sábado, junho 17, 2023

Metsola, a parvinha (ucranianas CXCIII)

 Não risca nada, não interessa para nada, não passa duma vassala. Ter ido à Assembleia da República ainda é o menos, sendo presidente do PE; mas ao Conselho de Estado, que embaraço...

Parvinha, porque sugeriu à líder parlamentar do PC ir à Ucrânia falar aos deputados, como se não soubesse que, lá, o PC está proibido, entre outros partidos de esquerda. Claro que sabe, está-se nas tintas, diz o que lhe apetece, desde que agrade.

É ou não parvinha? É pois, e provocadora.

Sonny Rollins, «You don't know what love is»

os derrotados da História

Pensar que em 1974 o país estava num conflito militar com três frentes, perpetrando crimes de guerra em nome de uma mentirola consubstanciada no slogan “Portugal uno e indivisível, do Minho a Timor”, só não faz sorrir porque muitas foram as vidas destruídas, portuguesas e africanas, em nome dessa balela. No entanto, o tratamento dado aos ex-combatentes, que em nome deste rudimento ideológico serviram de carne canhão, foi outra indignidade, aliás muito portuguesa: varremos o que é incómodo para debaixo do tapete .

[Abre-se propositadamente um parênteses sobre o debate em curso, a propósito da falsa questão dos Descobrimentos: estes estão confinados aos séculos XIV e XVI; misturá-los com o imperialismo do Euromundo é um anacronismo grosseiro e uma mistura de conceitos. O século XV não é o século XIX.]

Mas há mais: africanos que pegaram em armas contra os movimentos de libertação – e já estamos a entrar no livro de hoje –, tiveram, muitos deles, um triste fim: Spínola, quando chega à Guiné, em 1968, muda de táctica, envolvendo as populações e criando forças africanas para combater o PAIGC, enquadradas pelas Forças Armadas – o velho ‘dividir para reinar’. Já era tarde, porém, tanto eticamente como do ponto de vista estratégico e político, para os obstinados do Império, que aguardava apenas uma rajada mais forte dos ventos da História para se escaqueirar.

BD que só sirva para dela falar, não interessa, perdoe-se o lugar-comum. Filhos do Rato, de Luís Zhang (Lisboa, 1986) e Fábio Veras (Lisboa, 1997), é um óptimo exemplo do bom momento por que passa a BD portuguesa. Belo texto (apesar de alguns anacronismos evitáveis…) para um dos dramas mais pesados da nossa história recente. A acção decorre na Guiné em dois momentos – Inverno de 1975, com um extenso flashback para um período que antecede a independência, Verão de 1973 – e conta-nos da amizade travada no mato por dois homens: Camões, um militar negro, e Joaquim, soldado duma aldeia perdida em Trás-os-Montes, amizade que vai subsistir ainda para além da morte. A certa altura da narrativa, uma ratazana é vista a comer mantimentos no barracão do acampamento; atingida em cheio por uma lata de conserva, foge e deixa no local embriões de ratos que serão esmagados, com nojo. Uma metáfora para esses anos da guerra na Guiné: sabemos quem são os filhos do rato; e também o que representa a ratazana. Para bom entendedor – é melhor confirmar pela leitura…

A opção da coexistência da cor e do preto e branco na mesma prancha é muito interessante; e o desenho de Fábio Veras, por vezes expressionista, passa ao papel, com o nervo intenso e necessário, os momentos desesperantes do tédio de uma longa inacção na espera do inimigo ou da ocorrência da emboscada, com a mata a ferro e fogo.

Sim, a BD é uma coisa séria.


Filhos do Rato

Texto. Luís Zhang

Desenhos: Fábio Veras

Edição: ComicHeart e G. Floy Studio, 2019

Setembro de 2019








quinta-feira, junho 15, 2023

Louis Armstrong, «Yellow Dog Blues»

o lulu de turno da nato diz que o exército ucraniano está a avançar (como se alguém lhe tivesse perguntado alguma coisa), mas também ouvi que metade dos tanques Leopard já foram para o galheiro (ucranianas CXCII)

Repetindo-me: nós, cidadãos europeus, também somos carne para canhão me(r)diática, como todos com dois dedos de testa já terão percebido, excepto as barbies e os kens das breaking news

Agora que se está a ver o embuste noticioso que foi a chamada contra-ofensiva ucraniana, correndo esta o risco, se deus quiser, de levar no focinho até Kiev, já andam por aí lunáticos a vaticinar que o próximo pedido do Zelensky seja soldadinhos -- cumprindo, de resto, o plano dos americanos.

Estou para ver as piruetas ou as aldrabices dos dirigentes políticos europeus, a começar pelos da parvónia doméstica. Claro: se os ucranianos podem morrer ao serviço dos interesses norte-americanos (eles estão a lutar e a morrer por nós, não é?...), os polacos também podem (aliás, já lá estão) e até os portugueses, certo?

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terça-feira, junho 13, 2023

Santo António

Candido Portinari
Morre em Pádua, a 13 de Junho 1231, Santo António, sermonista franciscano e Doutor da Igreja.

ser como um rio & outros caracteres móveis

«A princípio, esse novo cenário, todo fofo e confortável, perturbava-o; em breve, porém, Soriano se adaptara, que nem por mudar de leito os rios deixam de correr.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950) - «Como ela o fitasse apenas, sorridente e sem lhe falar, achou mais cómodo sentir-se ali o hóspede venerável, e tomar aquele silêncio ainda como uma cortesia.» Agustina Bessa Luís, A Sibila (1954) - «Embora de teimoso castanho, abalados por entalões de carretos, chicoteados e entranhados por chuvas de invernos e invernos, os batentes do portão, lassos da corrosão das cunhas cinco dos seis chumbadouros, havia muito que não jogavam nos gonzos.» Tomaz de Figueiredo, A Toca do Lobo (1947)

segunda-feira, junho 12, 2023

João de Barros,

sobre o novo livro do poeta brasileiro Ribeiro Couto, a 12 de Junho de 1952, no Diário de Lisboa: «Os poemas de Entre Mar e Rio como que transcendem e superam a expressão poética -- são a própria e nua Poesia». 

