terça-feira, junho 06, 2023

Sonny Rollins, «St. Thomas»

150 portugueses: #9. SANTO ANTÓNIO (Lisboa, 1190/1195 - Pádua, 1231)

Santo António, por Giotto
Para um próximo blogue. Nascido, de acordo com a tradição, a 15 de Agosto, por volta de 1195, Fernando de Bulhões, de forte temperamento místico, entra como noviço crúzio (Ordem da Santa Cruz, de regra de Santo Agostinho), em São Vicente de Fora, transferindo-se depois para Santa Cruz de Coimbra, onde certamente bebeu e consolidou a erudição que viria a demonstrar como erudito sermonista, Por Santa Cruz veria passar uns quanto franciscanos em missão evangelizadora em Marrocos, terra de infiéis, vendo-os igualmente regressar em estado de cadáver, quando os islamitas não mostraram particular interesse pela causa. É então que deixa a ordem de Santo Agostinho e abraça a ordem de S. Francisco de Assis, com quem está em Itália. Da sua valia teologal se serviu a Igreja para combater as heresias do tempo, tendo ainda leccionado em universidades europeias, como Bolonha. Pio XII proclama-o Doutor da Igreja em 1946. Após a morte de São Francisco, Santo António arrasta multidões, que lhe atribuem milagres, o que explica o culto popular de que é alvo, muito próximo da superstição. Detém o record absoluto de canonização em toda a história da Igreja, a 30 de Maio de 1232, menos de um ano após a sua morte, a 13 de Junho. Na entrada que lhe corresponde no Dicionário de História de Portugal, Francisco Fernandes Lopes refere-se-lhe como «a primeira figura portuguesa na história da cultura».

Fernando Pessoa

6 de Junho de 1930. Fernando Pessoa escreve a Adolfo Rocha (Miguel Torga) a propósito de Rampa: «A sua sensibilidade é de tipo igual à do José Régio -- é confundida, em si mesma, com a inteligência.» 

Andrée Rocha, A Epistolografia em Portugal

Marwan Barghouti, 64 anos -- na prisão desde 2002



 

segunda-feira, junho 05, 2023

quadrinhos

 

fonte

começou a ofensiva... (ucranianas CXC)

 Escrevo sem rede, correndo o risco de os factos me desmentirem em pouco tempo; mas a minha sensação é a de que a contraofensiva ucraniana vai falhar, e clamorosamente, sem que haja propaganda merdiática que o possa ocultar. Veremos. Se for como penso e desejo, também me vou rir muito da piadola do Blinken, tão engraçado ele é, até parece o Serafim Saudade do comentário, o indígena no ecrã da sic, que eu, obviamente, nunca vejo. 

E depois? O que farão ou dirão estes basbaques que governam a Europa Ocidental em nome do interesse americano? A resposta é simples: vão desconversar; o putedo dos merdia continuará a palrar ataques a hospitais e deportação de crianças; a Ucrânia será um resto de Ucrânia (e muita sorte terá se mantiver acesso ao Mar Negro). Aliás, eu bem gostaria que a Rússia tomasse Odessa,  aquilo não é para os dentes dos pulhas dos americanos.     

Cláudio Manuel da Costa

 

5 de Junho de 1729. Cláudio Manuel da Costa, poeta árcade e da Inconfidência Mineira, nasce em Vila Real de Nossa Senhora, Minas Gerais.

um rapaz e o seu cocker

Criados em 1959, pelo belga Jean Roba (1930-2006), Boule e Bill, um rapazinho de sete anos e o seu cocker spaniel, são das personagens mais populares da BD francófona. As camadas de ternura aplicadas por Roba em cada vinheta, recriando um universo idílico numa família de classe média, com pais disponíveis, mesmo quando têm de impor regras, à criança (os tpc) e ao animal (o banho…), conjugadas com um humor por vezes desenfreado, foram ingredientes seguros desse êxito. Para Roba, o mundo já era suficientemente agreste para que os seus gags não permitissem essa distensão de humor sobre um tempo em que a vida é um recreio permanente, mesmo com vacinas e banhos obrigatórios…

As personagens inspiraram-se no filho do autor e no cão da casa, o que explica a quase beatítude que a leitura destas pequenas histórias proporciona, na procura duma inocência que só existiu no tempo em que os animais falavam. Numa entrevista a Hugues Dayez (Le Duel Tintin-Spirou, 1997), Roba afirmou: «acredito que o homem, num passado longínquo, pôde falar com os animais, e que esse privilégio foi-lhe subtraído. É isso uma maldição? Creio que sim.» Por vezes, encontram-se pontos de contacto com o Calvin de Bill Watterson. Bill não fala, mas pensa, e em pensamento dirige-se a nós, leitores.

A dupla continua, pelas mãos do francês Verron (Grenoble, 1962). Os álbuns de Boule e Bill estão inéditos em Portugal.


60 Gags de Boule et Bill

texto e desenhos: Roba

edição: Dupuis, Marcinelle, 1962

(Setembro de 2019)

domingo, junho 04, 2023

José Régio

4 de Junho de 1927. José Régio na presença: «Em Arte, a crítica só serve para ajudar um Artista a descobrir-se -- e a possuir-se até contra a crítica.»

sábado, junho 03, 2023

Louis Armstrong, com Velma Middleton: «Saint Louis Blues»

Raul Proença

 

3 de Junho de 1907. Raul Proença, no Semanário Alcobacence: «Um indivíduo que critica rancorosamente é uma besta.» 

Raul Proença, Polémicas

(edição de Daniel Pires)

sexta-feira, junho 02, 2023

«Zinizjumegh»

o perigosíssimo Zelensky, enquanto Biden catrapum (ucranianas CLXXXIX)

Não preciso chamar neo-nazi a este serventuário dos americanos, não obstante a região estar infestada. Basta ler o que diz (azulito meu):

“Precisamos de paz, é por isso que todos os países europeus que fazem fronteira com a Rússia e que não querem que a Rússia os invada, devem ser membros de pleno direito da UE e da NATO e só há duas alternativas: ou uma guerra aberta ou uma ocupação russa progressiva”. 

