terça-feira, outubro 13, 2020

criador & criatura



William Vance e Bruce J. Hawker


 

domingo, outubro 11, 2020

a arte de começar

 «O que ameaçava ser uma longa noite de Inverno já caía sobre Lisboa e ainda Luís Henriques e eu buscávamos a Rua da Mãe d'Água e uma taberna que lhe tinham recomendado, mas apenas se lembrava de ter a emblemática designação de Chafariz do Vinho. No intento de adquirirmos mais uma garrafa no restaurante onde tínhamos gastado a maior parte daquele extenso dia, horas antes havíamos renunciado a um quase confortável banco de madeira sob uma majestosa amendoeira do Jardim Botânico onde cavaqueámos pachorrentamente sentados, apenas para nos vergarmos à decepção de deparar com as suas portas já trancadas e protegidas por um enorme e imperturbável cadeado.»

Germano Almeida (1945), Eva (2006)

«Sound Of The Ska»

sábado, outubro 10, 2020

sexta-feira, outubro 09, 2020

a arte de começar

«Arcóbriga e Meríbriga são cidades mortas desde que os habitantes foram obrigados a descer para o vale. Abandonadas no alto dos seus outeiros, elas dominam ainda a vasta planície ondulada, mas aqui, no santuário, o deus fica-lhes sobranceiro porque este monte, que é a sua morada terrena, ultrapassa em altura todos os morros vizinhos.»

João Aguiar (1943-2010), A Voz dos Deuses (1984)  

quinta-feira, outubro 08, 2020

50 discos: 3. AHMAD'S BLUES (1958) #8 «Secret Love»




balbúrdia no acampamento mouro - «Eurico o Presbítero» (16)

continuar: «Era o cair do dia.» Cap. XIV, «A noite do amir», pp. 175-199 da minha ediçãoO acampamento de Abdalaziz Ibn Muça assentara nos arredores de Segisamon (a actual Sasamón, no município de Burgos, ao norte de Castela-Leão, já no limiar das Astúrias). O espectáculo da povoação a arder, o banquete dos vitoriosos, muçulmanos e cristãos "renegados", vinho e mulheres, será palco de uma acção de resgate que Holywood não desdenharia. Hermengarda, ainda sem revelar a identidade, é conduzida à tenda do emir, que após prometer mundos e fundos, inclusivamente avultados privilégios a Pelágio, quando aquele revelou serem irmãos, não demoveu a altiva dama. O que era exercício de sedução passa, com a recusa, a prelúdio de vioação, não fora «uma figura negra» cujo vulto fora visto a passar na direcção da tenda do emir, e confundido com um guerreiro do Sudão, irrompe silenciosamente pela tenda de Abdalzize, à maneiro do Batman: «à entrada principal da tenda uma figura humana se estampou negra sobre o chão brilhante da tapeçaria.» Como se não soubéssemos, era o Cavaleiro Negro ou seja, Eurico -- o que ainda ninguém sabe -- que com os cúmplices larga o acampamento, após ferir o emir, deixando mais do que em polvorosa, em chamas. Esta acção suscita a Herculano uma dezena de linhas cheias algazarra, de tumulto: «Por entre as chamas, ferido e semi-morto, a custo puderam salvá-lo. Pouco a pouco, o tumulto alongou-se pelo arraial: os xeques árabes e os capitães de Juliano acorriam para o lugar onde brilhava o incêndio, e, dentro em pouco, as vozes desentoadas, o tocar das trombetas, o rufar dos tambores, o tropear dos cavalos naquela vasta planície, fariam crer a quem olhasse para ali dos montes vizinhos que no arraial se pelejava uma batalha nocturna.» Em fuga, quando se vislumbram os cumes da Astúrias, dois guerreiros escoltarão Hermengarda até Covadonga, para os braços do irmão, enquanto que o Cavaleiro Negro e os restantes se preparam para enfrentar os perseguidores.

terça-feira, outubro 06, 2020

«Leitor de BD»

 

Tito Faraci& Enrique Brescia, Tex -- Capitan Jack
e também aqui

a arte de começar mais depressa

«Deus ex machina». «O Inverno de 1890 foi dos mais ásperos que flagelaram a Europa durante o século findo, e na Holanda, então -- onde eu o passei quase todo --, país relativamente temperado e malìssimamente preparado para as baixas temperaturas, morria-se de frio.»

«A cigana (Carta a António Patrício)». «Hammamet, Dezembro, 1930. / Meu caro amigo: / Com aquela mesma mulher cuja presença, anos depois de nos separarmos para sempre, adivinhei, "senti", num recinto imerso em profundas trevas e cheio de gente; e logo, porque fugi para a não ver, me sugeriu a explicação do mito de Orfeu e Eurídice; com essa mesma mulher, durante os nossos longos e atormentados amores, deu-se um caso de telepatia tão raro, que merece realmente ser arquivado.»

«Margareta». «Em matéria de viagens fui sempre, por instinto e reflexão, refractário a programas; contudo, na minha primeira ida a Itália, reconhecendo a necessidade de visitar com certo método país tão incomparável e infinitamente variado na paisagem e na arte, delineei um plano que me tolhesse as turbulências juvenis, sopeando-me a irrebatível mania das digressões, e executei-o sem repugnância nem arrependimento.»

«Cordélia». «As minhas relações com gente da Catalunha datam da infância, graças a uns negociantes de cortiça, de S. Feliú de Guixols, que se estabeleceram na minha terra e de que ainda hoje lá existe descendência.»

«?». «O meu quarto na hospedaria Fra Giaccomo, em Smirna, era uma gaiola de vidro suspensa sobre o mar, e isso concorreu muito para que eu aí me demorasse mais do que projectara.»

«O sítio da mulher morta». «Já totalmente impossibilitados de trabalhar, os Elisiários, meus velhos caseiros dos Pegos Verdes, tinham abandonado a propriedade recolhendo-se a um casebre que possuíam na povoação vizinha, a Figueira.»

M. Teixeira-Gomes (1860-1941), Novelas Eróticas (1935)


uma gruta nos Picos da Europa - «Eurico o Presbítero (15)

1. Continuar:  «A vitória do Críssus assegurara aos Árabes a conquista da Espanha inteira, porque o desalento entrara em todos os corações, e o terror quebrara todos os brios.» Cap. XIII - «Covadonga», pp. 155-176 da minha edição).