Adeus ao Brasil (póstumo, s.d.)

domingo, junho 11, 2023

a caricatura de António Costa nas manifestações: não é racismo, é bandalheira vinda da pocilga

 

Eu até estou de acordo com as reivindicações dos professores, e com a crítica tanto a Costa como ao inenarrável ministro da Educação -- um fulano que quando foi secretário de Estado se notabilizou por perseguir os dois alunos de Famalicão, e cuja atitude lhe deveria ter merecido a demissão imediata. 

Diz-se que a caricatura miserável da manifestação junto às comemorações do 10 de Junho é racista, a começar pelo próprio Costa, que disso se queixou. Não me parece. Os atributos étnicos são susceptíveis de ser caricaturados, mal de nós se assim não fosse. O que já me parece achincalhante e repelente é o nariz de porco. Se o ministro da Educação tivesse orelhas de burro (apesar dos bravos animais), estaria justificado, seria claro. O nariz de porco no primeiro-ministro é um insulto soez e badalhoco, que atinge quem a ele recorre.

A caricatura em causa, que parece uma dejecção do Chega, confrange qualquer democrata, em especial qualquer cidadão de esquerda. Em nome de quê se caricatura um homem com nariz de porco? 

P.S. - Parece que o STOP se demarcou, não sei...

O STOP demarcou-se; o autor pertence aum sindicato da Fenprof, a primeira organização a demarcar-se. É justo que o assinale. (17-VI-2023)

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João de Barros

«O Brasil, de um lado, Portugal, Açores e Angola do outro -- tal como vi indicado num imenso mapa da sala principal da delegação portuguesa à Conferência da Paz de Paris, em 1919 -- comandam, dominam todos os caminhos do Atlântico Sul, realidade patente que seria imperdoável não aproveitar.»  João de Barros, Diário de Lisboa, 11 de Junho de 1949.  
Adeus ao Brasil (póstumo, s.d.)

sábado, junho 10, 2023

Nina Simone, «Mood Indigo»

Liberto Cruz

Álvaro Neto (pseudónimo de Liberto Cruz), no capítulo próprio da sua Gramática Histórica (1971), apresenta o exemplo de um "Requerimento para Exame de Admissão à Morte" -- 10 de Junho de 1968 -- ainda o Dr. Salazar não caíra da cadeira, na banheira, ou lá onde foi.

por falar em mercenários, o Rasmussen & outras barbaridade (ucranianas CXCI)

 Não sei quem lhe anda a pagar melhor: se o Zelensky, de quem é conselheiro, se o Duda, que não sei se representa os sectores polacos que querem abocanhar o antigo território polaco, do qual a principal cidade é Lviv/Lvov, no oeste da Ucrânia, essa república inventada pelos sovietes, e que os americanos e respectivos serventuários europeus gostariam de controlar. Gostariam, pois, o Rasmussen, quer a Polónia e outros países da Nato -- mas não a Nato, claro -- entrassem em guerra contra os russos. Com jeitinho, a ideia brilhante ainda chegará a este lado da Europa.

Este arranjo mercenário do Rasmussen faz-me tremer quase tanto como hilaridades que tenho ouvido a um certo comentariado. Hoje, alguém vindo do refugo e cujo nome não fixei, tanto se lamentava pelo recrudescer da guerra e ausência de soluções de paz, como por outro lado, fazia de bonifrate, dizendo que os ucranianos estão a combater por nós e a morrer por nós... Arre, que é estúpido! Se de facto estivessem a morrer por nós, como veicula a propaganda do Pentágono, teríamos mesmo que pegar em armas, e não esperar que os outros se sacrifiquem em nosso lugar. A questão é que, como digo desde o início, os ucranianos estão a morrer pelos interesses do complexo militar-industrial americano. Tudo o resto é conversa para inocentes.

Ainda no comentariado, alguém acuda à Prof.ª Soller, que ontem mostrou não saber que se a Polónia, por seu alvedrio, entrar em guerra com os russos, o artigo 5.º da Carta do Atlântico nunca poderá ser invocado -- em lisura jurídica, claro. Deve ter sido do cansaço de tanto comentário a desoras, há mais de um ano.

Do cansaço ao cansativo: o Ventura, que não tem vergonha nenhuma, esteve com o Salvini, ao que parece apoiante do Putin. Não gabo o Putin por isso... No entanto, se um boneco como o Ventura fosse para levar a sério, e não um vulgar oportunista, teria de, se não apoiar, pelo menos demonstrar alguma simpatia pelo Putin. Mas como não passa de um aldrabão que, segundo o povo, "diz as verdades" (povo esse que tão enrabado vai ser), deixemos em paz o Prof. Ventura, que neste particular alinha com o Bloco de Esquerda, a IL, PS e PSD. (Só para esclarecer os que acham que sou do PCP: a minha posição não é a da "paz" dita assim, mas de apoio à Rússia, independentemente dos pormenores.)

sexta-feira, junho 09, 2023

a arte de começar

«A taberna do Pescada ficava mesmo em frente ao cemitério dos Prazeres, e era frequentada pela gente do sítio, especialmente de noite, à hora em que os cabouqueiros e os britadores abandonam os seus trabalhos e entram na cidade, em ruído.» Fialho de Almeida, A Ruiva (1878)

Duarte Galvão

9 de Junho de 1517:  Duarte Galvão, autor da  Chronica do Muito Alto e Muito Esclarecido Príncipe D. Afonso Henriques, Primeiro Rey de Portugal, morre na Ilha do Camarão, ao largo do Iémen, no Mar Vermelho (n. Évora, 1446). 

quarta-feira, junho 07, 2023

a arte de começar

 «Agora, a noite começa cedo, demasiado cedo, na minha vida diferente. Tempos houve em que a chegada da noite representava a maior alegria. Com o aproximar da noite sentia-me renascer. Como se a claridade anterior tivesse fenecido e não existisse um fio do tempo que a tudo e todos ligasse: homens, mulheres, o resto da natureza, coisas e deuses. Quando se aproximava a noite, preparava-me para renascer. Quase me atreveria a dizer que não era apenas renascer. Era muito mais do que renascimento: era nascimento. Era nascer outra vez... pela primeira vez. Creio que a força que em tempos me defendeu dos acontecimentos da vida -- a força que me defendeu da fraqueza das pessoas e do seu carácter, a força que me redobrava a fé em cada vinte e quatro horas -- foi a de poder voltar a sair do ventre materno, ungido com toda a fé e toda a esperança de quem, inesperadamente chegado, sente que tem direito a tudo o que for possível e a tudo o que for imaginável.» Mário Máximo, O Heterónimo de Camões (2016)

Alexandre O'Neill

7 de Junho de 1975. Alexandre O'Neill publica «Solteirice» no diário A Capital: «Espeta-te com o garfo. / Corta-te com a faca. / Deita-te no prato. / Espera.» 

