segunda-feira, fevereiro 26, 2024

«Ferreira de Castro -- Uma Biografia» I (1898-1919)


















Índice: Uma biografia de Ferreira de Castro

I- Um ursinho em Ossela (1898-1911): Alguma poesia. Salgueiros: o que pode haver num nome. Uma terra antiga. Paisagem… . …e povoamento. O brasão de Ossela. Os Castros. Um pai de quem não se fala. Infância. Um benemérito local e os dois mestres de Ferreira de Castro. Margarida. Primeiras leituras. João de Deus. A «Educação Cívica». Faustino Xavier de Novais. Eduardo de Noronha, Do Minho ao Algarve. Os jornais. História de João Soldado. Tradição oral. As lágrimas dos foguetes. A fuga, ou as razões de uma partida. O caso Margarida. Contexto económico e social. O último dia.

II- No coração da selva (1911-1914): A travessia. De Belém do Pará ao rio Madeira. Rumo ao coração da selva. Patrão, procura-se. Conhecimento do inferno. Os índios, os outros. Os dias do Paraíso. Cartas de longe. As duas Raimundas. Charadas. Manoel Sabino Durães. Jornais. «O Amor de Simão». Horas Nostálgicas. O adeus ao seringal.

III- Na Feliz Lusitânia. Do Pará ao Rio (1914-1919):  Belém do Grão-Pará. A cidade desconhecida. “Cassiporé”. Viver em Belém. O Jornal dos Novos. Criminoso por Ambição. Alma Lusitana. Portugal. Patriotismo e nativismo. Um temperamental. Uma agenda. O jovem galante. O Rapto. Rugas Sociais. Às voltas pelo Brasil, até ao Rio de Janeiro. A bagagem literária. Zola. Schopenhauer. Tólstoi. Euclides da Cunha. Regresso.

Cronologia (1898-1919)

À venda na Wook.


curtas

 «Acontecimento único a abalada, para terras longínquas, da meia dúzia de homens que anualmente emigrava, era também ali, comoção única, o momento da largada do navio.» Assis Esperança, «O dinheiro», O Dilúvio (1932) «Mas sobretudo os olhos, aquelas duas contas reluzentes, coisa mínima e tão alerta sempre, maliciosos ou compungidos, consoante o que conta é digno de riso ou de lamento.» A. M. Pires Cabral, «O saco», O Diabo Veio ao Enterro (1984) «No fim ficava tudo identificado: o rapaz, a gaja, o pai da gaja, o cínico, o amigo do rapaz e o bandido.» António Alçada Baptista, Uma Vida Melhor (1984)

domingo, fevereiro 25, 2024

ucraniana CCXXV - a derrota do jornalismo, da cidadania e da liberdade: dois anos de incompetência e miséria moral

Uma regra básica do jornalismo é a de ouvir ambas as partes em qualquer situação. E nem me refiro às versões dos dirigentes, que essas passam sempre de um modo ou de outro, mas as pessoas, os lados, e já agora também as opiniões.

Para além das doses maciças de propaganda a que somos sujeitos, algo nunca visto desde a Guerra Fria, para além da censura objectiva, como o do acesso aos canais russos (de propaganda, segundo a Comissão Europeia), não me lembro de ter assistido a um atropelamento tão grosseiro da liberdade de informar e do direito a ser informado.

Exemplo: enquanto que o sofrimento da população ucraniana é mostrado (e bem), o sofrimento dos russos do Donbass -- aqueles que o Bloco de Esquerda e o Livre esquecem quando dizem defender o direito à autodeterminação dos povos -- é praticamente silenciado, até porque ali não devem ter escolas, nem parques infantis, nem crianças (as tais que foram deportadas para a Rússia...).

Não é crível que, nomeadamente nas televisões e nas rádios, não haja jornalistas com deontologia. Claro que há; mas ou vão por sua conta, como Bruno Amaral de Carvalho (com o bónus de serem insultados por colegas de profissão), ou então é claro que não temos notícias do outro lado. (Honra seja feita à CNN-Portugal, creio que o único órgão de imprensa que transmitiu as suas reportagens).

Este atentado grosseiro à cidadania e à liberdade de informar e ser informado, é tragado por nós com a facilidade com que se bebe um copo de água.

Para além do básico, que é a ausência, ocultação e manipulação da informação, e do condicionamento dos cidadãos como se fossem atrasados mentais, temos o afastamento, silenciamento -- sem esquecer as múltiplas pressões e suspeições -- levantadas sobre quem tem uma perspectiva não alinhada (salvo, outra vez, a CNN-Portugal, apesar das doses maciças de propaganda da casa-mãe que despeja, e da impreparação de muitos dos pivôs). A RTP, televisão pública, é claramente insatisfatória, e é vergonhoso não ter ainda enviado um repórter para o Donbass, talvez porque o patrão não deixe. Tenho muitas vezes criticado José Eduardo Moniz, mas comparado com a nódoa do congénere da RTP, que nem sei quem é, fez mais aquele pela cidadania e pela liberdade, numa estação privada do que a televisão pública.

Poderia falar de outros casos grosseiros de manipulação e condicionamento, como o da Rádio Observador, para quem já nem serve o coronel Mendes Dias, assumido defensor de uma vitória do Ocidente, mas analista honesto, para não falar do major-general Carlos Branco, que rapidamente deixou de ser convidado para comentar. Para eles, militares só os majores-generais Isidro e Arnaut e civis do jaez do catedrático de circo cardinali que por lá têm. 

Claro que por muita censura da Comissão Europeia e manipulação merdiática, hoje podemos sempre aceder à informação que queremos, sem termos de estar exclusivamente sujeitos às declarações patetas dos nossos governantes e escapando à informação unilateral que procura impedir-nos de formarmos o nosso juízo.

Haver uma estação pública de televisão e rádio que, numa guerra desta magnitude e consequências, se abstém do dever de informar com equilíbrio e isenção, ouvindo e reportando o que sucede nos dois lados, é o grau zero do jornalismo, um atentado à cidadania, um crime contra a liberdade.   

Bob Marley & the Wailers, «Bad Card»

sábado, fevereiro 24, 2024

colagens

«(Ah, cão, asno de ouro, corro ao cadáver.)»

«Bebo-o a colherinhas de olhos» 

«O espanto inunda as mãos (aves sem peso)»


1. José Emílio-Nelson

2. Luísa Dacosta

3. Fernando Jorge Fabião

quadrinhos


 

continuo a reconhecer-me no que escrevi há dois anos (ucranianas CCXXIV)

 Aqui. Hoje, creio que estou mais pró-russo que há dois anos, mais antiamericano.

sexta-feira, fevereiro 23, 2024

quinta-feira, fevereiro 22, 2024

caracteres móveis

«Era então a Amazónia um imã na terra brasileira e para ela convergiam copiosas ambições dos quatro pontos cardeais, porque a riqueza se apresentava de fácil posse, desde que a audácia se antepusesse aos escrúpulos.» Ferreira de Castro, A Selva (1930) 

«Mulheres, de enxada, pés a chapinhar nos canteiros alagadiços, talhavam regos, abrindo e vedando caminho à serpente de água preciosa.» Romeu Correia, Calamento (1950)

«O padre irou-se outra vez: deixou cair a caixa, no excesso da indignação; verteu no peito da camisa quatro pingas de rapé; escumou pelos cantos da boca; pisou uma perna do papagaio; entalou o rabo da gata, que saltou, bufando, para o peitoril da varanda; e acabou por dizer, em voz cavernosa, que Rosa, no dia seguinte, sem mais delongas, seria fechada no Recolhimento de S. Lázaro, para não ver sol nem lua.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854)

ainda Navalny, sem bater mais no morto, mas assestando a mira aos tolos cá da parvónia

Mão amiga fez-me chegar o artigo do major-general Carlos Branco, a propósito do mal contado caso da morte de Navalny ( o discurso cavernoso de crepes de Lobo Xavier, que quase choru na "Quadrarura", ou a penosa indignação selectiva de Pacheco Pereira não conseguem competir com o descabelo de Assis -- Navalny, o Mandela russo...:). 

Eu, que sou um mero curioso destas coisas, não totalmente desinformado, sinto-me sempre confortado quando vejo alguém da craveira de Carlos Branco coincidir no essencial com o que penso sobre o assunto).

Claro que não é preciso ser um génio para levantar dúvidas e questões (ou afirmar umas quantas certezas) ocorridas em torno da morte do "democrata" reciclado Navalny; com alguma leitura e estudo, basta ter honestidade intelectual, e saber pensar.

Bob Dylan, «The Lonesome Death of Hattie Carroll»

quarta-feira, fevereiro 21, 2024

Navalny, o fascista reciclado pelos Estados Unidos e beatificado pelo pateta Assis

O maior pateta da política portuguesa dá pelo nome de Francisco Assis, o tal que era contra a Geringonça e agora é cabeça de lista do Pedro Nuno Santos pelo Porto. Comparar o racista e neo-fascista Navalny com Nelson Mandela é revelador... 

