sábado, maio 30, 2026
"As Provadoras de Hitler", um filme de Silvio Soldini
o que está a acontecer
«Nestes corações, onde reinavam afectos ao mesmo tempo ardentes e profundos, porque neles a índole meridional se misturava com o carácter tenaz dos povos do norte, a moral evangélica revestia esses afectos de uma poesia divina, e a civilização ornava-os de uma expressão suave, que lhes realçava a poesia.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)
«O lume do cigarro chegava já aos lábios de Manuel da Bouça e ele continuava a contemplar a margem do rio, onde se expunham os campos cobiçados e onde a sua casa fumegava, indolentemente, na quietação da tarde.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)
«Duma ponta a outra são cento e vinte quilómetros, mas quer para cima, quer para baixo, aquilo era viagem que durava de manhã à noite. O comboio levava de tudo, parava em toda a parte.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
sexta-feira, maio 29, 2026
entrar num livro, de pé atrás ou com humildade
2. Pobre do historiador, porém, que se limita aos documentos; estes são a base, mas nenhum fará trabalho digno desse nome se não tiver uma cultura vasta, que lhe dará capacidade de interpretação e de relacionar o que vem de trás com o que está ao lado, perceber o presente e, até, preparar o futuro. A História, aquela disciplina que um parco plumitivo das economias & gestões disse em público que não servia para nada.
3. Entro com toda a humildade, mas alerta, num livro que estou a ler por razões profissionais, Liberdade ou Evasão, de António Lobato (Paderne, Melgaço, 1938-Lisboa, 2024), que tem por subtítulo O mais longo cativeiro da guerra (8.ª ed., Lisboa, Âncora Editora, 2026). Literariamente irrelevante, levou-me, a págs, 70, após o autor relatar a sua captura, a escrever esta nota, pois trata-se de uma fonte primária. É a partir daqui, dos testemunhos dos protagonistas dos dois lados que, juntando-se à documentação e aos os vestígios in situ e in loco, que a História se escreve.
4. Humildade, porque sinto o maior respeito por todos os combatentes que não tenham praticado crimes de guerra. No caso dos guerrilheiros do MPLA, do PAIGC e da FRELIMO, além do respeito, tenho a admiração por terem pegado em armas para expulsar o ocupante, o estado português que se arrogava o direito de tutela sobre as suas vidas, pelo menos tanta como por aqueles portugueses, aí nascidos ou não, que se juntaram aos locais para acabar com o colonialismo. E lastimo todos os combatentes portugueses que após o fim da guerra foram deixados à sua sorte e varridos para debaixo do tapete. Algo muito miseravelmente português. É por isso que inicio a leitura no estado de alerta -- pois por muito heróico e horrivelmente penoso tenha sido o sofrimento do autor, não estou disponível para ler loas ou justificações a uma guerra criminosa, nem à Descolonização, que, na minha interpretação da dinâmica histórica, dificilmente poderia ter ocorrido de outra maneira. Nessa circunstância, os novos países foram entregues a quem de direito, ou seja, aos movimentos de libertação.
5. Olho mais de uma vez para o retrato de António Lobato na badana da capa. Um homem passado da meia idade, de aspecto sereno e apaziguado, ostentando a cicatriz de uma catanada que lhe atravessa o rosto de cima a baixo. Pelo que li até agora, algo me diz que não encontrarei aquilo que temo.
não sei se são mentirosos ou só incompetentes e medíocres
É só para dizer, pela enésima vez, que, em 2008, foi a Geórgia que atacou uma república autónoma russa, e não o contrário, como qualquer pessoa pode verificar à distância de um clic. Putin estava nessa altura na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, tendo regressado de imediato para coordenar a resposta à provocação do fantoche da CIA que então fazia de presidente do país.
Vem isto a propósito de há dias, num painel em que estava Agostinho Costa, um jovem comentador com idade para ser competente, ter vindo outra vez com a lengalenga da suposta agressão russa. É apenas um dos muitos que repetem na imprensa essa distorção dos factos históricos.
É um padrão de propaganda, mentira repetida muitas vezes. Desconfio, porém, que uma quantidade apreciável destes comentadores se limita a papaguear, julgando estar a dizer algo verídico.
Quando o rapazinho, que até nem parece estúpido, papagueou, o general mandou-o estudar ("Vá ler."). Gabo-o pela paciência, a ele e também a Carlos Branco. Neste particular, o coronel Mendes Dias (que deve ouvir-se sempre com muita atenção) é bastante mais eficaz, em especial com os pivôs: quando este começam a matraquear, a querer opinar, sem falar nas 'correcções' que alguns se atrevem, não sabendo ler nem escrever, o coronel arrasa-os simpaticamente, corrigindo-os em modo de metralha. É giro de se ver.
