domingo, junho 28, 2026

o que está a acontecer

«Fato branco, engomado, luzidio, do melhor H. J. que teciam as fábricas inglesas, o senhor Balbino, com um chapéu de palha a envolver-lhe em sombra metade do corpo alto e seco, entrou na "Flor da Amazónia" mais rabioso do que nunca.» Ferreira de Castro, A Selva (1930)

«Naquela noite de Março, desabrida e húmida, uma grande animação fervilhava alacremente ao fundo da rua do Salitre. Era em 1867. Frente a frente, as Variedades e o Circo Price alinhavam os seus bicos de gás festeiros, a que as vergastadas do noroeste impunham um tremelilhar inquieto.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)

«Todas as noites a casa se enchia e o aspecto era sempre o mesmo. / Ao fundo, encostada ao balcão forrado de zinco, a tia Lauriana, mulher de grandes seios e arrecadas, que tinha a especialidade dos pastéis de bacalhau, e pernas másculas saídas de grosseiras saias de baetilha; ao canto o cego de chapeirão derrubado, a atitude fria, faminta, dolorida e apagada, a rebeca nos joelhos, a manta de riscas ao ombro, a eterna noite nas feições.» Fialho de Almeida, A Ruiva (1878) 

Volta a Portugal em escritores: Amarante


Teixeira de Pascoais
(Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos, São Gonçalo, Amarante, 8-XI-1877)







 

sábado, junho 27, 2026

«Fly on a Windshield» (Steve Hackett, Steve Rothery, Nad Sylvan)


 

zonas de confronto

Simone de Beauvoir: «Mas, se olharmos mais de perto, rapidamente nos apercebemos de que os problemas políticos e morais estão indissoluvelmente ligados: trata-se, de qualquer forma, de fazer a história humana, de fazer o homem; e, dado que o homem está por fazer, está em questão: é essa questão que está na origem, ao mesmo tempo, da acção e da sua verdade.» O Existencialismo e a Sabedoria das Nações (1948) - trad. Mário Matos § Honoré de Balzac: «Esta rua, agora pouco frequentada, quente no Verão, fria no Inverno, escura em alguns sítios, é notável pela sonoridade da sua calçada pedregosa, sempre limpa e seca, pela estreiteza do seu leito tortuoso, pela paz das suas casas, que pertencem à cidade velha e que dominam as muralhas.» Eugénia Grandet (1833) - trad. Jorge Reis § Génesis: «Deus fez dois grandes luzeiros: o maior para presidir ao dia e o menor para presidir à noite; fez também as estrelas. Deus colocou-os no firmamento dos céus para iluminarem a terra, para presidirem ao dia e à noite, e para separarem a luz das trevas. E Deus viu que isto era bom.» Bíblia Sagrada (Missionários Capuchinhos)

sexta-feira, junho 26, 2026

3 versos de João Miguel Fernandes Jorge

«Via de um camarote de ópera o melodrama, advertida / figura lendo no banco do comboio urbano / noite de janelas pelo outono» 

O Regresso dos Remadores (1982)

quinta-feira, junho 25, 2026

Ella Fitzgerald, «Just in Time»


 

o que está a acontecer

«Mas nenhum queria o infeliz "Joli"; enxotavam-no com as ponteiras dos guarda-sóis; o cão, repelido como um pretendente, toda a noite uivava pelas ruas. Uma manhã apareceu morto ao pé da Misericórdia; a carroça do estrume levou-o e, como ninguém tornou a ver o cão na Praça, o pároco José Miguéis foi definitivamente esquecido.» Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro (1875/80)

«A organização talhara Pedro para a vida de lavrador e parecia apontá-lo para suceder ao pai no amanho das terras e na direcção dos trabalhos agrícolas. / Assim o entendera José das Dornas, que foi amestrando o seu primogénito e preparando-o para um dia abdicar nele a enxada, a foice, a vara, a rabiça, e confiar-lhe a chave do cabanal, tão repleto em ocasiões de colheita.» Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor (1867)

«Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: a diferença radical entre este livro e o Pentateuco. / Dito isto, expirei às 2 horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi Tinha uns 64 anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de 300 contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos.» Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) 

3 versos de Sebastião da Gama

«Vem lavar-me, Senhor!, no azul do Mar. / Filtra a minha impureza na limpidez do Teu olhar, / a luz que clara entornas pelos montes da minha Serra verde...» 

