domingo, outubro 03, 2021

o sedutor Camões

Do bucolismo enleado na contemplação dos campos, verdes como os olhos da amada do sujeito poético, que é Camões, ele-próprio, em Verdes são os campos, ao atrevimento insinuante com que responde ao mote de Francisca de Aragão. Camões foi um dos muitos poetas que se encantou por esta algarvia, que fundaria a casa de Ficalho, título outorgado por Felipe II. «Aquella voluntad q(ue) se á rendido, / al puro respla(n)dor d'aq(ue)llos ojos, / por quie(n) todo lo al po(n)go en oluido. (o castelhano como língua culta da corte)», poetou D. Manuel de Portugal, comendador de Vimioso, que Camões considerava seu par. Composição galante, muito ao gosto dos equívocos subentendidos e jogos de palavras que povoam o Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende.

Ao mote que lhe enviou D. Francisca, “Mas porém a que cuidados?”, responde Camões com uma redondilha cuja estrofe última é deliciosamente insinuante: «Ter nuns olhos tão fermosos / os sentidos enlevados, / bem sei que em baixos estados / são cuidados perigosos; / Mas porém, ah! que cuidados!» Seguida de uma carta, em que escreve, galanteador (e com que sinceridade?):

Senhora

Deixei-me enterrar no esquecimento de v. m., crendo me seria assi mais seguro: mas agora que é servida de me tornar a ressuscitar, por mostrar seus poderes, lembro-lhe que üa vida trabalhosa é menos de agradecer que üa morte descansada. Mas se esta vida, que agora de novo me dá, for para ma tornar a tomar, servindo-se dela, não me fica mais que desejar, que poder acertar com este moto de v. m., ao qual dei três entendimentos, segundo as palavras dele puderam sofrer: se forem bons, é o moto de v. m.; se maus, são as glosas minhas

sábado, outubro 02, 2021

terça-feira, setembro 28, 2021

segunda-feira, setembro 27, 2021

«Leitor de BD»

Stuart -- A Rua de o Riso. de João Paulo Cotrim
 

domingo, setembro 26, 2021

o meu voto, para registo


Decidido quase à boca das urnas, o meu voto irá  para a coligação Nós Cidadãos! - PPM,
encabeçada por João Sande e Castro, antigo vereador do CDS. E que bem me vai saber!

 

sexta-feira, setembro 24, 2021

quinta-feira, setembro 23, 2021

18 palavras para Camões

Amor. Campo. Cegueira. Génio. Guerra. Épica. Espada. Escola. Inveja. Manuscrito. Mar. Miséria. Mulheres. Portugal. Redondilha. Rufia. Soneto. Tença.

quarta-feira, setembro 22, 2021

«Leitor de BD»



Stuart - A Rua e o Riso, de João Paulo Cotrim

 aqui

«Ter nuns olhos tão fermosos / os sentidos enlevados, / bem sei que em baixos estados / são cuidados perigosos; / Mas porém, ah! que cuidados!» 

Luís de Camões, da glosa «Tanto maiores tormentos»

terça-feira, setembro 21, 2021

tempos interessantes

  Eu sei que os Estados Unidos foram necessários à nossa segurança colectiva, nomeadamente para travar o expansionismo soviético. E ainda bem, pois é sempre preferível o capitalismo, por mais selvagem. O americano, em particular, é brutal e predatório; há, porém e felizmente, em parte da sociedade civil americana, um dinamismo e com massa crítica, capaz de fazer frente aos poderes fáctícos, o maior poder.

O sovietismo também brutal, que se apoderou do estado, policial, totalitário e desavergonhado, desapareceu há muito, e hoje é a Rússia a ameaçada pela rapinagem americana, a que se opõem como querem e podem, desde logo pela manutenção de Putin no poder. Não sendo russo, quero que Putin fique por lá até 2036 -- e talvez se fosse russo o quisera na mesma. Nunca me cansarei de dizer que, até agora, nunca os russos foram tão livres e tão prósperos. E com Putin temos a certeza de que estes patifes não fazem farinha. A mais do que legítima recuperação da Crimeia, foi apenas uma demonstração aos bullies (um atavismo inglês que os americanos tornaram tara hereditária) que o respeitinho é muito bonito. (O aviso ao navio de guerra inglês armado em saliente a aproximar-se das águas territoriais russas na costa da Crimeia -- "Pela vossa saúde, invertam a rota..." -- foi hilariante.

E por falar em patifarias dos nossos queridos aliados americanos, elas têm sido incontáveis. Depois de deixarem todos os aliados de calças nas mãos no Afeganistão, para vergonha destes -- pelo menos os que a têm, como a ministra holandesa que se demitiu --, foi agora a partida pregada à França, com a anulação do contrato de aquisição de submarinos pela Austrália.

(Eu até acho bem, em teoria, um pacto militar daquela natureza; as potências nunca podem andar à solta, mesmo uma hipercivilizada como a China -- lembremos o Tibete, cuja ocupação tem sempre por cá quem a justifique (a melhor que ouvi, foi a de o Tibete ser um país libertado do seu regime feudal pelo exército popular da China -- nunca se chega longe demais no cinismo ou na estupidez e na desonestidade intelectual);

 se o problema do governo de Macron estivesse no domínio dos princípios, a França estaria caladinha, que é a isso a que os vassalos se obrigam; mas o desplante foi o desvio de milhares de milhões de euros que os americanos induziram os australianos a fazer, em benefício próprio, claro está, fazendo a França estrebuchar com sonoridade. O espectáculo está em cena, e até agora tenho-me rido.