Coração Acordeão (edição de Vasco Rosa)

terça-feira, junho 06, 2023

Sonny Rollins, «St. Thomas»

150 portugueses: #9. SANTO ANTÓNIO (Lisboa, 1190/1195 - Pádua, 1231)

Santo António, por Giotto
Para um próximo blogue. Nascido, de acordo com a tradição, a 15 de Agosto, por volta de 1195, Fernando de Bulhões, de forte temperamento místico, entra como noviço crúzio (Ordem da Santa Cruz, de regra de Santo Agostinho), em São Vicente de Fora, transferindo-se depois para Santa Cruz de Coimbra, onde certamente bebeu e consolidou a erudição que viria a demonstrar como erudito sermonista, Por Santa Cruz veria passar uns quanto franciscanos em missão evangelizadora em Marrocos, terra de infiéis, vendo-os igualmente regressar em estado de cadáver, quando os islamitas não mostraram particular interesse pela causa. É então que deixa a ordem de Santo Agostinho e abraça a ordem de S. Francisco de Assis, com quem está em Itália. Da sua valia teologal se serviu a Igreja para combater as heresias do tempo, tendo ainda leccionado em universidades europeias, como Bolonha. Pio XII proclama-o Doutor da Igreja em 1946. Após a morte de São Francisco, Santo António arrasta multidões, que lhe atribuem milagres, o que explica o culto popular de que é alvo, muito próximo da superstição. Detém o record absoluto de canonização em toda a história da Igreja, a 30 de Maio de 1232, menos de um ano após a sua morte, a 13 de Junho. Na entrada que lhe corresponde no Dicionário de História de Portugal, Francisco Fernandes Lopes refere-se-lhe como «a primeira figura portuguesa na história da cultura».

Fernando Pessoa

6 de Junho de 1930. Fernando Pessoa escreve a Adolfo Rocha (Miguel Torga) a propósito de Rampa: «A sua sensibilidade é de tipo igual à do José Régio -- é confundida, em si mesma, com a inteligência.» 

Andrée Rocha, A Epistolografia em Portugal

Marwan Barghouti, 64 anos -- na prisão desde 2002



 

segunda-feira, junho 05, 2023

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começou a ofensiva... (ucranianas CXC)

 Escrevo sem rede, correndo o risco de os factos me desmentirem em pouco tempo; mas a minha sensação é a de que a contraofensiva ucraniana vai falhar, e clamorosamente, sem que haja propaganda merdiática que o possa ocultar. Veremos. Se for como penso e desejo, também me vou rir muito da piadola do Blinken, tão engraçado ele é, até parece o Serafim Saudade do comentário, o indígena no ecrã da sic, que eu, obviamente, nunca vejo. 

E depois? O que farão ou dirão estes basbaques que governam a Europa Ocidental em nome do interesse americano? A resposta é simples: vão desconversar; o putedo dos merdia continuará a palrar ataques a hospitais e deportação de crianças; a Ucrânia será um resto de Ucrânia (e muita sorte terá se mantiver acesso ao Mar Negro). Aliás, eu bem gostaria que a Rússia tomasse Odessa,  aquilo não é para os dentes dos pulhas dos americanos.     

Cláudio Manuel da Costa

 

5 de Junho de 1729. Cláudio Manuel da Costa, poeta árcade e da Inconfidência Mineira, nasce em Vila Real de Nossa Senhora, Minas Gerais.

um rapaz e o seu cocker

Criados em 1959, pelo belga Jean Roba (1930-2006), Boule e Bill, um rapazinho de sete anos e o seu cocker spaniel, são das personagens mais populares da BD francófona. As camadas de ternura aplicadas por Roba em cada vinheta, recriando um universo idílico numa família de classe média, com pais disponíveis, mesmo quando têm de impor regras, à criança (os tpc) e ao animal (o banho…), conjugadas com um humor por vezes desenfreado, foram ingredientes seguros desse êxito. Para Roba, o mundo já era suficientemente agreste para que os seus gags não permitissem essa distensão de humor sobre um tempo em que a vida é um recreio permanente, mesmo com vacinas e banhos obrigatórios…

As personagens inspiraram-se no filho do autor e no cão da casa, o que explica a quase beatítude que a leitura destas pequenas histórias proporciona, na procura duma inocência que só existiu no tempo em que os animais falavam. Numa entrevista a Hugues Dayez (Le Duel Tintin-Spirou, 1997), Roba afirmou: «acredito que o homem, num passado longínquo, pôde falar com os animais, e que esse privilégio foi-lhe subtraído. É isso uma maldição? Creio que sim.» Por vezes, encontram-se pontos de contacto com o Calvin de Bill Watterson. Bill não fala, mas pensa, e em pensamento dirige-se a nós, leitores.

A dupla continua, pelas mãos do francês Verron (Grenoble, 1962). Os álbuns de Boule e Bill estão inéditos em Portugal.


60 Gags de Boule et Bill

texto e desenhos: Roba

edição: Dupuis, Marcinelle, 1962

(Setembro de 2019)

domingo, junho 04, 2023

José Régio

4 de Junho de 1927. José Régio na presença: «Em Arte, a crítica só serve para ajudar um Artista a descobrir-se -- e a possuir-se até contra a crítica.»

sábado, junho 03, 2023

Louis Armstrong, com Velma Middleton: «Saint Louis Blues»

Raul Proença

 

3 de Junho de 1907. Raul Proença, no Semanário Alcobacence: «Um indivíduo que critica rancorosamente é uma besta.» 

Raul Proença, Polémicas

(edição de Daniel Pires)

sexta-feira, junho 02, 2023

«Zinizjumegh»

o perigosíssimo Zelensky, enquanto Biden catrapum (ucranianas CLXXXIX)

Não preciso chamar neo-nazi a este serventuário dos americanos, não obstante a região estar infestada. Basta ler o que diz (azulito meu):

“Precisamos de paz, é por isso que todos os países europeus que fazem fronteira com a Rússia e que não querem que a Rússia os invada, devem ser membros de pleno direito da UE e da NATO e só há duas alternativas: ou uma guerra aberta ou uma ocupação russa progressiva”. 

