1. Uma data certa. Portugal nasceu de rompante num dia, depois de uma batalha -- a Batalha de São Mamede, em Guimarães, a 24 de Junho de 1128. A partir daí, foi sempre a andar, mesmo com o breve desvio dos Filipes 2-3 (o Primeiro, mundialmente conhecido como o Segundo, foi muito outra coisa).
2. 1179. Qualquer comemoração do nascimento de Portugal tem de incluir esta data, ano em que foi redigida a bula Manifestus Probatum, redigida pelo Papa Alexandre III. No concerto das nações do Ocidente Medieval, a legitimação jurídica internacional era assegurada pela autoridade do bispo de Roma. Das três grandes datas - 1128-1143-1179 --, a do Tratado de Zamora é menos relevante que a dos extremos (coisa que os neonazis de pacotilha não sabem). Se li bem, terminar as comemorações em 1143 não faz nenhum sentido; o término deverá ser 1179, mesmo que muitos de nós já estejamos mortos, circunstância absolutamente irrelevante.
3. Paulo Portas. Vejamos: o que o Poder faz quando quer comemorar datas históricas é nomear um dos seus; é sempre assim, não percebo a admiração. Comemorar é sempre um acto político. Agora: Paulo Portas, português velho, tem de estar à altura do nome dos seus nobres antepassados, Pedro Álvares Cabral, Sacadura Cabral e, principalmente, o seu extraordinário progenitor, Nuno Portas (haverá outros certamente, que desconheço). Quero isto dizer o quê? Que Paulo Portas deverá ter a inteligência e a sensibilidade de não aparecer como um comissário-geral político-partidário, mas alguém imbuído de um largo sentimento patriótico (não "nacionalista"), que procure congregar. Fugir e isolar o lixo: quer o patrioteirismo de loja-dos-trezentos à Ventura, quer as lapalissadas e falsificações do manicómio wokista, por onde circulam alguns historiadores entre parênteses. Próximo da sua área política, tem o excelente exemplo de Vasco Graça Moura.
4. Comissão de honra. O actual e os antigos Presidentes da República, perfeito. Péssimo e incompreensível: a ausência do Rei, D. Duarte. Este não é um rei qualquer, arranjado à pressão como sucedeu para aí em tantas monarquias europeias, em especial no século XIX. Representante das quatro dinastias -- que na verdade só foram uma, entre 1128 e 1910 --, ele personifica o Estado, a Bandeira (mesmo a actual) e até a Nação (já disse porquê, a partir de José Mattoso).
5. Miudezas. Um conselho-geral com representantes dos três maiores partidos, como escreve o Público? Ou seja, o PSD, o PS e o Chega?... Um sinal preocupante de sectarização; é preciso explicar a estes animaizinhos que a História de Portugal é vasta e complexa, solar e negra, e que é também plural, não é para ser coutada de ninguém.
6. O que verdadeiramente importa. Escrevi-o aqui, em 2023: os Portugueses não existiam antes de 1128, não existiam antes de Portugal. Quem criou os Portugueses foram a Coroa (o Estado) e a Língua Portuguesa. É bom que o Estado actual tenha noção disto mesmo, e saiba preservar e defender a língua e a miscigenada (mestiça) cultura portuguesa: do adufe da Beira-Baixa a Luís de Freitas Branco; de D. Dinis ao António Aleixo; da Rosa Ramalho ao Julião Sarmento. E que se aposte tudo, sempre e cada vez mais na educação, depois na educação e a seguir na educação. Exigente e humanista.
7. Não são os estrangeiros que nos desnacionaliza; são os portugueses impreparados, incultos e alienados, ou estupidificados, se preferirem. António Carlos Cortez, na Visão de hoje, lembra que, segundo dados da OCDE, sete em cada dez portugueses não têm capacidade para compreender textos longos. Imigrantes, quais imigrantes?...
8. E a propósito de Visão, a revista, sobre este assunto, não encontrou melhor para escrever que uma noticiazeca parvinha, na secção "Periscópio" (intriga e coscuvilhice política). Se até "a newsmagazine mais lida do país" tem 'isto' para dizer, é porque também andam por lá alguns dos sete em cada dez.
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