Palhaço, cinquenta vezes palhaço, que comecei por respeitar até ver como a guerra lhe é indiferente, desde que defenda os interesses dos americanos à custa do sangue dos ucranianos; não se importando nada de nos arrastar a todos para uma guerra, porque suas incelências querem a Crimeia (é preciso descaramento!) e querem território que sempre foi russo, mesmo naquela ficção política chamada União Soviética; um canalha monumental, eleito presidente porque disse ir resolver o diferendo com Moscovo -- e está-se a ver. Não preciso, também, de falar dos russos da Crimeia e do Donbass, o outro lado, que o Ocidente velhacamente omite. No entanto, podem esperar sentados: a Ucrânia já era, podem agradecê-lo aos zelenskys e aos bidens, este entretanto catrapum, à espera de dar lugar ao Trump, que diz conseguir resolver o assunto em 24 horas (e se calhar pode mesmo, basta-lhe dois telefonemas iniciais).  Um mundo cheio de americanices, bendito Putin, apesar de tudo.

João Arroio

2 de Junho de 1911. João Arroio, compositor e poeta, agradece a hospitalidade de Miguel de Unamuno em Salamanca: 
«Daí trouxe óptimas impressões, entre as quais avulta, é claro,  o conhecimento pessoal de V. Ex.ª e do seu belo espírito.»

Epistolario Portugués de Unamuno
edição: Ángel Marcos de Dios, 1978

«Wild Wild Ways»

quinta-feira, junho 01, 2023

Camilo Castelo Branco

1 de Junho de 1890. Camilo Castelo Branco suicida-se  em casa, São Miguel de Seide (Vila Nova de Famalicão), com um tiro de revólver.  

quadrinhos


 

terça-feira, maio 30, 2023

«Scratchcard Lanyard»

em "pudica torção de virgem" & outros caracteres móveis

Aquilino Ribeiro: «Obedeceu a moça intimidada, quedando a meio da sala, nua como a mãe a deitou ao mundo, na pudica torção de virgem, surpreendida pelos olhos dum deslavado.» Andam Faunos pelos Bosques (1926) - Ferreira de Castro: «Nos ombros, luzia manta cromática, das que se fabricam em Barroso, e de um lado e outro do bucéfalo dançavam, ao sabor da marcha, as peles compradas nesse dia.» Terra Fria (1934) - Carlos de Oliveira: «Eu, Álvaro Rodrigues Silvestre, comerciante e lavrador no Montouro, freguesia de S. Caetano, concelho de Corgos, juro por minha honra que tenho passado a vida a roubar os homens na terra e a Deus no céu, porque até quando fui mordomo da Senhora do Montouro sobrou um milho das esmolas dos festeiros que despejei nas minhas tulhas» Uma Abelha na Chuva (1953) - José Luís Peixoto: «De encontro ao céu, as oliveiras e os sobreiros hão-de parar os ramos mais finos; num momento, hão-de tornar-se pedra.» Nenhum Olhar (2000) - J. Rentes de Carvalho: «Quando cheguei ao apeadeiro o comboio não tinha ainda passado, mas não havia de estar longe, porque o seu arfar e o seu ranger ecoavam pelos montes.» A Amante Holandesa (2003)

segunda-feira, maio 29, 2023

«Right On You»

o pão nosso merdiático de cada dia (ucranianas CLXXVIII)

 A propósito da guerra na Ucrânia entre a Rússia e os Estados Unidos, há comentadores que me recuso a ver e ouvir. Um deles é o serafim saudade do comentário, que faz de palhaço pobre na parelha com Nuno Rogeiro; outra, é uma picareta especializada, diz-se, não fui ver, em cultura russa. Quanto a Diana Soller, mais ponderada e menos picareta, guardo alguma pachorra ainda, mas de vez em quando estampa-se fragorosamente. Ontem, a propósito dos dois grandes blocos que se estão a formar, enquanto perorava sobre a malignidade e bonda de uns e outros, siu-se com qualquer coisa como isto, acho que no jornal da meia-noite da cnn, e que cito de cor: Desde o fim da Guerra F, ao contrário da Rússia & outros, a política externa dos Estados Unidos tem-se pautado pela moralidade nas relações com outros estados. Disse sem se rir, e talvez acredite mesmo no que está a dizer. uns beneméritos da democracy, estes americanos, bonecos do complexo militar-industrial. 

Como ninguém precisa de recordar-lhe o que foi a invasão do Iraque -- a história inventada das armas de destruição maciça -- quanto milhares de mortos inocentes?, quantas famílias destruídas? quantas crianças, pela voragem do saque?... -- a senhora ou acredita no que diz, ou tem esta página de sangue bem recalcada, o que lhe permite dizer enormidades.

Quanto à moderadora, que parece poder fazer muito melhor do que o papel de porta-voz dos media manipuladores, fora muito lesta, cerca de meia hora antes a observar ao major-general Carlos Branco -- quando este punha em causa a veracidade dumas declarações atribuídas a Zaluzhnyi -- dizendo que não se podia quesytionar a veracidade das "notícias" veiculadas, entre as quais a Reuters, já a propósito do dislate de Diana Soller, esqueceu-se de ser jornalista, confrontando a comentadora sobre como harmonizava o que acabara de dizer (a moralidade da acção política externa dos EUA) com a criminosa mentira que foi a guerra do Iraque. Mas isto é o pão nosso merdiático de cada dia

o Orbán pode ser um grande malvado, mas curiosamente não trata quem o ouve como imbecil, ao contrário duns tipos que agora me vêm ao intelecto (ucranianas CLXXXVII)

domingo, maio 28, 2023

150 portugueses_ #8. Afonso II o Gordo (Coimbra, 1185-1223)

Para um futuro blogue. Quarto filho de Sancho I com Dulce de Aragão, o curto reinado de Afonso II foi caracterizado pela centralização do poder real,  principalmente em luta interna contra as três irmãs, uma vez que Sancho I, ainda com uma medieval visão patrimonial do reino, o repartiu pelos filhos, a todos outorgando a dignidade real. Também em conflito com as ordens religiosas, entrou em embate com Roma, o que lhe valeu a excomunhão, condição em que morreu, não obstante os sucessivos pontífices lhe terem dado razão no conflito com as irmãs. Na perspectiva da consolidação do poder, é relevante a realização de inquirições e confirmações e a produção legislativa, de que o reino carecia. A expansão para sul ficou em segundo plano, embora conquistasse Alcácer do Sal e outras vilas, tendo ainda enviado um exército que se juntou ao conjunto dos reis cristãos peninsulares que defrontou o do califado omíada na grande batalha de Navas de Tolosa (1211). 