Não querendo ficar atrás embora com menos sucesso, o habitual João Gomes Cravinho, trouxe à liça o Humberto Delgado. Depois, estes bicos de pés de mandarmos chamar o embaixador russo, só faz rir, pela completa falta de noção de ridículo, sem falar no mau aspecto que dá do país, cãozinho amestrado e obediente à voz dos donos (tutela partilhada...). Para além do duplo critério, claro, relativamente ao embaixador israelita, como escreveu hoje Pedro Tadeu no Diário de Notícias.

Mas, na verdade, que importa a coerência, a compostura, a prudência, a isenção, o brio?...

Em baixo, belas demonstrações do malogrado "Mandela" russo, de acordo com a cabecinha vesga do Assis.

quadrinhos


 

terça-feira, fevereiro 20, 2024

curtas

«A boca nua de dentes, salvo o tal canino e os restos do outro, chupada para dentro, sarcástica o mais das vezes, comovida outras, com uma língua que vem frequentemente humedecer os beiços, numa passagem rápida, como a que certos batráquios disparam para capturar insectos.» A. M. Pires Cabral, «O saco», O Diabo Veio ao Enterro (1984) «O Norberto nunca se chateava, desenrolar espaço era o seu passatempo favorito (o seu olhar levíssimo partia amiúde nas asas das gaivotas oblíquas), afiava mastros por conta dos donos das embarcações que iam ao cais falar com ele e cuspir para as ondas, agitando o braço direito (o esquerdo, conforme rezam as crónicas da época, era paralítico de nascença).» Dinis Machado, Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez (1984) «Os colos eram todos gordos menos o da tia Augusta que tinha dois ossos -- um em cada perna, mas também não era mau.» António Alçada Baptista, Uma Vida Melhor (1984)

segunda-feira, fevereiro 19, 2024

Tamás Benedek, «Summa» para cordas (Arvo Part)

a estória do Navalny tresanda a gasoduto, e todos os que não andam distraídos sabem disso (ou por que raio precisava o Putin de mandar matar o Navalny?)

Talvez por que seja louco, dir-me-ão em fina análise de mulher-a-dias (com respeito por estas e nenhum pelos outros)... Ou porque tem cancro, ou porque ficou apanhado pela covid-19, entre outras interpretações sofisticadas.

Na sexta-feira dava fifty-fifity quanto às suspeitas sobre a autoria da morte (isto, se o homem não morreu vítima de qualquer embolia): agora, tenho cada vez menos dúvidas de que, não se tratando de uma síncope qualquer (sim, Navalny era um preso político, mas também um agitador perigoso e racista, como há tempos escrevi; e sempre suspeitei dele como um peão dos americanos, ou que deles se nutria -- talvez mais esta segunda hipótese: alguém, como Bin Laden, que depois lhes fugiria ao controlo), 

As reacções pressurosas da administração americana, muito parecidas no tempo com as que foram proferidas por ocasião da sabotagem dos Nordstream (aqueles que Biden ameaçou destruir, ao lado do gnomo alemão -- eu vi), deixam no ar o cheiro a canalha. O Lula, que, ao contrários da maioria dos líderes europeus em particular portugueses, não é um pacóvio nem menino a cheirar a leite, já disse ao pessoal para ter calma.

Agora, estes atrasos de vida da União Europeia fazem mais um filme com a viúva -- um filme para a fotografia --, sabendo que a única coisa que podem contra a Rússia é serem peões do Pentágono. (Alguém sabe dos nosso tanques Leopard?...) Que lixo.

Se a morte do Navalny foi perpetrada por serviços secretos ocidentais, tal não passa de um sinal de desespero: uma tentativa burra de criar um levantamento popular (a burrice (e a ganância) dos americanos é lendária); ou a criação de um clima emocional que leve a Câmara dos Representantes a libertar as verbas para que a Ucrânia continue a comprar armamento aos Estados Unidos... Ou ambas, e quiçá outras que me escapam. Enfim, nada que verdadeiramente conviesse a Putin, embora, estando na mó de cima com esta guerra com os Estados Unidos, pudesse ser tentado a transfigurar-se em Vladimir, o Terrível, para fazer o gosto ao Ocidente, isto a crer nos profundos perfis desenhados pelas esportuladas centrais de comunicação. 

colagens

"Chama o saci: -- Si si si si!"

"Forma-se a onda e depois outra e outra" 

"Lembra um daqueles briosos cães-pastores"


1. Manuel Bandeira, "Berimbau"

2. Antero Abreu, "Onda vai onda vem"

3. A. M. Pires Cabral, "A um comprimido hytacand"

domingo, fevereiro 18, 2024

sexta-feira, fevereiro 16, 2024

NAVALNY x ASSANGE, felizmente temos "os nossos valores"

Chego ao restaurante, televisão sem som sintonizada na RTP3, vejo que Alexei Navalny morreu na prisão; saio, e o tema continua, ininterruptamente. Pude verificar que a Casa Branca emitiu um comunicado a dizer que se a notícia se confirmar "será uma tragédia"; Blinken a sustentar que o acontecimento ilustra "a fraqueza e a podridão do regime de Putin"; e ainda aquela camela inútil que é vice-presidente, cujas emanações da cavidade oral não pude apurar. Cereja no topo do bolo: a anedota demissionária que passa por ministro do Estrangeiros português, acusa o presidente russo do sucedido.

Ri-me várias vezes. Não da morte de um homem na prisão, por muito detestável que fosse o seu trajecto de antigo militante da extrema-direita xenófoba russa. A CIA teve sempre a inclinação para recrutar e branquear neo-nazis e tralha conexa para transformá-los em paladinos da liberdade. Dos nossos valores, portanto. Não tenho nenhuma prova de que Navalny trabalhasse para a CIA, mas não tenho dúvida de que estava feito com os americanos. O método topa-se à légua, e já foi experimentado muitas vezes desde há décadas. E os russos sabem-no.

Isto para dizer que, se ele foi assassinado na prisão, não faço ideia sobre quem terão sido os mandantes. Ou melhor, faço: ou foi o Kremlin (é verdade que com Putin cada vez menos se brinca, apesar de agora ter dado em humorista) ou foi a CIA (currículo vasto).

Vai ser um dia a ouvir os papalvos do costume, ainda bem que estou em viagem.

Já agora: o que é feito do Julian Assange? A sorte que ele tem em pertencer ao mundo livre. 

quinta-feira, fevereiro 15, 2024

Charlie Parker, «What's New»

caracteres móveis

«Então reproduz de cór a paisagem que se vê da janela, cria os seres primordiais, mistura verão e inverno, atenua a cegueira (o excesso) do sol incidindo sobre a sílica, mica esmigalhada, vidro moído num almofariz (sabe-se lá), aumenta os grãos de areia até ao tamanho que parecem ter, de noite, quando o vento atira contra as vidraças as suas enormes pedradas.» Carlos de Oliveira, Finisterra (1978)

«O fervor com que ela falava de Alighieri acendia-lhe o cinzento dos olhos, habitualmente muito frio, e os movimentos da cabeça, virando-se para ele enquanto caminhavam pela Quinta da Saudade, captavam o sol do entardecer e revelavam reflexos, até aí insuspeitados, de mogno antigo ou malvasia velho.» Helena Marques, O Último Cais (1992)

«Tristes hortejos manifestavam a presença daquela gente em tão ermas paragens.» Romeu Correia, Calamento (1950)

quarta-feira, fevereiro 14, 2024

quadrinhos


 

os debatentes, so far e até agora

Pedro Nuno Santos - parece que ainda não encontrou largueza suficiente para este estúpido modelo comprimido de entrevistas paralelas.

Luís Montenegro - Bastante melhor do que estava á espera, especialmente quando fez gato-sapato do pobre Ventura, e com visível gozo. Ri-me.

André Ventura - Excrescência. Não serve para nada, a não ser excitar o medo e os instintos primários da populaça -- só a populaça vota no Chega (populaça, independentemente do estatuto social que tenham).

Rui Rocha - Pertencem-lhe os melhores desempenhos, com Mariana Mortágua.

Paulo Raimundo - Melhora o desempenho de debate para debate. Dicção a melhorar também. O debate com Tavares foi o melhor até agora.

Mariana Mortágua - Pertencem-lhe os melhores desempenhos, com Rui Rocha. No final do confronto com Ventura, deixou-se afogar pela bruteza do catterpilar, o que não deve causar estranheza. Até para evitar equiparar-se.

Inês Sousa Real - Eloquente, mesmo prejudicada por razões de saúde. Mas no entanto, repetitiva. A ideia de um partido "útil á democracia" é bem sacada.