Palhaço, cinquenta vezes palhaço, que comecei por respeitar até ver como a guerra lhe é indiferente, desde que defenda os interesses dos americanos à custa do sangue dos ucranianos; não se importando nada de nos arrastar a todos para uma guerra, porque suas incelências querem a Crimeia (é preciso descaramento!) e querem território que sempre foi russo, mesmo naquela ficção política chamada União Soviética; um canalha monumental, eleito presidente porque disse ir resolver o diferendo com Moscovo -- e está-se a ver. Não preciso, também, de falar dos russos da Crimeia e do Donbass, o outro lado, que o Ocidente velhacamente omite. No entanto, podem esperar sentados: a Ucrânia já era, podem agradecê-lo aos zelenskys e aos bidens, este entretanto catrapum, à espera de dar lugar ao Trump, que diz conseguir resolver o assunto em 24 horas (e se calhar pode mesmo, basta-lhe dois telefonemas iniciais).  Um mundo cheio de americanices, bendito Putin, apesar de tudo.

João Arroio

2 de Junho de 1911. João Arroio, compositor e poeta, agradece a hospitalidade de Miguel de Unamuno em Salamanca: 
«Daí trouxe óptimas impressões, entre as quais avulta, é claro,  o conhecimento pessoal de V. Ex.ª e do seu belo espírito.»

Epistolario Portugués de Unamuno
edição: Ángel Marcos de Dios, 1978

«Wild Wild Ways»

quinta-feira, junho 01, 2023

Camilo Castelo Branco

1 de Junho de 1890. Camilo Castelo Branco suicida-se  em casa, São Miguel de Seide (Vila Nova de Famalicão), com um tiro de revólver.  

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terça-feira, maio 30, 2023

«Scratchcard Lanyard»

em "pudica torção de virgem" & outros caracteres móveis

Aquilino Ribeiro: «Obedeceu a moça intimidada, quedando a meio da sala, nua como a mãe a deitou ao mundo, na pudica torção de virgem, surpreendida pelos olhos dum deslavado.» Andam Faunos pelos Bosques (1926) - Ferreira de Castro: «Nos ombros, luzia manta cromática, das que se fabricam em Barroso, e de um lado e outro do bucéfalo dançavam, ao sabor da marcha, as peles compradas nesse dia.» Terra Fria (1934) - Carlos de Oliveira: «Eu, Álvaro Rodrigues Silvestre, comerciante e lavrador no Montouro, freguesia de S. Caetano, concelho de Corgos, juro por minha honra que tenho passado a vida a roubar os homens na terra e a Deus no céu, porque até quando fui mordomo da Senhora do Montouro sobrou um milho das esmolas dos festeiros que despejei nas minhas tulhas» Uma Abelha na Chuva (1953) - José Luís Peixoto: «De encontro ao céu, as oliveiras e os sobreiros hão-de parar os ramos mais finos; num momento, hão-de tornar-se pedra.» Nenhum Olhar (2000) - J. Rentes de Carvalho: «Quando cheguei ao apeadeiro o comboio não tinha ainda passado, mas não havia de estar longe, porque o seu arfar e o seu ranger ecoavam pelos montes.» A Amante Holandesa (2003)

segunda-feira, maio 29, 2023

«Right On You»

o pão nosso merdiático de cada dia (ucranianas CLXXVIII)

 A propósito da guerra na Ucrânia entre a Rússia e os Estados Unidos, há comentadores que me recuso a ver e ouvir. Um deles é o serafim saudade do comentário, que faz de palhaço pobre na parelha com Nuno Rogeiro; outra, é uma picareta especializada, diz-se, não fui ver, em cultura russa. Quanto a Diana Soller, mais ponderada e menos picareta, guardo alguma pachorra ainda, mas de vez em quando estampa-se fragorosamente. Ontem, a propósito dos dois grandes blocos que se estão a formar, enquanto perorava sobre a malignidade e bonda de uns e outros, siu-se com qualquer coisa como isto, acho que no jornal da meia-noite da cnn, e que cito de cor: Desde o fim da Guerra F, ao contrário da Rússia & outros, a política externa dos Estados Unidos tem-se pautado pela moralidade nas relações com outros estados. Disse sem se rir, e talvez acredite mesmo no que está a dizer. uns beneméritos da democracy, estes americanos, bonecos do complexo militar-industrial. 

Como ninguém precisa de recordar-lhe o que foi a invasão do Iraque -- a história inventada das armas de destruição maciça -- quanto milhares de mortos inocentes?, quantas famílias destruídas? quantas crianças, pela voragem do saque?... -- a senhora ou acredita no que diz, ou tem esta página de sangue bem recalcada, o que lhe permite dizer enormidades.

Quanto à moderadora, que parece poder fazer muito melhor do que o papel de porta-voz dos media manipuladores, fora muito lesta, cerca de meia hora antes a observar ao major-general Carlos Branco -- quando este punha em causa a veracidade dumas declarações atribuídas a Zaluzhnyi -- dizendo que não se podia quesytionar a veracidade das "notícias" veiculadas, entre as quais a Reuters, já a propósito do dislate de Diana Soller, esqueceu-se de ser jornalista, confrontando a comentadora sobre como harmonizava o que acabara de dizer (a moralidade da acção política externa dos EUA) com a criminosa mentira que foi a guerra do Iraque. Mas isto é o pão nosso merdiático de cada dia

o Orbán pode ser um grande malvado, mas curiosamente não trata quem o ouve como imbecil, ao contrário duns tipos que agora me vêm ao intelecto (ucranianas CLXXXVII)

domingo, maio 28, 2023

150 portugueses_ #8. Afonso II o Gordo (Coimbra, 1185-1223)

Para um futuro blogue. Quarto filho de Sancho I com Dulce de Aragão, o curto reinado de Afonso II foi caracterizado pela centralização do poder real,  principalmente em luta interna contra as três irmãs, uma vez que Sancho I, ainda com uma medieval visão patrimonial do reino, o repartiu pelos filhos, a todos outorgando a dignidade real. Também em conflito com as ordens religiosas, entrou em embate com Roma, o que lhe valeu a excomunhão, condição em que morreu, não obstante os sucessivos pontífices lhe terem dado razão no conflito com as irmãs. Na perspectiva da consolidação do poder, é relevante a realização de inquirições e confirmações e a produção legislativa, de que o reino carecia. A expansão para sul ficou em segundo plano, embora conquistasse Alcácer do Sal e outras vilas, tendo ainda enviado um exército que se juntou ao conjunto dos reis cristãos peninsulares que defrontou o do califado omíada na grande batalha de Navas de Tolosa (1211). 

