«Um dos seus prazeres consistia em analisar-se como o conteúdo de todo um passado, elemento onde reviviam as cavalgadas das gerações, onde a contradança das afinidades vibrava uma vez mais, aptidões, gostos, formas que, como um recado, se transmitem, se perdem, se desencontram, surgem de novo, idênticos à versão de outrora.» Agustina Bessa Luís, A Sibila (1954) - «Arcara com horas terríveis e amargas, bebera muitas lágrimas, sem deixar verter uma só, desde o dia em que o pai entrara ao portão da quinta, pronto a morrer, às costas do Manel Fandango, sem queixa que se lhe ouvisse do corpo esfrangalhado.» Alves Redol, Barranco de Cegos (1961) - «Um largo, aquilo a que verdadeiramente se chama largo, terra batida, tem de ser calcado por alguma coisa, pés humanos, trânsito, o que for, ao passo que este aqui, salvo nas horas da missa, é percorrido unicamente pelo espectro do enorme paredão de granito que se levanta nas traseiras da sacristia.» José Cardoso Pires, O Delfim (1968)
quarta-feira, maio 24, 2023
segunda-feira, maio 22, 2023
domingo, maio 21, 2023
"de tudo tanto gostar"
«De perfumados e frescos, os lençóis tinham-na levado, muita vez, a enrolar-se neles, dos pés ao nariz, para lhes sentir bem o contacto, e ainda hoje se lembrava da meia dúzia de dias em que desejara apressar a aproximação da noite e inventara pretextos para amiúde voltar, durante a tarde, àquele seu aposento, a olhar demoradamente tudo, de tudo tanto gostar.» Assis Esperança, Servidão (1946) - «Portão e caminho até ao terreiro, sob a latada, quisera o dono continuassem escalavrados como no tempo ido, em que só ali vinha, e nem sempre, quando era pelas vindimas e varejadas de castanhas, lá raro pela feitura do azeite.» Tomaz de Figueiredo, A Toca do Lobo (1947) - «Lucinda pôs-se de pé, a farpa acertara-lhe e cheio; mas de súbito quebrou, recaiu sentada na borda da cama e desatou a chorar com a cara nas mãos.» Francisco Costa, Cárcere Invisível (1949)
apesar do crowdfunding para comprar botas, os russos tomaram Bakhmut, e os americanos lutaram até ao último ucraniano (ucranianas CLXXXVI)
Entretanto, em Hiroshima (em Hiroshima...), Biden autorizou que os países que o queiram fazer cedam os F16 à Ucrânia. Até que os aviões possam ser utilizados, daqui a alguns meses, a Ucrânia continuará a ser bombardeada, os ucranianos continuarão a lutar para os americanos, para não falar que terão os Sukhoi à espera deles.
Entretanto, com o carnaval da comissão parlamentar de inquérito, nem se deu pela visita do sabujo do Stoltenberg a Lisboa. Veio pedir os nossos F16? E nós?, vamos obedecer, como de costume?
sábado, maio 20, 2023
quinta-feira, maio 18, 2023
sempre grato à CNN-Portugal, mas aquilo já faz rir (ucranianas CLXXXV)
A CNN internacional é o espelho da Fox News: centrais de desinformação e propaganda travestidos de jornalismo. Cloacas comunicacionais destinadas ao americano médio, espécie cujos órgãos vitais são a boca, o estômago e o intestino grosso. Por cá, como tenho dito há um interessante critério editorial, que, apesar de veicular os despachos de Atlanta, e ter um conjunto de pivôs incapaz (excepção feita a Cristina Reyna, excelente profissional, e pouco mais), conseguem um equilíbrio nos comentadores que não vejo em outros canais. Faltando alguns que devem ser assinalados, sempre os militares (Agostinho Costa, Carlos Branco e Mendes Dias) e (poucos) académicos decentes (Tiago André Lopes, Maria João Tomás, e dois cujos nomes nunca consigo recordar, um da Universidade Autónoma, outro do Porto, não sei de que escola).
Já aconteceu rir-me às gargalhadas com uma pobre de Cristo muito bonitinha, ora a apanhar bonés ora com o fácies de incredulidade quando o que estava a ouvir não acertava com o guião da casa-mãe.
Ontem, particularmente estúpido: enquanto o inserçor "informava", em português macarrónico qualquer coisa como "Kiev avisa (sic) que o exército russo é incapaz", ao mesmo tempo o major-general Carlos Branco relatava como os ucranianos estavam à rasca, em vários pontos daquela frente com mais de mil quilómetros.
Quanto mais o cidadão comum se torna descrente e percebe que está a ser manipulado (Kiev a arder, mas os mísseis Patriot (mach 4, 4,5) interceptam todos os Kinzal russos (mach 10 ou 12...) -- uma impossibilidade, portanto), mais o Ocidente Alargado (ou seja, os Estados Unidos e os seus protectorados europeus, incluindo Portugal) insistem na mentira criminosa às pessoas nesta guerra entre a Rússia e os Estados Unidos, feita à custa dos cidadãos europeus e, por enquanto, das vidas dos cidadãos ucranianos comuns, de armas nas mãos mas não daqueles homenzinhos na casa dos trinta e quarenta anos, que se passeiam na estrada Boca do Inferno - Guincho, em carros de luxo).
