quarta-feira, setembro 18, 2013
Não ouvi as justificações do Crato para acabar com o ensino do inglês no básico, mas deve ser repelentemente falsa e ordinária. Eu tive e tenho os meus filhos em colégios, sai-me do bolso, mas o problema é meu, estou-me a cagar para o Crato. O pior são aqueles que não se podem cagar para o Crato, como eu me estou a cagar para o Crato e a sua escandalosamente miserável governação.
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ainda a nutritiva dieta do operário lisbonense, seguindo-se inevitável episódio de violência doméstica
Faltava, porém, o flagelo das classes laboriosas, o vinho, que desgraçava indivíduos e famílias, a tal ponto que as publicações destinadas aos trabalhadores -- tantas vezes lidas em grupo, pois a maioria era analfabeta -- empreendiam uma profilaxia de conselhos úteis, visando afastar os homens das tabernas. (A Taberna de Zola...) O Serafim de Amanhã, pede vinho à mulher, que primeiro se faz desentendida, gracejando; informando, depois, que não há, quando percebe que seria escusado o esconde-esconde, até que, brutal, o homem a agarra pelos pulsos, insiste e esbofeteia-a. Clara, que queria protegê-lo, e proteger-se, do alcoolismo -- "Deixaste esse vício tomar-te posse do corpo" --, reage com doestos e lamentos.
Alertada pelo chinfrim, irrompe outra mulher, magra e adoentada, porém afável, conciliadora, "uma bondade escampe água-tintada na garça translucidez dos olhos." Chama-se Ana.
Abel Botelho, Amanhã (1901) #4
Porto, Lello & Irmão, 1982, pp. 11-13
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terça-feira, setembro 17, 2013
não são sãos
...e os operários também não são sãos. Serafim, fisicamente comprido e corrompido, derreado e esverdeado: "o longo dorso alcachinado, onde, escorchadas com anatómico rigor, as omoplatas cavavam esqueléticas sombras"; Clara resistindo à decadência física, ("os seus olhos lutando ainda contra a consumpção, cujo triunfante estrago se anunciava já"), mas irremediavelmente condenada.
Repasto frugal, evoco Picasso, mas é em Van Gogh e n'Os Comedores de Batatas que penso, ao percorrer as linhas desta traparia humana, deparando-me com as palavras soturnas na pouca luz da cena, que um frio húmido a anunciar chuva ainda mais deprime: "A luz titubeante da candeia estirava num realce cruel todos estes sinais patentes de ruína".
Amanhã, de Abel Botelho (1901) #3
Porto, Lello & Irmão, 1982, p. 11.
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segunda-feira, setembro 16, 2013
sopa de pobres
Temos um homem que chega a casa, a reclamar pela ceia. Chama-se Serafim, "figura esgalgada e curva". Responde-lhe uma "mulherita atarracada e bruna", com rispidez, como se estivesse farta de esperar. Serafim ordena-lhe que o sirva e estira-se sobre um mocho, "projectando o chapéu com arremesso." É um operário, e deve estar cansado dum dia de trabalho. Lesta, candeia pela mão, ela põe-lhe o tacho "sobre a gorduragem gretada das tábuas ressequidas" da mesa.
O quadro é neutralmente popular, ou quase, embora já com indícios de pobreza e desmazelo, até à pergunta da mulher, Clara, saberemos a seguir: "Estás com gana hoje?"; pretexto para olhares enviesados e malévolos, semblantes patibulares, até à implicação animalesca, que termina com o domínio imperioso do macho, "Senta-te!", desferindo ameaças de lhe chegar a roupa ao pêlo, mais pelo hábito da ameaça que por real vontade de a agredir. Esta, por sua vez, não deixa também de largar a sua imprecação, entre o medo e o desafio que, contudo, não impedirá mais gestos e palavras que possam retomar este ordinário ritual amoroso.
São assim, os rituais do amor entre o povo, brutais como o povo é -- modos e comportamento de que a pequena, média e grande burguesias alfacinhas estão arredadas -- como, de resto "o Autor" prevenira em carta-antelóqiuo do romance, dirigida " À Ex.ma Senhora D.M.D. e S.C.C." São assim, vírgula, porque o povo não se faz só destes serafins e destas claras que o narrador nos apresenta.
Para já, deixêmo-los -- depois do pão e das azeitonas -- a cear, com cinco linhas de Botelho (na minha edição), para descrever essa "negra e triste aguadilha, mosqueada de olhitos de azeite, condensando na frialdade do ambiente um vapor nauseabundo, e de cuja dessorada fluidez a quando e quando emergia a ironia cortical dum feijão, ou a coriácea insipidez dalguma couve saloia."