Rui Tavares - O mais criativo e surpreendente. Tanto, que até alinha com a Nato, quando deveria ser, especialmente em relação à miséria da política da UE, o tal grilo falante que almeja.  Quer a autodeterminação dos povos, mas não se preocupa com os russos do Donbass e da Crimeia, e até se esquece dos catalães. 

curtas

«Era como um lírio ou como a neve a impressionar-se de vincadas recordações -- ninguém se apercebera daquela sua aventura -- mas D. Branca não podia ficar toda a vida com a mesma cor -- é tão difícil conservar uma coisa completamente branca!» Ruben A., «Branca», Cores (1961) / «O pai da parturiente, um homem resignado, esperou-me com uns olhos em que havia prece.» Fernando Namora, «História de um parto», Retalhos da Vida de um Médico (1949) / «-- [...] O senhor já pensou que poderiam perfeitamente existir bosques aéreos e que o homem deveria andar no fundo dos mares ou no espaço celeste com tanta facilidade como anda aqui na terra?» Ferreira de Castro, O Senhor dos Navegantes (1954)

segunda-feira, fevereiro 12, 2024

Bob Marley & The Wailers, «Real Situation»

"dois pobres diabos em Kiev" - ucranianas CCXXIV


Mão amiga fez chegar-me este texto de Carlos Matos Gomes.  Eu não o diria melhor, e uma das razões prende-se com o facto de Matos Gomes, além de militar experimentado, historiador da Guerra Colonial -- em que participou como oficial-comando -- é também o romancista Carlos Vale Ferraz. Aliás basta ler as declarações transcritas pelo pobre ministro da Educação no portal do Governo (agora com logo modernaço) para perceber-lhe a indigência.


«A reportagem do passeio de dois tristes que são ministros da República Portuguesa

deixou-me naquele estado em que perguntamos se nos devemos rir ou interrogar se é verdade o que vemos. Aqueles dois tristes são ministros do governo português? Que raio foram fazer? Anunciar que vão dar uns euros para reconstruir uma escola?

Ninguém acredita que aquelas pungentes figuras de quase sem abrigo tenham ido a Kiev fazer um anúncio que não é mais do que uma promessa que diariamente fazem os mais ignorados presidentes de juntas de freguesia em Portugal. Aquelas duas sombras vagueantes foram em peregrinação a Kiev cumprir ordens. 

A guerra na Ucrânia está num atoleiro de várias lamas, a da corrupção, a das dissidências internas típicas das épocas de derrota, de degradação da sociedade civil, de incapacidade militar, de reconhecimento do que desde o início da aventura se sabia: não se deve provocar o leopardo com uma vara curta e a Rússia era um leopardo, uma superpotência; e por fim há a degradação da boa vontade dos benfeitores que meteram a Ucrânia na encrenca em que está. 

A solução da vivaça Ursula Van der Leyen, do inteligente Borrel, do senhor que está agora de primeiro-ministro em Inglaterra, o quarto ou quinto da mesma peara do Brexit, dos estrategas de Washington, agora ocupados com Israel, foi o de mandar uns pobres diabos a Kiev animar a família de Zelenski. De Portugal zarparam dois espécimes, o habitual viajante Cravinho e o quase desconhecido interlocutor do fero Mário Nogueira dos professores e do assanhado e quase sempre desgrenhado compère que dirige o STOP. A sério: em tempo de eleições, o Partido Socialista entende que é boa propaganda enviar dois figurantes de segunda linha a Kiev, para promover uma criatura desacreditada, uma guerra cada vez mais criticada e cada vez mais identificada com os interesses americanos e menos com os interesses europeus, uma guerra que já é apresentada como a responsável pelas dificuldades de apoio à agricultura e à indústria europeia, responsável pela inflação e pela crise económica?»

domingo, fevereiro 11, 2024

caracteres móveis

«Algumas vezes também o haviam tentado essas estradas líquidas que cortavam a selva imensa, mas sempre um pavor instintivo, amálgama do que se dizia de febres perigosas e de vida bárbara e instável, o detivera em Belém.» Ferreira de Castro, A Selva (1930)

«Era o mal ruim da Índia, do Brasil e das outras terras descobertas, todas a porem a teta na boca de quem se habituara a luxar, sem suor que lho merecesse.» Alves Redol, Barranco de Cegos (1961)

«Fora, no Largo de S. João, andava o povo de alevante, como se o campanário houvesse soltado voz de franceses à vistaAquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)

Bob Seger, «Evil Edna»

sábado, fevereiro 10, 2024

"A Derrota do Ocidente" (2024), por Emmanuel Todd - ucranianas CCXXIII

Emmanuel Todd, La Defaite de l'Occident (Gallimard). Historiador e antropólogo, Todd reflecte sobre a situação desgraçada a que chegámos na guerra entre os Estados Unidos e a Rússia na Ucrânia, num livro que parece suculento, e que boa parte de comentadores, académicos e governantes incompetentes e jornalistas deveriam ler. Em baixo, a entrevista à TV5, de que retirei estes tópicos:

1. Os Estados Unidos caíram na armadilha do nacionalismo ucraniano que ele próprios alimentaram.

2. O Ocidente, que vive num mundo de ilusões económicas, não percebeu, por incompetência, que não podia sustentar uma guerra longa contra a Rússia.

3. A cegueira com que se encarou a Rússia e a sua realidade conduziu o Ocidente à derrota a que se assiste.

4. A derrota da Nato provocará a aproximação entre Alemanha e Rússia.

5. O mundo angloamericano assiste à neutralização e pulverização da moral protestante -- referência a Max Weber -- substituída por um niilismo especialmente destrutivo.

6. Duas Ucrânias: uma russa (Crimeia, Donbass) e russófona, e outra ucraniana propriamente dita, em que os partidos pró-Rússia foram proibidos.

7. No jogo geopolítico europeu deste conflito, os grande actores são: a Rússia, a Alemanha, que controla o centro-leste da do continente e a Inglaterra, em delírio belicista e decadência profunda. Em termos geopolíticos, a França não conta, por não ter adoptado uma posição autónoma em face do eixo Londres-Varsóvia-Kiev. A França equivocou-se completamente, mas isso também não tem importância nenhuma, dadas as suas debilidades.

8. Caracterização da produção intelectual académica norte-americana como medíocre, a que se junta uma prevalência niilista de pulsão conducente à violência e à guerra. Não devemos esperar dos Estados Unidos posições racionais ou mesmo razoáveis, pelo que tudo é possível. O início da guerra em Gaza demonstra-o: a primeira reacção dos EUA. foi a da opção pela violência e cobertura a Israel, dando-lhe a sensação de estar livre para actuar como lhe aprouvesse.

9. Sim, Trump é uma ameaça, mas os Democratas, cujo partido está totalmente corrompido, também o são, 

10. O problema demográfico da Rússia, cuja população está em decrescimento, não lhe permite veleidades imperialistas.

11. A doutrina militar russa continua defensiva, mas mudou: atendendo ao desequilíbrio demográfico desfavorável para a Rússia relativamente ao Ocidente, em caso de ameaça, passou a encarar a possibilidade de emprego de armas nucleares tácticas.

12. Em face da propaganda que sustenta o perigo de uma invasão russa, Todd pergunta-se se estaremos a ser governados por pessoas sérias, que sabem ler, trabalham e analisam os dados...


sexta-feira, fevereiro 09, 2024

vermelho e negro

«Desgraçados os países que caem nos excessos industriais, que consagram aquela teoria política pela qual um governo despreza as necessidades espirituais para só se ocupar dos interesses materiais e positivos!» Eça de Queirós, in Distrito de Évora (1867) / «Hoje para continuares a ser republicano tens que te matricular num partido, tens que te guiar por um programa, tens inevitavelmente que pôr-te em contradição com o teu correligionário de ontem, opondo as tuas ideias às ideias dele -- talvez mesmo a tua browning ao seu revólver.» Manuel Ribeiro, «A um herói da Rotunda», O Sindicalista (1910-11) / «Os governos dum país civilizado, a título de exportarem a civilização, levam-lhes o canhão que os mata e o comércio que os rouba.» Mário Domingues, «Colonização», A Batalha (1919)

Prosas Esquecidas, ed. Alberto Machado da Rosa (1965); ** Na Linha de Fogo (1920) *** A Liberdade não se Concede, Conquista-se. Que a Conquistem os Negros!, ed. António Baião (2023); 

Ainda Mortágua, a Ucrânia e a Nato (ucranianas CCXXII)

Pois, é, pois é... Mariana Mortágua disse no debate com Rui Tavares que é pela autodeterminação dos povos -- e esquece-se dos russos do Donbass, e tudo o que se passou à sua volta para torpedear o problema que ali existe. O BE (tal como o Livre), por omissão, é objectivamente parte da frente organizada pelo imperialismo americano, sem distinguir-se dos restantes, a começar pelo Chega (volto a falar da ignóbil fotografia na Assembleia da República). Não seria obrigada a pôr-se ao lado do imperialismo russo, é certo, mas há uma decência que seria necessário observar, sem fazer o jogo precisamente dos mesmos tipos que no início do século cometeram a chacina do Iraque. É que são os mesmos, sem tirar nem pôr. Como Mortágua não é estúpida, e sabe disto tudo, poderemos sempre cogitar sobre o que faz o Bloco de Esquerda na vanguarda organizada do complexo militar-industrial norte-americano, cujo braço político é o Pentágono. e os títeres, Joe Biden (tão senil que nem o querem julgar) -- Biden, e companhia. 

ui... o "conservador" Tucker Carlson entrevistou Putin, um cartazito no Rato e o "debate" Mortágua-Tavares

* Assim qualificava o rodapé de ontem da cnn, e suponho que o resto dos propagandistas do Pentágono. Mão amiga fez-me chegar a transcrição, (enquanto não podemos ver na net). Hilariante, como Putin fala  da fronteira sul dos Estados Unidos.