2. 
O recuo de Pelágio com os seus soldados até aos inóspitos e inacessíveis Picos da Europa, levando uma prática de guerrilha e rapina. E Covadonga era «Uma caverna [que] servia de paço ao jovem reia das montanhas e de templo ao Crucificado.» Não assim Teodomiro, que apesar de vencido era demasiado poderoso para deixar-se manietar totalmente, estabelecendo um pacto com Abdalazize Ibn Muça, o primeiro váli do Andaluz, o que lhe permitiu gozar de alguma autonomia nos seus domínio. Algo que foi radicalmente rejeitado pelo Cavaleiro Negro: «Paz com o infiel? Ao cristão só cabe fazê-la quando dormir ao lado dele sono perpétuo no campo da batalha.» A única alternativa é juntar-se no Norte a Pelágio, que lhe aparece sem de início se identificar enquanto tal.

3. Eurico é um homem dilacerado, um espectro, um homem que desafia a morte. E assim continua, mesmo quando chega à caverna de Covadonga a notícia de que Hermengarda foi aprisionada, e que possivelmente aguarda-a a última degradação de ver-se vendida como escrava, é ele quem impede Pelágio de avançar, com o argumento de que o irmão de Hermengarda é precioso para a luta dos Godos, a sobrevivência da pátria -- anacronismo proibido ao historiador mas aceite ao romancista. Eurico, o Cavaleiro Negro, embora ninguém saiba a causa da sua ocultação e da dor funda que sente, reclama-se como um «desterrado no meio do género humano», cuja vida a ninguém importa, a começar pelo próprio. Com ele seguirão doze guerreiros.

4. Herculano faz aparecer um lusitano -- como já antes, na batalha de Guadalete, um homenzarrão guarda da caverna, que dá pelo simpático nome de Gutislo... «Velho lobo do Hermínio», chamou-lhe Pelágio...

5. E o estilo de Herculano, esplêndido, cheio de recursos visuais, como nete parágrafo: «Tarde, já bem tarde, uma luz baça e duvidosa bruxuleava sem brilho adiante dos cavaleiros, que haviam rodado as montanhas, fazendo um largo semi-círculo. Naquele momento transpunham uma garganta medonha. Pelo contrário de outros lugares que tinham atravessado, aqui as serras erguia-se quase a prumo de uma e de outra parte da estreita passagem. Por meio dela sentia-se o ruído da torrente caudal, que parecia vir da banda da luz que se via em distância, e o nevoeiro, cada vez mais cerrado, pendurava-se em orvalho na barba espessa dos guerreiros e nos cabelos que lhes ondeavam pelos ombros, saindo de sobre os elmos.»

domingo, outubro 04, 2020

a arte de começar

«Desde o inverno que Jaime andava a falar na visita do seu sobrinho Luís. Viria pelas férias, vencido o segundo ano de Medicina. Maria Antónia esperava sem impaciência a vinda do intruso, que depois de quatro anos de casada vinha alterar os hábitos do seu lar. Sabia que essa visita daria prazer a Jaime, e só por isso sentia ânimo para receber um senhor que ela sabia exigente e até um pouco malcriado. Lembrava-se vagamente de ter visto, pelo seu casamento, um rosto comprido de menino obstinado, onde brilhavam uns olhos escuros e zombeteiros e se desenhavam uns lábios talvez demasiado grossos  de expressão desdenhosa. Depois disso só o vira em fotografia. Os traços tinham-se-lhe adensado; deixara de ser o menino birrento para ser um homenzinho que parecia esperar muito da vida. Conservava os espessos lábios desdenhosos sobre um queixo voluntarioso, que teria no rosto o lugar principal, tanto se erguia altivo e sobranceiro, se não foram os olhos de extraordinária expressão, agora um pouco mais sérios, mas sempre vivíssimos e perfurantes, como se exigissem das pessoas ou das coisas sobre que pousavam a revelação dos segredos mais íntimos.»

João Pedro de Andrade (1902-1974), A Hora Secreta (1942)

«Vicious»

sábado, outubro 03, 2020

sexta-feira, outubro 02, 2020

Inducação para a cidadania, alguns tópicos

1. Algo está profundamente errado quando o Ministério Público é compelido a devassar uma família funcional e integrada na sociedade, porque essa família decide viver de acordo com os seus valores conservadores e a moral religiosa que professa, neste caso a católica. Que se saiba, digo eu, que sou ateu praticante e não ando a papar missas nem acredito em parvoíces, como os católicos envergonhados com a hierarquia --, ainda se pode ser conservador neste país, sem que o Estado se imiscua na esfera privada e familiar. 

2. Algo está profundamente errado quando o Estado procura exercer represálias sobre crianças (é disso que estamos a falar), de resto comprovadamente excelentes alunos e escolhidos pelos colegas para delegados de turma, pretendendo não só bloquear-lhes a passagem de ano como obrigá-los a regredir dois anos. É uma monstruosidade, que não deve passar em claro.

3. Algo está profundamente errado quando um secretário de Estado vem com ar pimpão para os media dizer que assim será, sem ter a noção da sua insignificância e de como mais depressa ele irá borda fora do governo a que pertence, por indecente e má figura, do que as crianças, em relação às quais mostrou estar-se nas tintas -- por muito que agora venham dizer o contrário, tentando disfarçar a nódoa da prepotência pimpona e totalitária.

4. Decorre na sociedade portuguesa um clima de guerra civil ideológica que a cada dia se exacerba. A educação para a cidadania deve ser neutra, ou seja, não pode pretender impor uma mundividência de uma parte da população contra outra. Há um vasto campo comum entre a esquerda e a direita, entre liberais e conservadores que permitem que a escola transmita valores que estão consensualizados na sociedade --  os Direitos Humanos, para usar duas palavras que resumem tudo.

