tempo joga contra o estado judaico. A força que este detém, como o viram Rabin e o próprio Sharon -- e como creio que será a posição de Livni --, deveria ser usada de forma mais inteligente e dialogante. Ao apostar no tudo ou nada, Israel só pode perder.

o arrastão

«Maria da Soledade considerara tão insòlitamente forçada mais esta das suas demandas do trabalho em pátrias alheias, que, prontamente, classificara de dinheiro bem gasto o de preferir, desta vez, o "sud-express" para Paris, a carruagem-camas uma espécie de salvaguarda para as viagens de cambulhada e, muito mais, para as do arrastão, comboio de uma só classe, a segunda, sempre a abarrotar de emigrantes.»

Assis Esperança, Fronteiras (1973)

terça-feira, julho 15, 2014

nos extremos do Minho

«Era nos extremos do Minho e onde esta risonha e feracíssima província começa já a ressentir-se, senão ainda nos vales e planuras, nos visos dos outeiros pelo menos, da vizinhança de sua irmã, a alpestre e severa Trás-os-Montes.»

Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

segunda-feira, julho 14, 2014

a lad insane


O título, Aladdin Sane, "a lad insane", toda a música, do riff ao refrão, é estupenda. O início, cada interveniente como que se estuda, até o baixo e guitarra acompanhando-se e dando suporte ao "Whoooo, will love Aladdin sane?" O solo do piano de Mike Garson, jazzístico e vanguardista (com o sax de Ken Fordham intrometendo-se), dá o plus que desde sempre a mantém nos nossos ouvidos.

mandado por Deus

«Era o veleiro mandado por Deus Nosso Senhor. Que levaria aquele povo à outra ilha distante e abençoada onde todos encontrariam abrigo e protecção. Lá não havia fome. Lá a catchupa chegava para os mais necessitados e perseguidos pela estiagem. Gente, São Vicente tinha Porto Grande, tinha navios de todas as partes do mundo trazendo trabalho e comida. Soncente tinha tropa que enchia a barriga a todos nós.»

Manuel Ferreira, Hora di Bai [1962]

sábado, julho 12, 2014

Charlie Haden (1937-2014)

A Song For Che dedicada aos movimentos de libertação das colónia portuguesa em África, num Cascais Jazz, antes do 25-A, com detenção pela PIDE e posterior expulsão. O 80/81 no Parque Palmela, Cascais ainda.


sexta-feira, julho 11, 2014

que a seca espavoriu

«Despontam vivendas pobres; algumas desertas pela retirada dos vaqueiros que a seca espavoriu; em ruínas, outras; agravando todas, no aspecto paupérrimo, o traço melancólico das paisagens...»

Euclides da Cunha, Os Sertões [1902]

quinta-feira, julho 10, 2014

havia, e vai havendo

Conjunto de narrativas breves, todas começadas pelo pretérito imperfeito do verbo haver. A capa desafia logo o leitor, seguindo-se a apresentação da autora («Havia uma escritora de contos curtos onde não cabiam narrativas compridas.») Por aqui se nota o ludismo, o brincar com as palavras e os conceitos, a inventiva que atravessa todo o livro, o jogo com o absurdo -- aliás, o primeiro conto começa assim: «Havia um absurdo que não ouvia nada bem» Por vezes, quando tudo parece resolvido e com final feliz ou edificante, dá-se uma reviravolta na página seguinte, com remate ora irónico, ora malicioso, por vezes sardónico... como sucede com aquela cidade desconhecida: «Havia uma cidade que ninguém conhecia porque permanecia anónima. Um dia um paparazzo apanhou-a nua, num barco de férias, ao lado do presidente da câmara da cidade rival. Ficou logo famosa.» (p. 34)  
Joana Bértholo, Havia -- Histórias de Coisas que Havia e de Outras que Vai Havendo, Lisboa, Caminho, 2012

um "eu" antigo

«Uma voz longínqua, débil, como se saísse do centro de uma montanha e chegasse até Soriano, filtrada pela terra, discordava, vagamente, do que a irmã e o filho lhe diziam. Mas ele transigia, em obediência a uma preguiça espiritual que, outrora, não tinha. E a sua discordância parecia vir mais de um "eu" antigo, que jazia dentro dele, apagado como um resíduo de carvão, do que do seu "eu" presente, daquele que nesse momento vivia.»

Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)

quarta-feira, julho 09, 2014

um sentido por fazer

Resistência a quê? À banalização, à grandiloquência, ao onanismo autocomiserativo, à prostituição da palavra e do sentido. A poesia basta-se na sua precisão e comunica-se apenas disso. Para Nancy, a poesia, degradada de sobresignificação, «pode perfeitamente encontrar-se onde não existe propriamente poesia.» O melhor de tudo: «"Poesia" não tem exactamente um sentido, mas antes o sentido do acesso a um sentido a cada momento ausente, e transferido para longe. O sentido de "poesia" é um sentido sempre por fazer.»
Jean-Luc Nancy, Resistência da Poesia, tradução de Bruno Duarte, s.l.,Vendaval, 2005.

terça-feira, julho 08, 2014

quixotismo

«Não durmo nessa noite. É um diálogo entre mim e a consciência. Decido oferecer-me para partir, e ao dia seguinte, em carta ao Ministro da Guerra, Norton de Matos, declaro-lhe sacrificar a essa grande obrigação os sagrados deveres de família, pois entendo que esta guerra terá para o bem da Humanidade consequências tamanhas, quais ninguém  mesmo pode prever desde já.»

Jaime Cortesão, Memórias da Grande Guerra (1919)

Harrison & McCartney

Balada característica da primeira metade da década de 1960. McCartney é o autor, percebe-se; e o riff, segundo este revelou, é de Harrison -- também.

uma sombra triste

«Nesse ano funesto, o viúvo encurralou-se no degredo das terras e durante meses o viram cavalgar às tardes, solitário, por atalhos de monte e urze, espaldeiras de serras e cangostas pedregosas, como uma sombra triste, acabando de desbotar ao sol um tabardo de cetim preto.»

Carlos Malheiro Dias, Paixão de Maria do Céu (1902)

segunda-feira, julho 07, 2014

Viva a emancipação dos povos!

Björk, política, grita pelos povos oprimidos. Está muito bem, por mim (lindas legendas gregas). Também gosto de ouvi-la a partir dum ponto de vista mais individual, libertário.

domingo, julho 06, 2014

água corrente

«O café que eu tomara perto da meia-noite fazia efeito fora de tempo. Que raiva, ter gasto a última vela! No isolamento absoluto da noite, as matérias do curso costumavam entrar-me pelo espírito dentro, com uma fluidez e limpidez de água corrente. Mas assim, sem luz, tinha apenas o recurso de ir repetindo, de memória, o que estudara antes de adormecer em cima do livro.»

Francisco Costa, Cárcere Invisível (1949)

glória ardente

«Rita era uma formosura, que ainda aos cinquenta anos se podia prezar de o ser. E não tinha outro dote, se não é dote uma série de avoengos, uns bispos, outros generais, e entre estes o que morrera frigido em caldeirão de não sei de que terra da mourisma; glória na verdade um pouco ardente; mas de tal monta que os descendentes do general frito se assinaram Caldeirões

Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862) 

sábado, julho 05, 2014

Sou para mim como um segredo antigo
Teixeira de Pascoais

sexta-feira, julho 04, 2014

amigo leitor:

«O meu conto é amador de sangue azul; adora a aristocracia. E o leitor há-de peregrinar comigo pela alta sociedade; hei-de levá-lo a um ou dois bailes e despertar-lhe o interesse com mistérios, amores e ciúmes dos que se armazenam por esses romances de armar ao efeito.»