Serra-Mãe (1945) - «Harpa»

quarta-feira, junho 24, 2026

Volta a Portugal em escritores: Amadora


Artur do Cruzeiro Seixas
(Artur Manuel Rodrigues do Cruzeiro Seixas, Amadora, 3-XII-1920)







1 verso de Luís de Miranda Rocha

«Escura vaga luz que anda no ar do dia que decai» 

Os Arredores do Mar, os Subúrbios da Noite (1993)

terça-feira, junho 23, 2026

Radu Lupu, André Previn, Concerto para piano em lá menor (Schumann)


 

6 versos de Fernando Assis Pacheco

«e derramem-se-me os óleos / do coração e a / vista se me feche e cuspam / de longe neste gafo // se for para calar-me e não disser / o teu nome no fim, sempre o teu nome» 

Memórias do Contencioso (1976)

zonas de conforto

Camilo Castelo Branco: «-- P'ra pintassilgo estás muito fanhoso, ó Luís! -- disse galhofando a Brites do Eirô. / -- Olá, sua bruxa, que feitiços está você a fazer aí? -- respondeu o veterano do 2.º Regimento do Porto. -- Não me meta medo aos burros que eles já estão estacados a olhar p'ra você. Deixe passar os parentes.» Maria Moisés (1876-77) § Maria Gabriela Llansol: «Vejo aqui que a viagem começa no corpo quando este desliza de um real para outro real-não-existente. Não desliza para a fantasia: o nosso olhar vê uma parte da paisagem e, da outra, dá testemunho. / A esta situação de travessia, ou paisagens, habituei-me a chamar cenas fulgor.»  Sintra em Passo de Pensamento (póst., s.d.) § Adérito Sedas Nunes (1973): .../... «Ora, é-me doloroso ter de comunicar a V. Ex.ª que, através de informações recebidas da família, que ontem foi autorizada a visitá-lo, tenho de concluir que o Prof. Moura não tem sido efectivamente tratado com a atenção e consideração que lhe são devidas.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano, ed. José Freire Antunes (1985) § Machado de Assis: «Não exigia uma peça profundamente original, mas enfim alguma cousa, que não fosse de outro e se ligasse ao pensamento começado. Voltava ao princípio, repetia as notas, buscava reaver um retalho da sensação extinta, lembrava-se da mulher, dos primeiros tempos. Para completar a ilusão, deitava os olhos pela janela, para o lado dos casadinhos.» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» § Millôr Fernandes: « -- É verdade que a história sempre se repete. Mas eu quero ver é depois da bomba atômica.» Pif-Paf (2004) - «Confúcio disse». § Fialho de Almeida: «As águas, murmurantes por essas ravinas e barrancos; nas grandes relvas picadas da vivacidade das corolas, as calhandras fartas agacham-se para dormir, ao fundo a cordilheira distante, idealizada, incorpórea, é como uma nuvem rarefeita que se apaga.» O País das Uvas (1893) - «Pelos campos»

segunda-feira, junho 22, 2026

Django Reinhardt, «Blues Primitif»


 

7 versos de Manuel Alegre

«Canto as armas e o Tempo. / As minhas armas o / meu tempo. E desarmado / pergunto à flor pergunto / ao vento: vistes lá / o meu país? E o meu / país está nas palavras.» 