Amanhã, de Abel Botelho (1901) #2
edição Justino Mendes de Almeida, Porto, Lelo & Irmão, 1982, pp. 7-8.
edição Justino Mendes de Almeida, Porto, Lelo & Irmão, 1982, pp. 7-8.
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domingo, setembro 15, 2013
sábado, setembro 14, 2013
RE: ilhas desertas
Ainda não estou em idade só de re-ler, re-ver, re-ouvir, felizmente. Mas não prescindo do conforto de re-visitar todos os livros, discos, filmes que me marcam e me dão um supremo gozo estético e intelectual. Dão, porque em arte detesto a nostalgia. Decidi, então, celebrar-me (!) os 50 anos -- que só se completam a 12 de Junho de 2014 -- a escrever sobre 50 livros, bd's e discos (os filmes e os quadros virão mais tarde, se vierem). Não são OS 50, mas os primeiros 50 de muitos outros que poderiam aqui figurar e que levaria para a sempre desejada ilha deserta. Só impus uma restrição nos livros: a de serem narrativas em português -- talvez porque, de todas as artes que por aqui passam, a escrita foi única que me deu uma ilusão de acolhimento. E criei um blogue, o 50, só para guardar os textos que me possam suscitar cada página, cada faixa, cada prancha.
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Rory Gallagher, o guitarrista de quem gostávamos.
Gallagher era simples e sério, profundamente honesto com o seu trabalho, e, talvez por isso mesmo, antivedeta -- rara excepção nesse tempo de rockers multimilionariamente kitsch. Em Guitar Héros (Paris, 1983), Hervé Picart, a propósito das qualidades humanas e artísticas do grande guitarrista irlandês, escreveu: «Alors que la plupart des guitar-heroes sont parvenus à se faire admirer, Gallagher posséde le privilège exorbitant de s'être fait aimer.»
Procurando fotos para ilustrar o post, encontro esta que ilustra bem as palavras do crítico francês. Há dez anos escrevi um poemeto intitulado Rory Gallagher: Follow Me. (tema de Top Priority). A estátua de David Annand, coincidência deliciosa, tem-no também inscrito na base.
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sexta-feira, setembro 13, 2013
quinta-feira, setembro 12, 2013
nem Bougainville nem Rousseau: A BALADA DO MAR SALGADO #1

«Sou o Oceano Pacífico e sou o maior». No meio do Pacífico, após fera tormenta a desmentir o nome do grande mar, um catamaran pejado de piratas das Fiji, capitaneado pelo desertor Rasputine, avista, o mar ainda revolto, uma chalupa de náufragos.
O Oceano dissera-nos do seu espanto por ver ainda à tona a embarcação nativa -- sinal do desembaraço da tripulação indígena, ou «algum pacto com o diabo» celebrado.
Rasputine lê a Viagem à Volta do Mundo, do barão de Bougainville, o mesmo que descrevera aquelas paragens nos antípodas como um paraíso terreal, em que a espécie humana não fora ainda corrompida pela civilização. O bom-selvagem do Rousseau vem daqui...
Os naúfragos são um casal jovem branco, passageiros do "A Jovem de Amsterdam", "uma bela galeota de milionários", diz o pérfido russo, acolhendo a sugestão dos seus marinheiros, já pouco partícipes dessa idílica visão bougainvillesca-rousseauna, de aprisionarem os desafortunados -- em troco de pagamento de resgate, claro está...
Hugo Pratt, A Balada do Mar Salgado
pranchas 1-2
Hugo Pratt, A Balada do Mar Salgado
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quarta-feira, setembro 11, 2013
figuras de estilo - Liberto cruz
Viver é preparar-se para escrever e escrever é vomitar toda a alegria e toda a náusea da vida. Mas esse vómito tem de ser efectuado com o mesmo prazer e a mesma dor de quem come ou fornica: até à exaustão.
"Introdução" (1974) a Blaise Cendrars, A Poesia em Viagem
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terça-feira, setembro 10, 2013
segunda-feira, setembro 09, 2013
músicas grandes - Freiburg Baroque Orchestra
Adagio do Concerto Brandeburguês #1
Johann Sebastian Bach
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Cesário Évora & Frank Marluce
Eu sei que no melhor pano cai a nódoa; e também sei que o jornalismo é feito sempre a correr. Mas, que diabo!, não podia o Expresso ter uma revisão mais cuidada e esclarecida? É que na última Revista, a propósito da (inevitavelmente) discutível lista dos "100 Portugueses -- Figuras que moldaram o século XX", no texto sobre Carlos Paredes, citando-se o poeta de Lisboa, Cesário Verde aparece como "Cesário Évora"; e na evocação de Melo Antunes, Frank Carlucci, embaixador americano durante o PREC, ganha o inusitado apelido "Marluce". Não sei se José Pedro Castanheira -- de resto, um dos melhores jornalistas portugueses -- estaria a estranhar que na segunda divisão dessa lista de 100 portugueses notáveis surgisse, como surgiu (e isto nada tem que ver com o caso Casa Pia), o nome de Carlos Cruz...