Depois do maior ataque aéreo a Kiev (cirúrgico, com um número de baixas civis no zero ou próximo disso), só me vem à memória a notícia veiculada pelas televisões, claro está, da história de que o exército russo promoveu um crowdfunding para comprar botas -- entre muitas outras pérolas para enganar os inocentes.
P.S.: a propósito de bombardear Kiev: tenho a certeza de que muitos telespectadores já se perguntaram: como é possível o Zelenski, nos intervalos de andar a laurear a pevide, continuar a abrigar-se no palácio presidencial intacto?
P.S.2: Estou muito interessado na visita do caniche do Pentágono a Lisboa, e s no que fará ou dirá o governo português.
o infame D. Henrique
Um ilustrador italiano, Stefano Morri, com alguma ingenuidade, quase disneyesca, ao realizar a encomenda do Vaticano para a celebração filatélica das Jornadas Mundiais da Juventude, lembrou-se do Padrão dos Descobrimentos e daquele belíssimo conjunto escultórico de Leopoldo de Almeida -- e vai de pôr o papa Francisco no lugar do agora infame D. Henrique, e um conjunto de miúdos no encalço com a bandeirinha republicana de Portugal. "Estado Novo!", gritaram os iletrados das ciências moles. O autor, italiano, repete-se, é de um país que tem mais arte e história num beco do que o todo o rectângulo da parvalheira nacional. Há ingenuidades que acabam nisto.
A Igreja, medrosa, retirou o selo, em que não faltou um bispo zeloso a fazer de progressista acompanhando aquele idiota que há tempos, para ser falado, atirava com a demolição do monumento. Por mim, está na altura de pô-lo na barra lateral, não só para chatear, mas porque gosto mesmo daquilo.
quarta-feira, maio 17, 2023
a mão certeira de Gineto & outros caracteres móveis
«Amigos tinha-os às vezes nos companheiros que precisavam da sua mão certeira para matar galinhas à solta ou colher frutos em pomares recatados.» Soeiro Pereira Gomes, Esteiros (1941) - «Via o Doninha, já desempregado, mas ainda com a farda de carteiro, remendada e sebenta, arrastando-se pelas portas das vendas, inútil, com as pernas inchadas de buracos que não saravam.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943) - «A recordação do maricas acordava nela a soberba dos Clarks, aquele sentimento maciço, enjoado e um pouco cínico, que contribuíra para correr Januário Garcia da casa Clark & Sons e envolvia a família Garcia num desdém mais snob que odiento.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)
terça-feira, maio 16, 2023
segunda-feira, maio 15, 2023
circunscrito no mundo & outros caracteres móveis
«Quando dei por mim, pela minha situação de dependência, de circunscrição no mundo (grandioso e imensurável, mas proibido) fiquei estupefacto e comecei a chorar.» José Marmelo e Silva, Sedução (1937) - «Falava com os olhos iluminados, um pouco em alvo, como quando recordava as delícias do último sonho...» M. Teixeira-Gomes, Maria Adelaide (1938) - «Avizinhavam-se da estação: cruzaram uma sentinela, de baioneta calada, à porta dum quartel; por detrás da grade uivava um cão.» Joaquim Paço d'Arcos, Ana Paula (1938)
domingo, maio 14, 2023
sexta-feira, maio 12, 2023
um dia de libertação
A aprovação da Lei da Eutanásia pelo Parlamento, sejam quais forem os problemas a jusante -- que devem ser sempre acautelados e minimizados --, e antevendo inclusivamente vários formas sabotagem, assinala, dê por onde der, um importante momento de libertação de todos os indivíduos até agora feitos reféns por fantasmagorias de cariz religioso, que não perfilham e muito até repudiam, como é o meu caso.
a propósito da entrevista de Dugin ao 'Expresso' (ucranoanas CLXXXIV)
A entrevista a Aleksandr Dugin publicada hoje no Expresso (um furo jornalístico) mostra como a guerra entre os Estados Unidos e a Rússia na Ucrânia é uma contenda cultural e civilizacional, dificilmente conciliável, não apenas dos dois imperialismos, mas entre um conservadorismo nacionalista, quase ou mesmo reaccionário, e um financismo apátrida e amoral, em que tudo se compra e vende, a começar pela dignidade individual.
quinta-feira, maio 11, 2023
por uma vez, os polacos quase têm razão
Salvo circunstâncias muito especiais (como foi o caso da Ponte Salazar, autoglorificação ou engraxamento, qualquer deles abusivo porque com o dinheiro dos contribuintes, como agora se diz), sou contra o rebaptizar de ruas, escolas, monumentos, regiões, países. Aquele nome, Kaliningrado, é deveras horroroso, independentemente dos defeitos ou qualidades dos homenageados. Faz-me lembrar a estúpida cunhagem de povoações africanas com nomes como Carmona (sic), Salazar (sic!), Lourenço Marques (sic) ou até Sá da Bandeira -- um nome grande do liberalismo português. Mas os polacos só têm meia razão: a Królewiec que eles pretendem voltar a usar soa a qualquer coisa como unguento para os calos. E pensar que o nome verdadeiro da cidade é Conisberga, a Königsberg do Kant, relógio e filósofo da terra...