Álvaro de Carvalhal, Os Canibais (1868)

quinta-feira, julho 03, 2014

criador & criaturas

Hergé e Quim e Filipe (Quick et Flupke)

Sophia de Mello Breyner Andresen no Panteão

O Panteão Nacional, que já se engrandecera como nunca antes com a deposição nele dos restos mortais de Aquilino Ribeiro,  ganhou uma aura, digamos, etérea. A literatura de Sophia de Mello Breyner Andresen, prosa e poesia, é elevada, porque absorve e reflecte o real sem cair em panfletarismo ou solipsismo; é magnífica prosa porque vai ao cerne e tem uma dimensão metafísica sem cedências.

quarta-feira, julho 02, 2014

um embaixador pelintra

Após a Revolução de 1688, em Inglaterra, D. Pedro II incumbiu o Conde de Pontével de acompanhar o regresso a Portugal da viúva de Carlos II, Catarina de Bragança, sua irmã, tendo para o efeito obsequiado D. Nuno da Cunha de Ataíde com generosas "ajudas de custo".
Chegado a França, este foi confrontado com a impossibilidade do regresso imediato de D. Catarina, pelo que ficou por Paris, aguardando por instruções.
José da Cunha Brochado conta ser a avareza de Pontével de tal forma exacerbada, que o comportamento do aristocrata -- recorde-se, embaixador do rei de Portugal -- envergonhava, por, em tudo, do alojamento ao modo como se fazia deslocar, ser indigno dessa condição. Não esqueçamos, também, que estamos em plena corte de Luís XIV, o Rei-Sol, na qual se codificou a etiqueta -- que era muito mais do que um regulamento de boas maneiras --; e que as atitudes impróprias de um representante do Pacífico, comprometiam o estatuto do país e do seu soberano.
Brochado termina este apontamento "calando mil outras indignidades", informando que o conde aproveita boleia no navio para Lisboa do recém-nomeado embaixador de França em Portugal, que tudo tentou para eximir-se ao frete, sem sucesso, lançando aquele mão dos "mais infames meios" para ser bem sucedido, acabando por sujeitar-se "a vir mal acomodado, e de uma maneira indecente ao seu carácter." (isto é, categoria).

Início: «Resolvendo a Rainha D. Catarina voltar para Portugal depois da última revolução de Inglaterra mandou El-Rei o Conde de Pontével para a conduzir em qualidade de Embaixador a quem deu grossas ajudas de custo.»

Um parágrafo: «Sendo Paris uma Corte em que todo o mundo anda em carroça, ele andava a pé sem nenhuma autoridade, imaginando que em levar diante de si os seus Gentis-homens mal vestidos, tinha a equipagem que lhe bastava; e sendo advertido que devia alugar uma carroça, respondeu muito deveras que queria fazer exercício, como se este se fizesse andando atropelado pelas ruas, e fossem para isso piores os passeios, e os jardins públicos.»

Memórias de José da Cunha Brochado, edição de Mendes dos Remédios [1909], fac-símile, Cascais, Câmara Municipal, 1996, pp. 1-4. 

memória de inverno

«A minha tia Suzana era um pequeno oásis no meio da desolação daquele deserto sem sol. Sim, era um deserto sem sol e sem areia porque tudo estava sempre cheio de nuvens, a chuva deixava ficar a humidade no tempo e a minha memória, na sua autoflagelação, só me fazia recordar coisas passadas no Inverno.»

António Alçada Baptista, Tia Suzana, Meu Amor (1989) 

terça-feira, julho 01, 2014

E as miúdas, pá!?...

Grande jogo, o Alemanha-Argélia! Até estava com vontade que os nossos irmãos berberes mandassem os alemães mais cedo para casa. Mas, depois, olhei para as bancadas, e só vi homens. E pensei: nã!, civilizem-se, e depois conversamos.