domingo, setembro 08, 2013
sábado, setembro 07, 2013
sexta-feira, setembro 06, 2013
VISITA À MÃE
Tiro do último JL este extraordinário Visita à Mãe, de João Abel Manta.
A mãe era a pintora Clementina Carneiro de Moura, a mesma que aparece no esplêndido Jogo de Damas, do seu marido, Abel Manta. Todos estes Mantas, mais a filha do primeiro e neta dos segundo, Isabel Manta, estarão em exposição, a partir do dia 13, no Centro Cultural de Cascais.
Extraio, também, um fragmento das declarações de Júlio Pomar, a propósito desta notável família: «Dentro da Lisboa culta da altura, a família Manta tinha uma posição de destaque. [...] É difícil transmitir hoje o que foi o Estado Novo. Portugal era um país extremamente fechado, com uma vida cultural clandestina, e dentro deste clima havia 'ilhas? que mantinham uma posição acima dessa linha muito baixa. A família Manta era uma dessas 'ilhas'.»
quinta-feira, setembro 05, 2013
JornaL - Van Dyke Parks
Prog #37,
Jul. 2013
quarta-feira, setembro 04, 2013
já agora, sobre o piropo
Sem querer fazer sociologia barata, trata-se em grande parte dum efeito da terrível condição da generalidade dos portugueses: primitivos, rústicos, incivis, consequência da sua secular condição servil e subalterna, pela ausência de um mínimo de educação e condições de vida, assim era o país até 1974. Esta realidade não se altera em uma geração: 40 anos depois do 25 de Abril, a paisagem dominante já não é de trolhas, criadas de servir e trabalhadores rurais; mas eles aí estão, e os filhos que pariram e que, em muitos casos, não souberam (não podiam saber) formar -- agora com os últimos gadgets, muitos com passagem pela universidade, mas sem ponta por onde se lhes pegue. Basta ver a preeminência dos futebóis e todas as merdinhas que lhes estão associadas, ou a quantidade de gente que vive a vida dos outros nesses pasquins ditos cor-de-rosa; basta ver a falta de qualidade dos nossos canais noticiosos, supostamente destinados a uma elite. O vulgar, o brejeiro são ainda a nossa realidade quotidiana. Outra coisa, só por milagre.
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JornaL - Will Sergeant
Prog #37, Jul. 2013,
entrevista a Rob Hughes
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terça-feira, setembro 03, 2013
Antologia Improvável -- Júlio Evangelista
ARRÁBIDA
O vento bate na face
De quem sobe àquela serra.
Vento que por ali erra
Bate na face a quem passe
Perto do cimo da serra.
Bate forte, o vento forte,
Chicoteando com força,
Ao vir das bandas do norte,
Chicoteando com força,
Dono da serra e da morte.
Consente, vento, que eu passe
Pelo alto desta serra
E não me batas na face
Porque, se mais não bastasse,
Basta eu ser da tua terra.
Não grites assim tão forte
Nem te exaltes contra mim,
Porque eu também sou do norte:
Donde tu vens, também vim,
Vento que ventas do norte.
Venho ver frei Agostinho;
Trazer ao Frade saudades
Das verdes terras do Minho:
Venho falar de saudades
Com o Poeta Agostinho.
Morreu o Sebastião
Que lhe falava, falava,
Das coisas do coração.
E o frade está desolado
Era quase como um irmão!...
Ele mora ali em cima
E a conversa não demora.
Venho falar-lhe do Lima,
Venho falar-lhe de Ponte,
E outras coisas que ele ignora.
Regresso depois ao Minho,
Vento que sopras do norte
E guardas Frei Agostinho.
Se um dia quiser recados,
Traze-los tu, vento norte?
Arrábida, 8/3/53
António Mateus Vilhena e Daniel Pires,
A Serra da Arrábida na Poesia Portuguesa
o que tinha Jorge Amado?