1 disco, 1 faixa: THE RIVER (1980) - #16. «Stolen Car»

um destino honesto & outros caracteres móveis

 «O destino, que ambos se prometiam, era o mais honesto: ele ia formar-se para poder sustentá-la, se não tivesse outros recursos: ela esperava que seu velho pai falecesse para, senhora sua, lhe dar, com o coração, o seu grande património.» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862) - «Os olhos procuravam, em ansiosa interrogação, o mais alto da flexuosa ladeira que subia, no sítio, no sítio em que ela, formando um cotovelo, furtava à vestia o seguimento ulterior.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868) - «Se a Igreja o não contava entre os vassalos da fé, possuía-o lubricamente pela sedução da sua beleza.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920) - «Haviam decidido vir os dois, para que ele lhe desvendasse a terra em que nascera e, afinal, vinha sozinho, deixando-a sepultada num cemitério de Lisboa.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933) - «Tudo que se chamava a vida, feita de hábitos, de banalidades, de alegrias e de dissabores,  de alguns afectos profundos, de muitos afectos ligeiros, dum ou doutro acto nobre, de tanto acto estouvado, de tanto dinheiro desbaratado e de tanta precisão de dinheiro, das injustiças com a mulher e dos arrependimentos, das discussões  do Martinho, das noites do Maxim's ou da roleta do Estoril, das escapadelas com a Maria da Graça  (inspecções à província em que a mulher fingia acreditar) -- tudo que se chamava vida, feita de tumulto, de fachada, de subterfúgios embora, mas que para ele findara no dia em que sob o seu vulto amarfanhado se haviam fechado as portas daquela prisão!» Joaquim Paço d'Arcos, Ana Paula (1938) - «Olhou para o casarão engolido no escuro da quinta, apenas visível pela esteira de luz que vinha do quarto do avô quebrar-se na janela da saleta.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944) - «Dá a volta à casa pela frente, vejo-a agora de costas, desliza como aragem pelo chão.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983) - «Pareciam graves e austeras as pessoas das fotografias, como se nunca tivessem cantado e corrido, discutido, beijado e amado.» Helena Marques, O Último Cais (1992)

junto-me à festa, claro!

 


sexta-feira, maio 26, 2023

«Rest, Unquiet Spirit»

casas de pasto acolhedoras & outros caracteres móveis

 «Há em Lisboa um pequeno número de restaurantes ou casas de pasto [em] que sobre uma loja com feitio de taberna decente se ergue uma sobreloja com uma feição pesada e caseira de restaurante de vila sem comboios.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego (póst., 1982) - «Rumorejou um corpo que devia saltar da cama, uns passos rápidos soaram na escuridão e logo, atrás da portinhola que se abriu, entrou no recinto uma fosca claridade.» Ferreira de Castro, A Selva (1930) - «O novo ajuntamento de peões que está a formar-se nos passeios vê o condutor do automóvel imobilizado a esbracejar por trás do pára-brisas, enquanto os carros atrás dele buzinam freneticos.» José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira (1995) - «É verdade que voltara ao bairro várias vezes, para visitar a minha mãe, para o funeral de Fernando, para votar na antiga sala de aulas onde escrevi uma composição imberbe dizendo que o amor não tem definição, e que, nesses breves regressos, era a mim próprio, e ao homem em que me tornara, e não ao lugar da minha infância, que eu contemplava, ingenuamente satisfeito com o meu trajecto.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2013)

quinta-feira, maio 25, 2023

«Sudestada»

uma acha resinosa & outros caracteres móveis

 «Ao fundo, sob a chaminé que a fuligem vestira de luto, o fogo esmorecera e só uma acha, resinosa na extremidade ainda intacta, teimava em arder.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928) -  «Ele pertencia à família dos Milhanos de Marinhais, sempre famosos no Ribatejo como arrozeiros sabidos e safos de mândria.» Alves Redol, Gaibéus (1939) - «O veleiro a largar a ilha e já todos se deixavam contaminar dum vento de afago que, de mansinho, lhes soprava na alma.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962) 

quarta-feira, maio 24, 2023

«River Deep, Mountain High»

caracteres móveis

 «Um dos seus prazeres consistia em analisar-se como o conteúdo de todo um passado, elemento onde reviviam as cavalgadas das gerações, onde a contradança das afinidades vibrava uma vez mais, aptidões, gostos, formas que, como um recado, se transmitem, se perdem, se desencontram, surgem de novo, idênticos à versão de outrora.» Agustina Bessa Luís, A Sibila (1954) - «Arcara com horas terríveis e amargas, bebera muitas lágrimas,  sem deixar verter uma só, desde o dia em que o pai entrara ao portão da quinta, pronto a morrer, às costas do Manel Fandango, sem queixa que se lhe ouvisse do corpo esfrangalhado.» Alves Redol, Barranco de Cegos (1961) - «Um largo, aquilo a que verdadeiramente se chama largo, terra batida, tem de ser calcado por alguma coisa, pés humanos, trânsito, o que for, ao passo que  este aqui, salvo nas horas da missa, é percorrido unicamente pelo espectro do enorme paredão de granito que se levanta nas traseiras da sacristia.» José Cardoso Pires, O Delfim (1968)

segunda-feira, maio 22, 2023

«Snow Day»

domingo, maio 21, 2023

"de tudo tanto gostar"

 «De perfumados e frescos, os lençóis tinham-na levado, muita vez, a enrolar-se neles, dos pés ao nariz, para lhes sentir bem o contacto, e ainda hoje se lembrava da meia dúzia de dias em que desejara apressar a aproximação da noite e inventara pretextos para amiúde voltar, durante a tarde, àquele seu aposento, a olhar demoradamente tudo, de tudo tanto gostar.» Assis Esperança, Servidão (1946) - «Portão e caminho até ao terreiro, sob a latada, quisera o dono continuassem escalavrados como no tempo ido, em que só ali vinha, e nem sempre, quando era pelas vindimas e varejadas de castanhas, lá raro pela feitura do azeite.» Tomaz de Figueiredo, A Toca do Lobo (1947) - «Lucinda pôs-se de pé, a farpa acertara-lhe e cheio; mas de súbito quebrou, recaiu sentada na borda da cama e desatou a chorar com a cara nas mãos.» Francisco Costa, Cárcere Invisível (1949)

«Show You The Way»

apesar do crowdfunding para comprar botas, os russos tomaram Bakhmut, e os americanos lutaram até ao último ucraniano (ucranianas CLXXXVI)

 Entretanto, em Hiroshima (em Hiroshima...), Biden autorizou que os países que o queiram fazer cedam os F16 à Ucrânia. Até que os aviões possam ser utilizados, daqui a alguns meses, a Ucrânia continuará a ser bombardeada, os ucranianos continuarão a lutar para os americanos, para não falar que terão os Sukhoi à espera deles.