5. A questão é simples. Neste momento está a haver um intolerável cerco do Estado a uma família e, mais concretamente, há duas crianças que estão a ser sujeitas a um abuso por parte do poder transitório que governa. Eu apostaria, dobrado contra singelo, que não lhes vai acontecer nada do que o lamentável secretário de Estado pimponou. Há um Presidente da República, que eu saiba, e que não pode tolerar uma ignomínia destas. E ainda há força e massa crítica no país que o impeça.

6. Técnicas de intimidação: quem pensa o contrário é catalogado como sendo de extrema-direita ou até protofascista. Além de insidiosa é estúpida: objectivamente, estes entusiastas da fluidez de género e outras parvoíces que tontinhos militantes e burocratas de améns tiveram a ousadia de tornar em "disciplina" obrigatória, são os melhores aliados deste Ventura e dos venturas por vir. Ninguém os trava. Ou melhor, travam-nos o bom senso, que o PR já mostrou em várias ocasiões, e os democratas que não se deixam intimidar.

7. Argumentos intelectualmente desonestos: "ah, eu não concordo com o programa de Português, de História, de Filosofia, portanto os meus filhos não frequentam". É só esta aldrabice que têm para argumentar?

8. Leis estúpidas e iníquas, ou mal feitas, alteram-se, combatem-se, incumprem-se. Vou por isso assinar os abaixo-assinados todos. Ou pelo menos, este. É impressionante como esta criatura ainda é membro do Governo.

quinta-feira, outubro 01, 2020

50 discos: 20. SELLING ENGLAND BY THE POUND (1973) - #8 «Aisle Of Plenty»




a arte de começar

 Luanda, Maio de 1868 / Minha querida madrinha, / Desembarquei ontem em Luanda às costas de dois marinheiros cabindanos. Atirado para a praia, molhado e humilhado, logo ali me assaltou o pensamento inquietante de que havia deixado para trás o próprio mundo. Respirei o ar quente e húmido, cheirando a frutas e a cana-de-açúcar, e pouco a pouco comecei a perceber um outro odor, mais subtil, como o de um corpo em decomposição. É a este cheiro, creio, que todos os viajantes se referem quando falam de África.»

José Eduardo Agualusa (1960), Nação Crioula (1997)

quarta-feira, setembro 30, 2020

«21st Century Schizoid Man»

«Leitor de BD»

                                                                             Rafael Bordalo Pinheiro

 jornal i

segunda-feira, setembro 28, 2020

o Evangelho contra o Corão - «Eurico o Presbítero» (14)

Continuar: «O mosteiro da Virgem Dolorosa estava situado numa encosta, no topo da extrema ramificação oriental das que a dilatada cordilheira dos Nervásios estende para o lado dos Campos Góticos.» Cap. XII, «O mosteiro» (pp. 120-154 da minha edição)


Hermengarda no fulcro, é um capítulo que não deixa esquecer a trama amorosa, mesmo que em tempo de guerra. A fuga para um mosteiro situados nas planícies entre a Estremadura e Leão, acolitada por um grupo de dez cavaleiros. É recebida de braços abertos ela abadessa, a Venerável Cremilde, terminando num banho de sangue, na sequência  do assalto pelos mouros, capitaneados pelo "invencível" Abdulaziz.

A prosa de historiador com que se reveste a caracterização do mosteiro, fortificado como uma praça-forte: «Edifício sumptuoso, construído no tempo de Recaredo, as suas grossas muralhas de mármore pareciam, na verdade, quadrelas de castelo roqueiro; porque na arquitectura dos Godos a elegância romana era modificada pela solidez excessiva do edificar germânico [...] Os muros fortíssimos daquele vasto edifício, as suas portas tecidas de ferro e carvalho, as estreitas frestas, que apenas lhe deixavam penetrar no interior uma luz duvidosa, os tetos ameados e, finalmente, os fossos profundos que o circundavam, tudo o tornava acomodado para larga defensão.»

«Era ao anoitecer de um dia de novembro. Por entre o nevoeiro cerrado que, alevantando-se do vale vizinho, trepava pela encosta, deixando apenas livres as negras agulhas dos cerros, lá no viso da montanha divisavam-se a custo as ameias e as muralhas à luz baça do crepúsculo, refrangida em céu pardo e húmido. [...] // A esta hora duvidosa entre a claridade e as trevas, uma numerosa cavalgada atravessava o ribeiro no fundo do vale e encaminhavam-se para o mosteiro da Virgem Dolorosa.»  Era a escolta de Hermengarda, presa apetecível pela alta dignidade que detinha. Herculano consegue aqui um efeito estilístico  muito interessante ao salientar a altitude da abadia-fortaleza,  ao lusco-fusco, contrastando com o grupo de cavaleiros que o leitor divisa em ponto pequeno, acentuando mais a sua condição fugitiva e precária.

O espírito de Eurico aparece-nos quando as monjas entoam um salmo composto pelo presbítero de Carteia, cantando «as asas da tua providência, ó Senhor», hino que culmina com a certeza do triunfo da Cruz.

Encontro de dois irmãos: Atanagildo, quingentário sitiado, que comandava a guarda de Hermengarda, e Suintila, sitiante, ao lado das forças invasoras, comandadas agora por Abdulaziz, evoca irresistivelmente o Cerco do Porto.

O capítulo termina com um episódio arrepiante: as monjas prostram-se diante da abadessa, para que esta as desfigure, ficando assim ao abrigo da violação ou do tráfico num mercado de escravas. Este confronto entre a sensualidade brutal e a imolação pelo martírio é vista pelo narrador como uma vitória da Cruz sobre o Corão:

«Entre as monjas e os Árabes bem curta distância medeia: e todavia, lá no mais pequeno recinto onde soam os gemidos de dores atrozes, onde só ri uma esperança a da morte, há paz íntima, há o céu: aqui, na vasta cripta, onde a ebriedade de fácil triunfo, a riqueza dos despojos, o futuro de uma larga existência de glória e deleites sorriem na mente dos infiéis, está o furor insensato, está o inferno. o Evangelho e o Alcorão estão frente a frente no resultado das suas doutrina. É sublime a vitória do livro do Nazareno!»

os meninos de ouro

Fernando Pimenta

Joana Vasconcelos

 

domingo, setembro 27, 2020

a arte de começar - Raul Brandão (1867-1930)


«-- Ai que ma levam!, ai que ma levam!»

