segunda-feira, outubro 19, 2020

"islamofobia" -- problema mal posto, como de costume

Foi preciso um professor de História ser decapitado numa rua dos subúrbios de Paris por um radical islâmico, aliás bem estimulado em família, para que o estado francês pareça reagir. Vai ter que ser à bruta. enquanto se trata de um governo democrático e liberal. Quando deixar de sê-lo, a reacção será pior, com atropelos à lei, aproveitando para a pura limpeza étnica que a extrema-direita está ansiosa por fazer.

Chegou-se aqui por laxismo, menorização de um problema, tacticismo e oportunismo político e cedência à espessa idiotia do politicamente correcto.

Não há muitos anos,  os imãs radicais defecavam as suas mensagens de ódio nas mesquitas perante a indiferença geral.

Os partidos políticos apoiavam logística e financeiramente supostas associações "culturais" através das autarquias para lhes captarem o voto. Associações essas que faziam um proselitismo agressivo desestabilizando obviamente o instável subúrbio muçulmano, vítimas, como diria Miguel Tiago do PCP no Facebook em post que parece ter apagado, das "políticas de direita" (eu percebi o que ele quis dizer e tinha toda a razão. Mas o recurso constante à língua de pau perde-os muitas vezes). Os caciques locais queriam os votinhos custasse lá o que custasse, e portanto toca de emprestar o autocarro da câmara municipal para uma deslocação a Paris, à manifestação contra a proibição de símbolos religiosos em edifícios públicos (claro que o que estava em causa eram as islamices, cada vez mais agressivas, impertinentes e evasivas; a igreja católica, extremamente reacionária em França movia-se nas alfurjas neo-fascistas, como cá, mas eram relativamente inofensivos, ainda assim menos do que por aqui; as outras religiões minoritárias, coitadas, foram apanhadas no vendaval laicista, para que não se dissesse que o estado não era imparcial…) 

Não me esqueço da câmara socialista de Lille, que construiu piscinas públicas para homens e mulheres, a fim de fazer respeitar islamices numa sociedade laica, em que muitos estrénuos defensores de uma suposta tolerância e apologetas das políticas de género não só condescendem com o radicalismo islâmico, não se lembrando (ou não se preocupando, pois o perigo mora longe) que se os recipientes da sua condescendência tosca tomassem o poder seriam dos primeiros a ser atirados do alto dos prédios, como fazia o Daesh quando apanhava um homossexual a jeito. 

Em Londres, o que não fosse crime era (ou é ainda) decidido nos tribunais ingleses, mas numa sala à parte, por um juiz muçulmano, de acordo com o direito corânico ou lá o que é. Isto numa mesma cidade em que a esquizofrenia do politicamente correcto introduziu a abolição da separação entre os sexos das casas de banho públicas (por mim nada a opor, antes pelo contrário, desde que o saguão seja amplo e os espelhos abundantes). 

A estupidez é tanta, que há semanas vi numa página belga dum grupelho que se dizia anarquista tomadas de posição pela liberdade de as mulheres islâmicas usarem véu, não percebendo aqueles cretinos que esse mesmo véu, para não falar do resto, é uma imposição masculina, e que nem tem nada que ver com a religião islâmica. -- E que tivesse: as religiões são todas para desrespeitar quando põem as patas de fora, até porque elas respeitam-se todas umas às outras, como aconteceu no Vaticano, a tapar pirilaus das estátuas (parece que é gourmet por lá), não fossem os aiatolas ficar mal dispostos.

As boas notícias é que as autoridades francesas estão a começar a chegar-lhes a roupa ao pelo. Deus nosso senhor queira, mas foi preciso decapitarem um professor de História num subúrbio de Paris.

É verdade, trata-se de uma guerra que ou é travada agora, não ficando pedra sobre pedra, ou a Frente Nacional vai tratar disso, da pior maneira. E infelizmente haverá muita violência, que é o que os islamistas querem, pois o monstro cresceu. O meu receio é que doa também às pessoas pacíficas, que querem viver a sua fé em paz. Só que as pessoas não podem deixar-se chacinar como gado em nome de belíssimos princípios que só servem os inimigos da liberdade e da democracia. E inimigos tratam-se como tal. E ou é já, ou os amigos da Le Pen mostrarão como se faz, com apoio popular...

domingo, outubro 18, 2020

"O Cânone" de quem? -- do que falta numa lista (2)

(Continuação do comentário à lista de O Cânone, edição de António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen)

São-nos servidos cinquenta autores, por ordem alfabética. Mais uma vez, o título peca por abusivo, para ser suave. Se a intenção fosse a de estabelecer o cânone só por coincidência chegaríamos a um nome redondo, cinquenta. O cânone será o que será, 47 ou 114. No entanto,  cinquenta nomes para novecentos anos de país parece-me modesto, por muito restritivo que se seja.

O cânone, cronologicamente, começa com Fernão Lopes e termina com uma única autora viva -- escritora extraordinária, aliás, Maria Teresa Horta (1937), arrolada nas "Três Marias". Vou seccionar os cinquenta nomes em três grupos: até ao século XVIII, séculos XIX e XX.

Escritores nascidos até ao século XVIII, são onze, ou seja, 22% do total: Fernão Lopes (c.1380-c.1460), D. Duarte (1391-1438), Gil Vicente (c.1465-c.1536), Sá de Miranda (c.1481-1558), Bernardim Ribeiro (c.1482-c.1552), Fernão Mendes Pinto (c. 1510-1583), Luís de Camões (c.1524- c.1580), Frei Luís de Sousa (1555-1632), o Pe. António Vieira (1608-1697), António José da Silva (dito O Judeu, 1705-1739) e Bocage (1765-1805). 

Comecemos por notar a estranha ausência da poesia trovadoresca, o que sem dúvida estará justificado. O problema, mais uma vez: uma obra que se define como O Cânone não poderia deixá-la de fora, porque mais canónico que o trovadorismo não há. Fica a curiosidade pela justificação. Quanto ao resto, nada a dizer quanto às presenças, a não ser registar a boa surpresa de ver o rei eloquente, D. Duarte, que talvez não estivesse mal acompanhado do seu irmão, o infante D. Pedro (1392-1449),  príncipe das sete partidas, aliás um dos grandes portugueses destes quase 900 anos.

Sendo também restritivo, e sem querer alardear erudição que me fique curta nas mangas, a grande perplexidade é a ausência do Pe. Manuel Bernardes (1644-1710), prosador onde bebem Camilo e Aquilino. Não pertence ao cânone o Bernardes? Outra perplexidade, Francisco Rodrigues Lobo (1580-1622), não apenas o poeta, mas também o prosador de A Corte na Aldeia (1619); também não?... 

