quarta-feira, dezembro 31, 2025
3 versos de A. M. Pires Cabral
«Resta um pano da fachada, onde / entre as heras que comem do granito / a pedra-de-armas ainda sobrevive»
Douro: Pizzicato e Chula (2004) - «Solar em ruínas»
terça-feira, dezembro 30, 2025
zonas de confronto
Hans Christian Andersen: «Vi-os quase diariamente nos quatro anos que viveram aqui, antes de partirem para a Suécia a fim de conhecerem também este país e aprenderem a sua língua. Anos se passaram sem que nos correspondêssemos ou notícias tivéssemos uns dos outros. Sucedeu, porém, que bom tempo depois um compatriota me veio pedir algumas palavras de recomendação para um deles em Lisboa, cidade que supunha já ter eu visitado.» Uma Viagem a Portugal em 1866 (1868) - trad. Sinva Duarte § Ivo Andrić: «Uma destas planuras começa aqui, em Visegrad, no lugar onde o Drina irrompe, numa súbita curva, da profunda e estreita ravina formada pelos rochedos de Butkovo e as montanhas de Uzavnica. A curva que o Drina aqui faz é excepcionalmente cerrada e as montanhas de ambos os lados são tão ingremes e tão próximas que parecem um sólido bloco de pedra de onde o rio jorra, como de uma muralha parda.» A Ponte sobre o Drina (1945) - trad. Lúcia e Dejan Stanković § Leonid Andreiev: «Pomerantzev não tinha direito à reforma, mas esta foi-lhe concedida em atenção aos seus vinte e cinco anos de exercício irrepreensível no cargo que desempenhava e às necessidades contraídas com a sua doença. Assim ficou a dispor de meios com que pagar a sua clínica até se finar, já que o mal era, no parecer dos médicos, um caso sem esperança de cura.» Os Espectros (1904) - versão de Manuel do Nascimento § Mikhail Bakunin. «Se ela tivesse guardado um pouco dessa vitalidade, um pouco desse fogo sagrado que lhe permitiu conquistar o mundo no passado, ela teria encontrado em si própria a coragem para reconhecer que se encontra hoje numa situação impossível, e que a menos que faça um esforço heróico da sua parte, ela estará para todos os efeitos perdida, desonrada, arruinada e ameaçada de perecer na confrontação.» O Socialismo Libertário, «O movimento internacional dos trabalhadores» (1869) - trad. Nuno Messias § Woody Allen: «Fiquei em casa de Man e Sting Ray, e Salvador Dalí vinha muitas vezes jantar connosco e Dalí decidiu fazer uma exposição individual, o que levou a cabo e foi um enorme sucesso, porque só apareceu uma pessoa e aquele foi um inverno francês, alegre e esplêndido.» Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura (1966) - «Memórias dos anos vinte» - trad. Jorge Leitão Ramos
3 versos de José Emílio-Nelson
«Pela noitinha deixam-na à esquina para não vaguear. / Se a abordam, baixinho, fala logo do preço / E do que vale.»
Humoresca (2002)
segunda-feira, dezembro 29, 2025
2 versos de Alberto de Lacerda
«O mergulho abrupto de certas horas / No relógio lento do coração»
Elegias de Londres (1987)
domingo, dezembro 28, 2025
sábado, dezembro 27, 2025
sexta-feira, dezembro 26, 2025
o que está a acontecer
«Stalines a carvão antipatizavam connosco nas esquinas. E o rio desmaiava em Caxias, sufocado pelas asas dos pássaros, com penedos de petroleiros imóveis sob a ponte. / Na segunda quarta-feira de Setembro de mil novecentos e setenta e cinco, o despertador pescou-me às oito horas do meu sono, do mesmo modo que as gruas do cais trazem à superfície os automóveis peludos de limos que não sabem nadar.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)
«O povo, porém, depois de fazer reverência a Jesus, voltava-se contra a face esquálida do justiçado e clamava, fremente de rancor: "Estás nas profundas do Inferno, patife!" / E os gaiatos aporfiavam em acertar-lhe com pelouros de lama, lucrando aplausos e gargalhadas do auditório os mais certeiros.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)
«Era uma ideia vaga; mais desejo que tenção, que eu tinha há muito de ir conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a mais histórica e monumental das nossas vilas. Abalam-me as instâncias de um amigo, decidem-me as tonteiras de um jornal, que por mexeriquice quis encabeçar em desígnio político determinado a minha visita. / Pois, por isso mesmo, vou: -- pronunciei-me.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)
serviço público: Pedro Tadeu
O Natal não pode ser inclusivo? Um bom texto de Pedro Tadeu, pregação inútil, porém, aos idiotas da aldeia; caso contrário aprenderiam com o remate da crónica: "Inclusão é acrescentar, não é subtrair.»
quarta-feira, dezembro 24, 2025
o que está a acontecer
«Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei-de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém: e protesto de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há-de fazer crónica.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)
«Defronte daquele altar, na outra esquina da Fancaria, arvoravam o espeque rematado pela cabeça de Domingos Leite, que parecia olhar para Jesus Cristo com as pálpebras roxas e entreabertas; e a primorosa escultura do Redentor, olhando para o povo, parecia chorar.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)
«Apesar dos jipes da polícia patrulhando as ruas, ciganos carregados de tachos e cadeiras assaltavam os apartamentos vagos do centro. Nasciam infantários nos prédios em ruína, com crianças sentadas no soalho a engordarem de sanduíches de caliça.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)
terça-feira, dezembro 23, 2025
segunda-feira, dezembro 22, 2025
domingo, dezembro 21, 2025
sábado, dezembro 20, 2025
o que está a acontecer
«Se Castela percebeu estes escabrosos dizeres do colaborador da Monarquia Lusitana tanto como nós, decerto não reconheceu o que o frade lhe inculcava, e sobejamente demonstrou no seu proceder subsequente pouquíssima reverência aos avisos do céu.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)
«Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de Estio, viajo até à minha janela para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré. E nunca escrevi estas minhas viagens, nem as suas impressões pois tinha muito que ver!» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)
«Desde Abril do ano anterior que a tropa e os comunistas se aproximavam das fachadas dos prédios, erguiam o membro como animais para urinar, e abandonavam nas paredes um mijo de vivas e morras que se contradiziam e anulavam, logo coberto por cartazes de comícios e greves, fotografias de generais, propaganda de conjuntos rock, cruzes suásticas, ordens de boicote ao governo e convites de retrete, dedos de letras entrelaçadas num namoro que o Outono do tempo desbotava.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)
sexta-feira, dezembro 19, 2025
ucraniana CDVIII - ...ou, como diz o povo, "quem tem activos russos tem medo"
O triste espectáculo da União Europeia. Não fora Orbán, Fico, Babis, o p-m belga Bart De Wever (que soube defender o seu país, não se comportando como mais um pateta) -- e, ao que parece, Meloni -- e a UE anteciparia a catástrofe de uma iminente guerra aberta com a Rússia.
Ouvir Costa e Montenegro a falazar sobre o assunto, das profundezas da sua irrelevância, que procuram disfarçar com grandes abraços, vigorosas palmadas nas costas e sorrisos alvares, nauseia até ao vómito.
Entre Von der Leyen, Macron, Starmer e o sinistro Merz -- cães-de-fila abandonados pelo dono, mas cuja natureza não é a outra se não a de filhar -- e os traumas dos (em parte justificadamente) aterrorizados países bálticos, incluindo a Polónia, a Europa deve agradecer àqueles quatro ou cinco o não estar ainda (por quanto tempo?) no limiar da guerra, que, como o Putin avisou, não seria nunca algo parecido com o que se tem passado na Ucrânia (há quanto tempo os russos poderiam ter arrasado os centros do poder em Kiev...), mas um knock out a Paris, Londres e Berlim, pelo menos.
Vamos ver se estas criaturas percebem que os Estados Unidos só querem que não os estorvem, e que da Europa só verdadeiramente lhes interessa a parte Atlântica (que é onde nos situamos); que estão mais interessados em colaborar com a Rússia e que não lhes interessa a UE para nada, antes pelo contrário -- o que deveria obrigar a mesma UE a ser mais inteligente no modo como se relaciona com os outros blocos e potências em vez de sujeitar-se a ser o peão de brega de terceiros, como sucedeu e agora está a pagar por isso.
2 versos de Afonso Lopes Vieira
«Sem a sua força, sem a sua dor, / não estava rindo a terra toda em flor!...»