150 portugueses: #7. SANCHO I, o Povoador (Coimbra, 1154 - Santarém, 1211)
quarta-feira, maio 10, 2023
banalidades e votos pios em Estrasburgo (ucranianas CLXXXIII)
O Presidente da República foi discursar a Estrasburgo. Pelo resumo, ter ido ou não, dá no mesmo, apesar de aplaudido de pé pela maioria dos eurodeputados dum parlamento desacreditado. Falou do sacrifício de Julian Assange?; do exílio de Carles Puigdemont na Europa dos nossos valores?; do estranho caso duma presidente da Comissão que se comporta como um governante eleito (e ao serviço dos americanos)? Não falou. Então o que foi Marcelo Rebelo de Sousa lá fazer? Nada -- ou mostrar-se atilado e obediente a quem efectivamente está a destruir a União Europeia como ideia, que não é certamente o Putin, embora este também pudesse gostar. Mas quem precisa de inimigos com governantes e aliados destes? Ainda ontem, Olaf Scholz veio dizer que é preciso acabar com a regra da unanimidade. Está-se mesmo a ver o que será ou seria (a situação pôr-se-á cada vez com maior acuidade, é uma questão de esperar). No fim, para tornar tudo mais grotesco, toca de convidar a Metsola. E é esta vacuidade que Marcelo tem para nos dar.
Mesmo sem saber até onde chegará, vale mais uma declaração de Lula no saguão de uma embaixada em Londres do que todas as frases de cómica banalidade exaltante proferidos pelos líderes deste deprimente Portugalinho. E isto não tem tanto que ver com a dimensão dos países (o Brasil com Bolsonaro não era ouvido por ninguém ou então era desprezado, mesmo pelos Estados Unidos), mas dos governantes.
Portugal, país médio europeu, que só é irrelevante pela irrelevância das élites governantes, poderia ter uma voz que o distinguisse, mesmo consciente de todos os constrangimentos e da nossa situação geográfica, que nos obriga a ter uma relação especial com os EUA, assim como a Ucrânia terá sempre de relacionar-se com a Rússia, agora ou daqui a um século. Claro, há um plano declarado por estes líderes geniais que nos couberam em sorte que tem a derrota da Rússia como desiderato, que na verdade é uma neutralização/domesticação pretendida pelo americanos e papagueado por todos os políticos de meia-tigela. Que Portugal não tire partido da sua história de laços estreitos com o Brasil e os estados africanos para ter uma voz diferenciada (e não obrigatoriamente dissidente) e positiva para a própria Europa, diz muito de um estado de coisas que passa por meter a Metsola numa reunião do Conselho de Estado.
terça-feira, maio 09, 2023
Scholz no dia da derrota (ucranianas CLXXXII)
No Parlamento Europeu, Scholz discursa lindamente: certamente não queremos voltar aos tempos em que um poder avassalador impõe a sua vontade aos restantes. Lembrei-me logo da primeira visita do recém-empossado chanceler aos Estados Unidos visivelmente encolhido enquanto Biden lhe diziam em público que a questão os gasodutos era para ser tratada, ou então eles, americanos, disso se encarregariam. Como de resto sucedeu.
Sobre o discurso do Putin, a sua fixação: os patifes dos americanos e o wokismo que exportam, que lhe é salutar e visceralmente repugnante.