Ah, o Biden, ia-me esquecendo: pode estar a ser muito bom na política interna, eventualmente. Na política externa, um desastre bastante pior que Trump, como era expectável, mantendo tudo quanto este fez de mau. A hostilização idiota do Irão, que entretanto passou-se para os radicais nas últimas eleições, com a ajuda dos amigos americanos; a manutenção de barreiras na fronteira com o México. parece que estão a deportar muita gente. Enfim, tempos interessantes, como diria o outro.


domingo, setembro 19, 2021

sexta-feira, setembro 17, 2021

portugueses


MARIA LEONOR Ribeiro da Fonseca Calixto MACHADO DE SOUSA

 

quinta-feira, setembro 16, 2021

liberdade de imprensa

 Sem uma imprensa livre, não há uma sociedade liberal e democrática. É verdade que democracia e liberdade são aferidas por muitas outras variáveis: literacia e autonomia dos cidadãos em face do Estado e dos poderes fácticos de todos os lóbis, corporações, religiões, tudo quanto condicione ou subalternize os indivíduos e os cidadãos. Mas a base de tudo está numa imprensa livre.

Numa lista dos Repórteres se Fronteiras sobre a liberdade de imprensa no mundo, contendo 180 países, em que a liberdade mais livre se situa na Noruega e a mais oprimida na Eritreia, Portugal está em nono lugar, atrás da Nova Zelândia e à frente da Suíça. Quanto aos restantes países lusófonos, Cabo Verde surge em 27.º, atrás de Chipre e à frente da Lituânia. Seguem-se Timor-Leste, 71.º, entre a Grécia e as Maldivas; Guiné-Bissau (95.º), entre a Mauritânia e o Equador; Angola (103.º) no meio do Quénia e do Montenegro; Moçambique (108.º), depois do Líbano e antes duma Guiné. Finalmente, o Brasil, em 111.º, precedendo a Bulgária (país da UE...) e atrás da Bolívia. São Tomé e Príncipe não aparece. É uma lista estranha, apesar de tudo, mas está aqui.

«Boys»

quarta-feira, setembro 15, 2021

emporcalhamento

 Concordo com o Presidente Marcelo quando diz que não devemos dar grande trela aos animais que foram coagir Ferro Rodrigues quando almoçava com a mulher. É possível que espectáculos destes sejam o pão-nosso-de-cada-dia na cmtv ou nas outras que as copiam. Mas eu nunca vira nada assim: tontinhos, feios, porcos, maus, com linguagem rufia ("estás marcado...", "este restaurante está marcado...") a arrotar insultos a alguém que, ainda por cima, preside ao Parlamento -- ou seja, à assembleia dos representantes do Povo --, pilar de um sistema que, por muitos defeitos que tenha -- e tem tantos --,  não se arranjou outro melhor, até agora, que o substitua? Que querem estes idiotas? Haviam de estar no tempo do Salazar, ou em sistema soviético que nem piavam. 

E este emporcalhamento aconteceu porquê? Por causa das vacinas? Do maluquinho que é juiz e está prestes a ir borda fora, por indecente e má figura, e as porcarias que ele foi buscar ao Processo Casa Pia? Não sabe este idiota que a propósito do escândalo da pedofilia uma certa direita montou uma conspiração para decapitar a liderança mais à esquerda do PS, no que foi amplamente bem sucedida, aliás com a colaboração activa do Expresso, então dirigido por outro cretino encartado? 

A evolução permitiu a estes toscos passar de ratos em ditadura a carneiros em democracia. Eu também prefiro assim, se bem que a ditadura tivesse a grande ventura de os ratos se verem com menos frequência, era mais higiénico. Assim, ao ar livre e de cabeça descoberta, o ambiente fica pestilento, como é próprio dos ratos. 

"Leitor de BD"


 

Judea, por Dinis Conefrey

(aqui)

terça-feira, setembro 14, 2021

portugueses


GUILHERME Manuel Lopes Scarpa INÊS
(Lisboa, Abril de 1951 -- 14-XI-2021)

 

segunda-feira, setembro 13, 2021

«Doralice»

a arte de começar

 «--Compreende?»

J. Rentes de Carvalho (1930), A Amante Holandesa (2003)

sexta-feira, setembro 10, 2021

portugueses


JORGE Fernando Branco de SAMPAIO

Falei com ele uma vez. Era o Presidente da República. Afabilíssimo. O resto, da Greve Académica de 1962 aos estudantes sírios, é História; sendo uma das páginas mais brilhantes a defesa dos presos políticos na miserável farsa judiciária que eram os "Tribunais Plenários".

(No outro dia, vi um documentário sobre o Assalto ao Quartel de Beja (1961). Em julgamento, o coronel Varela Gomes, que fora baleado e estivera entre a vida e a morte -- o que o livrou da tortura da pide, pois. expulso do Exército fora relaxado àqueles animais -- ouviu num desses tribunais um magistrado dizer que o 'réu' merecia a pena de morte. Varela Gomes veio a sabê-lo, depois do 25 de Abril, juiz do Supremo. Ainda conseguem ser mais repugnantes que os próprios pides. Nenhum foi preso, execrado, incomodado. "Como és belo, meu Portugal". (Luís Cília))

 

quadrinhos


 

terça-feira, setembro 07, 2021

«Leitor de BD»


 Monsieur Vadim 1 – Arthrose, Crime & Crustacés

de Gihef, Didier Mertens e Morgann Tanco

(aqui)