Fico-me por estes dois, mas poderia lançar o António Ferreira (1528-1569) de A Castro (póstumo, 1587), o ascetismo bucólico do Frei Agostinho da Cruz (1540-1619), os sermões do Frei António das Chagas (1621-1692).

Também a literatura dos Descobrimentos e da Expansão me parece subrepresentada, a não ser indirectamente, dos cronistas aos autores de relatos, o Gomes Eanes de Zurara (1410-1474) ou o Pero Vaz de Caminha (1450-1500). O meu conhecimento dos autores deste período, é relativamente superficial, mas não me parece que o cânone literário português os possa deixar de fora.



50 discos: 15. MOONDANCE (1970) - #8 «Brand New Day»




sábado, outubro 17, 2020

"O Cânone" de quem? -- do que falta numa lista (1)

Acabo de ver a lista de cinquenta nomes assinalados como o cânone literário português, na opinião de três académicos: António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen. Lista bastante defendida no anúncio da editora como nas declarações ao Obervador.* Antecipando-se à discussão que aí virá, espera-se.

As escolhas são sempre louváveis, desde que honestas e justificadas, porque representam (ou podem representar…) a coragem de escolher como a de excluir. O título, porém, é de menos, pois mesmo sem me pronunciar sobre o que ainda não li, já o posso fazer sobre as ausências. E há ausências de peso, que absolutamente não poderiam verificar-se numa obra que se arroga a pretensão de estabelecer o dito cânone, se o título é para levar a sério. Aliás, o mesmo Observador, com  desenvoltura jornalística, anunciara que o cânone viria aí, perguntando(-se): "Quem são os grandes escritores que formam o cânone da literatura portuguesa?"

Ora, enquanto leitor não totalmente destituído ou desinformado, considero que é um jogo de apostas avançar com nomes que tenham publicado há menos de cinquenta anos; mas o que me parece temerário é trazer para o cânone autores que tenham entrado por este século adentro. Diria até que todos quantos iniciaram a publicação da totalidade ou da parte mais importante das respectivas obras depois do 25 de Abril de 1974 deveriam estar ausentes duma obra que se arroga a pretensão com que se intitula.

Claro que podemos sempre arriscar nomes, percepções (eu tenho algumas, que apenas têm o valor dessa intuição, mais ou menos alicerçada nas minhas próprias qualidades de leitor, satisfatórias ou medíocres, para o caso é irrelevante). E, no fundo, é mesmo disso que se trata, com excepção para o século XIX, o único período que me parece (quase) incontroverso. Talvez, por isso, mais apropriado -- embora menos comercial e cintilante -- fora reconhecer isso mesmo com um título mais singelo, umas Propostas para a Fixação de um Cânone [Literário Português], ou coisa que o valha. Tenho pena porque demasiada presunção ou falta de humildade envenenam-me a leitura; e tanto faz que venham agora dizer que se trata de uma mera lista como outras possíveis, o que se vê à vista desarmada. 

Começo por subscrever no texto da página da editores, certamente da autoria de um dos coordenadores: «Os grandes escritores não são escolhidos por consenso ou por votação popular, mas por terem sempre leitores, mesmo que poucos, ao longo do tempo.» Certamente que o livro desenvolverá o conceito. Eu acrescentaria  que Os grandes escritores de uma língua e de uma comunidade são aqueles que inauguram um modo de expressão cuja voz continua a fazer-se ouvir nas vozes de outros que lhe sucederam, tendo inscritos um conjunto de tópicos reveladores da pertença a uma nação e/ou a um território.

O mesmo texto informa que não se trata de “um guia neutro para a literatura portuguesa”. Se a neutralidade absoluta é impossível, não deve deixar de ser perseguida num trabalho desta natureza, sob pena de o irremediavelmente o comprometer não digo na sua credibilidade, mas na utilidade que pode ter para quem não esteja muito interessado nas opiniões dos autores e respectivos colaboradores. 

Parece que o livro tem artigos sobre movimentos e revistas literárias (cuja dimensão desconheço), o que, à partida, tornará híbrida a natureza da obra, oscilando entre o ensaísmo e a historiografia cultural. Quanto a isso, talvez ainda não se fizesse melhor do que a História da Literatura Portuguesa, de António José Saraiva e Óscar Lopes, pese embora as suas (poucas) omissões quanto a escritores relevantes: se a memória não me atraiçoa, lembro-me dos nomes do romancista, ensaísta e poeta Francisco Costa (1900-1988) e do poeta presencista Fausto José (1903-1975), mas haverá outros.

Uma nota marginal, incrédula e possivelmente preconceituosa sobre a inclusão numa obra deste teor de artigos sobre literatura feita por mulheres e por homossexuais: não são temasd, mas não vejo grande utilidade numa obra que pretende definir o cânone. É o espírito do tempo que levará, em obras futuras, a escrever-se sobre escritores vegetarianos, por exemplo. Que interesse tem isso para o Cânone, a não ser marginalmente? Não vejo.


* a notícia do Observador inclui o vídeo do lançamento do livro, que ainda não vi.

sexta-feira, outubro 16, 2020

quinta-feira, outubro 15, 2020

perseguição - «Eurico o Presbítero» (17)

Continuar: «Os socorros dados imediatamente a Abdulaziz tinham-lhe restituído o sentimento da vida.» Cap. XV, «Ao luar», pp. 200-218 da minha edição.


A perseguição nocturna pelo planalto que vai de Segisamon às Astúrias. O Cavaleiro Negro e os outros afrouxam o galope para retardarem os mouros, enquanto Hermengarda, escoltado por Astrimiro e Gudesteu se dirige para o reduto inexpugnável daquelas montanhas setentrionais.

O estilo de Alexandre Herculano é vívido, ao contrário do que se diz -- e até certo ponto acertado para a sua poesia, brônzea, reza o lugar-comum --, como segue neste parágrafo tão rico de movimento e som: «Na extensa chapada, tanto a fuga como a perseguição eram um frenesi, um delírio. Cristãos e Muçulmanos desapareciam por entre as sarças cobertas de orvalho, e o ar, dividido violentamente, zumbia-lhes em roda, como um gemido contínuo. Cristãos e Muçulmanos punham o extremo da diligência nesta última tentativa. Além da planura, os alcantis e as selvas gigantes eram a esperança de uns, o desalento de outros. Ali, os precipícios cortavam subitamente os caminhos abertos pelas feras nas balsas, e ao cabo de vale fundo os rochedos fechavam imprevistamente a saída: aqui, a senda tortuosa ia morrer na torrente; lá, a torrente em catadupa. Os Godos afeitos àqueles desvios alpestres, sabiam-no; os Árabes adivinhavam-no ao descortinarem o espectáculo que tinham ante si, essa espécie de caos nascido das grandes convulsões do globo na sua vida de muitos séculos, que a baça claridade da noite tornava ainda mais fantástico.»