1 disco, 1 faixa: THE RIVER (1980) - #16. «Stolen Car»

um destino honesto & outros caracteres móveis

 «O destino, que ambos se prometiam, era o mais honesto: ele ia formar-se para poder sustentá-la, se não tivesse outros recursos: ela esperava que seu velho pai falecesse para, senhora sua, lhe dar, com o coração, o seu grande património.» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862) - «Os olhos procuravam, em ansiosa interrogação, o mais alto da flexuosa ladeira que subia, no sítio, no sítio em que ela, formando um cotovelo, furtava à vestia o seguimento ulterior.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868) - «Se a Igreja o não contava entre os vassalos da fé, possuía-o lubricamente pela sedução da sua beleza.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920) - «Haviam decidido vir os dois, para que ele lhe desvendasse a terra em que nascera e, afinal, vinha sozinho, deixando-a sepultada num cemitério de Lisboa.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933) - «Tudo que se chamava a vida, feita de hábitos, de banalidades, de alegrias e de dissabores,  de alguns afectos profundos, de muitos afectos ligeiros, dum ou doutro acto nobre, de tanto acto estouvado, de tanto dinheiro desbaratado e de tanta precisão de dinheiro, das injustiças com a mulher e dos arrependimentos, das discussões  do Martinho, das noites do Maxim's ou da roleta do Estoril, das escapadelas com a Maria da Graça  (inspecções à província em que a mulher fingia acreditar) -- tudo que se chamava vida, feita de tumulto, de fachada, de subterfúgios embora, mas que para ele findara no dia em que sob o seu vulto amarfanhado se haviam fechado as portas daquela prisão!» Joaquim Paço d'Arcos, Ana Paula (1938) - «Olhou para o casarão engolido no escuro da quinta, apenas visível pela esteira de luz que vinha do quarto do avô quebrar-se na janela da saleta.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944) - «Dá a volta à casa pela frente, vejo-a agora de costas, desliza como aragem pelo chão.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983) - «Pareciam graves e austeras as pessoas das fotografias, como se nunca tivessem cantado e corrido, discutido, beijado e amado.» Helena Marques, O Último Cais (1992)

junto-me à festa, claro!

 


sexta-feira, maio 26, 2023

«Rest, Unquiet Spirit»

casas de pasto acolhedoras & outros caracteres móveis

 «Há em Lisboa um pequeno número de restaurantes ou casas de pasto [em] que sobre uma loja com feitio de taberna decente se ergue uma sobreloja com uma feição pesada e caseira de restaurante de vila sem comboios.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego (póst., 1982) - «Rumorejou um corpo que devia saltar da cama, uns passos rápidos soaram na escuridão e logo, atrás da portinhola que se abriu, entrou no recinto uma fosca claridade.» Ferreira de Castro, A Selva (1930) - «O novo ajuntamento de peões que está a formar-se nos passeios vê o condutor do automóvel imobilizado a esbracejar por trás do pára-brisas, enquanto os carros atrás dele buzinam freneticos.» José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira (1995) - «É verdade que voltara ao bairro várias vezes, para visitar a minha mãe, para o funeral de Fernando, para votar na antiga sala de aulas onde escrevi uma composição imberbe dizendo que o amor não tem definição, e que, nesses breves regressos, era a mim próprio, e ao homem em que me tornara, e não ao lugar da minha infância, que eu contemplava, ingenuamente satisfeito com o meu trajecto.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2013)

quinta-feira, maio 25, 2023

«Sudestada»

uma acha resinosa & outros caracteres móveis

 «Ao fundo, sob a chaminé que a fuligem vestira de luto, o fogo esmorecera e só uma acha, resinosa na extremidade ainda intacta, teimava em arder.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928) -  «Ele pertencia à família dos Milhanos de Marinhais, sempre famosos no Ribatejo como arrozeiros sabidos e safos de mândria.» Alves Redol, Gaibéus (1939) - «O veleiro a largar a ilha e já todos se deixavam contaminar dum vento de afago que, de mansinho, lhes soprava na alma.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962) 

quarta-feira, maio 24, 2023

«River Deep, Mountain High»

caracteres móveis

 «Um dos seus prazeres consistia em analisar-se como o conteúdo de todo um passado, elemento onde reviviam as cavalgadas das gerações, onde a contradança das afinidades vibrava uma vez mais, aptidões, gostos, formas que, como um recado, se transmitem, se perdem, se desencontram, surgem de novo, idênticos à versão de outrora.» Agustina Bessa Luís, A Sibila (1954) - «Arcara com horas terríveis e amargas, bebera muitas lágrimas,  sem deixar verter uma só, desde o dia em que o pai entrara ao portão da quinta, pronto a morrer, às costas do Manel Fandango, sem queixa que se lhe ouvisse do corpo esfrangalhado.» Alves Redol, Barranco de Cegos (1961) - «Um largo, aquilo a que verdadeiramente se chama largo, terra batida, tem de ser calcado por alguma coisa, pés humanos, trânsito, o que for, ao passo que  este aqui, salvo nas horas da missa, é percorrido unicamente pelo espectro do enorme paredão de granito que se levanta nas traseiras da sacristia.» José Cardoso Pires, O Delfim (1968)

segunda-feira, maio 22, 2023

«Snow Day»

domingo, maio 21, 2023

"de tudo tanto gostar"

 «De perfumados e frescos, os lençóis tinham-na levado, muita vez, a enrolar-se neles, dos pés ao nariz, para lhes sentir bem o contacto, e ainda hoje se lembrava da meia dúzia de dias em que desejara apressar a aproximação da noite e inventara pretextos para amiúde voltar, durante a tarde, àquele seu aposento, a olhar demoradamente tudo, de tudo tanto gostar.» Assis Esperança, Servidão (1946) - «Portão e caminho até ao terreiro, sob a latada, quisera o dono continuassem escalavrados como no tempo ido, em que só ali vinha, e nem sempre, quando era pelas vindimas e varejadas de castanhas, lá raro pela feitura do azeite.» Tomaz de Figueiredo, A Toca do Lobo (1947) - «Lucinda pôs-se de pé, a farpa acertara-lhe e cheio; mas de súbito quebrou, recaiu sentada na borda da cama e desatou a chorar com a cara nas mãos.» Francisco Costa, Cárcere Invisível (1949)

«Show You The Way»

apesar do crowdfunding para comprar botas, os russos tomaram Bakhmut, e os americanos lutaram até ao último ucraniano (ucranianas CLXXXVI)

 Entretanto, em Hiroshima (em Hiroshima...), Biden autorizou que os países que o queiram fazer cedam os F16 à Ucrânia. Até que os aviões possam ser utilizados, daqui a alguns meses, a Ucrânia continuará a ser bombardeada, os ucranianos continuarão a lutar para os americanos, para não falar que terão os Sukhoi à espera deles.

