terça-feira, junho 11, 2024

caracteres móveis IV - TERRA FRIA

I «Sobre a montada, subindo, devagar, a trilha pedregosa, Leonardo esmoía íntimas irritações. Não podia ser! Os galegos estragavam tudo, quer pagando quantos direitos os guardas-fiscais lhes exigiam, quer andando na calada da noite, a fazer contrabando de peles.» Ferreira de Castro, Terra Fria (1934)

I.  «O comboio do sul parou na pequena estação sòzinha, perdida no descampado, entre grandes searas verdes já espigadas. Padre Dionísio, moço e ágil, saltou da 3.ª classe, poisou no chão a leve mala de viagem e olhou em roda, à espera que alguém se lhe dirigisse.» Manuel Ribeiro, A Planície Heróica (1921) - Primeira parte - «A Provação».  

 «Rubicundo, pesadão de farto, o estômago bem lastrado com lombo de vinha-de-alhos, padre Jesuíno saiu a espairecer para a varanda que a aragem da serra brandamente refrescava. Manjericos e craveiros floriam dentro de velhos potes, e tão abertos, tão medrados, que do mainel transbordava para a casa e sobre o pátio uma onda álacre de primavera.» Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926) 

I. «José das Dornas era um lavrador abastado, sadio e de uma feliz disposição de génio, que tudo levava a rir, mas desse rir natural, sincero e despreocupado, que lhe fazia bem, e não rir dos Demócritos, de todos os tempos -- rir céptico, forçado, desconsolador, que é mil vezes pior do que o chorar.» Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor (1867)

1 comentário:

Manuel M Pinto disse...

«Apenas a forma em que se envolvem as coisas e com que se indumenta a história dos homens é mutável, que no mais continua a prefixa eternidade. Por baixo da corrente de ideias, que hoje preponderam, defluem outras que, vindas de mais longe e realizadas, cederam àquelas a superfície do golfo social. Essas traduzem a substancialidade em arte e beleza. Mediante elas, o seu tonus e quantum, se pode ajuizar na leitura dos Lusíadas que está ali o tombo poético da Pátria Portuguesa. Sentimentos e paixões particulares para enquanto durar o mundo.»
Aquilino Ribeiro, "Luís de Camões-Fabuloso*Verdadeiro. "Introdução". Ensaio (1950)