Entretanto, com o carnaval da comissão parlamentar de inquérito, nem se deu pela visita do sabujo do Stoltenberg a Lisboa. Veio pedir os nossos F16? E nós?, vamos obedecer, como de costume?

sábado, maio 20, 2023

quinta-feira, maio 18, 2023

«Lyke-Wake Dirge»

sempre grato à CNN-Portugal, mas aquilo já faz rir (ucranianas CLXXXV)

 A CNN internacional é o espelho da Fox News: centrais de desinformação e propaganda travestidos de jornalismo. Cloacas comunicacionais destinadas ao americano médio, espécie cujos órgãos vitais são a boca, o estômago e o intestino grosso. Por cá, como tenho dito há um interessante critério editorial, que, apesar de veicular os despachos de Atlanta, e ter um conjunto de pivôs incapaz (excepção feita a Cristina Reyna, excelente profissional, e pouco mais), conseguem um equilíbrio nos comentadores que não vejo em outros canais. Faltando alguns que devem ser assinalados, sempre os militares (Agostinho Costa, Carlos Branco e Mendes Dias) e (poucos) académicos decentes (Tiago André Lopes, Maria João Tomás, e dois cujos nomes nunca consigo recordar, um da Universidade Autónoma, outro do Porto, não sei de que escola).

Já aconteceu rir-me às gargalhadas com uma pobre de Cristo muito bonitinha, ora a apanhar bonés ora com o fácies de incredulidade quando o que estava a ouvir não acertava com o guião da casa-mãe.

Ontem, particularmente estúpido: enquanto o inserçor "informava", em português macarrónico qualquer coisa como "Kiev avisa (sic) que o exército russo é incapaz", ao mesmo tempo o major-general Carlos Branco relatava como os ucranianos estavam à rasca, em vários pontos daquela frente com mais de mil quilómetros.  

Quanto mais o cidadão comum se torna descrente e percebe que está a ser manipulado (Kiev a arder, mas os mísseis Patriot (mach 4, 4,5) interceptam todos os Kinzal russos (mach 10 ou 12...) -- uma impossibilidade, portanto), mais o Ocidente Alargado (ou seja, os Estados Unidos e os seus protectorados europeus, incluindo Portugal) insistem na mentira criminosa às pessoas nesta guerra entre a Rússia e os Estados Unidos, feita à custa dos cidadãos europeus e, por enquanto, das vidas dos cidadãos ucranianos comuns, de armas nas mãos mas não daqueles homenzinhos na casa dos trinta e quarenta anos, que se passeiam na estrada Boca do Inferno - Guincho, em carros de luxo).

Depois do maior ataque aéreo a Kiev (cirúrgico, com um número de baixas civis no zero ou próximo disso), só me vem à memória a notícia veiculada pelas televisões, claro está, da história de que o exército russo promoveu um crowdfunding para comprar botas -- entre muitas outras pérolas para enganar os inocentes.

P.S.: a propósito de bombardear Kiev: tenho a certeza de que muitos telespectadores já se perguntaram: como é possível o Zelenski, nos intervalos de andar a laurear a pevide, continuar a abrigar-se no palácio presidencial intacto?

P.S.2: Estou muito interessado na visita do caniche do Pentágono a Lisboa, e s no que fará ou dirá o governo português.

o infame D. Henrique


Um ilustrador italiano, Stefano Morri, com alguma ingenuidade, quase disneyesca, ao realizar a encomenda do Vaticano para a celebração filatélica das Jornadas Mundiais da Juventude, lembrou-se do Padrão dos Descobrimentos e daquele belíssimo conjunto escultórico de Leopoldo de Almeida -- e vai de pôr o papa Francisco no lugar do agora infame D. Henrique, e um conjunto de miúdos no encalço com a bandeirinha republicana de Portugal. "Estado Novo!", gritaram os iletrados das ciências  moles.  O autor, italiano, repete-se, é de um país que tem mais arte e história num beco do que o todo o rectângulo da parvalheira nacional. Há ingenuidades que acabam nisto.

A Igreja, medrosa, retirou o selo, em que não faltou um bispo zeloso a fazer de progressista acompanhando aquele idiota que há tempos, para ser falado, atirava com a demolição do monumento. Por mim, está na altura de pô-lo na barra lateral, não só para chatear, mas porque gosto mesmo daquilo.

quarta-feira, maio 17, 2023

«Three Reels»

a mão certeira de Gineto & outros caracteres móveis

«Amigos tinha-os às vezes nos companheiros que precisavam da sua mão certeira para matar galinhas à solta ou colher frutos em pomares recatados.» Soeiro Pereira Gomes, Esteiros (1941) - «Via o Doninha, já desempregado, mas ainda com a farda de carteiro, remendada e sebenta, arrastando-se pelas portas das vendas, inútil, com as pernas inchadas de buracos que não saravam.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943) - «A recordação do maricas acordava nela a soberba dos Clarks, aquele sentimento maciço, enjoado e um pouco cínico, que contribuíra para correr  Januário Garcia da casa Clark & Sons e envolvia a família Garcia num desdém mais snob que odiento.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)

terça-feira, maio 16, 2023

segunda-feira, maio 15, 2023

«The Last Refugee»

circunscrito no mundo & outros caracteres móveis

«Quando dei por mim, pela minha situação de dependência, de circunscrição no mundo (grandioso e imensurável, mas proibido) fiquei estupefacto e comecei a chorar.» José Marmelo e Silva, Sedução (1937) - «Falava com os olhos iluminados, um pouco em alvo, como quando recordava as delícias do último sonho...» M. Teixeira-Gomes, Maria Adelaide (1938) - «Avizinhavam-se da estação: cruzaram uma sentinela, de baioneta calada, à porta dum quartel; por detrás da grade uivava um cão.» Joaquim Paço d'Arcos, Ana Paula (1938)

domingo, maio 14, 2023

sexta-feira, maio 12, 2023

um dia de libertação

 A aprovação da Lei da Eutanásia pelo Parlamento, sejam quais forem os problemas a jusante -- que devem ser sempre acautelados e minimizados --, e antevendo inclusivamente vários formas sabotagem, assinala, dê por onde der, um importante momento de libertação de todos os indivíduos até agora feitos reféns por fantasmagorias de cariz religioso, que não perfilham e muito até repudiam, como é o meu caso.