Entretanto, com o carnaval da comissão parlamentar de inquérito, nem se deu pela visita do sabujo do Stoltenberg a Lisboa. Veio pedir os nossos F16? E nós?, vamos obedecer, como de costume?

sábado, maio 20, 2023

quinta-feira, maio 18, 2023

«Lyke-Wake Dirge»

sempre grato à CNN-Portugal, mas aquilo já faz rir (ucranianas CLXXXV)

 A CNN internacional é o espelho da Fox News: centrais de desinformação e propaganda travestidos de jornalismo. Cloacas comunicacionais destinadas ao americano médio, espécie cujos órgãos vitais são a boca, o estômago e o intestino grosso. Por cá, como tenho dito há um interessante critério editorial, que, apesar de veicular os despachos de Atlanta, e ter um conjunto de pivôs incapaz (excepção feita a Cristina Reyna, excelente profissional, e pouco mais), conseguem um equilíbrio nos comentadores que não vejo em outros canais. Faltando alguns que devem ser assinalados, sempre os militares (Agostinho Costa, Carlos Branco e Mendes Dias) e (poucos) académicos decentes (Tiago André Lopes, Maria João Tomás, e dois cujos nomes nunca consigo recordar, um da Universidade Autónoma, outro do Porto, não sei de que escola).

Já aconteceu rir-me às gargalhadas com uma pobre de Cristo muito bonitinha, ora a apanhar bonés ora com o fácies de incredulidade quando o que estava a ouvir não acertava com o guião da casa-mãe.

Ontem, particularmente estúpido: enquanto o inserçor "informava", em português macarrónico qualquer coisa como "Kiev avisa (sic) que o exército russo é incapaz", ao mesmo tempo o major-general Carlos Branco relatava como os ucranianos estavam à rasca, em vários pontos daquela frente com mais de mil quilómetros.  

Quanto mais o cidadão comum se torna descrente e percebe que está a ser manipulado (Kiev a arder, mas os mísseis Patriot (mach 4, 4,5) interceptam todos os Kinzal russos (mach 10 ou 12...) -- uma impossibilidade, portanto), mais o Ocidente Alargado (ou seja, os Estados Unidos e os seus protectorados europeus, incluindo Portugal) insistem na mentira criminosa às pessoas nesta guerra entre a Rússia e os Estados Unidos, feita à custa dos cidadãos europeus e, por enquanto, das vidas dos cidadãos ucranianos comuns, de armas nas mãos mas não daqueles homenzinhos na casa dos trinta e quarenta anos, que se passeiam na estrada Boca do Inferno - Guincho, em carros de luxo).

Depois do maior ataque aéreo a Kiev (cirúrgico, com um número de baixas civis no zero ou próximo disso), só me vem à memória a notícia veiculada pelas televisões, claro está, da história de que o exército russo promoveu um crowdfunding para comprar botas -- entre muitas outras pérolas para enganar os inocentes.

P.S.: a propósito de bombardear Kiev: tenho a certeza de que muitos telespectadores já se perguntaram: como é possível o Zelenski, nos intervalos de andar a laurear a pevide, continuar a abrigar-se no palácio presidencial intacto?

P.S.2: Estou muito interessado na visita do caniche do Pentágono a Lisboa, e s no que fará ou dirá o governo português.

o infame D. Henrique


Um ilustrador italiano, Stefano Morri, com alguma ingenuidade, quase disneyesca, ao realizar a encomenda do Vaticano para a celebração filatélica das Jornadas Mundiais da Juventude, lembrou-se do Padrão dos Descobrimentos e daquele belíssimo conjunto escultórico de Leopoldo de Almeida -- e vai de pôr o papa Francisco no lugar do agora infame D. Henrique, e um conjunto de miúdos no encalço com a bandeirinha republicana de Portugal. "Estado Novo!", gritaram os iletrados das ciências  moles.  O autor, italiano, repete-se, é de um país que tem mais arte e história num beco do que o todo o rectângulo da parvalheira nacional. Há ingenuidades que acabam nisto.

A Igreja, medrosa, retirou o selo, em que não faltou um bispo zeloso a fazer de progressista acompanhando aquele idiota que há tempos, para ser falado, atirava com a demolição do monumento. Por mim, está na altura de pô-lo na barra lateral, não só para chatear, mas porque gosto mesmo daquilo.

quarta-feira, maio 17, 2023

«Three Reels»

a mão certeira de Gineto & outros caracteres móveis

«Amigos tinha-os às vezes nos companheiros que precisavam da sua mão certeira para matar galinhas à solta ou colher frutos em pomares recatados.» Soeiro Pereira Gomes, Esteiros (1941) - «Via o Doninha, já desempregado, mas ainda com a farda de carteiro, remendada e sebenta, arrastando-se pelas portas das vendas, inútil, com as pernas inchadas de buracos que não saravam.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943) - «A recordação do maricas acordava nela a soberba dos Clarks, aquele sentimento maciço, enjoado e um pouco cínico, que contribuíra para correr  Januário Garcia da casa Clark & Sons e envolvia a família Garcia num desdém mais snob que odiento.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)

terça-feira, maio 16, 2023

segunda-feira, maio 15, 2023

«The Last Refugee»

circunscrito no mundo & outros caracteres móveis

«Quando dei por mim, pela minha situação de dependência, de circunscrição no mundo (grandioso e imensurável, mas proibido) fiquei estupefacto e comecei a chorar.» José Marmelo e Silva, Sedução (1937) - «Falava com os olhos iluminados, um pouco em alvo, como quando recordava as delícias do último sonho...» M. Teixeira-Gomes, Maria Adelaide (1938) - «Avizinhavam-se da estação: cruzaram uma sentinela, de baioneta calada, à porta dum quartel; por detrás da grade uivava um cão.» Joaquim Paço d'Arcos, Ana Paula (1938)

domingo, maio 14, 2023

sexta-feira, maio 12, 2023

um dia de libertação

 A aprovação da Lei da Eutanásia pelo Parlamento, sejam quais forem os problemas a jusante -- que devem ser sempre acautelados e minimizados --, e antevendo inclusivamente vários formas sabotagem, assinala, dê por onde der, um importante momento de libertação de todos os indivíduos até agora feitos reféns por fantasmagorias de cariz religioso, que não perfilham e muito até repudiam, como é o meu caso.