«one too many mornings»

domingo, setembro 05, 2021

arquivo


Eu, em 2019 (tirada pelo meu filho António)

 

sexta-feira, setembro 03, 2021

quarta-feira, setembro 01, 2021

caracteres móveis

«Exaltada, invocou Feliciana o testemunho dos pastores e a fé nas Santas Escrituras; e azeda, puxando a cachopa pelo braço, de chanquinha chocalheira pelo sobrado fora, despediu.»*

«Nas fiadas da biblioteca, que ocupava inteiramente uma parede lateral, enfileiravam-se séculos de história da arte, e, em centenas de volumes e milhares de fólios, desfilava a arquitectura religiosa de todas as eras, as ruínas mortas, os templos gastos, as catedrais decrépitas, tudo comentado, inventariado e fixado nos couchés setinosos e nos encorpados velinos caros.»**

«O lume do cigarro chegava já aos lábios de Manuel da Bouça e ele continuava a contemplar as margens do rio, onde se expunham os campos cobiçados e onde a sua casa fumegava, indolentemente, na quietação da tarde.»***


*Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)

**Manuel Ribeiro, A Catedral (1920)

***Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

«Leitor de BD»

 


Brick Bradford (Willaim Ritt e Clarence Gray)

aqui

segunda-feira, agosto 30, 2021

sábado, agosto 28, 2021

«Leitor de BD»

 

Buck Danny - Histoires Courtes  - vol. 1(1946-1969)
Jean-Michel Charlier e Victor Hubinon

aqui

quinta-feira, agosto 26, 2021

Afeganistão: os aliados de calças na mão e sem tempo para pensar -- ou a não-discriminação selectiva

 O que se assiste no Afeganistão é inominável. Não que houvesse grande ilusões, quanto ao desfecho, mas à forma como os Estados Unidos deixaram os seus aliados, para não falar com os afegãos, com as calças na mão. As declarações do G7 são patéticas, ridículas e só demonstram medo e impotência. É bem feito para estes mesmos aliados que, como diz Putin, muitas vezes com razão, se comportam menos como aliados e mais como vassalos, a começar por Portugal (veja-se como fomos obrigados a reconhecer a "independência" -- piada amarga -- do Kosovo).

Vamos tentar resgatar cento e poucas pessoas, a cinco dias do prazo que os talibãs deram aos Estados Unidos e aliados. (Se não estamos no domínio do improviso, do remendo, do desenrasca, de que tanto gostamos, o que vem a a ser isto?).

Fez-me confusão saber que no caso português estão contempladas as mulheres dos colaboradores dos portugueses, mas apenas uma; quando houver mais -- porque no islão, um homem pode ter mais de uma mulher -- alguma terá de ficar para trás. E como será? Tira-se à sorte? E os filhos de cada uma? Então não é este governo tão defensor de direitos básicos e essenciais de não discriminação? E anuncia que se desemerdem os afegão que trabalharam para nós que têm o azar de ter uma família composta por mais de uma mulher? Como é?, a não descriminação é só para os que têm os nossos padrões? 

domingo, agosto 22, 2021

A. J. Saraiva (4), «De Alfonso X, o Sábio a D. Dinis»

 


«De Alfonso X, o Sábio, a D. Dinis», o capítulo inicial, pp. 15-22 ocupa 6,5% do total. O primeiro subcapítulo versa sobre "Os cancioneiros e a lírica jogralesca" (16-22). A poesia trovadoresca, uma adaptação em boa parte do lirismo provençal casado com o cancioneiro primitivo galaico-português, de que resultaram as célebres "cantigas" (de amigo, de amor, de escárnio e de mal-dizer), realçando os três níveis, consoante a densidade: do ambiente rural ao cortês, passando pelo doméstico; ou da "tradição oral" ingénua e campesina à "invenção literária" propriamente dita, à "dialéctica dos sentimentos" em meio palaciano.

Os autores referidos: Afonso X o Sábio, D. Dinis, Airas Nunes de Santiago. Os títulos: Cantigas de Santa Maria, Cancioneiro da AjudaConexões: Dante, Petrarca, Bernardim Ribeiro (Menina e Moça).  

"A épica jogralesca" (16-23). Trata das façanhas de Afonso Henriques, gesta vertida para prosa na 3.ª Crónica Breve de Santa Cruz de Coimbra e a Crónica General de Espanha de 1344, cujo original, perdido, foi escrito em português: «O ciclo épico em torno de Afonso Henriques apresenta-nos um herói bravio e instintivo, verdadeira encarnação da nobreza guerreira do século XII, em luta com os Leoneses, o clero e com os Árabes.»

Conexões: Cantar de Mío Cid e Lendas e Narrativas (Alexandre Herculano).

"O romance de cavalaria" (23-25). As traduções do Ciclo da Bretanha, Demanda do Santo Graal, O Livro de José de Arimateia, (séc. XIII) ou a História de Barlão e Josafate, baseado na vida de Buda, cuja tradução portuguesa se fez em Alcobaça, abrem caminho para um romance como o Amadis de Gaula, cujo original em português se perdeu, cuja autoria foi atribuída por Zurara ao trovador Vasco de Lobeira [entretanto, a atribuição já passou para um outro, chamado João Pires de Lobeira].