Jorge Amado tinha 24 anos no ano de Mar Morto (1936), e já publicara Jubiabá, entre outros. Tinha o calo de vida vivida e formação cultural e académica. E tinha a prática de boémia dos jornais, o conhecimento directo das suas putas, dos seus vagabundos, dos coronéis da família e dos seus jagunços. Tinha uma consciência política e já uma ortodoxia de que só se libertará vinte anos mais tarde -- mas que felizmente não surge aqui. Tinha uma aguda percepção do que era, ou de como devia ser, o romance: viril, poeticamente viril.
Ei-lo que avisa, antes de a narrativa se iniciar: «Agora eu quero contar as histórias da beira do cais da Bahia.» Os trabalhadores e os marginais, por vezes uma e a mesma coisa: «O povo de Iemanjá tem muito que contar.» Ele é o veículo dessas histórias de luta, amor e morte, anunciando-as em nota prévia e para a praça pública -- como um autor de literatura de cordel, um vendedor de almanaques pelas feiras: «Vinde ouvir essas histórias e essas canções.» Nem poeta mimoso nem romancista funcionário ou jornalista vendido; Jorge Amado dessacraliza-se como escritor; e com essa verdade inocente, já era grande aos 24 anos.
edição: Livros de Bolso Europa-América, 4.ª ed., Mem Martins, s.d.
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JornaL - Pat Metheny
a Sid Smith
Prog #37,
Julho 2013
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segunda-feira, setembro 02, 2013
foice-feixe-forquilha-carro
Tempo de colheita para os servos. As mãos cruzam-se, afanosas, foice-feixes de trigo-forquilha-carro de bois. O tempo está quente, e o característico rugoso do traço de Hermann mais sobressai. Na vinheta central da primeira prancha todos labutam, excepto um cão deitado ao lado dum canjirão ou jarro semelhante. Todos, menos Babette, em primeiro plano, que estaca olhando enlevada para fora do quadro. Observada pelo irmão, no cimo dos molhos de trigo, o pai é alertado: "Tenho a impressão de que a Babette tem outra paixoneta aí pelos bosques." Foice em punho, o chefe da família, sorrateiro, descobre e enxota o intruso, também ele especado, voltando-se depois para Babette na intenção de arriar-lhe o bastão. Subitamente, enquanto a rapariga ensaia a fuga floresta adentro, irrompe um veado espavorido do arvoredo, ouve-se um sopro de caça, cães e logo atrás cavaleiros avançam a galope pelo campo de trigo, espezinhando as espigas.
Hermann, As Torres de Bois-Maury -- Babette (1985), pranchas 1-2
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sinestesia minhota: Ruben A., A TORRE DA BARBELA (1964) #4
E depois há o estilo, preciso, límpido e contido do paisagista Ruben A., como neste parágrafo magistral, em que o narrador se posta ao cimo da torre triangular, pondo-nos diante dos olhos um horizonte minhoto, e cuja sinestesia passámos a compartilhar com os turistas domésticos:
«Respirava-se um ar vivaz que nos poros mais fechados entrava, descarado, à procura de infiltrações para uma dilatação alegre. Defronte, a serra de Arga desdobrava-se em matizes que deixavam ver lugarejos a deitar fumos pelas frinchas de telhados com remendos, e raro em raro, navegava um barquito de viagem a Ponte de Lima e aos Arcos, ajoujado de pipas, sacos de batatas, caixotes de sabão em barra e vassouras empalhadas.» (p. 11)
Um estilo que, neste particular, me lembra muito o de Ferreira de Castro.
edição: Círculo de Leitores, Lisboa, 1988
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domingo, setembro 01, 2013
a campanha pelo Colégio Militar
Muito boa, esta campanha em defesa do Colégio Militar. Nunca lá andei, embora familiares e amigos o frequentassem. Não tenho com ele qualquer identificação, nem especiais simpatias ou antipatias. Gosto de ver a sociedade civil enfrentar o terrorismo de estado protagonizado pelo governo, seja o Colégio Militar ou a Maternidade Alfredo da Costa.
sexta-feira, agosto 30, 2013
entre digestões e Salazar: Ruben A., A TORRE DA BARBELA (1964) #3
Ainda a procissão ia no adro, ou melhor: ainda era de dia -- o período mais desinteressante na velha Torre da Barbela --, os poucos visitantes "do costume" iniciavam a ascenção dos seus 32 metros, e já o narrador pusera o caseiro-guia, muito despachado nas suas "lérias de almanaque", em "ascrições latinas", pedras de "prumitiba" ou mortes por "adigestão" para impressionar os excursionistas, que rapidamente se desvanecerão, sem outro interesse na narrativa que não fosse o de pontuar a vetustez e decorrente interesse patrimonial do edifício -- como seria de esperar dum grupo de de excursionistas.