Animais Nossos Amigos (1911) - «Os bois»
quinta-feira, dezembro 18, 2025
5 versos de Sebastião Alba
«Palavras de ponta e mola / que anavalham / as roçagante capas / de velhos mestres / de grácil esgrima»
A Noite Dividida (1982) - «Palavras de ponta e mola»
quarta-feira, dezembro 17, 2025
2 versos de José Carlos Ary dos Santos
«Fecham-se os dedos donde corre a esperança, / Toldam-se os olhos donde corre a vida.»
A Liturgia do Sangue (1963) - «Soneto»
terça-feira, dezembro 16, 2025
3 versos de Rui Knopfli
«Detém-se da alegria o brando rumor; / apaziguados os gestos, serena a erva. / Entre lodo e sol, devagar, cristaliza a luz.»
O Escriba Acocorado (1978) - «Ao lume da água»
segunda-feira, dezembro 15, 2025
2 versos de Alexandre Nave
«A imagem na almofada dos cadáveres / arredonda as bolsas da terra»
Columbários & Sangradouros (2013)
coisas boas e coisas más: Bialiatski e Mohammadi
A libertação de um preso de consciência é sempre algo de jubiloso, tal como o encarceramento de um verdadeiro activista pela liberdade provoca invariavelmente um nó na garganta.
O filólogo bielorrusso Ales Bialiatski foi finalmente libertado, após 4 anos 4 de prisão, parece que por intercessão de Trump; a grande Narges Mohammadi -- que estava em liberdade condicional, e eu não sabia -- foi detida mais uma vez, agora por, dizem, gritar palavras de ordem no funeral de um advogado de direitos humanos.
O que se ganha de um lado, perde-se do outro; mas nem na Bielorrússia se ganhou verdadeiramente -- Ales vai para o exílio; nem este há-de ser o fim da luta para Narges, extraordinária luta, bravíssima mulher!
domingo, dezembro 14, 2025
zonas de confronto
Woody Allen: «Disse-lhe umas piadas acerca da sua nova barba e rimo-nos e bebemos uns goles de conhaque, e depois calçámos umas luvas de boxe e ele partiu-me o nariz. / Naquele ano voltei a Paris pela segunda vez, para falar com um compositor europeu, magro e nervoso, de perfil aquilino e olhos admiravelmente rápidos, que um dia havia de ser Igor Stravinsky e, mais tarde, o seu melhor amigo.» «Memórias dos anos vinte», Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura (1966) - trad. Jorge Leitão Ramos § Ivo Andrić: «Na maior parte do seu curso, o rio Drina corre através de gargantas apertadas, entre serras abruptas ou profundos desfiladeiros de arribas escarpadas. Apenas de quando em quando as margens do rio se dilatam em vales abertos, formando, de um ou do outro lado, chãs de terra fértil, ora planas, ora onduladas, próprias para cultivo e povoamento.» A Ponte sobre o Drina (1945) - trad. Lúcia e Dejan Stanković § Hans Christian Andersen: «Tinham vindo recomendados pelo nosso Ministro para Espanha e Portugal, dal Borgo, ao Almirante Wulff, em cuja casa ficaram hospedados, frequentando a escola do professor Nielsen. Depressa aprenderam o idioma dinamarquês, tomando amor à nossa terra.» Uma Viagem a Portugal em 1866 (1868) - trad. Silva Duarte § Mikhail Bakunin: «É uma classe condenada pela sua própria história e psicologicamente cilindrada. Marchava dantes na frente, era esse o seu poder; hoje recua, tem medo, condena-se a si própria à destruição.» O Socialismo Libertário - «O movimento internacional dos trabalhadores» (1869) - trad. Nuno Messias § Leonid Andreiev: «Confirmada a demência de Egor Timofeievich Pomerantzev, subchefe da Repartição de Administração local, os amigos promoveram uma subscrição em seu benefício, a qual rendeu o bastante para que ele fosse internado num manicómio particular.» Os Espectros (1904) - versão de Manuel do Nascimento § Michael Gold: «Cerra os dentes, garante que não falará e morde os lábios. / Com a boca sangrenta, jura que jamais soltará uma só palavra. / Com a boca sangrenta, jura que os cinco fortes polícias nunca o obrigarão a falar.» Michael Gold, «Cárcere», Para a Frente América... - trad. Manuel do Nascimento
sábado, dezembro 13, 2025
zonas de conforto
Vergílio Ferreira: «Vejo as ervas no jardim abandonado, uma cadeira desmantelada no terraço do pavilhão. Ao longe, o mar de um tempo muito antigo. Há só dez anos que ali vou, e todavia tudo recuou já muito. Assim, em momentos bruscos, estampa-se-me a visão flagrante do irremediável.» § Jorge Amado: «Publico esses rascunhos pensando que, talvez, quem sabe, poderão dar idéia do como e do porquê. Trata-se, em verdade, da liquidação a preço reduzido do saldo de miudezas de uma vida bem vivida.» Navegação de Cabotagem (1992) § José Duarte: «Não acham que é muita... / Música... / para tão poucos minutos?» Cinco Minutos de Jazz (2000) § Machado de Assis: «E diziam-lhe que não era nada, que eram macacoas do tempo; um acrescentava graciosamente que era manha, para fugir aos capotes que o boticário lhe dava no gamão, -- outro que eram amores. Mestre Romão sorria, mas consigo mesmo dizia que era o final. / "Está acabado", pensava ele.» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» § Manuel Tiago: «Ao Lambaça, que julgava ter de fazer passar a fronteira a algum importante dirigente, André parecia uma criança insignificante e inofensiva, diminuindo, quase ao ridículo, a incumbência. A André, o aspecto e a expressão de Lambaça avivavam desconfiança e prevenções acerca do seu carácter.» Cinco Dias, Cinco Noites (1975) § Camilo Castelo Branco a Eduardo Costa Santos (1867) .../... «A maior parte dos livros que me propõe em troca, a tenho nas Memórias da Academia. Outros, afora aqueles, já os possuo, e alguns não interessam ao género dos meus estudos.» .../... in António Cabral, Homens e Episódios Inolvidáveis (1947)
sexta-feira, dezembro 12, 2025
4 versos de Camões
«Também o Mouro astuto está confuso, / Olhando a cor, o trajo e a forte armada; / E, perguntando tudo, lhes dizia / Se porventura vinham de Turquia.»
Os Lusíadas (1572) - I-62
o que está a acontecer
«Só a avó, já doente do cancro, navegava ao acaso na poltrona de inválida, de radiozinho de pilhas encostado às farripas da orelha, contemplando a sorrir, sem entender, os democratas que de quando em quando rebolavam aos encontrões no corredor e vasculhavam o resto das pratas com o cano dos revólveres, repetindo os discursos estranhos dos altifalantes dos cegos.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)
«Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como Sampetersburgo -- entende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse ao menos ia até o quintal.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)
«Dá o cronista-mor do Reino razão plausível do altar provisório nestes tortuosos termos: Foi para que, com a duplicada presença de Cristo sacramentado e crucificado, reconheça Castela que para uma de suas traições se nos duplica Cristo para defensa.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)
quinta-feira, dezembro 11, 2025
3 versos de José Régio
«Que eu vivo à espera dessa noite estranha, / Noite de amor em que me goze e tenha, / ...Lá no fundo do poço em que me espelho!»
Poemas de Deus e do Diabo (1925[26]) - «Narciso»
quarta-feira, dezembro 10, 2025
a vantagem de Gouveia e Melo relativamente aos seus dois concorrentes directos, Marques Mendes e Seguro
Eu vou partir do princípio de que os candidatos são honestos, e também patriotas. Num momento em que a ameaça da guerra espreita, essa honestidade e esse patriotismo importam -- mas também, tanto quanto estas qualidades, a noção da História de Portugal e de como, mercê de muitas contingências, iremos, daqui a uns meros três anos, assinalar os 900 anos de independência, no aniversário da Batalha de São Mamede, na qual D. Afonso Henriques fundou uma dinastia, um país e uma futura nação, a partir de povos de diferentes etnias: celtas, romanos, germânicos, berberes, árabes e por aí fora. Estivemos para soçobrar mais de uma vez, mas persistimos -- pela língua e pela cultura, em primeiro lugar; pela religião, também; e pela Coroa nos primeiros séculos, e o Estado a seguir.
Portugal não resiste sem a língua e sem a cultura, mas precisa, sempre precisou, de uma visão estratégica -- e agora cada vez mais, não apenas por razões militares mas pelo progressivo domínio de um sistema financeiro transnacional que tudo subjuga -- da Economia (das sociedades, portanto) ao indivíduo.