* No Rato, um cartazito não sei de que força política: "Ou estás com a Ucrânia, ou estás com Lula." Exactamente, ou quase, porque a Ucrânia, como se tem dito, espécie de Afeganistão da Europa, é um território onde as potências lutam. 

* No frente-a-frente Mariana Mortágua - Rui Tavares, a moderadora pergunta sobre Portugal e a Nato: deve ficar ou sair? Mortágua não tem coragem de afirmar o que quer que seja -- pega e escuda-se na Constituição para não ter que dizer que deve sair; Tavares, à mesma pergunta, também não tem coragem de dizer sim ou não, chuta para canto com a fantasia paupérrima de uma força de defesa europeia, que ele deveria saber e sabe que só existirá com alemães a mandar, franceses cooptados até ver, e todos os outros a obedecer e a servir interesses de terceiros, que é o que sucede agora. Patético.

quinta-feira, fevereiro 08, 2024

Bob Dylan, «When the Ship Comes In»

os debates: o instinto matador de Rui Rocha, com breve alusão aos flatos emanados com nauseante estrépito pelo 'Expresso', cada vez mais pasquim

 Rocha-Santos: Um equilíbrio ao longo do debate que terminou com uma série de estocadas mortíferas de Rui Rocha (TAP, CP, habitação), que revela um instinto matador, e Pedro Nuno Santos em nítida dificuldade (só estou a falar da performance).

Real-Ventura - Um reencontro, com Inês Sousa Real em baixa condição física, prejudicando-lhe o tiro bem ensaiado: o número de propostas (zero) aprovadas na legislatura, por parte de "Ventura e os seus doze deputados". A razão: os projectos estavam mal feitos.

Raimundo-Real - Foi um tomar chá entre duas pessoas bem educadas, que nem a questão das touradas perturbou.

Montenegro-Mortágua - Mariana Mortágua muito bem, grande desenvoltura; Montenegro, melhor do que eu estava à espera.

Rocha-Ventura - Não é fácil debater com vendedores de banha da cobra. A frase de Ventura ("A IL só sabe privatizar e despedir."), repetida várias vezes, deve causar um bom efeito no seu eleitorado. Rocha muito bem na questão dos imigrantes -- mesmo depois daquele exemplo criminosamente boçal sobre a pena a aplicar quando um imigrante violasse uma criança...  A certa altura Rocha encolhe os ombros, como a dizer que não vale apena argumentar com o bazófias. Na verdade, dirigem-se a dois eleitorados diferentes.

Rocha-Tavares - Nalguns casos, mais próximos do que parecem (A vida não é só economia). Dois bons momentos: Tavares quando, em tom épico, disse querer ver os utentes de cara levantada quando entram no SNS, sejam ricos ou pobres; Rocha, quando o oponente falou nos custos sofridos pelos portugueses para salvar a banca, ao que este responde: "Não tenho nada que ver com isso." -- ou seja se é para falir, é para falir: meu deus: BPN, BPP, BES, que escumalha, aqueles conselhos de administração, bem vestidos, bem penteados, bem perfumados, bem bandalhos.

Um episódio à margem: o Expresso tem à frente uma série de pacóvios que se atribuem o direito de eliminar partidos ou dirigentes das suas promoções. A imagem relativa aos debates, em que Paulo Raimundo, do PCP, não aparece, é das coisas mais nauseabundas que já vi. Como digo há muito, eu não compro o pasquim há décadas, apesar de lá escrever um ou outro colunista que aprecio, em especial Miguel Sousa Tavares.  Lembro-me de há uns bons anos, num canal infantil que os meus filhos viam, dum separador autopromocional em que um rapazinho falava e arrotava ao mesmo tempo. A voz-off perguntava: 'Porque faz ele isto?' E a resposta era: 'Porque posso...' Assim o Expresso e os insignificantes que mandam nele: peidam-se com estrépito miasmático à frente de todos. Porquê? Porque podem, e não têm vergonha naquelas carinhas (é olhar...)

caracteres móveis

«Aqui era uma manada de bois soltos, em direcção do curral, guiados por uma criança de palhoça e pernas nuas, os quais paravam a olhar com aquela expressão de composta curiosidade, que lhes é peculiar, para o recém-chegado visitante da aldeia.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

«Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arrepiado e cinzento, quando eu desci os Campos Elísios em demanda do 202.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901) 

«Repetiu a sedução dos vestidos e dos diamantes; encareceu as delícias do teatro; soprou-lhe a vaidade, imaginando-a invejada pelas mulheres de todos os negociantes do Porto; enfim, por não fechar o discurso sem uma imoralidade, com palavras equívocas, dissertou pouco cristãmente acerca dos deveres da mulher casada.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854)

segunda-feira, fevereiro 05, 2024

quadrinhos


 

curtas

«Aspiração única era fugir para bem longe daqueles cento e meio de quilómetros quadrados, lugar de desterro e prisão perpétuas.» Assis Esperança, «O dinheiro», O Dilúvio (1932) / «E tal comoção a agitava, e tão convulsa estremecia, que, ao atirar a esmola aos pequenos varinos, do seu dedo esguio resvalou sobre a areia fofa a aliança de noivado.» Conde de Sabugosa, «A aliança inglesa», De Braço Dado (1894) / «Mas por esse tempo veio morar para defronte do armazém dos Macários, para um terceiro andar, uma mulher de quarenta anos, vestida de luto, uma pele branca e baça, o busto bem feito e redondo e um aspecto desejável.» Eça de Queirós, «Singularidades de uma rapariga loura» (1874), Contos (póst., 1902)

sábado, fevereiro 03, 2024

Arthur Rubinstein, Colin Davis, Concerto para piano #1 de Brahms

caracteres móveis

«Cem passos andados, fez-lhe o almocreve notar um pequeno ponto branco, que se divisava ao longe, por entre a rama do arvoredo, mas já indistintamente, em virtude do adiantado da hora e da intensidade da neblina.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

«Gementes, gementes e de madeiras escanzeladas, surgiam picotas, cravadas à boca dos poços, um homem a cada balde, braços e tronco em vaivém, rins derreados, na tarefa do regadio.» Romeu Correia, Calamento (1950)

«O avô de Raquel, também André de seu nome, legara à neta uma utilização fácil e fluente da língua italiana, um alegre apreço por Vivaldi e uma devoção quase religiosa pela Divina Comédia Helena Marques, O Último Cais (1992)

sexta-feira, fevereiro 02, 2024

The Beatles, «A Taste of Honey»

curtas

«Macário, aos vinte e dois anos, ainda não tinha -- como lhe dizia uma velha tia, que fora querida do desembargador Curvo Semedo, da Arcádia -- "sentido Vénus".» Eça de Queirós, «Singularidades de uma rapariga loura» (1874), Contos (póst., 1902) / «Os homens, o pai e o marido, esperavam cá fora, sentados numa laje que ocupava quase todo o pátio, onde se abria um canal para esgoto das urinas escapadas das furdas.» Fernando Namora, «História de um parto», Retalhos da Vida de um Médico (1949) / «Sobre o seu regaço, na flanela branca do fato, a cabeça negra do cão deixava-se afagar, olhando-a com reconhecimento, quando dois pequenos varinos enlutados se chegaram, pedindo esmola para a mãe, doente e viúva.» Conde de Sabugosa, «A aliança inglesa», De Braço Dado (1894) 

quarta-feira, janeiro 31, 2024

SAMtenário


 e uma peça de Maria João Martins

preparem-se que vêm aí os russos! - ucranianas CCXXI

Hoje, à hora do almoço, televisão do restaurante sintonizada na RTP3, canal estatal, entro ao mesmo tempo que o José Estaline. Campainhas soam. Ainda ontem no carro, ouvira, na rádio Observador, um dos vários bufarinheiros do Pentágono que para aí peroram (ou exibem a incompetência) dizer que, tratando-se a Rússia de uma potência agressiva, a Europa tinha de rearmar-se, isto para não haver  surpresas numa possível invasão, até porque um bufarinheiro sénior europeu alertava para uma próxima guerra entre a Nato e a Rússia.