O registo é cómico desde o início: a fila de visitantes a caminho do alto é comparada com uma espécie de lombriga subindo por um enorme tubo digestivo, o próprio monumento:
«A bicha dentro do esófago da Torre contava para si os martírios passados naquela ascensão; uns davam as has de alívio, outros comparavam com a escadaria do Bom Jesus do Monte, com a Torre dos Clérigos e ainda recordavam a subida ao Santuário de Lamego.» (p.8)
Ao tom farsante, imagens do remanso bucólico do país: o rio Lima, «calão e adormecido», que «nem sabia de onde vinha»; «saudades da Índia à deriva num mar vegetal», Natureza «a queixar-se do reumático», quotidiano vegetativo.
"O dono actual, burgesso" deste "monumento nacional" deixava-o ao abandono: «E talvez fosse melhor assim. Não se industrializava nem se ofendia o sagrado das pedras, testemunhas de feitos extraordinários.» (p.10) O dono da Torre que evoca o Portugal da época -- vasta paisagem para lá de Lisboa -- e o dono dele, Salazar.
edição: Lisboa, Círculo de Leitores, 1988
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Síria: provas, queremos provas
Francamente, não me importa que haja intervenção à margem do Direito Internacional se existirem provas contra o regime sírio. Não havendo, tudo não passará de manipulação grosseira e/ ou duvidosas e débeis convicções.
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quinta-feira, agosto 29, 2013
uma epígrafe de Sá de Miranda
«Logo os meus olhos ergui / à casa antiga e à Torre / e disse comigo assi: / 'Se Deus não val aqui, / perigoso imigo corre!» -- n'A Torre da Barbela, de Ruben A. (1964)
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M. Teixeira-Gomes, ou da estética à coisa
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| MTG, embaixador em Londres (fonte:http://relogiodaguaeditores.blogspot.pt/2013/05/) |
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quarta-feira, agosto 28, 2013
cantante
Sabina Freire, a arguta e capitosa protagonista da peça homónima de Teixeira-Gomes, "é uma cantante!"
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terça-feira, agosto 27, 2013
Machado de Assis tem estilo, e cargas de profundidade (DOM CASMURRO #2))
Sou advertido, eu, leitor -- e gosto deste humor desprendido que me interpela --, para não procurar em dicionários: casmurro aqui não é sinónimo de teimoso; e fico desde logo a saber: "[...] se não tiver outro [título] daqui até ao fim do livro, vai este mesmo.» Benévolo para com o "poeta do trem" ao ver a capa, "poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seu autores; alguns nem tanto." Serve para escritores-fantasma, ou homens-públicos que publicam...
A fluidez do estilo de Machado, apanágio só dos predestinados, menos pela desenvoltura que por algo ainda mais importante para o escritor do que o próprio estilo, a profundidade.
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segunda-feira, agosto 26, 2013
Rorschach
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13-VIII-2013
Acabei a madrugada a ler Watchmen (1986) de Alan Moore & Dave Gibbons. Não sou um indefectível dos comics, Batman (dos grandes autores) e The Spirit (do Eisner) à parte, entre poucos outros.
Tour de force que deu mais densidade às narrativas de super-heróis (apesar de Bruce Wayne ou Peter Parker...), touxe-nos também um fantasmagórico Rorschach. Walter Kovaks de seu nome civil, filho de prostituta e produto do que se julga poder ser o crescimento infantil, dos alcoices até à institucionalização, traumas de cuja existência se adivinha.
Chapéu, gabardine amarrotada, tanto quanto o gorro que exibe variáveis imagens de Rorschach, a cujo autor o anti-herói vai buscar o nome. Intuitivo, inteligente, Rorschach odeia os maus visceralmente, infligindo-lhe provações de violência e quase sádica, inflingindo terror aos delinquentes, como se fosse um Hannibal Lecter do bem, descontando-se a desordem canibal.
Capturado na sequência de uma cilada, cuja orquestração remete para o nó da narrativa, Rorschach é encarcerado numa prisão com mais de um recluso a querer ajustar contas passadas. Em anotações de trabalho, o psicoterapeuta da cadeia -- excelente momento do cap. VI -- resume um grave incidente ocorrido no refeitório, entre o mais fascinante watchman e outros companheiros de cárcere: "Vocês não estão a perceber. Eu não estou aqui fechado convosco, são vocês que estão aqui fechados comigo."