A visão estratégica de Gouveia e Melo é incomparavelmente mais sofisticada e informada que a de Mendes e Seguro -- pelo menos é o que se retira das banalidades que têm dito. A crítica ontem, expendida pelo almirante, à lista de compras do Governo em matéria de defesa não poderia ter sido mais certeira. Onde está o Conceito Estratégico de Defesa Nacional, como já aqui perguntei, a propósito doutras eleições? Está arrumado a um canto; por isso, comprar armamento agora é, como disse o candidato, começar a "construir a casa pelo telhado".
É isto que o distingue dos outros; o que fará com essa distinção se for eleito, não sei.
terça-feira, dezembro 09, 2025
4 versos de Manuel Bandeira
«Cartas de antes do noivado... / Cartas de amor que começa, / Inquieto, maravilhado, / E sem saber o que peça.»
A Cinza das Horas (1917) - «Cartas de meu avô»
ser-se selectivo quanto aos Direitos Humanos
No debate com António Filipe, Jorge Pinto, reproduziu (com candura ou sem pudor) o palavreado propagandístico desavergonhado da von der Leyen -- a começar pela inenarrável conversa do "rapto" de crianças supostamente ucranianas pelos russos. (Creio que não se degradou a empregar a infame palavra "deportação", de ressonância nazi, que a UE e a anterior administração americana usaram numa das muitas campanhas de lavagem ao cérebro da opinião pública europeia).
Disse também Jorge Pinto que é pela autodeterminação dos povos. Também eu sou -- mas tanto falo do povo tibetano como dos russos do Donbass, perseguidos na sua integridade, como toda a gente sabe, e que só os ingénuos, os desmemoriados ou os pulhas se esquecem de falar.
segunda-feira, dezembro 08, 2025
3 versos de José Emílio-Nelson
«A cada carro que abranda mandam estacionar. / Agarrados aos ossos sujos, zurzidos, / Baloiçam no alcatrão.»
Humoresca (2002)
o que está a acontecer
«I- De como o autor deste erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu imortalizar-se escrevendo estas suas viagens. -- Parte para Santarém. -- Chega ao Terreiro do Paço, embarca no vapor de Vila Nova; e o que aí lhe sucede. -- A Dedução Cronológica e a Baixa de Lisboa. - Lord Byron e um bom charuto. - Travam-se de razões os ílhavos e os bordas-d'água -- os da calça larga levam a melhor.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)
«Olho-o um instante, olho a casa, circunvago o olhar. Preparar o futuro -- o futuro... E uma súbita ternura não sei porquê. Silêncio. Até ao oculto da tua comoção. Preparar o futuro, preparação para a morte.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)
«No intuito de expiar o sítio, segundo a pia frase de Fr. Francisco Brandão, ergueu a piedade um altar encostado à seteira por onde o regicida abocara a escopeta, e aí foi arvorada aquela milagrosa imagem do Crucificado, que despregou a mão revolucionária no dia em que o duque bragantino foi aclamado rei.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)
sábado, dezembro 06, 2025
sexta-feira, dezembro 05, 2025
3 versos de Dora Gago
«uma ponte esquecida / feita de tábuas, / de saudade apodrecida»
Flores de Cinza (2025) - «Outra margem»
quinta-feira, dezembro 04, 2025
ucraniana CDVII - e o que queria a União Europeia?
Quando a Cia orquestrou o golpe de estado na Ucrânia, em 2014, a UE, aprovou. Quando uma prócere americana proferiu Fuck the EU!, a UE gostou. Quando Trump impôs e humilhou, a UE anuiu e continuou a pagar. Agora, quando os dois beligerantes, Rússia e Estados Unidos, se preparam para decidir a situação no terreno, marimbando-se para a Europa, depois da obediência canina, do que estava a UE à espera senão ser desprezada?
2 versos de José Alberto Oliveira
«Um cansaço agradável / enchia as tardes de tagarelice e jogos de cartas.»
Peças Desirmanadas e Outra Mobília (2000) - «Camionetas Bedford»
quarta-feira, dezembro 03, 2025
2 secos de António Filipe em Gouveia e Melo
A propósito da guerra entre a Rússia e os Estados Unidos que decorre na Ucrânia, e que os segundos querem, desde Trump, acabar, não perdendo tudo, Gouveia e Melo tinha vindo a fazer declarações nuançadas relativamente ao papel de Portugal nesta grave crise.
Era (é, será?) uma posição interessante e prudente, que contrasta com a vacuidade seguidista e a irresponsável da generalidade das lideranças políticas portuguesas.
Ontem, porém, numa estratégia de efeitos eleitorais duvidosos, quis entalar António Filipe com conversa fiada. Recebeu o troco, e ficou colado àquele grupo que demonstra não ter nem pensamento estratégico ou, talvez pior, que se está nas tintas, desde que venha o voto. Ora o almirante conhece muito bem os factos, razão de sobra para não se pôr ao mesmo nível daquele artista que dizia aos portugueses que "é(ra) preciso derrotar a Rússia"...
A outra foi sobre o estúpido pacote laboral, uma indignidade suficiente para qualquer ministro pintar a cara de preto. Podia ter aprendido com o Seguro e chutar para canto, se não quisesse mostrar-se tão equidistante, redondo ou, como disse Filipe, "neutral": este pacote não constava do programa eleitoral dos partidos que governam, portanto é insusceptível de passar pelo crivo do PR.
6 versos de Fernando Jorge Fabião
«Todo o Verão tem o seu assombro / paisagens altas / onde principio a escrever / (num silêncio de sinos) / vocábulos escassos, dissonâncias / numa saudade de rosas e luz estilhaçada.»
Na Orla da Tinta (2001)
terça-feira, dezembro 02, 2025
o que está a acontecer
«I. Ainda os membros dispersos do cadáver de Domingos Leite Pereira apodreciam nos postes, quando saiu uma procissão de triunfo a desempestar especialmente as Ruas dos Torneiros e da Fancaria.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)
«Um silêncio súbito, silêncio da terra. Só vozes ermas dos campos, ouço-as no calor parado da tarde. Reparo agora melhor no pequeno jardim. Uma selva bravia. As plantas selvagens irromperam de todo o lado, aos cantos dos muros à volta, junto à casa. Há algumas armações de madeira ainda, já apodrecidas, suspensas de arames, sem flores.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)
«Fez-se um silêncio de expectativa risonha. E o professor, debruçando sobre a secretária os bigodes pendentes e amarelados, perguntou-lhe: -- Quais regras da ciência? -- E ele, entreabrindo os lábios finos que nunca se sabia quando sorriam ou se apertavam de contrariedade, respondeu: -- A observação e a experimentação. -- Ah, muito bem, e como foi que o senhor observou e experimentou a alma dos animais? -- Como, senhor doutor? Pessoalmente --. E foi uma gargalhada geral.» Jorge de Sena, Sinais de Fogo (póst., 1979)
7 versos de José Carlos Ary dos Santos
«Que o sangue que era o seu seja o rictus da tara, / A máscara de sal, / A vingança do pobre. / E que o Exterminador, no seu trono de enxofre, / O faça tilintar os guizos da tortura / Até que o mundo o esqueça / E mais ninguém o chore.»
A Liturgia do Sangue (1963) - «In memoriam»
segunda-feira, dezembro 01, 2025
2 versos de Fernando Assis Pacheco
«Como são belas de facto as árvores na Place des Vosges! mas nesse dia / eu andava pelo Marais com a mais uma vez morte presa aos cabelos»
Siquer Este Refúgio (1976) - «Quarto Bairro, Paris»
domingo, novembro 30, 2025
serviço público - Pedro Ponte e Sousa
Neste artigo, Pedro Ponte e Sousa faz uma análise muito serena e pormenorizada da catástrofe que tem sido para a União Europeia e para a própria Ucrânia a política seguida de confronto com a Rússia -- peitar a Rússia com as costas aquecidas pela Administração Biden, abdicando de uma posição própria, que agora querem ter, quando lhes falta os meios. They don't have the cards...