50 discos: 18. ATÉ AO PESCOÇO (1972) #8 «Tango dos Pequenos Burgueses»




quarta-feira, outubro 14, 2020

a arte de começar

«Que horas são, a manhã vem já aí. Ardem-me os olhos de vigília, o corpo cansado. À porta da capela, fica num alto junto ao mar. À porta da capela, olho à volta o horizonte nocturno, olho o céu cheio de estrelas. Está uma noite tranquila de inocência, como a paz que me invade. Poderia achar razões que me turbassem a paz. Não encontro. Tudo aconteceu fora do meu alcance, não encontro. Um pouco de sono talvez, de fadiga, que horas são? Há em todo o céu lá em cima um pouco de claridade que não é das estrelas. E há uma certa agitação invisível, um profundo estremecer do mundo que vai acordar. E sempre o ressoar das águas, mas tenho de prestar atenção. Longe, no limite do mar, pequenas luzes de barcos na pesca. Estremecem devagar como se cintilassem na sua luz mortal. É um cintilar já breve na claridade que vem aí. Estou parado à porta da capela, há um terreno à frente e depois a queda a pique para as águas. Passei a noite sozinho, fui homem. Quero dizer fui perfeito. Não é que eu tivesse muito a conversar com o meu filho, que dorme ali no caixão. Mas o que houvesse a dizer era só entre os dois.»

                                                                   Vergílio Ferreira (1916-1996), Até ao Fim (1987)

terça-feira, outubro 13, 2020

criador & criatura



William Vance e Bruce J. Hawker


 

domingo, outubro 11, 2020

a arte de começar

 «O que ameaçava ser uma longa noite de Inverno já caía sobre Lisboa e ainda Luís Henriques e eu buscávamos a Rua da Mãe d'Água e uma taberna que lhe tinham recomendado, mas apenas se lembrava de ter a emblemática designação de Chafariz do Vinho. No intento de adquirirmos mais uma garrafa no restaurante onde tínhamos gastado a maior parte daquele extenso dia, horas antes havíamos renunciado a um quase confortável banco de madeira sob uma majestosa amendoeira do Jardim Botânico onde cavaqueámos pachorrentamente sentados, apenas para nos vergarmos à decepção de deparar com as suas portas já trancadas e protegidas por um enorme e imperturbável cadeado.»

Germano Almeida (1945), Eva (2006)

«Sound Of The Ska»

sábado, outubro 10, 2020

sexta-feira, outubro 09, 2020

a arte de começar

«Arcóbriga e Meríbriga são cidades mortas desde que os habitantes foram obrigados a descer para o vale. Abandonadas no alto dos seus outeiros, elas dominam ainda a vasta planície ondulada, mas aqui, no santuário, o deus fica-lhes sobranceiro porque este monte, que é a sua morada terrena, ultrapassa em altura todos os morros vizinhos.»

João Aguiar (1943-2010), A Voz dos Deuses (1984)  

quinta-feira, outubro 08, 2020

50 discos: 3. AHMAD'S BLUES (1958) #8 «Secret Love»




balbúrdia no acampamento mouro - «Eurico o Presbítero» (16)

continuar: «Era o cair do dia.» Cap. XIV, «A noite do amir», pp. 175-199 da minha ediçãoO acampamento de Abdalaziz Ibn Muça assentara nos arredores de Segisamon (a actual Sasamón, no município de Burgos, ao norte de Castela-Leão, já no limiar das Astúrias). O espectáculo da povoação a arder, o banquete dos vitoriosos, muçulmanos e cristãos "renegados", vinho e mulheres, será palco de uma acção de resgate que Holywood não desdenharia. Hermengarda, ainda sem revelar a identidade, é conduzida à tenda do emir, que após prometer mundos e fundos, inclusivamente avultados privilégios a Pelágio, quando aquele revelou serem irmãos, não demoveu a altiva dama. O que era exercício de sedução passa, com a recusa, a prelúdio de vioação, não fora «uma figura negra» cujo vulto fora visto a passar na direcção da tenda do emir, e confundido com um guerreiro do Sudão, irrompe silenciosamente pela tenda de Abdalzize, à maneiro do Batman: «à entrada principal da tenda uma figura humana se estampou negra sobre o chão brilhante da tapeçaria.» Como se não soubéssemos, era o Cavaleiro Negro ou seja, Eurico -- o que ainda ninguém sabe -- que com os cúmplices larga o acampamento, após ferir o emir, deixando mais do que em polvorosa, em chamas. Esta acção suscita a Herculano uma dezena de linhas cheias algazarra, de tumulto: «Por entre as chamas, ferido e semi-morto, a custo puderam salvá-lo. Pouco a pouco, o tumulto alongou-se pelo arraial: os xeques árabes e os capitães de Juliano acorriam para o lugar onde brilhava o incêndio, e, dentro em pouco, as vozes desentoadas, o tocar das trombetas, o rufar dos tambores, o tropear dos cavalos naquela vasta planície, fariam crer a quem olhasse para ali dos montes vizinhos que no arraial se pelejava uma batalha nocturna.» Em fuga, quando se vislumbram os cumes da Astúrias, dois guerreiros escoltarão Hermengarda até Covadonga, para os braços do irmão, enquanto que o Cavaleiro Negro e os restantes se preparam para enfrentar os perseguidores.

terça-feira, outubro 06, 2020

«Leitor de BD»

 

Tito Faraci& Enrique Brescia, Tex -- Capitan Jack
e também aqui

a arte de começar mais depressa

«Deus ex machina». «O Inverno de 1890 foi dos mais ásperos que flagelaram a Europa durante o século findo, e na Holanda, então -- onde eu o passei quase todo --, país relativamente temperado e malìssimamente preparado para as baixas temperaturas, morria-se de frio.»

«A cigana (Carta a António Patrício)». «Hammamet, Dezembro, 1930. / Meu caro amigo: / Com aquela mesma mulher cuja presença, anos depois de nos separarmos para sempre, adivinhei, "senti", num recinto imerso em profundas trevas e cheio de gente; e logo, porque fugi para a não ver, me sugeriu a explicação do mito de Orfeu e Eurídice; com essa mesma mulher, durante os nossos longos e atormentados amores, deu-se um caso de telepatia tão raro, que merece realmente ser arquivado.»