O Canto e as Armas (1967) - «O canto e as armas»

o que está a acontecer

«É uma bonita menina, para quem gosta dum rosto oval, olhos azuis, leite e rosas na face, lábios acerejados e pequenos, dentes como pérolas, olhar alegre e penetrante. Conversa com o papagaio, e o metal da sua voz tem aquele timbre sonoro e puro que nos faz jurar na beleza de quem fala, sem lhe vermos as feições.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854) 

«Uma longa paz com as outras nações tinha convertido a antiga energia dos Godos em alimento das dissensões intestinas, e a guerra civil, gastando essa energia, havia posto em lugar dela o hábito das traições covardes, das vinganças mesquinhas, dos enredos infames e das abjecções ambiciosas.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)

«Também são chegados os outros companheiros: o sino dá o último rebate. Partimos. / Numa regata  de vapores, o nosso barco não ganhava decerto o prémio. E se, no andar do progresso, se chegarem a instituir alguns ístmicos ou olímpicos para este género de carreiras -- e se para elas houver algum Píndaro ansioso de correr, em estrofes e antístrofes, atrás do vencedor que vai coroar de seus hinos imortais --, não cabe nem um triste minguado epodo a este cansado corredor de Vila Nova. »  Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

domingo, junho 21, 2026

sexta-feira, junho 19, 2026

2 versos de Florbela Espanca

«O mundo! O que é o mundo, ó meu Amor? / -- O jardim dos meus versos todo em flor...» 

Charneca em Flor (póst., 1931) - «Versos de orgulho»

quinta-feira, junho 18, 2026

leitura humilde, mas alerta

 

5. Olho mais de uma vez para o retrato de António Lobato na badana da capa. Um homem passado da meia-idade, de aspecto sereno e apaziguado, ostentando a cicatriz de uma catanada que lhe atravessa o rosto de cima a baixo. Pelo que li até agora, algo me diz que não encontrarei aquilo que temo. (aqui)

6. Como testemunho, o livro é um admirável relato de sobrevivência numa situação inimaginável. Em alguns momentos transportou—me à Guiana Francesa, do Papillon (e de Dreyfus…).  É notável como naquela situação mente e corpo passam a ser não apenas o refúgio em que o eu encontra o si-mesmo; e um invólucro que é o corpo, fechado noutro invólucro, a cela, que passa a não ter limites. É evidente que eu poderia ser cínico e dizer que foi o instinto de sobrevivência que qualquer animal tem, além da sorte, que o preservaram. O que em minha opinião o distinguiu verdadeiramente como homem -- e lá obrigou o regime que andou a defender, pensando que era a nação que defendia --, foi a fidelidade ao juramento de bandeira, recusando a liberdade em troca de se bandear para o inimigo. Merece isto respeito? Neste caso, creio que sim. Muito jovem, o autor alistou-se como voluntário; não estava intelectualmente preparado para perceber o que de errado, desumano, humilhante significa ser-se colonizado.

7. Não posso dizer que encontrei o que temia – mas também não vi o que gostaria de ter encontrado, ou seja, uma denúncia do que foi a Guerra Colonial, um crime que ceifou incontáveis vítimas, aos milhares, por uma visão distorcida e cega da História, naqueles treze anos de guerra, além de interesseira para a clique que governava o país. Não basta, como fez o autor, exprobar os imperialismos todos que se puseram ao assalto das colónias portuguesas. É muito fácil dizer que a culpa foi dos russos, dos americanos e dos chineses e nós nos limitámos a honrar o nome dos “nossos egrégios avós”, como de forma algo patética o autor expôs.

E lamento-o, porquê? Porque vi no autor uma natural empatia para com o outro africano, mesmo após inevitáveis choques culturais; por exemplo o espantoso episódio do curandeiro, já na Guiné-Conakry; vi a forma respeitosa com que se referiu a Amílcar Cabral, um homem superior, e o modo agradecido nas alusões a Nino Vieira, a quem acreditou dever a vida. Aliás, ele deveu a vida ao PAIGC, que o retirou das mãos dos populares furibundos com os assassinos dos ares – como eloquentemente mostra na pág. 71, uma tabanca devastada pela metralha da aviação --, cuja vontade dos habitantes seria o de esfolá-lo ali já.