segunda-feira, maio 08, 2023
uma 'voltigeuse' banal e outros caracteres móveis
«Depois de uma voltigeuse banal furando arcos de papel de seda, um intermédio cómico pelo primeiro clown, prodígios de equilíbrio duma criança sobre um arame, cães sábios, barras fixas, um salafrário num cavalo em pelo.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891) - «E enquanto as notas lhe passam para a mão, mergulha os olhos abstractos nos olhos da mulher.» João Gaspar Simões, Elói ou Romance numa Cabeça (1932) - «Como antes se disse: é completamente impossível conhecer-se inteira uma árvore genealógica; o que pode é cada um possuí-la toda no seu carácter.» José de Almada Negreiros, Nome de Guerra (1938)
domingo, maio 07, 2023
da inteligência dos poetas e outros caracteres móveis
«O povo rude de Carteia não podia entender esta vida de excepção, porque não percebia que a inteligência do poeta precisa de viver num mundo mais amplo do que esse a que a sociedade traçou tão mesquinhos limites.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844) - «Por quantas maldições e infernos adornam o estilo dum verdadeiro escritor romântico, digam-me, digam-me: onde estão os arvoredos fechados, os sítios medonhos desta espessura?» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846) - «O amor dos quinze anos é uma brincadeira; é a última manifestação do amor às bonecas; é a tentativa da avezinha que ensaia o voo fora do ninho, sempre com os olhos fitos na ave-mãe que a está da fronde próxima chamando: tanto sabe a primeira o que é amar muito, como a segunda o que é voar para longe.» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862) - «Henrique nem desviara os olhos para o fundo do vale, que se lhe abria à esquerda, velado pela densa névoa daquela atmosfera saturada de humidade, nem prestava atenção à agreste e selvática paisagem, do lado direito, toda encrespada de pinheirais nascentes e de espinhosas tojeiras.», Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868) - «Toda a intelectualidade, nos campos, se esteriliza, e só resta a bestialidade.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (semi-póstumo, 1901)
sábado, maio 06, 2023
150 portugueses: #6. Geraldo sem Pavor (+c.1173)
sexta-feira, maio 05, 2023
dentro do conto
«Os corredores, em seu branco infinito, se multiplicaram, brancos, brancos, brancos, atulhados de aparelhos de ventilação mecânica claramente obsoletos e tufos e tufos de algodão espalhados por toda a parte, alguns deles manchados de sangue, e ele sentira nojo, nojo, daquele branco misturado ao vermelho, onde estava a saída daquilo que parecia não acabar nunca?» Alonso Tôrres, «O labirinto branco», Sagas Mínimas (2022)
quinta-feira, maio 04, 2023
terça-feira, maio 02, 2023
a TAP como instrumento de soberania
Pôr a TAP nas mãos de privados é um golpe na já pouca soberania que o país ainda tem e uma traição. A TAP é para ser bem gerida, mas não é para dar lucro. Essa é a conversa com que os necrófagos e os seus esportulados saturam o espaço público para criar no povo a ideia da inevitabilidade de privatizar. Querem que a TAP seja uma empresa lucrativa, e já agora, os hospitais, as escolas, não tarda nada os cemitérios e as prisões... Chama-se a isto o país a saque, velha expressão, mas tão certeira.
o Oeste nunca nos larga
segunda-feira, maio 01, 2023
150 portugueses: #5. Mafalda de Sabóia (Avigliana?, c. 1125 -- Coimbra, 1158)
sábado, abril 29, 2023
a arte de começar
«Na Primavera de 1859, comprei na estação de Santa Apolónia, um bilhete da via-férrea para a Ponte da Asseca. Saudades do campo, ânsias de sorver do seio da natureza um hausto de ar puro; e, acima disto, o meu dorido amor a quantos sítios guardavam para a minha memória do coração vestígios da infância, que tão depressa passara com as flores outra mais formosa Primavera... A que vem isto?!... É a saudade, leitor! Se a sente, se a já sentiu, recorde-se, e perdoe-me.» Camilo Castelo Branco, O Romance dum Homem Rico (1861)
sexta-feira, abril 28, 2023
sobre os aeroportos
Registei a ocorrência dum economista na Comissão Técnica Independente. Mas que raio faz lá um economista? E um médico, nâo?, ou quem sabe um veterinário. De qualquer modo, só me interessa ouvir o que tem para dizer João Joanaz de Melo.
quinta-feira, abril 27, 2023
quarta-feira, abril 26, 2023
150 portugueses: #4. Gualdim Pais (Amares, c.1118/1120 - Tomar, 1195)
terça-feira, abril 25, 2023
caracteres móveis
«A ambição não avança um pé sem ter o outro assente, a manha anda e desanda, e, por mais que se escute, não se lhe ouvem os passos.» Raul Brandão, Húmus (1917) «A melancolia perturbante do Ofício, os sons plangentes dos órgãos, os incensos e o cantochão, as sumptuosidades do rito nas cerimónias pontificais, todo esse inquietante atavismo das religiões actuava como ópio na imaginação do novel artista.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920) «Aquele espelho barato, aquela novidade sensacional e aquela fotografia lúbrica exasperavam-me, embora ao meu exaspero se misturasse um pouco dessa piedade que me inspiram as coisas pretensiosas e miseráveis.» José Régio, Jogo da Cabra Cega (1934) «Dando à cabeça, arregalando os olhos, encrespando as sobrancelhas, mostrava Feliciana o ar entupido dum curandeiro, chamado a decifrar récipe de facultativo.» Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926) «Um raio de sol envolvia a mão rústica e calejada que ele poisara no peitoril da janela.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)
segunda-feira, abril 24, 2023
domingo, abril 23, 2023
caracteres móveis
«A princípio, esse novo cenário, todo fofo e confortável, perturbava-o; em breve, porém, Soriano se adaptara, que nem por mudar de leito os rios deixam de correr.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950) «Cálido também, despiu a loba, arremessou o cabeção, descalçou os sapatos de fivela e refocilou os amplos pés vermelhos nos propícios chinelos do escarlate mercador de panos.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854) «Marcha! Ele recomeçou o andamento, mas os seus olhos volviam, teimosos, ilegais, à fachada e à praça, como ao horizonte onde se espera que uma terra se defina sob o nevoeiro do litoral.« Ferreira de Castro, A Experiência (1954) «O que eu, sem saber explicá-lo, não compreendia e invejava, não era o que ele queria ser, mas a constância do seu desejo.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2002) «O Taveira, com todo o seu génio, era um advogado pobre no fundo de Trás-os-Montes, e o Chouriço, proprietário, ia em primeira classe ouvir Meyerbeer...» Eça de Queirós, A Capital! (póstumo, 1925)
caracteres móveis
«Ao contrário no campo, entre a inconsciência e a impassibilidade da Natureza, ele tremia com o terror da sua fragilidade e da sua solidão.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póstumo, 1901) «D. Rita pasmava da transfiguração, e o marido, bem convencido dela, ao fim de cinco meses consentiu que seu filho lhe dirigisse a palavra.» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862) «No momento em que nos associamos ao cavaleiro, caíra ele num desalento profundo, num quase convencimento de próxima aniquilação, do qual nem a loquacidade do almocreve, condimentada, como era, de pragas eloquentes e de cantigas pouco edificantes, o conseguia arrancar.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)
a miúda que veio para ficar
As crianças estão na BD desde o princípio, e com momentos altos – lembremos os Peanuts, de Charles M. Schulz. Para o franco-sírio Riad Sattouf (Paris, 1978), criador do auto-referencial O Árabe do Futuro (2014) e também realizador, nomeadamente da excelente comédia Les Beaux Gosses (2009), o mundo da infância e da juventude é um tema persistente.