«Margareta». «Em matéria de viagens fui sempre, por instinto e reflexão, refractário a programas; contudo, na minha primeira ida a Itália, reconhecendo a necessidade de visitar com certo método país tão incomparável e infinitamente variado na paisagem e na arte, delineei um plano que me tolhesse as turbulências juvenis, sopeando-me a irrebatível mania das digressões, e executei-o sem repugnância nem arrependimento.»

«Cordélia». «As minhas relações com gente da Catalunha datam da infância, graças a uns negociantes de cortiça, de S. Feliú de Guixols, que se estabeleceram na minha terra e de que ainda hoje lá existe descendência.»

«?». «O meu quarto na hospedaria Fra Giaccomo, em Smirna, era uma gaiola de vidro suspensa sobre o mar, e isso concorreu muito para que eu aí me demorasse mais do que projectara.»

«O sítio da mulher morta». «Já totalmente impossibilitados de trabalhar, os Elisiários, meus velhos caseiros dos Pegos Verdes, tinham abandonado a propriedade recolhendo-se a um casebre que possuíam na povoação vizinha, a Figueira.»

M. Teixeira-Gomes (1860-1941), Novelas Eróticas (1935)


uma gruta nos Picos da Europa - «Eurico o Presbítero (15)

1. Continuar:  «A vitória do Críssus assegurara aos Árabes a conquista da Espanha inteira, porque o desalento entrara em todos os corações, e o terror quebrara todos os brios.» Cap. XIII - «Covadonga», pp. 155-176 da minha edição).


2. 
O recuo de Pelágio com os seus soldados até aos inóspitos e inacessíveis Picos da Europa, levando uma prática de guerrilha e rapina. E Covadonga era «Uma caverna [que] servia de paço ao jovem reia das montanhas e de templo ao Crucificado.» Não assim Teodomiro, que apesar de vencido era demasiado poderoso para deixar-se manietar totalmente, estabelecendo um pacto com Abdalazize Ibn Muça, o primeiro váli do Andaluz, o que lhe permitiu gozar de alguma autonomia nos seus domínio. Algo que foi radicalmente rejeitado pelo Cavaleiro Negro: «Paz com o infiel? Ao cristão só cabe fazê-la quando dormir ao lado dele sono perpétuo no campo da batalha.» A única alternativa é juntar-se no Norte a Pelágio, que lhe aparece sem de início se identificar enquanto tal.

3. Eurico é um homem dilacerado, um espectro, um homem que desafia a morte. E assim continua, mesmo quando chega à caverna de Covadonga a notícia de que Hermengarda foi aprisionada, e que possivelmente aguarda-a a última degradação de ver-se vendida como escrava, é ele quem impede Pelágio de avançar, com o argumento de que o irmão de Hermengarda é precioso para a luta dos Godos, a sobrevivência da pátria -- anacronismo proibido ao historiador mas aceite ao romancista. Eurico, o Cavaleiro Negro, embora ninguém saiba a causa da sua ocultação e da dor funda que sente, reclama-se como um «desterrado no meio do género humano», cuja vida a ninguém importa, a começar pelo próprio. Com ele seguirão doze guerreiros.

4. Herculano faz aparecer um lusitano -- como já antes, na batalha de Guadalete, um homenzarrão guarda da caverna, que dá pelo simpático nome de Gutislo... «Velho lobo do Hermínio», chamou-lhe Pelágio...

5. E o estilo de Herculano, esplêndido, cheio de recursos visuais, como nete parágrafo: «Tarde, já bem tarde, uma luz baça e duvidosa bruxuleava sem brilho adiante dos cavaleiros, que haviam rodado as montanhas, fazendo um largo semi-círculo. Naquele momento transpunham uma garganta medonha. Pelo contrário de outros lugares que tinham atravessado, aqui as serras erguia-se quase a prumo de uma e de outra parte da estreita passagem. Por meio dela sentia-se o ruído da torrente caudal, que parecia vir da banda da luz que se via em distância, e o nevoeiro, cada vez mais cerrado, pendurava-se em orvalho na barba espessa dos guerreiros e nos cabelos que lhes ondeavam pelos ombros, saindo de sobre os elmos.»

domingo, outubro 04, 2020

a arte de começar

«Desde o inverno que Jaime andava a falar na visita do seu sobrinho Luís. Viria pelas férias, vencido o segundo ano de Medicina. Maria Antónia esperava sem impaciência a vinda do intruso, que depois de quatro anos de casada vinha alterar os hábitos do seu lar. Sabia que essa visita daria prazer a Jaime, e só por isso sentia ânimo para receber um senhor que ela sabia exigente e até um pouco malcriado. Lembrava-se vagamente de ter visto, pelo seu casamento, um rosto comprido de menino obstinado, onde brilhavam uns olhos escuros e zombeteiros e se desenhavam uns lábios talvez demasiado grossos  de expressão desdenhosa. Depois disso só o vira em fotografia. Os traços tinham-se-lhe adensado; deixara de ser o menino birrento para ser um homenzinho que parecia esperar muito da vida. Conservava os espessos lábios desdenhosos sobre um queixo voluntarioso, que teria no rosto o lugar principal, tanto se erguia altivo e sobranceiro, se não foram os olhos de extraordinária expressão, agora um pouco mais sérios, mas sempre vivíssimos e perfurantes, como se exigissem das pessoas ou das coisas sobre que pousavam a revelação dos segredos mais íntimos.»

João Pedro de Andrade (1902-1974), A Hora Secreta (1942)

«Vicious»

sábado, outubro 03, 2020

sexta-feira, outubro 02, 2020

Inducação para a cidadania, alguns tópicos

1. Algo está profundamente errado quando o Ministério Público é compelido a devassar uma família funcional e integrada na sociedade, porque essa família decide viver de acordo com os seus valores conservadores e a moral religiosa que professa, neste caso a católica. Que se saiba, digo eu, que sou ateu praticante e não ando a papar missas nem acredito em parvoíces, como os católicos envergonhados com a hierarquia --, ainda se pode ser conservador neste país, sem que o Estado se imiscua na esfera privada e familiar. 

2. Algo está profundamente errado quando o Estado procura exercer represálias sobre crianças (é disso que estamos a falar), de resto comprovadamente excelentes alunos e escolhidos pelos colegas para delegados de turma, pretendendo não só bloquear-lhes a passagem de ano como obrigá-los a regredir dois anos. É uma monstruosidade, que não deve passar em claro.