1 verso de João Miguel Fernandes Jorge
«Posso dizer seduziu-o pela abundância do azul»
O Regresso dos Remadores (1982)
quinta-feira, maio 28, 2026
2 versos de José Gomes Ferreira
«Tudo é igual, mecânico e exacto. // Ainda por cima os homens são os homens.»
Poeta Militante (1977) - «Viver sempre também cansa» (1931)
quarta-feira, maio 27, 2026
Zelensky, candidato ao Prémio Nobel da Paz dos Cemitérios
Repetindo-me, agora que as dejecções comunicacionais procuram convencer-nos das grandes dificuldades por que passaria a Rússia -- a Ucrânia, como sabemos, está destruída e despovoada, mas triunfa em toda a linha, segundo estes (barda)mé(r)dia --, o estadista corre o sério risco de receber um bonito galardão.
É verdade que (repetindo-me, que hei-de fazer?), se candidatou a presidente da Ucrânia garantindo que faria a paz com a Rússia. Foi uma aposta lógica do eleitorado: fora do sistema, entertainer televisivo, etnicamente nem ucraniano nem russo, mas judeu de língua materna russa, muito terão sido os cidadãos de ambos os lados que nele votaram.
Capturado pela estratégia neocon americana -- e nem preciso de vir com a conversa gasta, não sei se verdadeira se falsa de ele ter sido comprado --, o estadista fez-se um títere dos americanos; com a mudança Trump, passou a mandar na UE, dirigida por insignificantes inconscientes (uns estúpidos que deixarão que Zelensky nos arraste para a sua guerra, se não forem travados pelos cidadãos).
Parece que a Ucrânia é o suprassumo no que respeita a drones e coisas assim. Fantástico. Seria preciso ver o que era a Ucrânia quando ele tomou posse e o que é a Ucrânia hoje. E porque está assim. O contributo deste heróico estadista foi inestimável, o Nobel da Paz dos Cemitérios para ele.
2 versos de Rui Knopfli
«Húmidas dardejam ao sol, rápidas, / coruscantes e fatais línguas bífidas.»
O Monhé das Cobras (1997) - «O monhé das cobras»
terça-feira, maio 26, 2026
3 versos de Ana Hatherly
«Escrevo e descrevo / e descrevendo / o tempo insere-se nas linhas»
A Idade da Escrita (1998) - «A idade da escrita - Poema-ensaio»
segunda-feira, maio 25, 2026
o que está a acontecer
«eu estava deitado no assoalho do meu quarto, numa velha pensão interiorana, quando meu irmão chegou para me levar de volta; minha mão, pouco antes dinâmica e em dura disciplina, percorria vagarosa a pele molhada do meu corpo, as pontas dos meus dedos tocavam cheias de veneno a penugem incipiente do meu peito ainda quente;» Raduan Nassar, Lavoura Arcaica (1975)
«Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como um céu e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu.» José Luís Peixoto, Nenhum Olhar (2000)
«"Pare, escute e olhe", lê-se nelas em letras desvanecidas. Precaução que agora parece absurda, mas que também antes já o era, pois por dia passavam ali apenas dois comboios: o que "subia" até Duas Igrejas e o que "descia" até ao Pocinho, onde entroncava na linha do Douro.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
2 versos de Sebastião da Gama
«Dentro de mim é Som: o eco longo / de uma nota sem fim e sem começo.»
Serra-Mãe (1945) - «Harpa»
domingo, maio 24, 2026
sábado, maio 23, 2026
sexta-feira, maio 22, 2026
do fundo da História
Um dos grandes lugares-comuns dos analistas medianos e sebenteiros das relações internacionais e dos tecnocratas é pensar a Rússia enquanto grande potência, de acordo com o PIB que, dizem os expertos, andará aí por entre o da Itália e o da Espanha...
Não faço a mínima ideia de qual é o PIB da Rússia, informação disponível com qualquer clic, e que é das últimas coisas importantes com que o analista se deve preocupar. A demografia, por exemplo, será, a médio prazo, um problema estratégico bicudo.
Quando os tecnocratas me aparecem, caindo pela televisão abaixo, a falar do produto interno bruto e os simplórios das RI usam expressões em estrangeiro como a caracterização da Rússia as a China's junior partner, fatigam-me com a indigência do costume, que não percebe que uma nação e o estado que a configura é tão, tão mais do que isso -- e que, no caso da Rússia e outras velhas nações, vai muito além da grande cultura dos escritores, compositores, cientistas, pintores, etc.; inclui um ethos particular, a religiosidade, a memória colectiva, a forma como se vêem como pátria -- coisas que vêm do fundo da História.
2 versos de Amadeu Baptista
«uma obra de arte comanda-se pela intuição / e só o rigor do instinto salva o artista,»
Doze Cantos do Mundo (2009) - «Albrech Dürer: Melencolia (1514)»
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