Cheia de carisma e adorável criancice, Esther, nascida nas páginas do semanário L’Obs, em 2015, não é só mais uma criança nos quadradinhos; antes da personagem de papel, está Esther A., a menina de carne e osso, informante e filha de amigos do autor. Todo o espanto, toda a fantasia, todos os sonhos improváveis e todos os ‘amores’ impossíveis são maravilhosamente recriados por Sattouf: Esther tem como grandes aspirações ser loura, famosa e possuir um ipad, artefacto que o pai, um professor de ginástica com espírito crítico, lhe nega, por evidente despropósito para quem ainda nem completou os dez anos. Infelizmente para Esther, a maioria dos outros progenitores não têm a mesma opinião. Um pequeno apartamento, em que partilha o quarto com o irritante António, o irmão de 14 anos, é o seu lar. A família, remediada, completa-se com a mãe, empregada bancária e doméstica em regime pós-laboral, por isso muitas vezes cansada, e a avó, cuja casa na Bretanha é local de férias. Outro palco privilegiado é a escola, em especial o recreio. Esther tem duas amigas dilectas: Eugénia, criança rica e por vezes pretensiosa, e Cassandra, menina negra cujo pai certo dia partiu para não mais voltar.
As circunstâncias da série são as expectáveis: a recriação recorrente dos maneirismos dos adultos, a relutância pelas grosserias dos rapazes, cuja missão parece ser a de maçá-las com o seu gozo e a sua má-criação – se bem que por vezes haja qualquer coisa que as desperta. Introduzido com leveza e sempre a propósito pelo autor, a incompreensão do vasto mundo adulto da política, as manifestações incipientes de discriminação social e racial, que ainda não assimilam inteiramente, e as questões de género são alguns tópicos obrigatórios. Esther, contudo, não é a Mafalda do Quino, contestatária no seio de uma família conformista, que muitas vezes parece uma mulher pequena; Esther é sempre criança (o gag sobre o atentado ao Charlie Hebdo é um bom exemplo). A série acompanhará o crescimento da miúda, pelo que teremos oportunidade de assistir à evolução desta família.
Organizado graficamente sob a forma de gag (história humorística de uma prancha), dividido em duas páginas, o livro tem o formato de uma edição de tiras de BD. O texto, além de reproduzir as falas das personagens em filacteras (os ‘balões’), é acrescentado por geniais comentários de Esther em cursivo, que acentuam o tom humorístico.
O Diário de Esther – Histórias dos Meus 10 Anos, vol. 1
texto e desenhos: Riad Sattouf
edição: Gradiva, Lisboa, 2019
(Setembro de 2019)
sexta-feira, abril 21, 2023
Lula e o 25 de Abril: uma estrondosa vitória do populismo alarve, do oportunismo pateta e da cobardia política
As indisposições da direita que não suporta o 25 de Abril deveria ser para o lado em que os democratas dormiriam melhor. Mas não, pelo contrário: os estrebuchos de taberna de André Ventura -- a criatura que teve o gosto refinado de discursar em sessões anteriores com um cravo negro à lapela --, a agitação adolescente (e suspeita) de Rui Rocha, para se pôr em bicos de pés (ou às cavalitas do presidente brasileiro), o enconanço dos dois partidos do centrão, para não falar do enjoo do Bloco e do Livre.
O 25 de Abril perdeu uma oportunidade de brilhar, com a presença de um dos homens (de origem portuguesa, recorde-se, e presidente do Brasil), que melhor encarna o espírito da data. O que irá acontecer no hemiciclo será uma coisa cinzenta, como desde há muitos anos, que não fará jus à maior data da história contemporânea de Portugal.