3. Algo está profundamente errado quando um secretário de Estado vem com ar pimpão para os media dizer que assim será, sem ter a noção da sua insignificância e de como mais depressa ele irá borda fora do governo a que pertence, por indecente e má figura, do que as crianças, em relação às quais mostrou estar-se nas tintas -- por muito que agora venham dizer o contrário, tentando disfarçar a nódoa da prepotência pimpona e totalitária.

4. Decorre na sociedade portuguesa um clima de guerra civil ideológica que a cada dia se exacerba. A educação para a cidadania deve ser neutra, ou seja, não pode pretender impor uma mundividência de uma parte da população contra outra. Há um vasto campo comum entre a esquerda e a direita, entre liberais e conservadores que permitem que a escola transmita valores que estão consensualizados na sociedade --  os Direitos Humanos, para usar duas palavras que resumem tudo.

5. A questão é simples. Neste momento está a haver um intolerável cerco do Estado a uma família e, mais concretamente, há duas crianças que estão a ser sujeitas a um abuso por parte do poder transitório que governa. Eu apostaria, dobrado contra singelo, que não lhes vai acontecer nada do que o lamentável secretário de Estado pimponou. Há um Presidente da República, que eu saiba, e que não pode tolerar uma ignomínia destas. E ainda há força e massa crítica no país que o impeça.

6. Técnicas de intimidação: quem pensa o contrário é catalogado como sendo de extrema-direita ou até protofascista. Além de insidiosa é estúpida: objectivamente, estes entusiastas da fluidez de género e outras parvoíces que tontinhos militantes e burocratas de améns tiveram a ousadia de tornar em "disciplina" obrigatória, são os melhores aliados deste Ventura e dos venturas por vir. Ninguém os trava. Ou melhor, travam-nos o bom senso, que o PR já mostrou em várias ocasiões, e os democratas que não se deixam intimidar.

7. Argumentos intelectualmente desonestos: "ah, eu não concordo com o programa de Português, de História, de Filosofia, portanto os meus filhos não frequentam". É só esta aldrabice que têm para argumentar?

8. Leis estúpidas e iníquas, ou mal feitas, alteram-se, combatem-se, incumprem-se. Vou por isso assinar os abaixo-assinados todos. Ou pelo menos, este. É impressionante como esta criatura ainda é membro do Governo.

quinta-feira, outubro 01, 2020

50 discos: 20. SELLING ENGLAND BY THE POUND (1973) - #8 «Aisle Of Plenty»




a arte de começar

 Luanda, Maio de 1868 / Minha querida madrinha, / Desembarquei ontem em Luanda às costas de dois marinheiros cabindanos. Atirado para a praia, molhado e humilhado, logo ali me assaltou o pensamento inquietante de que havia deixado para trás o próprio mundo. Respirei o ar quente e húmido, cheirando a frutas e a cana-de-açúcar, e pouco a pouco comecei a perceber um outro odor, mais subtil, como o de um corpo em decomposição. É a este cheiro, creio, que todos os viajantes se referem quando falam de África.»

José Eduardo Agualusa (1960), Nação Crioula (1997)

quarta-feira, setembro 30, 2020

«21st Century Schizoid Man»

«Leitor de BD»

                                                                             Rafael Bordalo Pinheiro

 jornal i

segunda-feira, setembro 28, 2020

o Evangelho contra o Corão - «Eurico o Presbítero» (14)

Continuar: «O mosteiro da Virgem Dolorosa estava situado numa encosta, no topo da extrema ramificação oriental das que a dilatada cordilheira dos Nervásios estende para o lado dos Campos Góticos.» Cap. XII, «O mosteiro» (pp. 120-154 da minha edição)


Hermengarda no fulcro, é um capítulo que não deixa esquecer a trama amorosa, mesmo que em tempo de guerra. A fuga para um mosteiro situados nas planícies entre a Estremadura e Leão, acolitada por um grupo de dez cavaleiros. É recebida de braços abertos ela abadessa, a Venerável Cremilde, terminando num banho de sangue, na sequência  do assalto pelos mouros, capitaneados pelo "invencível" Abdulaziz.

A prosa de historiador com que se reveste a caracterização do mosteiro, fortificado como uma praça-forte: «Edifício sumptuoso, construído no tempo de Recaredo, as suas grossas muralhas de mármore pareciam, na verdade, quadrelas de castelo roqueiro; porque na arquitectura dos Godos a elegância romana era modificada pela solidez excessiva do edificar germânico [...] Os muros fortíssimos daquele vasto edifício, as suas portas tecidas de ferro e carvalho, as estreitas frestas, que apenas lhe deixavam penetrar no interior uma luz duvidosa, os tetos ameados e, finalmente, os fossos profundos que o circundavam, tudo o tornava acomodado para larga defensão.»

«Era ao anoitecer de um dia de novembro. Por entre o nevoeiro cerrado que, alevantando-se do vale vizinho, trepava pela encosta, deixando apenas livres as negras agulhas dos cerros, lá no viso da montanha divisavam-se a custo as ameias e as muralhas à luz baça do crepúsculo, refrangida em céu pardo e húmido. [...] // A esta hora duvidosa entre a claridade e as trevas, uma numerosa cavalgada atravessava o ribeiro no fundo do vale e encaminhavam-se para o mosteiro da Virgem Dolorosa.»  Era a escolta de Hermengarda, presa apetecível pela alta dignidade que detinha. Herculano consegue aqui um efeito estilístico  muito interessante ao salientar a altitude da abadia-fortaleza,  ao lusco-fusco, contrastando com o grupo de cavaleiros que o leitor divisa em ponto pequeno, acentuando mais a sua condição fugitiva e precária.

O espírito de Eurico aparece-nos quando as monjas entoam um salmo composto pelo presbítero de Carteia, cantando «as asas da tua providência, ó Senhor», hino que culmina com a certeza do triunfo da Cruz.

Encontro de dois irmãos: Atanagildo, quingentário sitiado, que comandava a guarda de Hermengarda, e Suintila, sitiante, ao lado das forças invasoras, comandadas agora por Abdulaziz, evoca irresistivelmente o Cerco do Porto.

O capítulo termina com um episódio arrepiante: as monjas prostram-se diante da abadessa, para que esta as desfigure, ficando assim ao abrigo da violação ou do tráfico num mercado de escravas. Este confronto entre a sensualidade brutal e a imolação pelo martírio é vista pelo narrador como uma vitória da Cruz sobre o Corão:

«Entre as monjas e os Árabes bem curta distância medeia: e todavia, lá no mais pequeno recinto onde soam os gemidos de dores atrozes, onde só ri uma esperança a da morte, há paz íntima, há o céu: aqui, na vasta cripta, onde a ebriedade de fácil triunfo, a riqueza dos despojos, o futuro de uma larga existência de glória e deleites sorriem na mente dos infiéis, está o furor insensato, está o inferno. o Evangelho e o Alcorão estão frente a frente no resultado das suas doutrina. É sublime a vitória do livro do Nazareno!»

os meninos de ouro

Fernando Pimenta

Joana Vasconcelos

 

domingo, setembro 27, 2020

a arte de começar - Raul Brandão (1867-1930)


«-- Ai que ma levam!, ai que ma levam!»