Conexões: Cervantes, Dom Quixote.

sexta-feira, agosto 20, 2021

«Leitor de BD»

CRÁS! (vários autores)
 

terça-feira, agosto 17, 2021

um passeio com A. J. Saraiva (3)

Afonso VI de Leão
Repartido por treze capítulos, é precedido dum "Intróito", pp. 12-15, com referencia ao provavelmente mais antigo fragmento escrito do galaico-português, inserto numa crónica redigida em latim: a lamentação chorosa de Afonso VI, rei de Leão e Castela, avô de D. Afonso Henriques, após a derrota na batalha de Uclés (1108) diante dos almorávidas, em que morre o seu único filho varão. É uma queixa lancinante, que impressiona pela clareza com que a lemos passados mais de novecentos anos; «[...] ay meu fillo, alegria do meu coraçon e lume de meus ollos [...]».

Citação: «[...] como o mostra a lamentação citada de Afonso VI, quando se formou o reino de Portugal já o Noroeste da Península constituía um espaço linguístico, o domínio do galego-português como língua materna.» 


segunda-feira, agosto 16, 2021

«Leitor de BD»



 Alix Senator, de Valérie Mangin e Thierry Démarez, aqui

domingo, agosto 15, 2021

um passeio com A. J. Saraiva (2)

 A propósito do título, este pequeno livro de 172 páginas vem substitui um outro da célebre «Colecção Saber», da Europa-América (muito suportada para os títulos estrangeiros na célebre «Que sais-je?», da PUF), a breve História da Literatura Portuguesa, que gostaria de ter à mão para ver as balizas. Iniciação é um título que dá liberdade ao autor, permitindo-lhe um grau maior de liberdade e subjectividade que o substantivo História denega. Mantenho, no entanto, que é sempre arriscadíssimo entrar pelo nosso tempo adentro, sem fugir às antipatias, ajustes de contas, sem falhar. Por isso, se o autor tivesse parado ao fim de dois terços do XIII e último capítulo, sustendo-se por pelos autores a que se refere nascidos em torno de 1900, Ferreira de Castro, Vitorino Nemésio, José Rodrigues Miguéis e José Régio -- os quatro maiores da sua geração no romance (Castro), poesia (Nemésio), conto e novela (Miguéis) e ensaio (Régio) --, a obra estaria "imaculada".* A alteração realizada (que diz o autor não ser meramente uma mudança de título) o que se compreende, atendendo à evolução do seu pensamento) permite, pois, a liberdade de dizer que numa súmula da literatura portuguesa, o iniciado deverá "forçosamente" ler os autores referidos, mesmo salvaguardando, como o faz para o século XX o mais extenso dos capítulos, que é impossível referir todos os autores de valor. Mas há sempre uma escolha, e neste particular, é curioso ver que foi eliminado. Destas ausências, haverá umas que percebo e outras que não. E há ainda as que me divertem, concordando ou não. 

* Nemésio, não sendo o maior romancista da sua geração, é autor do melhor romance da literatura portuguesa já lido por mim, e não sou o único a ter esta opinião, e era um ensaísta genial. Régio, não sendo o maior poeta da sua geração, é grande em todas as áreas em que trabalhou. 

sábado, agosto 14, 2021

Um passeio com A. J. Saraiva (1)

António José Saraiva (1917-1993) foi um dos grandes ensaístas e historiadores da literatura e cultura portuguesas do século XX. Inquisição e Cristãos-Novos (1969) foi o primeiro que li, que é do meu Pai, inesquecível -- até pela acesa polémica que originou com I. S. Revah (1917-1973), que Saraiva incorporou numa reedição, com bastante fair play. A Tertúlia Ocidental (1991) é uma filigrana, própria de quem muito escreveu e pensou, como sucede com as obras dos grande autores no fim da vida. Num outro registo, Maio e a Crise da Civilização Burguesa (1970) é um inesquecível testemunho sobre o Maio de 68, vivido com uma alegria libertária, já afastado do PCP, de que foi um dos mais proeminentes intelectuais. Co-autor de uma monumental História da Literatura Portuguesa (1ª ed., 1961), com Óscar Lopes, escreveu também súmulas sobre a mesma, a última das quais é uma Iniciação na Literatura Portuguesa (1985), que só agora li, vinte anos depois de a comprar.

Como se não tivera nada mais para fazer, fui interpelado por este resumo brilhante, que vai até aos "novíssimos" seus contemporâneos. Estava tentado a dizer que ele se espalha no século XX, em que deveria ter ficado pelo Ferreira de Castro, o José Régio, etc. Mas não. Ele não se espalha efectivamente -- a não ser no neo-realismo, de que foi uma das cabeças de cartaz; mas ele faz uma escolha, e assume-a, mesmo ressalvando o que de bom fica de fora.

É um livrinho esplêndido, e vou passar o resto das férias a passear com ele por aqui, a fazer aquelas continhas de que gosto.



sexta-feira, agosto 13, 2021

Saigão, 1975

 Foi o que me veio à cabeça, perante a debandada de Cabul. 

Quem deve estar apreensiva é a China, que tem fronteira a oeste com o país dos talibãs. Estes vão ser racionais e moderados pelo Paquistão, uma vez que os chineses não vão tolerar o mínimo de desestabilização na província de maiorias islâmica. E é possível que depois de três impérios terem de fugir desde o século XIX, o britânico, o soviético e o americano, a China já pensasse trinta vezes em cada uma das possibilidades que se lhe podem oferecer.

quinta-feira, agosto 12, 2021

quadrinhos


Paulo J. Mendes, O Penteador (2020)

 

terça-feira, agosto 10, 2021

o populismo não pensa

 Uma jovem estudante de artes francesa escreveu uma frase na base do Padrão dos Descobrimentos que, não estando totalmente errada -- “Blindly sailing for monney, humanity is drowning in a scarllet sea” --, está muito longe da realidade. Os Descobrimentos foram muito mais do que pilhagem e barbárie. 