Nos 50 anos da revolução, todos os países que saíram da descolonização, de Cabo Verde a Timor-Leste, deveriam estar representados ao mais altíssimo nível, convidados a discursar, pois o 25 de Abril representou a sua libertação do jugo colonial e o fim de uma guerra criminosa, com milhares de vítimas, entre portugueses e africanos. É também assim que se faz a CPLP e se dá sentido à lusofonia. Porque o meu maior orgulho com o 25 de Abril é a descolonização; foi principalmente por ela que esta se tornou uma data maior da nossa história. Mas com democratas medrosos de o serem, receosos da raiva pavloviana do salazarismo, envergonhado ou não, não podemos esperar mais do que uma espécie de liturgia de sacristia, como em anos passados.
Se não chover, talvez volte a descer a Avenida este ano, afinal é na rua que o 25 de Abril é mais bonito e faz mais sentido.
150 portugueses: #3. D. João Peculiar (Coimbra?, ? - Braga, 1175)
quinta-feira, abril 20, 2023
diz o poodle amestrado dos Estados Unidos: "O lugar da Ucrânia é na Nato" (CLXXXI)
Já sabíamos, apesar dos 136 vígaros e idiotas que vieram ao espaço público contrapor: "Nããããõ... Isso é uma coisa que não estava em cima da mesa, que disparate!..."
Sempre esteve e continua a estar, enquanto houver, para já, ucranianos para morrer e país para destruir ao serviço dos grandes valores americanos, ou esperando o tal golpe na Rússia, tantas vezes tentado.
Volto a dizer, perante esta desfaçatez, tão característica dos americanos e dos seus criados: querem meter-nos numa guerra para morrermos pelos interesses dos outros? Onde está a defesa dos interesse nacional e dos portugueses?, devemos perguntar aos nossos divertidos PM e PR...
A OTAN é uma aliança defensiva dos estados membros, não é? -- e que por acaso integra a maior potência bélica mundial (sem falar nas duas potência nucleares médias, Inglaterra e França).
se dúvidas houvesse sobre a justeza das palavras de Lula a propósito do triste papel da União Europeia nesta guerra... (ucranianas CLXXX)
a deliberação provocatória e estúpida, hoje, do Parlamento Europeu apoiando a indiciação de Putin por deportação de crianças (!), mostra bem quão brando o presidente brasileiro foi a propósito desta cáfila que dirige a UE.*
A palavra deportação não surge por acaso: associa directamente à ocorrida com os judeus e prisioneiros de guerra usados em trabalhos forçados durante aa II Guerra Mundial, perpetrada pelos nazis. Toda a comunicação associada à guerra, veiculada pelas agências ao serviço do Pentágono, em que têm pontificado a Comissão Europeia e o Parlamento Europeu.
Lula, portanto, tem carradas de razão, independentemente da (in)eficácia diplomática do que proferiu.
* (e a maioria dos eurodeputados portugueses que ouvi? Oh, que animais...)
quarta-feira, abril 19, 2023
antologia improvável #496 - Liberto Cruz
NEM SEMPRE A LUZ É UM SINAL
Nem sempre,
Nem sempre a luz é um sinal.
Que o diga,
A louca borboleta
Que buscava o ideal.
Momento (1956) /
/Última Colheita (Poesia Reunida) (2022)
terça-feira, abril 18, 2023
segunda-feira, abril 17, 2023
150 portugueses: 2. Egas Moniz (c. 1080-1146)
Lula a dizer as coisas como elas são, para grande consternação destes parvos (ucranias CLXXIX)
O que Lula disse, tanto sobre as responsabilidades russas e ucranianas na guerra em curso, e ainda do papel dos Estados Unidos e da Nato ("a ladrar às portas da Rússia", como disse o Papa Francisco), e da União Europeia (que generosamente põe em pé de igualdade com os EUA, mas que na verdade se porta como vassala dos americanos, como diz Putin, e bem), cria a confusão dentro do Portugalório político. Só não é hilariante, porque é grave. Marcelo deve estar à rasca, como à rasca está o PS; o PSD, través dos inenarrável Rangel que dar provas de existência; Ventura incha de prosápia; o tipo da Iniciativa Liberal perdeu a oportunidade de mostrar que não é um pateta; o Bloco, até agora calado, e porventura constrangido (isto de estar no mesmo lado da barricada do Chega, não deve ser fácil). Só se safa o PCP, o único que neste particular não faz o papel de criado dos americanos.
Os custos de não ter uma política, não direi independente, o que é impossível -- o nosso lugar é mesmo na Nato, infelizmente --; mas de não se ser subserviente. Depois falem em cplp's, lusofonias e mais conversa.
domingo, abril 16, 2023
sábado, abril 15, 2023
história e bd
Os quase 900 anos de História de Portugal são uma mina que a BD portuguesa aproveitou quase sempre para obras de teor essencialmente didáctico, mas de pouco brilho narrativo. O que não seria, se este filão fosse aproveitado por argumentistas da craveira de Charlier, Greg ou Van Hamme, que por cá não houve, não se sabe bem porquê? Há excepções, claro; e uma delas foi a do saudoso Jorge Magalhães (1938-2018), que fez o que pôde. Em Giraldo o Sem Pavor (1986), Magalhães deixa brilhar um talento com 20 anos, à data da elaboração destas páginas: José Projecto (Évora, 1962), apregoado e evidente admirador de desenhadores como Auclair, Rosinski e Segrelles.