A Farsa (1903) 

«When I Get To The Border»

sábado, setembro 26, 2020

«21st Century Schizoid Man»

a arte de começar - Ferreira de Castro (1898-1974)




«A furgoneta deteve-se. Era nova, blindada, de um escuro brilhante, quase negro. A banda esquerda dir-se-ia feita de uma só placa, inteiramente lisa; na outra havia um ralo, pequeno e redondo, que filtrava o ar de todas as más tentações, como os crivos, nos fundos dos lavatórios, libertam a água suja de todos os elementos obstrutores.»

A Experiência (1954)

quinta-feira, setembro 24, 2020

50 discos: 43. POR ESTE RIO ACIMA (1982) - #8 «A voar por cima das águas»




a arte de começar - Eça de Queirós (1845-1900)


«O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival.»

A Cidade e as Serras (póstumo, 1901)

quarta-feira, setembro 23, 2020

«Leitor de BD»

 




Goscinny & Tabary, As Conspirações do Gão-Vizir Isnogoud

jornal i

terça-feira, setembro 22, 2020

a arte de começar - Augusto Abelaira (1926-2003)




«Sentado, as pernas cruzadas, uma das mãos no bolso e a outra a brincar com o lápis, Giovanni Fazio observava os passos, para diante e para trás, dum casal de ingleses. Ele -- chamar-te-ás John, decidiu -- recuara dois ou três metros, e ela -- Mary -- dirigia-se devagar para os degraus do palácio, sob o olhar indiferente do David. Encostou-se ao pedestal da estátua, tirou o lenço da cabeça e olhou para o marido. Este baixou-se um pouco, apontou demoradamente a máquina e disparou por fim.»

A Cidade das Flores (1959)

segunda-feira, setembro 21, 2020

domingo, setembro 20, 2020

«Lokada Kalaji»

a arte de começar - Aquilino Ribeiro (1885-1963)

 


«O vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso, penetrou na camarata, bufou, deu um abanão. O estarim parecia deserto. Não senhor, alguém dormia meio encurvado, cabeça para fora do seu decúbito, que se agitou molemente. Voltou a soprar. Buliu-lhe a veste, deu mesmo um estalido em sua tela semi-rígida e imobilizou-se. Outro sopro. Desta vez o pinhão, como um pretinho da Guiné de tanga a esvoaçar, liberou-se na cela e pulou no espaço. Que pára-quedista!» 

A Casa Grande de Romarigães (1957) 

quinta-feira, setembro 17, 2020

50 discos: 6. MONEY JUNGLE (1962) #8 - «Switch Blade»






a arte de começar - Coelho Neto (1864-1934)


«Meu tio, / Há neste livro páginas que vos pertencem, porque eu nunca as teria escrito se a minha Boa Sorte me não tivesse guiado para o retiro de ascetismo voluptuoso onde viveis, em beato sossego, praticando a moral divina de Epicuro e cuidando flores; outras há, e profusas, derivadas da sabedoria profunda do dr. Gomes, de quem guardo saudades e conceitos; outras, finalmente, que seriam dedicadas à Jesuína se o escrúpulo não existisse na moral privada.»
A Capital Federal (1893)


terça-feira, setembro 15, 2020

50 discos: 2. BIRTH OF THE COOL (1957) - #8 «Boplicity»




«Leitor de BD»

 

Le Convoyeur, t. 1, de Tristan Roulot e Dimitri Armand


Dia do Juízo - «Eurico o Presbítero» (13)

Eurico, O Presbítero by Alexandre Herculano

continuar: «A passagem de tão avultado número de Godos para os inimigos e o crepúsculo que descia obrigaram Roderico a fazer cessar o combate, enquanto a noite poisava tranquila sobre aquela campina povoada de aflições e dores.» -- início do capítulo XI, "Dies irae" (pp.104-119 da minha edição).

O derradeiro recontro,  em que morre o último rei visigodo, Rodrigo: «Um ceptro sem dono em Toletum e mais um cadáver junto à margem do Críssus, eis o que restava do último rei dos Godos!» Um Dia do Juízo para a monarquia visigótica na Hispânia. Apenas o Cavaleiro Negro, um suicida tresloucado para os godos, um monstro infernal para os invasores, parecia não ter dado pela derrota.



segunda-feira, setembro 14, 2020

domingo, setembro 13, 2020

a arte de começar - Eça de Queirós (1845-1900)



«A estação de Ovar, no caminho de ferro do Norte, estava muito silenciosa pelas seis horas, antes da chegada dos comboio do Porto.»




Eça d
e Queirós, A Capital! (póstumo, 1925)



«My Blood»

sábado, setembro 12, 2020

o pequeno cabaz da feira

Feira do Livro espartana, varrida a cinco espécimes. Contentíssimo pelas escolhas e pela economia feita. Dois romances, um livro de crónicas, uma antologia poética e uma BD. Todos portugueses, mas isso foi um acaso.

As Mais Belas Líricas Portuguesas, selecção, prefácio e notas de José Régio, Portugália Editora, Lisboa, s.d.;

Jornadas em Portugal, de Antero de Figueiredo, Livraria Aillaud & Bertrand, Lisboa, 1918;

O Cónego, de A. M. Pires Cabral, 2.ª ed., Cotovia, Lisboa, 2015;

O Penteador, de Paulo J. Mendes, Escorpião Azul, s.l., 2020;

Terra de Nod, de Judith Navarro, Lisboa, Publicações Europa-América, 1961;

«Merlin»

«Gibraltar»

sexta-feira, setembro 11, 2020

a arte de começar - Tomás Ribeiro Colaço (1899-1965)


«Uma das coisas discutidas no Café Martinho era a virgindade de Antero.»

A Calçada da Glória (1947)

The Avengers

quinta-feira, setembro 10, 2020

quarta-feira, setembro 09, 2020

50 discos: 12 CARAVAN (1968) - #8 - «Where But For Caravan Would I?»