a propósito da entrevista de Dugin ao 'Expresso' (ucranoanas CLXXXIV)

 A entrevista a Aleksandr Dugin publicada hoje no Expresso (um furo jornalístico) mostra como a guerra entre os Estados Unidos e a Rússia na Ucrânia é uma contenda cultural e civilizacional, dificilmente conciliável, não apenas dos dois imperialismos, mas entre um conservadorismo nacionalista, quase ou mesmo reaccionário, e um financismo apátrida e amoral, em que tudo se compra e vende, a começar pela dignidade individual.

quinta-feira, maio 11, 2023

«Instrumental»

por uma vez, os polacos quase têm razão

 Salvo circunstâncias muito especiais (como foi o caso da Ponte Salazar, autoglorificação ou engraxamento, qualquer deles abusivo porque com o dinheiro dos contribuintes, como agora se diz), sou contra o rebaptizar de ruas, escolas, monumentos, regiões, países. Aquele nome, Kaliningrado, é deveras horroroso, independentemente dos defeitos ou qualidades dos homenageados. Faz-me lembrar a estúpida cunhagem de povoações africanas com nomes como Carmona (sic), Salazar (sic!), Lourenço Marques (sic) ou até Sá da Bandeira -- um nome grande do liberalismo português. Mas os polacos só têm meia razão: a  Królewiec que eles pretendem voltar a usar soa a qualquer coisa como unguento para os calos. E pensar que o nome verdadeiro da cidade é Conisberga, a Königsberg do Kant, relógio e filósofo da terra...

150 portugueses: #7. SANCHO I, o Povoador (Coimbra, 1154 - Santarém, 1211)

Para um futuro blogue. Sancho I, aliás, Martinho, aliás Sancho Afonso,  quinto filho de Afonso Henriques e Mafalda de Sabóia. Desde cedo adestrado no exercício das armas, acolitou o pai na governação após o desastre de Badajoz (1169). Guerreiro nato -- após a efémera conquista de Silves, adopta o título de "Rei de Portugal e dos Algarves" --, foi também muito mais que isso: um organizador do território, com a atribuição de muitos forais e um estreito recurso às ordens militares, essenciais para a fixação do território, o que não impediu sérios conflitos com a Igreja, até à ameaça de excomunhão. Entesourou moeda, estimulou o comércio e os mesteres, fomentou o estudo de clérigos em universidades de que o reino recente obviamente carecia. Trovador e cultor das artes, é-lhe atribuída a cantiga de amigo "Ai eu coitada como vivo". Sancho I foi o homem devido no momento certo. 

«A Place Under The Sun»

quarta-feira, maio 10, 2023

banalidades e votos pios em Estrasburgo (ucranianas CLXXXIII)

 O Presidente da República foi discursar a Estrasburgo. Pelo resumo, ter ido ou não, dá no mesmo, apesar de aplaudido de pé pela maioria dos eurodeputados dum parlamento desacreditado. Falou do sacrifício de Julian Assange?; do exílio de Carles Puigdemont na Europa dos nossos valores?; do estranho caso duma presidente da Comissão que se comporta como um governante eleito (e ao serviço dos americanos)? Não falou. Então o que foi Marcelo Rebelo de Sousa lá fazer? Nada -- ou mostrar-se atilado e obediente a quem efectivamente está a destruir a União Europeia como ideia, que não é certamente o Putin, embora este também pudesse gostar. Mas quem precisa de inimigos com governantes e aliados destes? Ainda ontem, Olaf Scholz veio dizer que é preciso acabar com a regra da unanimidade. Está-se mesmo a ver o que será ou seria (a situação pôr-se-á cada vez com maior acuidade, é uma questão de esperar). No fim, para tornar tudo mais grotesco, toca de convidar a Metsola. E é esta vacuidade que Marcelo tem para nos dar. 

Mesmo sem saber até onde chegará, vale mais uma declaração de Lula no saguão de uma embaixada em Londres do que todas as frases de cómica banalidade exaltante proferidos pelos líderes deste deprimente Portugalinho. E isto não tem tanto que ver com a dimensão dos países (o Brasil com Bolsonaro não era ouvido por ninguém ou então era desprezado, mesmo pelos Estados Unidos), mas dos governantes. 

Portugal, país médio europeu, que só é irrelevante pela irrelevância das élites governantes, poderia ter uma voz que o distinguisse, mesmo consciente de todos os constrangimentos e da nossa situação geográfica, que nos obriga a ter uma relação especial com os EUA, assim como a Ucrânia terá sempre de relacionar-se com a Rússia, agora ou daqui a um século. Claro, há um plano declarado por estes líderes geniais que nos couberam em sorte que tem a derrota da Rússia como desiderato, que na verdade é uma neutralização/domesticação pretendida pelo americanos e papagueado por todos os políticos de meia-tigela. Que Portugal não tire partido da sua história de laços estreitos com o Brasil e os estados africanos para ter uma voz diferenciada (e não obrigatoriamente dissidente) e positiva para a própria Europa, diz muito de um estado de coisas que passa por meter a Metsola numa reunião do Conselho de Estado.

terça-feira, maio 09, 2023

Scholz no dia da derrota (ucranianas CLXXXII)

 No Parlamento Europeu, Scholz discursa lindamente: certamente não queremos voltar aos tempos em que um poder avassalador impõe a sua vontade aos restantes. Lembrei-me logo da primeira visita do recém-empossado chanceler aos Estados Unidos visivelmente encolhido enquanto Biden lhe diziam em público que a questão os gasodutos era para ser tratada, ou então eles, americanos, disso se encarregariam. Como de resto sucedeu. 

Sobre o discurso do Putin, a sua fixação: os patifes dos americanos e o wokismo que exportam, que lhe é salutar e visceralmente repugnante.

