sexta-feira, setembro 18, 2026

o que está a acontecer

«E daí, da sua cadeira de couro, Gonçalo Mendes Ramires, pensativo diante das tiras de papel almaço, roçando pela testa a rama da pena de pato, avistava sempre a inspiradora da sua novela -- a Torre, a antiquíssima Torre, quadrada e negra sobre os limoeiros do pomar que em redor crescera, com uma pouca de hera no cunhal rachado, as fundas frestas gradeadas de ferro, as ameias e a miradoura bem cortadas no azul de Junho, robusta sobrevivência do Paço acastelado, da falada Honra de Santa Ireneia, solar do Mendes Ramires desde meados do século X.» Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires (1900)

«Esta segunda quadra, que recebia luz do nascente por janela moderna fendida em ogiva, ocupava-a, em grande parte, uma larga mesa de desenhador, sobre cavaletes, onde se estiravam moldes, planos e alçados, e, de encontro ao muro uma estante baixa, com o mármore pejado de variada instrumentaria, recheava as suas prateleiras de manuais técnicos e tratados.» Manuel Ribeiro, A Catedral 1920)

1 comentário:

Manuel M Pinto disse...

«O primeiro lustro em Coimbra pode considerar-se, pedagogicamente falando, safro de todo. O quadro dos professores era insuficiente e foi preciso mandá-los vir de toda a parte a poder de dinheiro. Veio uma revoada de nomes ilustres, sem valer todavia os grandes nomes da Sorbonne, de Bolonha, de Salamanca. O certo é que a prata da casa, como se diz, essa com que Luís de Camões se poderia ter servido, não correspondera ao escopo nem às necessidades reconhecidas da cultura, pois que foi preciso importar catedráticos.»
Aquilino Ribeiro, "Luís de Camões - Fabuloso*Verdadeiro". Ensaio (1950)