Cruz e Crescente - Eurico o Presbítero (12)

Continuar: «O sol ia já alto quando o grito de Allah hu Acbar! soou no centro dos esquadrões do Islame.»
Um capítulo notável pelo cheiro, pelo som, pela imagem do início da Batalha de Guadalete (31-VII-711). Duas massas humanas compactas no limiar do enfrentamento inevitável, questão de vida ou de morte: a terra treme sob «o peso daquela tempestade de homens»; os urros e a agonia, «um longo gemido, assonância horrenda de mil gemidos»; «o tinir do ferro no ferro e um concerto diabólico de blasfémias, de pragas, de injúrias em romano e em árabe»; brados desgarrados das vozes de comando…
E mais uma vez o fantasma da Guerra Civil de 1828-34 surge no choque, numa das alas da batalha, entre as forças de Teodomiro, o duque de Córdova, e Juliano, conde de Ceuta:
«O recontro dessa ala foi semelhante em tudo ao do grosso das duas hostes, salvo que aí o franquisque encontrava o franquisque, a injúria de Godos respondia à injúria proferida por bocas de Godos, e as imprecações do ódio trocavam-se com maior violência ainda.»
É neste capítulo que surgirá o cavaleiro negro, do lado cristão, que com ímpeto se lança sobre os inimigos de maior hierarquia nas hostes inimigas:
«Se combatesse pelos muçulmanos, crê-lo-iam o demónio da assolação; mas, pelejando pela Cruz, dir-se-ia que era o arcanjo das batalhas mandado por Deus para salvar Teodomiro e, com ele, os esquadrões da Bética.»
Virou a batalha a favor dos visigodos que se preparavam para derrotar os árabes, quando os filhos de Vítiza e Opas, bispo de Sevilha, seu irmão, gritam à morte do usurpador Rodrigo, com as consequências que prosseguirão no capítulo seguinte.

Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844), cap. X, "Traição", pp. 91-103



terça-feira, setembro 08, 2020

Vicente Jorge Silva

Um grande jornalista compensa a caterva de cavalões e cavalinhos da imprensa. Vicente Jorge Silva, que morreu hoje, foi responsável pelo que de melhor o jornalismo português teve no último século - Comércio do Funchal, Expresso e Público - e isso é inestimável para o país.

segunda-feira, setembro 07, 2020

leve como um puro-sangue - «Eurico o Presbítero» (11)

Continuar: «Poucos dias haviam passado depois de o Duque de Córduba recebera a última carta do infeliz Eurico.» 

Capítulo pleno de informação, narra os preparativos e as escaramuças iniciais que iriam preceder a grande batalha junto ao rio Crissus, nome que os árabes davam ao curso de água do Guadalete. Acantonados em torno do calpe, o monte que iria tomar o nome do general invasor, Tárique -- ou seja, Gibraltar --, quero salientar a forma como o Herculano romancista se serve do Herculano historiador, e uma passagem que ilustra psicologicamente uma das figuras históricas e romanescas que o Eurico encerra, a do conde de Ceuta.

Em primeiro lugar, sendo os visigodos mais numerosos não irão conseguir fazer valer-se dessa superioridade como sabemos. O excerto seguinte dá conta da vantagem do moral dos invasores sobre a dos defensores, recordemos, dilacerados pelas lutas civis e corrompidos pelo deslaçar moral:

«[...] Sem perícia militar, estes bárbaros são todavia temerosos nas pelejas, porque os capitães experimentados da Arábia os dirigem e movem como lhes apraz, e, porque, sectários de uma religião nova, crédulos mártires do inferno, buscam os embusteiros e torpes deleites que, além da morte, lhes prometeu o profeta de Iatribe, arremessando-se com um valor que se creria de desesperados diante do ferro dos seus contrários e contentando-se de acabar, contanto que sobre os seus cadáveres se hasteie o vitorioso estandarte do Islame.»

O proselitismo fanático dos neófitos que abraçaram a recente religião, constituindo-se como um tónus para berberes e outros africanos que formaram a carne-para-canhão das hostes islâmicas, enquadradas pela cavalaria árabe, rapidíssima, contrastando com a movimentação pesada do exército visigótico, a segunda razão que Herculano dá para a vantagem islâmica no recontro que ocorrerá. O fragmento que se segue é exemplar, pela consistência do que nos é transmitido e pelo estilo, leve como um puro-sangue.

«A esta gente bruta e indomável, cujo esforço vem das crenças da outra vida, se ajuntam os esquadrões de cavaleiros sarracenos que vagueiam pelas solidões da Arábia, pela planícies do Egito e pelos vales da Síria, e que, montados nas suas éguas ligeiras, podem rir-se do pesado franquisque dos Godos, acometendo e fugindo para acometerem de novo, rápidos como o pensamento, volteando ao redor dos seus inimigos, falsando-lhes as armas pela juntura das peças, cercando-lhes os membros desguarnecidos, quase sem serem vistos, e apesar da sua incrível destreza, pelejando, quando cumpre, frente a frente, descarregando tremendos golpes de espada, topando em cheio com a lança no riste, como os guerreiros da Europa, e assaz robustos para, muitas vezes, os fazerem voar da sela nestes recontros violentos: homens, enfim, que sem orgulho, se podem crer os primeiros do mundo num campo de batalha, pelo valor e pela ciência da guerra.»

Ainda no campo da História, não resisto a transcrever a passagem que alude aos velhos lusitanos. Lusitanos na Alta Idade Média? Pois não estiveram eles sempre aqui, desde a Idade dos Metais? Por muita romanização e germanização, não se está a ver como poderia ser doutra forma. A descrição é vivíssima, desenhando os contornos dos que quase mil anos atrás defrontaram Roma, com tanto desapontamento de Júlio César em face destes verdadeiros irredutíveis, comparados também aos bascos, ambos povos alpestres. As fontes são, certamente, os historiadores da Antiguidade:

«Como os Árabes, os Godos tinham no meio de si uma nuvem de peões armados, não menos bárbaros e ferozes que os filhos da Mauritânia. Os montanheses do Hermínio na Lusitânia, aborígenes, talvez, daquele país, os quais, na época das invasões germânicas, bem como já na da conquista romana, a custo haviam submetido o colo ao jugo de estranhos, e os Vascónios, habitadores selvagens das cordilheiras dos Pirenéus, constituíam com os servos um grosso de gente a que hoje chamaríamos a infantaria do exército. […] Requeimados pelos sol ardente do estio ou pelo vento gelado dos invernos rigorosos das serranias, incapazes de conhecerem a vantagem da ordem e da disciplina, estes homens rudes combatiam meios nus e desprezavam todas as precauções de guerra. O seu grito de acometer era um rugido de tigre. Vencidos, nunca se lhes ouvia pedir compaixão; porque, vencedores, não havia a esperar deles misericórdia.»