a propósito da entrevista de Dugin ao 'Expresso' (ucranoanas CLXXXIV)

 A entrevista a Aleksandr Dugin publicada hoje no Expresso (um furo jornalístico) mostra como a guerra entre os Estados Unidos e a Rússia na Ucrânia é uma contenda cultural e civilizacional, dificilmente conciliável, não apenas dos dois imperialismos, mas entre um conservadorismo nacionalista, quase ou mesmo reaccionário, e um financismo apátrida e amoral, em que tudo se compra e vende, a começar pela dignidade individual.

quinta-feira, maio 11, 2023

«Instrumental»

por uma vez, os polacos quase têm razão

 Salvo circunstâncias muito especiais (como foi o caso da Ponte Salazar, autoglorificação ou engraxamento, qualquer deles abusivo porque com o dinheiro dos contribuintes, como agora se diz), sou contra o rebaptizar de ruas, escolas, monumentos, regiões, países. Aquele nome, Kaliningrado, é deveras horroroso, independentemente dos defeitos ou qualidades dos homenageados. Faz-me lembrar a estúpida cunhagem de povoações africanas com nomes como Carmona (sic), Salazar (sic!), Lourenço Marques (sic) ou até Sá da Bandeira -- um nome grande do liberalismo português. Mas os polacos só têm meia razão: a  Królewiec que eles pretendem voltar a usar soa a qualquer coisa como unguento para os calos. E pensar que o nome verdadeiro da cidade é Conisberga, a Königsberg do Kant, relógio e filósofo da terra...

150 portugueses: #7. SANCHO I, o Povoador (Coimbra, 1154 - Santarém, 1211)

Para um futuro blogue. Sancho I, aliás, Martinho, aliás Sancho Afonso,  quinto filho de Afonso Henriques e Mafalda de Sabóia. Desde cedo adestrado no exercício das armas, acolitou o pai na governação após o desastre de Badajoz (1169). Guerreiro nato -- após a efémera conquista de Silves, adopta o título de "Rei de Portugal e dos Algarves" --, foi também muito mais que isso: um organizador do território, com a atribuição de muitos forais e um estreito recurso às ordens militares, essenciais para a fixação do território, o que não impediu sérios conflitos com a Igreja, até à ameaça de excomunhão. Entesourou moeda, estimulou o comércio e os mesteres, fomentou o estudo de clérigos em universidades de que o reino recente obviamente carecia. Trovador e cultor das artes, é-lhe atribuída a cantiga de amigo "Ai eu coitada como vivo". Sancho I foi o homem devido no momento certo. 

«A Place Under The Sun»

quarta-feira, maio 10, 2023

banalidades e votos pios em Estrasburgo (ucranianas CLXXXIII)

 O Presidente da República foi discursar a Estrasburgo. Pelo resumo, ter ido ou não, dá no mesmo, apesar de aplaudido de pé pela maioria dos eurodeputados dum parlamento desacreditado. Falou do sacrifício de Julian Assange?; do exílio de Carles Puigdemont na Europa dos nossos valores?; do estranho caso duma presidente da Comissão que se comporta como um governante eleito (e ao serviço dos americanos)? Não falou. Então o que foi Marcelo Rebelo de Sousa lá fazer? Nada -- ou mostrar-se atilado e obediente a quem efectivamente está a destruir a União Europeia como ideia, que não é certamente o Putin, embora este também pudesse gostar. Mas quem precisa de inimigos com governantes e aliados destes? Ainda ontem, Olaf Scholz veio dizer que é preciso acabar com a regra da unanimidade. Está-se mesmo a ver o que será ou seria (a situação pôr-se-á cada vez com maior acuidade, é uma questão de esperar). No fim, para tornar tudo mais grotesco, toca de convidar a Metsola. E é esta vacuidade que Marcelo tem para nos dar. 

Mesmo sem saber até onde chegará, vale mais uma declaração de Lula no saguão de uma embaixada em Londres do que todas as frases de cómica banalidade exaltante proferidos pelos líderes deste deprimente Portugalinho. E isto não tem tanto que ver com a dimensão dos países (o Brasil com Bolsonaro não era ouvido por ninguém ou então era desprezado, mesmo pelos Estados Unidos), mas dos governantes. 

Portugal, país médio europeu, que só é irrelevante pela irrelevância das élites governantes, poderia ter uma voz que o distinguisse, mesmo consciente de todos os constrangimentos e da nossa situação geográfica, que nos obriga a ter uma relação especial com os EUA, assim como a Ucrânia terá sempre de relacionar-se com a Rússia, agora ou daqui a um século. Claro, há um plano declarado por estes líderes geniais que nos couberam em sorte que tem a derrota da Rússia como desiderato, que na verdade é uma neutralização/domesticação pretendida pelo americanos e papagueado por todos os políticos de meia-tigela. Que Portugal não tire partido da sua história de laços estreitos com o Brasil e os estados africanos para ter uma voz diferenciada (e não obrigatoriamente dissidente) e positiva para a própria Europa, diz muito de um estado de coisas que passa por meter a Metsola numa reunião do Conselho de Estado.

terça-feira, maio 09, 2023

Scholz no dia da derrota (ucranianas CLXXXII)

 No Parlamento Europeu, Scholz discursa lindamente: certamente não queremos voltar aos tempos em que um poder avassalador impõe a sua vontade aos restantes. Lembrei-me logo da primeira visita do recém-empossado chanceler aos Estados Unidos visivelmente encolhido enquanto Biden lhe diziam em público que a questão os gasodutos era para ser tratada, ou então eles, americanos, disso se encarregariam. Como de resto sucedeu. 

Sobre o discurso do Putin, a sua fixação: os patifes dos americanos e o wokismo que exportam, que lhe é salutar e visceralmente repugnante.