O que já então era um disparate e um absurdo é-o agora ainda mais. Não é só Ursula e quem a rodeia que são uma catástrofe; também as lideranças nacionais (quase todas) , na sua estupidez incomensurável, a que se juntou uma constelação de detritos académicos e meia dúzia falcões já de pantufas postas, cuja insânia poluiu e condicionou o ambiente informativo e me(r)diático, É difícil lembrar manipulação mais rasteira, veiculada pelos palerminhas da comunicação social -- designação horrível para o verdadeiro jornalismo.
sábado, novembro 29, 2025
o que está a acontecer
«Uma vez, numa aula de filosofia (o professor era um pobre diabo, muito lendário pela degradação intelectual a que chegara, e a quem, certo dia, na indisciplina ruidosa que eram essas aulas, demonstrámos o argumento de Diógenes arrastando todas as carteiras, sentados nelas, para os vários cantos da sala), D. Ramon levantou-se, e objectou que todos os seres vivos tinham alma, o que, segundo as regras da ciência, era uma verdade, e não um ponto controverso da especulação filosófica.» Jorge de Sena, Sinais de Fogo (póst., 1979)
«Os atalhos velhos, abandonados, encheram-se de mato. Vai-se agora pela estrada, ou corta-se pelos caminhos abertos nos baldios pelos tractores da Câmara. Da linha do comboio de via estreita, abandonada, ficaram os carris a marcar a presença, e um ou outro poste donde pendem ainda os fios do telégrafo.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
«Abro a porta devagar, ela range para o espaço do jardim. É um jardim morto, as plantas secas, os canteiros arrasados nas pedras que os limitavam. Alguns têm só terra ou hastes secas de roseiras. Vejo-as do portão, o carro à entrada a trabalhar. Depois meto-o na garagem, que é um barracão ao lado de casa.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)
sexta-feira, novembro 28, 2025
4 versos de Carlos Daniel
«Uma dor intensa / Sem motivo / E um pingar pulsado / No fundo do poço»
Os Meus Dias (2018) - «Águas do fim»
quinta-feira, novembro 27, 2025
4 versos de Antero de Quental
«Que importa o nome, a fala, / Que importa um eco ou voz, / Se quem dá nome ao nome / -- O amor -- têmo-lo nós?»
Primaveras Românticas (1872)
quarta-feira, novembro 26, 2025
terça-feira, novembro 25, 2025
2 versos de António Jacinto
«fusão do céu e do mar / linha que não se divisa»
Sobreviver em Tarrafal de Santiago (1985) - «Paisagem concentracionária»
segunda-feira, novembro 24, 2025
4 versos de Alexandre Nave
«amanham descalças as ervas dos rios // sufocam azuis, estaladas de ferida // são fodidas à noite como fábricas»
Columbários & Sangradouros (2003)
ucraniana CDVI - a bruxa
Pelo que ouvi, a Úrsula rejeita o chamado plano americano para a Ucrânia, ou seja a capitulação desta, ou seja acredita, estupidamente, que pode fazer frente (em nome de quem na UE?) sozinha à Rússia, contando com a crescente hostilidade dos Estados Unidos, sem falar no apoio da China e da neutralidade colaborante da Índia... Não serão o Canadá ou o Japão (entretido agora com a China...) que irão fazer a diferença.
Como a cabeça dos europeus resiste à manipulação, esta vigarista não desiste e propõe-se fazer uma grande conferência internacional sobre as "crianças raptadas" pela Rússia. Não têm vergonha nenhuma estes porcalhões.
Negação, fuga para a frente, a trafulhice do costume. A criatura aparece "nas redes" com a bandeira da Ucrânia por detrás. É grande a resistência para aceitar que a política que ela liderou, com a aquiescência dos zeros-europeus é um rotundo fracasso, uma derrota total, que passará por mais uma humilhação da União Europeia -- e é tão bem feito para estes poltrões.
As contrapropostas são de tal maneira anedóticas e estúpidas, que a Meloni já se viu na necessidade de se demarcar desta imbecilidade. Não será a única, claro, mas por enquanto é ainda dos poucos que contam.
domingo, novembro 23, 2025
o que está a acontecer
«Ramon Berenguer de Cabanellas y Puigmal já era célebre, quando, por fusão de duas turmas, passou a ser meu colega no 6.º ano dos liceus. As suas calmas e sonhadoras extravagâncias, o seu ar de senhor de idade, o mistério de adulto de que rodeava a sua figura pequena e atlética, a sua profunda convicção de que, desde o século XII ou XIII, a Espanha devia à sua família o condado de Barcelona, as perguntas absurdas feitas com o ar mais convicto e ingénuo do mundo, com que ele era o terror dos professores inseguros, e o seu famoso sistema filosófico que tudo explicava e o dispensava, "graças ao controle das energias do cérebro", de estudar as lições (salvo em casos de última emergência), tudo isto não fazia dele um ídolo nem um chefe, mas um ente respeitadíssimo, apesar da ironia com que todos o apontavam.» Jorge de Sena, Sinais de Fogo (póst. 1979)
«Por estes lados, o viajante só vê montes. Desertos, amarelados, pedregosos, às vezes com uma ermida no alto, outros coroados de espinhos. Nalgumas encostas os sulcos dos campos lavrados. Aqui e além bocados de vinha, casebres perdidos, rochedos cobertos de musgo, aldeias tão longínquas que são apenas manchas brancas na paisagem.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
«E a que foi acontecendo aos outros -- é a História que se diz? abro a porta do quintal. É um portão desconjuntado, as dobradiças a despegarem-se. Há muito tempo já que aqui não vinhas. Sandra era da cidade, gostava da capital, detestava a vida da aldeia. Lá ficou.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)
sexta-feira, novembro 21, 2025
ucraniana CDV - uma paz digna para quem cometeu indignidades, será difícil
Refiro-me, entre várias coisas, à proibição da língua russa, às perseguições dos grupos nacionalistas e tolerância (no mínimo) para com os neo-nazis e, mais que tudo, terem-se prestado a fazer do país um proxy dos americanos. Há indignidade maior?...
A UE, com os imbecis de turno, dá-me vontade de rir; mas devia fazer-me chorar.
Também me diverte ver alguns defuntos, jornalistas, professores de Relações Internacionais ou de Direito Internacional, na sua maioria.
O nosso Rangel diz que há margem para trabalhar. É assim mesmo, pá -- America first...
5 versos de Albano Martins
«2. Se uma libélula / pousasse / agora / sobre a água, / nasceriam / flores.»
Entre a Cicuta e o Mosto (1992) - «Armando Alves: três instantâneos para a sua pintura»
quinta-feira, novembro 20, 2025
as presidenciais e a guerra da Ucrânia
O maior risco que Portugal enfrenta, em 20 de Novembro de 2025, não é a crise da habitação nem um governo miserável que quer fazer dos trabalhadores gato-sapato, (Viva a Greve Geral!), as listas de espera na Saúde Não. O grande perigo é a nossa satelitização por uma Comissão Europeia e governos pseudodirigidos pelo Starmer (que nem para vender enciclopédias porta-a-porta), o Macron (mais um gestor na política) e o gajo da Alemanha, cujo nome não me ocorre, com dimensão de chefe de recursos humanos, nos empurrem para uma estúpida guerra que não tem nada que ver connosco, porque criada pelos Estados Unidos e agarradas com pundonor por estes zeros.
Dos três candidatos que podem ser eleitos -- espero que todos patriotas --, já ouvi tudo de Marques Mendes e não gostei; ainda não consegui ouvir nada de Seguro; e ouvi o suficiente de Gouveia e Melo para ainda estar para ver. Sim, eu sei daquela frase bombástica dita há já bastante tempo na eventualidade de a Rússia atacar a Nato -- uma obviedade que decorre dos tratados, e os tratados são para honrar, no articulado que o país assinou.
A questão é que o Putin é muito mais inteligente do que estes imbecis -- e portanto não atacará a Nato, se esta não o encurralar (foi por isso mesmo que a Rússia atacou a Ucrânia, lembram-se?). Como os Estados Unidos saltaram fora do chavascal que aqui arranjaram, não estou a ver estes bonecos com atitude suicida. Para além do que, havendo um país da Nato que ataque a Rússia (a Polónia tem no governo um neocon por via vaginal, cuidado com ele), ou se emaranhe em provocações no Báltico, ou ainda surjam outras acções engendradas pelo Zelensky, (que não descansa enquanto não nos mete lá dentro) -- partindo um hipotético ataque de um país da Nato, a única obrigação de Portugal é manter-se à margem desta geopolítica insana de roleta russa...
Quero um presidente patriota, não mais um fantoche. Por isso são tão importantes as eleições de Janeiro. Nunca, desde 1976, tivemos uma eleição presidencial tão importante.