A Farsa (1903) 

«When I Get To The Border»

sábado, setembro 26, 2020

«21st Century Schizoid Man»

a arte de começar - Ferreira de Castro (1898-1974)




«A furgoneta deteve-se. Era nova, blindada, de um escuro brilhante, quase negro. A banda esquerda dir-se-ia feita de uma só placa, inteiramente lisa; na outra havia um ralo, pequeno e redondo, que filtrava o ar de todas as más tentações, como os crivos, nos fundos dos lavatórios, libertam a água suja de todos os elementos obstrutores.»

A Experiência (1954)

quinta-feira, setembro 24, 2020

50 discos: 43. POR ESTE RIO ACIMA (1982) - #8 «A voar por cima das águas»




a arte de começar - Eça de Queirós (1845-1900)


«O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival.»

A Cidade e as Serras (póstumo, 1901)

quarta-feira, setembro 23, 2020

«Leitor de BD»

 




Goscinny & Tabary, As Conspirações do Gão-Vizir Isnogoud

jornal i

terça-feira, setembro 22, 2020

a arte de começar - Augusto Abelaira (1926-2003)




«Sentado, as pernas cruzadas, uma das mãos no bolso e a outra a brincar com o lápis, Giovanni Fazio observava os passos, para diante e para trás, dum casal de ingleses. Ele -- chamar-te-ás John, decidiu -- recuara dois ou três metros, e ela -- Mary -- dirigia-se devagar para os degraus do palácio, sob o olhar indiferente do David. Encostou-se ao pedestal da estátua, tirou o lenço da cabeça e olhou para o marido. Este baixou-se um pouco, apontou demoradamente a máquina e disparou por fim.»

A Cidade das Flores (1959)

segunda-feira, setembro 21, 2020

domingo, setembro 20, 2020

«Lokada Kalaji»

a arte de começar - Aquilino Ribeiro (1885-1963)

 


«O vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso, penetrou na camarata, bufou, deu um abanão. O estarim parecia deserto. Não senhor, alguém dormia meio encurvado, cabeça para fora do seu decúbito, que se agitou molemente. Voltou a soprar. Buliu-lhe a veste, deu mesmo um estalido em sua tela semi-rígida e imobilizou-se. Outro sopro. Desta vez o pinhão, como um pretinho da Guiné de tanga a esvoaçar, liberou-se na cela e pulou no espaço. Que pára-quedista!» 

A Casa Grande de Romarigães (1957) 

quinta-feira, setembro 17, 2020

50 discos: 6. MONEY JUNGLE (1962) #8 - «Switch Blade»






a arte de começar - Coelho Neto (1864-1934)


«Meu tio, / Há neste livro páginas que vos pertencem, porque eu nunca as teria escrito se a minha Boa Sorte me não tivesse guiado para o retiro de ascetismo voluptuoso onde viveis, em beato sossego, praticando a moral divina de Epicuro e cuidando flores; outras há, e profusas, derivadas da sabedoria profunda do dr. Gomes, de quem guardo saudades e conceitos; outras, finalmente, que seriam dedicadas à Jesuína se o escrúpulo não existisse na moral privada.»
A Capital Federal (1893)


terça-feira, setembro 15, 2020

50 discos: 2. BIRTH OF THE COOL (1957) - #8 «Boplicity»




«Leitor de BD»

 

Le Convoyeur, t. 1, de Tristan Roulot e Dimitri Armand


Dia do Juízo - «Eurico o Presbítero» (13)

Eurico, O Presbítero by Alexandre Herculano

continuar: «A passagem de tão avultado número de Godos para os inimigos e o crepúsculo que descia obrigaram Roderico a fazer cessar o combate, enquanto a noite poisava tranquila sobre aquela campina povoada de aflições e dores.» -- início do capítulo XI, "Dies irae" (pp.104-119 da minha edição).

O derradeiro recontro,  em que morre o último rei visigodo, Rodrigo: «Um ceptro sem dono em Toletum e mais um cadáver junto à margem do Críssus, eis o que restava do último rei dos Godos!» Um Dia do Juízo para a monarquia visigótica na Hispânia. Apenas o Cavaleiro Negro, um suicida tresloucado para os godos, um monstro infernal para os invasores, parecia não ter dado pela derrota.



segunda-feira, setembro 14, 2020

domingo, setembro 13, 2020

a arte de começar - Eça de Queirós (1845-1900)



«A estação de Ovar, no caminho de ferro do Norte, estava muito silenciosa pelas seis horas, antes da chegada dos comboio do Porto.»




Eça d
e Queirós, A Capital! (póstumo, 1925)



«My Blood»

sábado, setembro 12, 2020

o pequeno cabaz da feira

Feira do Livro espartana, varrida a cinco espécimes. Contentíssimo pelas escolhas e pela economia feita. Dois romances, um livro de crónicas, uma antologia poética e uma BD. Todos portugueses, mas isso foi um acaso.

As Mais Belas Líricas Portuguesas, selecção, prefácio e notas de José Régio, Portugália Editora, Lisboa, s.d.;

Jornadas em Portugal, de Antero de Figueiredo, Livraria Aillaud & Bertrand, Lisboa, 1918;

O Cónego, de A. M. Pires Cabral, 2.ª ed., Cotovia, Lisboa, 2015;

O Penteador, de Paulo J. Mendes, Escorpião Azul, s.l., 2020;

Terra de Nod, de Judith Navarro, Lisboa, Publicações Europa-América, 1961;

«Merlin»

«Gibraltar»

sexta-feira, setembro 11, 2020

a arte de começar - Tomás Ribeiro Colaço (1899-1965)


«Uma das coisas discutidas no Café Martinho era a virgindade de Antero.»

A Calçada da Glória (1947)

The Avengers

quinta-feira, setembro 10, 2020

quarta-feira, setembro 09, 2020

50 discos: 12 CARAVAN (1968) - #8 - «Where But For Caravan Would I?»