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num inferno branco de neve e solitude
Um mapa centrado no Indocuche, abre a primeira prancha de O Avião do Nanga (1987) O Indocuche tem uma sonoridade com o peso de séculos, tempo que lhe empresta uma aura de terra mítica ou inventada, uma Camelote, ou coisa assim. E no entanto, o Indocuche existe; e ao contrário doutros topónimos congéneres -- Samarcanda, Bagdade, Cartago, Timbuctu... --, cujo prestígio lendário pretérito não aguenta o confronto com a realidade presente, o Indocuche -- por onde passou um raio chamado Alexandre, o Grande, e hoje brotam talibãs como as papoilas autóctones -- persiste em nos desinquietar, como uma vinheta de Hermann para um argumento de Greg...
Nessas montanhas, nesse "inferno branco" de neve e solitude, despenha-se um monomotor pilotado por um ex-desertor da Luftwaffe (já estamos em 1948), como viremos a saber adiante. Ileso, porém sem rádio e poucos víveres.
Ao longe, um carreiro de formigas, que é uma caravana de camelos da Bactriana. Um tiro despedido por Adler ecoa por entre as fragas himalaicas. Se ouviram, não se sabe. A meio caminho entre duas cidades, Gilgit e Laore, Adler exclama: «Desta vez é o fim... Estou perdido!»
René Sterne, O Avião do Nanga, pranchas 1-2.
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terça-feira, agosto 06, 2013
Manuel Ferreira: "as bocas famintas, senhor"
Empurrados do interior, os povos buscavam o litoral na esperança de uma mandioquinha, de um caldinho de peixe, de um cana para chupar, ou de folhas verdes para mastigar. Qualquer coisa que lhes desse, ao menos, a ilusão de alimento. Mas nas povoações da beira-mar, mesmo nas terras maiores, os haveres tinham sido também arrasados pelos ventos da miséria. Nem a sopa da Assistência evitava que no alvor da madrugada a carroça da Câmara levasse os que haviam tombado, de noite, na rua, inteiriçados, frios. Nem a sopa da Assistência o evitava, bem se pode dizer: as bocas famintas, senhor, eram às dezenas de milhar.
início de Hora de Bai (1962), de Manuel Ferreira
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domingo, agosto 04, 2013
é noite em Notre-Dame-des-Lacs
Loisel & Tripp, Armazém Central (2006), pranchas 1-2.
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sábado, agosto 03, 2013
sexta-feira, agosto 02, 2013
Júlio Dinis: "a quadrupedante alimária"
Um, o mais moço e pela aparência o de mais grada posição social, era transportado num pouco escultural, mas possante muar, de inquietas orelhas, músculos de mármore e articulações fiéis; o outro seguia a pé, ao lado dele, competindo, nas grandes passadas que devoravam o caminho, com a quadrupedante alimária, cujos brios, além disso, excitava por estímulos menos brandos do que os de simples e nobre emulação.
A Morgadinha dos Canaviais (1868)
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Júlio Dinis
uma ilustração
creio que de Bernardo Marques (a assinatura
terá sido comida), para a capa da 2.ª edição de Pântano,
de João Gaspar Simões (1946)
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quinta-feira, agosto 01, 2013
"Aquela era uma noite diferente e angustiante."
Aquela era uma noite diferente e angustiante. Sim, porque os homens tinham um ar de desassossego e o marinheiro que bebia solitário no Farol das Estrelas correu para o seu navio como se o fosse salvar de um desastre irremediável. E a mulher, que no pequeno cais do mercado esperava o saveiro onde vinha o seu amor, começou a tremer, não do frio do vento, não do frio da chuva, mas de um frio que vinha do coração amante cheio de maus presságios da noite que se estendia repentinamente.
Jorge Amado, Mar Morto (1936)
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terça-feira, julho 30, 2013
"Uma noite destas..."
Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.
Machado de Assis, Dom Casmurro, 1900
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figuras de estilo - Raul Brandão
Vi não sei onde, num jardim abandonado -- Inverno e folhas secas -- entre buxos do tamanho de árvores, estátuas de granito a que o tempo corroera as feições. Puíra-as e a expressão não era grotesca mas dolorosa. Sentia-se um esforço enorme para se arrancarem à pedra. Na realidade isto é como Pompeia um vasto sepulcro: aqui se enterraram todos os nossos sonhos...
Húmus (1917)
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segunda-feira, julho 29, 2013
sexta-feira, julho 26, 2013
figuras de estilo - Agustina Bessa Luís
«Um dos seus prazeres consistia em analisar-se como conteúdo de todo um passado, elemento onde reviviam as cavalgadas das gerações, onde a contradança das afinidades vibrava uma vez mais, aptidões, gostos, formas que, como um recado, se transmitem, se perdem, se desencontram, surgem de novo, idênticos à versão de outrora.»