3 versos de Alberto de Lacerda
«Por toda a parte o mistério encarnava / Natural como a selva a dois passos / Da casa grande»
Elegias de Londres (1987)
zonas de confronto
Michael Gold: «Sem dó, as matracas erguem-se e baixam. Impiedosamente, os pés trituram a cara do preso. / Os polícias, como amantes em espasmo, roncam alto. Os colarinhos estão amarrotados, viscosos, nojentos. / O prisioneiro cerra os olhos por instantes, e vê miríades de estrelas que refulgem no seu mundo de dor.» «Cárcere», Para a Frente América... - trad. Manuel do Nascimento § Woody Allen: «"O que é que se faz, Ernest?", perguntei-lhe. Desatou a falar da morte e da aventura como só ele sabia e, quando acordei, já tinha levantado o acampamento e estava sentado junto de uma grande fogueira, preparando para todos nós uns deliciosos aperitivos de pele.» Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura (1966) - trad. Jorge Leitão Ramos § Hans Christian Andersen: «O pai queria que os filhos conhecessem o povo e a língua do país de que era cônsul. A instabilidade política no infeliz Portugal daquele tempo deve tê-lo também levado a tomar tal resolução.» Uma Viagem em Portugal em 1866 (1868) - trad. Silva Duarte § Mikhail Bakunin: «Em plano inferior, a média e a pequena-burguesia, classe outrora inteligente e desembaraçada, mas hoje sufocada, aniquilada e lançada no proletariado pelas progressivas usurpações da feudalidade financeira. Ela encontra-se numa situação de tal modo miserável que ela junta todas as vaidades dum mundo privilegiado com todas as miséria reais dum mundo explorado.» O Socialismo Libertário - «O movimento internacional dos trabalhadores» (1869) - trad. Nuno Messias
quarta-feira, novembro 19, 2025
2 versos de Dora Gago
«Mastigas solidão / em cada naco de silêncio,»
Flores de Cinza (2025) - «Solidão»
terça-feira, novembro 18, 2025
o que está a acontecer
«Para sempre. Aqui estou. É uma tarde de verão, está quente. Tarde de Agosto. Olho-a em volta, na sufocação do calor, na posse final do meu destino. E uma comoção abrupta -- sê calmo. Na aprendizagem serena do silêncio. Nada mais terás de aprender? Nada mais. Tu, e a vida que em ti foi acontecendo.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)
«No desânimo da sua mágoa, posso ser tudo: participante, juiz, padre confessor, irmão mais velho. Enquanto eu apenas oiço ecos. Uns dele, outros do meu íntimo, alguns que não sei o que os causa, nem de que fundos aparecem.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
«"É óbvio", disse Mister DeLuxe, "não estou a falar dos burriés, estou a falar das idiossincrasias de Molero". Debruçou-se sobre a secretária e virou uma folha do calendário de mesa. "Ainda estávamos no dia de ontem", disse ele. "Temos várias pistas", disse Austin, "um tabique, uma casca de banana, uma sina, um escarrador, uma tela de Miró, uma mancha negra debruada a vermelho.» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)
2 versos de A. M. Pires Cabral
«Lastimável como um cão extraviado / do aconchego dos donos.»
Douro: Pizzicato e Chula (2004) - «Solar em ruínas»
segunda-feira, novembro 17, 2025
António José Seguro
Só há duas maneiras de debater com um trampolineiro: uma é usar de ironia, a outra é mostrar, pelo contraste, que não se é da mesma igualha. Sem ter deixado de recorrer à primeira, o quanto satis compatível com um verdadeiro candidato presidencial, Seguro recusou-se a entrar na taberna, e foi sempre superior a Ventura, o que, tendo os nervos controlados, não é difícil.
4 versos de Afonso Lopes Vieira
«Do seu dono / que seria / sem o burro? / Que faria?»
Animais Nossos Amigos (1911) - «O burro»
domingo, novembro 16, 2025
zonas de conforto
Vergílio Ferreira: «Penso pouco na morte, hoje, começa a ser-me um fenómeno natural. Um certo cansaço? Uma fadiga de tudo. Estar. Ser, olhando erradiamente, ler talvez. A sensação de que tudo está feito.» Conta-Corrente 1 (1980). § José Bacelar: «Ora a Vida, todos o sabem, é uma coisa infinitamente complexa. Os lados, as facetas das coisas (facetas umas habituais, outras raramente apontadas) são em número infinito. Por outro lado, em número infinito (porque o homem é vário) são também os pontos de vista. E o espírito livre não pode por isso admirar-se de que as coisas sejam olhadas pelos homens de maneiras quase sempre muito diferentes.» Arte, Política e Liberdade (1941) § Machado de Assis: «O dia não acabou pior; e a noite suportou-a ele bem, não assim o preto, que mal pôde dormir duas horas. A vizinhança apenas soube do incômodo, não quis outro motivo de palestra; os que entretinham relações com o mestre foram visitá-lo. «Cantiga de esponsais», Histórias sem Data (1884) § Camilo Castelo Branco a Eduardo Costa Santos (1867): «Meu amigo: // D. Ana e eu lhe agradecemos mui cordialmente a oferta de um laborioso e utilíssimo trabalho. Na 2.ª edição do "Cavar em Ruínas", se se fizer em minha vida, farei menção da nota do meu amigo» .../... in António Cabral, Homens e Episódios Inolvidáveis (1947) § Jorge Amado: «Consciente e contente que assim seja, reúno nesta Navegação de Cabotagem lembranças de alguém que teve o privilégio de assistir, e de por vezes participar, de acontecimentos em certa medida consideráveis, de ter conhecido e por vezes privado com figuras determinantes.» Navegação de Cabotagem (1992) § Manuel Tiago: «André era também baixo, magro e moreno. De cabeça descoberta, os cabelos tombavam sobre a testa. A expressão contraída mais destacava a sua juventude. / Desagradaram nitidamente um ao outro.» Cinco Dias, Cinco Noites (1975) § José Duarte: «Amanhã... / Billie cantará para vocês... / e para mim aqui sozinho». Cinco Minutos de Jazz (2000)
sábado, novembro 15, 2025
caçada e recolecção
sexta-feira, novembro 14, 2025
olha, o Miranda Sarmento tem opiniões sobre a Ucrânia e a Rússia...
Pôr o Miranda Sarmento a fingir que tem um pensamento geopolítico, geoestratégico ou geo-histórico estruturado e a fazer de conta que toma decisões, ou que nelas tem qualquer participação é só grotesco.
Sabe lá ele o que é ou será "uma derrota para a Europa"! Aliás, a Europa já entrou nisto derrotada -- a questão é saber até onde nos levará esta catástrofe, com figurações idiotas de sarmentos e outros costas.
3 versos de A. M. Pires Cabral
«Sigo no barco que sobe o rio. Porém / não sinto que subo o rio: sinto, em vez disso, / que o rio me sobe a mim»
Douro: Pizzicato e Chula (2004) - «Um barco sobe o rio»
quinta-feira, novembro 13, 2025
1 verso de Alexandre Nave
«Os soldados são peitos de homem com osso»
Columbários e Sangradouros (2003)
quarta-feira, novembro 12, 2025
3 versos de José Emílio-Nelson
«Eu vi-lhe as nádegas, para mim, doce encanto. / E contra tanto enleio, o meu olhar, / Copiosamente urinava.»
Humoresca (2002)
António Filipe
Ainda não decidi o meu voto, mas nesta altura nenhum outro me deu mais gozo e vontade de o fazer.
Gostaria, porém, que não houvesse segunda volta -- o que parece muito difícil -- só para não ter que aturar mais quinze dias de conversa de taberna. Havendo, é claro que votarei em qualquer pobre que venha a defrontar aquele arroto.
terça-feira, novembro 11, 2025
o que está a acontecer
«Só de nostalgias faremos uma irmandade e um convento, Soror Mariana das cinco cartas. Só de vinganças faremos um Outubro, um Maio, e novo mês para cobrir o calendário. E de nós, o que faremos? // 1/3/71» Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas (1972)
«"O quê?", perguntou Mister DeLuxe. "É curioso pensar", disse Austin, passando por cima da pergunta directa, "que o rapaz tirava burriés do nariz quando era pequeno, mas não os comia logo". "Hã?", fez Mister DeLuxe. "Não os comia logo", acentuou Austin, "colava-os à parede para os comer no dia seguinte". Houve uma pausa. "Gostava deles secos", explicou.» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)
«Ele retomará o seu desabafo, avivando detalhes, corrigindo versões. Por vezes, a certificar-se de que o sigo ou precisado de cumplicidade, faz de mim testemunha, cada frase torna-se um pedido de compreensão. E porque eu digo que compreendo, para ele é como se eu também tivesse estado presente.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
um país que se dá ao respeito e com brio não tolera cartazes do Chega - com uma grande saudação a António Garcia Pereira e Ricardo Sá Fernandes
Andaram a coçar os tomates em vez de proibirem um partido que usa o racismo e a xenofobia como estratégia de crescimento junto dos animaizinhos, quando só tinha um deputado...