Obviamente que isto não é matéria para amadores, mas para historiadores, e sérios. Porque os há vigaristas ou ideologicamente cegos. A jovem, coitada, é jovem, não tem culpa de ser ignorante, tem toda a desculpa ao contrário daqueles que se põem em biquinhos de pés.

O episódio deveria ser ignorado, é uma manifestação da ligeireza e idiotice das "redes sociais", mas é impossível neste tempo de trincheiras -- um tempo que acho especialmente interessante para chamar nomes aos bois -- olhar com o distanciamento que a seriedade impõe.

O populismo e a vigarice à esquerda incomodam-me, pois ainda vou considerando a esquerda o meu campo, apesar de estar difícil. Por isso exulto ao ler uma entrevista de um homem que é um artista e não historiador, Rodrigo Francisco, ir para além da banalidade, do lugar-comum, da banalidade, no que respeita à forma como aborda a Guerra Colonial, o fenómeno dos retornados ou os militares que fizeram a guerra -- uma guerra criminosa, note-se, sob qualquer ponto de vista.

quadrinhos



 

domingo, agosto 08, 2021

caracteres móveis

 «É um amálgama de realidade e pesadelo, trapos de nuvens e palácios desmedidos.»*

«Mas Henrique de Souselas -- que era este o nome do cavaleiro -- fora educado e passara da infância à plena juventude, em Lisboa, levantando-se por avançada manhã, frequentando o teatro, o Grémio, as câmaras, parolando no Chiado ou no Rossio, e indo alguns dias do ano a Sintra, ou a qualquer praia de banhos, desenfadar-se da monotonia da capital.»**

«Mas Luísa, a Luisinha, saiu muito boa dona de casa: tinha cuidados muito simpáticos nos seus arranjos; era asseada, alegre como um passarinho, como um passarinho amiga do ninho e das carícias do macho: e aquele serzinho louro e meigo, veio dar à sua casa um encanto sério.»***

*Raul Brandão, A Farsa (1903)

** Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

*** Eça de Queirós, O Primo Basílio (1878) 

quinta-feira, agosto 05, 2021

o homem que quis ser português


Pedro Pichardo

 

quarta-feira, agosto 04, 2021

caracteres móveis

 «Aqui está um campino fumando gravemente o seu cigarro de papel que me vai emprestar lume.» *

«Eurico era uma destas almas ricas de sublime poesia a que o mundo deu o nome de imaginações desregradas, porque não é para o mundo entendê-las.» **

«Há momentos em que um escritor público se vê forçado a corar.» ***


* Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

** Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)

*** Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854)

«Leitor de BD»



 

domingo, agosto 01, 2021

sábado, julho 31, 2021

sexta-feira, julho 30, 2021

quinta-feira, julho 29, 2021

portugueses


PEDRO Mário de Alles  TAMEN

um dos meus poetas
(versos e poemas, aqui e aqui)

 

quarta-feira, julho 28, 2021

assim 4 notinhas a propósito de Otelo e otelistas

1. Não estou a ver como o mesmo país que vilipendiou Salgueiro Maia enquanto recompensava pides, e deixou ir descansado Melo Antunes, iria pôr-se de luto nacional por Otelo. O que a uns falta em vergonha na cara, a outros falece em noção.

2.  E depois, há o problema das FP25. Dirigiu ou não aquele bando de tontinhos? Ele dizia que não, mas foi condenado pelos tribunais. Eu sei que um país que não é sério os tribunais também não são para ter em conta. Mas sempre se pode fingir. A tal gravitas... Se o Estado o condenou por terrorismo, bem ou mal, como o luto nacional?...

3. A ligação pelo menos moral de Otelo a um grupo armado parece não oferecer grande dúvidas. Este grupo de patetas armados fez vítimas, em nome de coisas baris. Ligações à ETA e ao IRA, diz-se. Não estou a ver a conexão. Estes têm a sua legitimidade, goste-se mais ou menos. As FP25 tinham onde, a puta da legitimidade? Só mesmo naquelas cabecinhas. Isto para dizer que um dia de luto nacional por Otelo -- enquanto ele não for ilibado -- seria um pano encharcado do Estado atirado à cara das famílias das vítimas daqueles gandas revolucionários. Quem não percebe isto é imbecil ou patife. Ou ainda -- atendendo a pessoas respeitáveis que o defendem --  que estão a celebrar uma fantasia. E para fantasias, não tenho paciência.

4.  Poderia caricaturar-me e dizer que nada a obstar ao luto nacional pela morte do autor de Alvorada em Abril (1977), que Pacheco Pereira diz que é o melhor livro escrito sobre o 25 de Abril. Se é o melhor, não sei; que é um livro esplêndido e pelo qual o seu autor está ainda mais na História, não tenho qualquer dúvida. Se daqui a 500 anos um historiador se debruçar sobre Portugal neste período, e pela revolução que encerrou um ciclo na vida do país, tal como sucedera com a de 1820, sem quaisquer outras que se lhe possam comparar, terá obrigatoriamente de ler o seu livro.

segunda-feira, julho 26, 2021

domingo, julho 25, 2021

portugueses


OTELO Nuno Romão SARAIVA DE CARVALHO

Objectivamente, um dos nomes eternos em 900 anos de História de Portugal.