A propósito da agressividade russa, não ocorreu ao bufarinheiro falar da provocação da Geórgia, quando Putin assistia ao Jogos Olímpicos de Pequim, nem na golpada na Ucrânia: o que ele e outros como ele pretendem é preparar as mentes para uma de duas, ou ambas, até: uma, justificar dessa forma os gastos militares; a possibilidade de um confronto na Europa, no quadro da eleição de Trump, que adoptará uma política isolacionista ou virada para o Pacífico.

Estava a entrar no restaurante e percebi que havia coisa, ainda para mais agora que as imagens mostravam a invasão soviética de Budapeste '56, seguida da de Praga '69, com as imagens de Dubcek -- um dos meus heróis, como sempre digo quando o menciono ou escrevo o seu nome. Mais um bocado, claro, Putin, inevitavelmente, e a mensagem -- subliminar para os ignorantes da aldeia: vêm o perigo?, a ameaça?, a necessidade de canalizar fundos para o complexo militar-industrial?... Aliás, o bufarinheiro de ontem dizia-o claramente: é preciso fazer ver ás pessoas etct., etc.

Fui ver se havia alguma efeméride sobre a revolta de Budapeste ou a Primavera de Praga que me estivesse a escapar. Não há, é claro; é apenas a Televisão do estado português a entrar obedientemente no processo de sensibilização ou de lavagem cerebral, melhor dizendo.   

Por outro lado, é notável como indirectamente assumem o fracasso da sua política trágica relativamente á Ucrânia, a sua derrota em toda a linha, a sua incompetência, desonestidade e vigarice. Quem os ouvia há meses e quem os ouve agora, aterrorizados com a Rússia na falta receada do próximo patrão americano. Que pulhas, que bandalhos!


caracteres móveis

«Calaram-se os dois, num silêncio incómodo, mas o ruído de um alguidar de água, que alguém despejava no saguão, pareceu reanimar subitamente a voz de Macedo:» Ferreira de Castro, A Selva (1930)

«Depois, num Setembro muito quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Afonso Fernandes morreu, tão quietamente, Deus seja louvado, como se cala um passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado dia.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)

«O revérbero entre as nuvens colhe-o de surpresa e extingue-se, mas chega para abrir uma fenda (irreparável) na memória.» Carlos de Oliveira, Finisterra -- Paisagem e Povoamento (1978)

terça-feira, janeiro 30, 2024

Bob Marley, «Coming in from the cold»

como os imigrantes tornaram um sítio chulo num local aprazível

Por falar em mínimos, já deveria ter escrito sobre o caso do Martim Moniz e da operação de intimidação dos neonazis. A CML também os cumpriu, apesar de tê-lo feito de forma pífia,  escudado-se num parecer da polícia para proibir uma provocação de âmbito criminal -- e apesar do seu voto unânime de repúdio pelo que se preparava.

Há uma série de tinhosos  o lumpen social a vegetar na grande Lisboa, em relação aos quais não vale a pena gastar latim. São meros delinquentes, e a delinquência, ou se reconverte -- missão morosa -- ou se interna.

Quando eu era jovem, o Martim Moniz era um lugar chulo e porco; hoje é um aprazível espaço cosmopolita. Eu gosto sempre de passar por lá. Com isto não quero dizer que o país não deva ter uma política de imigração. Claro que deve, apesar das dificuldades; e que todos os imigrantes possam gozar dos direitos e deveres dos restantes cidadãos. Se há para aí uns quantos cadastrados em função de crimes graves. é para deportar. mas só uma amiba se deixa ir atrás da conversa que instila o medo pelo outro. Quem conviva  com eles diariamente -- e todos convivemos -- sabem que são pessoas como nós, mas mais frágeis e desprotegidas. Mais uma razão para não haver complacência com a xenofobia.* 

É preciso espicaçar estes políticos medrosos a fazer o que é seu dever sem se escudarem por detrás da legalidade. Esperar pelo parecer da polícia quando um bando de energúmenos desanalfabetos queria atemorizar os imigrantes e também os nossos concidadãos, numa espécie de faroeste, em que as quadrilhas entravam aos tiros pela main street é duma mariquice inqualificável.  Não é só a sociedade civil que deve estar vigilante -- e esta estava, daí a contramanifestação convocada --, mas o Estado, a Câmara, o Governo, o Ministério Público, o Tribunal Constitucional. Será pedir muito?

* Mantenho que em Portugal o racismo é classista e não de outro tipo, com excepção para os ciganos. Mas que há xenofobia, isso é evidente, e ela atinge o nepalês, o ucraniano e o brasileiro -- a não ser que apresente uma compostura sustentada por sinais exteriores de riqueza. A xenofobia, ao contrário de racismo, é um fenómeno eminentemente de pobres. 

Marcelo cumpre os mínimos,

ao travar a tralha da chamada "autodeterminação de género" inculcada às criancinhas. Ouvir os pais, os professores? Definir parâmetros em relação a partir de que idade é razoável haver uma abordagem para problemas, que, apesar de ultraminoritários, existem e não devem ser escamoteados? O que interessa isso para estes trastes, quando se trata de impor, à revelia dos cidadãos, uma série de preceitos legais e coercivos que vinculem a sua mundividência desgraçadamente doentia e deprimente?!...

Uma miséria escandalosa, os partidos políticos, em que só o Ventura disse duas ou três coisas de jeito -- é o estado a que isto chegou. O PSD não se encontra em maré de levantar ondas; o PCP acha, erradamente, que isto é secundaríssimo, e já levou pancada que chegue sobre a Ucrânia dos restantes partidos, apesar de ser o único que tem razão, para abrir outra frente; no PS, os que para lá andam ainda com um pingo de bom senso encolhem-se, até para não terem que levar com o histerismo pasionario de Isabel Moreira e os seus "direitos fundamentais". Dos outros nem vale a pena falar. É terrível que a contestação política a estes abusos seja deixada ao populismo de direita, com larguíssimo campo para se espraiar. 

Marcelo cumpriu os mínimos. Se fosse outro, teria, na altura própria, corrido a pontapé a nódoa deste ministro da Educação cessante, o tal que, quando era secretário de estado, andou a perseguir os dois jovens irmãos de Santo Tirso.

segunda-feira, janeiro 29, 2024

Bob Seger System, «Song to Rufus»

vermelho e negro

«Nenhuma ideia justa -- como nenhuma semente -- se perde; e todas elas vão ter a sua repercussão na consciência geral; essa repercussão, mais cedo ou mais tarde, transforma-se em facto.» Eça de Queirós, «Revista crítica dos jornais», Distrito de Évora (1867) / «Os governos dum país civilizado, a título de exportarem a civilização para os povos selvagens, levam-lhes o canhão que os mata e o comércio que os rouba.» Mário Domingues, «Colonização», A Batalha (1919) / «Rigorosamente não era um sistema de ideias que te determinava, era um feixe de cólera que te galvanizava.» Manuel Ribeiro, «A um herói da Rotunda», O Sindicalista (1911-12)

* Prosas Esquecidas, ed. Alberto Machado da Rosa (1965); ** A Liberdade não se Concede, Conquista-se. Que a Conquistem os Negros!, ed. António Baião (2023); *** Na Linha de Fogo (1920)

domingo, janeiro 28, 2024

quadrinhos

fonte

 

caracteres móveis

«E depois queixam-se do destino, deduzia Diogo Relvas, quando eles próprios o talham com a preguiça, o aborrecimento e a poltranice que lhes amerdalha o sangue.» Alves Redol, Barranco de Cegos (1961)

«Mas também era certo haver enigmas no mundo dos fenómenos, para os quais a melhor forma de decifração são ainda as chaves absurdas... -- e o senhor abade assim matutava quando Feliciana apareceu com a moça a pedir os exorcismos.» Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)