Se a República não for capaz de lidar com esta porcariazita de trazer por casa, uns cartazes de reles incitamento à discriminação racista -- por mero e descarado oportunismo (o Ventura é um boneco sem convicções) --, se não for capaz disso, nem merece existir, nem haverá quem a salve.
5 versos de Carlos Daniel
«Era o momento mais frio das águas / Um tempo norte / De películas densas / Vidro e aço / Sobrepostos»
Os Meus Dias (2018) - «Águas do fim»
segunda-feira, novembro 10, 2025
3 versos de Fernando Jorge Fabião
«Com um pé na norma / e outro na errância / navego no coração do vento»
Na Orla da Tinta (2001)
domingo, novembro 09, 2025
Catarina Martins
Como não falou da Ucrânia. deu uma excelente entrevista a Francisco Rodrigues dos Santos e Pedro Costa.
Esteve particularmente bem quando, no final, falou da questão da flotilha para Gaza, uma acção que honrou e orgulha qualquer português que não seja um atraso de vida.
Catarina Martins, não votarei nela, mas esteve muito bem.
sexta-feira, novembro 07, 2025
4 versos de Alberto de Lacerda
«Ver lentamente transparente / O que desde o início quase sempre / Se ocultara -- / A própria luz da infância»
Elegias de Londres (1987)
Seguro
Não sei das entrevistas da cnn sobre questões da Defesa; hoje vi-o na RTP; não aqueceu nem arrefeceu no que respeita à guerra da Ucrânia. Menos mau que Marques Mendes (porque disse menos?), fala da Europa como se se tratasse de um bloco coeso, de um país. Ora, não podemos tomar os desejos por realidades. Fico à espera da tal entrevista -- ou será que já passou?
quinta-feira, novembro 06, 2025
candidatos
Marques Mendes, Seguro e Cotrim de Figueiredo impuseram-se aos partidos; António Filipe, Jorge Pinto e Catarina Martins são candidatos dos seus partidos; Ventura não é carne nem é peixe, antes pelo contrário. E Gouveia e Melo.
Ainda tenho muito para ouvir, ainda faltam os debates, embora cinco já estejam postos de parte.
3 versos de António Jacinto
«varrida pelos vento do Sara / tu Poesia / num aceno só para mim.»
Sobreviver em Tarrafal de Santiago (1985) - «Monte Gracioso»
quarta-feira, novembro 05, 2025
1 verso de Albano Martins
«Os olhos, luas breves»
Entre a Cicuta e o Mosto (1992) - «"Rosa de Guadalupe" de Manuel Ribeiro de Pavia»
o que está a acontecer
«"Teve uma infância estranha", disse Austin. "Em última análise, todas as infâncias o são", disse Mister DeLuxe. "Molero diz", disse Austin, "que a infância do rapaz foi particularmente estranha, condicionada por questões de ambiente que fizeram dele, simultaneamente, actor e espectador do seu próprio crescimento, lá dentro e um pouco solto, preso ao que o rodeava e desviado, como se um elástico o afastasse do corpo que transportava e, muitas vezes, o projectasse brutalmente contra a realidade desse mesmo corpo, e havia então esse cachoar violento do que era e a espuma do que poderia ser, a asa tenra batendo à chuva."» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)
«Sim, sem dúvida que nostalgia é também uma forma de vingança, e vingança uma forma de nostalgia; em ambos os casos procuramos o que não nos faria recuar; o que não nos faria destruir. Mas não deixa a paixão de ser a força e o exercício do seu sentido.» Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas (1972)
«Ao fim da tarde acabo o meu passeio pelos montes e desço até ao ribeiro. Ele vem pela encosta fronteira, devagar, travado pelas ovelhas que só se mexem depois da boca cheia. Vemo-nos a uma boa hora de caminho um do outro, dois pontos longínquos, e mesmo sem nunca o termos confessado, sabemos que esse momento é para ambos um conforto, a revivência da camaradagem que de crianças nos levava a procurarmo-nos.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
terça-feira, novembro 04, 2025
segunda-feira, novembro 03, 2025
4 versos de José Alberto Oliveira
«A pulsação da fonte / ecoava o galope dos cavalos, / caligrafia miúda / em papel de duas linhas,»
Peças Desirmanadas e Outra Mobília (2000) - «Camionetas Bedford»
sábado, novembro 01, 2025
o que está a acontecer
«Tinham acabado de almoçar. / A sala esteirada alegrava, com o seu tecto de madeira pintado a branco, o seu papel claro de ramagens verdes. Era em Julho, um domingo; fazia um grande calor; as duas janelas estavam cerradas, mas sentia-se fora o sol faiscar nas vidraças, escaldar a pedra da varanda; havia o silêncio recolhido e sonolento de manhã de missa; uma vaga quebreira amolentava, trazia desejos de sestas, ou de sombras fofas debaixo de arvoredos, no campo, ao pé da água; nas duas gaiolas, entre bambinelas de cretone azulado, os canários dormiam; um zumbido monótono de moscas arrastava-se por cima da mesa, pousava no fundo das chávenas sobre o açúcar mal derretido, enchia toda a sala de um rumor dormente.» Eça de Queirós, O Primo Basílio (1878)
«-- Olhava em torno de esguelha, com lumes de esperteza no canto do olho. / -- Lá vem o Chumbo. Aquele é o Antero Chumbo. / Eram baforadinhas sonoras que ele saboreava como um perfume. Sorvia o comentário, seduzindo-o, provocando-o.» Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória (1947)
«Não será portanto necessário perguntarmo-nos se o que nos junta é a paixão comum de exercícios diferentes, ou o exercício comum de paixões diferentes. Porque só nos perguntaremos então qual o modo do nosso exercício, se nostalgia se vingança.» Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas (1972)
sexta-feira, outubro 31, 2025
6 versos de José Carlos Ary dos Santos
«Que a terra lhe seja pesada. / Que lhe apodreça o corpo e os olhos fiquem vivos, / Se lhe soltem os dentes e a fome fique intacta / E a alma, se a tiver, que lha fustigue o vento / E arrase com ela a memória gravada / Na lembrança demente dos que o choram»
A Liturgia do Sangue (1963) - «In memoriam»
quinta-feira, outubro 30, 2025
3 versos de Pedro Tamen
«Lembro vimes e lagos manhã cedo / e tu de pé saída, tu soltada / da rocha agreste e fria de outro medo»
Os Quarenta e Dois Sonetos (1973)
zonas de confronto
Woody Allen: «Sete semanas depois, no Quénia, encontrámo-nos com Hemingway. Bronzeado e já com a barba crescida, estava a começar a desenvolver aquele seu estilo tão familiar acerca dos olhos e da boca. Ali, no inexplorado continente negro, Hemingway tinha arriscado gretar os lábios mil vezes.» «Memórias dos anos vinte», Getting Even / para Acabar de Vez com a Cultura (1966) - trad. Jorge Leitão Ramos § Michael Gold: «Em quieta paz, as mães aconchegam ao seio os filhos pequeninos, enquanto o pai, descuidado fuma num cachimbo velho. / E é tão tranquilo e calado o conjunto dos milhares de casas que o bater dum relógio parece voz gigantesca. / Na cela há cinco polícias fortes que espancam um preso. E sabem que ele falará!» «Cárcere», Para a Frente, América... - trad. Manuel do Nascimento § Hans Christian Andersen: «Em A História da Minha Vida deixei descrito de que modo, nos meus primeiros tempos de jovem em Copenhaga, me foi dado encontrar um lar acolhedor em casa do Almirante Wullf, na Academia Naval. Aí sucedeu aparecerem, por esse tempo, dois jovens portugueses, José e Jorge O'Neill, filhos do gerente da casa comercial Torlades O'Neill, de Lisboa.» Uma Viagem em Portugal em 1866 (1868) - trad. Silva Duarte § Mikhail Bakunin: «E fora do movimento, o que resta? Antes de mais, e acima de tudo, uma coisa sem dúvida muito respeitável, mas improdutiva e ainda por cima ruinosa: a brutalidade organizada dos Estados. Em seguida, sob a protecção financeira, comercial e industrial, a grande espoliação internacional; alguns milhares de homens internacionalmente solidários entre si e dominando, através do poder dos seus capitais, o mundo inteiro.» «O movimento internacional dos trabalhadores» (1869), O Socialismo Libertário - trad. Nuno Messias
quarta-feira, outubro 29, 2025
para Cotrim, Portugal já está em guerra com a Rússia
Fui ouvir apenas as chamadas questões de defesa. Politicamente, este indivíduo é uma anedota. Ligeiro em tudo e sobre tudo -- parece que quer dar "um toque de modernidade" à Presidência da República --, diz coisas destas com a displicência de quem paga uma bica ao balcão; porém, enérgico e cheio de convicção. Rei da banalidade, é candidato a ficar pelo caminho, felizmente. Para anedotas, já nos basta ou outro.