Martin Schulz

E apesar de tudo, hoje senti-me altamente sistémico, quando Martin Schulz foi eleito presidente do Parlamento Europeu, pela combinação entre PPE e PSE. Bastou-me ouvir na rádio que alguns deputados euro-cépticos, onde se inclui a escória da extrema-direita, esse rebotalho da política, levantaram-se e viraram as costas ao simpático socialista alemão (é livreiro...), para me assomarem os arroubos de liberal, libertário e libertino (parafraseando um blogger brasileiro), e pensar: nã, eu não vou contribuir para dar corda a estes selvagens.

Sarkozy

A detenção de Sarkozy é a consequência óbvia das más companhias de que se rodeiam as forças políticas sistémicas como forma de alcançar o poder. Da alta finança sem rosto nem princípios ao submundo do tráfico e do crime, sem princípios nem rosto. E o lixo é geral. Em França, na Inglaterra, e por cá também.

Carlos do Carmo

A sociedade do espectáculo premiou-o com um Grammy. Independentemente da importância que a distinção tenha -- e tem muita na sociedade do espectáculo --, o que interessa é que o fadista é grande e, tal como Amália, quanto mais velho melhor canta.

because

George Martin, o produtor (e 5.º Beatle) no cravo eléctrico, e um estupendo arranjo vocal. E sintetizadores (Harrison). No maravilhoso e inolvidável e sobre todos icónico Abbey Road (1969).

deformidades

«Na sala pegada, de tecto abaulado, um candeeiro de petróleo alumia outras figuras. São as visitas de enterro: velhas, dois homens, um padre, todos de negro, hirtos e solenes, em roda, nas cadeiras da sala e no canapé de palhinha. De quando em quando uma boca mastiga no escuro. A luz bate-lhes de chapa, ilumina-os como retratos: certos pedaços de fisionomia ressaltam, avançam, outros recuam na sombra. As figuras cerimoniosas são disformes, lembram caricaturas, e os traços exagerados exprimem egoísmo, avareza e secura.»

Raul Brandão, A Farsa (1903)

segunda-feira, junho 30, 2014

música para o fim dos tempos

II andamento do Concerto para Orquestra (1943) de Béla Bartók. Eugene Ormandy com a Orquestra de Filadélfia (1964). Para o fim dos tempos.

o mascar metálico da máquina

«Apenas se ouvia o chiar monótono de algum carro de bois que atravessava o povoado vizinho. Qualquer ave que cortava para o canavial, pardal ou tordo, desaparecia num lento sossego de asas. Caíra sobre a terra essa soberana quietude que é prenúncio dos grandes recolhimentos. Ainda não era tudo crepúsculo e, apesar disso, o dia deixara já de existir. Unicamente o Vilarinho, sentado à máquina, que não cessava no seu mascar metálico, dava exemplo de vida em incessante labutar no seu mester de alfaiatar.»

Guedes de Amorim, Aldeia das Águias (1939)

sábado, junho 28, 2014

speed

Art Blakey
O tema é de Miles, que sola primeiro; segue-se Julian Cannonball, depois em diálogo, sempre sustentados impecavelmente pela secção rítmica, Jones, Jones & Blakey. O solo de Hank é exquisite; e é dos diabos o speed de Art Blakey nos pratos, pelo minuto 3'58"...


restaurar na velhice a adolescência

«O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.»
Machado de Assis, Dom Casmurro (1899)

sexta-feira, junho 27, 2014

da infância

Reminiscência intensa da infância, do dia-a-dia familiar metodicamente organizado com pulso matriarcal. A casa era das mulheres, da mãe, das criadas; pai e filho tinham de haver-se com aquele despotismo funcional, desse por onde desse, pelo alheamento ou deserção do lar, no caso do progenitor; pela revolta do filho através da indisciplina, raiz do comportamento futuro do narrador. Até que doença grave da criança leva a boa da mãe a deixar para trás a rigidez dos planos domésticos, aos quais todos se submetiam, para velar e zelar pelo filho, em perigo de vida. Era o tempo da II Guerra, dos noticiários da BBC. Coincidente com a paz, dá-se a cura do petiz, originando novo reequilíbrio naquele microcosmos.