«Pintou-lhe o melhor que pôde a vantagem de ser brevemente uma viúva rica e a liberdade que teria então de escolher um marido mais galhardo.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854)

sexta-feira, janeiro 26, 2024

The Beatles, «Do You Want to Know a Secret»

curtas

 «-- [...] Eu parecia um desses artistas que realizou, certo dia, uma descoberta feliz e passou, depois, o resto da vida a lutar desesperadamente para dar a ilusão de que não se repetia, quando, em realidade, não fazia outra coisa senão plagiar-se a si próprio.»  Ferreira de Castro, O Senhor dos Navegantes (1954) / «Nem por ocasião da recolha do gado, a perseguição e correrias conseguiam arrancá-los à prostração nostálgica do mais além, que lhes dava a imensidão do Oceano e certa inveja por aqueles que abalavam para continentes longínquos, vidas que desfrutavam de uma constante renovação de prazeres e vertiginosamente corriam entre espectáculos dos mais variados.» Assis Esperança, «O dinheiro» (1932) / «O Norberto ouviu tudo, mesmo morto, o que não é de pasmar, se escutássemos o Assobio com a atenção que ele merecia: o Assobio falava com os mortos quando qualquer situação o impunha, levava recados para eles, da D. Ifigénia ou da D. Constância, trazia terra das campas para acamar nos vasos de flores que se punham nas janelas, vivia do comércio dos cemitérios sem entrar em concorrência com os cangalheiros.» Dinis Machado, Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez (1984)

quinta-feira, janeiro 25, 2024

KingBathmat, «Sentinel»

caracteres móveis

«A densidade calcária decresce tanto que podem ambos flutuar (a criança e o osso de baleia) sobre murgos biliosos, caules de gisandra, líquenes, doenças vagarosas.» Carlos de Oliveira, Finisterra -- Paisagem e Povoamento (1978)

«Acompanhava-o a restolhada dos passos, lenta e pesada, um soluço ou outro, irreprimido pelos familiares do defunto, e a nuvem de poeira que o cortejo deixava na estrada, encontrando-se ainda com a que fora levantada pelas carruagens postas à disposição da gente da cidade, incapaz de dar mais de dois passos pelo seu próprio pé.»  Alves Redol, Barranco de Cegos (1961)

«Vagueei pelas salas que teriam sido elegantes no tempo de Marcos e Raquel, mas que definhavam agora numa atmosfera de abandono e desolação, não porque Carlota estava morta, mas porque Carlota, que era filha da adolescente do retrato, se desinteressara de tudo, se fechara numa reclusão definitiva e magoada, só a grande estufa de begónias despertava os gestos dos seus dedos cobertos de anéis.» Helena Marques, O Último Cais (1992)

quarta-feira, janeiro 24, 2024

terça-feira, janeiro 23, 2024

curtas

«As rugas sulcando milimetricamente a pele emaciada, entrecruzando-se num xadrez miudinho capaz de, por si só, se tornar inacreditavelmente expressivo.» A. M. Pires Cabral, «O saco», O Diabo Veio ao Enterro (1984) «Ela quase murcha ia-se consolando pelo olhar vago e longínquo do estudante vestido de negro --, a capa e batina dava-lhe um tom de luto que muito preocupava a tenra Branquinha.» Ruben A., «Branca», Cores (1960) «O colo da Rosa era na cozinha e era muito engraçado porque ele entrava no colo e ela continuava a descascar as batatas para um alguidar.» António Alçada Baptista, Uma Vida Melhor (1984)

segunda-feira, janeiro 22, 2024

domingo, janeiro 21, 2024

caracteres móveis

«À distância, choupanas de colmo, negras e escorridas, figuravam, pelo cair da tarde, guedelhas, lanuça de maltês.» Romeu Correia, Calamento (1950)

«Em seu entendimento, ficava escrito que a rapariga fora brutalizada sem de maneira nenhuma ser cúmplice o seu instinto de mulher.» Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)

«Macedo contrariou-se, mas resistiu, encarcerando e substituindo as palavras de exaltação que ferviam dentro dele.» Ferreira de Castro, A Selva (1930)

sexta-feira, janeiro 19, 2024

Charlie Parker, «Out of Nowhere»

vermelho e negro

«Ânsia sublime de liberdade, que despedaça o ferro, que afronta as balas, que ludibria a própria morte!» Ferreira de Castro, «Evadidos!», A Batalha (1924)* / «Era tão bom que todos nos habituássemos a ser mais indulgentes para os simples erros ou lapsos alheios e olhássemos para a obra, apreciando-a no seu conjunto, avaliando a sua utilidade, e guardássemos os rigores para o que nós próprios fazemos!» Emílio Costa, «Os críticos implacáveis», Filosofia Caseira (1947) / «Qualquer contacto de sexos, que noutra hora seria ternura, no Carnaval há-de ser violência e sangue e estupro.» Jaime Brasil, «Carta do Povo sobre a loucura do Carnaval», A Batalha (1924)**


*Ecos da Semana -- A Arte, o Artista e a Sociedade (edição de Luís Garcia e Silva)  ** Voz que Clama no Deserto (edição de Elisa Areias e Luís Garcia e Silva, 2007)

quinta-feira, janeiro 18, 2024

Carlos Ramos, «Saudade»

comentário a um comentário

(Posso fazê-lo, pois ao contrário de Agostinho Costa, Carlos Branco, Mendes Dias, Marcos Farias Ferreira, Tiago André Lopes e mais alguns que merecem ser ouvidos com atenção, não sou analista de nada, apenas um europeu com medo que o céu lhe esteja prestes a cair sobre a cabeça).   

Já se sabia que Daniel Oliveira não gostava do Putin, paladino profano que é da cruzada lgbt, cruzada à qual o lóbi -- para amalgamar, e com isso se tornar a importante causa mais palatável -- arrebanha as mulheres e as pessoas "racializadas" (palavra horrível), como se toda a calça desse para cada cu. Obviamente detestam o Putin porque, entre outras coisas, certamente menores, ele teve a desfaçatez de impedir que as questões momentosas da identidade/disforia de género fossem ministradas às criancinhas de todas as idades. O mesmo se passou com o Orbán na Hungria, o que levou o Expresso a envergar um lutuoso fumo das cores arco-íris (pobres duendes dos potes de ouro...). Só isso explica que Oliveira equipare Netanyahu a Putin, como [dois] "dos maiores perigos para a segurança internacional"... Netanyahu e Putin, parecidíssimos, como se sabe; e vindo dali eu esperaria (não sei bem porquê, se não leio o Expresso e raramente passo pela sic) alguma assertividade em relação ao papel dos Estados Unidos na situação internacional. Mas vejo que não está para aí virado -- aliás, a última frase é deveras significativa. Eis aí alguém na boa companhia dos germanos, isidros e outras dianas. Ainda hei-de ouvi-lo falar na luta das democracias liberais contra as autocracias (não estás perdoado, Lula!) e na defesa dos nossos valores, em parelha com úrsulas e sub-borréis.

quadrinhos


 

quarta-feira, janeiro 17, 2024

caracteres móveis

«E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das eiras, caçando a perdiz nos matos geados, rachando a melancia fresca na poeira dos arraiais, arranchando a magustos, serandando à candeia, atiçando fogueiras de S. João, enfeitando presépios de Natal, por ali me passaram docemente sete anos, tão atarefados que nunca logrei abrir o Tratado de Direito Civil, e tão singelos que apenas me recordo, quando, em vésperas de S. Nicolau, o abade caiu da égua à porta do Brás das Cortes.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)

«Henrique sentiu-se pouco à vontade com as elucidações de cicerone; olhou para ele com desconfiança e quase julgou ver moverem-se sombras suspeitas por entre os troncos dos pinheiros.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

«O arcediago, comovido pela exclamação do seu futuro genro, subiu ao segundo andar e procurou, meio colérico, a filha rebelde, que ensinava o papagaio a dizer: é o rei que vai à caça. Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854)

terça-feira, janeiro 16, 2024

Bob Dylan, «Only a Pawn in Their Game»

na cabecinha de uma delegada de propaganda bélica

 A convite da FLAD, esta senhora, do American Enterprise Institute, conselheira da campanha de John McCain e Sarah Palin, e, obviamente, apoiante de Joe Biden, veio perorar sobre o que vai pelo mundo, e certamente reciclar as lívia, as sandras, as sónias e todos os outros poejos que têm tão bem servido para esclarecer a opinião pública nacional. Lendo a entrevista, das duas, uma: ou é mais um atraso de vida, epígono de epígonos; ou está a cumprir muito bem o seu papel. Deixo as averiguações para quem tenha curiosidade, que não é o meu caso; mas sempre lembrando que a generalidade das lideranças ocidentais, figuras de excelência como António Costa (ou Montenegro), Sánchez, Macron, Sunak (lídimo herdeiro desse segundo Churchill que é Boris Johnson,seguindo o diapasão dos patetinhas de cá), Scholz, Von der Leyen, Borrell, Michel, como os Bidens e as Hilarys, andam a toque de caixa desta espécie de delegados de propaganda bélica que se passeiam, não pelos consultórios médicos, mas pelos gabinetes onde as luminárias acima citadas decidem sobre as grandes causas da Humanidade...