«Qachina»

segunda-feira, maio 08, 2023

quadrinhos

fonte

 

«Pest»

uma 'voltigeuse' banal e outros caracteres móveis

«Depois de uma voltigeuse  banal furando arcos de papel de seda, um intermédio cómico pelo primeiro clown, prodígios de equilíbrio duma criança sobre um arame, cães sábios, barras fixas, um salafrário num cavalo em pelo.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891) - «E enquanto as notas lhe passam para a mão, mergulha os olhos abstractos nos olhos da mulher.» João Gaspar Simões, Elói ou Romance numa Cabeça (1932) - «Como antes se disse: é completamente impossível conhecer-se inteira uma árvore genealógica; o que pode é cada um possuí-la toda no seu carácter.» José de Almada Negreiros, Nome de Guerra (1938)

domingo, maio 07, 2023

1 disco, 1 faixa: I'M BREATHLESS: MUSIC FROM AND INSPIRED BY THE FILM DICK TRACY (1990) #1. He's A Man

da inteligência dos poetas e outros caracteres móveis

«O povo rude de Carteia não podia entender esta vida de excepção, porque não percebia que a inteligência do poeta precisa de viver num mundo mais amplo do que esse a que a sociedade traçou tão mesquinhos limites.» Alexandre HerculanoEurico o Presbítero (1844) - «Por quantas maldições e infernos adornam o estilo dum verdadeiro escritor romântico, digam-me, digam-me: onde estão os arvoredos fechados, os sítios medonhos desta espessura?» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846) - «O amor dos quinze anos é uma brincadeira; é a última manifestação do amor às bonecas; é a tentativa da avezinha que ensaia o voo fora do ninho, sempre com os olhos fitos na ave-mãe que a está da fronde próxima chamando: tanto sabe a primeira o que é amar muito, como a segunda o que é voar para longe.» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862) - «Henrique nem desviara os olhos para o fundo do vale, que se lhe abria à esquerda, velado pela densa névoa daquela atmosfera saturada de humidade, nem prestava atenção à agreste e selvática paisagem, do lado direito, toda encrespada de pinheirais nascentes e de espinhosas tojeiras.», Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868) - «Toda a intelectualidade, nos campos, se esteriliza, e só resta a bestialidade.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (semi-póstumo, 1901)

sábado, maio 06, 2023

«One Last Chance»

150 portugueses: #6. Geraldo sem Pavor (+c.1173)

Para um futuro blogue. Portugal forjou-se através da espada e da diplomacia, daí a presença desta figura fugidia, ao que se diz irascível, quase lendária, na minha lista de 150 portugueses dos últimos 900 anos. Geraldo Geraldes, o Sem Pavor, misto de herói e mercenário, oriundo do norte do país tomou várias praças no Alentejo, entre as quais Évora (1165), em cujo brasão se inscreveu.

sexta-feira, maio 05, 2023

«Mercy, Mercy, Mercy»

dentro do conto

 «Os corredores, em seu branco infinito, se multiplicaram, brancos, brancos, brancos, atulhados de aparelhos de ventilação mecânica claramente obsoletos e tufos e tufos de algodão espalhados por toda a parte, alguns deles manchados de sangue, e ele sentira nojo, nojo, daquele branco misturado ao vermelho, onde estava a saída daquilo que parecia não acabar nunca?» Alonso Tôrres«O labirinto branco», Sagas Mínimas (2022) 

quadrinhos

fonte

 

quinta-feira, maio 04, 2023

terça-feira, maio 02, 2023

«Beggar»

a TAP como instrumento de soberania

 Pôr a TAP nas mãos de privados é um golpe na já pouca soberania que o país ainda tem e uma traição. A TAP é para ser bem gerida, mas não é para dar lucro. Essa é a conversa com que os necrófagos e os seus esportulados saturam o espaço público para criar no povo a ideia da inevitabilidade de privatizar. Querem que a TAP seja uma empresa lucrativa, e já agora, os hospitais, as escolas, não tarda nada os cemitérios e as prisões... Chama-se a isto o país a saque, velha expressão, mas tão certeira.

o Oeste nunca nos larga

A chamada Conquista do Oeste constitui uma epopeia moderna cuja poética continua a ser alimentada e transmitida principalmente pelo cinema e pela banda desenhada. As perspectivas de abordagem são de tal modo multifacetadas no modo como espelham a condição humana, que o assunto se torna inesgotável. Tiburce Ogier é um dos bons autores de BD da actualidade, artista completo, como desenhador e argumentista. Em Go West, Young Man é apenas o escritor que está presente, convidando uma série de colegas para ilustrarem esta homenagem ao Oeste, através da viagem de um relógio de bolso pela história de conquista, sangue e saque dos territórios do Novo Mundo, entre os séculos XVIII e XX, pequenas narrativas que formam um todo coerente. E é sempre interessante ver num mesmo álbum os nomes de Blanc-Dumont, Boucq, Gastine, Meyer e Taduc, entre outros. A capa é de Enrico Marini. Edição Gradiva, Lisboa, 2023.

segunda-feira, maio 01, 2023

«Ali Dere»

150 portugueses: #5. Mafalda de Sabóia (Avigliana?, c. 1125 -- Coimbra, 1158)

Para um futuro blogue. Nesta lista de 150 portugueses, houve lugar para quatro ou cinco consortes, entre os quais não se contam duas das mais célebres: Isabel de Aragão (a "rainha santa", 1271-1336) e Filipa de Lencastre (1360-1415) -- 150 são só 150... A primeira a aparecer é, obviamente, Mafalda de Sabóia, pelo simples facto de ser a rainha inicial do novo estado. Filha de Amadeu III de Sabóia, o Cruzado, e de Mafalda de Albon, o consórcio com uma casa transalpina, ocorrido em 1146 -- já após o Tratado de Zamora (1143), em que Afonso VII reconhece ao seu primo o título de rei -- deveu-se, por certo, a garantir a permanência da autonomia do novo reino, mais difícil num matrimónio com uma princesa leonesa-castelhana. D. Mafalda teve sete filhos, iniciando uma dinastia que reinou por oito séculos, e que na verdade, parecendo dividir-se em quatro é apenas uma, estendendo-se até hoje nas pessoas de D. Duarte, duque de Bragança, e seu filho Afonso. Jaz, ao lado do marido, no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra -- Coimbra, a primeira capital do reino.