1 verso de Fernando Assis Pacheco
«Saudades de Luísa que me queria para novio é Agosto "amor o muerte" com o assentimento de pai e mãe»
Siquer Este Refúgio (1976) - «Bouzas de Fondo, Orense: a muiñeira»
o que está a acontecer
«Ficara sentada à mesa a ler o "Diário de Notícias". Roupão de manhã de fazenda preta, bordado a soustache, com largos botões de madrepérola; o cabelo louro um pouco desmanchado, com um tom seco do calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabeça pequenina, de perfil bonito; a sua pele tinha a brancura tenra e láctea das louras: com o cotovelo encostado à mesa acariciava a orelha, e, no movimento lento e suave dos seus dedos, dois anéis e rubis miudinhos davam cintilações escarlates.» Eça de Queirós, O Primo Basílio (1878)
«Pois que toda a literatura é uma longa carta a um interlocutor invisível, presente, possível ou futura paixão que liquidamos, alimentamos ou procuramos. E já foi dito que não interessa tanto o objecto, apenas pretexto, mas antes a paixão; eu acrescento que não interessa tanto a paixão, apenas pretexto, mas antes os seu exercício.» Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas (1972)
«Havia certa imponência no seu jeito de segurar com os dedos claros, de unhas roídas, uma pasta acorcodilada e sempre pletórica. O andar, cuja morosidade provinha de infidelidades ao pedicuro, convertia-o ele numa altiva pachorra ao singrar entre mesas a caminho do seu cenáculo, como lanchão bojudo coleando no porto em demanda do cais.» Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória (1947)
terça-feira, outubro 28, 2025
3 versos de Rui Knopfli
«O buril colheu o veio da madeira / e feriu-a, da cunha até ao encaixe, / levando no fio o fio do destino.»
O Escriba Acocorado (1978) - «O mesteiral de Ilium»
segunda-feira, outubro 27, 2025
3 versos de Sebastião Alba
«Dum grande poeta deu-se o nome / a uma rua suburbana // nem tanto quis em vida»
A Noite Dividida (1982)
domingo, outubro 26, 2025
sábado, outubro 25, 2025
o que está a acontecer
«Nas mesas, onde uma turba espessa se coagulava, corria um dar de cotovelos, um cruzar de olhos, um rastilhar mexeriqueiro. / -- Olha. Lá vem o Chumbo. Aquele é o Antero Chumbo. O que escreve. O tipo parece que tem valor. / E era verdade. Isto é, ali ia ele.» Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória (1947)
«Esfregaram a cara e os cabelos molhados da transpiração com o lenço verde do regulamento, ou mesmo com o quico camuflado, um bonezinho em feitio de canoa, de aba curta e quebra-nuca para proteger a cabeça dos ardores do sol. / Abriram as latas de conserva das rações E que a Manutenção Militar distribuía para alimentação das tropas em operações.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)
«Do lado oposto à cidade a estrada descrevia uma curva ao longo de muros e cerrados, onde os grilos pareciam, de Verão, o queixume da ilha abafada e em que pairava agora um pasmo solto de tudo menos de mar. As lâmpadas da rede, lá para Porto Pim, faziam mais escura a massa de água que devia rolar enrefegada a um começo de vento levantado, pouco e já duro.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)
sexta-feira, outubro 24, 2025
40 ANOS DE SERVIDÃO - da tradição como fonte
«Ramo verde florido, / florido de bela flor, / do meu amor tão querido, / onde está o meu amor? // [...]»
A procura do amor aos dezanove anos. O poema mais antigo de Sena publicado (creio) num dos primeiros livros póstumos, fiel e amorosamente editado (no sentido anglo-saxónico) por Mécia -- Variações sobre Cantares de D. Dinis.
Parafraseando Ruy Belo: D. Dinis e Jorge de Sena, dois poetas contemporâneos. Conheceria já os conceitos de modernidade e tradição do Eliot? Ver.
3 versos de José Régio
«Nem uma estrela / canta aleluia / Na noite fria que não tem fim!»
Poemas de Deus e do Diabo (1925) - «Legião»
quinta-feira, outubro 23, 2025
3 versos de Afonso Lopes Vieira
«não tenho inveja de ninguém, / aqui da minha janela / onde me sinto tão bem...»
Animais Nossos Amigos (1911) - «O gato»
quarta-feira, outubro 22, 2025
3 versos de Antero de Quental
«Falar do amor... do amor! o sempre-mudo! /Se é segredo entre dois, como dizê-lo, / Sem divulgá-lo, sem que o ouça tudo?»
Primaveras Românticas (1872)
terça-feira, outubro 21, 2025
1 verso de Manuel Bandeira
«-- Eu faço versos como quem morre.»
A Cinza das Horas (1917) - «Desencanto»
a entrevista de Marques Mendes
Primeiro o riso, com o elogio à União Europeia sobre como tem vindo a lidar com o problema da Ucrânia, Com os conselheiros de política internacional que estão lá para a candidatura, não é de admirar.
Depois, a estupefacção pela ausência de pensamento estratégico em quem anda há tantos anos na política: tirando a questão da importância atlântica, que é uma banalidade, Marques Mendes não só não mostra uma ideia sobre quais as áreas mais importantes para a soberania. A bem dizer, soberania nem vê-la: é preciso gastar dinheiro em defesa; onde? Ah, isso será decidido no seio da UE e da Nato. Catastrófico.
Para não dizer apenas mal, foi interessante a reflexão sobre a importância de acolhimento de imigrantes dos Palop, funcionando inclusivamente como válvula de escape para as graves tensões sociais que se vivem em Moçambique, mas também em Angola, muito preocupantes.
segunda-feira, outubro 20, 2025
4 versos de Camões
Está a gente marítima de Luso / Subida pela enxárcia de admirada, / Notando o estrangeiro modo e uso, / E a linguagem tão bárbara e enleada.»
Os Lusíadas, I-62 (1572)
domingo, outubro 19, 2025
Borges Coelho, o último dos grandes
Quando comecei a estudar História, um grupo de historiadores de largo espectro, cujo conhecimento e amplidão de estudo iam além da "mera" especialização, impunha-se. Eram eles António José Saraiva (1917-1993), Luís de Albuquerque (1917-1992), Vitorino Magalhães Godinho (1918-2011), Joel Serrão (1919-2008), Jorge Borges de Macedo (1921-1996), José-Augusto França (1922-2021), Joaquim Veríssimo Serrão (1925-2020), A. H. de Oliveira Marques (1933-2007), José Mattoso (1933-2023) -- e, claro, António Borges Coelho (1928-2025), a cuja defesa da tese de doutoramento assisti e que entrevistei, no século passado, para o JL, além de nos termos encontrado algumas vezes no nosso comum concelho (ABC vivia na Parede).
Era um historiador do contra, e isso fez toda a diferença.
sábado, outubro 18, 2025
burcas -- ou o veneno do populismo de taberna
Sou, obviamente, contra o uso da burca e de outras formas de subjugação das mulheres e sou por princípio contra o relativismo cultural, quandfo atentatório dos direitos humanos;
Não desvalorizo a circunstância de o número de mulheres obrigadas a usá-lo seja entre nós relativamente baixo, conclusão a que chego por mera observação;
Não faço de conta que não percebo que na maioria dos casos (se não todos) usar uma aberração como a burca não depende da livre autodeterminação das mulheres que são obrigadas a usá-lo;
E não me alheio da complexidade que a sua proibição pode levantar a essas mulheres, confinando-as, tornando-as duplamente vítimas: do marido ou da família e do Estado;
Não me posso esquecer -- como salientou e bem o deputado do PS Pedro Delgado Alves que o contexto e quem apresentou esta proposta ser o desqualificado André Ventura, um tipo que subiu na vida a pôr as pessoas umas contra as outras.
É aceitável uma mulher usar burca ou niqab? Não, é degradante e profundamente ofensivo.