É graças a Nino que em Portugal vão saber que ele está prisioneiro, como testemunha a pág. 90. Aliás, oficialmente, Portugal não tem prisioneiros no campo inimigo, por isso, Lobato para todos os efeitos não existe. É pena que ingénua ou propositadamente, não veja que está ali a servir de carne para canhão para a sobrevivência de um regime português ilegítimo, assente na repressão e na fraude, e não ao serviço dos alegados nobres ideais de “egrégios avós”, fantasia de marinheiro republicano, H. Lopes de Mendonça, apanhada com as mãos ambas pelo Salazar.

Como militar a sua admiração pelo PAIGC é notória, a “ordem” a “disciplina” a “autoridade” que verifica existir no acampamento de Nino Vieira; o que não o impede de ver, após uma (infelizmente) já esperada diatribe contra os “cravos” e os “vendilhões”, comiserar-se com o estado subnutrido de uns guineo-portugueses do outro lado da fronteira (p. 108) (e aqui Lobato já se sente muito à vontade para denunciar o colonialismo francês), saindo-se com esta pérola: «Nestes olhos esbugalhados de surpresa [o avistamento de um prisioneiro português branco], lê-se a esperança longínqua do regresso à terra-mãe, ao “doce chicote” do colonizador que durante quinhentos anos lhes garantiu tabanca fresca, pão, água,  e ainda alguns ensinamentos técnicos, científicos e culturais.”… (p. 111); escrevendo antes sobre uma alegada “partilha de quinhentos anos de uma nacionalidade comum” (p. 110), essa mesma nacionalidade comum que incluía o povo felupe, em que se praticava o canibalismo, temendo Lobato servir de pitéu a um certo Miguel que por lá andava, aí se esquecendo da nacionalidade comum, não fora o estrangeirado do PAIGC ter advertido um deles que «tuga não e[ra] para comer”… (p. 85)

8. O livro é pois, no que respeita a considerações que vão para além da circunstância, uma salgalhada incoerente, que a própria honestidade do autor evidencia; desde logo do ponto de vista formal, em que tanto caracteriza – sem aspas ou itálico – os soldados do PAIGC ora como terroristas, ora como guerrilheiros, sabendo-se que nenhum destes substantivos é neutro. Não atribuo, no entanto, nenhuma intenção especial, mas apenas uma evidência de que o autor não era, nem de perto nem de longe, um escritor, antes alguém que tinha coisas para contar e soube escrevê-las de forma minimamente inteligível. Deste ponto de vista, trata-se de um livro medíocre.

9. O capítulo final, acrescentado em edições posteriores, focando essencialmente o papel do autor durante o PREC, não tem nada que ver com o testemunho, e, com excepção do epílogo, agora na Guiné-Bissau, e já não Guiné Portuguesa – aliás bem interessante –, está aqui a mais, prejudicando a unidade do depoimento.

10. "Herói nacional", como o considerou o regime -- mesmo que a PIDE o tenha detido logo após o regresso após mais de sete anos de cativeiro (era preciso saber o que Lobato pensava...) e de não saber muito bem o que lhe fazer, obrigando-o a atitudes pouco ortodoxas para que reconhecessem a sua condição de prisioneiro de guerra? (Portugal sempre no seu melhor...) Que há um heroísmo pessoal em não vergar, isso é inegável, só um néscio ou alguém mal-formado o não reconhece. Que esse mesmo heroísmo tenha servido uma causa profundamente errada, é outra história. Aliás, entre história e História, António Lobato foi, quanto a mim, mais uma vítima desta, uma em milhares, e da circunstância da mentalidade de século XIX de Salazar, que aproveitava, e muito, à dos que prosperavam à custa da política colonial, alguns, poucos, descendentes de avós não lá muito egrégios.