Geraldo Geraldes, “o Sem Pavor”, é uma dessas figuras reais cobertas pelo mito, uma das muitas personagens dum passado a pedir autores. Cavaleiro nobre, mercenário, chefe de salteadores, quando lhe convinha guerreava ao lado dos mouros contra os cristãos como ele. Praticante do fossado, incursão relâmpago no reduto inimigo, tinha, qual guerrilheiro, rectaguardas inexpugnáveis.
Estamos diante duma caça ao homem: depois de matar um cavaleiro de D. Afonso Henriques, Geraldo é perseguido até alcançar refúgio entre os sicários que comanda, não sem antes pernoitar numa casa isolada, onde uma mulher o aguarda. Um pretexto para desenhar cenas de combate, belas figuras humanas e animais de vário tipo, algo que Projecto faz com verificável gosto e competência.
Giraldo o Sem Pavor
texto: Jorge Magalhães
desenhos: José Projecto
edição: Futura, Lisboa, 1986
(Setembro de 2019)
sexta-feira, abril 14, 2023
De Medvedev a Kuleba (CLXXVIII)
Há dias, o antigo presidente russo Dmitri Medvedev, habitualmente um homem cordato até ao momento em que os americanos decidiram usar a elite política ucraniana nas suas jogadas estratégicas, disse, com saudável brutalidade que o estado ucraniano poderia acabar, uma vez que não interessa a ninguém.
O que o ministro dos Negócios Estrangeiros, Dmytro Kuleba, talvez em desespero, veio hoje dizer -- que o Mar Negro deve tornar-se um mar nato, como sucedeu com o Báltico, alusão à evidente derrota diplomática russa com a adesão da Finlândia, de resto já esperada -- só vem confirmar a justeza da dura afirmação do ministro russo. Outro Dmitri, agora Peskov, já respondeu
Por mim, de resto, como já tenho dito, os russos podem ir até Kiev, deixando a polaca Lvov aos polacos -- essa mesma Lvov, ou Lviv, que é tão ucraniana quanto o são Odessa ou a Crimeia.
quarta-feira, abril 12, 2023
terça-feira, abril 11, 2023
segunda-feira, abril 10, 2023
150 portugueses: Afonso Henriques (Coimbra?, 1109/1111 - 1185)
O que faz um rei medieval fazer um novo reino: o apoio da nobreza senhorial de Entre-Douro-e-Minho (Maias, Mendes, Sousas, etc.), que procuram livrar-se da pressão galega; a densidade política do território que se administra fundada, desde a formação, em 868, por Vimara Peres; a rivalidade entre Braga, primaz das Espanhas, e Santiago de Compostela; as divisões internas dentro da cristandade peninsular; as divisões internas dentro do islão peninsular (almorávidas e almóadas).
E antes e depois de tudo: uma personalidade fortíssima (arma-se a si próprio cavaleiro, como só os reis faziam, leio no verbete de Torquato de Sousa Soares, no Dicionário de História de Portugal) e uma têmpera robusta de lutador.
sábado, abril 08, 2023
sexta-feira, abril 07, 2023
o meu Amigo e poeta Manuel Matos Nunes em diálise com Drummond
a propósito do 11.º Colóquio de Pesquisas Luso-Brasileiras, em que irá participar, com blogue a seguir.
rei, estado, mar, língua e literatura -- ou o quê, quem e como se fez o povo português
É curioso verificar que o povo português é uma criação do país chamado Portugal. Ao contrário do que sucedeu com outros, que ajustaram etnia e território, os indivíduos que coabitaram no rectângulo, muito heterogéneo étnica e morfologicamente, entre o Atlântico e o Mediterrâneo (Orlando Ribeiro), que veio a chamar-se Portugal, cooperando e/ou guerreando-se eram, sucessiva ou simultaneamente, iberos, celtas, romanos, germânicos suevos e visigodos, berberes, árabes, judeus... Como escreve algures José Mattoso, portugueses designava, na Idade Média quando o reino se constituiu, os súbditos do rei de Portugal.
Não oferece dúvidas, porém, a efectiva e significante (embora actualmente nada pujante, também por inépcia dos múltiplos desgovernos) existência de um povo português, forjado ao longo dos séculos habitando maioritariamente no continente europeu num território cuja primeira parcela, até Coimbra, se tornou de facto independente desde há 900 anos, que se cumprirão daqui a um lustro, em 2028.
Este povo, que antes não existia, deve o facto de ser uma realidade não despicienda, apesar de tudo, no mundo global em que vivemos, a dois factores: a criação do estado e a codificação da língua portuguesa, não apenas como veículo, mas como arte. E a perenidade que parece ter alcançado, permitindo-lhe chegar ao milénio (espera-se, pois em História nada é imutável; e chegando lá, em que condições?...), assentou no(s) rei(s) e no exército que lhe assegurou a independência; a localização atlântica, cativando-o para um empreendimento a que não é errado caracterizar como gesta (termo usado como substantivo e não adjectivo), nas suas glórias e misérias, traduzindo-se na expansão extracontinental e na descoberta de territórios, povos e geografias insuspeitados, que tornando a tal perenidade de memória inapagável e irremovível enquanto a humanidade existir. São os séculos XV e XVI, de Henrique o Navegador e Gil Eanes, a Afonso de Albuquerque, "o Leão dos Mares" e Fernão Mendes Pinto.