Cruz e Crescente - Eurico o Presbítero (12)

Continuar: «O sol ia já alto quando o grito de Allah hu Acbar! soou no centro dos esquadrões do Islame.»
Um capítulo notável pelo cheiro, pelo som, pela imagem do início da Batalha de Guadalete (31-VII-711). Duas massas humanas compactas no limiar do enfrentamento inevitável, questão de vida ou de morte: a terra treme sob «o peso daquela tempestade de homens»; os urros e a agonia, «um longo gemido, assonância horrenda de mil gemidos»; «o tinir do ferro no ferro e um concerto diabólico de blasfémias, de pragas, de injúrias em romano e em árabe»; brados desgarrados das vozes de comando…
E mais uma vez o fantasma da Guerra Civil de 1828-34 surge no choque, numa das alas da batalha, entre as forças de Teodomiro, o duque de Córdova, e Juliano, conde de Ceuta:
«O recontro dessa ala foi semelhante em tudo ao do grosso das duas hostes, salvo que aí o franquisque encontrava o franquisque, a injúria de Godos respondia à injúria proferida por bocas de Godos, e as imprecações do ódio trocavam-se com maior violência ainda.»
É neste capítulo que surgirá o cavaleiro negro, do lado cristão, que com ímpeto se lança sobre os inimigos de maior hierarquia nas hostes inimigas:
«Se combatesse pelos muçulmanos, crê-lo-iam o demónio da assolação; mas, pelejando pela Cruz, dir-se-ia que era o arcanjo das batalhas mandado por Deus para salvar Teodomiro e, com ele, os esquadrões da Bética.»
Virou a batalha a favor dos visigodos que se preparavam para derrotar os árabes, quando os filhos de Vítiza e Opas, bispo de Sevilha, seu irmão, gritam à morte do usurpador Rodrigo, com as consequências que prosseguirão no capítulo seguinte.

Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844), cap. X, "Traição", pp. 91-103



terça-feira, setembro 08, 2020

Vicente Jorge Silva

Um grande jornalista compensa a caterva de cavalões e cavalinhos da imprensa. Vicente Jorge Silva, que morreu hoje, foi responsável pelo que de melhor o jornalismo português teve no último século - Comércio do Funchal, Expresso e Público - e isso é inestimável para o país.

segunda-feira, setembro 07, 2020

leve como um puro-sangue - «Eurico o Presbítero» (11)

Continuar: «Poucos dias haviam passado depois de o Duque de Córduba recebera a última carta do infeliz Eurico.» 

Capítulo pleno de informação, narra os preparativos e as escaramuças iniciais que iriam preceder a grande batalha junto ao rio Crissus, nome que os árabes davam ao curso de água do Guadalete. Acantonados em torno do calpe, o monte que iria tomar o nome do general invasor, Tárique -- ou seja, Gibraltar --, quero salientar a forma como o Herculano romancista se serve do Herculano historiador, e uma passagem que ilustra psicologicamente uma das figuras históricas e romanescas que o Eurico encerra, a do conde de Ceuta.

Em primeiro lugar, sendo os visigodos mais numerosos não irão conseguir fazer valer-se dessa superioridade como sabemos. O excerto seguinte dá conta da vantagem do moral dos invasores sobre a dos defensores, recordemos, dilacerados pelas lutas civis e corrompidos pelo deslaçar moral:

«[...] Sem perícia militar, estes bárbaros são todavia temerosos nas pelejas, porque os capitães experimentados da Arábia os dirigem e movem como lhes apraz, e, porque, sectários de uma religião nova, crédulos mártires do inferno, buscam os embusteiros e torpes deleites que, além da morte, lhes prometeu o profeta de Iatribe, arremessando-se com um valor que se creria de desesperados diante do ferro dos seus contrários e contentando-se de acabar, contanto que sobre os seus cadáveres se hasteie o vitorioso estandarte do Islame.»

O proselitismo fanático dos neófitos que abraçaram a recente religião, constituindo-se como um tónus para berberes e outros africanos que formaram a carne-para-canhão das hostes islâmicas, enquadradas pela cavalaria árabe, rapidíssima, contrastando com a movimentação pesada do exército visigótico, a segunda razão que Herculano dá para a vantagem islâmica no recontro que ocorrerá. O fragmento que se segue é exemplar, pela consistência do que nos é transmitido e pelo estilo, leve como um puro-sangue.

«A esta gente bruta e indomável, cujo esforço vem das crenças da outra vida, se ajuntam os esquadrões de cavaleiros sarracenos que vagueiam pelas solidões da Arábia, pela planícies do Egito e pelos vales da Síria, e que, montados nas suas éguas ligeiras, podem rir-se do pesado franquisque dos Godos, acometendo e fugindo para acometerem de novo, rápidos como o pensamento, volteando ao redor dos seus inimigos, falsando-lhes as armas pela juntura das peças, cercando-lhes os membros desguarnecidos, quase sem serem vistos, e apesar da sua incrível destreza, pelejando, quando cumpre, frente a frente, descarregando tremendos golpes de espada, topando em cheio com a lança no riste, como os guerreiros da Europa, e assaz robustos para, muitas vezes, os fazerem voar da sela nestes recontros violentos: homens, enfim, que sem orgulho, se podem crer os primeiros do mundo num campo de batalha, pelo valor e pela ciência da guerra.»

Ainda no campo da História, não resisto a transcrever a passagem que alude aos velhos lusitanos. Lusitanos na Alta Idade Média? Pois não estiveram eles sempre aqui, desde a Idade dos Metais? Por muita romanização e germanização, não se está a ver como poderia ser doutra forma. A descrição é vivíssima, desenhando os contornos dos que quase mil anos atrás defrontaram Roma, com tanto desapontamento de Júlio César em face destes verdadeiros irredutíveis, comparados também aos bascos, ambos povos alpestres. As fontes são, certamente, os historiadores da Antiguidade:

«Como os Árabes, os Godos tinham no meio de si uma nuvem de peões armados, não menos bárbaros e ferozes que os filhos da Mauritânia. Os montanheses do Hermínio na Lusitânia, aborígenes, talvez, daquele país, os quais, na época das invasões germânicas, bem como já na da conquista romana, a custo haviam submetido o colo ao jugo de estranhos, e os Vascónios, habitadores selvagens das cordilheiras dos Pirenéus, constituíam com os servos um grosso de gente a que hoje chamaríamos a infantaria do exército. […] Requeimados pelos sol ardente do estio ou pelo vento gelado dos invernos rigorosos das serranias, incapazes de conhecerem a vantagem da ordem e da disciplina, estes homens rudes combatiam meios nus e desprezavam todas as precauções de guerra. O seu grito de acometer era um rugido de tigre. Vencidos, nunca se lhes ouvia pedir compaixão; porque, vencedores, não havia a esperar deles misericórdia.»