«Qachina»

segunda-feira, maio 08, 2023

quadrinhos

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«Pest»

uma 'voltigeuse' banal e outros caracteres móveis

«Depois de uma voltigeuse  banal furando arcos de papel de seda, um intermédio cómico pelo primeiro clown, prodígios de equilíbrio duma criança sobre um arame, cães sábios, barras fixas, um salafrário num cavalo em pelo.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891) - «E enquanto as notas lhe passam para a mão, mergulha os olhos abstractos nos olhos da mulher.» João Gaspar Simões, Elói ou Romance numa Cabeça (1932) - «Como antes se disse: é completamente impossível conhecer-se inteira uma árvore genealógica; o que pode é cada um possuí-la toda no seu carácter.» José de Almada Negreiros, Nome de Guerra (1938)

domingo, maio 07, 2023

1 disco, 1 faixa: I'M BREATHLESS: MUSIC FROM AND INSPIRED BY THE FILM DICK TRACY (1990) #1. He's A Man

da inteligência dos poetas e outros caracteres móveis

«O povo rude de Carteia não podia entender esta vida de excepção, porque não percebia que a inteligência do poeta precisa de viver num mundo mais amplo do que esse a que a sociedade traçou tão mesquinhos limites.» Alexandre HerculanoEurico o Presbítero (1844) - «Por quantas maldições e infernos adornam o estilo dum verdadeiro escritor romântico, digam-me, digam-me: onde estão os arvoredos fechados, os sítios medonhos desta espessura?» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846) - «O amor dos quinze anos é uma brincadeira; é a última manifestação do amor às bonecas; é a tentativa da avezinha que ensaia o voo fora do ninho, sempre com os olhos fitos na ave-mãe que a está da fronde próxima chamando: tanto sabe a primeira o que é amar muito, como a segunda o que é voar para longe.» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862) - «Henrique nem desviara os olhos para o fundo do vale, que se lhe abria à esquerda, velado pela densa névoa daquela atmosfera saturada de humidade, nem prestava atenção à agreste e selvática paisagem, do lado direito, toda encrespada de pinheirais nascentes e de espinhosas tojeiras.», Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868) - «Toda a intelectualidade, nos campos, se esteriliza, e só resta a bestialidade.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (semi-póstumo, 1901)

sábado, maio 06, 2023

«One Last Chance»

150 portugueses: #6. Geraldo sem Pavor (+c.1173)

Para um futuro blogue. Portugal forjou-se através da espada e da diplomacia, daí a presença desta figura fugidia, ao que se diz irascível, quase lendária, na minha lista de 150 portugueses dos últimos 900 anos. Geraldo Geraldes, o Sem Pavor, misto de herói e mercenário, oriundo do norte do país tomou várias praças no Alentejo, entre as quais Évora (1165), em cujo brasão se inscreveu.

sexta-feira, maio 05, 2023

«Mercy, Mercy, Mercy»

dentro do conto

 «Os corredores, em seu branco infinito, se multiplicaram, brancos, brancos, brancos, atulhados de aparelhos de ventilação mecânica claramente obsoletos e tufos e tufos de algodão espalhados por toda a parte, alguns deles manchados de sangue, e ele sentira nojo, nojo, daquele branco misturado ao vermelho, onde estava a saída daquilo que parecia não acabar nunca?» Alonso Tôrres«O labirinto branco», Sagas Mínimas (2022) 

quadrinhos

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quinta-feira, maio 04, 2023

terça-feira, maio 02, 2023

«Beggar»

a TAP como instrumento de soberania

 Pôr a TAP nas mãos de privados é um golpe na já pouca soberania que o país ainda tem e uma traição. A TAP é para ser bem gerida, mas não é para dar lucro. Essa é a conversa com que os necrófagos e os seus esportulados saturam o espaço público para criar no povo a ideia da inevitabilidade de privatizar. Querem que a TAP seja uma empresa lucrativa, e já agora, os hospitais, as escolas, não tarda nada os cemitérios e as prisões... Chama-se a isto o país a saque, velha expressão, mas tão certeira.

o Oeste nunca nos larga

A chamada Conquista do Oeste constitui uma epopeia moderna cuja poética continua a ser alimentada e transmitida principalmente pelo cinema e pela banda desenhada. As perspectivas de abordagem são de tal modo multifacetadas no modo como espelham a condição humana, que o assunto se torna inesgotável. Tiburce Ogier é um dos bons autores de BD da actualidade, artista completo, como desenhador e argumentista. Em Go West, Young Man é apenas o escritor que está presente, convidando uma série de colegas para ilustrarem esta homenagem ao Oeste, através da viagem de um relógio de bolso pela história de conquista, sangue e saque dos territórios do Novo Mundo, entre os séculos XVIII e XX, pequenas narrativas que formam um todo coerente. E é sempre interessante ver num mesmo álbum os nomes de Blanc-Dumont, Boucq, Gastine, Meyer e Taduc, entre outros. A capa é de Enrico Marini. Edição Gradiva, Lisboa, 2023.

segunda-feira, maio 01, 2023

«Ali Dere»

150 portugueses: #5. Mafalda de Sabóia (Avigliana?, c. 1125 -- Coimbra, 1158)

Para um futuro blogue. Nesta lista de 150 portugueses, houve lugar para quatro ou cinco consortes, entre os quais não se contam duas das mais célebres: Isabel de Aragão (a "rainha santa", 1271-1336) e Filipa de Lencastre (1360-1415) -- 150 são só 150... A primeira a aparecer é, obviamente, Mafalda de Sabóia, pelo simples facto de ser a rainha inicial do novo estado. Filha de Amadeu III de Sabóia, o Cruzado, e de Mafalda de Albon, o consórcio com uma casa transalpina, ocorrido em 1146 -- já após o Tratado de Zamora (1143), em que Afonso VII reconhece ao seu primo o título de rei -- deveu-se, por certo, a garantir a permanência da autonomia do novo reino, mais difícil num matrimónio com uma princesa leonesa-castelhana. D. Mafalda teve sete filhos, iniciando uma dinastia que reinou por oito séculos, e que na verdade, parecendo dividir-se em quatro é apenas uma, estendendo-se até hoje nas pessoas de D. Duarte, duque de Bragança, e seu filho Afonso. Jaz, ao lado do marido, no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra -- Coimbra, a primeira capital do reino.