Finalmente, a língua, vinda do latim e separando-se do galego pela conjuntura politica, património e identidade, que se espalhou; e através da língua, a literatura, em especial a poesia. Se nas restantes artes, não nos podemos equiparar aos grande países -- embora nomes respeitáveis não faltem, da pintura à música, na literatura só há um Camões e um só Fernando Pessoa; e em torno deles, um acervo gigantesco de literatura, dos trovadores medievais aos prosadores dos séculos XIX e XX.
O povo português, que antes de existir Portugal não existia ele próprio, é o resultado miscigenado de tudo isto.
quinta-feira, abril 06, 2023
terça-feira, abril 04, 2023
os indivíduos na História
Uma historiografia da qual os indivíduos estão ausentes, não me interessa para nada. Se a história apologética ou mitográfica das grandes figuras já foi ultrapassada há um século, não menos falha se mostrou a historiografia que varreu o indivíduo das estruturas. O menosprezo do papel do indivíduo da história de há muito que que se revelou insuficientíssimo para a tentativa de ler o passado. A fundação de Portugal nunca se perceberia sem a figura de Afonso Henriques, primus inter pares entre a nobreza de Entre Douro e Minho, tal como Luís XIV e Versalhes não são explicáveis sem a Fronda e os passos do jovem rei nela. Nem os Descobrimentos são entendíveis sem o ouro e a fé.
segunda-feira, abril 03, 2023
cheiro "a convés lavado de fresco"
«Passado Toulon, que ora cheira a pólvora, ora a convés lavado de fresco, e ostenta em cada passeio, em cada Café, mulheres que, de noite, serão sombras errantes na vizinhança do porto, atravessámos Hyères, de luminosa tranquilidade e fisionomia de comarca provinciana, onde a vida parece tão suave como as suas ruas adormecidas sob lençóis ao sol.» Ferreira de Castro, «Mónaco» (1935), Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)
domingo, abril 02, 2023
estórias dentro da História
Salamina, Lepanto, Trafalgar, nomes que ligamos imediatamente a batalhas navais decisivas na História. A maior de todas, pelos meio e homens envolvidos parece ter sido a Batalha da Jutlândia, durante a Grande Guerra, ocorrida no Mar do Norte. entre 31 de Maio e 1 de Junho de 1916, envolvendo as armadas britânica e alemã.
Esta BD de Jean-Yves Delitte (Bruxelas, 1863) não é propriamente a história desta batalha de proporções épicas e decisiva para as marinhas de ambos os impérios -- para isso, há uma contextualização completa e ilustrada em apêndice -- mas antes o relato particular de duas histórias humanas, postas em situação no antes e durante a batalha, tornando a narrativa mais próxima, pelo que representa de sacrifício, e não um relato para-historiográfico de factos e números. É o caso do comandante Thomas P. Bonham, que apenas regressado de uma missão se despede da mulher e da filha para o que seria um exercício de rotina; ou o jovem Erik (ou Eric, como insiste o pai em escrever) habitante do Mosela, território alemão desde a Guerra Franco-Prussiana, que tem o sonho de ser piloto de guerra, mas será recrutado para a marinha.
Pintor oficial da marinha belga, apaixonado pela história naval (atente-se na assinatura) Delitte é também um esplêndido quadrinista, cujos começos remontam ainda à extinta e histórica revista Tintin. Além do argumento seguro, o traço rugoso evoca os de Hermann (Bernard Prince, Comanche, etc.) ou Franz (Lester Cockney) .
Jean-Yves Delitte, Jutlândia
colecção "As Grandes Batalhas Navais"
edição: Gradiva, Lisboa, 2023
agradeço à Gradiva o envio do livro
sábado, abril 01, 2023
temos o Ventura que merecemos
Nem eu tenho grande disponibilidade mental para me debruçar sobre outra coisa que não seja a guerra na Ucrânia e o nosso papel, português e europeu, de serviçais inconscientes e cobardes dos interesses americanos, nem isto é um blogue de comentários de actualidade.
Fiquei, no entanto, como toda a gente estarrecido com o sacrifício de duas jovens mulheres Mariana (24) e Farana (49). Já nem ligo às costumeiras javardices do Ventura, com grande acolhimento entre as massas ignaras, mas também entre os herdeiros privilegiados dos fachos e salazaristas analfabetos, que, como quem muda de camisa, trocaram o civilizado CDS por um coio de trogloditas, o que revela bem a sua verdadeira natureza (Cascais, a minha terra, é um triste exemplo disso mesmo).
Os artigos de Tiago Franco no Página Um e de Telmo Correia no Novo, embora parciais, acertam nas respectivas mouches e complementam-se. O voto de pesar da Câmara de Lisboa é exemplar.









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