 

sexta-feira, julho 23, 2021

quinta-feira, julho 22, 2021

os valores europeus , 60 dias de greve de fome

Ao fim de sessenta dias de greve de fome e pouco interesse da imprensa em geral, cerca de meio milhar de trabalhadores indocumentados na Bélgica suspenderam a luta em face de um sinal de cedência do governo, a caminho de se ver nos braços com novos Bobby Sands (afinal o que reclama(ra)m uns e outros a não ser o direito à dignidade de ser humano?) 

Um marroquino em lágrimas, na casa dos quarenta, dizia estar há dezassete anos na Bélgica sem quaisquer direitos ou segurança, para fazer o trabalho que os belgas não querem fazer, mas que os magrebinos como ele, ou os portugueses e os romenos executam. Estes têm a vantagem da estar dentro da UE, ao abrigo dos "valores europeus".

Ao contrário do cagarim provocado pela lei húngara, que põe as crianças ao abrigo da inculcação lgbt nas escolas, o que pode representar um atentado à autodeterminação sexual das crianças -- que têm mesmo de estar ao abrigo destes maluquinhos --, não vi a senhora Ursula von der Leyen e restante pessoal político a manifestar-se com tamanha indignação. 

A questão polaca: estou pouco informado, mas haver povoações que se autodesignam como "zonas livres de pessoas lgbt", já me parece demasiado acintoso e grave, fazendo quase lembrar os tempos dos pogroms. Quanto a isso, não deve haver qualquer contemporização. Mas nada de amálgamas,  uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, como diria o gil vicente.

Quando uma acção política -- mais ou menos acertada ou errática -- pretende salvaguardar crianças e jovens de abordagens que podem ser prejudiciais ao seu desenvolvimento integral e livre é apresentada com histeria como uma questão de direitos humanos, só apetece mandá-los à fava. Mas o governo húngaro persegue alguém por ser homossexual? Não podem estes organizar-se como bem entendem? 

Por falar em amálgama: ontem, no Telejornal, a propósito do referendo  que Orbán vai convocar, o pivot, tendenciosamente -- ou então não faz um cu do que anda para ali a dizer, como tantas vezes sucede com todos eles --, falou em "lei anti-lgbt". Nem vale a pena gastar latim com isto.

O ministro dos Negócio Estrangeiros do Luxemburgo contratacou a notícia do referendo húngaro propondo um referendo europeu para saber se a Hungria deve continuar na UE, algo que presumo nem esteja previsto nos tratados. O descabelamento e a patranha.  E depois dizem que não há lóbi gay... O que não há é lóbi suficientemente influente para os indocumentados que têm de viver uma vida clandestina, ao sabor da sorte.

Em tempo: e por falar em maluquinhos, à solta no seio do governo e no PS, vale a pena ler tudo aqui

"Estudos Culturais" ministrados por analfabetos, deixando os alunos ainda mais analfabetos do que quando entram nas universidades. E depois, o vezo censório. Bem podem argumentar que não há guerras culturais (elas já estavam no meio de nós antes de darmos por elas). Tal como o choque de civilizações, que o politicamente correcto negava. Temos visto.

Em tempo 2: não fora Igreja e as associações de apoio aos imigrantes, e eles bem podiam estar à espera das indignações de Ursula, no MNE luxemburguês e até de Santos Silva...

Em tempo 3: é uma pena que o tema da liberdade esteja a ser deixado à Direita, usado de forma oportunista pelo populismo. Mas a culpa é só da esquerda. Hei-de voltar ao tema.  

 

«O Grande Amor»

terça-feira, julho 20, 2021

«Leitor de BD»

 

Les Âges Perdus, de Jerôme Le Gris e Didier Poli

segunda-feira, julho 19, 2021

domingo, julho 18, 2021

a arte de começar

 «Embarquei-me enfim com a minha fazenda numa nau que ia com muitos cavalos e pimenta em que era capitão Dias de Almeida, de alcunha o Tigre, filho do conde de Alcântara, o qual carregava a ossada do pai para Goa, donde seguiria para Coimbra, dando cumprimento a uma ordem de El-Rei Dom Manuel. Levávamos connosco  o Vasco Pereira, pai de Diogo da Costa, alcaide-mor de Pinhel, aquele mesmo que logo no ano seguinte havia de falecer em Goa do coice dum cavalo. E, velejando desde as seis horas da manhã, com ventos bonanças, avistámos uma vela que nos pareceu uma galeota turca e seguimo-la marcados pela sua esteira para a abalroarmos, mas ao cair da noite pôs-se uma calmaria que não nos deixou navegar mais e decidiu então Dias de Almeida aguardar pela madrugada.»

Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso (1982)

sábado, julho 17, 2021

sexta-feira, julho 16, 2021

Cuba, notas breves, impasses vários

 Ando há dois dias à volta deste texto, com medo de precipitar-me; até porque sou um conhecedor superficial da realidade cubana. Ou seja, sei o que toda a gente sabe, ou só um bocadinho mais do que a generalidade dos cidadãos. No entanto, quero escrever algo, tentando algum equilíbrio, porque a realidade nunca é maniqueísta.

1. Que faria se fosse cubano? Quereria uma sociedade livre e justa; e portanto, se fosse um rapaz novo, estaria na rua, suponho; até porque dificilmente teria a noção de que a CIA também por lá anda, o que não serve de desculpa para o resto. Cuba não é uma sociedade livre, como toda a gente bem formada sabe; Cuba não pode ser uma sociedade justa. Onde há apparatchiks -- e são quase todos, é da natureza dos sistema --, há privilégios de casta. Onde há privilégios de casta, não há comunismo nenhum, mas apenas uma aldrabice, mais ou menos sofisticada.