sábado, abril 29, 2023

«And the Thief Came In»

a arte de começar

 «Na Primavera de 1859, comprei na estação de Santa Apolónia, um bilhete da via-férrea para a Ponte da Asseca. Saudades do campo, ânsias de sorver do seio da natureza um hausto de ar puro; e, acima disto, o meu dorido amor a quantos sítios guardavam para a minha memória do coração vestígios da infância, que tão depressa passara com as flores outra mais formosa Primavera... A que vem isto?!... É a saudade, leitor! Se a sente, se a já sentiu, recorde-se, e perdoe-me.» Camilo Castelo Branco, O Romance dum Homem Rico (1861)

Chico Buarque, o discurso do Prémio Camões

sexta-feira, abril 28, 2023

«Tomara»

sobre os aeroportos

Registei a ocorrência dum economista na Comissão Técnica Independente. Mas que raio faz lá um economista? E um médico, nâo?, ou quem sabe um veterinário. De qualquer modo, só me interessa ouvir o que tem para dizer João Joanaz de Melo.

quarta-feira, abril 26, 2023

150 portugueses: #4. Gualdim Pais (Amares, c.1118/1120 - Tomar, 1195)

 

Para um futuro blogue. Nascido em Amares, Gualdim Pais, filho de  Paio Ramires e Gontrode Soares, da nobreza de Entre-Douro-e-Minho, foi um cavaleiro de D. Afonso Henriques, depois guerreiro-frade, chegando a grão-mestre dos Templários. Combatente na II Cruzada, na Terra Santa, teve um papel fundamental na consolidação e fixação do território durante a Reconquista. Mandou erigir vários castelos, entre os quais o de Almoroul, e deu foral a Pombal e Tomar, cidade na qual resistiu ao cerco imposto por Almançor. É um dos nomes que representa o papel das ordens religiosas, não apenas as militares, na construção do estado.

«Streets of London»

terça-feira, abril 25, 2023

25 de Abril


caracteres móveis

«A ambição não avança um pé sem ter o outro assente, a manha anda e desanda, e, por mais que se escute, não se lhe ouvem os passos.» Raul Brandão, Húmus (1917) «A melancolia perturbante do Ofício, os sons plangentes dos órgãos, os incensos e o cantochão, as sumptuosidades do rito nas cerimónias pontificais, todo esse inquietante atavismo das religiões actuava como ópio na imaginação do novel artista.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920) «Aquele espelho barato, aquela novidade sensacional e aquela fotografia lúbrica exasperavam-me, embora ao meu exaspero se misturasse um pouco dessa piedade que me inspiram as coisas pretensiosas e miseráveis.» José Régio, Jogo da Cabra Cega (1934) «Dando à cabeça, arregalando os olhos, encrespando as sobrancelhas, mostrava Feliciana o ar entupido dum curandeiro, chamado a decifrar récipe de facultativo.» Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926) «Um raio de sol envolvia a mão rústica e calejada que ele poisara no peitoril da janela.» Ferreira de CastroEmigrantes (1928)

domingo, abril 23, 2023

caracteres móveis

«A princípio, esse novo cenário, todo fofo e confortável, perturbava-o; em breve, porém, Soriano se adaptara, que nem por mudar de leito os rios deixam de correr.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950) «Cálido também, despiu a loba, arremessou o cabeção, descalçou os sapatos de fivela e refocilou os amplos pés vermelhos nos propícios chinelos do escarlate mercador de panos.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854)  «Marcha! Ele recomeçou o andamento, mas os seus olhos volviam, teimosos, ilegais, à fachada e à praça, como ao horizonte onde se espera que uma terra se defina sob o nevoeiro do litoral.« Ferreira de Castro, A Experiência (1954) «O que eu, sem saber explicá-lo, não compreendia e invejava, não era o que ele queria ser, mas a constância do seu desejo.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2002) «O Taveira, com todo o seu génio, era um advogado pobre no fundo de Trás-os-Montes, e o Chouriço, proprietário, ia em primeira classe ouvir Meyerbeer...» Eça de Queirós, A Capital! (póstumo, 1925)

«Unfuck the World»

caracteres móveis

«Ao contrário no campo, entre a inconsciência e a impassibilidade da Natureza, ele tremia com o terror da sua  fragilidade e da sua solidão.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póstumo, 1901) «D. Rita pasmava da transfiguração, e o marido, bem convencido dela, ao fim de cinco meses consentiu que seu filho lhe dirigisse a palavra.» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862) «No momento em que nos associamos ao cavaleiro, caíra ele num desalento profundo, num quase convencimento de próxima aniquilação, do qual nem a loquacidade do almocreve, condimentada, como era, de pragas eloquentes e de cantigas pouco edificantes, o conseguia arrancar.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)


a miúda que veio para ficar

As crianças estão na BD desde o princípio, e com momentos altos – lembremos os Peanuts, de Charles M. Schulz. Para o franco-sírio Riad Sattouf (Paris, 1978), criador do auto-referencial O Árabe do Futuro (2014) e também realizador, nomeadamente da excelente comédia Les Beaux Gosses (2009), o mundo da infância e da juventude é um tema persistente.

Cheia de carisma e adorável criancice, Esther, nascida nas páginas do semanário L’Obs, em 2015, não é só mais uma criança nos quadradinhos; antes da personagem de papel, está Esther A., a menina de carne e osso, informante e filha de amigos do autor. Todo o espanto, toda a fantasia, todos os sonhos improváveis e todos os ‘amores’ impossíveis são maravilhosamente recriados por Sattouf: Esther tem como grandes aspirações ser loura, famosa e possuir um ipad, artefacto que o pai, um professor de ginástica com espírito crítico, lhe nega, por evidente despropósito para quem ainda nem completou os dez anos. Infelizmente para Esther, a maioria dos outros progenitores não têm a mesma opinião. Um pequeno apartamento, em que partilha o quarto com o irritante António, o irmão de 14 anos, é o seu lar. A família, remediada, completa-se com a mãe, empregada bancária e doméstica em regime pós-laboral, por isso muitas vezes cansada, e a avó, cuja casa na Bretanha é local de férias. Outro palco privilegiado é a escola, em especial o recreio. Esther tem duas amigas dilectas: Eugénia, criança rica e por vezes pretensiosa, e Cassandra, menina negra cujo pai certo dia partiu para não mais voltar.