O incipit: «Eram terríveis as rotinas, quase um rito iniciático, uma sagração.»
um parágrafo: «De certo modo não havia lugar para o pai nem para mim. Havia lugar para a nossa presença na ordem incessante dos ritos, a horas certas. Não para as cavalgadas solitárias que cada um tinha necessidade de fazer sem ser interrompido pela tarefa do dia. Mesmo que fosse o dia de receber visitas, com chá e bolos. Não tínhamos direito à nossa desordem interior, éramos prisioneiros de um espaço constantemente invadido por obrigações cujo sentido não podíamos entender. Não era por mal, era assim.»

Manuel Alegre, «A grande subversão», O Homem do País Azul [1989], 7.ª ed., Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2009, pp. 49-56.

quinta-feira, junho 26, 2014

cantigas do êxodo

Canção de partida, nesse ano de 1973 -- o mesmo em que Assis Esperança publicou o romance Fronteiras --, ano ainda de emigração, do êxodo da miséria. O tema é lindíssimo, com um soberbo arranjo de metais. Do álbum Venham Mais Cinco.



a andar para trás




A criação de Astérix foi um achado. Gauleses irredutíveis ao ímpeto marcial do Império Romano, auxiliados nessa atitude de resistência por uma misteriosa poção mágica que atribui a quem a toma uma força sobre-humana. Criação servida pela inteligência de Goscinny, permitindo vários níveis de leitura, possibilitando que crianças e adultos a fruíssem de acordo com a informação que tivessem. As próprias alusões à realidade francesa do momento eram torneadas sem dificuldade pelos leitores de outras nações.
Acresce um estilo de enorme amplitude plástica de Uderzo, refinando-se de álbum para álbum com crescente subtileza, ilustrando na perfeição o espírito goscinnyano. Após a morte de René, Uderzo foi muito criticado na sequência que empreendeu a solo, mas nem sempre (ou quase nunca) justamente: A Odisseia de Astérix ou As Mil-e-Uma Noites de Astérix, por exemplo, estão ao melhor nível do falecido argumentista -- recorde-se, um dos maiores da história da BD...
E este Astérix Entre os Pictos? Digo já que a leitura foi agradável, a ideia-base é boa (Astérix e Obélix visitam, por força das circunstâncias, mais uma paragem do mundo antigo, desta vez o território da actual Escócia); mas nem Ferri é Goscinny nem Conrad é Uderzo. Argumento e desenho funcionam, embora sem rasgo; perdeu-se o espírito, um wit, uma malícia muito própria dos autores originais, presentes desde o já distante Astérix, o Gaulês (1961). É como se a dupla Goscinny & Uderzo tivessem recuado ao tempo do Humpá-pá, o Pele-Vermelha (1958) -- criação notável, aliás --, como se Astérix fosse uma série característica de revistas como Tintin  ou Spirou (mais juvenis) e não daquela a que realmente pertenceu, a Pilote, chefiada pelo próprio R.G. (não confundir...)...

quarta-feira, junho 25, 2014

como era grande

«Ficaram olhando. Como era grande a casa do coronel... E morava tão pouca gente ali. O coronel, a mulher, a filha e o filho, estudante, que nas férias aparecia elegante, estúpido, tratando os trabalhadores como escravos. E olharam as suas casas, as casas onde dormiam. Estendiam-se pela estrada. Umas vinte casas de barro, cobertas, pela palha, alagadas pela chuva.»
Jorge Amado, Cacau (1933)

terça-feira, junho 24, 2014

garçons urgentes

«O proletariado negro se expandia, comemorando o Natal. Satisfeito, o alemão do bar se multiplicava em chopes, expedindo, para aqui e para ali, garçons urgentes.»
Cyro dos Anjos, O Amanuenese Belmiro (1937)