2. Cuba antes da revolução: um bordel da máfia, uma cloaca para os dejectos norte-americanos, como a generalidade dos países da América Central, os tais shitty countries do falecido Donald Trump, donde promanou a expressão "república das bananas", e dos quais milhões de miseráveis partem todos os dias até à fronteira do México com os Estados Unidos, fugindo ao destino que está marcado aos filhos dos pobres, tráfico, banditismo, se rapaz, a prostituição, sendo rapariga. Ora, há que dizê-lo, alto e bom som, que destas maravilhas do mundo livre, passou Cuba a estar privada desde a revolução, o que não é pouca coisa, por muito que Biden e os antecessores queiram resgatar aquele povo que tanto amam da opressão.

3. Fidel Castro. Por muito que não se goste do estatismo burocrático pseudocomunista -- e eu detesto-o, como se viu --, há algo que ninguém tira a Fidel Castro e aos restantes companheiros da revolução cubana: a dignidade de pegar em armas e derrubar um pequeno pulha. E, já agora, o de transformar um estado latrina (como o são os países centro-americanos, com excepção da Costa Rica) numa outra coisa, que naquele continente os dedos de uma só mão sobram para que se encontre semelhante. Claro que o Castro instalou-se no poder, e o poder corrompe, não apenas os fracos.

(Parênteses: Castro não era comunista; foi a brutalidade arrogante dos americanos, que se combina com estupidez e cupidez em dose cavalar -- e que está na origem de boa parte dos conflitos em que eles se meteram (ler sempre O Americano Tranquilo do Graham Greene, deveras instrutivo) -- que empurraram Fidel, educado pelos jesuítas, para os braços da União Soviética, o melhor que ele fez, de resto, para a manutenção no poder.)

4. Claro que isto não serve de desculpa para os impasses daquela sociedade -- mesmo com o bloqueio americano --, porque o comunismo estatista é uma aberração, como aliás desde sempre avisaram os anarquistas. Não há "partidos" revolucionários e muito menos governos (um "governo revolucionário" é uma contradição nos termos, escreveu Kropótkin). Quanto a haver "estados revolucionários", só por piada se pode dizê-lo; piada amarga, para muitos que o sofrem. A táctica leninista de assalto ao estado alcandora o Partido ao poder. Dali brotaram chefes sanguinários impiedosos e sanguinários, Lénin, Tróstky, sátrapas como Stálin e Mao, alucinados tais Enver Hoxa ou Ceausecu, e até ditadores suaves, como o húngaro Kadár ou o croata Tito. Olhar para Brejnev e ver a traição a qualquer ideal revolucionário e a ausência de um pingo de vergonha na cara. Quem diz Brejnev diz os outros todos, ou quase. Um dos poucos verdadeiros revolucionários do antigo Bloco Leste foi o eslovaco Dúbcek, cujo nome deveria fazer corar qualquer defensor do burocratismo soviético. 

5. Revolucionários transformados em funcionários, um vício de base. A funcionalização da política: o carreirismo, o amiguismo, a incompetência, a mediocridade e quantas vezes a impunidade. É assim o funcionalismo, nem pode ser doutro modo. A natureza humana. O sovietismo aí está, longo cortejo de horror, arbitrariedade, não vale a pena virem com a costumeira língua de pau. Até já estou a ouvir: "e então os crimes do capitalismo?...", como se esses outros actos nefandos, feitos em nome de nada que não a cupidez e mentiras mal amanhadas (veja-se a criminosa invasão do Iraque), isentassem, desculpassem, suavizassem os crimes do outro lado. Pois para mim é precisamente o contrário: é mais grave a mentira do lado que proclama a emancipação humana e a trai; o capitalismo (os subprime, os bes, todo esse lixo) é aquilo mesmo, rapina, e como tal deve ser tratado, sem ilusões de bondade.

6. Economia de guerra e índices de desenvolvimento na saúde e na educação sem par naquelas bandas já não comovem uma geração que quer respirar, e que obviamente assiste ao nepotismo e impunidade de um regime de funcionários, que é nisso que se tornam os revolucionários quando se sentam nas cadeiras do poder, retrato expressionista da fraqueza humana ou caricatura de si próprios. Por essa razão, um revolucionário autêntico como o Che Guevara, pese os seus erros, se afastou para fazer a Revolução alhures. Alguém imagina o tédio (quando não o nojo) do Che no meio de funcionários, discutindo informes, tendo de gramar ora o sabujo, o puxa-saco (na maravilhosa expressão brasileira) ora o oportunista, carreiristas todos, ou quase? Cristo!... 

