Racionalista e ateu, sou, como a maioria dos portugueses, cristão e católico por formação e cultura.
Diria até que, num ecossistema financismo capitalista abominável e predatório, considero que o papel dos três últimos papas, Bento XVI, Francisco e Leão XIV (poderia falar também de líderes religiosos distantes como o actual Dalai Lama, Tenzin Gyatso) torna(ra)m o mundo um pouco mais respirável, no meio desta lixeira abjecto-comunicacional-argentária.
Valorizo o apelo a uma espiritualidade, que em mim terá correspondência numa necessidade metafísica (Schopenhauer), precisamente porque despojada de fantasmagorias e sempre ancorada na realidade.
Enquanto ateu, as questões internas da Igreja dizem-me pouco, são curiosidades; enquanto homem e cidadão, aprecio uma mensagem emancipadora que possa elevar-nos do lodo merdiático-reticular em que esbracejamos.
Vem isto a propósito daqueles reaccionários do Lefebvre, que desafiaram o Papa. Esteticamente, acharia muito mais piada à missa em latim; mas não frequento missas e ,de fora, prefiro uma Igreja apesar de tudo emancipadora e não uma que sirva para enquadrar a carneirada no rebanho. Já tivemos disso durante muitos séculos -- da Santa Inquisição a cumplicidade com o Salazar -- com todas as honrosíssimas e dignificantes excepções, do fantástico Bispo do Porto D. António Ferreira Gomes ao extraordinário Padre Mário Oliveira, cuja evocação num livro recente de Luís Reis Torgal -- camarada de armas na Guiné, ao tempo em que o primeiro serviu como capelão-militar anticolonialista na Guiné, até ser recambiado --, me sensibilizou imenso.
Olhar para estes gajos, põe-me diante dos olhos o Estudo a partir de Velázquez, do Francis Bacon.
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