domingo, setembro 13, 2026

A ODISSEIA de Christopher Nolan, um grande filme antiguerra num tempo sombrio


É um filme para a História do Cinema, parece-me. Pelas opções técnicas tomadas neste ano de 2026, e o (brilhante) resultado delas. Nos estudos culturais, ficará também assinalado, pela adaptação do texto homérico, da autoria do próprio Nolan, e pelas inevitáveis discussões em torno. Haverá também um formigueiro que creio será dissipado à volta das cedências ao wokismo, irrelevâncias diante do resultado final.

A Odisseia leva-me para a infância, quando li a adaptação de João de Barros (1881-1960), ilustrada por Martins Barata (1899-1970); depois só voltei aos versos homéricos na tradução antológica de Maria Helena da Rocha Pereira (1925-2017) -- e por aí me fiquei. A epopeia cerzida pelo aedo Homero faz parte do imaginário ocidental, de tal modo que até gostamos de lembrar a lenda da fundação da cidade de Lisboa por Ulisses (Ulisipo...), como Camões teria gostado.

Um filme é sempre uma adaptação e é assim que deve ser encarado; quem quiser o texto, mesmo sem saber grego antigo, tem disponíveis as traduções (ou então procure no Canal História).  Nolan teve (tem) todo o estofo para tal, pela formação académica como pelo percurso enquanto cineasta, um dos grande da actualidade. Uma cinéfila que muito prezo escreveu que este era um filme de homenagem ao cinema, e eu, humilde protocinéfilo, concordo. A sua lista de referências é aliás esmagadora (Stanley Kubrick, Terrence Malick, Orson Welles, Fritz Lang, John Huston, John Frankenheimer, Sidney Lumet, Ridley Scott, Nagisa Oshima, Eric von Stroheim, George Lucas...)  

Muito dos anacronismos são deliciosos: "É o fim da Idade do Bronze..." ou análise geopolítica percuciente de Ulisses (o rapto da bela Helena foi só um pretexto para anular o domínio das rotas comerciais pelos troianos...) Vi a queda das torres gémeas num colapso em Tróia; a tropa de Darth Vader nos uniformes dos troianos, e o Batman nas aparições de Agamémnon... Esplêndido. O feminismo radical de Circe (os homens são todos uns porcos) passa bem na gloriosa interpretação de Samantha Morton. 

Para quem não saiba, os actores não têm cor, nem sequer sexo, se forem bons. Mesmo que Nolan goste do manicómio woke (não faço ideia) ou resolvesse atirar milho para os comissários de Hollywood, para não o chatearem, não me interessa nada. Podemos pôr reservas a Lupita Nyong'o (que é muito mais bonita do que aparece no filme, diga-se; e Helena de Tróia era a Beleza personificada), tanto como à escolha de Anne Hathaway (lembrei-me de Elizabeth Taylor...) ou de Charlize Theron (lembrei-me da Marilyn Monroe). Mas isso é de tal maneira irrelevante, que nem vale a pena falar mais. Matt Damon (nem é um dos meus actores preferidos) faz um papel magnífico. Toda a cena das sereias, com Ulisses preso ao mastro, é de uma soberba pungência. Bravíssimo.  

O filme é passível de várias leituras; a que me fica é a de um épico antiguerra, neste tempo sombrio. Tinha de ser um grande filme, e é-o; um filme-marco. 



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