5. Olho mais de
uma vez para o retrato de António Lobato na badana da capa. Um homem passado da
meia-idade, de aspecto sereno e apaziguado, ostentando a cicatriz de uma
catanada que lhe atravessa o rosto de cima a baixo. Pelo que li até agora, algo
me diz que não encontrarei aquilo que temo. (aqui)
6. Como
testemunho, o livro é um admirável relato de sobrevivência numa situação
inimaginável. Em alguns momentos transportou—me à Guiana Francesa, do Papillon
(e de Dreyfus…). É notável como
naquela situação mente e corpo passam a ser não apenas o refúgio em que o eu
encontra o si-mesmo; e um invólucro que é o corpo, fechado noutro invólucro, a cela, que passa a não ter limites. É evidente que eu poderia ser cínico e
dizer que foi o instinto de sobrevivência que qualquer animal tem, além da sorte, que
o preservaram. O que em minha opinião o distinguiu verdadeiramente como homem
-- e lá obrigou o regime que andou a defender, pensando que era a nação que
defendia --, foi a fidelidade ao juramento de bandeira, recusando a liberdade em
troca de se bandear para o inimigo. Merece isto respeito? Neste caso, creio que
sim. Muito jovem, o autor alistou-se como voluntário; não estava
intelectualmente preparado para perceber o que de errado, desumano, humilhante
significa ser-se colonizado.
7. Não posso dizer que encontrei o que temia – mas também não vi o que gostaria de ter encontrado, ou seja, uma denúncia do que foi a Guerra Colonial, um crime que ceifou incontáveis vítimas, aos milhares, por uma visão distorcida e cega da História, naqueles treze anos de guerra, além de interesseira para a clique que governava o país. Não basta, como fez o autor, exprobar os imperialismos todos que se puseram ao assalto das colónias portuguesas. É muito fácil dizer que a culpa foi dos russos, dos americanos e dos chineses e nós nos limitámos a honrar o nome dos “nossos egrégios avós”, como de forma algo patética o autor expôs.
E lamento-o, porquê? Porque vi no
autor uma natural empatia para com o outro africano, mesmo após inevitáveis
choques culturais; por exemplo o espantoso episódio do curandeiro, já na
Guiné-Conakry; vi a forma respeitosa com que se referiu a Amílcar Cabral, um
homem superior, e o modo agradecido nas alusões a Nino Vieira, a quem acreditou
dever a vida. Aliás, ele deveu a vida ao PAIGC, que o retirou das mãos dos
populares furibundos com os assassinos dos ares – como eloquentemente mostra na
pág. 71, uma tabanca devastada pela metralha da aviação --, cuja vontade
dos habitantes seria o de esfolá-lo ali já.
É graças a Nino que em Portugal vão
saber que ele está prisioneiro, como testemunha a pág. 90. Aliás, oficialmente,
Portugal não tem prisioneiros no campo inimigo, por isso, Lobato para todos os
efeitos não existe. É pena que ingénua ou propositadamente, não veja que está ali
a servir de carne para canhão para a sobrevivência de um regime português
ilegítimo, assente na repressão e na fraude, e não ao serviço dos alegados
nobres ideais de “egrégios avós”, fantasia de marinheiro republicano, H. Lopes
de Mendonça, apanhada com as mãos ambas pelo Salazar.
Como militar a sua admiração pelo PAIGC é notória, a “ordem” a “disciplina” a “autoridade” que verifica existir no acampamento de Nino Vieira; o que não o impede de ver, após uma (infelizmente) já esperada diatribe contra os “cravos” e os “vendilhões”, comiserar-se com o estado subnutrido de uns guineo-portugueses do outro lado da fronteira (p. 108) (e aqui Lobato já se sente muito à vontade para denunciar o colonialismo francês), saindo-se com esta pérola: «Nestes olhos esbugalhados de surpresa [o avistamento de um prisioneiro português branco], lê-se a esperança longínqua do regresso à terra-mãe, ao “doce chicote” do colonizador que durante quinhentos anos lhes garantiu tabanca fresca, pão, água, e ainda alguns ensinamentos técnicos, científicos e culturais.”… (p. 111); escrevendo antes sobre uma alegada “partilha de quinhentos anos de uma nacionalidade comum” (p. 110), essa mesma nacionalidade comum que incluía o povo felupe, em que se praticava o canibalismo, temendo Lobato servir de pitéu a um certo Miguel que por lá andava, aí se esquecendo da nacionalidade comum, não fora o estrangeirado do PAIGC ter advertido um deles que «tuga não e[ra] para comer”… (p. 85)
8. O livro é pois, no que respeita a considerações que vão para além da circunstância, uma salgalhada incoerente, que a própria honestidade do autor evidencia; desde logo do ponto de vista formal, em que tanto caracteriza – sem aspas ou itálico – os soldados do PAIGC ora como terroristas, ora como guerrilheiros, sabendo-se que nenhum destes substantivos é neutro. Não atribuo, no entanto, nenhuma intenção especial, mas apenas uma evidência de que o autor não era, nem de perto nem de longe, um escritor, antes alguém que tinha coisas para contar e soube escrevê-las de forma minimamente inteligível. Deste ponto de vista, trata-se de um livro medíocre.
9. O capítulo
final, acrescentado em edições posteriores, focando essencialmente o papel do
autor durante o PREC, não tem nada que ver com o testemunho, e, com excepção do
epílogo, agora na Guiné-Bissau, e já não Guiné Portuguesa – aliás bem interessante
–, está aqui a mais, prejudicando a unidade do depoimento.
10. "Herói nacional", como o considerou o regime -- mesmo que a PIDE o tenha detido logo após o regresso após mais de sete anos de cativeiro (era preciso saber o que Lobato pensava...) e de não saber muito bem o que lhe fazer, obrigando-o a atitudes pouco ortodoxas para que reconhecessem a sua condição de prisioneiro de guerra? (Portugal sempre no seu melhor...) Que há um heroísmo pessoal em não vergar, isso é inegável, só um néscio ou alguém mal-formado o não reconhece. Que esse mesmo heroísmo tenha servido uma causa profundamente errada, é outra história. Aliás, entre história e História, António Lobato foi, quanto a mim, mais uma vítima desta, uma em milhares, e da circunstância da mentalidade de século XIX de Salazar, que aproveitava, e muito, à dos que prosperavam à custa da política colonial, alguns, poucos, descendentes de avós não lá muito egrégios.
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