Uma nota ainda de caracterização psicológica, a propósito r Juliano (ou Julião), conde de Ceuta, o tal que quis vingar a honra da filha Florinda (curioso nome, cheira a lenda...) desflorada pelo último rei visigodo, Rodrigo, chamando os árabes: após um conciliábulo com Tárique, de regresso ao seu acampamento:

  «[...] via-se-lhe o rosto, não radiante de contentamento que ressumbra de um coração puro quando folga, mas como sulcado por um raio de alegria feroz do criminoso que vê chegar o momento do crime há muito meditado e previsto.» 

capitulo IX, «Junto de Crissus», de Eurico o Presbítero (1844), de Alexandre Herculano,  pp. 74-90 da minha edição. 




a arte de começar - Eduardo Frias (1895-1975) e Ferreira de Castro (1898-1974)

«-- Quem o diria, Berenice?... Sim, porque quando tu nasceste eu já não era um adolescente: -- já tinha realizado aspirações, sofrido desilusões...»

A Boca da Esfinge (1924)




domingo, setembro 06, 2020

orquestrais & concertantes: Barber, ADAGIO PARA CORDAS (1936)

           Leonard Slatkin, Orquestra Sinfónica de Detroit 

a arte de começar - Jorge Amado (1912-2001)

«A acreditar-se nos historiadores ibéricos, sejam espanhóis sejam portugueses, a descoberta das Américas pelo turcos, que não são turcos coisíssima nenhuma, são árabes de boa cepa, deu-se com grande atraso, em época relativamente recente, no século passado, não antes.»

A Descoberta da América pelos Turcos (1994)

quinta-feira, setembro 03, 2020

se pudesse, iria todos os anos e todos os dias à Festa do Avante!

Está-se lá muitíssimo bem, digo eu que nunca fui do partido. A música, o que mais me movia, estava a cargo do grande Ruben de Carvalho. Ainda tenho um Close to the Edge que lá comprei. Até eu já lá estive à venda, o que muito me honrou, em postura crítica, aliás, mas indesmentida.
Porém, não posso: tenho a praia e a Feira do Livro. tudo covid free, como se sabe.
Para o resto de peditório, não dou.

Leitor de BD

Mathieu Lauffray, Raven, tomo 1 - Némesis

jornal i

https://ionline.sapo.pt/artigo/707611/os-parias-dos-mares?seccao=Mais_i




a arte de começar - Ferreira de Castro (1898-1974)

«Encontravam-se os três à mesa de jantar e o velho relógio de pêndulo marcava onze horas menos um quarto. Mercedes mostrava-se impaciente.»

A Curva da Estrada (1950)

terça-feira, setembro 01, 2020

50 discos: 25. MEUS CAROS AMIGOS (1976) - #8 «Passaredo»



um amor assim recalcado - «Eurico o Presbítero» (10)

continuar: «DO PRESBÍTERO DE CARTEIA AO DUQUE DE CÓRDUBA»

Três missivas entre Eurico e Teodomiro, Duque de Córdova. Herculano fê-los camaradas de armas nas campanhas vitoriosas de submissão dos bascos, aliados aos francos. Na primeira carta, o herói relembra não só esses momentos de glória como a desventura subsequente à rejeição do pedido da mão de Hermengarda ao pai, o Duque de Fávila, progenitor também de Pelágio, o primeiro rei das Astúrias, último reduto cristão após 711, a partir do qual de processará a Reconquista cristã -- termo que já ele próprio é posto em questão, suponho, pelos talibãs do costume, os mesmos certamente das quatro espécies de académicos (os activistas, os sectários, os analfabetos e os idiotas úteis) que pretendem impugnar o termo Descobrimentos.
Teodomiro levará Eurico pela senda da evasão orgiástica, mas este porém era doutra têmpera: «A embriaguez dos banquetes era para Eurico tristonha; as carícias feminis, fàcilmente compradas e profundamente mentidas, atrás das quais correra loucamente outrora, tinham-se-lhe tornado odiosas; porque o amor, com toda a sua virgindade sublime, lhe convertera em podridão asquerosa os deleites grosseiros que o mundo oferece à sensualidade do homem.»
Diante do perigo -- «Os Árabes! -- [...] esta palavra maldita é como a peste quando passa: seguem-na o susto e o desacordo.» -- a cujo desembarque assistira na véspera, do refúgio, Eurico anuncia que voltará a empunhar a espada.
É sabido que o reino visigodo estava em guerra civil, e que as instituições políticas -- embora já com sofisticada legislação -- eram frágeis. Os árabes foram chamados por Julião, Conde de Ceuta, supostamente para vingar uma afronta do rei Rodrigo sobre a filha.  Rodrigo, sobre quem há suspeitas do derrube do rei anterior,Vitiza, pelo que a causa dos dissídios poderão encontrar-se principalmente aí.  A História perde-se na lenda e sustenta-se nas crónicas, fontes escritas e vestígios arqueológicos.
A resposta de Teodomiro é muito interessante, aceitando Eurico de braços abertos não deixando de fazer-lhe uma exprobação amarga de amizade ferida: «[...] aquele que te amou tanto; aquele que poria a vida para salvar a tua; que nunca teve contentamento ou mágoa que fosse para ti segredo, trataste-o com o mesmo desprezo com que tu, no teu nobre orgulho de desgraçado, trataste o resto do mundo [...].» Ao que Eurico retorquirá com a afirmação dum sentimento não compatível com as vulgares paixões: «Medes o meu espírito pelos afectos humanos»; a dor é incompatível com a vida, retomando o sentimento suicidário, que faz saber ao Duque de Córdova: «Sabes o que faz um amor imenso assim recalcado?»  A resposta é terrivelmente soberba, notando o (aparente) alheamento divino daquele servo: «O Senhor não me escutou as preces: não me aceitou a resignação.»; e a assim, sem saída: «Que pode hoje embriagar-me, senão uma festa de sangue?»
O romance histórico não é historiografia, mesmo quando escrito por um historiador, num romance tudo é permitido, desde que o discurso seja verosímil, do anacronismo à projecção do sentimento ou da ideologia do autor nas personagens. E aqui -- terminada a Guerra Civil (1828-1834) havia apenas uma década --, Eurico volta a vestir-se de Herculano: «Dir-to-ei, Duque de Córdoba: também eu não amo Roderico subiu ao trono; porque a memória de Vítiza nunca morrerá no coração do seu antigo gardingo. [...] Mas não é a sua coroa que os filhos das Espanhas têm hoje que defender; é a liberdade da pátria; é a nossa crença [...].»

Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844), Cap. VII, «O desembarque», pp. 52-73