quinta-feira, junho 25, 2026

o que está a acontecer

«Mas nenhum queria o infeliz "Joli"; enxotavam-no com as ponteiras dos guarda-sóis; o cão, repelido como um pretendente, toda a noite uivava pelas ruas. Uma manhã apareceu morto ao pé da Misericórdia; a carroça do estrume levou-o e, como ninguém tornou a ver o cão na Praça, o pároco José Miguéis foi definitivamente esquecido.» Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro (1875/80)

«A organização talhara Pedro para a vida de lavrador e parecia apontá-lo para suceder ao pai no amanho das terras e na direcção dos trabalhos agrícolas. / Assim o entendera José das Dornas, que foi amestrando o seu primogénito e preparando-o para um dia abdicar nele a enxada, a foice, a vara, a rabiça, e confiar-lhe a chave do cabanal, tão repleto em ocasiões de colheita.» Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor (1867)

«Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: a diferença radical entre este livro e o Pentateuco. / Dito isto, expirei às 2 horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi Tinha uns 64 anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de 300 contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos.» Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) 

1 comentário:

Manuel M Pinto disse...

«'A priori', mercê dum rápido lance de olhos pela obra de Luís de Camões, se infere que não sabia o hebraico. É fácil demonstrar que também ignorava o grego. Com efeito, inspirando-se tão apaixonadamente nos poetas da antiguidade clássica e tirando óptimo partido da ciência mitológica, toda a sua onomástica é latina. Jamais emprega a terminologia grega. Esta, que é duma tão exuberante polimorfia e duma riqueza prosódica incomparável, que a Homero permite variar a cada passo as formas de expressão e que, transplantada para as línguas neo-românicas, não deixaria de enriquecer-lhe o ritmo e facilitar tantas vezes a rima, Camões nem uma só vez a usa. Acontece que Júpiter, aparecendo nos Lusíadas sob os vários nomes que lhe chamam no Lácio, jamais é Zeus, a voz melodicamente suprema, onde ressoam todos os ecos da majestade. As outras divindades tampouco figuram com o nome que receberam na Hélade, seu berço, mesmo a alma Vénus, a quem o apelido de Afrodite dá aquela aparência de brancura espumosa que guardou do mar.»
Aquilino Ribeiro, "Luís de Camões - Fabuloso*Verdadeiro". Ensaio (1950)