Uma nota ainda de caracterização psicológica, a propósito r Juliano (ou Julião), conde de Ceuta, o tal que quis vingar a honra da filha Florinda (curioso nome, cheira a lenda...) desflorada pelo último rei visigodo, Rodrigo, chamando os árabes: após um conciliábulo com Tárique, de regresso ao seu acampamento:

  «[...] via-se-lhe o rosto, não radiante de contentamento que ressumbra de um coração puro quando folga, mas como sulcado por um raio de alegria feroz do criminoso que vê chegar o momento do crime há muito meditado e previsto.» 

capitulo IX, «Junto de Crissus», de Eurico o Presbítero (1844), de Alexandre Herculano,  pp. 74-90 da minha edição. 




a arte de começar - Eduardo Frias (1895-1975) e Ferreira de Castro (1898-1974)

«-- Quem o diria, Berenice?... Sim, porque quando tu nasceste eu já não era um adolescente: -- já tinha realizado aspirações, sofrido desilusões...»

A Boca da Esfinge (1924)




domingo, setembro 06, 2020

orquestrais & concertantes: Barber, ADAGIO PARA CORDAS (1936)

           Leonard Slatkin, Orquestra Sinfónica de Detroit 

a arte de começar - Jorge Amado (1912-2001)

«A acreditar-se nos historiadores ibéricos, sejam espanhóis sejam portugueses, a descoberta das Américas pelo turcos, que não são turcos coisíssima nenhuma, são árabes de boa cepa, deu-se com grande atraso, em época relativamente recente, no século passado, não antes.»

A Descoberta da América pelos Turcos (1994)

quinta-feira, setembro 03, 2020

se pudesse, iria todos os anos e todos os dias à Festa do Avante!

Está-se lá muitíssimo bem, digo eu que nunca fui do partido. A música, o que mais me movia, estava a cargo do grande Ruben de Carvalho. Ainda tenho um Close to the Edge que lá comprei. Até eu já lá estive à venda, o que muito me honrou, em postura crítica, aliás, mas indesmentida.
Porém, não posso: tenho a praia e a Feira do Livro. tudo covid free, como se sabe.
Para o resto de peditório, não dou.

Leitor de BD

Mathieu Lauffray, Raven, tomo 1 - Némesis

jornal i

https://ionline.sapo.pt/artigo/707611/os-parias-dos-mares?seccao=Mais_i




a arte de começar - Ferreira de Castro (1898-1974)

«Encontravam-se os três à mesa de jantar e o velho relógio de pêndulo marcava onze horas menos um quarto. Mercedes mostrava-se impaciente.»

A Curva da Estrada (1950)

terça-feira, setembro 01, 2020

50 discos: 25. MEUS CAROS AMIGOS (1976) - #8 «Passaredo»



um amor assim recalcado - «Eurico o Presbítero» (10)

continuar: «DO PRESBÍTERO DE CARTEIA AO DUQUE DE CÓRDUBA»

Três missivas entre Eurico e Teodomiro, Duque de Córdova. Herculano fê-los camaradas de armas nas campanhas vitoriosas de submissão dos bascos, aliados aos francos. Na primeira carta, o herói relembra não só esses momentos de glória como a desventura subsequente à rejeição do pedido da mão de Hermengarda ao pai, o Duque de Fávila, progenitor também de Pelágio, o primeiro rei das Astúrias, último reduto cristão após 711, a partir do qual de processará a Reconquista cristã -- termo que já ele próprio é posto em questão, suponho, pelos talibãs do costume, os mesmos certamente das quatro espécies de académicos (os activistas, os sectários, os analfabetos e os idiotas úteis) que pretendem impugnar o termo Descobrimentos.
Teodomiro levará Eurico pela senda da evasão orgiástica, mas este porém era doutra têmpera: «A embriaguez dos banquetes era para Eurico tristonha; as carícias feminis, fàcilmente compradas e profundamente mentidas, atrás das quais correra loucamente outrora, tinham-se-lhe tornado odiosas; porque o amor, com toda a sua virgindade sublime, lhe convertera em podridão asquerosa os deleites grosseiros que o mundo oferece à sensualidade do homem.»
Diante do perigo -- «Os Árabes! -- [...] esta palavra maldita é como a peste quando passa: seguem-na o susto e o desacordo.» -- a cujo desembarque assistira na véspera, do refúgio, Eurico anuncia que voltará a empunhar a espada.
É sabido que o reino visigodo estava em guerra civil, e que as instituições políticas -- embora já com sofisticada legislação -- eram frágeis. Os árabes foram chamados por Julião, Conde de Ceuta, supostamente para vingar uma afronta do rei Rodrigo sobre a filha.  Rodrigo, sobre quem há suspeitas do derrube do rei anterior,Vitiza, pelo que a causa dos dissídios poderão encontrar-se principalmente aí.  A História perde-se na lenda e sustenta-se nas crónicas, fontes escritas e vestígios arqueológicos.
A resposta de Teodomiro é muito interessante, aceitando Eurico de braços abertos não deixando de fazer-lhe uma exprobação amarga de amizade ferida: «[...] aquele que te amou tanto; aquele que poria a vida para salvar a tua; que nunca teve contentamento ou mágoa que fosse para ti segredo, trataste-o com o mesmo desprezo com que tu, no teu nobre orgulho de desgraçado, trataste o resto do mundo [...].» Ao que Eurico retorquirá com a afirmação dum sentimento não compatível com as vulgares paixões: «Medes o meu espírito pelos afectos humanos»; a dor é incompatível com a vida, retomando o sentimento suicidário, que faz saber ao Duque de Córdova: «Sabes o que faz um amor imenso assim recalcado?»  A resposta é terrivelmente soberba, notando o (aparente) alheamento divino daquele servo: «O Senhor não me escutou as preces: não me aceitou a resignação.»; e a assim, sem saída: «Que pode hoje embriagar-me, senão uma festa de sangue?»
O romance histórico não é historiografia, mesmo quando escrito por um historiador, num romance tudo é permitido, desde que o discurso seja verosímil, do anacronismo à projecção do sentimento ou da ideologia do autor nas personagens. E aqui -- terminada a Guerra Civil (1828-1834) havia apenas uma década --, Eurico volta a vestir-se de Herculano: «Dir-to-ei, Duque de Córdoba: também eu não amo Roderico subiu ao trono; porque a memória de Vítiza nunca morrerá no coração do seu antigo gardingo. [...] Mas não é a sua coroa que os filhos das Espanhas têm hoje que defender; é a liberdade da pátria; é a nossa crença [...].»

Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844), Cap. VII, «O desembarque», pp. 52-73 


segunda-feira, agosto 31, 2020

a arte de começar - José Eduardo Agualusa (1960)

«Aqui se conta da chegada de Jerónimo Caninguili, moço benguelense, à velha cidade de São Paulo da Assunção de Luanda. E de como, enquanto Caninguili dava os últimos retoques à sua Loja de Barbeiro e Pomadas, dita ainda Fraternidade, a menina Alice soltava os pássaros do falecido pai.»

A Conjura (1989)

sexta-feira, agosto 28, 2020

a arte de começar - Castro Soromenho (1910-1968)

«A luz amarela do candeeiro de petróleo espalhava-se sobre o pano de ramagens que cobria a mesa. A cara dos homens estava na meia sombra, por cima do quebra-luz. Eram quatro à volta da mesa. Estavam calados, com a atenção concentrada nas cartas de jogo que um deles, de costas voltadas para a porta que dava para a estrada, talhava com gestos vagarosos, aparentando serenidade. Mas era tão visível o esforço que fazia para se mostrar sereno que os companheiros trocaram rápidos olhares.»

Terra Morta (1949)

quinta-feira, agosto 27, 2020

a arte de começar - Natália Nunes (1921-2018)

«A minha amiga Vera Alexandrina, obedecendo a uma tendência muito comum na adolescência, a de praticar pesquisas arqueológicas, desde cedo começou a calcorrear os montes e os vales da sua terra, na ânsia de descobrir objectos antigos escondidos debaixo do chão ou restos de construções deixados pelos homens de outros tempos.» 

Vénus Turbulenta (1997)

quarta-feira, agosto 26, 2020

premonições - «Eurico o Presbítero» (9)

continuar: «O sono ou a vigília, que me importa esta ou aquele? As horas da minha vida são quase todas dolorosas; porque a imaginação do homem não pode dormir.»

Madrugada de 8 de Abril de 711, no presbitério Eurico lança ao pergaminho a premonição que o assaltou, vinda da costa de norte de África. Mas primeiro a evidência do contraste entre a noite do povo simples, e a sua, poeta ilustrado -- uma reflexão em que Herculano entra de novo na personagem: «Para o povo ignorante e ìmpiamente crédulo, a noite é cheia de terrores; em cada folha que range na selva ele ouve um gemido de alma que vagueia na terra: [...] / Mas quando jaz no leito de repouso, o seu dormir é tranquilo. Ao cruzar os umbrais domésticos, esses terrores sumiram-se com os objectos que o geraram. A sua alma parece despir-se da fantasia grosseira, como o corpo se despe da estringe áspera que lhe resguarda os membros.» 

Depois, esse pesadelo em que da rocha do Calpe (que, ironia, viria a tomar o nome do invasor, Gibraltar, ou montanha de Tárique), vê o mar -- o elemento que tanto separava como era veículo de aproximação entre a Europa e a África -- estacar como morto: «Era horribilíssimo ver convertido em cadáver, de todo imóvel e mudo, o oceano; aquele oceano que mais de quarenta séculos nem um só dia deixou de revolver-se em torno dos continentes [...].» E de cada lado do continente nuvens formando-se em bloco, indo ao encontro umas das outras, prefigurando o recontro de dois exércitos, numa imagem portentosa e espectral:

«Então pareceu-me ouvir muito ao longe um choro sentido misturado com gritos agudos, como o do que morre violentamente, e um tinir de ferro, como o de milhares de espadas, batendo nas cimeiras de milhares de elmos.»

A premonição de um castigo divino lançado por Deus aos decadentes visigodos, tal como séculos antes os hunos -- o outro sempre visto como o anticristo, que em certa medida o era de facto: «Contam-se coisas incríveis desses povos que assolam a África, chamados os Árabes, e que, em nome dum crença nova, pretendem apagar os vestígios da Cruz.»

Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844), cap. VII, «A visão», pp. 46-51 

terça-feira, agosto 25, 2020

leitor de BD

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Kardec, de Carlos Ferreira e Rodrigo Rosa



a arte de começar - Tomaz Ribas (1918-1999)

«A luz forte e doirada do sol daquele dia de princípio de Verão entrava pelas janelas amplas e altas. Era a meio da tarde. Na secção ouvia-se o matraquear das máquinas e, de vez em quando, um dos funcionários erguia-se da sua cadeira, atravessava a sala e ia até ao corredor ou simplesmente olhar, da janela, o que se passava lá fora.»
O Cais das Colunas (1959)

segunda-feira, agosto 24, 2020

um homem aniquilado - «Eurico o Presbítero» (8)

Continuar: «O mar estava tranquilo, e o ar puro e diáfano. As costas de África fronteiras, lá na extremidade do horizonte, pareciam uma orla escura bordada no manto azul do firmamento.»
Abril de 711. O refúgio em si, ao largo da bacia de Algeciras, na embarcação de Ranimiro, pretexto para, mais uma vez, acentuar a diferente sensibilidade entre as almas simples, como a do barqueiro, e as inquietas, como a sua, Eurico, poeta e guerreiro feito sacerdote.
«Bem-aventurado, pensei eu comigo, aquele em que os afagos de uma tarde serena de primavera no silêncio da solidão produzem o torpor dos membros; porque nessa alma dormem profundamente as dores no meio do ruído da vida!»
Saudade de Hermengarda e do amante arrebatado e sincero que foi; revolta e despeito contra a os que lhe preteriram a pureza à linhagem e ao pecúlio; e contra a própria amada e o pai desta, que a prostitui honradamente.
«Porque mulher bárbara não entendeu o que valia o amor de Eurico; porque velho, orgulhoso e avaro sabia mais um nome de avós que eu, e porque nos seus cofres havia mais alguns punhados de oiro que nos meus.»
Desespero sem remissão: esquecer é uma impossibilidade, a escapatória é uma espécie de "suicídio": mais do que o tomar ordens, haverá outro modo de se aniquilar, nas graças de Deus.


Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero, cap. VI, «Saudade», pp. 38-45


Esta, nem o Cavaleiro Negro...


Miguel Oliveira -- foi tão bom, tão bom que tenho de guardar aqui.

domingo, agosto 23, 2020

a arte de começar - Rosa Lobato de Faria (1932-2010)

«Finalmente o prazer. Farrapos de fantasias eróticas de toda uma vida, numa espiral onde rodopiavam emoções, sensações, esquecimento próprio, loucura, aceitação do animal em mim, do grito, da fome, da liberdade de ser e saber que se é. Apesar. Mau grado. Não obstante. Que se lixe.»

A Alma Trocada (2007) 

sábado, agosto 22, 2020

o dantes e o hoje - «Eurico o Presbítero» (7)

continuar: «Mais de sete séculos são passados depois que tu, ó Cristo, vieste visitar a terra.» 
Ao contrário do que sucedia com os romanos corrompidos por séculos de domínio civilizacional, o coração dos godos estava aberto a receber, nesse século IV das Invasões Bárbaras, os ensinamentos de Cristo, como os da liberdade, do amor e respeito pela mulher, o esforço e o trabalho; agora é a vez de os mesmos visigodos, perdidas essas virtudes pelas elites, se prepararem para um novo e violento ímpeto que se avizinha, sentido nesse Dia de Natal de 748 [710]. O presente horroriza.
O tom de litania reitera o do capítulo anterior, e ao poeta, diante da triste realidade que se lhe acastela diante dos olhos, Eurico anseia pelas trevas que a ocultam: «Pela escuridão da noite, nos lugares ermos e às horas mortas do alto silêncio, a fantasia do homem é mais ardente e robusta.»
Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)
cap. V - «A meditação» (pp. 31-37)


a arte de começar - Bento da Cruz (1925-2010)

«A meia encosta, dois gaviões planam sobre o lameiro, quase imóveis. Durante muito tempo, Maria José olha os gaviões. Depois atira os olhos à crista da montanha. Mas os olhos não topam casa, árvore, pessoa ou bicho que os prenda. Rolam atá ao vale e sobem os desfiladeiros da outra banda.  Os píncaros amontoam-se a perder de vista e diluem-se na distância cor de chumbo com reflexos de prata. Uma fita branca suspensa dum avião a jacto flutua no espaço e o posto de radar dos Serviços Florestais brilha na linha do horizonte.»

Filhas de Loth (1988)

quinta-feira, agosto 20, 2020

elegias - «Eurico o Presbítero» (6)

Continuar: «Era por uma destas noites vagarosas do inverno em que o brilho do céu sem lua é vivo e trémulo; em que o gemer das selvas é profundo e longo; em que a soledade das praias e ribas fragosas do oceano é absoluta e tétrica.»

Prostrado com a decadência goda, o império do interesse próprio em vez do bem-comum, este breve capítulo tem por epígrafe uma frase do Memorial dos Santos, de Santo Eulógio de Córdova: «Onde é que se escondeu enfraquecida a antiga fortaleza?», e evoca a glória de Teodorico I, rei dos visigodos, morto na própria batalha em que é derrotado "o flagelo de Deus", Átila o Huno  (541). Eurico escreve solitário no presbitério numa «meia-noite dos idos de Dezembro da era de 748» -- data de acordo ainda com a era de César (entre nós vigorou até ao reinado de D. João I) --, trinta e oito anos somados à actual era de Cristo. Fazendo a conversão, está-se pois no fim do ano de 710, que precederá a invasão muçulmana, cuja presença vigorará na Península Ibérica durante os setecentos anos a seguir.

Desgostoso da humanidade, Eurico remete-se ao convívio com a Natureza, expressão da criação divina: «Por cima da minha cabeça passava o norte agudo. Eu amo o sopro do vento, como o rugido do mar: / Porque o vento e o oceano são as duas únicas expressões sublimes do verbo de Deus, escritas na face da terra quando ainda ela se chamava o caos. / Depois é que surgiu o homem e a podridão, a árvore e o verme, a bonina e o emurchecer. / E o vento e o mar viram nascer o género humano, crescer a selva, florescer a primavera; -- e passaram, e sorriram-se.»

Tudo é vão ante a criação. Mas, como que adivinhando o desastre próximo, Eurico consola-se na certeza da Piedade, irmã da Esperança, aquela que «nunca morre nos céus.»

Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero [1844], cap. IV, «Recordações», pp. 21-30


quarta-feira, agosto 19, 2020

a arte de começar - António Manuel Venda (1968)

«Chamo-me António Manuel Venda. Talvez não devesse começar assim, até porque se este relato for publicado, imaginemos que sob a forma de livro, o nome do autor aparecerá na capa. E depois, no interior, é bem provável que esse mesmo nome seja repetido quase até à exaustão, no topo de cada uma das páginas da esquerda, as de numeração par, numa espécie de desafio ao título, que dominará cada uma das da direita. Mas também há a hipótese de este relato não conhecer a publicação, e aí as coisas já serão diferentes. Se alguma pessoa o encontrar, nem interessa agora estar com especulações sobre o tipo de suporte, poderá logo querer saber quem o escreveu.Neste caso, a presença do nome a abrir o texto não será despropositada. Mas adiante, que os factos são muitos e importa deixá-los escritos antes que a memória, a minha memória, os remeta para um qualquer compartimento enevoado, daqueles onde as coisas parecem ser apenas o resultado de um sonho.»

O que Entra nos Livros (2007)