O Vale do Riff - Don Henley, «The End Of Innocencse»


daqui

segunda-feira, junho 23, 2014

reciclagem

«Logo a seguir à revolução, em Abril do ano anterior, civis barbudos e soldados de cabelo comprido e camuflado em tiras vigiavam as estradas, revistavam automóveis, ou desfilavam lá em baixo, em bando, nas pracetas, comandados por um desses microfones incompreensíveis de sorteio de cegos que o marxismo-leninismo-maoismo reciclara.»
António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)

de Castela não se vê o mar



Castilla, de Azorín, publicado em 1912, é um livro que peneira a alma castelhana, com um estilo único de poesia e melancolia que me faz muito recordar o seu compatriota e contemporâneo (e Prémio Nobel) Juan Ramón Jiménez, admirável poeta.
De Castela não se vê o mar. «El mar» é um dos capítulos desta obra preciosa. Castela está fechada sobre si mesma, nos povoados ermos e nas estradas poeirentas, distante da enigmática imensidão para lá da linha do horizonte, do bulício portuário estuante de vida, e dos acidentes que ela, a vida, traz.


O incipit: «Un poeta que vivía junto al Mediterráneo, ha plañido a Castilla porque no puede ver el mar.»
um parágrafo: «No puede ver el mar la vieja Castilla: Castilla, con sus vetutas ciudades, sus catedrales, sus conventos, sus callejuelas llenas de mercaderes, sus jardines encerrados en los palacios, sus torres con chapiteles de pizarra, sus caminos amarillentos y sinuosos, sus fonditas destartaladas, sus hidalgos que no hecen nada, sus muchachas que van a pasear a las estaciones, sus clérigos con los balandranes verdosos, sus abogados -- muchos abogados, infinitos abogados -- que todo lo sutilizan, enredan y confunden. Puesto que desta ventanita del sobrado no se puede ver el mar, dejad que aquí, en la vieja ciudad castellana, evoquemos el mar. Todo está en silencio: allá en una era del pueblo se levanta una tenue polvareda; luego, más lejos, aparece la sierra baja, hosca, sin árboles, sin viviendas. Cómo es el mar? Qué dice el mar? Qué se hace en el mar? Recordemos, como primeira visión, las playas largas, doradas Y solitarias; una faja de verdura se extiende, dentro en la tierra, paralela al mar; el mar se alleja inmenso, azul, verdoso, pardo, hacia la inmensidad; una banda de nubecillas redondeadas parece posarse sobre el agua en la línea remotísima del horizonte. Nada turba el panorama. La suave arena se aleja a un lado y a otro hasta tocar en dos brazos de tierra que se internan en el agua; las olas vienen blandamente a deshacerse en la arena; pasa en lo alto, sobre el cielo, una gaviota.»
Azorín, Castilla, edição de Inman Fox, 14.ª ed., Madrid, Editorial Espasa Calpe, 2004, pp. 153-158.







passeatas de blogger

Antologia do Esquecimento: Mary Shelley;
Delito de Opinião: Uma nova definição de futebol;
Medievalists.net: Medieval Drinking Horns;
Robert Wyatt and Stuff:  Håkon Kornstad Tenor Battle at Nattjazz 2014.

domingo, junho 22, 2014

muita experiência e muita pimenta

«Vicente Morosa, primo daquele Antunes Melgaço que morreu na defesa de Diu, propôs que contássemos, enquanto a noite passava, alguma coisa do muito que tínhamos visto pelo mundo, e Pedro Costa, um homem de muita experiência e muita pimenta e que se preparava para regressar a Portugal, onde nunca chegaria por não ter sido essa a vontade de Deus, disse que Gil Cabreira, pelo que já lhe ouvira, era o homem indicado para começar.»
Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso [1982]