[dando de barato as características grotescas do Trump e o perigo que representa para o sistema político americano, a verdade é que este não começou nenhuma guerra (até pode ter sido um feliz acaso; pelo contrário, travou o confronto com a Rússia, que já estava preparado com o estafermo da Hilária -- confronto em relação ao qual já estamos a ser ensaboados, mas isso fica para outro post...]

curtas

«Enquanto ia falando, o homem olhava para o chão, como se não desejasse ver nos meus olhos o efeito das suas palavras.» Ferreira de Castro, O Senhor dos Navegantes (1954) «Há sempre um pingo que cai ou um surro que se forma ou qualquer outra coloração que disfarça a brancura evidente do branco.» Ruben A., «Branca», Cores (1960) «Não chego a saber, por muito que cisme, o que mais me fascina no tio Zé das Candeias: se a arte consumada de fabulador, se a mímica prodigiosa das suas mãos e sobretudo do seu rosto, onde tudo é móvel e participa na arte de contar.» A. M. Pires Cabral, «O saco», O Diabo Veio ao Enterro (1984)

segunda-feira, janeiro 15, 2024

Bob Dylan, «North Country Blues»

ainda há boa gente neste país, apesar do cheiro a taberna e mau vinho deste fim-de-semana

 Mesmo sem querer, fui ouvindo com intermitências as aleivosias e bestialidades do Ventura, dirigido ao analfabetos, ressabiados e invejosos (riscar o que não interessa); alguns que até sabem estar  a ser ludibriados, mas que já nem se importam (e aí a culpa não é do Ventura nem das mascotes que lhe andam atrás).

Felizmente, o país ainda não é isto, esta boçalidade primária, esta emanação vocal nauseabunda. Há gente boa, e até o negregado futebol, dos escalões amadores, pelo menos, nos dá consolo pelo exemplo, depois de dois dias de trastes à solta. E viva também o bom jornalismo!, neste caso do Diário de Notícias.

caracteres móveis

«Ela faz que não ouviu; apesar da penumbra do quarto, Elói adivinha o que lhe vai na cara.» João Gaspar Simões, Elói ou Romance numa Cabeça (1932)

«Golpe num pé, infecção, Santa Casa, falecera de tétano aos dez dias de internado a uivar pela mulherzinha da sua alma.» Aquilino Ribeiro, Volfrâmio (1943)

«Uma estudantina ruidosa, com grande acompanhamento de pares, tocadores de guitarras e violas a abrir a marcha, levando os instrumentos cheios de fitas de seda, arrastara-o até ao Rossio, como se não pudesse fugir à avalanche de alegria que desembocava de todos os lados da praça.» Alves Redol, Os Reinegros (c. 1944/1972)

sábado, janeiro 13, 2024

quadrinhos

fonte

 

caracteres móveis

«Dois filhos a criar, outro a vir, a casa num brinco, o marido um fidalgo, montes de roupa a lavar, passajar e engomar -- os dias, Senhor, tão curtos, as horas vão-se num rufo.» José Rodrigues Miguéis, A Escola do Paraíso (1960)

«Os poucos homens que o cumprimentaram arrastaram uma sílaba indecifrável, a esmorecer.» José Luís Peixoto, Nenhum Olhar (2000)

«Um dos mais esforçados da linhagem, Lourenço, por alcunha "O Cortador", colaço de Afonso Henriques (com quem na mesma noite, para receber a pranchada de cavaleiro, velara as armas na Sé de Zamora), aparece logo na batalha de Ourique, onde também avista Jesus Cristo sobre finas nuvens de ouro, pregado numa cruz de dez côvados.» Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires (1900)

The Beatles, «P.S. I Love You»

sexta-feira, janeiro 12, 2024

se alguém é suficientemente crédulo para acreditar que o Putin vai atacar um país da Nato, agora ou nas próximas gerações, quando ele for já um fantasma, que ponha o dedo no ar -- ou António Costa a comendador (ucranianas CCXX)

1. Agora que a Guerra no Médio Oriente parece estar a escalar e quando quase todos pareciam esquecer-se da Ucrânia, fui alertado pelo comentário do major-general Carlos Branco para a facilidade com que alguns interveniente no espaço público falam sobre a possibilidade de uma guerra da Nato contra a Rússia. 

Bem, ela está aí: os ucranianos já foram sacrificados por dirigentes crédulos e/ou comprados pelos Estados Unidos e agora estão na situação maravilhosa que estamos a ver. Como o Putin nunca mais morre ou é apeado (achando certamente essas luminárias que seria substituído por um factótum ao serviço do Pentágono).

2. O que realmente me enoja, e o que sempre me enojou nesta guerra, são os vigaristas e incompetentes do comentariado. A conversa agora é de não deixar a Ucrânia de mãos a abanar, acenando, muito americana e pentagònicamente, com a ameaça de que o Putin não vai ficar por ali. O último que ouvi, em análise de fiel-de-armazém, um certo tenente-general Marco Serronha, a quem dificilmente voltarei a escutar, terminou a intervenção, uma noite destas, dizendo explicitamente que a Rússia não iria parar naquele apetecido território que um belo dia os americanos e vassalos acharam que poderiam controlar.

Consciente ou inconscientemente o que este comentador está a fazer é a juntar-se ao coro dos que preparam as opiniões-públicas europeias para uma espécie de inevitabilidade de uma guerra com a Rússia. Não estou a ver como isso poderá acontecer e gostaria que avançassem com argumentos minimamente sofisticados. Então acham mesmo que a Rússia vai arriscar uma guerra com a nato sem ser atacada por tropas nato? Com armas nato já ela está a sê-lo, diga-se. Mas parece que ainda não chegou, querem mais armas (mais dinheiro para o complexo militar-industrial norte-americano) mais mortos, mais destruição do país, para este lindo resultado com que os ucranianos foram enganados -- como fomos nós todos, povos europeus, pelo patifes sem escrúpulos do costume e pelos idiotas inúteis que os assistem, no governos e nos mérdia.

3. Este agitar de espantalhos que fazem das pessoas estúpidas é velho e até tem funcionado vezes sem conta (o que não sucedeu com o Iraque, recordemos, pois ninguém engoliu as mentirolas da administração americana da época). Já só falta o passo seguinte, uma vez que os ucranianos com aptidão para combater são cada vez menos e já vamos nos velhos e nas crianças: a Europa e os USA porem boots on the ground, em estrangeiro soa melhor -- ou então, como diz o patusco e informado Mendes Dias: pôr a nossa gente a "jorrar sangue" pela "Ucrânia". Aí é que eu gostava de ouvir o saudoso António Costa dizer outra vez que "temos primeiro de derrotar a Rússia" (já nem falo em Marcelo, que Deus tem, e o seu penduricalho da liberdade, imposto às escondidas ao Zelensky)

quinta-feira, janeiro 11, 2024

Charlie Parker: «Star Eyes»/«52nd Street Theme»

curtas

«Até que a comadre, não suportando já as minhas hesitações, levou à frente das palavras um dedo sujo, antes que eu pudesse fingir uma reacção, enfiando os dedos nesse mistério impenetrável.» Fernando Namora, «História de um parto», Retalhos da Vida de um Médico (1949) «Era coisa nova na época e D. Branca apetecia-lhe experimentar um estudante republicano, tinha mais cor, era mais vivo, fervia mais nos seus ideais avançados.» Ruben A., «Branca», Cores (1960) «Ou por falta de paciência para os desfazer um a um ou por lhe ser anojoso partir aqueles símiles de membros humanos, que lhe acordariam, porventura, remotas superstições, ele acercou-se do murozito e lançou os ex-votos, de uma só vez, para a profundidades do desfiladeiro.» Ferreira de Castro, O Senhor dos Navegantes (1954)

Astrud Gilberto, Stan Getz, João Gilberto & Antonio Carlos Jobim «Corcovado (Quiet Nights Of Quiet Stars)»

quarta-feira, janeiro 10, 2024

caracteres móveis

«De manhã, enquanto faço o café e me sento depois a tomá-lo defronte da janela que dá para o vale, pergunto-me às vezes porque me casei.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)

«E ele próprio adoptara uma máscara de orgulho: os lábios mais franzidos, o bigode mais retorcido e mais sóbrios os gestos.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