As circunstâncias da série são as expectáveis: a recriação recorrente dos maneirismos dos adultos, a relutância pelas grosserias dos rapazes, cuja missão parece ser a de maçá-las com o seu gozo e a sua má-criação – se bem que por vezes haja qualquer coisa que as desperta. Introduzido com leveza e sempre a propósito pelo autor, a incompreensão do vasto mundo adulto da política, as manifestações incipientes de discriminação social e racial, que ainda não assimilam inteiramente, e as questões de género são alguns tópicos obrigatórios. Esther, contudo, não é a Mafalda do Quino, contestatária no seio de uma família conformista, que muitas vezes parece uma mulher pequena; Esther é sempre criança (o gag sobre o atentado ao Charlie Hebdo é um bom exemplo). A série acompanhará o crescimento da miúda, pelo que teremos oportunidade de assistir à evolução desta família.

Organizado graficamente sob a forma de gag (história humorística de uma prancha), dividido em duas páginas, o livro tem o formato de uma edição de tiras de BD. O texto, além de reproduzir as falas das personagens em filacteras (os ‘balões’), é acrescentado por geniais comentários de Esther em cursivo, que acentuam o tom humorístico.


O Diário de Esther – Histórias dos Meus 10 Anos, vol. 1

texto e desenhos: Riad Sattouf

edição: Gradiva, Lisboa, 2019

(Setembro de 2019)







sexta-feira, abril 21, 2023

«Toinen toista»

Lula e o 25 de Abril: uma estrondosa vitória do populismo alarve, do oportunismo pateta e da cobardia política

 As indisposições da direita que não suporta o 25 de Abril deveria ser para o lado em que os democratas dormiriam melhor. Mas não, pelo contrário: os estrebuchos de taberna de André Ventura -- a criatura que teve o gosto refinado de discursar em sessões anteriores com um cravo negro à lapela --, a agitação adolescente (e suspeita) de Rui Rocha, para se pôr em bicos de pés (ou às cavalitas do presidente brasileiro), o enconanço dos dois partidos do centrão, para não falar do enjoo do Bloco e do Livre.

O 25 de Abril perdeu uma oportunidade de brilhar, com a presença de um dos homens (de origem portuguesa, recorde-se, e presidente do Brasil), que melhor encarna o espírito da data. O que irá acontecer no hemiciclo será uma coisa cinzenta, como desde há muitos anos, que não fará jus à maior data da história contemporânea de Portugal.

Nos 50 anos da revolução, todos os países que saíram da descolonização, de Cabo Verde a Timor-Leste, deveriam estar representados ao mais altíssimo nível, convidados a discursar, pois o 25 de Abril representou a sua libertação do jugo colonial e o fim de uma guerra criminosa, com milhares de vítimas, entre portugueses e africanos. É também assim que se faz a CPLP e se dá sentido à lusofonia. Porque o meu maior orgulho com o 25 de Abril é a descolonização; foi principalmente por ela que esta se tornou uma data maior da nossa história. Mas com democratas medrosos de o serem, receosos da raiva pavloviana do salazarismo, envergonhado ou não, não podemos esperar mais do que uma espécie de liturgia de sacristia, como em anos passados.

 Se não chover, talvez volte a descer a Avenida este ano, afinal é na rua que o 25 de Abril é mais bonito e faz mais sentido.

150 portugueses: #3. D. João Peculiar (Coimbra?, ? - Braga, 1175)

Para um futuro blogue. Calcula-se que natural de Coimbra, arcebispo de Braga e Primaz das Espanhas, a luta pela primazia do arcebispado contra Compostela e Toledo, junto dos papas, a sua intervenção política com Afonso VII de Leão e Castela, as várias viagens a Roma em missão diplomática confiada por D. Afonso Henriques, fizeram dele, como escreve Avelino de Jesus da Costa na entrada do Dicionário de História de Portugal, não apenas um dos fundadores do reino, como o que se chamaria o ministro dos Negócios Estrangeiros do rei Conquistador. Participou na conquista de Lisboa, onde exortou os cruzados na que seria uma chacina que não poupou ninguém, a começar pelos próprios cristãos da cidade, incluindo o seu bispo.

quinta-feira, abril 20, 2023

«Overstand»

diz o poodle amestrado dos Estados Unidos: "O lugar da Ucrânia é na Nato" (CLXXXI)

 Já sabíamos, apesar dos 136 vígaros e idiotas que vieram ao espaço público contrapor: "Nããããõ... Isso é uma coisa que não estava em cima da mesa, que disparate!..."

Sempre esteve e continua a estar, enquanto houver, para já, ucranianos para morrer e país para destruir ao serviço dos grandes valores americanos, ou esperando o tal golpe na Rússia, tantas vezes tentado.

Volto a dizer, perante esta desfaçatez, tão característica dos americanos e dos seus criados: querem meter-nos numa guerra para morrermos pelos interesses dos outros? Onde está a defesa dos interesse nacional e dos portugueses?, devemos perguntar aos nossos divertidos PM e PR... 

A OTAN é uma aliança defensiva dos estados membros, não é? -- e que por acaso integra a maior potência bélica mundial (sem falar nas duas potência nucleares médias, Inglaterra e França).

se dúvidas houvesse sobre a justeza das palavras de Lula a propósito do triste papel da União Europeia nesta guerra... (ucranianas CLXXX)

 a deliberação provocatória e estúpida, hoje, do Parlamento Europeu apoiando a indiciação de Putin por deportação de crianças (!), mostra bem quão brando o presidente brasileiro foi a propósito desta cáfila que dirige a UE.*

A palavra deportação não surge por acaso: associa directamente à ocorrida com os judeus e prisioneiros de guerra usados em trabalhos forçados durante aa II Guerra Mundial, perpetrada pelos nazis. Toda a comunicação associada à guerra, veiculada pelas agências ao serviço do Pentágono, em que têm pontificado a Comissão Europeia e o Parlamento Europeu.

Lula, portanto, tem carradas de razão, independentemente da (in)eficácia diplomática do que proferiu. 

* (e a maioria dos eurodeputados portugueses que ouvi? Oh, que animais...)

quarta-feira, abril 19, 2023

«One Way»

antologia improvável #496 - Liberto Cruz

 

NEM SEMPRE A LUZ É UM SINAL


Nem sempre,

Nem sempre a luz é um sinal.

Que o diga,

A louca borboleta

Que buscava o ideal.

Momento (1956) /

/Última Colheita (Poesia Reunida) (2022)

terça-feira, abril 18, 2023