7. Não sou especialista em Estratégia para arriscar uma prospectiva, no entanto a situação do actual poder cubano parece desesperada. Os Estados Unidos vão fazer ali o que lhes apetecer (Biden não é Obama) e sem nenhum respeito, a partir do momento em que a Rússia deixou claro que a soberania dos vizinhos é limitada. Putin bem avisou, mas não o quiseram ouvir. Se tal vier acontecer, resta esperar que o alto índice de instrução da população cubana, uma das conquistas da sua revolução, e os exemplos de máxima degradação da vizinhança possam impeli-los a construir uma sociedade não apenas livre para todos os indivíduos, mas justa.

terça-feira, julho 13, 2021

«Leitor de BD»

"100 Semanas"

 

segunda-feira, julho 12, 2021

caracteres móveis

«A casa tinha, agora, um penacho de fumo, fumo da tarde, do jantar --  algodão em rama que se desfazia, translúcido, quase azul.»*

«A torre da Sé deformou-se: o granito aliado à névoa, a névoa de mistura com a noite, abriram arcarias, alongaram as portas e fizeram dos restos da muralha antiga um tropel caótico.»**  

«Uma menina de quinze anos, que a leitora, enjoada das indecentes cuecas do Sr. Silva, pode ver, no segundo andar desta mesma casa, sentada a costurar na varanda, com uma gata maltesa no regaço, e um papagaio ao lado, que lhe depenica os sapatos de cordovão.»***


* Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

** Raul Brandão, A Farsa (1903)

*** Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854)

Portugueses


VASCO de Castro

 

domingo, julho 11, 2021

caracteres móveis

«Enquanto lavava os dentes, o espelho da casa de banho mostrou-me cruelmente os estragos, de capela abandonada, dos anos.»*

«Numa mercearia ao lado, a gente da geral comia pão com queijo e decilitrava.»**

«Os meus amigos já lá não estavam, as pessoas que eu amara tinham morrido, a idade não me permitia voltar aos lugares queridos -- a escola primária, o parque, o campo de futebol, a varanda da minha casa fustigada pelo sol das três da tarde --  sem sentir que o meu corpo era demasiado grande para o tamanho desses espaços na memória, que eu era demasiado novo para o conforto da nostalgia, demasiado velho para reviver sem culpa certas alegrias da infância.»***


* António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)

** Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)

*** Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2013)

sexta-feira, julho 09, 2021

quinta-feira, julho 08, 2021

terça-feira, julho 06, 2021

«Leitor de BD»

 

Bob Morane -- A Espada do Paladino, por Vernes e Forton

segunda-feira, julho 05, 2021

confundir cu e calças

 Às vezes acordo tarde, e como o chaço do meu despertador só ouve a Antena 1 (a emissão musical durante o dia está abaixo de cão, desde que saiu o António Macedo), acontece apanhar o "fala com ela", que me faz saltar logo da cama. Ora, neste sábado levantei-me  nauseado com as banalidades emitidas por um fulano que produziu um opúsculo sobre a "nova masculinidade". É tão nova que pôs do avesso um título célebre de Luís de Sttau Monteiro, com mais de sessenta anos, Um Homem não Chora. Então, Os Homens Também Choram mostra a diferença entre a virilidade de uma posição crítica num contexto de censura e repressão (Sttau foi preso pela Pide) e esta coisinha pífia e maricas da nova masculinidade. Eu, que sempre fui velho e me sinto cada vez mais antigo, sou um tipo de lágrima fácil, farto-me de chorar. 

É verdade: ainda há marialvismo, que é um tipo de masculinidade cretina; e machismo em barda, e é óbvio que a violência doméstica é um flagelo, mas isso tem que ver principalmente com educação e civismo, que, como sabemos não abunda no rectângulo. Se houver por aí algum homem abaixo dos cinquenta anos que se sinta beliscado na virilidade por pôr a mesa, lavar a loiça, engomar, tratar dos filhos, etc., internem-no numa ala psiquiátrica, por falta de empatia, ou num campo de reeducação maoísta como inimigo do povo, pois não se trata de um caso de masculinidade, mas de saúde mental ou iliteracia cívica. Aliás, não conheço nenhum homem de nenhuma idade para quem isso constitua qualquer espécie de problema. Mas admito que ainda exista por aí. Masculinidade e violência doméstica, ou até onde se pode ir no estereótipo. 

Nasci e cresci num meio moderadamente machista (o normal numa família alargada de classe média na década de 1960), como me lembro de ver o meu avô paterno coser à máquina e pendurar cortinados, tenho muito pouca paciência para generalizações fáceis. É como a história do racismo sistémico que para cá quiseram importar e que os novos analfabetos, masculinos e femininos, engolem sem dor.

Corria o programa ainda no início, e antes de fugir para a casa de banho, lá veio a lengalenga dos brinquedos para meninos e meninas: porque não se compravam bolas às raparigas (a sério?) ou um nenuco aos rapazes? Seria mesmo um nenuco que estaria na mente do cidad@o? A impressão com que fiquei é que na verdade o bom seria dar uma barbie aos rapazinhos ou luvas de boxe às meninas (sim, vi o Million Dollar Baby, grande filme como os outros do Clint Eastwood). Tentar à outrance contrariar a chata da biologia, efeminar rapazes, masculinizar raparigas, num glorioso encontro da espécie em que o sexo é anulado, um sonho em que Romualdo passa a Custódia, porque se fartava de chorar no banho. 

Já para aqui escrevi que dos meus quatro filhos, foi a minha mais nova quem comigo mais brincou com carrinhos da Matchbox. E, por falar, em roupinhas e bonecos, sou da geração do Action Man; eu e os meus amigos brincávamos com os fatos de astronauta, explorador, militares dos três ramos, etc. A costureira lá de casa até fez um fato de cozinheiro...

É o ar do tempo merdiático: confundir o cu com as calças. 

sexta-feira, julho 02, 2021

'Leitor de BD»




Bruno Brazil - Black Program, tomo II, por Lauret Frédéric Bollé e Philippe Aymond

 (aqui)

quinta-feira, julho 01, 2021

Portugueses


ANTÓNIO COIMBRA DE MATOS

 

Portugueses


Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre,
9.ª Condessa de Assumar, 4.ª MARQUESA DE ALORNA 
(retrato por Joseph Pitschmann)