Agustina Bessa Luís, A Sibila
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quinta-feira, julho 25, 2013
a democracia e os seus carrascos
Um artigo de Maria João Tomás, investigadora e directora da Casa Árabe em Lisboa, no último JL, elucida sobre o que foi o breve consulado da Irmandade Muçulmana no Egipto. Além da extrema incompetência governamental, traduzida pela degradação das condições de vida da população, cortes de energia intoleráveis, abandalhamento do espaço público no que respeita às condições de higiene e problemas afins, os irmãos muçulmanos entretiveram-se não apenas a perseguir as egípcias, como as turistas que não trajavam segundo os critérios considerados decentes pelos mentecaptos de serviço -- o que deve ter deixado muito satisfeitos os milhares (milhões?...) que vivem do turismo e respectivas famílias... Isto sem contar com discussões importantíssimas visando tapar as Pirâmides e a Esfinge (para evitar a idolatria) ou as partes pudibundas da estatuária clássica.
A estupidez, exponenciada pelo fanatismo, não podia deixar de ter o efeito que se viu, numa sociedade tutelada desde sempre pelo poder militar. Milhões (36, ao que parece) exigiram o derrube de Morsi. Como escreve a autora, de forma lapidar, «Rapidamente, o povo que neles havia votado, e que podia ser analfabeto mas não era estúpido, se apercebeu que era necessário acção, e que ser um bom muçulmano não dependia de apoiar as decisões atabalhoadas de Morsi [...] Afinal os analfabetos tinham mais sabedoria que os seus professores.»
Para mim, há uma fina linha em que o sistema demo-liberal não pode pactuar com os seus carrascos. Foi um problema com que a Argélia se deparou, já nos longínquos anos 90, quando a Frente Islâmica de Salvação venceu as primeiras eleições democráticas do país. Aí, nem chegaram a tomar posse, por pronta acção das forças armadas.
É claro que isto acarreta um problema de legitimidade democrática. Mas pode a democracia liberal permitir-se fornecer a corda com que a irão enforcar?...
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quarta-feira, julho 24, 2013
Maria Eduarda, Margarida Clark Dulmo & Leonor
No JL de hoje, José-Augusto França considera a Maria Eduarda de Os Maias (1888), "[...] a heroína do romance português, por excelência sua, do seu autor e no que dramaticamente pode ser entendido no Portugal (ou na Lisboa) do Romantismo [...]" («Maria Eduarda for ever!»)
Em matéria de personagens femininas, o Eça... (Já agora, n'Os Maias, nada me parece tão elevado e dramático como o velho Afonso ou tão seriamente divertido como o Ega, qualquer deles com lugar cativo na nossa pequena memória culta colectiva. A Maria Eduarda? Bah!, humana, demasiado humana -- como deveu ser...
Eu, confesso-me mais transportado pelo que não chafurda, por uma certa idealidade quase etérea, que compreende carácter, nobreza, abnegação -- na lama ou em berço de ouro. Daí a minha paixão por mulheres como a Margarida Clark Dulmo, de Mau Tempo no Canal (1944), de Vitorino Nemésio, ou a Leonor de Servidão (1946), de Assis Esperança.
terça-feira, julho 23, 2013
«Sofri demais para poder mentir.»
As Memórias da Grande Guerra (1919), de Jaime Cortesão -- obra-prima absoluta pela densidade poética que empresta ao testemunho vivido e sofrido, e pelo altíssimo valor literário. Oficial-médico voluntário na Flandres, tomou parte na sangrenta Batalha do Lys (na qual viria, aliás, a perder os apontamentos para estas memórias, reconstituídas com recurso a cartas e às reminiscência desta experiência-limite). Relato impressionante e inesquecível, apesar de alegremente desconhecido da maior parte dos leitores portugueses, o centenário que se avizinha é um bom pretexto para a reedição; embora não devêssemos necessitar de efemérides para ler, fruir e cultivar o que de melhor a nossa literatura tem.
«Direi apenas o que vi e ouvi. Sofri demais para poder mentir.»
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segunda-feira, julho 22, 2013
os poltrões
...entretanto, com verdadeiro enlevo, vejo notícia dos motins num subúrbio de Paris, porque um selvagem impediu que a mulher retirasse o véu, como a polícia intimara. Resultado: o selvagem na choça; bandos ululantes de jovens deformados por fanatismo pseudo-religioso, destroem. Se calhar consideram-no mártir, o poltrão, os poltrões.
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sim, sou de esquerda; sim, sou liberal
O socialismo (liberal) é uma ética e uma estética. O resto é umbiguismo rapace e mesquinho, ou ressentimento invejoso. Quer um quer outro inferioridades para que não tenho grande paciência (imagem do fb).