É aceitável, em nome de princípios inegociáveis, votar ao lado de desqualificados? Não, é profundamente ofensivo e degradante.
quinta-feira, outubro 16, 2025
4 versos de Afonso Lopes Vieira
«O pastor vai para a serra, / vai para a serra sozinha, / que, lá do céu tão vizinha, / parece longe da Terra...»
Animais Nossos Amigos (1911) - «O Cão»
quarta-feira, outubro 15, 2025
o que está a acontecer
«I-EXPERIÊNCIA / Uma das coisas discutidas no Café Martinho era a virgindade de Antero. / Havia rumorejos quando ele entrava. / Já então um pouco obeso, mas empertigado por aquela volúpia do próprio mérito, que é sugestiva como um cartaz, -- principiava a usar o seu famoso chapéu preto de grandes abas, que implantava um pouco à banda, com audácia, sobre penugens dizimadas pela seborreia.» Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória (1947)
«Esqueceram os mil pormenores da instrução de comando, as forças não chegavam para tudo, mas a arma, essa ficou ali à mão de semear... Tiraram lentamente as mochilas de cima dos ombros e morderam os lábios com a dor dos músculos dormentes cortados pelas correias de lona.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)
«Dali à entrada da quinta corria um muro de pedra solta onde espreitavam trepadeiras, e só a uns vinte metros se erguia uma parede nobre com o grande portão verde de padieira grossa, que ao abrir bem até atrás, devido a uma posição mal calculada, batia na borda da sineta arrematada do naufrágio de um veleiro.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)
O(s) Egipto(s) de Eça de Queirós e Ferreira de Castro
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4 versos de José Régio
«Entre os dois, eu sentia-me pequeno e miserando, / Vibrando todo, tumultuando, soluçando, / Com olhos meigos, lábios torpes -- indeciso / Entre um inferno e um paraíso!»
Poemas de Deus e do Diabo (1925) - «Painel»
terça-feira, outubro 14, 2025
2 versos de Pedro Tamen
«Por sobre os ombros me caio, / de sob as ervas me luzes;»
Os Quarenta e Dois Sonetos (1973)
segunda-feira, outubro 13, 2025
4 versos de José Carlos Ary dos Santos
«Caminharemos de olhos deslumbrados / E braços estendidos / E nos lábios incertos levaremos / O gosto a sol e a sangue dos sentidos.»
A Liturgia do Sangue (1963) - «A liturgia do sangue»
domingo, outubro 12, 2025
sábado, outubro 11, 2025
o que está a acontecer
«-- Se eu te tivesse conhecido recém-nascida, teria odiado em ti o rosto incaracterístico da criança, balofo, sem vontade, que ri como um ébrio: -- esse rosto divino que 18 anos mais tarde eu havia de amar pela perversidade do seu sorriso, pela voluptuosidade que dele se desprende e voa até aos meus sentidos.» Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge (1924)
«Os homens pararam. Alguns, mais cansados, sentaram-se imediatamente, outros ainda procuraram árvores para aproveitarem a sombra e o encosto dos troncos. Abriram os camuflados, aspirando o cheiro ácido de suor que saía do peito, para se refrescarem.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)
«Estavam quase ao alcance da respiração um do outro: ela debruçada num muro de pedra de lava; ele na rampa de terra que bordava a estrada ali larga, acabando com a fita de quintarolas que vinha das Angústias até quase ao fim do Pasteleiro e dava ao trote dos cavalos das vitórias da Horta um bater surdo, encaixado.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)
sexta-feira, outubro 10, 2025
seis poemas de Liberto Cruz, na sua morte (1935-2025)
Quem a morte sentiu
Da vida não foge
(Livro de Registos / Última Colheita, 2022)
***
Tenho a idade
deste plátano
e desta tília.
Todavia sei
que não vamos
envelhecer juntos.
(Sequências, 2000)
***
Uma só vida não chega
Nem outra nem outra ainda
Para dizer que te amo
Meu amor meu só amor.
E quando a morte vier
Inevitável e certa
Que seja eu o primeiro
A ficar no livro inscrito.
Que ali discreto seja
E feliz por ter amado
A mulher por que morri
Vivendo. Nada mais quero.
Se de meu amor morri
Morrendo volto a viver.
(Caderno de Encargos, 1994)
***
Como defender a Pátria falando outra língua,
Se outra língua ouvindo sei que esta terra
Minha Pátria não é?
(Jornal de Campanha, 1986)
***
Em Portugal haver mocidade portuguesa
é um pleonasmo a evitar
(Gramática Histórica, 1971)
***
SÓ PORQUE ÉRAMOS PUROS
Só porque demos as mãos
E gritámos bem alto
O nome da amizade,
Só porque trocámos carícias
Sem o prazer dos sexos
E fomos amantes Como o luar e o rio,
Chamaram-nos devassos
E refugiaram-se no mundo
Torpe, em que não caímos.
(Momento, 1956)
2 versos de Alexandre Nave
«Rapazes enfezados no ventre da tarde / destroçam os pássaros no riso»
Columbários & Sangradouros (2013)
quinta-feira, outubro 09, 2025
zonas de conforto
Jaime Brasil a Ferreira de Castro (1925): «Paris, 14/10 // Meu caro Castro, // Como vai isso? Bem? Não sei se já lhe escrevi ou não. Ando arrasado das viagens, hábitos alterados... o diabo. O M. Domingues já veio? / Estou na R. Richer, 26 Pension Home. Se for necessário qualquer coisa escreva até ao dia 20. / Recomende-me à "Tertúlia". Abraça-o o am.º e camarada / Jaime» Cartas a Ferreira de Castro (2006) - ed. Ricardo António Alves § Vergílio Ferreira: «Fomos a Fontanelas, levámos o Lúcio, de Bolembre. Lúcio cresce, distancia-se. Não decerto no afecto -- no que no-lo marcou como criança. Com ele, também, a fuga do tempo. A casa do Rogério -- o jardim. Súbita melancolia, o espectro do passado, ou seja da morte.» Conta-Corrente 1 (1980) § José Duarte: «Em nome do Pai... / e do Filho... / e de John Coltrane» Cinco Minutos de Jazz (2000) § Machado de Assis: «É preciso dizer que ele padecia do coração: -- moléstia grave e crônica. Pai José ficou aterrado, quando viu que o incômodo não cedera ao remédio, nem ao repouso, e quis chamar o médico. / -- Para quê? disse o mestre. Isto passa.» «Cantiga de esponsais», Histórias sem Data (1884) § Manuel Tiago: «Mas em todo o seu físico, na rigidez do tronco e no dispor das pernas, nos gestos e olhares, transparecia qualquer coisa que o distinguia de um vulgar lavrador, qualquer coisa de arrogante, ousado e impertinente. Cinco Dias, Cinco Noites (1975) § José Bacelar: «E pontos de vista todos eles igualmente admissíveis, todos eles dignos de atenção, todos eles justos. Assim, que, na complicada construção dum edifício, o carpinteiro considere tudo sob o ponto de vista da carpintaria, o pedreiro sob o ponto de vista da alvenaria, o pintor sob o ponto de vista da pintura, são realidades contra as quais o espírito livre nada tem que dizer. Nada mais natural -- e nada talvez mais necessário.» Arte, Política e Liberdade (1941) § Fialho de Almeida: «Duma ocasião, sozinho no meu quarto, eu considerava uma rosa branca que emurchecia num copo, tão triste! Disse-lhe assim: "Tu sofres!" Ela curvou-se mais sobre a haste, aquiescendo, e vi-lhe duas lágrimas nas pétalas. Nunca pude saber quem fosse esta mulher.» O País da Uvas (1893) - «Pelos campos»
estes são quintas colunas de quem?
Estes acham que somos todos estúpidos, que ninguém está a ver a grosseira manipulação da opinião pública ocidental; a censura imposta aos media russos -- de propaganda, dizem, como se houvesse algum merdia que o não fosse; o fracasso da "política" (nem a designação merece...) europeia na Guerra da Ucrânia; a perigosa mediocridade da acção, com a falta de estratégia total da UE, a não ser a de ser cão dos Estados Unidos.
Acham estes idiotas que basta dizer que "houve um país que invadiu outro", como aconteceu mais uma vez com Pacheco Pereira há dias na televisão (o grau zero da análise) -- pois o público é basicamente constituído por crianças grandes -- por isso facilmente manipulável --, que basta dizer muitas vezes as mesmas parvoíces, como faz o Costa, que a malta engole. Engole, pois; mas não toda.


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