«Os miúdos que passeavam na rua ainda não eram nascidos quando eu saí do bairro, algumas lojas tinham fechado, outras mudado de gerência, tinham asfaltado ruas e inaugurado um moderno e funcional mercado, quase todas as varandas tinham sido fechadas com marquises de alumínio.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2013)

terça-feira, janeiro 09, 2024

quadrinhos

fonte

 

vermelho e negro

 «Por esse conduto de crimes, toda a rixa acaba numa facada, toda a ambição num furto, toda a carícia numa violação.» Jaime Brasil, «Carta do Povo sobre a loucura do Carnaval», A Batalha (1924)* «Quem quiser compreender profundamente a situação dos negros americanos que repare na analogia tremenda da luta dos pretos espoliados dos seus direitos contra os brancos que lhos negam e a luta dos trabalhadores enganados contra a burguesia que os engana.» Mário Domingues, «Colonização», A Batalha (1919)** «Tu rugias quando a Ordem te maltratava a república nas pessoas sagradas dos seus caudilhos, e o que te levou à Rotunda, hás-de concordar, não foi o programa do partido republicano -- conheceste-lo tu mesmo? -- o que te levou lá foi a ânsia de desagravar uma amante dos ultrajes dum bêbedo.» Manuel Ribeiro, «A um herói da Rotunda», O Sindicalista (1911-12) ***


* Voz que Clama no Deserto (edição de Elisa Areias e Luís Garcia e Silva, 2007)  ** / A Liberdade não se Concede, Conquista- se. Que a Conquistem os Negros!, edição de António Baião (2023) / *** Na Linha de Fogo  Crónicas Subversivas (1920)

segunda-feira, janeiro 08, 2024

Ruy Mingas, «Poema da Farra»

a propósito de AD '79 e AD '24

Estou convencido de que Pedro Nuno Santos e o PS ganharão as próximas eleições (sem o meu voto, claro). Não é difícil. Compare-se não apenas as lideranças (Sá Carneiro, Freitas do Amaral, Ribeiro Teles com Montenegro, Nuno Melo e Câmara Pereira).  Claro que historicamente PNS nunca poderá almejar, em tempos normais, a ser uma figura central na história contemporânea como foi Soares, que, apesar de eu nunca o ter achado grande espingarda, esteve bem e do lado certo, antes e depois do 25 de Abril (não, amigos e palhaços, o lado certo não estava no Gulag nem na Albânia de então...). Também o mesmo se poderia aplicar a Cunhal e a Raimundo, se bem que a máquina do PCP seja tão bem oleada, que até anda sem maquinista.

caracteres móveis

«De salto perpassou no seu espírito uma série de ridentes panoramas, recreados pela figura airosa da mocinha com quem jogara as escondidas, de pequeno.» Aquilino Ribeiro, Volfrâmio (1943)

«Mudara de fato e saíra, metendo ao bolso umas moedas para beber o seu copo e arranjar, se calhasse, uma moça para passar o tempo, pois, em noite de bailaricos e fogueiras, as mulheres acessíveis são ainda mais fáceis.» Alves Redol, Os Reinegros (1944/1972)

«Trazia ainda no corpo a roupa ruça do sol, na pele a luz ocre da terra, trazia no rosto um sorriso reverente.» José Luís Peixoto, Nenhum Olhar (2000)

domingo, janeiro 07, 2024

Bob Dylan, «One Too Many Mornings»

caracteres móveis

«As mulheres procuravam, agora, fazer caminho rente à casa de Manuel da Bouça, para mexericar junto de Amélia o grande acontecimento.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

«Comparo o efeito íntimo de determinadas derrotas pessoais ao que os japoneses, enquanto povo, terão sentido quando viram o divino imperador juntar-se aos mortais e acenar a bandeira branca da capitulação.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2013)

«Levantar-se todos os dias para o mesmo fim, com os mesmos gestos, as mesmas cerimónias sórdidas, as mesmas misérias corporais.!» João Gaspar Simões, Elói ou Romance numa Cabeça (1932)

sábado, janeiro 06, 2024

The Beatles, «Love Me Do»

caracteres móveis

«Deram as onze na Sé, depois no relógio aguitarrado da casa de entrada, e as duas mãos param um instante na toalha branca, sob o comando da reflexão.» José Rodrigues Miguéis, A Escola do Paraíso (1960)

«Porque se sei o que não tive, não sei o que perdi, nem do que precisaria para me preencher o vazio que se me criou no íntimo.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)

«Raras famílias, mesmo coevas, poderiam traçar a sua ascendência, por linha varonil e sempre pura, até aos vagos senhores que Entre Douro e Minho mantinham castelo e terra murada, quando os barões francos desceram, com pendão e caldeira, na hoste do "Borguinhão".» Eça de Queirós, A Ilustra Casa de Ramires (1900)

quadrinhos


 

sexta-feira, janeiro 05, 2024

curtas

«Além disso, os tempos eram confusos e revolucionários: e nada torna o homem recolhido, conchegado à lareira simples e facilmente feliz como a guerra.» Eça de Queirós, «Singularidades de uma rapariga loura» (1874), Contos (póst. 1902) «Houve um enterro, como sempre acontece nestas questões de navalhas e gargantas, e o Navarro animou o velório funesto com a sua imaginação desenfreada, contando histórias líricas e sacaninhas à base de borboletas eventualmente citadinas, requerimentos para nada, manequins chutados de Paris, armazéns de caixotes de sardinhas às quais faltava o gelo, motores hidráulicos aos quais faltava a água, letras do Linhares Barbosa, solstícios e viagens sem regresso.» Dinis Machado, Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez (1984) / «Naquela imensa serenidade da natureza em festa a formosa inglesa, aspirando as frescas baforadas do mar, pensava com prazer como era bom caminhar, na vida, que se lhe revelava sem nuvens, ao lado daquele rapaz tão belo, tão inteligente, tão seu!» Conde de Sabugosa, «A aliança inglesa». De Braço Dado (1894)

quarta-feira, janeiro 03, 2024

caracteres móveis

«De encontro ao céu, as oliveiras e os sobreiros hão-de parar os ramos mais finos; num momento, hão-de tornar-se pedra.» José Luís Peixoto, Nenhum Olhar (2000)

«O próprio gato, depois de ter brincado algum tempo à roda das saias da dona -- "Sape-gato, já me arranhaste!" -- pulou de leve para o lar da chaminé, e dorme agora enroscado na auréola de calor do fogareiro.» José Rodrigues Miguéis, A Escola do Paraíso (1960)

«Porque pensou nas horas, ouve pela primeira vez o "tic-tac" do despertador que o observa da mesinha-de-cabeceira, e, no mesmo instante, sente a cabeça arrastada por ele.» João Gaspar Simões, Elói ou Romance numa Cabeça (1932)

Carlos Ramos, «O teu olhar»

vermelho e negro

«A actividade do jornalismo nunca deve abrandar, a sua consciência deve ter sempre o mesmo vigor, a sua pena o mesmo colorido, o seu sentimento moral a mesma justa intensidade.» Eça de Queirós, «Revista crítica dos jornais», Distrito de Évora (1867) / «Como Reclus teria sido para todos os Fígaros um sábio completo, se em vez de anarquista e de homem a contas com a polícia, tivesse sido um sábio neutro, ou consentisse em pôr o seu saber ao serviço duma função governamental!» Emílio Costa, «Recordando...», Seara Nova (1930) / «O funambulesco general, digno de opereta, se não levasse a cingir-lhe a cabeça bronca um diadema sinistro, um diadema de sangue mártir, de sangue da Liberdade, protesta contra a entrega à Rússia de determinados vasos de guerra, que à Rússia pertenciam...» Ferreira de Castro, «Sadoul, e Wrangel», A Batalha (1924)

quadrinhos

fonte

 

terça-feira, janeiro 02, 2024

caracteres móveis

 «A aldeia era terra sem futuro e o exemplo dos que enriqueciam no Brasil mostravam-se mais numerosos do que barbos em pego onde se deita dinamite.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

«Gonçalo Mendes Ramires (como confessava esse severo genealogista, o morgado de Cidadelhe, era certamente o mais genuíno e antigo fidalgo de Portugal.» Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires (1900)

«Por carácter não sou dado a fazer balanços ou a repisar as ocasiões falhadas, mas durante longas caminhadas pela serra acontece às vezes que os olhos se me param numa vista, e antes de me dar conta o espírito se perde a divagar..» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)

segunda-feira, janeiro 01, 2024

música para salvar o ano (passado) #12 - WALK AROUND THE MOON (Dave Matthews Band)

histórias curtas

«A mãe teve colo até ele fazer sete anos porque, como estava combinado pelas pessoas grandes que ele havia de ser uma pessoa grande, sua mãe deitou fora o colo dela porque -- dizia "ele ali ao colo não se fazia um homem".» António Alçada Baptista, Uma Vida Melhor (1984) / «Infelizmente para ele, não lhe resta senão um dente canino na maxila superior e os destroços de outro, igualmente canino, na inferior, mas com tão pouca sorte que estão em lados opostos da boca.» A. M. Pires Cabral, «O saco», O Diabo Veio ao Enterro (1984) / «Os cantares, transmitidos de avós para netos, resumiam-se a meia dúzia de canções com sabor de cativeiro, o baile de roda por única manifestação ruidosa, embora amortecida de alegria pelo negro dos trajos.» Assis Esperança, «O dinheiro», O Dilúvio (1932)