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domingo, julho 21, 2013
quinta-feira, julho 18, 2013
partidoecologistaportuguês"osverdes"
Essa fraude política aberrante que dá pelo nome de Partido Ecologista "Os Verdes" (!) -- o partido barriga de aluguer, como bem lhe chamou Augusto Santos Silva -- conseguiu a proeza de dar um balão de oxigénio a um Governo mais moribundo que Mandela. O PC (pois é dele que se trata) que já tinha sido indispensável para colocar Passos & Portas no poder, conseguiu até proporcionar esta tarde um grande discurso a Portas -- a Portas!, cuja credibilidade está pelas ruas da amargura... Que bonito, que bonito que é o PC. O que vale é que os topamos à distância, desde os tempos do camarada Zé Estaline.
lembro-me do Rascar Capac
Um panorama geral nocturno do Museu Nacional de História Natural, em Paris, por baixo a galeria de paleontologia. Hoje, 2013, um museu dentro do museu. (Eu já lá estive, e até me deparei com a vera efígie da especiosa Adèle Blanc-Sec). Estamos, porém, a 4 de Novembro de 1911. São onze e quarenta e cinco da noite. O ambiente é soturno. Tardi aproxima-nos, vinheta após vinheta, de um «Ovo de pterodáctilo (Fim do Jurássico) 136 milhões de anos». Ovo que começa a apresentar fissuras, para irromper na segunda prancha, dentro de uma vitrine que, ao quebrar-se nos prega um susto e faz lembrar uma outra, do arrepiante Rascar Capac (As Sete Bolas de Cristal). Adèle e o Monstro, pranchas 1-2.
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quarta-feira, julho 17, 2013
terça-feira, julho 16, 2013
o PS como "último reduto de responsabilidade patriótica"
Aqui.
Entretanto, o Bloco não anda a dormir. O PC está chateado.
(actualização: o PC já pode ser menos ríspido para com o BE, embora eu não acredite que este desça à condição de Partido Ecologista Português - "Os Verdes" ou lá o que é, ou de ID. A propósito: para ser-se membro da ID é preciso ter mais de 65 anos? A politiquice pateta segue dentro de momentos, com a moção de censura d'Os Verdes ou lá o que é).
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domingo, julho 14, 2013
do sentimento trágico da vida
Manuel da Fonseca é, sempre foi, o meu escritor de eleição da geração neo-realista de 40. Os romances, os contos, os poemas surgiram como se não fossem trabalho literário de um iniciante (como, ao tempo, notou João Pedro de Andrade). As suas personagens, os seus ambientes têm os contornos épicos e trágicos que lhes dá não apenas a desgraça da extrema pobreza alentejana, mas também um porte digno de muitos desses desvalidos, que lhes alimenta a propensão para a revolta. Revolta contra o que é mais forte do que eles, revolta, por vezes, nem sabem bem contra quê:
«Seca e breve como uma chicotada, a praga rompe dos lábios azedos da velha: /-- Raios partam este vento!/ Por instantes, as duas mulheres entreolham-se. A velha de punho no ar, a boca ainda aberta pelo grito. [...]» Seara de Vento (1958).
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quarta-feira, julho 10, 2013
Cavaco: Passos e Portas, rua!
Para além doutras interpretações, Cavaco diz: Passos e Portas, rua. Mas acautela a sua própria posição na previsível eventualidade de tudo ficar na mesma. Mas com esta moção de desconfiança ao governo, será que este aguenta até Junho?
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quinta-feira, julho 04, 2013
da dignidade, e da falta dela
Além desta coreografia mimosa com que Portas & Coelho brindam o país, o MNE ainda conseguiu tornar-se protagonista dum grave incidente diplomático com a Bolívia e, por extensão, com a América do Sul, pela postura acocorada do governo. (E atenção que eu não sou antiamericano. Nada me irrita mais do que o antiamericanismo primário e bacoco. Para ser antiamericano, teria de ser, antes disso e ainda mais, anti-russo, antichinês ou antialemão...).
Morales, que parece ter mais dignidade que os governantes portugueses, não vai deixar passar o caso em claro.
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quarta-feira, julho 03, 2013
terça-feira, julho 02, 2013
Portas: a jigajoga do chico-esperto
Portas, chico-esperto, acha que se pode limpar da porcaria que fez nestes dois anos a pretexto de Maria Luís Albuquerque. Ora, Passos Coelho e o PSD não vão querer ir ao fundo sozinhos e farão tudo para lembrar os eleitores da jigajoga de hoje. E muito bem, porque o que importa é que se afundem os dois.
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segunda-feira, julho 01, 2013
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